Origem da série “Ruas do Brasil” resumida por George Gomes Coutinho

 

Entre os dias 9 e 10 de outubro, em comentários (aqui) de uma postagem no Facebook, desenvolvi um debate com o historiador Aristides Soffiati e o sociólogo José Luis Vianna da Cruz — ambos amigos de longa data e entre os intelectuais que mais admiro em Campos. Terminei minha participação naquela discussão afirmando, como Zé Luis, não ter resposta às questões nacionais após a pesquisa Datafolha, feita em 27 e 28 de setembro, que revelou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PSC, de saída ao PEN, que mudará o nome para Patriota) liderando a corrida presidencial de 2018.

Como, por princípio pessoal, tendo a não aceitar ausência de resposta antes de esgotar suas possibilidades de busca, passei a estudar a pesquisa e suas condicionantes para produzir uma tentativa de análise. Intitulado “Brasil entre Lula e Bolsonaro?”, a matéria foi publicada em 22 de outubro, neste blog e na Folha da Manhã.

Por entender o crescimento de Bolsonaro também pela eficiente ação da chamada “nova direita” nas redes sociais, diante do silêncio das ruas brasileiras que definiram o impeachment de Dilma Rousseff (PT), fiz destas mesmas ruas o objeto dentro de um período mais longo. Se o que vivemos no país é unanimemente encarado como a mais grave crise da chamada “Nova República”, de 1985 até o hoje, qual foi dentro dela o papel exercido por essas ruas estranhamente ausentes desde que Michel Temer (PMDB) assumiu a presidência?

Primeiro, estabeleci uma estrutura de análise que tivesse como referências: 1) as “Diretas Já”, de 1984, ainda na Ditadura Militar (1964/85); 2) os “caras pintadas” que definiram o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje, PTB), em 1992; 3) os protestos isolados capitaneados pelo PT durante os dois governos Fernando Henrique Cardoso (PSDB), de 1995 a 2002; 4) a “Primavera Árabe”, entre 2010 e 2012, influenciando diretamente o novo modus operandi que ditou, no Brasil, as “Jornadas de Junho” de 2013; e 5) os protestos de rua de 2015 e 2016 que definiram a deposição de Dilma.

Estabelecida a linha de tempo, seus pontos de referência e o objetivo, os externei ao sociólogo e cientista político Gerorge Gomes Coutinho, ao antropólogo José Colaço, à historiadora Guiomar Valdez, ao cientista político Hamilton Garcia de Lima, além de Soffiati e Zé Luis, que comungavam das mesmas inquietações iniciais. Como tencionava tratar do assunto em uma única matéria especial de domingo, pedi que cada um me enviasse sua análise sobre o complexo assunto, dando como referência algo entre oito a 10 linhas de word.

Se nenhum deles se conteve ao tamanho passado, o texto do George foi o que mais excedeu. E, curiosamente, sem saber da gênese daquele trabalho em um despretencioso debate virtual com Zé Luis, ele usou questionamentos do seu colega sociólogo como início, meio e fim de uma interpretação profunda, polvilhada de referências teóricas, adensando sua interpretação.

Todas as análises dos seis acadêmicos foram brilhantes. Mas, confesso, foi a do George que me fez ir mais fundo no trabalho. Já que não dominava todas as referências teóricas utilizadas por ele em seu texto, tentei compensar o meu com pesquisa. Naquilo que Cazuza (1958/90) chamava de “inveja criativa” em relação a Renato Russo (1960/96), foi uma tentativa talvez vã de estar à altura, sem padecer de vertigem.

Debruçado sobre o trabalho de pesquisa, a pretensão inicial de uma matéria especial sobre as manifestações de rua brasileiras, entre 1984 e 2016, acabou se transformando numa série sobre o tema. Ela foi publicada na sequência domical: “Ruas pela democracia do Brasil desde a Ditadura” (29/10), “Cabruncos nas ruas do Brasil de Itamar às Jornadas de Junho” (05/11), “Entre futebol, política e economia, ruas definem o impeachment de Dilma” (12/11) e “As ruas do Brasil no impeachment de Dilma Rousseff” (19/11).

Coincidentemente, um outro amigo, por quem tenho respeito intelectual, me parabenizou generosamente após concluir só hoje a leitura da série. Respondi que, guardadas as proporções mais que devidas, parafraseava Isaac Newton (1643/1727): “Apoie-me nos ombros de gigantes”. Não por outro motivo, agradeço pelo incentivo e sustentação generosamente ofertadas por Soffiati, Zé Luis, George, Guiomar, Zé Colaço e Hamilton. Afinal, jornalismo, como ensinava outro mestre: “é trabalho coletivo, ou nada”.

Abaixo, sem mais delongas, a íntegra da análise do George que sintetiza as demais na gênese da série:

 

Páginas de 29/10, 05/11, 12/11 e 19/11, ns quais foram publicadas a série “Ruas do Brasil” (Montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Tudo novo de novo? — Breves reflexões sobre a ação coletiva

Por George Gomes Coutinho (*)

 

Quando eu elaborava meu primeiro trabalho acadêmico dotado de algum fôlego, no caso minha primeira monografia na UFF/Campos no início deste século, tive a afortunada experiência de ser orientado pelo professor José Luis Vianna da Cruz, uma das rochas fundamentais da sociologia e dos estudos sobre desenvolvimento regional entre nós. Muita água correu no Paraíba do Sul desde então. O professor José Luis, daquela relação formal entre orientador e orientando de graduação, se tornou posteriormente meu amigo, colega de Departamento de Ciências Sociais e prossegue sendo um interlocutor/conselheiro. Tanto é que hoje em dia ouso chamá-lo simplesmente de “Zé” em uma demonstração singular de respeito e carinho que tenho por ele.

Voltando ao início deste século, minha monografia tinha por tema os movimentos sociais na universidade pública. O Zé, do alto de sua experiência, me apresentou uma questão logo no início de nossos trabalhos formulada de maneira simples e objetiva. Afinal, se estávamos falando de movimentos sociais, o que os move? Se a pergunta era sintética e elegante, a resposta (ou as respostas) me levou a trafegar pelas águas turvas das noites em claro. A pergunta do Zé tocava realmente no que era fundamental. Quais seriam os “móveis” da ação coletiva? Arrisco dizer que de lá pra cá parte de meus trabalhos foram tentativas de responder a essa pergunta de forma direta ou indireta e certamente parcela do conhecimento sistemático sobre a política enquanto fenômeno se estrutura nos arredores dos dilemas da ação coletiva.

Na conjuntura atabalhoada em que vivemos Aluysio Abreu Barbosa em uma conversa telefônica amistosa decidiu reencarnar a pergunta do Zé trazendo para o nosso contexto. Senti na pele que de fato as grandes questões não desaparecem. Elas se atualizam de acordo com as especificidades de cada momento histórico. Aluysio inclusive não me colocou “pouca coisa”. Ele nota, de forma correta, que os grandes movimentos coletivos brasileiros ocorridos desde o arrefecimento da ditadura civil-militar até 2015, perpassando o Fora Collor de 1992 e o junho de 2013 nas regiões metropolitanas do país, não são tudo farinha do mesmo saco. De fato não são. Todavia, vamos tentar ver o mínimo estrutural que os aproxima e o muito que diferencia estes grandes movimentos que tem a rua por cenário. Causando estranheza ao leitor, justamente o que os assemelha e os distancia envolve responder a pergunta do Zé: quais os móveis?

Teoricamente, de Karl Marx (1818-1883) a Mancur Olson (1932-1988), o que move grupos e classes que engendram ação coletiva, o “grande móvel”, é o interesse. É justamente o que aglutina e torna possível a ação coletiva e associativa dos sindicatos, movimentos sociais tradicionais, grupos de pressão, movimentos de massa, etc.. Seja a Associação Nacional de Rifles da América, o Greenpeace, O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo ou o pessoal da Tradição, Família e Propriedade. Coloquei exemplos tão discrepantes não tanto para causar desconforto ao leitor. Apenas quis demonstrar que estes grupos, a despeito do seu posicionamento no espectro político, se são de esquerda ou direita, progressistas ou conservadores, todos se agrupam em prol de algum interesse comum e compartilhado. A associação “reduz custos” que seriam simplesmente impossíveis para um indivíduo isolado e a ação coletiva visa permitir que se alcance um objetivo ou um conjunto de objetivos.

Antes de prosseguir, venho declarar minha discordância sobre a morte da política ou o que seria um processo de despolitização no Brasil contemporâneo. Eu concordo que exista um arrefecimento da política tradicional sem dúvida, algo que está na raiz da crise da democracia representativa no mundo. Não por acaso partidos, seja aqui ou na Europa, apresentam um déficit de legitimidade considerável entre seus eleitores. Porém, a política envolve tomar decisões dotadas de caráter vinculante como diria o alemão Niklas Luhmann (1927-1998). Portanto, se a morte é inevitável para tudo o que é vivo, a política é inescapável para todos(as) que vivem em sociedade. Decisões que tem impacto coletivo, seja sobre os parâmetros curriculares do Ensino Médio ou regras de tributação, são da natureza da política. Porém, há a mudança de agendas, novos temas emergentes e das formas de se fazer política, algo que retomarei adiante.

Prosseguindo, se os interesses demarcam a ação coletiva para gregos, troianos e baianos, não podemos ignorar a modulação fornecida pelos valores, visões-de-mundo, ideologias, elementos simbólicos, etc.. Neste ponto TFP e MST tem obviamente posicionamentos inconciliáveis sobre a questão agrária por exemplo. As agendas dos movimentos, a maneira pela qual os interesses se particularizam e dão robustez para a operacionalização da ação, são obviamente distintos. Contudo, temos momentos em que estes movimentos, de natureza mais particularizada, transcendem seu público de adeptos e simpatizantes atingindo a sociedade como um todo. A pauta originária de um grupo torna-se uma pauta consensual entre diversos grupos e classes. Olhemos para o movimento “Diretas Já” na longínqua década de 1980.

 

Com 1,5 milhão de pessoas, passeata e comício das “Diretas Já”, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril de 1984, foi a maior manifestação de rua do Brasil nos 31 anos seguintes, até 2015

 

Nas “Diretas” o contexto explica. Se a ditadura civil-militar jamais foi um consenso total na sociedade brasileira, o que redundou nos movimentos de resistência insurrecionais (luta armada) e civilistas (atuação nas instituições), é impossível não reconhecer que um regime que durou 21 anos não tenha gozado de legitimidade entre amplos setores da população. Todavia a ressaca produzida pelo “Milagre”, o cenário de hiperinflação galopante e pauperização, tornou o descontentamento incontrolável. Inclusive a atuação da grande mídia oligopolista, até então entusiasta de primeira hora ao golpe de 1964, deu sua contribuição e reverberou o processo de perda de legitimidade dos militares no poder.  Neste ponto da história o que era um movimento perene em prol do retorno dos ritos democráticos de uma contra-elite minoritária (partidos de esquerda, intelectuais e artistas), se tornou um movimento de massa que transcendeu classes e grupos. Só o amplo consenso formado explica em um mesmo palanque gente como Ulisses Guimarães, Fernando Henrique Cardoso e Luis Inácio Lula da Silva.

O movimento da “Diretas” foi um movimento de massa cujo interesse era o de reinstituir a normalidade democrática. Considero equivocado considerar a “Diretas” um movimento de esquerda, embora que atores tradicionais deste espectro político, o que inclui sindicatos, partidos e movimentos sociais, tenham dado suporte inegável ao que vimos no Brasil na década de 1980. Os atores tradicionais auxiliaram na fisionomia do movimento de massas inclusive pelo acúmulo de expertise em se manterem organizados, a despeito de terem atuado durante boa parte do século XX na ilegalidade ou semi-legalidade. Igualmente forneceram um discurso, muitas vezes contundente, expresso em palavras de ordem onde a crítica da situação econômica era absolutamente oportuna para o momento.

Também o “Fora Collor” na década de 1990 mantém alguns dos aspectos que citei acima:1) transcende a crítica de uma contra-elite minoritária; 2) encontra apoio e reverberação da mídia oligopolista; 3) é dotado de uma fisionomia de esquerda pelo protagonismo de certos atores tradicionais, embora que o consenso naquele momento quanto ao impeachment tenha abarcado diversos grupos sociais para além do espectro político mencionado.

 

Cerca de 750 mil jovens “cars pintadas” saem às ruas de São Paulo pelo impeachment de Collor, em 18 de setembro de 1992

 

A questão é que o mundo mudou muitíssimo de lá para cá. A chamada “revolução informacional”, que se potencializa a partir do final da década de 1990, já inclui novas formas de comunicação e interação na sociedade. Ao mesmo tempo tivemos os anos do lulismo neste século XXI, onde os atores tradicionais da esquerda ingressaram nas instituições e tanto passaram a ser “vidraça” quanto tiveram sua atuação contestatória consideravelmente diminuída. Afinal, movimentos e partidos tornaram-se governo. Nesse ínterim novas pautas ganharam ainda mais corpo e possibilitaram o protagonismo de atores que não se sentiam plenamente contemplados pelos movimentos tradicionais de esquerda. Esse diagnóstico não é meu, boa parte da literatura sobre movimentos sociais aponta para esta questão. Aqui, dentre as novidades, falo do movimento ambiental, feminista, movimento negro, grupos LGBTT, etc.. A natureza, este agente difuso, ganha porta-vozes humanos. Jessé Souza (1960), sociólogo brasileiro, ironicamente chama este grupo de “classe média de Oslo”, brasileiros que adotam uma agenda ambiental e de sustentabilidade digna dos nórdicos.  E os afetos e a expressividade adquirem uma enorme relevância onde o clássico problema das diferenças materiais entre as classes sociais passa a ser secundário. Não por acaso o filósofo francês Luc Ferry (1951) aposta que a intimidade, as relações afetivas, é um tema amplamente mobilizador neste século XXI.

Um outro ponto, ao qual não canso de lembrar, é o da fadiga das democracias representativas liberais no mundo todo na nossa conjuntura. Devo este diagnóstico ao sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017). A alta financeirização das economias nacionais, processo que se inicia na década de 1970, torna os governos reféns diretos da pauta fornecida pelas grandes instituições financeiras. Em suma: o que prometem nas campanhas eleitorais não é efetivamente realizado inclusive por constrangimentos e acordos que moldam os orçamentos governamentais. Parte da crise de legitimidade da social democracia européia é explicada por este fator. Na esteira da fragilização dos partidos social democratas, os partidos tradicionais moderados sofrem por inércia. Portanto, a crise da democracia representativa liberal é seguramente também uma crise dos partidos e lideranças tradicionais, um problema que não é só brasileiro.

O junho de 2013 no Brasil se insere neste macro contexto absolutamente complexo. Não foram os atores tradicionais de esquerda que organizaram os movimentos. Pelo contrário. Em várias cidades brasileiras estes atores foram até mesmo hostilizados. Naquele momento muitos analistas ficaram atônitos. O que houve?

 

Em 20 de junho de 2013, integrada às “Jornadas de Junho”, a passeata dos “Cabruncos Livres” levou mais de 4 mil pessoas às ruas de Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

Junho de 2013 foi um dos maiores testes da capacidade de aglutinação coletiva das novas formas de comunicação e interação. Como vimos, é inegável o barulho causado. Naquele momento o slogan “Vem Pra Rua” ou o Movimento Passe Livre sintetizam uma pauta reivindicatória que envolveu desde o seu estopim, no caso a revogação do aumento do preço das passagens urbanas, até a crítica ao uso de dinheiro público para as grandes obras que seriam necessárias para a realização dos mega-eventos vindouros. Tanto a Copa do Mundo quanto as Olimpíadas do Rio estavam na lista de prioridades do Estado brasileiro.

Notem que por mais que tenham se apresentado como “movimentos pulverizados”, haviam pautas reivindicatórias que apontavam tanto para o direito de mobilidade urbana quanto implicavam, mesmo que de forma um tanto inábil, na tentativa de influir no processo de tomada de decisão sobre os orçamentos governamentais. Em contraposição ao investimento nos mega-eventos os manifestantes clamavam, mesmo que sem muita precisão, por mais investimentos em saúde e educação. Neste ínterim, até pelo caráter inovador, os grupos políticos tradicionais não conseguiram interlocução ou mesmo captar as demandas apresentadas, dotá-las de objetividade política.

Ali abriu-se uma caixa de Pandora. Os métodos de mobilização, até então jamais vistos no cenário tupiniquim, foram depois largamente utilizados. Inclusive há semelhanças de métodos com o que ocorreu aqui e na Primavera Árabe: redes sociais, novas formas dinâmicas de interação, etc..

Cabe notar que os movimentos da chamada “nova direita” no Brasil se utilizaram depois fartamente tanto da estética de mobilização dos grupos de junho de 2013 quanto até mesmo de nomenclaturas e slogans. Afinal, o “Movimento Passe Livre”, o MPL, de alguma inspirou o “Movimento Brasil Livre”, não por acaso MBL. O slogan “Vem Pra Rua” tornou-se um movimento homônimo.

Nesse ínterim uma pletora de questões aflorou. Trata-se de uma constelação de fatores. Aqui a frustração econômica causada pelo término da era das commodities implicou uma enorme dificuldade de manutenção das políticas econômicas e sociais do lulismo continuadas por Dilma Rousseff. Este é um ponto crucial para entendermos a insatisfação que gerou os movimentos de massa pós-2013. Para além disso os movimentos da “nova direita” passam a vocalizar demandas e perspectivas de grupos da sociedade que até então não encontravam representantes dotados da capacidade de síntese necessária e com enorme habilidade em utilizar as redes sociais. Não quer dizer que não existissem as visões-de-mundo mais conservadoras. Apenas não haviam encontrado grupos que vocalizassem esses sentimentos difusos.

Nesse ínterim, já desde ação penal 470, o “mensalão”, a grande mídia monopolista engrossou de forma sistemática a narrativa que associou o Partido dos Trabalhadores de forma inequívoca, por vezes quase exclusiva, ao fenômeno da corrupção. Por outro lado, no âmbito da política tradicional, Dilma lidou diretamente com um governo dotado de capacidade decisória limitada e um Congresso Nacional rebelde liderado por Eduardo Cunha.

O que tornou os movimentos de massa diferenciados não foi tanto o uso das táticas de comunicação novas já experimentadas em 2013. O que há de novo é o conteúdo apresentado e pela primeira vez desde a redemocratização a ausência de atores ou pautas usualmente apresentadas pela esquerda tradicional. Até 2013 encontrávamos pautas de reivindicação inclusivas, de ampliação direitos. De 2013 em diante não houve sequer a fisionomia de esquerda. Neste ponto do diagnóstico concordo plenamente com Aluysio que me chamou a atenção para este fato.

Contudo é difícil dizer, conforme afirmei anteriormente, que a “política morreu”. Outros grupos, dotados de alta capacidade de negociação jamais arrefeceram. As mudanças que vivenciamos de 2016 para cá na legislação social são obra de grupos que se não redundam em grandes movimentos de massa, até pela natureza silenciosa com que atuam, são tão ou mais eficientes no diálogo com o sistema político tradicional. São grupos de pressão dotados de alto poder de fogo oriundos das 6 mil famílias que concentram boa parte da riqueza nacional. Promovem uma ação coletiva menos visível dado o convencimento promovido pelo dinheiro. Neste sentido na atual conjuntura é desnecessário inflar grandes movimentos da nova direita nas ruas e lidamos com uma contra-elite, pelo flanco esquerdo, profundamente fragilizada e carente de legitimidade.

O que ficará disso tudo? Como já disse Wanderley Guilherme dos Santos (1935), um dos decanos da ciência política brasileira, “o futuro não é materialmente verificável”. O que temos certeza é que a revolução informacional das últimas décadas, se modificou o cotidiano das nossas sociedades, não poderia ter efeito muito diferente nas mobilizações coletivas. Estas, tal como outrora, permanecem guiadas por interesses sendo este o móvel aglutinador. Todo o restante sobre o amanhã ainda “não decantou”. Aguardemos.  Porém, os “móveis” da questão do Zé prosseguem.

 

(*)Professor de Ciência Política no Departamento de Ciências Sociais da UFF/Campos dos Goytacazes

 

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PT de Campos recebe Lula dia 5 na Praça do Liceu

 

 

 

Se Luiz Inácio Lula da Silva (PT) será ou não candidato à presidência em 2018, a palavra final caberá ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), que deu previsão de julgar até agosto a condenação do juiz federal Sérgio Moro, na Lava Jato, contra o ex-presidente.

Se puder concorrer, há pouco mais de 10 meses das urnas, Lula hoje lidera com folgas as últimas pesquisas Datafolha (aqui) e Ibope (aqui) pela corrida ao Palácio do Planalto. Mas caso seja barrado pela Lei da Ficha Limpa, não será por falta de empenho da sua militância.

Dentro das caravanas que tem feito pelo país, o ex-presidente estará também em Campos. O encontro está marcado para a praça do Liceu, no próximo dia 5. Organizada pelo PT campista, a programação vai das 19h às 22h.  Será o primeiro presidenciável de 2018 a visitar a planície goitacá.

Quem quiser acompanhar os preparativos do evento na democracia irrefreável das redes sociais, pode fazê-lo aqui.

 

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Donos do poder que a política separou, a Lava Jato uniu na cadeia

 

Tenho sido cobrado e sei que muita gente espera alguma análise minha sobre a prisão, ontem, de Anthony e Rosinha Garotinho, ambos do PR, ex-prefeitos de Campos e ex-governadores do Rio.

Na mídia goitacá, quem acompanhou desde o início o caso que levou o casal à prisão foram os blogueiros Ricardo André Vasconcelos e Christiano Abreu Barbosa, depois seguidos pela Suzy Monteiro.

Além de estar há algumas semanas envolvido na produção de matérias de fundo sobre o preocupante quadro nacional, tenho por princípio pessoal evitar bater em quem se está caído. Sobretudo quando percebo, pelos frutos dos próprio erros, a imensa dificuldade para se reerguer.

Além do que Ricardo, Christiano e Suzy escreveram, e do que pode ser lido (aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui) na edição de hoje da Folha da Manhã, para quem quiser compreender o caso de desde a sua gênese, antes de se alastrar como metástase sobre todo o Estado do Rio de Janerio, recomendaria o que escreveu hoje, na edição de O Globo, a jornalista Maiá Menezes, a quem conheci pessoalmente na conturbada campanha eleitoral de Campos em 2004.

Quem ainda não leu, pode fazê-lo aqui ou na reprodução abaixo:

 

Picciani, Garotinho, Cabral e Paulo Melo unidos na candidatura vitoriosa do político da Lapa a governador do Rio, em 10 de outubro de 1998 (Foto: Cezar Loureiro – Agência O Globo)

 

O que a política separou, a Lava Jato uniu

Por Maiá Menezes

 

Sérgio Cabral foi presidente da Assembleia Legislativa do Rio no governo Anthony Garotinho, que indicou ao Tribunal de Contas do Estado o ex-presidente do órgão Jonas Lopes de Carvalho. Foi no esteio de Cabral que ascendeu o atual presidente afastado do tribunal, Aloysio Neves, seu chefe de gabinete.

Jorge Picciani já era, na época, homem forte, articulador do grupo político que floresceu e dominou o estado por mais de vinte anos. Paulo Melo, também deputado, foi líder do governo e se revezou com Picciani na presidência da Alerj.

Foi com entusiasmado apoio de Cabral que Garotinho se elegeu governador pela primeira vez em 1998. Em 2002, com sonhos mais altos, concorreu à Presidência. Perdeu, mas elegeu sua mulher, Rosinha Garotinho, e manteve aliança com Cabral, que se tornou senador.

Não havia fissuras. Era um grupo político sólido, que só passou a dar sinais de desgaste anos depois. Em 2006, após ser eleito governador, Cabral rompeu com Garotinho, atingido por denúncias muitas, entre elas de uso de recursos do estado, pilotado por sua mulher, para financiar uma pré-campanha fracassada à presidência pelo PMDB.

Os interesses políticos se desencontraram. Seis anos depois, foi do ex-governador campista a iniciativa de divulgar fotos da já icônica “farra dos guardanapos” em Paris. Símbolo das relações nada republicanas entre estado e empreiteiras, já comprovadas na Operação Calicute, onde há também citações de repasse para campanha do atual governador Luiz Fernando Pezão.

O que a política separou, a Lava-Jato voltou a unir. Com a prisão do casal Garotinho hoje, não restou um. Do Guanabara ao Tiradentes, passando pelo TCE, o poder político do Rio nos últimos vinte anos está atrás das grades. Às vésperas de 2018.

 

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Guilerme Carvalhal — A instalação

 

 

 

Após o anúncio da instalação artística “O estupro coletivo”, uma multidão cercou a praça empunhando cartazes de protesto contra a baixaria em local público. A polícia militar formou um cordão de isolamento e apenas assim a artista Liza Mainhoff conseguiu dar continuidade à sua obra, recebendo hostilizações verbais da turba em fúria que acampou nos arredores.

O curador tentou explicar a intenção da obra, alegando que buscava retratar em tons bem vivos o caos formado pela violência urbana, em uma proposta de conduzir os visitantes à reflexão sobre o mundo contemporâneo. Ele deu uma entrevista na TV falando sobre isso e foi xingado virtualmente e posto como o mais novo defensor da degeneração dos valores morais da sociedade.

Os repórteres de TV perguntaram o que na exposição os incomodava. Muitos destilaram ódio, mas ninguém sabia dizer nada sobre o que seria apresentado tamanho o sigilo imposto. O próprio transitar de Liza ocorria sob forte segredo e um dia, ao perceberem sua saída disfarçada, acertaram um ovo em seu peito e ela se limitou a rir, sem sequer limpar a sujeira do casaco.

No dia da inauguração, o grosso do público era composto pelas figuras contrárias. O medo da violência afastou a maioria dos interessados, restando uma restrita aglomeração de fãs da artista dispostos a até mesmo apanhar, contanto que comparecessem e endossassem a obra.

Quando abriram os portões, o grupo invadiu levantando seus gritos de guerra, mais assemelhado a uma horda rumo à batalha. Devido à extensão do parque, espalharam as obras por várias partes, todas cobertas em lençóis laranjas. À medida em que a multidão entrava, os auxiliares descobriam e revelavam o conteúdo tão aguardado.

Sobre os cavaletes, destacavam-se impressas em grandes lonas as frases de ira proferidas pela turba ao longo dos dias. Telões exibiam gravações da fala dos integrantes da multidão expressando seu desejo de que Liza fosse presa, banida do país , preferencialmente morta. E no ponto central, à vista de todos, uma imensa foto dela logo em seguida ao momento em que recebeu a ovada e sua expressão de quem não importava soou à maneira de um imenso deboche para cada um dos presentes.

Todos atingirem o ápice de seu frontispício iracundo e essa explosão atingiu as obras em si. Começaram a arrastá-las e a empilharem sem nenhum tipo de reação dos seguranças, como se esse fosse um gesto esperada e calculado depois de muitas provocações. Incendiaram-nas em uma grande pira, que teve como principal combustível o retrato de Liza suja.

A turba observava o arder das chamas com uma certa mudança ocorrendo por dentro. Enquanto suas próprias palavras definhavam em cinzas, internamente algo se consumia junto, esvaziada toda a fúria nutrida nesse ínterim.

Foi quando, em um onisciente coletivo, todos se deram conta de seu papel dentro do espetáculo e, envergonhados, redirecionaram contra si mesmos a ira propalada, feito palhaços incapazes de levar o público ao riso. Aos poucos foram formando filas e se lançaram nas chamas, dessa vez chamando a atenção dos policiais que tentavam salvá-los.

Nas proximidades, Liza gargalhava ao comemorar os efeitos de seu plano. Feito a bruxa que lançava os fiéis à punição da inquisição, ela ria com a soberba de quem enxergava um plano se concretizar, sem nem imaginar que, nas ranhuras distantes das vielas da cidade, sempre renascia o germe de uma mão disposta a assassiná-la.

 

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Ricardo André Vasconcelos — Existe divórcio entre o Brasil e Brasília?

 

Protestar nas redes sociais pode ser mais confortável, mas 2018 parece que vai provar que só barulho nas ruas provoca a verdadeira mudança

 

 

O descompasso entre a impopularidade das instituições, medida nas pesquisas de opinião e nas redes sociais, e a desenvoltura com que governo e Congresso impõem mudanças significativas para o dia-a-dia dos cidadãos, são a prova mais evidente da crise de representatividade pela qual passa o país. Eleitores não se sentem representados pelos governantes, que por sua vez prescindem de aprovação popular para as medidas que favorecem minorias dominantes em franco desfavor da maioria que paga a conta. É isso mesmo ou a crise de representatividade é um falso dilema e tacitamente, o governo e o Congresso mais corruptos da história recente são o fiel espelho do país?

Talvez seja por isso que os brasileiros já não reagem mais — ou reagem insuficientemente — diante das mais variadas formas de rapinagens descobertas todos os dias e seletivamente punidas. Ou nos satisfazemos com meras manifestações nas redes sociais? O ponto alto da revolta recente parece ter sido os protestos de junho de 2013, abortados não pelas conquistas ocasionais, mas pelo horror generalizado causado pela ação dos Black blocs, com suas bombas incendiárias depredando bancos, lojas e não poupando o patrimônio público. Sessenta anos atrás, um líder dos marinheiros chamado José Anselmo dos Santos era um dos mais exaltados defensores das greves que paravam o país (inclusive militares) e ajudou a precipitar o golpe civil-militar que mergulhou o país em 21 anos de ditadura. No alvorecer na redemocratização descobriu-se que o lendário Cabo Anselmo, era agente infiltrado a soldo dos militares para radicalizar e dar argumentos aos golpistas.

Inocentes úteis? O que se viu depois que as ruas se calaram foi uma crescente onda desmoralizante das instituições na cauda de descobertas de “nebulosas transações” envolvendo  políticos e autoridades de todos os poderes e quase todos os partidos: centenas de bilhões roubados no petrolão do PT-PP-PMDB; outros bilhões de negociatas dos tucanos que comandam o mais rico estado da federação há duas décadas e, mais recentemente, a confirmação das suspeitas gerais da máfia dos transportes públicos no Rio, que teria surrupiando (só em evasão de tributos) R$ 200 bilhões de reais sob o comando de Sérgio Cabral (o filho), Jorge Picciani e meia dúzia de empresários do setor.

Da mesma forma deve estar plasmada na memória nacional a imagem dos R$ 51 milhões, em espécie, encontrados no bunker do ex-ministro Geddel Vieira Lima e seu irmão, deputado federal Lúcio Vieira Lima em Salvador (BA). A Polícia Federal não só tem elementos para ligar o dinheiro aos irmãos, como encontrou as digitais de ambos no material apreendido. Geddel era um dos mais íntimos da turma do Jaburu, como se chamam os amigos do presidente Michel Temer que, como vice-presidente da República na chapa do PT, o indicara para ministro de Lula e vice-presidente da Caixa no Governo Dilma.

Com tantos motivos para ir às ruas bater panelas, o brasileiro tem se contentado em protestar nas pesquisas de opinião: nas últimas sondagens, espinafram o governo Temer com 97% de reprovação. A aprovação está dentro da margem de erro. Paradoxalmente aproveitando-se do anestesiamento da população, o governo vem extinguindo direitos e favorecendo uma agenda conservadora que leva o país de volta ao século XX ou até mesmo XIX. Ao fazer concessões à base conservadora-fisiológica de mais de duas centenas de deputados para conseguir arquivar as denúncias da Procuradoria-Geral da República de que seria chefe de uma quadrilha, Michel Temer, prepara um legado diametralmente oposto ao que se espera de um professor constitucionalista que já foi. Vai passar para a história como o presidente que relativizou o conceito de trabalho escravo para agradar a banda ruralista; impôs significativas perdas de direitos com a lei que “modernizou” a CLT e assanhou os arautos do atraso que agora se acham suficientemente fortes para impor ao país sua pauta oportunista, mas travestida de cristã, evangélica e de defesa da família. Um exemplo é a emenda constitucional 181/2015, estuprada em sua intenção inicial para criminalizar as três possibilidades legais de aborto: o decorrente de estupro, de risco para a mãe e de feto anencéfalo. Aliás, é uma heresia atribuir denominação de “evangélico” para grande parte dessa banda retrógrada do Congresso porque ignoram a lição básica dos evangelhos: “amar ao próximo”.

E mais: não nos surpreendamos se aproveitarem da onda ultraconservadora — na qual surfam alguns sinceros, mas a maioria é oportunista — para reduzirem a maioridade penal para 16 anos, como se o problema da violência estivesse apenas nas pessoas e não também nas causas. Esse populismo legislativo leva os deputados e senadores a resumirem todos os problemas à edição de leis e endurecimento das que já existem. Acreditam que manter a política de encarceramento agrada aos eleitores e reforçam a sensação de segurança que confunde justiça com vingança. Não passam de oportunistas porque sabem que enfrentar os problemas a médio e longo prazos, com políticas de inclusão através da educação, cultura e esportes é muito mais demorado e trabalhoso. E mais: cidadão emancipado não vota em deputado/senador que viceja na ignorância alheia. Mais fácil é defender prisão para criança, usuário de droga, ladrão de galinha; para que a mulher não tenha direito sobre o seu corpo.

Surpresa também não será se até o final de 2018, Temer e Congresso, depois de estancada a “sangria da Lava Jato”, ampliar o foro privilegiado para os ex-presidentes da República e, de uma cajadada só, proteger sob a sombra benfazeja do STF, José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer. Seria a retumbante vitória da impunidade.

 

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Hoje, no Cineclube Goitacá, filme que dividiu cinema em antes e depois

 

 

 

Assisti a “Cães de Aluguel” logo após seu lançamento em VHS no Brasil, em 1993. Era o primeiro filme escrito e dirigido por um jovem desconhecido com nome esquisito, ex-atendente de locadora de vídeo. Profundamente impactado pelo que vira, lembro da convicção com que afirmei ao meu pai, também cinéfilo, assim que ele chegou do trabalho aquele dia: “O cinema vai se dividir em antes e depois desse filme. No diálogo franco com tudo que veio antes, esse tal de Tarantino inventou uma nova maneira de se fazer cinema”.

Até pelo fato do filme nunca ter deixado de ser atual, como o impacto que me causou, confesso ter tomado um “susto” quando constatei, numa postagem de Facebook do sempre atento Gustavo Alejandro Oviedo, que “Cães de Aluguel” estava completando 25 anos. E pela certeza que teve aquele jovem que fui, após assistir ao filme pela primeira vez, o escolhi para a exibição hoje, às 19h, no Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio. Como sempre, a entrada e a participação no debate são livres.

 

 

Ainda um ilustre desconhecido, Tarantino tinha escrito três roteiros. E vendeu os de “Amor à Queima-Roupa” (1993) e “Assassinos por Natureza” (94). O primeiro seria dirigido por Tony Scott, irmão de Ridley Scott, que se suicidou em 2012. O outro seria levado às telas pelo cineasta Oliver Stone. Com o dinheiro, Quentin pode financiar e dirigir “Cães de Aluguel”, filme que custou apenas US$ 1,5 milhão. Com soluções eficientes, sua maior parte se passa dentro de um galpão, além de outras poucas locações e externas, antes e depois de um assalto mal sucedido a uma joalheria.

Mesmo que não tenha sido o primeiro no cinema a apostar na narrativa não linear, ninguém até Tarantino o tinha feito com tantas referências da cultura pop nos diálogos e músicas. A cena de abertura do filme, com a câmera girando sobre a mesa de restaurante onde os bandidos se reúnem, é cartão de visita e resumo das inovações que o diretor e roteirista traria à sétima arte. No papel de ator coadjuvante a que se destina em vários de seus filmes, é ele mesmo quem explana sua visão “freudiana” da música “Like a Virgin”, de Madonna.

Bem verdade que Tarantino também chocou os padrões morais daquele início de anos 1990, pelo emprego desavexado de palavrões e violência. Mesmo que esta tenha sido sempre motivo de crítica, nunca foi elemento gratuito, mas de reforço à narrativa. Na sequência mais violenta de “Cães de Aluguel”, onde um policial é torturado pelo gângster Vic Vega, ao som contagiante de “Stuck In The Middle With You”, o espectador que se deixa impressionar pelas imagens fortes e urros de dor, talvez não atente que o desfecho da cena revela, enfim, quem é o “rato” (delator) culpado pelo fracasso do assalto.

O Vic Vega vivido por Michael Madsen, na talvez melhor interpretação de sua carreira, é irmão do Vincent Vega depois encarnado por John Travolta em “Pulp Fiction: Tempo de Violência” (95), que rendeu o Oscar de melhor ator em outro filme revolucionário escrito e dirigido por Quentin. Em “Cães de Aluguel”, além de Madsen, também brilham os atores Tim Roth, Steve Buscemi e Chris Penn (irmão de Sean Penn, morto precocemente em 2006), além de Harvey Keitel. Ator assinatura dos primeiros filmes de Martin Scorsese, uma das muitas influências de Tarantino, Keitel abraçou o roteiro do diretor estreante e foi um dos seus produtores.

Talvez não haja exagero em afirmar que, desde “Cidadão Kane” (1941), de Orson Welles, “Cães de Aluguel” foi o grande primeiro filme de um diretor na história do cinema. Na dúvida, é considerado pela conceituada revista Empire “o maior filme independente de todos os tempos”.

Ao final, quem já leu ou assistiu as peças “Hamlet” e “Macbeth”, pode encontrar boas pistas. Na tragédia dos antigos gregos que Shakespeare revisitou como ninguém e na mesma complexidade dada aos dilemas morais do homem por Tarantino.

 

Confira abaixo o traleir do filme e o clipe de “Stuck In The Middle With You”, da banda Stealers Wheel:

 

 

 

 

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Orávio de Campos — As Redes Sociais

 

 

 

As redes sociais — um conjunto expressivo de ferramentas multimidiáticas — modificaram, nas últimas duas décadas, o comportamento da sociedade consumista no que se refere aos seus costumes (moral e ética) e indeterminaram os seus limites em razão da apropriação por parte, principalmente, das “novas” gerações, sempre ávidas de novidades para que possam inserir-se no hodierno discurso vanguardista.

O artista Luiz Carlos França, por exemplo, de uma geração, como a nossa, nascida no contexto da II Guerra Mundial, num tempo em que se usava, ainda, o gasogênio como combustível e que a grande revolução era a mensagem produzida pelo rádio, acaba de ceder à imposição do tempo e, feliz, já se encontra, embora tardiamente, nas redes intermediando informações, é claro, perplexo diante das múltiplas possibilidades.

Assim como ele, outros intelectuais de remotas gerações estão checando a novidade (aquela de que nos fala o professor André Parente, “O Virtual e o Hipertextual”) para conceituar os estranhamentos produzidos por um sistema que, entre outros efeitos híbridos, praticamente, acaba com a solidão voluntária, aquela definida como transtorno da personalidade descrita por Freud uma vez que contraria o princípio de que os seres humanos nasceram para viverem no cerne de grupos associativos.

Por ser um lugar (espaço das pessoas, como nos ensina Muniz Sodré) de neutralidade e por isso democrático, porquanto se pode falar (comentar) sobre tudo e sobre todos, sem que necessariamente tenhamos condições para fazê-lo, nasceu para ficar. Neste ciberespaço — núcleo para onde convergem todas as tendências da pós-modernidade — encontram-se elementos de parcas luzes dialogando com poetas, cientistas, escritores, médicos, artistas, loucos, prostitutas, proxenetas, fofoqueiros, desvairados…

Interessante é que até “doutores” em cultura se arvoram em dar opiniões, pela via do comedimento crítico, sobre fatos que, pela sua complexidade, só poderiam ser definidos no campo das discussões epistemológicas.  Uma nítida confusão, naturalmente, composta por quem não consegue examinar os liames entre a arte, a técnica e os poderes, uma vez que através de seu discurso “hegemônico” se considera, erroneamente, capaz de diluir as discrepâncias técnicas com a lente da ineficácia.

Portanto, precisamos ter cuidados especiais no manuseio desses equipamentos tão interessantes. Todos aprendem, rapidamente, a fazê-lo, mas a maioria desconhece, cientificamente, quais as suas fórmulas de funcionalidade, como uma prova mais que insofismável de que “as coisas velhas já se dissiparam, mas as novas não aconteceram, ainda”, no dizer da professora Ana Maria Fadul, uma das fundadoras da Intercom.

Bom. E o depois? O mercado cibernético disporá nos próximos meses, além da ampliação da velocidade e melhores formas de armazenamento de informações, outros aparelhos (e plataformas) muito mais modernos (?), fortalecendo a memória artificial em detrimento da memória natural, esta cada vez mais fragilizada e dependente das novas tecnologias. No seu “otimismo crítico” Foucault não via deformações (i) naturais no avir das tecnologias, as quais Deleuze e Guattari denominam de uma “era pós-mídia”. Meros discursos dos meios acadêmicos…

Existe, todavia, a percepção, embora tênue, de que a sociedade, se não mudar, agora, sua visão sobre as práticas sociais, estéticas, politicas, pedagógicas e, principalmente, analíticas, dificilmente se livrará dos grilhões das falas vazias, das opiniões desusadas sobre artes, dos erros gramaticais, da arrogância própria do poder, da pornô-estética e dessa tendência minúscula, ainda, do avanço de ideologias totalitárias (…). Essas reflexões são da cientista Janice Caiafa, ao falar sobre o assunto em artigo publicado no livro “Nas Fronteiras do Contemporâneo” Ed. Mauad, 2001). E ela tem razão.

Enquanto essas previsões não se consumam, as redes sociais como a midiatização contemporânea, será de suma importância para as eleições de 2018, superando as perspectivas até mesmo dos produtores de televisão que, pelas estatísticas, vêm perdendo mercado publicitário para a novidade das redes, porquanto estão (as redes) na vantagem por estabelecerem a informação em tempo verdadeiramente real.

Podemos, também, correr o risco, no caso de uma possível falha do sistema, de construirmos o futuro com as perspectivas sombrias de um apagão virtual. E aí teremos, por força das circunstâncias, de reconstruir as memórias apagadas pelo artificialismo. Se é que haverá, por parte da geração que está por vir, interesse na preservação da história da humanidade, contrariando o pensamento de Hegel e Francis Fukuyama.

 

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Morre Alenilton Rosa, o Seu Lê, aos 79 anos

 

Seu Lê entre os filhos Flávia e Rodrigo Rosa, na celebração do seu aniversário, em 2016

 

Soube no início desta madrugada que morreu na noite de ontem (20), aos 79 anos, o representante comercial aposentado Alenilton Rosa. Internado no Hospital Álvaro Alvim, ele não resistiu a um câncer intestinal. Seu corpo está sendo velado na capela A do Campo da Paz, onde ele será sepultado no início da tarde de hoje (21).

Seu Lê era pai de Rodrigo, Leonardo e Flávia Carvalho Rosa, irmãos e meus amigos desde a adolescência comum nos anos 1980. Perdi meu pai há cinco anos e sei que nada, nesta hora, é capaz de prencher o vazio. Mas ficam as lembranças de um sujeito bonachão e boa praça, que guardarei com carinho. Ele deixa viúva dona Aída de Campos Carvalho Rosa.

 

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Igor Franco — Inocentes e Ordinários

 

Na semana passada, o Ministério Público da Bahia recomendou à banda de axé “É o Tchan!” que parasse de usar os termos “Inocentes” e “Ordinárias” para indicar os banheiros masculinos e femininos em seus shows. Atuando num estado em que nada mais resta a fazer pela educação, saúde e contra a violência, finalmente os outrora ociosos senhores doutores promotores parecem ter encontrado uma ocupação útil para seus contracheques de milhares e milhares de reais. Após questionamentos nas redes sociais, o MP-BA divulgou nota reafirmando sua convicção no enfrentamento de “grupos sociais oprimidos”.

Obviamente, essa ação partiu de pessoas que jamais foram a uma micareta ou saberiam que, na verdade, apenas uma minoria privilegiada consegue acesso aos banheiros. Dada a escassez de latrinas nesses eventos, a maioria dos necessitados acaba usando muros, árvores e o que mais oferecer abrigo aos caprichos fisiológicos potencializados pelo álcool, um fenômeno socio-biológico que cria uma legião de “mijões”, uma alcunha muito mais depreciativa. Desta forma, podemos concluir que o MP-BA prestaria um serviço muito maior aos oprimidos se militasse por mais inocentes e ordinárias.

A agenda dos tolerantes, a cada avanço, trata de estabelecer novos paradigmas que devem ser aceitos por todos. O que outrora seria celebrado como uma onda de liberação e quebra de padrões comportamentais, hoje recebe o veredicto de objetificação da mulher no tribunal progressista. Se os militantes decidiram que o É o Tchan! hoje equivale a um veículo de “microagressões” e opressão, assim o é a partir de agora.

É inescapável a comparação com as disputas fratricidas que sempre ocorreram no núcleo de poder de países totalitários. A cada etapa superada na revolução, antigos aliados tornavam-se descartáveis e, caso não louvassem recorrentemente a supremacia do líder e de suas de suas decisões, com muita sorte poderiam desejar uma vaga num campo de trabalhos forçados

Fato comum a diversas outras revoluções, também a revolução cultural que persegue o politicamente correto já apresenta como frutos o aprofundamento das contradições que buscava combater. Textos que visam estipular o “lugar do branco”, “o lugar do macho”, “o lugar do heteroessexual” na sociedade, numa segregação ao inverso, aparecem em profusão no debate. O combate à antiga moralidade dá origem a uma nova conduta padrão, em que a intolerância, em muitos casos, apenas muda de mão[1], num giro 180°.

Enquanto inocentes confiam na capacidade da política e do discurso de transformar a sociedade num paraíso na terra em que qualquer forma de miséria moral ou material seja abolida, os ordinários em busca de poder e prestígio exibem suas garras e se valem de papéis institucionais para colocar em prática a agenda comum entre eles.

O que emerge no lugar do antigo paradigma alegadamente opressor é um novo moralismo, voraz por classificar e rotular todas as coisas sem que haja uma análise do que se trata cada coisa. Pouco importa que naquele show de axé estejam somente pessoas que lá foram por livre e espontânea vontade ou que as expressões gravadas numa propriedade privada sejam apenas uma brincadeira já tradicional por parte dos membros de um grupo – uma associação privada e livre entre indivíduos. Se o figurino da objetificação coube ao modelo, que sejam aplicadas as sanções cabíveis.

Na atual era Inquisição Politicamente Correta, ‘Cumpadi’ Washington confiou demais no pioneirismo do seu grupo. Não importa mais que descer na boquinha da garrafa e os shorts Sexy Machine tenham feito muito mais pela liberdade sexual que centenas de trabalhos acadêmicos de humanas. Misturar Brasil com Egito, e diversas outras tentativas de apropriação cultural jamais passariam ao largo dos censores modernos. Sabe de nada, inocente!

 

[1] Como exemplos:

“Meu filho deve ser amigo de pessoas brancas?” (aqui).

“Quanto de liberdade de expressão é demais?” (aqui).

“O que é ‘lugar de fala’ e como ele é aplicado no debate público” (aqui).

“Como foi criada a heterossexualidade como a conhecemos hoje”. (aqui).

“Raça, hierarquia e poder na construção da branquitude paulistana” (aqui).

 

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As ruas do Brasil no impeachment de Dilma Rousseff

 

Segundo cálculos da PM, 1,5 mil campistas saíram da praça São Salvador em passeata pela av. Alberto Torres, em 13 de março de 2016, para pedir o impeachment de Dilma, nas maiores manifestações de rua da história do Brasil (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Antropólogo José Colaço

“A ocupação de praças, ruas ou dos, assim chamados, espaços públicos, tem sido historicamente uma forma de dar visibilidade — e por que não dizer, legitimidade — às demandas políticas, sejam de qualquer natureza, capazes de mobilizar coletividades. O que tem nos intrigado nos últimos tempos são os novos contornos que as mobilizações coletivas estão adquirindo. Dito de outro modo, ainda estamos tentando compreender, em minha opinião, sem muito sucesso, as novas dimensões performáticas e organizativas destas mobilizações. O caso brasileiro, embora não seja único, é paradigmático neste sentido” — resume o antropólogo José Colaço, professor da Universidade Federal Fluminense (UFF) de Campos, o objeto sobre o qual esta série de matérias se debruçou nos quatro últimos domingos.

Na tentativa de entender o papel das manifestações de rua no período da redemocratização brasileira, na chamada “Nova República”, a série começou ainda na Ditadura Militar (1964/85). Mais precisamente no movimento das “Diretas Já”, de 1984, iniciadas ainda no ano anterior. Publicada (aqui) em 29 de outubro deste ano, na Folha da Manhã e no blog “Opiniões”, a primeira matéria avançou até os protestos dos “caras pintadas” que definiram o impeachment do presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.

 

Com 1,5 milhão de pessoas, passeata e comício das “Diretas Já”, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril de 1984, foi a maior manifestação de rua do Brasil nos 31 anos seguintes, até 2015

 

A segunda matéria, publicada (aqui) em 5 de novembro, se estendeu da posse de Itamar Franco (1930/2011), em 92, até as “Jornadas de Junho” de 2013. Neste recorte de 21 anos da história do Brasil, só em 1994 se daria o controle da hiperinflação legada pelos militares aos civis. Foi a partir do Plano Real, que elegeu e reelegeu Fernando Henrique Cardoso (PSDB) presidente, sucedido pelos dois governos de Luiz Inácio Lula da Sila (PT), fenômenos de popularidade, e do primeiro de Dilma Rousseff (PT).

 

Em 20 de junho de 2013, passeata dos “Cabruncos Livres” saiu da Praça São Salvador à Prefeitura, levando mais de 4 mil pessoas às ruas de Campos (Foto: Folha da Manhã)

 

Publicada (aqui) em 12 de novembro, a terceira matéria da série começou nos primeiros protestos contra Dilma, nas arquibancadas da Copa do Mundo de 2014, passando por decisões econômicas equivocadas e sua reeleição numa disputa figadal, que dividiu o país marcado pelas revelações da corrupção sistêmica feitas pela Lava Jato. Estas condicionantes, mais a tentativa de Dilma de dar uma guinada de 180º na sua política econômica, que não impediu o país de mergulhar na recessão, se refletiram nas manifestações de rua de 2015. Tanto em defesa do governo, quanto, mais numerosas, pelo impeachment da presidente, cujo pedido foi aceito pelo então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB/RJ), em 2 de dezembro daquele ano.

 

Em 15 de março de 2015, na av. Paulista, o protesto pelo impeachment de Dilma produziu a maior manifestação de rua no Brasil desde as “Diretas Já”, em 1984

 

Sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho

— Os grandes movimentos coletivos brasileiros ocorridos desde o arrefecimento da ditadura civil-militar até 2015, perpassando o Fora Collor de 1992 e o junho de 2013 nas regiões metropolitanas do país, não são tudo farinha do mesmo saco. É preciso tentar ver o mínimo estrutural que os aproxima e o muito que diferencia estes grandes movimentos que têm a rua por cenário. Teoricamente, de Karl Marx (1818-1883) a Mancur Olson (1932-1988), o que move grupos e classes que engendram ação coletiva, o “grande móvel”, é o interesse. É justamente o que aglutina e torna possível a ação coletiva e associativa dos sindicatos, movimentos sociais tradicionais, grupos de pressão, movimentos de massa, etc. A despeito do seu posicionamento no espectro político, se são de esquerda ou direita, progressistas ou conservadores, todos se agrupam em prol de algum interesse comum e compartilhado. A associação “reduz custos” que seriam simplesmente impossíveis para um indivíduo isolado e a ação coletiva visa permitir que se alcance um objetivo ou um conjunto de objetivos — explica o sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho, também professor da UFF-Campos.

A manifestação desse “interesse comum e compartilhado” continuaria a escrever a história do Brasil nas ruas de 2016. Se as últimas manifestações de 2015, que levaram 90 mil pessoas às ruas em 16 de dezembro, foram as maiores daquele ano em apoio ao governo federal, a resposta do ano seguinte seria contundente.

 

Passeata de 16 de dezembro de 2015 não superou os atos pelo impeachment, mas foi a maior manifestação em defesa do governo naquele ano

 

Em 13 de março de 2016, pelo impeachment da presidente e em apoio à Lava Jato, se deram os maiores protestos de rua na história do Brasil. O ato superou as “Diretas Já”, em 1984, e as manifestações de 15 de março de 2015, primeiro grande protesto popular contra Dilma. Menos de um ano depois, mais de 3,3 milhões de pessoas saíram às ruas de pelo menos 256 cidades de todos os Estados brasileiros, segundo os cálculos da Polícias Militares. Como em 2015, eram mobilizadas através das redes sociais por grupos como Movimento Brasil Livre (MBL), Vem Pra Rua e Revoltados Online, que se diziam “apartidários”.

 

Movimentação na av. paulista das 9h às 19h de 13 de março de 2016

 

Ainda assim, os partidos de oposição, como PSDB, DEM, PPS e SD voltaram a convocar seus filiados ao ato, como fizeram em 2015. No entanto, ao tentarem participar pessoalmente do protesto da av. Paulista, o senador mineiro Aécio Neves e o governador paulista Geraldo Alckmin, ambos tucanos e ex-candidatos a presidente, foram hostilizados. Ambos foram chamados de “oportunistas” pelos populares. Já citado na Lava Jato, o mineiro teve que ouvir os gritos de uma manifestante: “Fora Aécio! Fora vagabundo! Você é lixo também!”.

 

Aécio, visivelmente amedrontado, e Alckmin foram hostilizados pelos manifestantes da av. Paulista em 13 de março de 2016

 

Visivelmente intimidados pela reação popular, os líderes do PSDB declinaram ao convite do MBL para discursarem no carro de som. Epicentro do movimento pelo impeachment de Dilma, a av. Paulista recebeu naquele 13 de março cerca de 500 mil manifestantes, segundo o instituto Datafolha, presença elevada a 1,4 milhão na contabilidade da PM de São Paulo, subordinada ao governo Alckmin.

Como nas “Jornadas de Junho”, quando os “Cabruncos Livres” colocaram cerca de 4 mil pessoas nas ruas de Campos, em 20 de junho de 2013, o município também participou, dois anos depois, do movimento pelo impeachment de Dilma. Em 13 de junho de 2015, cerca de 1,5 mil campistas, segundo cálculos da PM, se concentraram na praça São Salvador, de onde saíram em passeata pela av. Alberto Torres à Câmara Municipal. Na região, também foram registradas manifestações, contabilizadas às centenas, em Macaé, Cabo Frio e Itaperuna.

 

Concentração da maninestação pelo impeachment de Dilma, em 13 de março de 2016, na praça São Salvador (Foto: Folha da Manhã)

 

Sociólogo José Luis Vianna da Cruz

— As ruas foram retomadas pelos conservadores e, embora novos movimentos progressistas e democráticos tenham surgido ou se reorganizado e estejam também nas ruas, essas estão esvaziadas de representação das esquerdas e dos mais progressistas, já que o desmonte dos sindicatos, organizações e movimentos populares não passou pela reconstrução, atualização e reunificação necessárias para confrontar as tendências conservadoras que sempre existiram, mas que não encontravam espaços e ecos nas instituições da República para suas reivindicações — analisa o sociólogo José Luis Vianna da Cruz, professor da UFF-Campos e da Cândido Mendes.

Dilma passou aquele 13 de junho no Palácio Alvorada. Não apareceu em público, nem fez pronunciamento, se limitando a emitir uma nota “A liberdade de manifestação é própria das democracias e por todos deve ser respeitada”. No final do dia, uma reunião de cúpula do PMDB passou a tratar a queda da presidente como “inevitável”. A decisão foi trabalhar nos bastidores, a partir dali, para acelerar o processo de impeachment na Câmara.

O impacto das manifestações levou o PT, como os ex-aliados de chapa, a também tentar agir nos bastidores. Na noite do dia 15 de março e manhã do 16, Dilma e Lula se reuniram pessoalmente para acertar a nomeação do segundo a ministro da Casa Civil. Na tarde daquele dia foi feito o anúncio oficial. O objetivo era que o ex-presidente ganhasse foro privilegiado para fugir do julgamento do juiz federal Sérgio Moro, na Lava Jato, passando a ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Moro respondeu liberando o sigilo de várias gravações de Lula autorizadas pela Justiça, inclusive a feita por volta das 13h30 daquele mesmo dia 16, na qual Dilma ligou ao celular de um segurança do ex-presidente, para dizer a este, em aparente obstrução de justiça: “Seguinte, eu tô mandando o ‘Bessias’ junto com o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade que é o termo de posse, tá?”.

Embora Moro tenha sido criticado por não ter autoridade, enquanto juiz de primeira instância, para liberar a gravação de uma presidente em exercício, a viralização rápida do áudio pelas redes sociais incendiou o país. Contra Dilma e a nomeação de Lula, os protestos se espalharam pelas ruas brasileiras, diariamente, entre 16 e 21 de março. Entre eles, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) conseguiu organizar no dia 18 a maior manifestação em apoio ao governo, desde que os movimentos de rua eclodiram em 2015.

 

Em 18 de março de 2016, na av. Paulista, foi a primeira vez que Lula participou e discursou de um ato em defesa de Dilma

 

Nos cálculos das PMs, 275 mil pessoas saíram às ruas em 55 cidades de todos os Estados brasileiros para defender a manutenção do governo. Foi a primeira vez que Lula participou, chegando a discursar na av. Paulista: “Eu entrei pra ajudar a presidenta Dilma, porque precisamos restabelecer a paz e a esperança e provar que esse país é maior que qualquer coisa no planeta Terra”. Mas no mesmo 18 de março, o ministro do STF Gilmar Mendes suspendeu a nomeação de Lula como ministro, cargo que havia tomado posse no dia anterior.

 

A alegria de Lula e Dilma, na posse dele como ministro da Casa Civil dela, só durou um dia, antes do STF suspender a nomeação

 

Das ruas ao jogo jogado na Câmara Federal, foi também no mesmo 17 de março no qual Lula assumiu por um dia a Casa Civil, que Eduardo Cunha emplacou dois aliados na presidência e na relatoria da comissão que analisaria o pedido impeachment de Dilma: respectivamente, os deputados Rogério Rosso (PSD/DF) e Jovair Arantes (PTB/GO). Entre 17 e 20 de março, uma pesquisa Ibope, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), registrou que apenas 10% da população aprovavam o governo federal.

Na Câmara, após defesa e acusação da presidente apresentarem seus argumentos, Jovair apresentou um relatório recomendando a abertura do processo de impeachment em 6 de abril. Cinco dias depois, o relatório foi aprovado na comissão, por 38 votos a 27. No dia 16, protestos de rua contra e a favor de Dilma foram registrados em pelo menos oito Estados. Na votação de 17 de março, numa sessão que durou 9h47 foi aprovado o envio do processo de impeachment ao Senado.

O placar foi de 367 deputados favoráveis (era necessário o mínimo de 342), contra 137 contrários, com sete abstenções e dois ausentes. Entre estes, a deputada federal Clarissa Garotinho (então no PR), cuja ausência na votação foi negociada com o PT federal por seu pai, o ex-governador Anthony Garotinho (PR), em troca da “venda do futuro” de Campos com a Caixa Econômica Federal (CEF), assinada em 12 de maio de 2016, no apagar das luzes do governo Dilma.

 

Mídia nacional denunciou as negociações do PT federal com Garotinho, pela ausência da sua filha, a deputada Clarissa, então grávida, na votação do impeachment de Dilma na Câmara

 

Mas a aprovação do impeachment na Câmara teve momentos pitorescos. Em meio a todo tipo de endossos pessoais aos votos anunciados ao microfone pelos deputados, Jair Bolsonaro (PSC/RJ) foi mais longe. Primeiro saudou o responsável pelo dia: “Tem um nome que entrará para a história nesta data, pela forma como conduziu os trabalhos nesta Casa. Parabéns, presidente Eduardo Cunha!”. Após ser vaiado, respondeu: “Perderam em 64. Perderam agora em 2016”. E continuou suas homenagens: “Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (1932/2015), o pavor de Dilma Rousseff (…) o meu voto é sim”.

 

 

O coronel em questão foi chefe do aparelho repressivo do DOI-Codi do II Exército, de São Paulo, entre 1970 e 74, quando foram registrados, de acordo com a Comissão Nacional da Verdade, pelo menos 45 mortes e desaparecimentos forçados de presos políticos. Entre eles, Dilma não chegou a desaparecer, mas foi torturada. Ustra era acusado diretamente por 502 casos de tortura. E foi o primeiro militar brasileiro a ser condenado pelo crime de tortura, em 2008, pelo juízo da 23ª Vara Cível de São Paulo.

 

Carlos Alberto Brilhante Ustra, quando ainda era capitão, nos anos 1970, e comandava a tortura no DOI-Codi de São Paulo

 

Em 1º de maio de 2016, dia do Trabalhador, houve manifestações sindicais pelo país, contra e a favor do governo federal. No Centro de São Paulo, num evento da CUT, Dilma fez promessas: “Nós estamos autorizando um reajuste no Bolsa Família que resultará em um aumento médio de 9%”. Sobre o processo de impeachment, ela advertiu: “Se praticam esses absurdos contra mim, o que vão praticar contra o povo trabalhador, contra as pessoas mais anônimas desse país?”. No mesmo dia, na praça Campo de Bagatelle, na zona norte de São Paulo, a Força Sindical usou seu tradicional evento para mostrar apoio ao impeachment.

 

Dilma discursa no 1º de maio de 2016

 

Em 9 de maio de 2016, houve uma tentativa de reviravolta no processo da Câmara. Depois de Cunha ter sido afastado do seu mandato, em decisão de 5 de maio, do ministro do STF Teori Zavascki (1948/2017), o presidente interino da Casa, Waldir Maranhão (PP/MA), acolheu um pedido do advogado geral da União José Eduardo Cardozo e quis anular o encaminhamento do impeachment ao Senado. Presidente deste, Renan Calheiros (PMDB/AL) deu seguimento ao processo e ignorou Maranhão, que revogou sua decisão na noite do mesmo dia.

Em 10 de maio, dia nacional de paralisação a favor de Dilma, novos protestos atingiram rodovias, avenidas e o sistema de transporte público em 21 Estados e no Distrito Federal. Dois dias depois, no mesmo 12 de maio em que a “venda do futuro” de Campos foi assinada pelos Garotinho com a Caixa, o parecer do relator, senador Antonio Anastasia (PSDB/MG), parceiro de Aécio, foi aprovado por 55 votos e 22, abrindo formalmente o processo de impeachment da presidente. Dilma foi afastada pelo prazo de 180 dias e seu vice, Michel Temer (PMDB/SP), assumiu o poder. O legado, registrado em abril, eram 11,4 milhões de desempregados.

 

Manifestantes da CUT fecham estrada na Bahia em 10 de maio de 2016

 

Em 10 de junho, Temer enfrentou seu primeiro protesto nacional em 24 Estados e em Brasília. Na av. Paulista, Lula discursou: “Temer, você é um constitucionalista, sabe que não agiu correto assumindo a presidência interinamente. Permita que o povo retome o poder e participe das eleições em 2018”. Em 31 de julho, com as manifestações de rua perdendo força, foram registrados atos contra a presidente afastada em 20 Estados e no Distrito Federal, assim como contra o presidente interino, em 15 Estados e em Brasília.

 

Lula apela a Temer em discurso na av. Paulista de 10 de junho de 2016

 

Em 29 de agosto, Dilma foi ao Senado se defender pessoalmente. Ela negou ter cometido crimes de responsabilidade e se disse vítima de um “golpe de Estado”, cuja autoria atribuiu a Cunha. Falou também que só o povo pode afastar um presidente pelo que chamou de “conjunto da obra”, já que o presidencialismo não prevê a destituição do presidente quando este perde a maioria no Congresso. Ela asseverou que não estava em jogo o seu mandato, mas sim as conquistas sociais dos últimos 13 anos de governo PT.

 

Flagrante descontraído dos bastidores da defesa de Dilma no Senado, em 29 de agoto de 2016, com o então presidente do STF, Ricardo Lewandowski, José Eduardo Cardozo e Aécio Neves

 

Em 31 de agosto, o plenário do Senado condenou Dilma à perda definitiva do cargo por 61 votos a 20, sob a acusação de crime de responsabilidade fiscal. Uma segunda votação foi feita para decidir se ela perderia seus direitos políticos, com placar de 42 votos favoráveis e 36 contra. Como houve três abstenções e seriam necessários 54 votos a favor, ela ainda poderia se candidatar a cargos públicos. Hoje, ela é pré-candidata ao Senado pelo PT de Minas Gerais.

Historiador Arthur Soffiati

— As grandes manifestações pelo impeachment de Dilma combatiam também a corrupção. Dilma caiu, a corrupção continuou com Temer, até mostrando aspectos mais agudos. No entanto, o movimento de rua, o maior do Brasil, se calou. Creio que o cansaço venceu — analisa o professor Arthur Soffiati, professor da UFF-Campos.

Cientista político Hamilton Garcia de Lima

— As ruas costumam se adequar aos pleitos eleitorais, seguindo o leito das candidaturas. Em 2018, duas novidades produzirão efeitos sobre as ruas e os resultados eleitorais. A primeira deles é a polarização entre dois extremos ideológicos, sem a mediação eficiente dos partidos. No campo neopopulista-nacionalista, a crise do PT vai dar proeminência às ruas, assim como, na extrema direita, com índices ainda menores de mediação partidária. A segunda é a fragmentação do centro e sua perda de credibilidade em função do apoio emprestado a Temer. No Rio de Janeiro, onde essa polarização se deu no pleito de 2016, a vitória foi dos conservadores, com decisiva rejeição ideológica aos postulados da esquerda na esteira da deposição de Dilma. Não está certo que isso vá se repetir, no caso de Lula, em relação às condenações por corrupção na Lava Jato, haja visto o naufrágio ético da coalizão pós-impeachment — projeta o cientista político Hamilton Garcia de Lima, professor da Uenf.

 

Confira as três primeiras partes da série:

Ruas pela democracia do Brasil desde a Ditadura

Cabruncos nas ruas do Brasil de Itamar às Jornadas de Junho

Entre futebol, economia e política, ruas definem impeachment de Dilma

 

Página 2 da edição de hoje (19) da Folha

 

Publicado hoje (19) na Folha da Manhã

 

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Alexandre Bastos — Desesperar, jamais

 

Alemanha após a II Guerra (1939/45)

 

 

Após serem derrotados na Segunda Guerra Mundial, a situação na Alemanha e no Japão era de completa destruição. Na Alemanha, milhões de metros cúbicos de entulho eram o cenário em diversas cidades. Havia fome, epidemias e a sensação de que era preciso deixar de lado o modelo político adotado por um líder megalomaníaco. Os bombardeios haviam deixado 20 milhões de desabrigados no país. Em Colônia, por exemplo, dos 750 mil habitantes antes da guerra, apenas 40 mil sobreviveram. Em um primeiro momento, como muitos homens estavam no campo de batalha, a reconstrução foi iniciada pelas mãos de mulheres e crianças. Posteriormente, após auxílio de potências capitalistas que desejavam evitar o avanço do socialismo, houve investimento estratégico nas principais vocações e, sobretudo, em Educação. A economia alemã cresceu 85% entre 1946 e 1950. Já o Japão contou com um crescimento de 45%.

Os exemplos da Alemanha e do Japão demonstram que é possível se reinventar após graves crises. Trazendo a discussão para a nossa cidade, um líder megalomaníaco conseguiu o que parecia impossível. Após anos de fartura, com orçamentos bilionários, os gestores não conseguiram preparar a cidade para a era pós-royalties. A última gestão terminou de forma melancólica, pendurada em empréstimos e empurrando para o atual governo uma dívida de R$ 2,4 bilhões. Basta uma rápida análise sobre receitas e despesas para notar que estamos diante de uma “terra arrasada”.

E quais seriam os caminhos para reerguer o município? Assim como ocorreu na Alemanha e no Japão, medidas duras são necessárias, além de investimento em nossas vocações histórias, como a Agricultura. Neste primeiro ano já foi possível notar que muitos segmentos entenderam o momento e começaram a se reinventar. Nas Educação, o desperdício deu lugar ao investimento eficiente. O material didático que na gestão passada era fornecido por uma empresa de Curitiba e gerou gastos na ordem de R$ 40 milhões, hoje é gratuito, enviado pelo Ministério da Educação. No Esporte, nossos clubes de futebol deixaram de lado a dependência do poder público. Se antes a política ditava o ritmo do jogo, agora os clubes conseguem captar recursos. E o resultado desta nova filosofia foi visto em campo. Após mais de duas décadas o Goytacaz está de volta a primeira divisão do campeonato estadual. Além disso, o Americano fez uma grande campanha na série B e o Campos Atlético, nosso Roxinho, subiu para a série C. Nas quadras, o Automóvel Clube Fluminense conquistou o título do Cariocão masculino de Basquete após ficar quatro anos fora da competição. Na parte Cultural, nossas escolas de samba, blocos e bois pintadinhos, que dependiam do poder público, entenderam o momento e também se reinventaram. Unidos, eles buscam parcerias para realizar o Carnaval sem um centavo do poder público. Em várias partes da cidade, a população se uniu ao poder público e ajudou a reformar unidades de Saúde, praças e quadras esportivas.

O primeiro passo para a reconstrução da cidade é exatamente esse. Retirar escombros, tomar medidas duras e se reinventar, com parcerias, criatividade, diálogo e otimismo. Como canta Ivan Lins: “Desesperar, jamais! Aprendemos muito nesses anos. Não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo”.

 

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