Certa vez, ouvi do maestro Tom Jobim em um programa de televisão a seguinte opinião: “brasileiro perdoa tudo, menos a felicidade do outro”. Sentir inveja, obviamente, não é privilégio de quem, feliz ou infelizmente, nasceu no Brasil. A literatura universal registra diversas narrativas acerca do ciúme e da inveja, além dos danos e tragédias causados por esse tipo de sentimento que parece se destacar entre os seres humanos. E quando a inveja leva alguém a matar? Trata-se de algo desumano?
Alguns consideram a realidade infinitamente superior e mais chocante do que qualquer ficção. A vida, com todos os seus dramas e violências, não cabe completamente em livros, filmes ou telenovelas, mas a gente tenta reproduzir nesses veículos um pouco do que acontece na “vida real”. Na última semana, na cidade de Campos, repercutiu a morte da jovem Ana Paula, em consequência de um crime encomendado pela cunhada Luana, acusada de contratar pistoleiros para acabar com a vida da jovem, segundo investigações da polícia civil. E conseguiram. No mínimo, pessoas doentes emocionalmente, psicopatas sem diagnóstico. Chamou-me a atenção o suposto motivo do crime, que vai além da traição ou do adultério: a inveja.
Alguns diferem o ciúme da inveja. O ciúme se sente daquilo que alguém “possui”; a inveja, daquilo que não se “possui”, mas cobiça-se. A “posse” de alguma coisa ou de alguém, mesmo que seja para descartá-los depois, é palavra de ordem neste material world. Ter é poder (?). E para exercer poder, é preciso ter. Em uma sociedade que consome cada vez mais (e é preciso estar bem nas fotos para postar nas redes sociais), com ou sem crise econômica, o supérfluo ocupa bastante espaço, embora o vazio, para boa parte das pessoas, esteja muito longe de ser preenchido. A insatisfação patológica nos tem afetado como se fosse uma epidemia, um vírus sem controle. Algo tão nocivo que faz matar de modo mais banal ou mais cruel, dependendo do gosto do freguês capaz de pagar por algum crime, ou ainda, cometê-lo.
O Código Penal Brasileiro pode não ser o mais justo e o mais moderno do mundo, mas punições não faltam para todos aqueles que cometem qualquer tipo de delito, infração ou crime. Todavia, muitos legalistas, moralistas e puritanos, ao exigirem justiça, podem não conseguir disfarçar a hipocrisia e as “falsas verdades” não convincentes. Sentir ciúme ou inveja até pode ser considerado um “pecado”, uma falha moral ou de caráter, mas não seria exatamente um crime. Entretanto, quando se adoece por ciúme ou por inveja, por incrível que pareça, há alguém disposto a matar um adversário, oponente, concorrente, e, até mesmo, a amiga de infância ou a cunhada invejável, invejada ou invejosa. Simples assim. Se incomoda, mata.
Incomodar-se com a beleza ou a felicidade de alguém não é só coisa de brasileiro, mas pessoas medíocres, imbecis, adoecidas e perigosas nunca faltaram no convívio social. Tem sido comum, há tempos, alimentar a indústria da fofoca (é jornalismo isso?) que se ocupa da vida de artistas e celebridades. Nestes dias, alguém postou fotos do ator Reynaldo Gianecchini em que ele estaria beijando um outro homem, evidenciando assim, um relacionamento homossexual. E daí? A notícia repercutiu na imprensa e os tribunais das mídias sociais entraram em ação novamente para condenar gays, ou desmerecer o ator por não se assumir gay publicamente. E daí se ele se assume ou não se assume gay? Alguns ativistas e os maledicentes de plantão não colaboram muito para a evolução humana. Ao contrário. Ao consumirmos notícias desse tipo, ao fim do dia, o que ganhamos com isso? Ser Gianecchini impunemente não deve ser fácil.
Não entendo o que faz alguém se preocupar com a orientação sexual de uma pessoa, se ela é virgem, se pratica sexo desse ou daquele jeito, ou se não pratica sexo. A inveja também passa e passeia pelo corpo alheio. Reivindicamos liberdade, mas o corpo e a vida dos outros nos ofendem quando outras pessoas são mais livres, mais libertárias ou mais felizes que nós. Morrer de inveja pode ser muito perigoso. E se somos oprimidos por dogmas, normas, falsos moralismos ou convenções, a inveja pode aflorar de modo ainda mais incontrolável, me arrisco dizer. Se o homicídio torpe arquitetado por uma jovem bonita, ou se o beijo na boca entre pessoas do mesmo sexo chocam mais do que 100 policiais mortos no Rio de Janeiro em menos de um ano? Talvez, sim. Cada um de nós tem a capacidade (ou não) de escalonar o que é escândalo e o que é irrelevante. É a tal inversão de valores. E olha que nem falei da extinção de uma reserva amazônica feita pelo presidente Michel Temer sem nenhum critério ou escrúpulo para favorecer mineradoras estrangeiras.
Fazer a travessia na vida está bem mais arriscado do que atravessar mares e rios por meios de transportes aquáticos na Bahia, Pará ou Roraima. Nos últimos dias, embarcações (ou seus condutores?) apresentaram algum tipo de irregularidade, e provocaram a morte de várias pessoas nessas regiões. Não é só a inveja que é capaz de matar, mas a irresponsabilidade desumana também. Para alguns, a vida de uma pessoa pouco ou nenhum valor possui. É como se todos nós estivéssemos rumo a um naufrágio coletivo, tragados para a mais sombria e perversa escuridão de um oceano de tristeza e desilusão. Se a inveja é capaz de matar, se a cobiça e a ganância podem destruir vidas, o que fazer para que isto não aconteça? Alguns responderiam “amar”. Porém, o que é o amor, afinal, se não houver “posse”?
Estamos todos naufragando sem valores ou respeito humano? Aos invejosos, aos farsantes, aos mentirosos, aos assassinos e aos criminosos em geral, vida longa ou morte lenta? Se a Idade das Trevas está de volta em pleno século XXI, ainda não sei quanto tempo é necessário para um Neo Renascimento. Talvez, estejamos todos necessitando nascer de novo e recomeçar a vida outra vez, pois muita coisa não tem funcionado. O Paraíso terrestre ou celestial deveria ser admirado e compartilhado pura e simplesmente, mas a inveja…
Charge do José Renato publicada hoje (29) na Folha
“Mesmos royalties, menos impostos”
Bancada sem medir despesas, a despeito da crise econômica, a campanha “Menos royalties, mais empregos” da Macaé governada por Dr. Aluizio (PMDB) encontra cada vez mais oposição. No último domingo (27), nesta coluna, contra ela se posicionaram (aqui) com firmeza os prefeitos de Campos, Quissamã e São João da Barra, respectivamente Rafael Diniz (PPS), Fátima Pacheco (PTN) e Carla Machado (PP). Ontem, também falando ao “Ponto Final”, foi a vez de Christino Áureo (PTN). Secretário estadual da Casal Civil e Desenvolvimento Econômico, para ele a proposta a ser abraçada pela região e o Estado do Rio é: “Mesmos royalties, menos impostos”.
RJ entra na briga
Se Aluizio propõe reduzir os royalties, de 10% para 5%, do petróleo extraído dos campos maduros (com jazidas em curva descendente), para otimizar sua produção, Christino acredita que a redução dos impostos poderia cumprir idêntico papel. “Os equipamentos que operam nesses campos o fazem há anos, já estão esgotando sua vida útil. Precisam de peças de reposição, sobretudo se sofrerem incremento na produção. Podemos negociar junto ao Estado e à União a redução de ICMS, para oferecer a mesma vantagem de custo às empresas que assumirem a produção, mas na redução da alíquota de impostos, não dos royalties”.
Suicídio
Ao contrário da campanha de Aluizio, a manutenção dos royalties, compensada pela diminuição da carga tributária, seria uma maneira muito menos arriscada de atrair novas empresas aos campos maduros. “Na última vez em que foram rediscutir royalties, depois das descobertas do Pré-Sal (em profundidade maior), o Congresso quis dividir com todo o Brasil também o Pós-Sal. Reagimos, fomos para a rua e a decisão hoje está suspensa por conta de uma liminar no Supremo Tribunal Federal (STF). Neste cenário, querer rediscutir mais uma vez alíquota de royalties, no lugar de salvação, pode ser suicídio”, advertiu Christino.
Indenização, não!
O secretário estadual de Desenvolvimento Econômico lembrou que as vantagens às empresas que forem atuar nos campos maduros poderia também se dar na forma de ampliação de prazos de incentivos fiscais. “Temos descontos em impostos federais e estaduais concedidos entre 2000 e 2001. Estão válidos, mas a maioria está vencendo, parte em 2018, parte em 2019. Podemos negociar não só sua continuidade, como antecipar essa prorrogação. Negociar tributação, quando se taxa menos para atrair e no final ganhar mais, é uma coisa. O que não se deve negociar é indenização. E é isso que são os royalties”, diferenciou.
Eu sozinho
Deputado estadual três vezes e licenciado do atual mandato para integrar o governo fluminense, Christino tem seu reduto eleitoral original em Macaé. E fez severas críticas ao seu atual prefeito, que investiu maciçamente numa campanha pela diminuição dos royalties, sem discutir a questão com os demais municípios da região, que seriam diretamente prejudicados pela medida. “O conjunto das cidades teria que ser ouvido. Isso teria que contar com uma ampla adesão. Não poderia nunca ser minoritário. É uma questão muito mais ampla que o projeto de um único prefeito”.
Pai da ideia?
A partir de informações obtidas como presidente da Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro), Aluizio soube da intenção de ANP de antecipar uma resolução que, entre outras coisas, trataria da possibilidade da redução de royalties pagos pela exploração em campos maduros. Só que, no lugar de dividir e discutir a informação com os demais integrantes da Ompetro, ele lançou sozinho a campanha, como se fosse o “pai da ideia”, prometendo gerar 20 mil empregos. E há quem diga que a intenção do prefeito de Macaé seria usar a promoção para se lançar ao governo estadual, sonho que nunca segredou.
Aluizio barrado
Não há município produtor contra a otimização da exploração nos campos maduros. O problema é aceitar reduzir esses royalties à metade, sem aumento de empregos ou na arrecadação do ISS, que ficariam restritos a Macaé, onde estão as bases da Petrobras e empresas que atuam na Bacia de Campos, além de Rio das Ostras, cidade-dormitório macaense. Quem não dormiu no ponto foram os demais prefeitos da Ompetro. Eles se reúnem amanhã (30), no Rio, para tratar do tema com Christino e com o superintendente de Participações Governamentais da ANP, Luiz Carlos Sanches. Aluizio não foi convidado.
Publicado na edição de hoje (29) da Folha da Manhã
Cena de 11 de setembro de 2001 marcante para o mundo, à exceção de quem noticiaria do dia seguinte o “Pânico em Carapebus” (Reprodução)
“Pânico em Carapebus”. A manchete de capa do extinto jornal campista A Cidade, acima da foto de uma vaca morta com as quatro patas para cima, é até hoje motivo de chacota no meio jornalístico local. Era a edição de 12 de setembro de 2001, quando todos os demais veículos de imprensa de Campos, do Brasil e do mundo abriram suas capas com o atentado do grupo terrorista islâmico al-Qaeda, que no histórico (e trágico) dia anterior havia derrubado as Torres Gêmeas em Nova York e atingido parte do Pentágono, em Washington, matando quase 3 mil pessoas.
Na gaiatice inevitável que começou a rolar no jornalismo goitacá daquele início de milênio, a capa de A Cidade teria sido motivada porque, além dos quatro jatos de passageiros sequestrados nos EUA, haveria um quinto avião na ousada ação terrorista. O teco-teco teria sido supostamente capturado em Carapebus e usado pelo al-Qaeda num atentado suicida contra… a vaca.
Diante do ridículo de 16 anos atrás, não é de se estranhar que quem participou diretamente da concepção daquela capa “histórica” de A Cidade continue aprontando suas trapalhadas. A mais recente, num site da região mais conhecido pela reputação caça-níqueis do que pela leitura, elegeu hoje (28) como alvos Carla Machado (PP) e Rafael Diniz (PPS), respectivamente prefeitos de São João da Barra e Campos.
O motivo? Carla e Rafael, como a prefeita de Quissamã, Fátima Pacheco (PTN), reagiram (aqui) na coluna “Ponto Final”, na edição da Folha do último domingo (27), contra a campanha “Menos royalties, mais empregos”, bancada sem preocupação com gastos pelo prefeito de Macaé, Dr. Aluizio (PMDB). Nela, o alcaide da “Princesinha do Atlântico” mergulhou de cabeça na arriscada proposta de redução pela metade (de 10% para 5%) dos royalties pagos aos municípios da região pela exploração de petróleo nos campos maduros (em curva descendente de produção) da Bacia de Campos. A contrapartida seria a promessa duvidosa de gerar 20 mil empregos.
O fato é que quaisquer empregos realmente gerados, só o seriam em Macaé, onde mantêm suas bases a Petrobras e todas as demais empresas que operam na Bacia de Campos. No máximo, quem pegaria a rebarba do suposto incremento seria Rio das Ostras, tradicional cidade-dormitório macaense. Assim, os dois municípios seriam os únicos a lucrar com o aumento, por exemplo, na arrecadação de Imposto Sobre Serviço (ISS). Todos os demais municípios produtores perderiam metade dos royalties dos campos maduros, sem ganhar absolutamente nada.
Não por outro motivo, além de Aluizio, só Carlos Augusto Balthazar (PMDB), prefeito de Rio das Ostras, embarcou na arriscada aventura. Todos os demais municípios produtores e limítrofes são contrários não só à campanha de Aluizio, como ao fato dele fazê-la como presidente da Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro). Na última reunião desta, em 17 deste mês, diante da ausência do prefeito de Macaé, começou a se formar uma chapa para assumir no lugar dele a Ompetro. Seria encabeçada por Rafael na presidência, tendo Fátima como vice.
Na dúvida do desfecho da disputa regional, causada pela ambição de dois municípios em prejuízo dos demais, só uma coisa parece certa após a reação de Carla, Rafael e Fátima: o “Pânico em Carapebus” parece ter se transformado, quase 16 anos depois do 11 de setembro de 2001, no “pânico em Macaé”.
Afinal, que outro motivo um prefeito teria agora para usar como “cão de fila” uma pessoa da qual se queixava abertamente por persegui-lo, em seu começo de carreira política, como forma de achaque? Quem mudou? E por quê?
Charlottesville, 12 de Agosto de 2017. Manifestantes neonazistas e outros supremacistas raciais tomam as ruas da cidade americana em defesa de ideais aparentemente enterrados. Um atropelamento em massa vitima uma manifestante “Antifa”, o grupo contrário. Nos dias seguintes, os autoproclamados “antifascistas” espancam supremacistas, destroem monumentos históricos e entram em confronto com a polícia. Começa-se um debate desviado a respeito da liberdade de pensamento e de expressão – marcos históricos no desenvolvimento ocidental.
Barcelona, 17 de Agosto de 2017. Em mais um ataque do terror islâmico, um jihadista atropela mais de uma centena de pessoas durante longos 600 metros. Até hoje, há 16 vítimas fatais. O plano inicial de explodir bombas na cidade falhou e o atentado foi uma solução imediata para causar o máximo de dano possível.
É difícil imaginar como pessoas normais seriam capazes de executar tal atrocidade sem qualquer arrependimento ou remorso. Coisa de psicopata, sociopata ou qualquer denominação clínica para malucos dessa natureza.
Ainda em 2017, somos surpreendidos por fenômenos sociais e políticos que nos fazem questionar se há, de fato, algum tipo de evolução no homem que seja capaz de despertar a esperança em um futuro promissor. A angustiante questão acompanha o desenvolvimento do pensamento político há alguns séculos. Neste campo, dois campos opostos de pensamento disputam uma ferrenha batalha pela definição do caráter do homem de seu destino. Suas expressões estão mais em evidência que nunca.
De um lado, os que se filiam majoritariamente ao que hoje se chama de campo progressista entendem que a natureza do ser humano é naturalmente boa e tendente ao bem comum. Dessa forma, como exemplifica o filósofo Thomas Sowell, tais pessoas buscam explicações para o crime, a violência, a guerra, a pobreza e todos os outros males que afligem o homem e a sociedade. Partem da concepção de que o homem é corrompido por algum mal imposto por outros homens e pelos arranjos sociais existentes. O terrorismo, nesse campo, é comumente identificado como uma reação extrema a agressões cometidas pelas potências ocidentais imperialistas. Expressões de ódio como o nazismo refletiriam uma defesa do status quo erguido através de dominação racial e a sua oposição também seria uma reação dos outrora dominados. Partidários dessa visão confiam num futuro livre de vícios humanos conforme a sociedade promova o expurgo de ideias e instituições nefastas que impeçam a sobreposição do status quo ou que contribuam para a sua manutenção. No extremo desse espectro político encontram-se os revolucionários, aqueles que, acreditando em tudo que os progressistas também acreditam, preferem meios violentos e súbitos para erigir a sociedade livre de males.
Numa clara oposição, há do outro lado do campo indivíduo que discordam da natureza naturalmente boa do homem. Para os conservadores, ainda com Sowell, há a concepção de que os vícios morais são inerentes ao homem e nossa história parte de um mundo em que guerras, fome, pobreza e violência eram comuns para um novo-normal que permite paz, abundância e desenvolvimento para algumas nações através de poucos arranjos sociais oriundos mais de experiências empíricas que da construção de algum tipo de sociedade imaginado por um ou poucos indivíduos. O terrorismo e os movimentos autoritários são expressões dos nossos defeitos, um alerta sobre o que nos precedeu e definiu por tanto tempo. O máximo que podemos fazer é aplicar um corretivo específico, na certeza que ameaças novas surgirão. Através desta visão, não é possível esperar um futuro redentor e livre de tragédias: a qualquer momento, a depender do contexto social, a sociedade poderá degenerar rapidamente e retroceder à barbárie. A melhor ferramenta que dispomos para a continuidade do recente ciclo virtuoso de é a prudência: a preferência por soluções testadas com sucesso em outras épocas. Assim como o progressismo, o conservadorismo possui seu extremo, identificado pelo reacionarismo, que é a fobia a qualquer tipo de transformação e a utilização da violência para garantir a inamovibilidade.
Campos, 19 de Agosto de 2017. Ainda demorará certo tempo para a planície esquecer da tragédia. Confirmando-se a principal linha de investigação da polícia, que afirma não ter dúvidas sobre a autoria, estaremos diante de uma trama digna de um roteiro rodrigueano. A frieza e a crueldade necessárias para pôr em prática um crime dessa natureza parecem negar qualquer traço de humanidade a este indivíduo. Parece não haver dúvida sobre a visão que corretamente define os seres que hoje dominam estas terras.
Capa da Folha de 24/08/17 (Edição de Joseli Matias e Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Personagens de um crime imperfeito
Por Paula Vigneron(*)
Tarde de sábado, 19 de agosto de 2017. Em Campos, veículos de comunicação divulgam a tentativa de homicídio de uma jovem universitária. Durante um assalto, na pracinha do parque Rio Branco, em Guarus, Ana Paula Ramos, de 25 anos, foi baleada. Dois bandidos roubaram celular e dinheiro da vítima, que estava acompanhada por uma amiga, posteriormente identificada como cunhada. Eles estavam em uma bicicleta e fugiram do local do crime. Um deles foi localizado pela Polícia Militar e preso na mesma noite.
Manhã de terça-feira, 22 de agosto. Diversas pessoas entram e saem da delegacia de Guarus. Uns buscam informações; outros as fornecem. A morte, até então fruto de um assalto inesperado, tornou-se um crime encomendado. A mandante foi a cunhada. Alguns percorrem a área externa, em silêncio, observando a movimentação. O Hospital Ferreira Machado (HFM) publica uma nota para declarar a morte cerebral da universitária.
Na véspera, parentes e amigos se organizaram, na porta da unidade hospitalar, em uma corrente de oração por Ana Paula. À noite, familiares permaneceram em frente ao hospital para conseguirem notícias da vítima. Eles foram notificados sobre a morte cerebral. No momento do relato, policiais, que transitavam à paisana entre a multidão e nas proximidades, abordaram a suspeita de organizar a ação. Ela não reagiu e foi encaminhada à delegacia para prestar esclarecimentos. Outros dois suspeitos também foram presos por envolvimento na morte de Ana Paula: o que arrecadou materiais para simular o assalto; e o intermediário, que foi ponte entre a mandante e os demais comparsas.
Na delegacia, o irmão da vítima e marido da suspeita busca compreender o motivo da detenção e é surpreendido ao saber que a esposa estava sendo apresentada como mandante do homicídio. Após a notícia, sente mal-estar. Os policiais na unidade acompanham os desdobramentos e atuam, durante toda a madrugada, no caso. Pela manhã, prosseguem com o trabalho, auxiliados por biscoitos e doses de café. Dentro do local, os suspeitos continuam à espera dos próximos fatos.
Nas redes sociais, internautas lamentam pelo crime brutal que chocou os moradores de Campos. Uma moça planeja o homicídio da cunhada. Contrata outras pessoas. Paga R$ 2 mil no momento do encontro. Os outros R$ 500 seriam entregues após a realização do serviço. Inicialmente, o suposto assalto foi pensado para acontecer na praça de Custodópolis, mas, devido à grande movimentação, há mudança de planos. Segue para uma praça após convidar a vítima para visitar as obras de sua nova casa, na qual moraria com o marido, irmão da moça. Depois, escolheriam a sua roupa para o casamento de Ana Paula, marcado para outubro.
Antes, em uma tarde aparentemente comum para duas amigas de infância, tomariam um sorvete na pracinha. Seria esse o sinal para os bandidos, supostos assaltantes, abordarem as duas. Eles chegam ao local da emboscada. Pegam o celular e o dinheiro, parcela que faltava para completar a negociação, na simulação do assalto. Assiste aos tiros disparados em direção à vítima. Um atinge a cabeça, que resultaria, dois dias depois, na morte cerebral decorrente de trauma no crânio. Acompanha o dia a dia da família e da internação. Une-se às orações pela melhora da jovem.
À porta da delegacia, surgem questionamentos, certezas e revolta com o ato e a frieza com que se portou a jovem. Na manhã de quarta-feira, com respostas para dar à população, o delegado responsável pelo caso apresenta a mandante e os comparsas à imprensa, em uma coletiva. “Para nós, é necessário fazer uma apuração com maior acuidade para que saibamos a motivação real. Acreditamos numa passionalidade dessa motivação, mas ainda necessitamos de mais esclarecimentos. Quanto ao fato de ela ser a mandante, não temos dúvidas sobre isso”, declara.
De costas para os jornalistas, a idealizadora do homicídio permanece impassível. Caminha, posteriormente, entre eles. Mãos imóveis, com algemas, e olhos atentos aos movimentos ao redor. Observa. Encara os presentes, brevemente, e volta a si. Sem reações. É encaminhada ao Instituto Médico Legal para o exame de corpo de delito. A poucos quilômetros dali e horas antes de sua morte, Ana Paula respira com ajuda de aparelhos enquanto, no IML, a cunhada e amiga de infância distrai-se enrolando fios de cabelo nos dedos, aguardando o desfecho de seu crime imperfeito.
Charde do José Renato publicada hoje (27) na Folha
Macaé de Aluizio é exceção
Num momento em que quase todos os prefeitos do Brasil, sobretudo dos municípios produtores de petróleo, têm lutado contra dificuldades financeiras e buscado novas formas de arrecadação, a Macaé governada por Dr. Aluizio (PMDB) parece ser uma exceção. Pelo menos é o que demonstra o pesado investimento em propaganda feito na campanha “Menos royalties, mais empregos”. Nela, o município prega a redução pela metade (de 10% para 5%) dos royalties pagos pela Agência Nacional de Petróleo aos municípios pela exploração nos campos maduros da Bacia de Campos. Na propaganda de Aluizio, isso geraria 20 mil empregos.
Bom a dois, ruim ao resto
Por certo, como Macaé é a base de operação da Petrobras e das principais empresas que atuam na Bacia de Campos, ela colheria o aumento, por exemplo, de Imposto Sobre Serviços (ISS) sobre qualquer aumento no volume de trabalho ligado à exploração de petróleo. Mas só ela e, talvez, o município vizinho de Rio das Ostras, tradicional cidade dormitório de Macaé. Não por acaso, além de Aluizio, apenas o prefeito riostrense Carlos Augusto Balthazar (PMDB) apoia a perigosa aventura da redução de royalties, que prejudicaria diretamente as já combalidas finanças de todos os demais municípios da região.
Ética e caráter
Que Aluizio foi reeleito prefeito para lutar pelos interesses de Macaé, não há dúvida. Mas ele comete um erro, no mínimo, de natureza ética, quando o faz como presidente da Organização dos Municípios Produtores de Petróleo (Ompetro). É isso que questionam os prefeitos dos demais municípios produtores, cujas populações seriam penalizadas por uma eventual redução pela metade dos royalties. Conhecida por não ter papas na língua, a prefeita sanjoanense Carla Machado (PP) chegou a questionar o caráter do colega de Macaé, diante dele, na tensa reunião da Ompetro realizada na Prefeitura de Campos, em 4 de agosto.
Incluso fora
Uma próxima reunião da Ompetro foi marcada novamente em Campos, no último dia 17. Tinha como pauta a eleição da nova mesa diretora da Organização. E seu atual presidente, Dr. Aluizio, simplesmente não compareceu. Além de querer reduzir os royalties dos municípios da região, ele pareceu também buscar a redução do que está disposto a ouvir e do poder regional que pode perder. Ainda assim, a chapa tendo como presidente o prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS), e como vice a prefeita de Quissamã, Fátima Pacheco (PTN), foi aventada.
Rafael Diniz
Ouvidos pela coluna, Rafael, Fátima e Carla falaram sobre a campanha macaense de redução de royalties para todos. “É importante deixar claro que somos contra essa proposta, já que essa discussão precisa ser ampla, envolvendo todos os atores. É uma questão muito técnica e precisa ser discutida com a ANP, ministério de Minas e Energias e as empresas. É um tema sensível que não pode ser debatido de uma hora para outra, sobretudo nesse momento de crise onde já houve uma queda acentuada na arrecadação dos royalties. Quando um prefeito toma uma atitude, tem que ter a responsabilidade de pensar em todos”, questionou Rafael.
Fátima Pacheco
Já Fátima marcou a posição de Quissamã, oposta à vizinha Macaé: “Todos nós fomos impactados com a queda da arrecadação no repasse de royalties nos últimos anos. Apoio a proposta de investimentos em campos maduros da Bacia de Campos, mas não concordo que para isso seja preciso penalizar ainda mais os municípios, com diminuição da taxa de 10 % para 5%. Atualmente os recursos dos royalties garantem 30,03 % de nossa arrecadação total. A campanha do prefeito Aluizio não foi debatida e aprovada pelos prefeitos que compõem a Ompetro”.
Carla Machado
Por sua vez, Carla agendou uma reunião no Rio para tratar do caso: “Não temos informação sobre o que a Petrobras vai fazer com os campos maduros e nem sabemos as motivações da ANP para querer reduzir os royalties. Por isso agendamos para quarta (30) uma reunião com Luis Carlos Sanches, superintendente de Participações Governamentais da ANP, e com Christino Áureo, secretário estadual de Desenvolvimento Econômico. Como apoiar uma campanha que prega ‘menos royalties’ quando está para ser julgado pela ministra Carmem Lúcia, no Supremo, a redivisão dos nossos royalties para todos os municípios brasileiros?”.
Duas vezes vereador em Campos e deputado federal em quinto mandato, não se conta a história política do município ou da região nos últimos 25 anos sem se falar em Paulo Feijó (PR). Engenheiro aposentado da Rede Ferroviária, ele planeja pendurar as chuteiras também na disputa de eleições. E acena com a possibilidade de passar o bastão ao empresário Marcelo Mérida, presidente da Federação Fluminense das Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDLs), cuja pré-candidatura à Câmara Federal Feijó garante não ser um plano B do garotismo. Nesta entrevista, o deputado revelou os bastidores nebulosos dos interesses de Campos jogados na mesa de negociação do impeachment de Dilma Rousseff (PT) e tentou justificar seu voto contra a investigação de Michel Temer (PMDB). Feijó admitiu a candidatura de apoio a Rosinha Garotinho (PR) em 2008 e falou sobre sua condenação pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Folha da Manhã – Você foi condenado no Supremo Tribunal Federal (STF) a 12 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, por conta do envolvimento na operação Sanguessuga, da Polícia Federal (PF). Como está seu recurso?
Paulo Feijó – Eu tenho 30 anos de vida pública. Eu fui vereador duas vezes e, pela quinta vez, eu sou deputado federal. Então, nesses meus 30 anos de vida pública, eu tive essa mancha na eleição de 2002. Através de um ex-funcionário, um empresário me deu uma ajuda irrisória para aquela campanha.
Folha – Irrisória de quanto?
Feijó – Na época, acredito que tenha sido uns R$ 50 mil, R$ 60 mil. E isso se transformou em uma tragédia na minha trajetória política. Esse escândalo, na época, envolveu mais de 100 parlamentares e mais de 200 assessores de parlamentares. Então, foi um escândalo envolvendo 300 pessoas.
Folha – Você chegou a ser expulso do PSDB na época?
Feijó – Não. O PSDB me ameaçou de expulsão. O fato foi em 2002 e estourou em 2006. Então, me antecipei e me desfiliei. Deixei de ganhar uma eleição em 2006, que, praticamente, estava ganha. Fiquei sem mandato. Aí, começou o meu sofrimento em relação a esse caso. Desses 100 parlamentares e mais os outros 200 assessores, acredito que eu tenha sido, talvez, o único condenado.
Folha – Por quê?
Feijó – Porque o meu caso, por eu ser deputado, foi para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Folha – Não havia mais deputados?
Feijó – Mas não foram julgados ainda.
Folha – O único julgado e condenado, no caso, é você?
Feijó – É. Teve outro deputado que foi condenado, mas, pela idade, prescreveu. Mas o meu julgamento, pela primeira turma, aconteceu em um momento de muita tensão entre Judiciário, Ministério Público e classe política. E esse caso meu também foi a julgamento porque estava próximo, muito próximo, da prescrição. Decisão judicial não se discute, e eu não vou discutir. Está entregue aos advogados. Cabem vários recursos. Eu acredito na reversão porque, no meu modo de ver, isso é um absurdo. Porque, primeiro, não tem nada que comprove esse meu envolvimento. Eu achava que ia ser absolvido por falta de provas. Depois, eu achava que essa questão ia prescrever. Mas justamente essa pressão do momento foi o grande dificultador para que eu sofresse esse revés. Mas está entregue aos advogados. Eu tenho fé em Deus e certeza absoluta de que nós vamos reverter. Eu jamais imaginava, na minha vida política, passar por uma situação dessas, viver um momento desses. Mas a política tem disso. Ela é cruel. Só que a gente acha que ela vai ser cruel com os outros. Mas não. Ela é cruel com todos que fazem, hoje, vida pública. Mas eu acredito em uma decisão favorável nos recursos que ainda nos cabem.
Folha – Você tem dito que seu mandato de deputado federal será o último que disputará a cargo eletivo. Há possibilidade de ser preso com a perda do foro privilegiado?
Feijó – Essa questão de foro privilegiado, eu divirjo de muitas pessoas quando dizem que isso é um privilégio. Eu estou dando um exemplo: os mais de 300, praticamente, que foram julgados em primeira e em segunda instâncias, foram absolvidos. Por ser deputado e ter foro privilegiado, isso me prejudicou. Porque, se eu tivesse na primeira instância, a tendência era eu ser absolvido como os outros foram. Eu tenho certeza de que serei absolvido porque, nesse episódio, como disse, não tem nada que comprove meu envolvimento. Eu fui vítima de um escândalo e fui vítima, também, de um grupo criminoso que acompanhava as emendas dos deputados. Nunca fiz pedido a nenhum prefeito ou a nenhum diretor de hospital para comprar com a empresa A, B ou C. Já trouxe milhões e milhões de reais para a minha região. Nunca tive esse tipo de envolvimento. Realmente, foi um episódio isolado desses meus 30 anos de vida pública que, com certeza, nós vamos resolver favoravelmente.
Folha – Não é novidade seu afastamento de Anthony Garotinho (PR). Na verdade, ele ocorre desde que o ex-governador plantou junto ao jornalista Fernando Molica, de O Dia, a notícia de que você votaria contra o impeachment da ex–presidente Dilma Rousseff (PT), ao contrário do que ocorreu. Passado mais de um ano do episódio, o que de fato se deu ali?
Feijó – Naquela questão, eu já tinha decidido que votaria a favor do impeachment de Dilma. Eu tenho personalidade formada e sou independente politicamente. Sou um político que, nesses meus 30 anos de vida pública, nunca fui pau mandado de ninguém. Então, eu já tinha essa decisão tomada. Na época, Garotinho tinha um interesse a favor de Dilma. Ele me fez um pedido, mas eu falei que já tinha minha decisão tomada em relação a isso. E foi o que fiz. Eu votei a favor do impeachment.
Folha – Foi um encontro na sede do PR, em Brasília, não foi isso?
Feijó – Teve um encontro lá. Ele pediu, em função daquele momento. Tinha a questão dos royalties, da antecipação…
Folha – Da “venda do futuro”.
Feijó – É. Mas eu não atendi. Falei: “Garotinho, não tem como”.
Folha – Você disse não?
Feijó – Eu falei “não” e acredito que ele tenha entendido.
Folha – Boa parte da mídia nacional, a começar pelo jornalista e blogueiro Ricardo Noblat, de O Globo, noticiou que Garotinho negociou com a então presidente Dilma a abstenção de Clarissa, grávida, na votação do impeachment na Câmara Federal. O preço pago seria a “venda do futuro” de Campos com a Caixa Econômica Federal, no apagar das luzes do desastroso governo Dilma. Como viu o destino financeiro do município ser jogado na mesa de negociação por uma causa que já se sabia perdida?
Feijó – Eu não sei se isso realmente aconteceu porque eu também não participei…
Folha – A mídia nacional noticiou.
Feijó – É. Mas eu não posso garantir. Eu não posso dizer que isso aconteceu porque eu não participei.
Folha – Mas você acabou de dizer que ele falou com você que o voto contra o impeachment de Dilma seria relativo à “venda do futuro”.
Feijó – Ele pediu para que eu pudesse votar porque, para esse projeto dele, seria importante. Falei: “Eu não posso te atender nisso”. E não atendi. Mas se ele negociou com o Planalto o voto de Clarissa, eu não sei.
Folha – Mas, se ele colocou isso para você, não é natural que ele tenha colocado o mesmo à filha?
Feijó – Bem, ele pode ter colocado. Mas, o pedido que ele me fez, eu não pude atender e não atendi. E, depois, ele nem me questionou em relação a isso. Eu não tive problema com ele após a votação. Ele não me cobrou nada. Então, não posso dizer…
Folha – Mas, se ele fez com você, não é natural que ele tenha feito com a filha?
Feijó – Ele pode ter tido os interesses dele, sem dúvidas. Deve ter conversado com o governo (Dilma). Eu não tenho informação em relação à situação da Prefeitura. Não tenho dados nem de hoje, nem da época do governo de Rosinha. Agora, se a Prefeitura realmente estava naquela situação, precisando do empréstimo, ele achou que deveria seguir esse caminho de fazer parceria com o governo, no sentido de liberar esses recursos. Mas eu não posso avaliar porque não vivi esse momento. Eu não tinha essas informações. Na verdade, eu nunca conversei com Garotinho, detalhadamente, sobre essa situação econômica de Campos, durante os oito anos do governo de Rosinha. Eu nunca participei do governo de Rosinha, praticamente. Nunca indiquei ninguém, nunca tive emprego no governo. Nunca fui beneficiado em campanha nenhuma que disputei, nem pelos dois governos de Rosinha e nem por nenhum outro governo. Na verdade, eu nunca me prevaleci de máquina pública da Prefeitura de Campos. Nesses 30 anos de vida pública, nunca tive prefeito que me ajudasse. Então, nessa pergunta, eu não posso avançar muito porque não sei.
Folha – Embora tenha votado pelo impeachment de Dilma, mesmo contra a vontade de Garotinho, você votou na Câmara contra a autorização da investigação do presidente Michel Temer (PMDB) pela Procuradoria Geral da República. Não é uma incoerência flagrante?
Feijó – Eu votei no impeachment de Dilma em função dos péssimos resultados dos 13 anos de PT. Eu sempre fui adversário, e os resultados eram, até então, catastróficos.
Folha – O primeiro governo Lula não foi bem economicamente?
Feijó – Economicamente foi razoável. No primeiro governo. Mas, do segundo para cá, estava todo mundo insatisfeito. E eu também, com os resultados econômicos do país. E a corrupção que estava imperando. Então, votei a favor do impeachment. Essa questão de Temer, realmente, as denúncias são sérias, mas serão todas elas apuradas. Eu votei com Temer porque senti que o país estava conseguindo, na economia, resultados satisfatórios. Então, eu achei, por bem, manter Temer, embora essas denúncias sejam graves. Mas elas serão apuradas. A partir do momento em que ele deixar a presidência e perder o foro, ele vai ser investigado sobre todas essas denúncias. Então, eu votei pelo arquivamento da denúncia. Agora, o preço é alto. É muito desgaste. Eu também, como homem da base de governo, tenho que seguir a orientação do meu partido nessa questão. Eu também tenho meus interesses. Quais são meus interesses? Minha região. Eu sempre fui um deputado muito municipalista. Sempre trabalhei, nesses cinco mandatos, focando e priorizando a minha região. É o que eu tenho feito. E, no governo Temer, eu vou tentar consolidar essa situação de deputado regionalista.
Folha – Mas o fato de votar a favor do impeachment de Dilma e votar contra a investigação de Temer, naquele momento, não endossa quem denunciava que a Lava Jato era só para tirar o PT do poder?
Feijó – Não. Eu não concordo.
Folha – Por quê?
Feijó – Quem elegeu Temer foi o PT. Temer era o vice de Dilma. Então, quando votei pelo impeachment e Temer ascendeu à presidência, foi porque ele era o vice-presidente escolhido pelo PT. Eu achava, como acho, que a retirada dele do poder traria um prejuízo muito grande para o país.
Folha – Não é segredo que, apesar da grave recessão econômica que o Brasil atravessa, o governo Temer escancarou as cancelas das emendas aos deputados federais que votassem contra a investigação do presidente. Como este foi o seu caso, o que já trouxe para Campos e região a partir do seu voto?
Feijó – Eu, como disse, sempre foquei na minha região. Nunca fui um deputado de preocupações em termos de fazer parte da alta cúpula do Congresso Nacional. Sempre trabalhei pela minha região, e isso deu certo. Isso deu certo porque sou deputado pela quinta vez. Então, a região reconheceu meu trabalho e, em contrapartida, me deu essas cinco oportunidades. E eu vou continuar focando na minha região. Então, se o governo tem a possibilidade de liberar recursos para minha região através das emendas parlamentares impositivas — e essa questão de emendas, eles liberam para a situação e para a oposição também; não somos só nós da base que recebemos. Agora, se eu consegui, como tenho conseguido, alguma coisa a mais para Campos e região, eu vou conseguir.
Folha – O que, de fato, você já conseguiu depois do voto contra a investigação de Temer? O que de concreto conseguiu?
Feijó – Consegui liberar minhas emendas individuais praticamente todas. Consegui um extra para o Hospital de Guarus, de R$ 5,5 milhões.
Folha – Assim como seu afastamento de Garotinho, é de conhecimento público a sua aproximação com o governo Rafael Diniz (PPS). Como estão essas relações?
Feijó – Estou pronto a ajudar para que Rafael consiga dar conta dessa enorme responsabilidade que ele assumiu a partir de 1º de janeiro.
Folha – Essa aproximação começou em uma partida de futevôlei, no verão, não foi isso?
Feijó – Rafael é muito educado com todos. No verão, ele me viu, foi lá e, de maneira muito educada, falou comigo todas as vezes em que eu estive lá. Mas a parceria nossa não evoluiu muito depois disso, não. Ele esteve em Brasília, foi ao meu gabinete. Foi até no dia em que eu dei essa notícia do recurso para o Hospital de Guarus. Mas não temos uma relação política consolidada. Agora, independente disso, no que eu puder ajudar Campos, é obrigação minha. Eu tenho que ajudar o governo dele. Precisando de mim, ele sabe onde vai me achar. E eu estarei sempre pronto para isso. Tenho que fazer.
Folha – É uma relação pontual?
Feijó – Exato. Nunca conversei uma política mais de parceria com Rafael. Na hora que ele achar que essa conversa tem que acontecer, estou pronto para conversar com ele. Desejo o bem do governo dele, mas, principalmente, do nosso município.
Folha – Como avalia esses oito meses de governo Rafael?
Feijó – Muito problema, né? Como eu disse, não tenho informações sobre a situação financeira da Prefeitura. Mas, pelo que a gente está vendo, vive, hoje, um momento de muita crise financeira. O governo do Estado sem poder ajudá-lo. Então, isso tudo dificulta. Mas eu vejo que ele é uma pessoa de bem, uma pessoa bem intencionada com o município. E eu não sou daqueles que torcem para que ele naufrague. Porque, ele naufragando, o município naufraga junto. Então, eu quero que ele administre bem essa cidade e vai contar com meu apoio.
Folha – Ao assumir com uma dívida de R$ 2,4 bilhões dos oito anos deixada pela gestão Rosinha Garotinho (PR), com um déficit mensal de R$ 55 milhões e com gasto com pessoal já extrapolando os 54% permitidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), o governo de Campos tem sido obrigado a matar um leão por dia. Primeiro foi (aqui) a reversão no TRF da “venda do futuro” feita pelos Garotinho com a Caixa. Agora é (aqui) a ameaça de greve do servidor, decretada em assembleia do Siprosep, programada para sete dias a partir de 4 de setembro. Não passa a impressão que o trabalho do prefeito e sua equipe tem sido enxugar gelo?
Feijó – Eu torço muito para que o prefeito tenha paz para governar, para que ele tenha a confiança dos servidores, da população. Os resultados, eu espero que apareçam. Sei das dificuldades enormes que ele vem enfrentando. Mas eu não tenho como avaliar esse aspecto financeiro porque eu não tenho essas informações, se ele está administrando bem ou mal os recursos. Mas o que a gente vê é que a situação dele não é diferente da dos demais prefeitos, hoje, de qualquer cidade do Brasil. Tirando poucas. Por exemplo, no estado do Rio de Janeiro, só uma Prefeitura, hoje, não tem problema financeiro: a de Maricá.
Folha – Maricá e Niterói, cujos royalties estão em crescimento pela exploração dos campos novos na Bacia de Santos.
Feijó – Maricá e Niterói. Só essas duas. Então, todos os prefeitos do Brasil, hoje, vivem um momento de muita dificuldade. Rafael é um deles. Agora, eu não posso avaliar se a solução para esses problemas acontecerá a curto, longo ou médio prazo porque eu não tenho informação da Prefeitura.
Folha – Mas você não acha que, particularmente, com essa dívida de R$ 2,4 bilhões, herdada (aqui) do governo anterior, a situação dele é um pouco pior do que a dos demais municípios?
Feijó – É um complicador, sem dúvida. Se for mesmo essa dívida. R$ 2,4 bilhões é muito dinheiro, é muita dívida. Junto com essa dívida, tem a questão do Estado. O Estado sempre foi, também, um parceiro do município de Campos. E, agora, nós perdemos esse parceiro. E o governo federal também não pode contribuir muito. Então, a situação do prefeito, sendo essa dívida e com essa arrecadação caindo como caiu, é de muita dificuldade.
Folha – Uma das principais críticas feitas à administração Rafael é a falta de experiência. Como você pode e tem procurado ajudar nessa questão?
Feijó – Eu nunca fui chamado para ajudar e conheço até pouco a equipe dele. Mas eu espero que, mesmo a equipe sendo nova, eles consigam vencer as dificuldades através da competência. Às vezes, o cara é novo, mas é competente. E eles vão adquirindo essa experiência. É bom também mesclar com pessoas de certa vivência para que essas soluções aconteçam de maneira mais rápida e mais estável.
Folha – O presidente da Federação Fluminense das Câmaras de Dirigentes Lojistas (CDLs), Marcelo Mérida, admitiu (aqui) à coluna “Ponto Final” sua pré-candidatura a deputado federal, embora ainda sem partido definido. Informações de bastidores dão conta de que você estaria operando em favor desse movimento. Procede?
Feijó – Marcelo é um excelente nome. Eu gosto muito do Marcelo. Ele é uma pessoa de muito bom conceito, de espírito público. Estivemos conversando, em Brasília, em relação à possibilidade da candidatura dele a deputado federal. E eu fiz algumas observações para que essa candidatura se viabilize. Primeiro, um apoio mais sólido do próprio segmento. O segmento lojista, a gente respeita, mas eu ainda não vi nenhuma atuação do segmento voltada para a política. Uma atuação de resultados. Orientei ele, também, a consolidar essa situação com os lojistas. Esse pessoal tem que estar motivado e tem que, verdadeiramente, contribuir. E falei com ele, também, para tentar conversar com o prefeito. Porque ele é de Campos. Eu acho que uma aproximação dele com o prefeito Rafael seria importante para a candidatura dele. Seria mais um apoio. Não sei o que o prefeito está pensando em relação ao ano que vem. Não sei se tem candidato, se não tem. Mas vejo o nome de Marcelo como um excelente nome para nos representar no Congresso Nacional.
Folha – E você está operando para ajudar?
Feijó – Ainda não. Tive essa conversa com ela em Brasília, há 10 dias. Foi a primeira conversa que tivemos e não falamos mais nada. Mas eu torço muito por Marcelo.
Folha – À coluna, Mérida revelou que o projeto das CDLs fluminenses seria lançar um pré-candidato a deputado federal e dois a estadual. Está ciente desse projeto? Vocês conversaram sobre isso?
Feijó – O que eu falei com ele é que, para ele viabilizar a candidatura a deputado federal, primeiro, ele tem que consolidar o nome dele nesse segmento. Marcelo tem que consolidar e motivar esse pessoal, mostrando para o segmento que a eleição dele a deputado federal é muito importante para o segmento lojista. Essa é uma questão. A outra: ele tem que se viabilizar mais em Campos. Para que ele se viabilize mais, eu acho importante a aproximação dele com o prefeito Rafael. E na região. Ainda não trabalhei dentro de mim a questão de quem vou apoiar ou deixar de apoiar em 2018. Mas acredito, pela minha história, conhecimento e experiência, que eu possa dar uma ajuda. Se eu ajudar Marcelo, ajudo na convicção de que vou ajudar uma pessoa que preenche todas as condições de nos representar na Câmara dos Deputados.
Folha – Seria uma pessoa para quem você passaria o bastão?
Feijó – Nota 10. Marcelão, eu tenho carinho por ele. Já me ajudou em várias eleições. Talvez em todas as eleições que eu disputei, ele tenha votado comigo. Eu não quero mais. Eu cansei.
Folha – Então, você acha que ele seria uma pessoa indicada para isso?
Feijó – Eu acredito que sim. Mas não estou falando, com isso, que eu já tenha decidido. Nós tivemos uma conversa em relação a isso. Eu vejo com excelentes olhos e confio muito nele. Campos tem que ter seus representantes. O que não pode é o campista ficar acreditando nos lá de fora. Porque, na hora que precisa, os lá de fora desaparecem.
Folha – Você fala em brigar, na Câmara Federal, pela região?
Feijó – Claro. Tem que ter representantes de Campos e da região. Senão, não tem reciprocidade.
Folha – Dentro do garotismo, uma ala considerada menos populista e mais próxima da classe média tem nomes como você, o ex-vereador Mauro Silva (PSDB), os ex-secretários rosáceos Wainer Teixeira (PHS) e Sérgio Cunha, além do próprio Mérida, que já integrou o governo Rosinha. Isso deve ser entendido como uma distensão do garotismo ou um plano B do grupo que dominou a política de Campos por quase 30 anos?
Feijó – Quando fiz essa aproximação com Garotinho, em 2008, na eleição de Rosinha, eu fui muito criticado. Sempre fui oposição a Garotinho. Foram 20 anos contra Garotinho. Mas o que aconteceu? Em 2004, fui candidato a prefeito de Campos. Eu era o favorito dessa eleição. A palavra é forte, mas eu vou usá-la: eu fui roubado. Eles roubaram minha eleição.
Folha – “Eles” quem?
Feijó – As duas candidaturas: uma, Garotinho apoiando Pudim; a outra, Arnaldo, prefeito, com Campista. Me roubaram como? No abuso de poder econômico. Todas as duas fizeram isso de maneira exorbitante. Só que, naquela época, não existiam, como existem hoje, Justiça Eleitoral, Ministério Público, Polícia Federal.
Folha – Existir, existiam.
Feijó – Mas não atuavam nas eleições. Então, eu perdi a eleição por causa disso. Mas não estou traumatizado, não. Estou falando isso com muita tranquilidade. Quando não fui para o segundo turno, o que eu fiz? Apoiei Campista. Humildemente falando, eu dei a eleição a Campista. Porque eu tinha saído com uma votação muito significativa. O que aconteceu a partir dali? Eu me decepcionei muito com Arnaldo. Tive muitas decepções.
Folha – Quais?
Feijó – Eu me decepcionei com Arnaldo. Geralmente, quando você faz um acordo político e ganha uma eleição, você é chamado para participar do governo. E isso não aconteceu comigo. Depois que Campista ganhou, eu não fui chamado para nada. Na verdade, eu fui usado por eles. Então, fiquei decepcionado.
Folha – Numa entrevista de Campista à Folha, nos primeiros meses de governo, antes da sua cassação, ele foi perguntado sobre o retorno pelo seu apoio, e respondeu: “nada combinado é caro”. Ele disse que não tinha combinado nada para receber seu apoio.
Feijó – Eu vou te falar até mais. Campista é um cara correto. Se ele ficasse no governo, eu tenho certeza de que ele iria, mais na frente, me valorizar. Tenho certeza. Com Campista, eu só tenho a fazer elogio. Mas, em relação a Arnaldo, eu tive umas decepções.
Folha – Campista e Arnaldo também romperam depois que o primeiro assumiu a Prefeitura.
Feijó – É. Teve, também, o rompimento. Mas aonde que eu quero chegar? Por ter tido essa experiência com Arnaldo que não foi boa para mim, e eu já enfraquecido em 2008, depois que estourou o escândalo (da operação Sanguessuga) de 2006, não me restou outra alternativa a não ser fazer essa aliança com Garotinho, na eleição de Rosinha, em 2008.
Folha – Então hoje você admite que, naquela eleição, veio como candidatura de apoio a Rosinha?
Feijó – Foi. Mas isso não partiu de Garotinho.
Folha – Foi Pudim que costurou com você, não é isso?
Feijó – Eles me procuraram. Pudim, Roberto Henriques, Garotinho. Mas eles foram me procurar para quê? Para que eu não fosse candidato e que eu apoiasse Rosinha. Falei que isso eu não ia fazer. Porque, se eu fizesse isso, não ia ajudar Rosinha a ganhar. Eu só ajudaria Rosinha a ganhar a eleição sendo candidato. E ajudei Rosinha a ganhar a eleição.
Folha – Nos debates, você foi muito forte com Arnaldo e Odete Rocha (PC do B).
Feijó – Eles também foram fortes comigo. Isso é do jogo. Mas algumas pessoas falam que eu exagerei, principalmente com Arnaldo. Mas eu acho que tive meus motivos. A vida pública tem esse tipo de situação.
Folha – Como é sua relação, hoje, com Arnaldo?
Feijó – É uma relação muito fria. Eu quero que Arnaldo seja feliz, que resolva os problemas que ele tem. Não desejo mal nenhum a Arnaldo. Arnaldo também é uma das vítimas da crueldade que a política impõe a todos nós. Hoje, ele tem o sofrimento dele por ter sido prefeito nos dois mandatos que ele exerceu. Mas eu não tenho briga com Arnaldo, como não tenho briga com ninguém. Agora, na política, é inevitável que você tenha e viva esse tipo de situação. Conflito é inevitável, ainda mais em uma eleição executiva. São situações difíceis que a política nos impõe.
Folha – Voltando à pergunta original: você, Mauro, Wainer, Cunha, parecem hoje estar alinhados com o projeto político das CDLs. Isso é uma distensão natural de nomes mais “classe média” do garotismo ou é um plano B do grupo?
Feijó – Não tem nada a ver com Garotinho. Esse apoio a Marcelo, se acontecer, não tem nada a ver com Garotinho. Mas não tem planejamento, não. Está começando. Eu tive uma conversa rápida com Marcelo.
Folha – É uma coincidência?
Feijó – É coincidência. A candidatura dele, para mim, é muito simpática.
Folha – Não é, então, um plano B do garotismo?
Feijó – Não. Plano B é chance zero.
Folha – É uma distensão, então?
Feijó – É. O grupo de Garotinho está enfraquecido.
Folha – Por causa da operação Chequinho. Como você vê a operação Chequinho?
Feijó – Pela imprensa, vejo com preocupação. Fui até testemunha. Tive uma participação como testemunha do vereador Jorge Rangel, em que eu falei com doutor Ralph Manhães, na criminal. Eu falei que participei de muitas reuniões com o vereador. Da campanha mesmo, eu participei pouco. Das reuniões que eu participei, era um dos primeiros a chegar e um dos últimos a sair. Eu nunca senti nenhum ruído em relação a essa questão da Chequinho. Nunca vi e nunca participei desse tipo de situação, caso ela tenha acontecido.
Folha – Você acha que não houve?
Feijó – Aí, eu desconheço.
Folha – Além de Mérida, outro nome que tem sido cotado para uma pré-candidatura a deputado federal é César Tinoco, amigo de infância de Rafael e um dos seus mais próximos colaboradores. Como vê esse movimento?
Feijó – Não tenho dúvida de que Campos tem que apresentar, para 2018, candidatos vinculados com a cidade e com a região. Naturalmente, Rafael, que é o prefeito, deve estar planejando ter seu representante na Assembleia e na Câmara Federal. Ele tem, por obrigação, que fazer com que essas lideranças…
Folha – Para deputado estadual estão falando em Marcão (Rede), Gil Vianna (PSB), Pudim (PMDB), João Peixoto (PSDC), Rodrigo Bacellar (PDT).
Feijó – Ele tem que ter esses nomes da sua confiança. Eu te confesso que não participei de nenhuma reunião com ninguém, exceto com Marcelo, sobre essa questão de 2018. Mas Campos tem que acreditar nos seus filhos. Mas essa questão do grupo de Rafael, quem ele vai apoiar e quem não vai, eu também não posso acrescentar nada porque não conversei isso com Rafael e não sei o que ele pensa em relação a 2018.
Folha – Você falou que vê com bons olhos a pré-candidatura de Mérida. E a de César?
Feijó – Vejo também. Se ele for uma pessoa ligada ao prefeito, se tiver o apoio do prefeito, passa a ser uma candidatura viável. Ele tendo a confiança do prefeito, eu acho que, para Campos, é importante.
Sugestão para escutar enquanto lê: Alvorada – Antônio Carlos Gomes
“A verdade é filha do tempo e não da autoridade.”
Galileu Galilei
Nilo Peçanha
Estava frio quando o telefone tocou de manhã, do outro lado Chico, dileto amigo, contava a impressionante história de Nilo Peçanha, a quem iríamos em busca, num vilarejo próximo chamado Morro do Coco.
Meus olhos brilharam quando relembrei o interior onde cresci, Bom Jesus (tanto do Norte quanto do Itabapoana), ao tocar com pés extasiados a primeira vez em solo presidencial. As cores vigorosas, o sabor da natureza, o clima ameno e os olhares sorridentes anteciparam de pronto as palavras que o tempo matura para nascer: “Como eu gostaria de morar aqui.”
Fomos até o seu Oswaldo, pela árvore genealógica traçada corria em seu sangue a história do Brasil, cunhada em alto relevo em sobrenome de outrora: Peçanha. Seu Oswaldo foi surpreendido com a nossa visita, mesmo assim, poucas vezes na vida vi uma recepção tão sincera e calorosa: com doces da terra como se quisesse que levássemos dentro de nós a sua própria essência; com histórias vistas sobre ombros gigantes cujas nuvens filtram a luz que ofusca os olhos; com um dos melhores queijos que já provei; o licor de fruta típica com sabor eterno regando a flor que frutifica a amizade.
No dia seguinte retornamos, estava ansioso por respirar o ar do interior novamente, entreguei ao seu Oswaldo o primeiro exemplar do meu livro Uma Palavra Escrita com Lágrimas cujas crônicas e contos havíamos conversado no dia anterior. Fomos à fazenda onde teria morado Nilo Peçanha, à igreja onde teria sido batizado e os arredores, refazendo o trajeto onde Nilo pisou. É interessante reviver a história com seus próprios olhos, estar no lugar onde originou grandes marcos de nossa nação aumenta, um tanto, o sentimento de pertencimento e valorização cultural.
Na volta tive a oportunidade de conhecer outros vilarejos como Conselheiro Josino, e conversar com quem pulsa tuas comendas. Ao apagar a luz e deitar sobre a cama, fiquei a observar pela minha janela a cidade iluminada, pensei: “que coisa boa morar aqui.”
Charge do José Renato publicada hoje (25) na Folha da Manhã
Greve do servidor (I)
Ao falar (aqui) ontem sobre a greve de sete dias decretada em assembleia do Siprosep na noite de quarta (23), o secretário municipal de Gestão Pública, André Oliveira, disse que o governo Rafael Diniz (PPS) está aberto ao diálogo. Aliás, ressaltou o secretário, sempre esteve. Como prova dessa disposição, lembrou ser servidor municipal há 17 anos e nunca ter presenciado a categoria com tanta abertura para se reunir e negociar diretamente com o prefeito. Segundo ele, essa facilidade na interlocução passou a acontecer em 1º de janeiro de 2017. E os fatos provam que ele não está errado.
Greve do servidor (II)
Todavia, a facilidade no diálogo, aparentemente, tem sido oposta ao atendimento dos pleitos do servidor por parte do governo. Este alega que, diante da dívida de R$ 2,4 bilhões deixada (aqui) pela administração Rosinha Garotinho (PR), da metade da execução orçamentária de 2016, de um déficit mensal de R$ 55 milhões e do gasto com pessoal já extrapolando os 54% permitidos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), não há muito o que fazer. Diante da realidade dos números, pode estar certo. O que, mais do que nunca, torna premente a reforma administrativa, ainda em estudo após oito meses da nova gestão.
Greve do servidor (III)
Por outro lado, ao convocar em 23 de agosto uma greve de sete dias, a ser iniciada em 4 de setembro, 12 dias depois, os servidores também parecem jogar com o tempo. Segundo afirmaram ontem o vice-presidente do Siprosep, Fábio Almeida, e Elaine Leão, líder da oposição, esse tempo seria para mobilizar a categoria, dividida também na disputa política interna. Para saber quem corre querendo de fato chegar, só o tempo dirá. Mas, diante da matemática de uma Prefeitura falida, incluídos os R$ 400 milhões tirados pelos Garotinho do PreviCampos, seria bom que governo e servidor começassem a tentar encurtar a distância.
Dor e revolta
Um crime bárbaro que chocou não só as famílias envolvidas, mas também toda a população campista. A morte prematura da universitária Ana Paula Ramos, de apenas 25 anos, mexeu com o psicológico de boa parte das pessoas, algumas repensando o real valor de uma vida e outras revoltadas com toda a situação. Independentemente do desfecho a que levaram as investigações policiais sobre o caso, o julgamento dos fatos cabe à Justiça, e à família resta o fortalecimento para se recuperar de tal brutalidade.
Busca de segurança
O interior do Estado aparentemente não ficou esquecido no esquema tático do governo para melhoria da Segurança pública. Ontem, o secretário estadual da Casa Civil e Desenvolvimento Econômico, Christino Áureo, e o comandante geral da Polícia Militar, coronel Wolney Dias, vistoriaram obras nos Destacamentos de Policiamento Ostensivo e conversaram com lideranças a fim de promover melhorias no sistema de segurança pública no interior fluminense. Em breve, o município de Macaé ganhará um DPO em Glicério e Quissamã também, em Barra do Furado.
Duque de Caxias
Hoje é comemorado o dia de Duque de Caxias e, em Campos, o Lions Club promove uma solenidade juntamente com o Exército e o 8º Batalhão de Polícia Militar (BPM) para lembrar o militar, político e monarquista brasileiro, que chegou a ser apelidado de “O Pacificador” e “O Duque de Ferro”. O dia marca 214 anos do nascimento do patrono do Exército Brasileiro. A cerimônia acontece na praça do Santíssimo Salvador, às 8h.
Recorde
O Porto do Açu, no município de São João da Barra, anunciou seu recorde de produtividade na movimentação de coque, realizada ao longo da última semana, no Terminal Multicargas (T-mult). O navio Themistocles, que estava carregado com 53 mil toneladas do granel, ficou em operação de quarta-feira a sábado, completando uma média de descarregamento de 16,3 mil toneladas por dia. A produtividade aumentou em 20,6%, se comparada ao último recorde registrado, em operação com carvão, no mês de março.
André Oliveira, Fábio Almeida e Elaine Leão (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Até agora não recebemos nenhum comunicado oficial do Siprosep. Não sabemos o motivo que alegaram para decretar greve, não recebemos uma ata da assembleia de ontem (23). O que posso dizer é que os pagamentos têm sido feitos rigorosamente em dia. E que continuamos abertos ao diálogo, não só com o Siprosep, mas diretamente com as categorias, como os médicos, os profissionais de enfermagem, os técnicos de radiologia. E o diálogo é direto com o prefeito Rafael Diniz (PPS). Sou servidor municipal há 17 anos e não me lembro do servidor sendo recebido sempre pelo prefeito, como vem ocorrendo em Campos desde 1º de janeiro de 2017”.
Foi o que disse André Oliveira, secretário municipal de Gestão de Pessoas e Contratos, sobre a greve de 7 dias, a partir do próximo dia 4 de setembro, definida na noite de ontem, em assembleia geral extraordinária do Siprosep, como a coluna “Ponto Final” de hoje anunciou aqui.
Os motivos da greve, que a Prefeitura ainda não conhece oficialmente, foram expostos pelo vice-presidente do Siprosep, Fábio Almeida, bem como pela servidora Elaine Leão, líder da oposição na disputa política interna pelo controle do sindicato. Ambos os lados garantem estar trabalhando na mobilização do servidor pela paralisação:
— Nosso objetivo é parar toda a categoria. Estamos nos mobilizando e vamos visitar todos os setores da Prefeitura para que o servidor venha fazer parte da nossa luta, que é de cada um dos servidores. Estamos nos preparando para informar ao Executivo e também ao Legislativo a paralisação, que será de sete dias. Queremos que o governo se sensibilize e reveja as necessidades da categoria, principalmente as péssimas condições de trabalho, o direito à reposição salarial, carga horária de várias categorias, a não retirada de gratificações, entre outras coisas que significam a valorização e o respeito ao servidor. O prefeito já se mostrou aberto a negociações. Vamos ver como vai ser com a paralisação de todos os setores — disse Fábio Almeida.
— O problema enfrentado pelo servidor hoje é uma constante. Não dá mais para ficar esperando uma posição do governo. Temos que evoluir e o sindicato está propenso a isso. Chamar todos os servidores para perto, para lutar pelos seus direitos. O servidor ainda está muito cauteloso, com medo de represálias. Entendemos que a Prefeitura precisa economizar, mas não pode atingir o servidor. Serão sete dias, mas espero que o governo chame para conversar antes de concluir os sete dias de paralisação — observou Elaine Leão.
No último domingo (20), a Folha publicou uma entrevista, na qual o prefeito falou sobre cada uma das reivindicações colocadas pelos próprios servidores. Além de Sérgio Almeida, presidente do Siprosep, e de Elaine, quem também apresentou os pleitos analisados por Rafael foi o presidente do Sindicato dos Médicos, José Roberto Crespo. Confira aqui.
Com a colaboração da jornalista Jane Ribeiro
Confira a reportagem completa na edição de amanhã (25) da Folha
Nádia entrou para a sala de parto acompanhada de Roberta. Três anos de casadas. O desejo intenso de terem um filho.
O folder de uma clínica de fertilização. Prometiam crianças saudáveis em um tratamento parcelado em 20 vezes, com todos os pré-natais inclusos mais o parto. Inclusive ganhariam um macacão com o logotipo da empresa bordado.
Um momento singular na vida das duas. O óvulo de Roberta fecundado e inserido no útero de Nádia. A barriga crescendo, os desejos de grávida, os enjoos. Compartilharam cada instante daquela gestação, sempre juntas, sempre se amando.
Isso tudo para não sair conforme o desejado.
Especificaram na clínica que queriam uma criança loira e de olhos azuis. Se possível uma menina, mas explicaram que não chegava a um procedimento de engenharia genética. No caso, selecionariam esperma de um doador com as características físicas desejadas. O restante dependeria da natureza.
Teriam misturado então os fracos de sêmen? Teria um técnico após chegar de ressaca ou brigar com a namorada se descuidado e trocado o frasco de nórdico pelo de africano? Assim, em outro canto, quem esperava um garoto negro também se espantaria com aquela cara branquela?
Podia ser questão de genética mais profunda. Genótipos e fenótipos. Aquele seu tio Everaldo e o cabelo sarará bem que identificam um ancestral negro. Mas poderia um vínculo já distante influenciar dessa forma?
Nádia era filha de pai mulato. Teria o cordão umbilical ou o líquido amniótico influenciado em algo?
Roberta não sabia exatamente como prosseguir. Ligaria para o SAC da empresa e reclamaria da falha? Será que isso se encaixaria em algum mecanismo de devolução? Por exemplo, entregariam aquela criança à mulher que desejava um filho negro e recuperariam o outro?
Havia algum termo no Código de Defesa de Consumidor que as defenderia? Que tal acionar o Procon?
Lembrou daquele quadro do Fantástico em que o InMetro testava uma série de produtos. Pensou na certificação de qualidade dessas clínicas de fertilização. Exigiram carteira de vacinação dos doares, metodologia para envase e armazenamento, com a devida assepsia e criogenia.
Visualizou o bebê portando o selo do InMetro de nascença.
As duas seguraram as mãos. Naquele choque inicial, mal puderam prestar atenção na criança. A enfermeira o levou para o banho e os devidos cuidados com os neonatos. E as mães ali, pensativas, como se não soubessem como amar aquela criaturinha, reticentes quanto aos próprios sentimentos.
Horas mais tarde, o trouxeram para mamar. Quando Nádia o pegou no colo, Roberta se aproximou. A criança deu uma risada, reconhecendo suas mães. Riu de maneira espontânea, sem cócegas nem nada. As duas responderam o riso. Passaram o dedo em sua barriga e subiram até o rosto. Despuseram-se de todas as pretensões e apreensões: sabiam que ali estava seu filho.
O filósofo espanhol Antonio Escohotado publicou no final do ano passado o último dos três volumes de “Los Enemigos del Comércio”, um ensaio monumental de história, sociologia e política que o teve ocupado durante 17 anos. O tratado é uma apologia do capitalismo através da revisão de todas as ideias e doutrinas contrarias a ele, ao longo da história ocidental.
A tese de Escohotado é a seguinte: quem é contra o comércio é contra a liberdade, o conhecimento e o progresso. O filósofo defende essa hipótese através de mais de dois mil páginas que revelam uma pesquisa exaustiva e minuciosa, partindo desde a Grécia antiga até chegar ao século XX.
“Quando comecei o livro — esclarece Escohotado no prefácio — tinha me proposto a princípio uma coisa simples, impulsionado pela necessidade de reconstruir para aprender. O objetivo era precisar, tanto quanto possível, quem, e em qual contexto, sustentou que ‘a propriedade privada constitui um roubo, e o comércio é o seu instrumento’. Vários anos mais tarde — após saber quais foram essas pessoas e grupos desde o século XIX — entendi que a sua tese era anterior, que tinha reinado vários séculos sem oposição e que aquela área da árvore genealógica comunista era pertinente para não confundir o tronco com as folhas, o perene com o efêmero”.
Escohotado pode (e deve) ser chamado de liberal, mas de forma alguma de conservador. Fervoroso defensor da liberação total das drogas, ficou famoso ao final década de 80 pela sua “História General de las Drogas”, um tijolão de 1.400 páginas, e do qual existe um resumo chamado “História Elemental de las Drogas”, editado no Brasil. O escritor certamente sabia do que falava: é um reconhecido consumidor de alucinógenos e outras sustâncias ilícitas. Até hoje, com 76 anos, fuma 3 maços de cigarros por dia.
Em 1976, morando em Ibiza, Escohotado abriu uma boate chamada “Amnésia” com os recursos da herança de sua mãe. “Amnésia” viria a ser uma das casas noturnas mais célebres e badaladas do mundo, mas também seria a causa de um processo criminal contra o escritor, sob a acusação de comandar a “máfia hippie” da ilha. Condenado pelo curioso delito de “tráfico de drogas en grado de tentativa imposible”, Escohotado preferiu ficar preso a recorrer da sentença, e considerou aquele período de reclusão como “humildes férias pagas”. O “Tratado General de las Drogas” foi escrito na cadeia.
Não se pode dizer, portanto, que a defesa ao capitalismo de “Los Enemigos del Comércio” provenha de um direitista reacionário. E nem se cogite associar o anticomunismo de Escohotado ao dogmatismo católico. Para o espanhol, a Igreja é tão coletivista — e hipócrita — quanto os socialistas. O economista Javier Paz Garcia explica:
“O livro, como o indica o seu título, se concentra na influência das ideias contrárias à propriedade privada, ao comércio livre e voluntário, à geração de riqueza e à liberdade em geral. Desde os admiradores da militarista Esparta por sobre a culta e democrática Atenas, até o alvorecer do comunismo, Escohotado analisa a evolução de uma seita judia cuja ascensão coincide (e não por coincidência) com a decadência do império romano e a submersão da Europa num período de mil anos de obscuridade e estagnação”.
Em síntese, trata-se de um livro fascinante de um sujeito ainda mais fascinante. Um livre pensador que desconfia dos dogmas, pois, segundo ele, “dogmatismo é preferir o prejuízo ao juízo, a legislação ao direito, a costume ao livre exame. A minha obra está destinada a combatê-lo”.