Fernando Leite — A nova religião

 

 

 

Definitivamente, o homem guarda, intrinsicamente, compulsão pelo caos. Só isso explica tanto avanço tecnológico e, na mesma dimensão, tanta loucura coletiva. É a ciência ao serviço do gradual armagedon.

O mundo se desenvolveu e se mediocrizou velozmente no alvorecer do século 21. O reflexo está na arte, na filosofia, no comportamento humano, na política. E não é de graça.

“Não há nada de novo sob o sol”. A não ser a constatação: o humanismo morreu!

A partir da revolução industrial, nos séculos 18 e 19, foi criado o proletariado, avançaram os aparatos tecnológicos, o homem, de uma forma geral, conquistou maior qualidade de vida, embora não tenha vencido o signo de se repetir, interminavelmente.

Nas ciências, os grandes feitos de Copérnico e Galileu são maiores mesmo do que a exploração a Marte e a diuturna missão de perscrutar o Universo curvo de Einstein.

Os grandes filósofos, que antecederam a Cristo, sobretudo, Sócrates, Platão, Aristóteles, criaram a base do pensamento universal. Depois vieram os argonautas que avançaram nas descobertas do Mundo Novo, cientistas e pensadores, mormente os dos séculos 18 e 19: Kant, Nitzsche, Voltaire iluminaram o inconsciente coletivo. Suas teses formularam conceitos e determinaram mudanças sociais; as descobertas científicas de Darwin e Einstein são seculares e continuam intocadas, basilares para as pesquisas contemporâneas; as análises críticas de Marx, Lenin e Hegel edificaram territórios, ensejaram leis e regimes, experimentaram o triunfo e a ruína, edificaram e demoliram muros. E, hoje, são referências para debates estéreis.

As grandes revoluções, o Iluminismo, as utopias de sociedades solidárias cumpriram seu papel, na madrugada do século 20. Como a alavanca de Arquimedes, moveram o mundo, mas não seguiram seu curso, nem determinaram um ritmo crescente.

Hoje, depois de tantos avanços e recuos experimentais, o mundo exaurido, saqueado em suas reservas naturais pela ganância, se divide entre ricos e pobres. Do comunismo, socialismo, liberalismo, capitalismo selvagem ou democrático\humanista(?) restaram os surrados bordões, as mortalhas, os escombros, a memória histórica e nada mais.

Vivemos, passivamente, entre extremos que se completam, um é resultado do outro. No mesmo tempo, em que as distâncias morreram, a comunicação foi pulverizada, há a desumanidade consentida nas disformes periferias, como em Porto Príncipe, capital do Haiti, a maior concentração de miséria, dor e sofrimento e no outro gume da faca afiada, Dubai, centro do mais próspero Emirado Árabe. O fausto e a tragédia, o luxo e a miséria, convivendo passivamente, diante de Deus e dos homens.

O sonho do homem novo, solidário, educado, pensante, evoluído cedeu lugar à inteligência artificial. Classes trabalhadoras foram dispensadas de tarefas que já não existem mais. Em seus lugares, operam a robótica, a informática, enquanto o que lhes resta é a periferia dos pobres, os guetos do século 21. Irrompe dos conglomerados do capitalismo pragmático a nova “mão de obra”, no cenário da falência absoluta da sociedade impotente e medrosa. E xenófoba! E excludente! E egoísta! E decrépita! Decadence avec elegance!

Nas artes, a produção média é fubá. E não seria diferente neste cenário, já que é pela arte que o homem fala.

“E ela bate ca bunda no chão”.

Vicejam, em grande maioria, nas principais vitrines do mercado, obras toscas, escatológicas, produtos da indústria cultural consumidos em escala exponencial. A música descartável, mercadológica, subiu dos infernos. As artes plásticas perderam Frida Khalo e Picasso, luminares contemporâneos, herdeiros dos grandes gênios. Os pincéis repousam sobre a mesa, inutilmente.

O primeiro romance moderno, Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, já beira meio milênio e nada há que lhe chegue perto.

A frase poderia ser do alemão Artur Schopenhauer, diante do acervo planetário: o homem anda para trás. E corrobora o pessimismo do cientista, o best seller que faz uma resenha impecável do tempo presente, do autor Yuval Noah Harari,  israelense, que acaba de lançar o livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”. Segundo ele, “hoje, no Mundo morre mais gente por suicídio do que por homicídio; por doenças decorrentes da obesidade do que de fome. O açúcar se transformou em arma mais letal do que a pólvora”. É a interminável repetição dos desígnios do deus vingador e da voracidade humana.

As vítimas de hoje são descendentes das do passado e sucumbem de causas avessas.

Está decretado o fim do humanismo e instaurada a nova religião, fundamentada sobre a tese do desenvolvimento econômico, que tudo explica. As catedrais serão os portais de entrada do Paraiso. Fiscal.

 

0

Em nome do pai, Clarissa responde críticas de Índio a Garotinho

 

Apesar de poupada das muitas críticas feitas ao ex-governador Anthony Garotinho (PR), a filha deste, Clarissa Garotinho (PR), tomou as dores do pai e usou a democracia irrefreável das redes sociais para responder (aqui) ao colega Índio da Costa (PSD).

Em entrevista publicada hoje (aqui) na Folha, Índio disse que a política de Garotinho é “antiquada” e feita “para manter o pobre na pobreza”. Falando em nome do pai, e fiel ao mesmo estilo, Clarissa tomou a liberdade de sugerir uma pergunta ao entrevistado:

— Índio, se você pensa tudo isso do Garotinho por que foi buscar o apoio dele na sua derrotada eleição para prefeito do Rio?

Como Índio, Clarissa é deputada federal licenciada para ocupar uma secretaria no governo municipal de Marcelo Crivella (PRB) no Rio. Índio, que exigiu que Garotinho não integrasse o governo como condição para apoiar Crivella no segundo turno, ocupa a secretaria de Urbanismo, Infraestrutura e Habitação. Nomeada por Crivella com o sobrenome de Matheus, para esconder o Garotinho, Clarissa está à frente da secretaria de Desenvolvimento, Emprego e Inovação.

Abaixo, a íntegra da resposta da secretária carioca:

 

 

0

“A política de Garotinho é manter o pobre na pobreza”

 

Por Aldir Sales e Aluysio Abreu Barbosa

 

Deputado federal em segundo mandato, do qual se licenciou para ser secretário municipal do governo carioca Marcelo Crivella (PRB), Índio da Costa esteve em Campos na última quarta. Como presidente estadual do PSD, ele fechou o apoio do partido ao governo Rafael Diniz (PPS) em Campos. E garantiu que os vereadores da legenda, seja o afastado Jorge Magal ou a suplente Joilza Rangel, terão que caminhar dentro dessa orientação. Índio também confirmou sua pré-candidatura a governador em 2018, falou sobre a “situação catastrófica” da Uenf e analisou os governos Temer, Dilma, Lula, Pezão, Eduardo Paes e Rosinha. Ele centrou fogo no que o lulopetismo fez com o país, naquilo que o PMDB fez com o Estado do Rio e no que os Garotinho fizeram por onde passaram.

 

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã – Em sua carta de apoio a Marcelo Crivella (PRB) no segundo turno da eleição a prefeito do Rio, você afirmou que não aceitaria o ex-governador Anthony Garotinho (PR) em nenhuma secretaria. Mas aceitou sua filha, deputada federal Clarissa Garotinho (PR), na secretaria carioca de Desenvolvimento, Emprego e Inovação. Não foi uma contradição? Por quê?

Índio da Costa – O Partido da República deu apoio à candidatura de Crivella através da articulação feita com a Clarissa. Nenhum filho pode responder pelos atos de seus pais. Pai é uma coisa, filho é outra coisa. Depois você pode até perceber ou não o conteúdo, se a forma de trabalhar é similar de um e de outro. Mas isso não quer dizer que você deva penalizar alguém da família por conta de um ou de outro. De fato, foi isso. A preocupação era: a política populista estabelecida no Estado do Rio de Janeiro durante um bom período, e que foi exercida com muita clareza pelo Chagas (Freitas, governador da Guanabara de 1971 a 1975 e do estado do Rio de Janeiro, de 1979 a 1983), mas depois vários políticos seguiram nessa mesma direção, gerou o caos que a gente vive hoje. A administração do Garotinho, sem sombra de dúvidas, foi uma administração populista e, consequentemente, sem fazer contas do funcionamento do governo. Dívida de governo se paga, não se rola. De quem eu tinha informação concreta do modelo de política, de gestão, era do Garotinho, não da Clarissa. O que eu fiz foi mais ou menos dizer o seguinte: acho melhor o Freixo perder a eleição do que o Crivella. Segundo turno é binário, você escolhe um ou outro. Eu fiz o apoio àquele que achei que era melhor para o Rio de Janeiro. E dentro dessa opção tinha o risco muito grande do populismo do Brizola se incrustar na Prefeitura do Rio através do Garotinho. Na verdade, o populismo do próprio Garotinho, até por ser mais aguçado do que do Brizola. O Brizola tinha estrutura, pelo menos, ele poderia fazer um governo com algumas ideias que eu pudesse não concordar e, até hoje, algumas delas eu não concordo, outras sim, mas não era desestruturante como o Garotinho. Por isso eu digo: te dou apoio (a Crivella), mas você não pode colocar Garotinho no governo. E naquele momento, também estava atendendo a uma demanda do meu eleitor, que preferia mais ao Crivella do que ao Freixo, então aquele movimento era importante, mas eu não podia misturar com Garotinho.

 

Folha – Você foi bem claro à crítica ao populismo que entende ser o estilo de Garotinho. Mas embora a tenha nomeado como Clarissa Matheus, com o cuidado de não usar o Garotinho no nome da secretária, Crivella chegou a participar de cantoria com a família Garotinho na reabertura do Restaurante Popular no Rio. Como vê essa relação?

Índio – O Restaurante Popular foi uma política pública do governo dele, a Clarissa resolveu fazer isso na Prefeitura, teve o apoio do prefeito e, no dia da inauguração, ele foi lá. Não quer dizer que esteja participando do governo por conta disso. Minha preocupação era de que quisesse governar, por ele ser “ativo”, digamos assim, que ele pudesse querer governar o Rio de Janeiro, embora o prefeito eleito não fosse ele ou a filha dele. Essa carta está sendo cumprida na íntegra e com muita transparência pelo prefeito Crivella. Não só não colocou o Garotinho no governo como ele não tem cargos indicados nas diversas secretarias do governo e, como outra preocupação que eu tinha, de não transformar o governo na filial da igreja (Universal do Reino de Deus, da qual Crivella é bispo licenciado). E ele não fez isso. Se pegar o secretariado, os superintendentes da Prefeitura como um todo, não é um espelho da igreja.

 

Folha – Ainda na eleição a prefeito do Rio, Crivella foi ao segundo turno com 27,78% dos votos do primeiro, junto com Marcelo Freixo (Psol), que fez 18,26%. Você fez 8,99%, atrás de Pedro Paulo (PMDB), com 16,12%, e à frente de Osorio (PSDB), com 8,62%. Como vocês três dividiram o mesmo eleitorado de centro, não foi um erro a separação, já que juntos somaram 33,73%, à frente de Crivella e Freixo?

Índio – O erro se deu, na verdade, na divisão da minha candidatura e na candidatura do Osorio. Nós dois queríamos fazer uma oposição muito clara ao PMDB. Achamos que esse tipo de política já tinha se esgotado, que era um governo que não funcionava, então houve um esforço muito grande das candidaturas para combater a maneira de fazer política do PMDB. Tentei consenso com o PSDB o tempo todo, ofereci não só o vice, como o espaço concreto para poder governar junto, inclusive de olhar para frente, de um ser prefeito e depois outro candidato a governador. Mas o PSDB tinha uma linha de querer colocar o 45 na televisão. Eles tinham todo direito de fazer isso. E o que acabou acontecendo foi que a gente se dividiu. A hipótese de você colocar a minha candidatura junto com a candidatura do Osorio era real. A hipótese de se juntar com o PMDB era zero.

 

Folha – O PSD e o PSDB sempre estiveram afinados.

Índio – É, o PSD é um partido de centro, não tem dificuldade com os partidos. A dificuldade maior que eu tenho é com o PSOL, o PT, a extrema esquerda.

 

Folha – Considera o PT de extrema esquerda?

Índio – Não, extrema esquerda é o PSOL. O PT acabou tendo, através do Lula, uma social-democracia até de centro-direita. O que acontece no caso específico do PT é que uma coisa é o Lula e outra coisa é o PT. O PT é um partido muito mais de esquerda do que o Lula. O Lula começou a executar diversas políticas até liberais. O projeto econômico todo dele é continuidade de Fernando Henrique.

 

Folha – Você é pré-candidato a governador? Além do apoio do prefeito Marcelo Crivella (PRB) e da afinidade com José Serra (PSDB), de quem foi vice na disputa à presidência da República em 2010, o que mais é preciso para consolidar uma candidatura? Como obter alianças em municípios do interior, a exemplo de Campos?

Índio – O que é preciso é um conjunto de ideias que represente o desejo da sociedade num momento de muito vazio. As pessoas estão sem rumo, desesperançosas, assustadas, irritadas. Elas chegaram a um nível de irritação muito acima do que a gente podia imaginar. E têm razão para isso. A qualidade dos serviços é muito baixa, o imposto que se paga é muito alto, os políticos envolvidos no maior esquema de corrupção já visto na Terra. Não conheço algo em outro país que seja tão sistêmica, endêmica e estruturada. A ideia é lutar contra esse modelo. E como você trabalha contra esse modelo? E que modelo é esse? Primeiro, do “governo grátis”. Não existe governo grátis, alguém paga a conta. Um sujeito que tem 65 anos de idade,  ele deve ter gratuidade no ônibus por ele ter 65 anos ou por ser pobre? Por ter passado dos 65 precisa de ônibus gratuito? Pessoas que têm 70 anos de idade, muito ricas, elas entram no ônibus e não precisam pagar, mas quem tem 30 anos e não tem condição nenhuma de pegar o ônibus para procurar trabalho não pode ir porque não tem 65 anos. Repensar a estrutura do modelo de governo é fundamental para se ter um governo diferente. Não quer dizer que você vai ter insensibilidade, mas precisa ter sensibilidade com aqueles que precisam.

 

Folha – É pré-candidato ao governo do Rio de Janeiro?

Índio – Sou. Com muita vontade. Vou disputar as prévias do meu partido, há um movimento de consenso. De qualquer maneira, só posso ser candidato depois das convenções, mas sou pré-candidato, sim. E sou pré-candidato a disputar contra esse modelo de política que, tanto o Garotinho quanto o PMDB, ele inclusive foi do PMDB, aplicam no Rio de Janeiro hoje.

 

Folha – Na pesquisa do Instituto Paraná, divulgada mês passado, Crivella (27,8%), o senador Romário (14%) e o ex-prefeito Eduardo Paes (9%) apareceram liderando a consulta estimulada na corrida ao Palácio Guanabara. Sem Crivella e com Garotinho (9,5%), você ficou com 6%, atrás dos três, além de Bernardinho (PN), que teve 9%. Como vê esses números?

Índio – Acho que está ótimo. Por que está ótimo? Primeiro, o Romário não é candidato. Segundo, eu não sei se o Garotinho vai conseguir ser candidato. Terceiro, que eu não sei se o Eduardo é candidato e o Bernardinho não é candidato. Então, por enquanto… Romário não quer disputar eleição, o Garotinho quer, mas não sei se ele vai poder.

 

Folha – Por que não?

Índio – Não tem um bando de questões que ele está tendo de resolver? Não sei se ele está apto a ser candidato ou não. Tomara que esteja. Eu prefiro ganhar a eleição disputando do que ter de ganhar com decisão judicial. Acho que esse modelo do Garotinho acabou, faliu, está mais do que comprovado de que não funciona. Ele acabou levando uma lavada na própria cidade dele, em Campos (na eleição a prefeito de 2016). Por que ele perde em Campos? Porque a política que ele faz é antiquada. E a gente vai ter agora, em 2018, vamos ter uma divisão entre a política que se praticou e a política que se quer praticar no Brasil. E quem vai decidir é o eleitor. Qual tipo de política ele quer. A partir dessa decisão, que só se dá pelo voto, é que você vai ter um novo momento do Brasil.

 

Folha – A política de Garotinho seria antiquada em quê?

Índio – Em metodologia. Você querer garantir o voto através da compra direta. Todo tipo de apoio direto que você dá, quando ele não está focado naquele quem realmente necessita, para ele realmente poder se reestruturar na vida e poder produzir, é uma maneira de você comprar o voto. Qual é a política do Garotinho? É manter a pessoa pobre na pobreza. É a maneira de que ele se beneficia. E tem que ser na pobreza dependente do Estado. Enquanto está pobre dependendo do Estado, para ele está bom. Na hora que a pessoa desenvolve e consegue produzir, ele perde voto.

 

Folha – Você disse que o técnico de vôlei Bernardinho não será candidato. Mas ele é a novidade nessa lista de pré-candidatos. Como político mais tradicional, como vê essa coisa do outsider, que triunfou em São Paulo, com a eleição do João Dória (PSDB) a prefeito, e na própria presidência dos EUA, com Donald Trump?

Índio – Quem diz é ele, não sou eu. Ele diz, a mulher dele diz, todo mundo diz. Olha, o Trump é um sujeito bilionário, gastou uma fortuna na campanha eleitoral para comprar opiniões, manipular informações, com foco no resultado eleitoral. Isso acabou, ainda mais no Brasil. No meio dessa confusão toda, não vai ter dinheiro para ninguém fazer essas campanhas milionárias. Segunda coisa, é que o João Dória, que é um amigo querido que eu tenho, ele não é um outsider. O pai dele era deputado, ele trabalhou na Embratur no começo da vida dele, fez toda uma carreira e o trabalho na empresa dele é de muito relacionamento político, fazendo uma ponte do público com o privado permanente. Cheguei a participar de alguns fóruns que ele prepara, inclusive, ele tinha um programa de televisão, em que entrevistava pessoas. E ele foi candidato pela estrutura do governo do Estado. Quer dizer, ele vai para a convenção com apoio do Geraldo Alckmin (PSDB, governador de São Paulo), ele ganha a convenção com apoio do Alckmin contra o José Serra, Fernando Henrique e o candidato deles, o Matarazzo. A estrutura política-partidária trabalhou em favor dele, então ele não é um outsider. Outsider é um sujeito, um empresário aqui de Campos que nunca fez política e decide ser candidato. Acho que os outsiders podem contribuir para o debate, mas governo não pode ser brincadeira. Uma pessoa que não tem experiência em administração pública, até entender como aquilo funciona, vai levar dois, três anos dentro do governo. E governo não pode ser experimento. A pessoa tem que ter qualificação, se preparar. Eu fui secretário de Administração, fui secretário de Esporte, fui secretário de Meio Ambiente, hoje eu acumulo a secretaria de Obras, que é Infraestrutura, Habitação e Urbanismo, também cuido de toda parte de geologia da cidade, que é a GeoRio, a parte de recuperação dos equipamentos públicos, a RioUrb, e toda parte do IRPH, que é o patrimônio histórico. Fui vereador por três mandatos, deputado federal por duas vezes, relator de uma lei que mudou o Brasil…

 

Folha – A lei do Ficha Limpa.

Índio – A lei do Ficha Limpa. Sou uma pessoa que disputou uma eleição, não só para prefeito agora, mas presidencial, em 2010. Se eu fosse um político tradicional, eu não seria o vice do Serra. Se eu fosse um político tradicional, teria ficado ali, aumentado a minha votação de 100 para 200 mil votos depois de ser relator de uma lei que teve um enorme apoio popular. Político tradicional é o modelo que se usava e, inclusive aqui em Campos era praticado pelo Garotinho, de comprar voto. Você via aí o tempo todo como as pessoas faziam. Se fosse o Chequinho ou se fosse um modelo de compra de voto mais direto ou indireto, o modelo dele era esse. Eu estive aqui há 10 anos, quando (Garotinho) ainda era prefeito, talvez um pouco antes disso, fiz algumas reuniões, conversei com algumas pessoas e me lembro que a folha de pessoal estava absurdamente estourada. Ah, mas está estourada porque a economia depende do funcionamento da Prefeitura? Como não tem nenhum emprego, a Prefeitura tem que empregar, ponto. Se a Prefeitura tem que empregar porque não tem emprego, a Prefeitura não está fazendo a parte dela. A Prefeitura deveria atrair empresas e essas empresas gerarem emprego na região. Essa é, digamos, a boa forma de trabalhar do governante. Você tem que atrair as empresas, e, a partir daí, ter uma maior arrecadação e, consequentemente, uma maior produção de serviços. Se a Prefeitura vira a base de emprego de uma cidade é porque o prefeito não está trabalhando direito.

 

Folha – Especula-se que Eduardo Paes poderia trocar o PMDB pelo PSDB, para tirá-lo do páreo, já que os tucanos são afinados com seu PSD. Como vê essa possibilidade?

Índio – Acho muito pouco provável, porque o PSDB se sentiu traído quando o Eduardo Paes saiu de lá para ser candidato pelo PMDB, para entrar no governo do Sérgio Cabral. Hoje em dia, o Eduardo Paes está com 70% de rejeição. Tem muito pouca gente querendo que ele leve a imagem negativa de tudo que está acontecendo, a prisão de Sérgio Cabral, para dentro de uma candidatura. Eu escuto da cúpula do PSDB que isso não é uma possibilidade.

 

Folha – Então não vai acontecer?

Índio – O movimento pode acontecer da parte do Eduardo, mas não do PSDB.

 

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Folha – Em 2014, você recuou na disputa a governador e caminhou com Pezão (PMDB), na dobradinha com Aécio Neves (PSDB) a presidente. Arrepende-se desses apoios? Pode recuar novamente?

Índio – Não, eu não vou recuar. E o que aconteceu naquele momento, não foi que eu recuei, mas meu partido que não me deu apoio. Eu tinha, na época, 14 deputados estaduais e três deputados federais. Parte deles veio pela mão do PMDB. Era o PSD, um partido que não ameaçava. Aí tivemos três ou quatro deputados que o PMDB colocou dentro do nosso partido e não trabalhou para desmontar o nosso partido. O que aconteceu ali foi que o conjunto de deputados se reuniu e decidiu não me dar apoio, pois dependiam do governo do Estado. Então, eu não desisti, eu fui pressionado a desistir. E houve um pedido do presidente do meu partido, o Gilberto Kassab, de haver uma sinalização de não ter nenhuma traição no processo e a única sinalização era de fecharmos o apoio e de eu trabalhar um período no Estado. Fiquei dois meses lá no Estado para dar essa sinalização política. Eu me arrependo de ter ido para o Estado? Sim. Eu me arrependo de não ter sido candidato a governador? Infelizmente, não dependia de mim. Se dependesse, eu teria sido candidato e não teria desistido. O que acontece hoje que não acontecia naquela época: todos esses deputados foram embora. Para eu ser candidato a prefeito do Rio de Janeiro, o PMDB se juntou e pressionou a todos os deputados. Eles fizeram uma reunião, o Jorge Picciani, Eduardo Paes, Sérgio Cabral, Pedro Paulo, Pezão, e disseram que os deputados tinham duas possibilidades: ficar no PSD e apoiar o Índio ou sair do PSD. Se ficassem no PSD, seriam considerados inimigos do PMDB. E o partido ficou basicamente comigo como deputado federal e um deputado estadual que ia disputar a eleição em São João de Meriti. Os outros todos foram embora. Hoje não tem ninguém no partido que possa ter algum vínculo com o Governo do Estado ou qualquer outra força que me diga que eu não possa ser candidato.

 

Folha – Arrepende-se do seu apoio a Pezão e a Aécio Neves?

Índio – Não. Quais eram as opção naquela época? Crivella, Pezão e Garotinho. O Garotinho, de longe, era o pior para o Estado. O Pezão significava uma esperança de continuidade das UPPs. E a minha entrada para o governo tinha uma lógica política. Eu combinei com o PSDB que faria uma cunha para evitar a eleição do PT. Ninguém podia imaginar o Aécio ter feito o que fez. Eu estava defendendo uma posição ideológica diferente da do PT. A criação do “Aezão” (Aécio e Pezão) teve muito com a minha ida para o governo.

 

Folha – O que o Aécio fez, você diz sobre a denúncia da Lava Jato…

Índio – É, não imaginava aquela conversa dele com Joesley. Aquilo é deplorável, para ser gentil na palavra. O que aconteceu, na prática, foi que eu precisava fazer um contraponto e ter uma cunha em relação ao PT. E minha entrada no governo fez essa cunha. Mas eu não imaginava que o governo do Pezão fosse ser catastrófico assim. Ele não tem nenhuma aptidão para o Poder Executivo.

 

Folha – Está na hora do PMDB deixar o governo fluminense, onde está desde a eleição de Garotinho, em 1998?

Índio – E eles seguiram o modelo estabelecido pelo Garotinho. Esse modelo do “rolo compressor”, do poder econômico, da força do poder. A democracia se consolida na alternância de poder. O que acontece é que o PMDB está no poder há quase 20 anos, não alternou poder nenhum e dificultou o surgimento de novas lideranças. Ou era alguém que entrava no jogo mafioso do PMDB ou não tinha como disputar contra esse jogo. Todo esse projeto agora em 2018 tem ligação com esse contraponto muito claro ao que está acontecendo em nosso Estado. Acho que o Pezão é uma catástrofe para o Rio de Janeiro, acho que não tem governo, não tem governador. Com tudo que está acontecendo, as pessoas morrendo, tiro para todos os lados, Exército nas ruas e ele estava no spa. Não faz sentido nenhum, ele está em outra órbita. A melhor coisa seria o Pezão sair do governo e deixar o Dornelles concluir o mandato até o final de 2018. O Dornelles não quer mais a reeleição e pode fazer o trabalho que tem que ser feito e que não é fácil de ser feito. Tem que ter experiência e coragem. Com o governador acuado, é impossível de resolver o problema do estado. Eu disse, em dezembro de 2014, em uma conversa com Pezão, onde ele mostrou a dependência dele na relação com Picciani, Cabral e a estrutura do PMDB. Eu avisei a ele que iria quebrar o Estado e não deu outra. Estava na cara. Ou se fazia os ajustes que precisavam ser feitos em janeiro de 2015 ou chegaria em 2016 sem conseguir pagar aos servidores. E foi o que aconteceu. Isso é matemático, você não está inventando nada. Você pega a contabilidade pública e analisa. Gasta tanto, arrecada tanto, gasto não obrigatório tanto. Eles fizeram um aumento na área de pessoal considerando a arrecadação do petróleo para fechar essa conta. É uma coisa que nunca vi em lugar nenhum do mundo. Como você transforma uma receita eventual em uma despesa obrigatória? Deu no que deu.

 

Folha – Em Campos se fez muito isso também.

Índio – Aí foi o irresponsável do Garotinho que aqui vale tudo. Aqui, não, o modelo de governo dele. E a gente já viu no que dá.

 

Folha – Particularmente, como vê a situação da Uenf, sem verba de manutenção desde outubro de 2015, com três meses de salários atrasados de professores e funcionários, além do 13º de 2016 e do repasse aos alunos bolsistas?

Índio – Da mesma forma que vejo a Uerj, da mesma maneira que estou vendo as outras universidades. E não são só as universidades, são também os colégios, hospitais, postos de saúde. O Estado parou de prestar serviço.

 

Folha – Com todo respeito, mas não dá para pensar o Norte Fluminense sem a Uenf, dá?

Índio – E dá para pensar o Rio de Janeiro sem a Uerj? Se você olhar para o Supremo Tribunal Federal, tem três ministros que são ex-alunos e professores da Uerj.

 

Folha – Há na região uma dependência estratégica da Uenf.

Índio – Com certeza, mas o governo não tem estratégia, o governo acabou e esqueceram de avisar aos governantes. Eles não têm nenhuma condição de continuar governando.

 

Folha – A situação da Uerj é bastante exposta na mídia nacional. A Uenf não ganha tanta eco e vive uma situação…

Índio – É catastrófica. Eu estive lá. Fiz questão de ir para poder ver de perto o caos que está acontecendo.

 

Folha – A Uenf corre risco de fechar. O reitor Luis Passoni já alertou sobre isso (na quinta, a Aduenf decretaria greve na Uenf por tempo indeterminado).

Índio – É muito triste. A situação da Uenf é catastrófica. Mas existem soluções. Eu falava lá com alunos e professores. Fui fazer lá uma palestra sobre gestão pública. Foram ideologizando os serviços públicos, mas se eu sou uma pessoa que tenho capacidade de pagar a mensalidade ou de fazer alguma doação para a universidade, por qual motivo eu não posso? Hoje a lei me proíbe. Se eu tenho apoio da universidade para executar algum serviço. Constitui uma empresa a partir de uma ideia que extrai na universidade, por que ela não pode ter algum faturamento sobre isso? Por que não posso ter apoio privado a uma universidade que é pública? A ideologia diz que não pode, mas a universidade sequer está conseguindo funcionar adequadamente. Falta luz, ar condicionado, segurança, porteiro, papel higiênico. Falta tudo. É catastrófico. Tem solução, mas tem que pensar fora da caixa. Enquanto continuar transformando a ideologia em freio para soluções objetivas, é muito complicado.

 

Folha – O PSD tem um vereador afastado em Campos, Jorge Magal, e uma suplente que já assumiu cadeira na Câmara, Joilza Rangel. Apesar de envolvido na operação Chequinho, Magal se integrou à base de apoio do governo Rafael Diniz (PPS), enquanto Joilza está na oposição. Como o PSD fluminense vê essa aparente contradição em Campos?   

Índio – A questão do Magal é simples: se for comprovado que ele teve envolvimento na operação Chequinho e que ele comprou voto, ele será expulso do partido. Se for comprovado, pelo que entendi não foi, que ele não tem vinculação direta com isso, ele não será expulso do partido.

 

Folha – Já há uma condenação em primeira e segunda instâncias nesse sentido na ação eleitoral em que é réu, mas há um parecer favorável a Magal na ação penal.

Índio – A questão é a penal. Se, de fato, ele for condenado penalmente, tem que ser expulso. Se ele não for condenado penalmente, aí a discussão vai para o TSE.

 

Folha – E essa posição da Joílza? Mesmo sendo suplente, ela está na oposição.

Índio – Os partidos são múltiplos e hoje (quarta-feira, 02) eu tive uma reunião muito produtiva com o prefeito.

 

Folha – O que vocês conversaram?

Índio – Vamos trabalhar para apoiar o prefeito naquilo que o PSD puder fazer e contribuir.

 

Folha – E se Joilza voltar a assumir mandato e se mantiver na oposição? A incerteza jurídica é muito grande, já houve várias trocas.

Índio – O PSD vai apoiar o governo Rafael. Aí eu vou trabalhar politicamente para que ela apóie o governo. Acontece que, durante 30 anos, houve uma influência muito grande da família Garotinho. Durante esse tempo todo, quem fazia política tinha dificuldade de fazer política de oposição. Eles foram ocupando todos os espaços, da mesma forma como fez o “rolo compressor” nesse sentido, como fez o PMDB no Estado do Rio de Janeiro.

 

Folha – Você disse que esteve com o prefeito e na Uenf. Qual foi sua agenda em Campos?

Índio – Minha agenda básica foi trocar experiências com o secretário de Obras. Aqui, como no Rio de Janeiro, o secretário de Obras acumula também Urbanismo, Habitação e eu vim falar sobre regularização fundiária e um projeto estratégico de desenvolvimento urbano para a cidade de Campos. A regularização fundiária garante a posse das pessoas. Acontece que alguns gostam de fazer política mantendo o eleitor dependente deles, outros entendem a política como instrumento de libertação e é assim que entendo. Ela garante direitos e aponta caminhos. Muito mais na linha do ensinar a pescar do que dar o peixe. Objetivamente, você não tem uma cidade ou estado seguro se você tem as pessoas morando em uma casa que elas não sabem se vai continuar sendo delas. O título de propriedade é fundamental. Minha agenda básica foi essa, mas, como os voos daqui para o Rio de Janeiro têm horários mais espaçados, aproveitei para ficar e conversar com as pessoas.

 

Folha – E teve algum resultado prático dessa reunião?

Índio – Conversamos na direção de mandar uma pessoa do Rio de Janeiro para cá para fazer uma palestra aqui com o secretário de Obras. Uma pessoa especializada em regularização fundiária. Ela até participou do grupo que ajudou a regulamentar a medida provisória no Congresso. A Medida Provisória 759 abriu um enorme espaço para a simplificação burocrática da titulação. No Rio de Janeiro, estamos conseguindo R$ 100 milhões do BNDES para fazer isso. O que aumenta também a arrecadação da cidade. Na hora que você dá o título, a pessoa começa a pagar IPTU, ICMS, ISS.

 

Folha – Está acompanhando a “venda do futuro” de Campos, que se cumprida nos termos que os Garotinho pactuaram com a Caixa Econômica Federal (CEF) pode levar o município ao caos financeiro, talvez próximo ao que o Estado do Rio vive hoje?

Índio – Não estou acompanhando de perto, mas posso dizer que já existe um caos financeiro aqui. Só de restos a pagar nas obras, faltam pagar
R$ 130 milhões, foi o número que me deu o secretário de Obras.

 

Folha – Obras sem empenho…

Índio – Obras sem empenho. E um valor muito acima do que poderia. O que foi cometido aqui é crime.  Aliás, foi o mesmo que aconteceu na Prefeitura do Rio de Janeiro. O que o Eduardo Paes cometeu foi crime. Crime sobre a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas também crime de responsabilidade. Os órgãos de controle que têm que lidar com isso.

 

Folha – Você está falando de Rosinha ou do Eduardo Paes?

Índio – Dos dois. A mesma coisa. O Eduardo fez igual no Rio de Janeiro. Você não pode deixar um valor menor de restos a pagar do que o recurso que você deixa em caixa. E os dois fizeram a mesma coisa. No caso do Rio, o que parece que aqui foi similar, foi muito grave. Sumiu dos sistemas de controle, não tem registro na secretaria de Fazenda. Tiraram do sistema para cumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal, mas isso não quer dizer que a dívida tenha sido paga, pelo contrário. Nesse sentido, o Eduardo Paes e o Garotinho se assemelham.

 

Folha – Especificamente sobre a “venda do futuro”, o município está seguro por uma liminar que as procuradorias da Câmara e do município conseguiram virar no TRF 2 na última hora, que permite que a Prefeitura pague 10% dos royalties e das Participações Especiais. Você acha que o diálogo entre governo e a Caixa seria a melhor opção?

Índio – Tem que buscar um acordo. O que acontece na prática é que essa política de antecipação de recebíveis, dos royalties, como Garotinho adotou no Estado e aqui na cidade, é muito perversa. Você drena o futuro de uma cidade e executa no presente. E como quando você antecipa tem perda proporcional. Quando você antecipa, estou deixando de receber o quanto ele vale, estou dando um desconto para aquilo. Isso é típico de administrador irresponsável. Eu gasto tudo hoje e não deixo nada para ninguém amanhã.

 

Folha – O momento político do país é muito delicado. Você é deputado federal eleito. Qual seria seu voto em relação à autorização da Câmara para investigar Temer (negado na noite de quarta)?

Índio – A melhor solução, independente de quem esteja na presidência, é você sanear a bagunça deixada pelo PT. E há um esforço muito grande do governo federal nesta direção. Essa política não pode mudar, independente do nome que esteja sentado na cadeira. Você pode até discordar de um ponto ou de outro, mas o ponto básico disso tudo é o seguinte: não existe um Estado funcionando arrecadando menos do que sua capacidade de gastar. E o que aconteceu a longo prazo é que, como eles explodiram com antecipações de recebíveis por todos os lados, gastaram muito mais do que poderiam gastar. Embora o Temer não tenha sido eleito, ele tem conduzido esse processo. É um presidente muito impopular, mas tem também um movimento muito grande feito pelos petistas, pelo pessoal que saiu do governo na época da Dilma. E de quem continuou com mandato, no caso dos senadores e deputados, mas sem o apoio do governo federal, que tinham antes. Era cheio de boquinhas. O que a população está sofrendo hoje, e o presidente é o Temer, é fruto de um governo em que ele era vice-presidente, mas que foi iniciado com Lula. Dizer que o Lula foi um bom governante, é não entender que foi ele quem iniciou a explosão que aconteceu agora. Ninguém explode ou reconstrói um governo em um ano de trabalho.

 

Folha – De maneira objetiva, se estivesse na Câmara, votaria a favor ou contra a investigação de Temer?

Índio – Eu não estou.

 

Folha – A pergunta é: e se estivesse?

Índio – Se estivesse, iria analisar com calma para entender o anseio popular. Ninguém deve ser impedido de ser investigado, a investigação tem que ser livre, mas é preciso ter cuidado para não deixar ter manipulação política. Estamos em uma crise econômica, crise política, crise financeira, crise moral, tudo junto. É um momento que exige muita responsabilidade. Agora se eu estivesse lá, eu fui relator da Ficha Limpa, é muito pouco provável que eu não votasse pela continuidade da investigação.

 

 

 

Página 3 da edição de hoje (06) da Folha

 

 

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

0

Artigo do domingo — Uenf parada é o nosso fracasso como sociedade

 

Entrega de cestas básicas para servidores ativos e inativos da Uenf na última sexta (Foto: Paulo Sérgio Pinheiro – Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa, Matheus Andrade Berriel e Paula Vigneron

 

Sem receber três meses de salário em 2017, nem ter até hoje quitado o 13º de 2016, a Associação dos Docentes da Uenf (Aduenf) decidiu em assembleia, na última quinta (03), paralisar as atividades da universidade por tempo indeterminado. Para você, leitor da Folha, a situação dramática da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) Darcy Ribeiro não é uma novidade.

Em 19 de abril, na coluna “Ponto Final”, onde é expressa diariamente a opinião do jornal, a comunidade era cobrada (aqui) a reagir ao desmonte da principal instituição de ensino superior da região. A vanguarda desse processo cruel, capital aos destinos do Norte Fluminense, era então apresentada no fechamento da Casa de Cultura Villa Maria por falta de luz. Após a viralização da notícia nas redes sociais, a cobrança da Folha aparentemente surtiu efeito: no dia 24 daquele mês, a luz da Villa foi religada (aqui).

Sem abandonar o caso, a edição dominical da Folha de 30 de abril trazia em sua manchete de capa um desabafo do professor Luis Passoni, reitor da universidade: “É difícil saber até quando manteremos a Uenf aberta”. Naquela edição, além de Passoni, foram ouvidos (aqui) os prefeitos de Campos, Rafael Diniz (PPS); de São João da Barra, Carla Machado (PP); e de Quissamã, Fátima Pacheco (PTN). Além deles, o presidente da Câmara de Campos, vereador Marcão Gomes (Rede), o deputado federal Paulo Feijó (PR), os estaduais Bruno Dauaire (PR), Geraldo Pudim (PMDB), João Peixoto (PSDC) e Gil Vianna (PSB) também se posicionaram sobre a gravidade do quadro — analisado ainda pelos professores Luciane Silva (presidente da Aduenf), Sergio Azevedo, Sérgio Arruda (ambos da Uenf) e Aristides Soffiati, além do universitário Gilberto Gomes, presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Uenf.

Não satisfeito com a repercussão política e acadêmica da crise na Uenf, a Folha apresentou a conta diretamente ao devedor. Numa entrevista exclusiva naquela edição de 30 de abril, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) também foi ouvido (aqui). Nela, afirmou duas vezes: “Reconheço a importância da Uenf”. Mas, de lá para cá, esse reconhecimento nas palavras de Pezão não se refletiu em seus atos. Se, então, já devia aos servidores da Uenf o 13º de 2016 e o salário de março de 2017, o governo fluminense quitou este último (aqui), é verdade, mas deixou de pagar depois os meses de maio, junho e julho aos servidores da universidade.

No domingo seguinte, em 7 de maio, a cobrança da Folha continuou. Uma entrevista com Luis Passoni foi publicada (aqui) em mais aquela edição dominical da Folha, na qual o reitor falava das promessas de Pezão diante da situação falimentar da Uenf, administrada sem verba de manutenção desde outubro de 2015.

Além de Passoni, a Folha também ouviu (aqui) naquela edição, dedicada à crise na Uenf, vários representantes da sociedade civil organizada e da comunidade acadêmica: Humberto Nobre, presidente da OAB/Campos; Jefferson Manhães de Azevedo, reitor do IFF; Fernando José Coutinho, presidente da Firjan no Norte Fluminense; Marcos Breda, coordenador regional do Sindipetro; Frederico Paes, presidente do Siserj; Hernán Armando Mamani, diretor da UFF-Campos; Elizabeth Landim, vice diretora do Isecensa; Inês Ururahy, reitora do Uniflu; Joilson Barcelos, presidente da CDL; Ronaldo Nascimento, presidente do sindicato dos Comerciários; Gustavo Chagas, diretor do Isepam; Heitor Antonio da Silva, reitor da Uni-Redentor; Giselle Teixeira de Almeida, diretora da Universo; José Luiz Lobo Escocard, presidente da Acic; Tito Inojosa, presidente da Asflucan; Vitor Menezes, presidente da AIC; Edilbert Pellegrini, diretor da FMC; Rafanele Alves, presidente do sindicato dos Bancários; e João Waked Filho, presidente da Carjopa.

Apesar de toda a mobilização em torno da Uenf, o pior chegou na última quinta-feira. Com servidores e professores da universidade tendo que socorrer à doação de cestas básicas para poderem comer, a Aduenf decretou a greve até que as dívidas do governo estadual sejam quitadas. Abaixo, nos relatos de dois jovens jornalistas da Folha, que cobriram o caso na quinta e na sexta, duas análises são precisas para descrever a situação atual da mais importante instituição de ensino superior do Norte Fluminense: a roda gigante que travou com toda a Uenf e a região na parte inferior de um “brinquedo” sem nenhuma graça, e do nosso doloroso fracasso enquanto sociedade, impotente diante de professores universitários passando fome:

 

“A assembleia do corpo docente da Uenf que definiu o início da greve, logo após o início do segundo semestre de 2017, foi uma das coisas mais tristes que já presenciei. Vi estudantes se manifestando por quererem estudar, e professores, dentro de seus totais direitos, discutindo contra isso. Não porque não querem trabalhar; mas porque não dá mais. Quatro meses não são quatro dias. O descaso do governo com os servidores é total. Na mesma assembleia, vi professores se emocionarem pedindo apoio dos alunos, pois se dedicam para que estes sejam futuros professores e torcem para que eles não tenham que passar pelo que os atuais estão passando. Vi uma aluna falar em democracia e ser impedida de se manifestar caso quisesse continuar no auditório. Afinal, a reunião era de docentes. Nas reuniões de diretório acadêmico, também por questão de ordem, haverá o troco; será a vez dos professores engolirem o significado de democracia. Isto, dentro de uma universidade pública.

O momento da educação superior pública brasileira é como uma roda gigante em que só foram ocupadas cadeiras próximas, em apenas um lado do ‘brinquedo’. Já teve época em que todo mundo estava lá em cima, na adrenalina, com medo de cair. Hoje, o ‘brinquedo’ travou com todo mundo embaixo. Professores e alunos, lado a lado, com desejos parecidos, mas, por ora, rivais. Enquanto os mais experientes querem descer e protestar contra os ‘proprietários do parque’, os mais novos, no auge da juventude, só pensam em ver a roda voltar a girar logo, nem que seja em velocidade lenta, só para terem a oportunidade de viver a aventura chamada aprendizado. E, em meio a isso, ainda, os demais funcionários de apoio, que fazem a máquina funcionar. Todos sem previsão de retorno. O medo da vez é que o ‘brinquedo’ não ligue mais. Neste ‘parque do ensino’, são os servidores quem fazem a diversão”.

(Matheus Andrade Berriel, jornalista)

 

“Tenho acompanhado, bem de perto, o dia a dia dos servidores da Uenf, em Campos. Ouço seus relatos, vejo as dificuldades e, também, a nobreza com que abraçam a causa dos que estão em situações mais alarmantes. São três meses de salários atrasados e a falta do 13º salário. Não há previsão para a regularização do pagamento. Na noite de ontem, os docentes da instituição optaram, assim como a Uerj, por greve. Tempo indeterminado. Não há condições de manter o funcionamento da universidade sem verbas.

Na manhã de hoje, primeiro dia de greve dos professores, estive na Uenf. No local, aposentados, pensionistas e servidores estaduais, que estão passando fome, se reuniram para ter acesso às cestas básicas, cujos produtos têm sido doados pelos campistas. Entre conversas paralelas, ouço mais um pouco sobre os transtornos. Imediatamente, penso em como é a realidade desses companheiros, próximos a mim, que enfrentam todos os tipos de dificuldades — incluindo falta de dinheiro para transporte e cuidados básicos.

São pessoas que se dedicam/dedicaram às suas profissões; que ajudaram a construir uma realidade melhor para a nossa cidade; que se entregaram ao projeto idealizado por Darcy Ribeiro por acreditarem em suas propostas. Observar o estado crítico em que vivem esses trabalhadores, junto à destruição de seus sonhos, me enfraquece. Desestimula. Traz incredulidade. Sensação de impotência. Olho ao redor e noto que, sim, todos nós, brasileiros, estamos anestesiados com tapas e socos que surgem de diversas direções. Enquanto isso, enquanto nós, os ‘de fora’, estamos paralisados pelos choques, eu vi, hoje, uma demonstração de nobreza e amor ao próximo em cada cesta doada a quem não tem força, nem comida, nem dinheiro, nem fé.

Fracassamos. E dói assistir a esse fracasso.

‘Maria, Maria

É o som, é a cor, é o suor

É a dose mais forte e lenta

De uma gente que ri

Quando deve chorar

E não vive

Apenas aguenta’”

(Paula Vigneron, jornalista e escritora)

 

 

Capa da Folha da edição de 30/04/17

 

 

Capa da Folha da edição de 07/05/17

 

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

0

Chequinho reflete decadência de quem só comete erros desde 2014

 

 

 

Caricatura de si

Depois da sua atuação digna de filme de terror trash, no deprimente episódio da sua transferência do hospital Souza Aguiar ao Complexo Penitenciário de Bangu, em novembro de 2016, se tornou difícil para qualquer analista sério tentar enxergar o limite do ridículo no ex-governador Anthony Garotinho (PR). Em lives postados nos Facebook, como o dele simulando se exercitar numa esteira, com a camisa do Flamengo sobre a pança proeminente, ou em sua própria cama, na qual dizia padecer de febre, tentar enxergar Garotinho além da caricatura histriônica que ele criou para si, é tarefa cada vez mais complicada.

 

Apoio a quem demitiu

Na quarta, o ex-governador foi pessoalmente a Brasília, onde chorou suas mágoas como réu penal da operação Chequinho no ombro conhecido do relator do caso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Tarcísio Vieira de Carvalho Melo, ex-advogado da ex-prefeita Rosinha Garotinho (PR). Pois ontem, no mesmo dia em que destitui o grupo advogados contratado para defendê-lo na Chequinho, o segundo em menos de um mês, Garotinho publicou em seu blog um mandado de segurança impetrado pela Comissão de Prerrogativas da OAB-RJ, em defesa dos mesmos advogados que não só demitiu, como proibiu de falarem sobre o caso.

 

Desde 2014, só erros

O que leva um réu a tornar público a defesa institucional de advogados no mesmo dia em que estes foram demitidos pelo próprio réu? Além de deixar a OAB-RJ numa situação embaraçosa, numa defesa que perdeu objeto, a cortina de fumaça criada por Garotinho revela seu desespero diante da proximidade da sentença da Justiça Eleitoral de Campos. Entre seus próprios seguidores, ele já é questionado sem o mesmo temor de outrora. Critica-se as decisões de um líder que, desde o fracasso da eleição a governador do Rio em 2014, na qual não foi nem ao segundo turno, só tem cometido erros.

 

Os erros

Garotinho errou quando apoiou Crivella no segundo turno a governador, que o atual prefeito do Rio perderia em cinco das sete Zonas Eleitorais (ZEs) de Campos. Errou quando se tornou secretário de Rosinha e perdeu qualquer constrangimento em governar no lugar da esposa. Com sua enorme rejeição, errou quando não submergiu na eleição a prefeito de 2016, conduzindo seu grupo à derrota, novamente sem segundo turno, em todas as ZEs do município. Errou ao achar que, depois da Lava Jato, da qual a Chequinho é consequência inequívoca, os políticos brasileiros poderiam se perpetuar no poder à base de compra de voto.

 

Apogeu e queda

Quase tudo que veio na política goitacá, desde 1988, orbitou em torno da gravidade de quem ali se elegeu prefeito pela primeira vez. Passaram-se quase três décadas antes de Campos ter um governante, Rafael Diniz (PPS), não egresso do garotismo. No seu auge, Garotinho se elegeu governador, em 1998, e fez Rosinha sua sucessora, em 2002. Foi o mesmo ano no qual ele quase foi ao segundo turno da eleição a presidente da República. Como outra figura polêmica que surgiu na segunda metade dos anos 1980, o ex-campeão peso pesado de boxe Myke Tyson, o início de Garotinho foi tão precoce e avassalador quanto a sua decadência.

 

Igualdade racial

Nesta quinta-feira (3), aconteceu a posse da nova diretoria do Conselho Municipal de Promoção de Igualdade Racial de Campos. O processo de reorganização do Conselho começou em janeiro deste ano, por iniciativa da sociedade civil. O objetivo do conselho é fomentar políticas voltadas para a igualdade racial e promover debates acerca do tema. Em uma cidade como Campos, onde a cultura afro é bastante forte em sua história, nada mais justo que movimentos se organizem em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.

 

Sem esbanjar

Quando o momento é de crise financeira, o mais adequado a ser feito é evitar gastos exorbitantes. Essa linha de pensamento deve ter sido seguida para a realização da 365ª Festa do Santíssimo Salvador, padroeiro de Campos, cuja programação de shows foi montada somente com artistas locais. Há quem critique a falta de nomes nacionais para atrair a população.

 

Com a colaboração do jornalista Mário Sérgio Junior

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

0

Festival de Massas e Vinhos com 23 pratos exclusivos a R$ 32,90

 

 

Prova maior de maturidade de uma sociedade é quando ela não espera o poder público para tomar iniciativas em seu próprio benefício. Dentro deste espírito, a Liga Gastronômica de Campos vai realizar, entre os dias 7 e 20 deste mês de agosto, a segunda edição do seu Festival de Massas e Vinhos. Ao todo serão 23 estabelecimentos comerciais participando, todos com pratos exclusivos servidos pelo preço único de R$ 32,90. Para acompanhar, o vinho tinto português Encostas de Penalva sairá por R$ 39,90 a garrafa.

A Liga Gastronômica de Campos é uma instituição composta por empresas do setor de gastronomia de Campos. Sua função é auxiliar os empreendedores do segmento diante às dificuldades impostas pela crise financeira do país, qualificar e otimizar o aproveitamento de oportunidades de forma coletiva. A Liga conta com o apoio do Sebrae/RJ para manter sua estrutura associativista, por meio de um modelo de gestão compartilhada.

Abaixo, conheça os pratos que serão servidos por cada estabelecimento e faça a(s) sua(s) escolha(s):

 

 

 

 

 

 

 

Aqui, o Chistiano Abreu Barbosa, sempre atento às novidades dos empreendedores do município, foi o primeiro a anunciar o II Festival de Massas e Vinhos nos blogs do Folha1

 

0

Ricardo André Vasconcelos — Mais do mesmo no pós-Temer

 

Com os chefes tucanos e Lula fora do páreo e a eleição de 2018 pode ter dois jovens candidatos à Presidência: João Dória Júnior e Fernando Haddad. Um Emmanuel Macron brasileiro?

 

 

O Brasil continua funcionando pelo impulso da gravidade. Não aquela que resulta do  momento político e econômico por que passa o país, mas a outra, descoberta por acaso, quando, reza a lenda, uma maçã caiu sobre a genial cabeça do cientista inglês Isaac Newton (1643-1727). Tendo os poderes Judiciário e Legislativo encerrado esta semana seu luxuoso e indefensável recesso de meio de ano e o Executivo comprando deputados feito bananas para manter na chefia do Governo um presidente investigado por corrupção, o país dá perigosos sinais de que não prescinde das instituições. Parece aquele empregado que de tantas ausências do trabalho desperta no patrão a certeza de sua inutilidade.

Nada mais claro e repito, perigoso, porque o agravamento da crise é tão previsível quanto o nascer do dia seguinte. O congelamento das despesas pelas próximas duas décadas (emenda constitucional 95/2016), já é visível no sucateamento das universidades; inexistência de recursos para pesquisas; agravamento da violência a partir do contingenciamento de dinheiro para as polícias e principalmente a condenação por inanição dos programas sociais. Hospitais sem condições mínimas de atendimento nem são mais novidade. Até programas de reconhecimento mundial, como o de distribuição de medicamentos para pessoas com Aids já está afetado e, em muitos postos de distribuição se constata falta de alguns antirretrovirais.

Entre o Estado paquidérmico e o Estado mínimo, a escolha no Brasil tem sido pelo Estado ineficaz, corrupto e incapaz de retribuir suficientemente aos cidadãos que pagam uma das maiores cargas tributárias do Planeta.

Fruto de uma conspiração para impor uma agenda econômica derrotada quatro vezes nas urnas, Michel Temer segue equilibrando-se na corda bamba utilizando sua habilidade mais conhecida: barganhar com baixo clero do Congresso Nacional, onde, entre os seus, exerce liderança ímpar, e pendurado em residual apoio do etéreo “mercado”. Chega a ser bizarro ver o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (o mesmo que foi presidente do Banco Central nos oito anos do governo Lula), anunciar que a equipe econômica será mantida num eventual governo Rodrigo Maia, Ou seja, Temer é mesmo um mero detalhe e não passa disso. Com rejeição popular beirando à unanimidade, Temer deve conseguir escapar da primeira denúncia da Procuradoria Geral da República, que deverá ser arquivada esta semana pela Câmara dos Deputados. Mas há promessas de outras e o erário não teria fundos suficientes para alimentar a fidelidade dos deputados.

Falando em Rodrigo Maia (DEM-RJ), tem sido elegante e republicano o comportamento do presidente da Câmara dos Deputados. Primeiro na linha sucessória a assumir o governo em caso de afastamento do presidente, o filho do atual vereador e ex-deputado constituinte pelo PDT brizolista,  César Maia, tem o tempo como seu aliado. Investigado na Lava Jato, mas longe ainda de uma denúncia, pode assumir a Presidência da República aos 47 anos e, sua atuação nos seis meses de mandato, pode determinar seu futuro político. Para assumir o governo, a Câmara precisa dar 342 votos para que seja aceita a denúncia do procurador Geral da República para que o STF processe Michel Temer por corrupção.

A favor de Maia tem o fato de que, ao contrário de Temer, a quem jura fidelidade como aliado e não como chefe do poder legislativo, não precisa conspirar para ganhar a cadeira presidencial. Basta esperar sentado. O problema é que, se assumir, Maia vai ter que convocar eleição indireta seis meses depois de assumir e, como não lhe interessa ser candidato a terminar o mandato iniciado por Dilma, o Brasil deve chegar a 2018 com quatro presidentes diferentes em quatro anos.

Quer prova mais robusta de que este país está cada vez mais funcionando por gravidade?

E por falar em 2018, o cenário hoje — por pura intuição — é de uma eleição tipicamente paulistana. Com Lula condenado em primeira instância e dificilmente não confirmada nas seguintes,  a disputa presidencial pode ficar entre o atual prefeito de São Paulo, João Dória Júnior e o ex-prefeito da mesma capital, Fernando Haddad. Uma versão “jovem” do velho jogo PSDB X PT, com ambos tentando carona na eleição do jovem presidente francês, Emmanuel Macron, de 40 anos. Os outros pré-candidatos devem fazer apenas figuração.

 

0

Ocinei Trindade — Um dia qualquer, mas único

 

 

 

Apesar da aparência e das repetições rotineiras, os dias não são mesmo iguais. Nunca. O tédio, de repente, pode ser. Fechado no apartamento cedido, o desânimo tomando conta, eis que vem  a ideia de caminhar para espantar a falta de espantos. Vejamos se há algo inusitado na rua. A praça e o parque do Jardim São Benedito, valei-me, quem sabe, trarão alguma inspiração para ludibriar o tédio e, quem sabe, fazer rir. Sim, dia sem risada é desperdício completo.

Caminho. Nas primeiras passadas, flores do ipê rosa se espalham sobre a calçada. A árvore vai se despindo totalmente. À esquerda, do outro lado da rua, a fila dos sem-comida começa a se formar em frente ao mosteiro das freiras enclausuradas. Como elas conseguem dar conta de cozinhar para tanta gente? E será mesmo que as pessoas ali não têm condições de se sustentar? E se um dia eu entrar na fila de famintos, desempregados e excluídos brasileiros? Sou mais um.

As calçadas estão com poucas pessoas que se exercitam ou cumprem tarefas pela rua. Atravesso sobre a faixa de pedestre, insisto para que motoristas freiem. Eles fazem cara feia. Se eu for atropelado, farei cara pior. Na primeira volta, vigilantes e lavadores de carros estão parados esperando vítimas ou fregueses. Dentro do parque, alguns praticam exercícios e jogam vôlei nas quadras de areia. Em plena manhã, e tantos homens desocupados, penso. Sou igual.

Se bem que, cuidar do corpo e da mente é também uma ocupação, exige esforço e dá trabalho. Nossa, como penso demais sem necessidade. Hoje, só ouvi minha voz quando cumprimentei o porteiro. Bom dia, guarda a chave para mim? Já estou na quinta volta pelas praças. Reencontro uma conhecida da época da faculdade, amiga de amigas minha. Como muitos campistas,  percebo, logo, que ela fingirá não me conhecer para não me cumprimentar. Passou de cara dura.

Na volta seguinte, eu a encaro indo bem em sua direção e sorrio para ela. Ela ri também, mecânica, salva pelos fones de ouvido. O que estaria escutando? Sertanejo feminino? Implico com músicas de grande sucesso. Parece uma epidemia. Mas tem coisas boas que grudam no ouvido. Ruins também, como funks proibidões. São sujos, mas o pior lado de nós se diverte com orgia de batida pobre eletrônica. Que mal há em ser pobre? Não ser rico. Será que a Gretchen é rica? Como posso indagar isso? Perto de mim qualquer um é rico ou bem pobre.

A cada nova volta em torno do parque, fico me questionando: onde estão as pessoas bonitas? Sempre me intriga quando alguém vai a um evento, festa ou cidade e comenta que só tem gente feia por ali. E toda vez que eu penso o mesmo, imagino que os feios também me consideram feio e fazem a mesma pergunta: onde estão os bonitos de Campos? E os de Lisboa? Nenhuma mulher bonita cruzou comigo pela rua. O único homem bonito que passou perdeu pontos na estética: exibia muitas tatuagens feito mulher rendeira cearense ou mafioso da Yakusa.

Dizem que vicia tatuar a pele. Para quê rabiscar tanto o corpo, meu senhor? Nem nasci na Polinésia. Pele lisa é uma coisa tão bonita. Comerciais de sabonetes estão entre os meus prediletos, como os das estrelas de Lux. Faz tempo que não vejo Lux na mídia. Acabou o Lux? Nossa, Ali MacGraw e Bia Seidl eram as mais lindas espumadas. Estou bem suado e merecia um banho de Lux ou qualquer outro sabonete perfumado. Vontade de sumir…na banheira.

Na volta para a casa, revejo um homem que sempre revira o lixo em frente ao edifício. Parece um desses catadores que reciclam tudo. Ele encontrou alguns quadrinhos com figuras de santos católicos. Só deu tempo de ver uma imagem de Nossa Senhora de Fátima. Hum, até Nossa Senhora foi parar no lixo. Ele parecia comovido com a imagem. Será que guardará? O homem não aparentava ser muito religioso, mas, talvez, fosse um ateu exemplar para muitos cristãos movidos a culpa e fanatismo. No lixo, a gente pode encontrar paz de espírito, quem sabe?

De volta ao mundo particular do apartamento, pensamentos explodem, fome e dor de cabeça se misturam. Redes sociais me mostram um pouco mais da ficção diária das pessoas. Banho, almoço, mais dor pelo corpo, sono, cama, desejos. Tudo se mistura e não sei por onde começo. Anoitece. Vou para a rua. Chove fino. Encontro uma amiga por acaso. Sou obrigado a ouvir minha voz. Sauna? Reencontro um querido casal de amigos no supermercado. Sou obrigado a ouvir minha voz novamente. Rimos um pouco. Antes, vi uma pichação em um muro da rua 13 de Maio, onde escreveram abaixo do clássico Fora Temer: bixa também pixa.  Achei super.

Fui para casa comer, ver a Geórgia (o país) pela televisão. Antes de dormir, fiquei pensando na dupla transgressão do pichador. Feriu a língua portuguesa e maculou o muro branco. Bicha também picha como qualquer pessoa? Sim, e com X. Aliás, qualquer pessoa pode ser bicha, ser bicho, ser bicheiro, ser bichado, ser bichona, ser bichérrima, ser bichíssima. Ser pessoa apenas. Deu vontade de pichar também dia desses em um muro lindo. O quê?  Sei lá. Vou pensar…

Seja homem, Fernando, ninguém é Pessoa à toa, mas bixa também pixa.

 

0

Igor Franco — “Por que você não faz um concurso?”

 

 

 

A pergunta do título deve ter sido a que mais ouvi nos últimos 12 anos. Desde que entrei na minha primeira – e não terminada faculdade de direito – ela é feita reiteradas vezes por pessoas diferentes, pelas mesmas pessoas, em ocasiões diferentes, nas mesmas ocasiões. Caso ela fosse repetida com a mesma intensidade de “por que não abre um negócio?” ou “por que não trabalha fora do país?”, provavelmente eu não estaria aqui dedicando minha atenção a este fenômeno tão típico do nosso país. Típico e explicável.

Historicamente, ser funcionário público sempre foi um ótimo negócio: prestígio social, estabilidade, remuneração acima da média de outros setores, regras especiais de aposentadoria e a brasileiríssima capacidade de conceder aos amigos e aos amigos de amigos acesso especial a determinados benefícios públicos.

Dados recentes apontam diferença salarial superior a 60% em favor dos funcionários do Estado. Essa diferença tende a aumentar: enquanto milhões de trabalhadores privados amargam um colossal desemprego, o presidente sancionou ainda este mês reajustes a categorias de servidores e já está pactuado novo aumento para funcionários do Executivo em 2018. Até 2013 os servidores possuíam previsão de aposentadoria integral sob a esdrúxula justificativa de que esta seria uma reparação pelo menor salário ao longo da carreira quando comparado com seus pares do setor privado. Apesar de descontinuada, essa jabuticaba nos legou um déficit previdenciário gigantesco, da ordem R$ 90 bilhões apenas em 2015.

Embora o sonho de uma remuneração diferenciada encante, essa não parece ser a principal explicação para o fetiche brasileiro com o serviço público. A estabilidade é a joia da coroa. É juridicamente possível demitir um funcionário público, porém, tarefa mais fácil talvez seja fazer gargarejo de bruços.

A estabilidade irrestrita é de difícil compreensão: deve-se admitir que carreiras de Estado como juízes, promotores, delegados, procuradores etc. precisam de proteção legal contra pressões políticas, mas não é possível justificar que a auxiliares, analistas e até mesmo a professores, médicos e policiais seja estendida a mesma garantia. A experiência mostra que a estabilidade garantida no Brasil mais favorece a baixa produtividade e o desincentivo à meritocracia que blinda servidores de perseguições. Exemplo radical da desproporcionalidade desta estabilidade versus interesse público pode ser visto a olho nu na crise fiscal do estado do Rio. Mesmo operando fora dos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal e habilitado a demitir servidores, o governo estadual recusa-se a fazer isso menos pela necessidade e mais pela pressão exercida pelos fortes sindicatos do funcionalismo estadual.

Regras especiais de aposentadoria, remuneração muito acima do mercado, ampla estabilidade e, impossível negar, baixa exigência de resultados tangíveis são incentivos enormes para que um batalhão de milhões de brasileiros bem formados tente, anualmente, uma vaga neste oásis em meio a um deserto de oportunidades e atrativos no setor privado. Ninguém me convencerá que centenas de milhares de pessoas dedicam milhares de horas de estudo para alcançar o sonho de ser um “Consultor Legislativo”. Num país carente de mão-de-obra qualificada, a concentração de profissionais com alto grau de educação formal num setor público de baixíssima produtividade é uma tragédia para o desenvolvimento econômico.

Não nego que muitos funcionários públicos – notadamente os da área de educação, segurança pública e saúde – na maioria das vezes atuam em condições sofríveis. Sanados estes problemas – em muito decorrentes da péssima governança pública, porém, as distorções permaneceriam e seriam, ainda mais, injustificáveis. Censurar os privilégios legais reservados aos funcionários não equivale a censurar especificamente os funcionários. A menos que tenham fraudado seus concursos ou descumpram com mandamentos éticos legais estão cumprindo apenas as regras que regulam seu trabalho.

Não há nada de mau em dedicar-se a melhorar de vida e buscar uma boa remuneração e estabilidade. Mas há algo de fundamentalmente errado num país que custeia tudo isso através de uma grande parcela da renda de outros profissionais mal remunerados e sem os mesmos privilégios.

 

0

Fabio Bottrel — Escravos do tempo

 

Sugestão para escutar enquanto lê: José Siqueira – Oração aos Orixás

 

 

 

 

 

 

Julho de 1.832

Vila de São Salvador

 

Cabrósio, visionário homem de negócios, desembarcava mais uma remessa de escravos na sua tão querida Vila de São Salvador. Após uma viagem extensa, vendia quase toda a remessa no mercado de escravos do Rio de Janeiro e reservava os mais valiosos para seus amigos de engenho nessa Vila que jurava, de pés juntos quando escutava: “Aqui sempre existirá escravos!” Mal havia chegado e os rumores saltavam aos cantos de seus ouvidos, em cada canto que saltavam seus pés, de que em breve nas terras brasileiras todos os escravos serão libertados, sem indenização ou coisa alguma para quem os tenha comprados. Esbravejava os senhores de engenho contra essa gente transgressora que visa destruir a economia dessa nação! – Cabrósio pestanejava. Pela primeira vez ao chegar à Vila, teve dificuldade de vender seus escravos, que acorrentados ao carro de boi, emagreciam e desvaliam cada dia mais seu abençoado lucro.

Barão Labareto Boafortuna, fiel cliente e maior comprador de escravos, recebeu Cabrósio de braços abertos em suas largas terras de braços fechados. Sentaram afastados da sede, onde os homens conversavam de negócios longe da família, ao redor de uma mesa no jardim, com um café que eterniza o sabor amargo a colher sempre nessa planície.

— Cabrósio, sabeis vosmecê que os boatos d’alforria correm nessas terras tão rápidos como corre o sangue em nossas veias… e seus escravos são caros… investimento muito ousado para um iminente dissabor dessa nobreza tão ignóbil.

Os pelos do homem de negócios se arrepiaram ao ouvir do barão sua recusa tão instantânea, via seu negócio falir, ali mesmo, nas breves palavras baronesas. Mas Cabrósio, bom comerciante que é, aprumou-se logo em sua mente uma maneira de persuadir Labareto Boafortuna. Afeito à ficção e ficcionistas, dejá pensou n’uma que lhe parecia muito mirabolante, mas sua lábia trataria de esmiuçá-la a ponto de transformá-la palpável.

— Grande barão Labareto Boafortuna, dileto amigo e irmão de negócios, se me honras o debate ao que lhe fora dito, é dever da amizade lhe informar que agoniza por algo sem sentido. És um visionário, nobre Boafortuna, olhe para essa paisagem não com o verde que sopra a juventude à nossa face, mas o marrom que apodrecerá essas folhas em tempos longínquos.

Veja, barão, o som que emana do berrante a unir essa gente é ensurdecedor, teremos não só escravos vindouros, mas transformaremos toda a Vila, que em breve se transformará na cidade Campos dos Goytacazes, em escrava. Em tempos distantes venderemos o futuro de todos que nela habitam. – Disse Cabrósio, tão confiante quanto podia.

— Mas que estapafúrdia! – Disse Labareto com os olhos arregalados. – Como seria possível transformar toda uma cidade em escrava, como venderia o futuro das pessoas, para quem??

— Ora, barão, não é difícil notar, quantas universidades vosmecê vê aqui brotar? Pr’onde pensas que vai o futuro dessa gente, que dejá é demente? Em breve o povo que habita essa terra será tão alienado que venderemos o futuro de seus filhos, antes mesmo de terem nascidos, seus pais e demais, forçando-os a trabalharem por anos para pagar. E digo mais, querido Boafortuna, eles nem saberão que são escravos, pois as algemas do tempo não estão aos olhos do corpo.

— Mas por que isso não existe em tempo presente?

— Por que estamos apenas começando o processo de alienação, no futuro haverá tanta corrupção, que honestidade perderá o sentido. De fato, naquele que a couber, será relevo para todos os demais erros.

Confie em mim, barão, aqui nunca deixará de ter escravos.

Labareto Boafortuna aquiesceu à lábia e aceitou de bom grado o sabor amargo do café que molhou as palavras videntes.

 

0

Crítica de cinema — Uma história de sobrevivência

 

 

 

 

 

“Dunkirk” — Grandes vencedores da II Guerra Mundial (1939/45), EUA e Rússia (herdeira majoritária da extinta União Soviética) são ainda hoje, 72 anos depois, com razão considerados os dois países belicamente mais poderosos do mundo. E o que você, leitor, diria se os dois juntos fossem derrotados em campo de batalha por uma outra nação da Terra, sozinha, com direito à conquista de Washington ou Moscou? E se tudo isso acontecesse no espaço de apenas cinco semanas?

Talvez só através desse paralelo se possa hoje dimensionar o que sentiu quem vivia no mundo em 1940, quando os exércitos da Alemanha entraram em Paris como conquistadores, marchando vitoriosos sob o Arco do Triunfo construído por Napoleão. Era 14 de junho daquele ano, exatos 35 dias após os alemães iniciaram a “Batalha da França”, na qual, além desta, tomaram Bélgica, Holanda e Luxemburgo, derrotando a reboque a BEF (British Expedicionary Force, Força Expedicionária Britânica).

Grandes vencedoras da I Guerra Mundial (1914/18), França e Grã-Bretanha eram consideradas em 1940, com igual razão, o que hoje são EUA e Rússia. Mas diante da revolucionária “blitzkrieg”, a “guerra relâmpago” baseada em mobilidade desenvolvida pela Alemanha, seus mais poderosos adversários, preparados para uma anacrônica guerra de trincheiras, não deram nem para a saída na Batalha da França.

Como, cinco anos depois, os alemães sobreviventes cruzariam a fita de chegada da II Guerra Mundial como perdedores, há que se supor que erros foram cometidos pela nação comandada pelo líder nazista Adolf Hitler. E o primeiro deles talvez tenha sido permitir a evacuação à Inglaterra, pelo Canal da Mancha, de quase 340 mil soldados aliados, ainda atônitos pela velocidade da sua contundente derrota inicial, encurralados sob bombardeio na praia francesa de Dunquerque. Se não fosse a retirada em segurança desses soldados, na “Operação Dínamo”, o resultado final do maior conflito da história humana poderia ter sido outro.

Se nunca saberemos, o certo é que o espírito cívico britânico foi fundamental ao resgate dos soldados presos na França. Com receio de perder seus navios de guerra necessários à resistência contra a invasão alemã considerada inevitável, mas que nunca houve (em outro erro capital de Hitler), a Grã-Bretanha segurou o leme da sua armada rumo ao único atracadouro de Dunquerque, alvo fácil para os bombardeios e torpedos inimigos.

Como a Inglaterra é uma ilha, numerosas eram suas pequenas embarcações civis, capazes de navegar sem problema nas águas rasas à beira mar. E, voluntariamente, cerca de 700 atenderam à demanda de sobrevivência militar do país. Vários foram os casos de barcos não maiores que uma sala que cruzaram o Canal da Mancha para resgatar os soldados aliados presos em Dunquerque. Sua única cobertura era dada pelo ar com os caças Sptifire da RAF (Royal Air Force, Real Força Aérea Britânica) que travaram combates encarniçados contra os caças Messerschmitt Bf 109 da Luftwaffe (Força Aérea da Alemanha) nos céus da França.

Por terra, ar e mar se desenvolvem e entrecruzam as células narrativas de “Dunkirk”, que estreou esta semana nas telas de cinema de todo o Brasil, incluindo as de Campos. E se basear em dramas individuais, ou de pequenos grupos, para neles evidenciar os aspetos mais trágicos do evento, é a grande virtude do diretor e roteirista anglo-estadunidense Chistopher Nolan, mais conhecido pela trilogia recente de “Batman” (2005, 2008 e 2012).

Se não há super-heróis em “Dunkirk”, o filme exemplifica o que há de melhor e pior no homem, de acordo com as circunstâncias extremas da guerra. Mais referências individuais nos três palcos da batalha, do que propriamente protagonistas, o jovem soldado britânico Tommy (Fion Whitehead) é o fio condutor da ação por terra, enquanto outro jovem, o piloto da RAF Collins (Jack Lowden), o faz pelo ar; cabendo o mar ao veterano navegador civil Mr. Dawson, interpretado por Mark Rylance — Oscar de ator coadjuvante por “A ponte dos espiões” (2015), de Steven Spielberg.

Dado interessante no uso de atores é o papel destinado ao talentoso Tom Hardy, mais conhecido como o protagonista de “Mad Max: Estrada da fúria” (2015), de George Miller. Se já estava irreconhecível ao ser dirigido por Nolan em “Batman: o Cavaleiro das Trevas ressurge”, quando o britânico engordou 14 kg para interpretar o vilão Bane, Hardy atua em “Dunkirk” com o rosto coberto quase o tempo inteiro, na pele do altruísta aviador da RAF Farrier.

Essa curiosidade no ocultar ocorre também com os “vilões” do novo filme: a não ser quando suas silhuetas surgem anônimas no horizonte de Dunquerque, para capturar o Farrier já desvelado na face de Tom Hardy, os alemães não são dados a ver em nenhum outro momento. E, como acontece antes do peixe assassino de Spielberg finalmente se revelar em “Tubarão” (1975), o suspense do desconhecido torna ainda mais temíveis os guerreiros do nazismo.

Como já deu inúmeras provas em sua filmografia, Nolan é capaz de prender o espectador na poltrona do cinema nos momentos de tensão. E a “cola” ainda parece mais forte quando se dimensiona que tudo aquilo, sob bombardeio nas areias desesperançadas de Dunquerque, no porão escuro e inundado de um navio torpedeado, ou na claustrofóbica cabine de um avião metralhado, aconteceu de verdade. E, em sua grande maioria, com jovens entre 18 e 20 e poucos anos. Seja pela excelência técnica do diretor, ou do roteiro que ele amarrou na tessitura do evento real, é difícil desviar os olhos da tela nos 106 minutos de “Dunkirk”.

No competente uso ficcional da realidade por Nolan, talvez caiba ressaltar o impacto psicológico causado pelo ecoar estridente da sirene no bico dos bombardeiros de mergulho Stuka. Pensado pelos alemães para levar terror ao inimigo antes mesmo das bombas caírem, com êxito fartamente testemunhado nos relatos dos sobreviventes, é uma viagem no tempo intimidante, mesmo a quem assiste em segurança no outro lado da tela.

O hábito do cineasta em trabalhar com atores veteranos, em papeis aparentemente menores, se mantém com o ator e diretor shakespeariano Kenneth Branagh na pele do comandante Bolton, baseado no capitão britânico William Tennant, personagem capital e real na retirada de Dunquerque. Como também aconteceu de fato uma das muitas cenas marcantes do filme: quando um soldado entra caminhando no mar, até sumir nas ondas de desespero da praia francesa.

Há quem não goste de filmes de guerra. Mas “Dunkirk” é, sobretudo, uma história de sobrevivência. De quase 340 mil jovens soldados e do mundo que suas vidas construíram.

 

 

Publicado hoje (30) na Folha da Manhã

 

Confira o trailer do filme:

 

 

0

“Homem-bomba” de Rosinha flagrado em protesto de lotadas que parou Campos

 

Com o fogo ateado na subida da ponte Alair Ferreira, o ex-vereador Albertinho (à esquerda, de camisa verde) filma com celular e tem livre trânsito entre os manifestantes que hostilizaram a equipe da Folha (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Enquanto filma com celular, Albertinho parece interagir com motoristas de lotada que voltaram a impedir o direito de ir e vir dos campistas (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Em outra curiosa coincidência, os motoristas de lotada que protestaram hoje contra a fiscalização do transporte ilegal queimaram pneus e galhos para fechar as vias de acesso dos campistas, exatamente como nas manifestações contra as duas cassações da então prefeita Rosinha Garotinho (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Resultado prático do protesto de hoje das lotadas contra a fiscalização: BR 101 completamente engarrafada até a primeira passarela do trecho Campos/Vitória (Foto: Folha da Manhã)

 

 

Por volta das 11h da manhã de hoje, até o início da tarde, mais um protesto de motoristas de lotadas, na subida da ponte Alair Ferreira, engarrafou o trânsito de Campos e atentou contra o direito de ir e vir da população. Contra a fiscalização do poder público municipal sobre o transporte ilegal de passageiros, cerca de 100 manifestantes atearam fogo em pneus e galhos na subida da ponte, do lado de Guarus, na rua Lindolfo Braga. O congestionamento de veículos se estendeu também à ponte General Dutra, até, aproximadamente, a primeira passarela da BR 101, no trecho Campos/Vitória.

Além de provocarem um nó no trânsito, os motoristas de lotadas hostilizaram verbalmente a equipe de reportagem da Folha que foi ao local.  Um manifestante chegou a dar um empurrão no repórter-fotógrafico, enquanto outro tentou impedir a filmagem do protesto, com a mão sobre o celular do repórter. Os agressores tiveram que ser contidos pelos policiais militares que estavam acompanhando a manifestação, além de alguns dos próprios manifestantes, que advertiram os colegas: “a imprensa é livre”.

A hostilidade com a equipe da Folha foi uma represália às críticas que o jornal fez (aqui) na coluna “Ponto Final” do último dia 22, depois que os motoristas de lotadas terem fechado (aqui) no dia anterior (21) três das principais vias da cidade: 15 de Novembro, 28 de Março e Beira Valão. Naquela ocasião, o protesto foi contra uma operação do Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT), com apoio da PM e da Guarda Civil Municipal, que fiscalizou carros e motoristas sem documentação, além do transporte ilegal de passageiros.

Sobre aquelas manifestações do dia 21, o “Ponto Final” bateu forte ao registrar uma estranha coincidência: “Pior do que a agressão de uma minoria ilegal a toda uma cidade, só a canalha apeada do poder que usou as redes sociais para comemorar esses atos de vandalismo”. Pois apenas uma semana depois, em outra estranha coincidência, quem foi flagrado hoje pelas filmagens da Folha, fazendo as suas próprias e aparentemente integrado à manifestação, foi o ex-vereador Albertinho (PMB), que ficou conhecido como “homem-bomba” do governo Rosinha Garotinho (PR).

Em outra curiosa coincidência, no mesmo dia 21 de julho daquelas três manifestações dos motoristas de lotadas, que deram um nó no trânsito de toda a cidade, Albertinho foi condenado a oito anos de inelegibilidade na Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), advinda da operação Chequinho, que investigou a troca de Cheque Cidadão por voto, na eleição municipal de 2016. Derrotado nas urnas e na Justiça, o “homem-bomba” de Rosinha hoje parou de filmar e sumiu entre os manifestantes, depois de perceber ter sido flagrado pela equipe da Folha em meio aos motoristas de lotada que voltaram a interferir no direito de ir e vir da população.

Na dúvida, confira no vídeo abaixo o livre trânsito do Albertinho entre os motoristas de lotada que hostilizaram a equipe da Folha depois de mais uma vez interromperem, impunemente, o trânsito de veículos em Campos:

 

 

 

 

“Tiro pela culatra” — Aqui, em seu blog hospedado no Folha 1, o jornalista Esdras Pereira registrou ontem o que chamou de “tiro pela culatra” do ex-vereador Albertinho. Na última terça-feira (25), o político garotista publicou (aqui) em seu perfil no Facebook o vídeo de um paciente sendo transportado pelas escadas no Hospital Ferreira Machado (HFM), atribuindo a cena ao atual governo municipal. Na verdade, como Esdras revelou, o vídeo foi postado (aqui) no YouTube desde 14 de outubro de 2016, em pleno governo Rosinha Garotinho.

 

Confira a cobertura completa na edição de amanhã (29) da Folha da Manhã

 

0