Alvo de denúncias a partir de flagrantes do blog feitos aqui e aqui, a balada da bandalha voltou a ocorrer livremente na rua Pero de Gois, no parque Tamandaré, nesta madrugada do feriado de Tiradentes, 21 de abril. Bem verdade que, após as primeiras denúncias deste “Opiniões”, a Guarda Civil Municipal fez algumas operações no local, mas só sobre carros particulares, sem a disputada concessão de transporte público.
Hoje, no entanto, como as fotos abaixo evidenciam mesmo a quem desconheça o Código Nacional de Trânsito, os táxis fazem fila dupla livremente pela noite e madrugada, à espera dos fregueses da casa noturna “Tacada Certa” dispostos a não se arriscar na “Lei Seca”. Assim, para driblar uma irregularidade, outra é permitida sem nenhum tipo de fiscalização. Por que será?
Embora tenha admitido ter conversado com o secretário de Governo de Campos, Anthony Garotinho (PR) sobre as eleições majoritárias de outubro no município, o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, confirmou agora há pouco pelo telefone que não haverá aliança da legenda do ex-governador Leonel Brizola (1922/2004) com o governo Rosinha Garotinho (PR) à sua sucessão
— A candidatura de Caio Vianna a prefeito de Campos é irreversível — garantiu Lupi, desmentindo Garotinho, que em programa na rádio do seu grupo de comunicação, no último sábado, afirmou que o PDT caminharia com o candidato governista a prefeito de Campos.
Abaixo, por escrito e assinada por Lupi, o que ele disse ao blog ao telefone:
Leia a cobertura completa do caso na edição de amanhã (21/04) Folha da Manhã.
Eduardo Crespo (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
“(O governo Rosinha Garotinho) Foi o melhor que Campos já teve; disparado! Foi fundamental a experiência dela como governadora do Estado do Rio. Seu maior marco foi o desfavelamento”.
“A oposição (em Campos) é vazia! São acusações pelas acusações, para confundir a opinião pública. Mas a sociedade, vide o que acontece hoje em Brasília, já está sabendo diferenciar isso”.
“Você não pode fazer uma pessoa se transformar num empreendedor, mas pode criar o meio para quem é empreendedor aparecer naturalmente. Esse é o nosso desafio!”
Essas foram algumas das declarações dadas pelo secretário municipal de Agricultura, Eduardo Crespo (PR), entrevistado de hoje na série com os pré-candidatos a prefeito de Campos. A íntegra da entrevista poderá ser conferida amanhã, na Folha da Manhã.
Com um pouco mais de intimidade com o Facebook, sobretudo naquilo que é produzido fora da taba goitacá em tempos de crise tupiniquim, é possível encontrar e mergulhar em textos mais densos, bem abaixo do meio palmo de profundidade sobre o qual costuma flutuar a democracia irrefreável das redes sociais. No muito de lixo produzido sobre aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) pela Câmara Federal no último domingo (17/04), garimpei dois textos que julgo irretocáveis.
O primeiro, aqui, é do jornalista Pedro Doria. O segundo, aqui, do diretor de operações da Conspiração Filmes, Ricardo Rangel. Mesmo que você, diferente de mim, não concorde com eles, exceção à reeleição defendida pelo segundo, tenha a certeza de que vale muito a pena conferir ambos:
Pedro Doria, jornalista
Chamar de Golpe é um desrespeito
Por Pedro Doria
Domingo foi um dia terrível.
Com Fernando Collor, nos permitimos acreditar que um impeachment era motivo de festa. Não é. Collor foi atípico. O normal é essa ressaca que vivemos.
Impeachment é uma ruptura. Collor vinha do nada. O PT tem história. Representa uma longa tradição brasileira que deu quatro presidentes: Getúlio, Jango, Lula e Dilma. Tanto Lula quanto Dilma também foram marcos. Um operário brilhante. Uma mulher.
Mas o Mensalão aconteceu.
O Petrolão.
As pedaladas para fingir que o país estava bem durante a eleição. O governar tratando mal o Congresso. A crise econômica. O desemprego. A lenta migração de brasileiros da Classe C de volta à pobreza. (Já começa a aparecer nas estatísticas.)
Impeachment é uma ruptura.
Mas está sendo feito por um Congresso eleito. Igualzinho a presidente. O último lance, se ocorrer, será concretizado por um Senado presidido pelo presidente do Supremo. (Ou pela presidente do Supremo, se ocorrer no segundo semestre.)
Uma sessão para destituir a presidente da República ocorre perante os presidentes do Legislativo e do Judiciário.
Nenhuma lei terá sido quebrada. E tudo está previsto pela Constituição.
Pedaladas não são crimes de responsabilidade? Quem decide se são ou não são os senadores. A Constituição lhes outorga esta responsabilidade. Não é coisa única do Brasil. Impeachment é assim em democracias presidencialistas. O Senado decide se crime foi cometido. E, se ele decidir, está decidido.
O julgamento não é jurídico. É político.
É o único caso previsto na Constituição para um julgamento assim.
É claro que é uma ruptura.
É claro que Eduardo Cunha.
É claro que Michel Temer.
É claro que Jair Bolsonaro.
É claro que Renan Calheiros.
Tudo é claro. E essas pessoas têm mandatos legitimados pelo voto popular. Votos que têm, cada um, peso igual aos votos de Dilma.
Inclusive Michel Temer. Cada um de seus votos é idêntico a cada um dos votos de Dilma.
O jogo está sendo jogado dentro das regras.
Não gosta das regras? Pressione para mudá-las. Precisam mesmo de mudança. Sente nojo da política? Justíssimo. Bem-vindo ao Brasil, ele é assim faz algum tempo. Os deputados sequer sabem concordância? Lula tampouco sabia e, do ponto de vista da gestão, foi um presidente de alta competência. Bolsonaro é um fascista? É. Eduardo Cunha é corrupto? O acúmulo de evidências fazem parecer que sim. Ainda não foi condenado em última instância. Os deputados que nós escolhemos o escolheram. O STF não o julga? Não julga os outros parlamentares envolvidos na Lava Jato? Cobre do STF. Neste caso, Legislativo e Executivo nada têm a ver com a morosidade do Judiciário.
Tenha nojo à vontade do que ocorreu no domingo.
Pessoalmente, não tenho nojo. Mas carrego comigo uma baita tristeza. Uma sensação de fracasso retumbante, de desânimo, de olhar para tudo em que acreditei quando bem mais jovem e ter o Brasil como o Brasil é esfregado na minha cara.
Mas foi tudo legal, realizado pelo Legislativo, sob supervisão do Judiciário.
Chamar de Golpe é um desrespeito com todos os brasileiros que tiveram de enfrentar 1930, 1937, 1964.
Ricardo Rangel, diretor de operações da Conspiração Filmes
A culpa é nossa
Por Ricardo Rangel
Sou a favor do parlamentarismo, do voto distrital misto, da cláusula de barreira, da criminalização do caixa dois e do estabelecimento de um teto para as contribuições de empresa (não sou a favor de sua proibição). Sou contra o voto obrigatório e contra o financiamento público das campanhas eleitorais. Não sou contra a reeleição, mas precisamos de mecanismos para coibir o uso da máquina governamental.
Não acredito, entretanto, que qualquer das medidas acima vá melhorar significativamente a qualidade de nossos políticos ou de nossa sociedade. Como vimos na votação do impeachment, nosso sistema político é melhor do que imaginamos e melhor do que merecemos: o Congresso Nacional é um retrato fiel da sociedade brasileira. Vi muita gente chocada com o baixo nível de nossos parlamentares, mas a mim o que choca é que tantos só tenham se dado conta disso agora.
Conheço gente de tudo o que é tipo, a grande maioria inteligente e relativamente bem informada. E que rotineiramente anula o voto; que não lembra em quem votou na última eleição; que defende intervenção militar (em alguns casos, “constitucional”); que vota em Bolsonaro; que votou em Eurico Miranda; e muita, muita gente que pretende votar em Lula em 2018, a despeito do mensalão, do petrolão e da recessão; tem gente até que leva Jandira Feghali a sério. Em geral, recusa-se a se reconhecer como elite (mas é) e reclama, com razão, que os políticos brasileiros não prestam.
Vimos um partido organizar e institucionalizar a corrupção no mensalão, de maneira a pôr o Legislativo na folha de pagamento do Executivo, num atentado à democracia, mas o reelegemos assim mesmo. Vimos esse partido fazer tudo errado na economia durante quatro anos, mas nos enganamos achando que tudo ia bem, e o elegemos uma terceira vez. Vimos a cúpula desse partido ir para a cadeia pouco antes de a Lava-Jato desvendar um novo e ainda maior escândalo de corrupção ao mesmo tempo em que a recessão se mostrava grave e inevitável, mas optamos por acreditar em um amontoado de mentiras, e elegemos, pela quarta vez, o partido que nos levava à ruína.
Alguém dirá, corretamente, que o principal problema é a Educação. Estamos todos, à direita e à esquerda, de acordo que a única coisa que pode nos tirar do subdesenvolvimento é a Educação, mas mantivemos no poder um partido que, durante doze anos, nada fez pela Educação e ainda apoia professores que afirmam que o ensino é ruim por culpa dos alunos e lutam com unhas e dentes contra a implantação da meritocracia no setor.
Agora olhamos para o futuro negro, repetimos que “o Brasil não merecia isso” (ora, se não merecia) e procuramos, como tontos, em quem pôr a culpa. Não, a culpa não é do PT. Nem dos políticos, nem dos partidos, nem de Dilma, nem de Lula, nem do Obama, nem da CIA, nem do neoliberalismo, nem da globalização. Nem do FHC. A culpa é nossa.
“Não perguntes por quem dobram os sinos. Eles dobram por ti.” (John Donne)
Vice-prefeito há quase oito anos de Rosinha Garotinho (PR), Dr. Chicão Oliveira (PR) é um dos nomes mais gostados dentro do grupo político do secretário de Governo, e seu primo, Anthony Garotinho (PR). Nem sua passagem pela secretaria de Saúde, sempre no olho do furacão, parece ter afetado essa sua imagem de conciliador. É apostando nela que ele projeta um governo de coalizão, caso seja escolhido candidato e se eleja prefeito em outubro.
Dr. Chicão Oliveira (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Governo – É o nosso governo, de Rosinha e Dr. Chicão. Tivemos um excelente primeiro mandato. O segundo, marcado pela conjuntura política e econômica adversa como em todo o país, podemos dizer que estamos fazendo um governo regular. Mas com todas as dificuldades e problemas, estamos conseguindo manter os benefícios sociais, como cheque cidadão e passagem a R$ 1,00 que voltou ontem (domingo). Assim como mantivemos em dia os salários dos nossos servidores. Mas o que pretendemos, caso tenhamos nosso nome escolhido, é fazer um governo de coalizão e participação, onde as decisões tomadas saiam de propostas elaboradas por toda a sociedade civil organizada
Oposição – Está fazendo o seu papel. Agora, Se o nosso governo é tão ruim, está deixando essa “terra arrasada” da tática russa da II Guerra (1939/45), por que a oposição quer tanto assumir a Prefeitura de Campos? Será que existem mesmo todos os problemas que eles apontam? Ninguém em sã consciência iria querer uma coisa ruim. Acho que eles se perdem quando só fazem críticas, sem apresentar propostas consistentes em qualquer campo da administração municipal. Espero que, para os debates, se nós candidatos formos, estejam preocupados em apresentar propostas fundamentadas para resolução dos problemas de uma cidade que não se separa de um estado e um país em crise.
“Independentes” – Considero uma outra forma de se expressar como oposição. Numa metáfora com a grave crise do país, é como se um deputado votasse na sessão de ontem (domingo) na Câmara Federal: “Nem Cunha, nem Dilma, sou independente”. Temos que ter posição na política, que se faz em posições coletivas, não na individual.
Vir de vice – Não há possibilidade, visto que a legislação eleitoral não permite a segunda reeleição para o mesmo cargo executivo.
Vice – Primeiro temos que trabalhar para sermos o nome de consenso do nosso grupo político, para disputar a eleição. A escolha do vice fará parte também das alianças político-partidárias.
Fogueira das vaidades – Posso responder por mim, não por outras pessoas. Da minha parte não existe nem uma faísca de vaidade, ainda mais fogueira. Agora, por aqueles que giram em torno dessa fogueira, que foram picados pela mosca azul, eu não posso responder. Eu só posso falar pela minha palavra e ação.
Dois candidatos governistas – Não vejo em que isso vá trazer benefício para o nosso grupo político. Acho que a chapa tem que sair uma: um único candidato a prefeito e um único candidato a vice-prefeito. Mas se essa estratégia acabar definida pelo grupo, por se entender que seja em seu benefício, eu não farei objeção.
Nominata – O nosso grupo político virá com um nominata muito forte. Acho que o povo irá reconhecer aqueles que trabalharam por ele nesse período em que estivemos no poder, tendo privilegiado aqueles que mais necessitam do poder público, os menos privilegiados.
Secretaria de Saúde – A assumimos em junho de 2013 e saímos em novembro e 2015. Reativamos o Estratégia Saúde da Família, antigo PSF, que estava desativado desde o governo (Alexandre) Mocaiber. Porque em Saúde temos que trabalhar com a prevenção das doenças. Instituímos a cobertura vacinal, reduzindo índices de doenças respiratórias, meningite, hepatite A, varicela e HPV. No Ferreira Machado, inauguramos mais 30 leitos na UTI, Pediatria, novo centro cirúrgico e sala de cuidados semi-intensivos. No HGG, inauguramos Pediatria e ampliação da UTI. Poderia ficar aqui enumerando ações na Saúde em benefício da nossa população. Mas, na Saúde, por mais que você faça, sempre estará faltando fazer muito mais.
“Entre nós, falta autocrítica, sobra autoengano”. A advertência foi feita pelo deputado federal Chico Alencar (Psol), em entrevista publicada (aqui) na edição da Folha do último domingo. E o que se viu na votação daquele mesmo dia, quando a Câmara Federal aprovou o impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) por 367 votos favoráveis, 137 contra, sete abstenções e duas faltas, confirma que a ressalva do deputado foi ignorada de todos os lados, inclusive pelo próprio. Como continuou a ser nas manifestações pelas redes sociais, pelo resto da noite de domingo e a madrugada de segunda, por parte de quem assistiu à votação.
Essa Câmara Federal tomou posse em 1º de janeiro de 2015 e muitos nela se reelegeram, como a própria presidente Dilma. Isto posto, querer fazer crer que, só na noite de 17 de abril de 2016, se tenha descoberto o baixo nível dos deputados federais brasileiros, é autoengano escorrendo pela borda. Tão patético, por parte de quem assistiu e se manifestou sobre a votação, quanto quem nela pretendeu se justificar com Deus, pai, filho e espírito santo.
E onde o autoengano mina do chão, a autocrítica morre à míngua. Enquanto a Câmara teve as miudezas particulares de seus deputados satisfeitas nos 13 anos de governo federal do PT, em troca de apoio parlamentar, ela teve um nível melhor? Ou só “desceu até o chão” quando o seu português ruim, como o do ex-presidente Lula, passou a ser ecoado pelo impeachment pedido nas ruas durante as manifestações de 13 de março, maiores na história do país?
A maioria dos deputados que disseram sim ao impeachment de Dilma tem exatamente a mesma cara dos eleitores que os elegeram. Nem melhor, nem pior. Via de regra, ao embalo da confusão entre “étnica” e “ética” cometida por Dilma na coletiva de ontem, é a mesma face real dos negros, índios, trabalhadores, LGBTs, pobres, sem terra e quaisquer seus opostos, quando despidos da idealização maniqueísta de quem votou contra. Como tão covarde quanto quem saúda uma ditadura e seu torturador, é quem naquele cospe, dá as costas e corre em fuga. Diante ao espelho, a oposição só deve preocupar quando o reflexo repugna nos dois lados.
Assim, as contas na Suíça de Eduardo Cunha foram mais uma vez lembradas por Dilma, em sua coletiva de ontem. E no mesmo dia um laudo da Polícia Federal, com base na quebra do sigilo fiscal da empreiteira Andrade Gutierrez, apontou (aqui) o pagamento de R$ 3,6 milhões para o ex-presidente Lula entre 2011 e 2014, trilhando mesmo percurso do dinheiro que abasteceu empresas investigadas por lavagem de dinheiro de propina alvo da operação Lava Jato.
É o mesmo Lula que espera definição amanhã (20/04), pelo Supremo Tribunal Federal (STF), para saber se pode ou não ocupar o ministério da Casa Civil, para o qual foi nomeado por Dilma, naquilo que o procurador geral da República, Rodrigo Janot, ainda estuda denunciar como obstrução da justiça. Seria outro crime de responsabilidade da presidente que diz não o ter cometido com as “pedaladas” fiscais que ajudaram a quebrar o país.
Independente do desfecho dessa crise, no Senado se fala em setembro, a certeza é de que até lá o Brasil fica paralisado. Para quem conquistou emprego público mediante concurso, a estabilidade garantida pela meritocracia capitalista dá certo alento. Para quem, no entanto, está na livre iniciativa que sustenta o aparelho do Estado, a incerteza preocupa consideravelmente mais, seja empregado ou empregador. Muito embora, como provam os servidores fluminenses penando para receber de um governo estadual solidário (aqui) a Dilma, a crise tenha o condão didático de juntar a todos no mesmo barco — sem rumo e a fazer água.
Sem autocrítica, é fato: morreremos todos afogados no autoengano.
Dr. Chicão (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
“O que pretendemos, caso tenhamos nosso nome escolhido, é fazer um governo de coalizão e participação, onde as decisões tomadas saiam de propostas elaboradas por toda a sociedade civil organizada”.
“Se o nosso governo (Rosinha e Dr. Chicão) é tão ruim, está deixando essa ‘terra arrasada’ da tática russa da II Guerra (1939/45), por que a oposição quer tanto assumir a Prefeitura de Campos?”.
“Poderia ficar aqui enumerando ações na Saúde em benefício da nossa população. Mas, na Saúde, por mais que você faça, sempre estará faltando fazer muito mais”.
Esses foram alguns pontos tocados na entrevista o vice-prefeito Dr. Chicão Oliveira (PR), entrevistado hoje na sequência com os pré-candidatos a prefeito de Campos. Confira a íntegra da entrevista na edição de amanhã (19/04) da Folha da Manhã.
Apesar da recente “barriga” dada (aqui) em inseminação artificial de Anthony Garotinho (PR), um contraponto lúcido à maioria que usou a democracia irrefreável das redes sociais para tentar fazer crer que só na noite de ontem descobriu — Oh! Meu Deus! — o nível de uma Câmara Federal eleita por quem mesmo?
Com o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) aprovado (aqui e aqui) agora há pouco na Câmara Federal, por 367 favoráveis, a previsão feita aqui pelo deputado federal Paulo Feijó (PR) não chegou a se cumprir, mas passou raspando. Em entrevista à Folha, publicada ontem (16/04), ele disse:
— Aproveito para palpitar. Acredito que teremos mais de 370 deputados a favor do impeachment.
Do lado oposto, quem sai mais uma vez queimado do processo é o secretário de Governo de Campos, Anthony Garotinho (PR). E conseguiu incinerar junto a própria filha, a deputada federal Clarissa (PR), ausente da votação e por isso vaiada (aqui) nas três vezes que teve o nome citado em plenário. Após ter negociado (aqui e aqui) a abstenção da filha, que entrou com licença de 120 dias por conta da gravidez, não 121 ou mais, que permitira o voto do suplente do DEM, Garotinho ainda tentou (aqui e aqui) mudar o voto de Feijó, induzindo o jornalista Fernando Molica, de O Dia, neste sentido.
Se tentou ajudar o governo Dilma por conta da “venda do futuro” de Campos, no valor de mais R$ 1 bilhão, que comprometeria as receitas do município até 20131, mas sem o qual governistas admitem em off não restar dinheiro em caixa nem para pagar ao servidor, Garotinho corre o sério risco ficar com as mãos abanando, após o vice-presidente Michel Temer (PMDB) assumir o Palácio do Planalto. Aqui, como reproduziu o Blog do Bastos, o jornalista José Casado revelou no jornal “Extra” que o empréstimo a Campos, usando como garantia os royalties do petróleo ainda não recebidos, foi o objeto da negociação entre o PT e Garotinho.
Ademais, o ex-governador, ex-deputado, ex-prefeito e atual secretário municipal consolida sua fama de “pé frio” na política dos últimos anos. Antes de afundar agora com o governo Dilma, que critica em seu blog para tentar manter as aparências, Garotinho conseguiu apoiar o senador Marcelo Crivella (PRB) em 2014, na disputa do segundo turno do governo estadual contra Luiz Fernando Pezão (PMDB), e levar sobrinho de Edir Macedo à derrota em cinco das sete zonas eleitorais de Campos. Relembre aqui mais esse fracasso.
Quanto à “venda do futuro” de Campos? Numa ironia do destino, não custa lembrar ter sido Temer quem levou Garotinho na lábia em 2006, quando fingiu apoiar este na pretensão de se candidatar à presidência da República pelo PMDB, só para prender o político da Lapa ao partido que apoiaria a reeleição do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O jornal O Globo publicou (aqui) agora há pouco, antes mesmo de acabar a votação do impeachment na Câmara Federal, que o governo Dilma Rousseff (PT) já admite sua derrota:
BRASÍLIA — O governo já admitiu derrota na votação da Câmara que define a autorização para a abertura do processo de Impeachment . Segundo fontes do Palácio, as chances de mudar os resultados “são zero”. Até às 20h13, o placar mostra 204 votos a favor do impeachment. São necessários 342 para a aprovação.
Confira abaixo a nota do blog do jornalista Jorge Bastos Moreno (aqui), primeiro a noticiar a admissão da derrota pelo governo Dilma:
O governo acaba de admitir derrota. Segundo fontes do Palácio, as chances de mudar os resultados “são zero”.
A presidente Dilma deverá fazer um pronunciamento à imprensa, não em rede, condenando a decisão e advertindo que vai lutar até os últimos momentos pela preservação de seu mandato no julgamento do Senado.
Atualização às 20h51: Após ter seu nome chamado e dito que se encontrava em licença pela gravidez, a deputada Clarissa Garotinho teve seu nome sonoramente vaiado na Câmara (aqui e aqui), mesma reação negativa registrada após o voto de Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Casa, que disse “Que Deus tenha piedade da nação brasileira”, antes de votar pelo impeachment de Dilma.
Atualização às 21h09: O deputado Paulo Feijó (PR) citou uma “Campos em festa”, antes de votar pelo impeachment de Dilma, como o blog havia adiantado aqui, apesar das tentativas com em contrário aquie aqui.
Atualização às 23h09: O deputado Bruno Araújo (DEM/PE) acabou de dar 0 342º voto favorável ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, que consolida sua aprovação por por 2/3 da Câmara Federal.
Tudo bem. Esqueçamos os argumentos jurídicos. Eles não parecem mesmo fazer sentido nesta etapa dos acontecimentos. Há quem diga que é um golpe. Há quem diga que não é. Paciência. Mas tratemos então a coisa sob o ponto de vista político: será realmente prudente, produtivo para o futuro, de contribuição para a democracia, que o Brasil derrube uma presidente que, a despeito de todo o mau cenário econômico e impopularidade, mantém base social forte e ainda é capaz de mobilizar militância para ocupar ao menos um dos lados daquele icônico muro de lata em frente ao Congresso Nacional?
Ainda que desconsiderássemos os 54 milhões de votos conferidos a ela — e isso não é algo que se faça, mas vá lá —, não seria uma violência institucional contra os que ainda a apoiam? Vale a pena passar um rolo compressor sobre esta, digamos, minoria de milhões? Qual o custo político disso? Que país cindido estaremos fabricando?
Quando o ex-presidente Fernando Collor foi apeado do poder, também politicamente, pois ninguém estava realmente preocupado com aquela história de Fiat Elba, não contava com sustentação política alguma. Havia sido um candidato fabricado pela Globo e por um partido nanico. Não tinha lastro. Por ironia da história, uma das últimas vozes a defendê-lo — não a Collor pessoalmente, mas à instituição da Presidência da República — foi o então governador do Rio, Leonel Brizola, que em nada afinava com ele em termos ideológicos, mas provavelmente em seus ouvidos ressoavam aqueles rumores dos tempos que depuseram João Goulart.
Talvez por ingenuidade, costumo acreditar que setores responsáveis da política pensam nestas coisas, quaisquer que sejam seus lados. Nos anos 90, por exemplo, identificava vozes assim tanto no PSDB quanto no PT, para falar em elementos extremos dessa atual polarização. Até hoje lamento a ausência da aliança que, para mim, deveria ter sido feita nesta época justamente entre os mais responsáveis de cada lado, para evitar a dependência endêmica do fisiologismo que arruinou a política na década seguinte.
Mas, nestes dias que correm, procuro e não encontro nas lideranças partidárias esse nível de responsabilidade histórica entre antagonistas que muitas vezes recomenda retroceder, amainar, dialogar. Há apenas chefes limitados de pequenos bandos, interessados em defender os seus nacos no butim, sem qualquer projeto de país.
Retrocedemos muito em termos de amadurecimento democrático. O simbolismo e o grande efeito pedagógico de um Fernando Henrique Cardoso passando a faixa presidencial a Lula parece ter ficado para trás. Aécio Neves foi um mau perdedor e com isso nós é que acabamos por perder uma grande chance de mantermos um longo período de estabilidade. Qualquer que seja o resultado da votação do impeachment neste domingo, teremos que recomeçar.
(*) Assessor do Sindipetro e presidente da Associação de Imprensa Campista (AIC)