“Meu querido diário”, no Sesc, seis anos depois, como um camundongo pela sala

Era uma quinta-feira, 3 de setembro de 2009. De fato, como disse o diretor de teatro e cinema Domingos Oliveira: “o tempo é um camundongo passando pela sala!”. No Teatro de Bolso, hoje fechado há dois anos, se dava a estreia da peça “Meu querido diário”. O monólogo unia três criadores que tinha e mantenho na mais alta conta pessoal e artística: o ator Yve Carvalho, o autor Adriano Moura e, vivinho de Góis Cavalcanti, o diretor Antonio Roberto Kapi (1955/2015). Mesmo sem ser um espectador assíduo de teatro, fui conferir, usando meu conhecimento de cinema para me arriscar depois numa crítica, publicada na capa da Folha Dois do domingo seguinte, na tentativa de comungar o impacto do que vira e ouvira no palco.

Pois amanhã, nessa sexta-feira, dia 9, a partir das 20h, “Meu querido diário” finalmente volta a cartaz. Como o Teatro de Bolso, no qual Garotinho começou sua carreira política ao meter-lhe o pé na porta, no dinal dos anos 1970, para depois deixá-lo fechado há dois anos, como lamentavelmente se encontra, numa reforma a passos de cágado e sem perspectiva de ser devolvido aos artistas da cidade, o palco será o Sesc-Campos. Nele. novamente Yve interpreta o texto de Adriano, em direção ainda assinada por Kapi, numa bonita (e merecida) homenagem. Quem não pode conferir em 2009, aconselha-se que o faça agora. Quem já viu, a reencontro com risos, pele arrepiada e uma lágrima furtiva é uma excelente maneira de começar o final de semana.

Abaixo, o que senti  e escrevi há seis anos, tempo em que um camundongo passou pela sala:

 

Yve - Meu Querido Diário 1
(Foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Talento de Yve, Kapi e Adriano Moura hoje no Teatro de Bolso”. Este foi o título na capa da Folha da Manhã, na última quinta, relativo à estréia, naquele dia 3, da peça “Meu querido diário”. Titulagem da noite anterior, o editor pensava em equilibrar no mesmo patamar três grandes criadores, conhecidos de todos que militam com arte em Campos: Yve Carvalho, o ator; Antônio Roberto Kapi, o diretor; e Adriano Moura, o autor.

Na noite seguinte, não só um editor que nunca entendeu nada de teatro, mas todos os demais presentes à estréia puderam constatar que o equilíbrio buscado num título de jornal tratava-se de pleonasmo bobo diante daquilo visto e ouvido no palco. Na arte, Yve, Kapi e Adriano dispensam Dartagnan. Mesmo sendo três, são pares.

Atrás de seu primeiro monólogo já há algum tempo, Yve o agarrou com unhas e dentes, intenso como de hábito na pele do estressado professor de biologia Paulo e rasgadamente hilário na projeção da avoada supervisora escolar Regina. Na verdade, “Meu querido diário” é uma continuação retroativa de outro texto do professor Adriano, “Conselho de classe”, de 2005, encenado a partir daquele ano nos dois seguintes.

Na peça anterior, Paulo já estava lá, num hospício, internado junto aos colegas de magistério Pedro, Léo e Cristina, todos devidamente ensandecidos por seus alunos e pelas condições do ensino brasileiro. Regina, embora citada nos diálogos de “Conselho”, não tinha ainda a primeira pessoa da projeção de agora, em “Diário”, escrita ano passado para retratar a loucura de 2005 ainda em seu processo de semeadura.

Como o próprio autor admite, a peça mais recente que retrata um tempo mais distante é um trabalho de maior maturidade. E nele podemos ver também um intérprete superior, que soube pontuar sua conhecida visceralidade com um timing de comédia quase casual, servindo as deixas do texto ao riso do público numa fruição espontânea, sem fazer força, mesmo caudalosa.

E como, mesmo em prosa, trata-se de um texto de um poeta da desconstrução, quando o rir finalmente forra a cama à insônia de pensar por que se ri, quando o cotidiano das salas de aula se revela a nossa “Ilíada” de todo dia, o ator traz à tona toda a sua capacidade dramática, comungando com o público o tato doído da lágrima que escorre em sua face. Numa linha de passe com o cinema de Walter Salles, é mais ou menos: “Olha para minha cara, porra!”.

Como em qualquer trindade que se preze, pai e filho não podem fazer conexão sem um bom espírito santo, o fio condutor desencapado entre o texto de Adriano e a interpretação de Yve é a concepção de Antônio Roberto Kapi. Se ele costuma dizer que as más línguas das coxias campistas o classificam, enquanto diretor de teatro, como um bom cenógrafo, alguém sem grande intimidade com os palcos, mas com um mínimo de conhecimento das telas, pode afirmar, em contra-partida, que se trata mesmo é de um grande cineasta.

Desperdiçado num ostracismo a que pretenderam relegá-lo os podres poderes da planície, o diretor emergiu com soluções simples para uma composição tecnicamente difícil, num texto brilhante, mas prenhe de encruzilhadas cenográficas. Talvez cineasta frustrado e poeta certamente realizado, por um motivo e o outro também, Kapié um criador obcecado pela imagem. A idéia de usar o contraste entre luzes e cores para distinguir ambientes e graduar o crescente emocional de Paulo até sua próxima explosão escarlate, fez lembrar Nicholas Ray, em “Juventude transviada”, (“Rebel without a cause”, EUA, 1955), ao trajar de blusão vermelho os acessos de fúria e inconformismo de James Dean.

Godard já chegou a dizer: “O cinema é Nicholas Ray!”. Se não se pode afirmar o mesmo entre o teatro e Kapi, quem, no entanto, seria capaz denegar que o teatro de Campos é TAMBÉM Kapi?

Atrás dos palcos, necessário ressaltar a produção assinada e bancada por Yve. Traçando um caminho oposto ao de pedinte do rico poder público municipal, ele correu atrás até conseguir um grande texto, confiou a direção a um mestre da sua confiança, tomou o empréstimo necessário à montagem e — aposta difícil — empilhou todas fichas no próprio talento.

Apenas duas coisas a lamentar, que independem do talento, seja de quem escreve, interpreta ou dirige. A primeira é que tanta gente que se diz “da cultura” em Campos, ainda não tenha ido assistir à peça, muito embora seja uma comédia deliciosa, plenamente palatável à grande maioria que, na verdade, nunca foi tanto da cultura assim. Mas isso é fácil de resolver: basta ir hoje, às 21h, ao Teatro de Bolso, e conferir. Quem não achar tempo neste domingo, terá oportunidade ainda nas próximas quinta e sexta (às 20h), além do sábado e domingo seguintes (novamente às 21h).

O segundo dado, lamentável até para quem não é tão íntimo do teatro assim, é que “Meu querido diário” é apenas a segunda peça a ser encenada em Campos, este ano, por um grupo da cidade. Levado em conta que já se segue no nono mês do ano, agraciado com uma previsão orçamentária bilionária, num município governado por um grupo político egresso do teatro, alguém poderia até dizer que a comédia do palco, no mundo real, foi superlativizada à sátira.

Yve, por exemplo, antes de voltar a atuar em outra peça, poderá ter outro trabalho conferido no cinema, com o curta-metragem de ficção “Efígie”, sob direção de Carlos Alberto Bisogno, que estréia dia 11 de setembro, no Palácio da Cultura. Por motivos diversos, é uma evidência de que são cada vez menores as diferenças entre o teatro e o cinema produzidos na cidade.

Na boca de Yve, sob a luz de Kapi, em determinado ponto da peça ecoa o lamento poético de Adriano: “As minhas aulas foram ficando tão chatas, tão sem sapos”. Noves fora a cultura do próprio umbigo refletida na unidimensão dos festivais estudantis, o que se pode dizer de uma cidade tão sem teatro?

 

 

Capa da Folha Dois de 06/09/09
Capa da Folha Dois de 06/09/09

 

 

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A “luz no fim do túnel” de Dilma, espécie de Auxiliadora em nível nacional

Tudo bem, o espaço de charges do blog é do José Renato e ninguém tasca! Mas até para louvar a capacidade que um chargista tem de definir em traço um momento que angustia toda uma nação de 200 milhões de pessoas desgovernadas econômica, política e moralmente, não dá para não reproduzir a obra do mestre Chico Caruso na capa de O Globo de hoje, após nossa excelentíssima presidente reeleita Dilma Rousseff (PT), espécie de vereadora Auxiliadora Freitas (PHS) em nível nacional, dizer ontem (aqui), um pouco anter de ter suas contas de campanha reprovadas por unanimidade (aqui) pelo Tribunal de Contas da União (TCU) : “Eu estou vendo luz no fim do túnel”

Se você ainda não viu, a charge, não a luz na vida real do filme “O Hobbit: A Desolação de Smaug” (2013), de Peter Jackson, confira:

 

 

Charge Chico Caruso 08-10-15

 

 

 

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“Disney” em Campos gera reação até na terra da Disney

Ponto final

 

 

Disney em Campos?

Desde a terça-feira, após a vereadora Auxiliadora Freitas (PHS) ter proposto (aqui) uma moção de aplauso à prefeita Rosinha Garotinho (PR) pela “Cidade da Criança”, comparando o projeto de gosto estético duvidoso à Disney, as reações de indignação polvilharam os comentários dos primeiros blogs a noticiar a mais nova “pérola” da inconfundível verve da parlamentar: o “Blog do Bastos” (aqui) e o “Ponto de Vista” (aqui e aqui), ambos na Folha Online. Em se tratando de um projeto que deveria ter sido entregue desde 2013, ao custo total de R$ 17 milhões (R$ 7 milhões só em aditivos ao projeto inicial), num governo perdulário que busca empenhar R$ 1,2 bilhão do orçamento futuro, não é preciso ser um Professor Pardal para entender as causas da revolta.

 

Da Disney a Campos

Dos blogs às redes sociais, a batatada acintosa teve repercussão até perto da Disney de verdade. Bailarino e cantor radicado há anos nos EUA, o campista Pericles Emannuel desabafou de lá (aqui) algumas verdades: “Ruas esburacadas em Campos, Hospitais em tremenda precariedade, Escolas Públicas largadas sem nenhuma assistência, ao Deus dará… postes no meio do caminho dos pedestres (…) nada funciona, PÉSSIMA administração (…) e construíram em Campos uma DISNEY para aqueles que não podem ir ao USA???? (…) SÓ XINGANDO MESMO (…) Pobre de você, Campista!!”

 

Publicado hoje na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã

 

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Comparação da Cidade da Criança à Disney repercute até perto da Disney

Aqui e aqui, respectivamente, os blogueiros Alexandre Bastos e Christiano Abreu Barbosa já haviam tratado desde ontem da moção de aplauso proposta na sessão da Câmara pela vereadora Auxiliadora Freitas (PHS) à prefeita Rosinha e aos seus secretários de Educação, Frederico Rangel, e de Mobilidade Urbana, Edilson Peixoto. O motivo? As obras da “Cidade de Criança” no que era o Parque Alzira Vargas, em projeto de concepção estética da própria Rosinha, que já custou R$ 17 milhões aos cofres públicos (R$ 7 milhões só em aditivos ao orçamento inicial) e cujo prazo de entrega estava previsto para 2013. Ainda assim, para Auxiliadora:

— É uma obra incrível. Trata-se do primeiro parque temático do nosso Estado. Em outros estados existem excelentes parques como o Beto Carrero World. As crianças que vão frequentar este parque são aquelas que não podem passear na Disney. Esse é o parque para quem não vai à Disney.

Pois hoje, além de ter rendido as manchetes da capa (aqui) e da página 3 (aqui) da Folha, em matéria de Bastos e do Mário Sérgio Junior, o assunto continuava a ser repercutido na democracia irrefreável das redes sociais. Seja por parte de políticos notoriamente engajados na oposição goitacá, como o ex-vereador Marcos Bacellar (aqui), ou de artistas campistas há muito tempo fora de cidade, como o dançarino e cantor Pericles Emmanuel (aqui), radicado nos EUA, perto da Disney à qual Auxiliadora comparou a Cidade da Criança de Rosinha, a reação geral não parece ter sido muito distante.

Confira abaixo:

 

Bacellar face
(Clique na imagem para ampliá-la)

 

 

Pericles face

 

 

 

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Ponto Final — Do “câncer” ao “azedume”, à livre ação dos ladrões em Campos

Ponto final

 

 

“Câncer” e “azedume”

Repercutido no mesmo dia pelos blogueiros Ralfe Reis (aqui) e Alexandre Bastos (aqui), o secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), seu marido Anthony Garotinho (PR), reagiu ontem às declarações de Geraldo Pudim (PMDB), deputado estadual e pré-candidato à sucessão de Rosinha, dadas em entrevista publicada (aqui) na Folha do último domingo. Sempre usando a rádio do seu grupo de comunicação, ao responder à afirmação “o governo Rosinha está infestado de células cancerígenas em plena metástase”, feita por Pudim na entrevista, Garotinho tentou ironizar seu ex-aliado de 30 anos: “Esse aí azedou”.

 

Por trás das palavras

Em relação ao que os dois blogs noticiaram, um reparo apenas à postagem de Ralfe, melhor blogueiro de Campos entre aqueles alinhados ao governo municipal: como deixa claro o trecho da entrevista transcrito na nota acima, as referências “cancerígenas” e “metástase” foram claramente endereçadas por Pudim ao conjunto do governo Rosinha, não particularmente ao secretário de Governo. Isto posto, a ressalva mais importante, no entanto, deveria ser feita não às palavras que Pudim escolheu ou a quem as destinou, mas àquilo que existe de verdade por trás delas.

 

O que interessa

Nesse sentido, antes mesmo que Ralfe e Bastos se manifestassem ontem, a observação mais pertinente coube (aqui) dois dias antes a outro blogueiro de credibilidade: Ricardo André Vasconcelos. Sobre o trecho já destacado na primeira nota deste “Ponto Final”, contendo as contundentes críticas de Pudim ao governo Rosinha, Ricardo André provocou no próprio domingo em que a entrevista foi publicada: “Durante a campanha (se for mesmo candidato), Pudim terá chances de ser mais específico quanto às ‘células cancerígenas’ que ‘infestam o governo Rosinha’”.

 

Cura “oncológica” de Campos

No eco de Ricardo a Pudim, outro a cobrar mais precisão nesse diagnóstico “oncológico” foi o vereador e também pré-candidato a prefeito Rafael Diniz (PPS). Em matéria publicada (aqui) ontem na Folha, ele disse: “Penso que Pudim falou pouco do que ele realmente tem condições de falar, como por exemplo mostrar onde estão e quem são as células cancerígenas”. Se realmente existe, saber qual a causa (e a dimensão real das consequências) desse “câncer” na administração pública de Campos, é a melhor maneira para tentar extirpá-lo e evitar que nasça de novo, por quem for assumir o corpo doente do município a partir de 1º de janeiro de 2017.

 

Ladrões ignoram PM

Tema de matéria do jornalista Marcus Pinheiro na Folha (aqui) do último dia 24, a livre ação de assaltantes sobre o público universitário, notadamente mulheres, no entorno da Faculdade de Direito de Campos (FDC), continua acontecendo quase diariamente, sobretudo nos horários de entrada e saída dos estudantes. Como já observou o presidente do Diretório de Estudantes de Campos (DCE), Roger Azevedo, esses assaltos são reflexo da ineficácia do policiamento ostensivo no corredor de segurança mantido pelo 8º Batalhão de Polícia Militar (BPM) na área. Prova da total falta de temor dos bandidos pela polícia é que a FDC fica na mesma rua Tenente Coronel Cardoso (antiga Formosa) do 8º BPM, a apenas dois quarteirões de distância, em pleno Centro de Campos.

 

Publicado hoje na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã

 

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Chico Alencar: “Os que se calam vão se encaminhando para a vala comum do lamaçal”

Petista arrependido de primeira hora, saindo do partido logo assim que veio a furo o escândalo do “Mensalão”, em 2005, o desde então reeleito deputado federal Chico de Alencar (Psol) é figura das mais respeitadas no Congresso Nacional, tanto pelos colegas, mesmo a maioria que não goza do mesmo prestígio, quanto pelos eleitores, independente do matiz ideológico. Também historiador conceituado no meio acadêmico, foi mesclando seus conhecimentos nesta área com os do político, que ele uniu duas figuras marcantes da nossa história recente, não por coincidência em campos ideológicos diversos: o ex-presidente Jânio Quadros (1917/92) e o ex-governador Leonel de Moura Brizola (1922/2004).

Na união da “vassourinha” com que Jânio chegou um dia à presidência, ao “mar de cumplicidades” sobre o qual Brizola sempre alertava, Chico teceu um interessante artigo, publicado hoje, aqui, no Blog do Noblat. Nele, as cobranças devidas àqueles que “preferem o silêncio quando seus aliados são flagrados”, independente de serem contra ou a favor do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) — processo que, como o blogueiro Christiano Abreu Barbosa bem ressaltou aqui, já se perpetrou de maneira velada. No final, o alerta de um raro homem de bem no cenário político nacional: “Os que calam vão se encaminhando para a vala comum do lamaçal onde chafurdam quem não têm a mínima grandeza para ocupar as funções para as quais foram investidos”.

Confira abaixo a íntegra do artigo de Chico Alencar, seguido de um vídeo do pronunciamento recente do autor sobre o mesmo tema, na Câmara Federal, diante à eloquente mudez do presidente daquela Casa:

 

 

Os “políticos antigos” Jânio Quadros e Leonel Brizola
Os “políticos antigos” Jânio Quadros e Leonel Brizola

 

 

Chico Alencar, deputado federal e historiador
Chico Alencar, deputado federal e historiador

O dever de falar

Por Chico Alencar

 

Certa vez, lá se vão três décadas, Jânio Quadros foi indagado sobre como ele, um homem que se dizia sem grandes posses, fazia campanha à prefeitura de SP (que acabou conquistando, em 1985, ao derrotar FHC de forma surpreendente) com tanto dinheiro. Jânio respondeu com sagacidade:

— Por favor, alguém me cede um cigarro? — começou. Choveram maços sobre sua mesa.

— Também estou sem isqueiro… — continuou o ex-presidente, apalpando os bolsos do paletó. Várias pequenas chamas iluminaram seu rosto, completando a senha para sua resposta, com o inconfundível sotaque e seu dom de iludir:

— Está explicado como consigo tantos recursos, não?

Na outra ponta do espectro político, Leonel Brizola costumava dizer, quando indagado sobre como teria fundos para tantos projetos, como os Centros Integrados de Educação Pública (Cieps), que queria construir no Rio de Janeiro, “que os recursos estão na cabeça do bom administrador”.

Verdade ou não, esses e outros políticos ‘antigos’ sempre respondiam ao que lhes era indagado. Não fugiam da liça, bem ao contrário de Paulo Maluf, que ainda está em cena, e de várias ditas ‘lideranças’ políticas atuais. Investigações da Lava Jato? Assunto incômodo. Contas na Suíça? Deixa isso para lá.

O pior: quase todos os parlamentares, da quase totalidade dos partidos, também não se dispõem a ‘incomodar’ Suas Excelências, os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. No caso de Eduardo Cunha, acusado de ser beneficiário de contas no exterior, a ‘proteção’ é edificada por razões baixas: uns se calam por considerá-lo útil ao processo de impeachment de Dilma; outros, para não melindrá-lo, evitando que, assim, ele acelere o impeachment.  É também patético que não ocorra a quase ninguém que seria estranho, à luz da moralidade pública, ter um processo de cassação por supostos mal feitos coordenado por alguém que é investigado pelos Ministérios Públicos da Suíça e do Brasil por mal feitos similares aos que atingiriam o Executivo.

Diante desse “mar de cumplicidades”, expressão usada recorrentemente por Brizola, só mesmo a vassourinha de Jânio — operadas para valer, pelas mãos da indignação cidadã. Para varrer todos os que, na vida pública, preferem o silêncio quando seus aliados são flagrados.

A vida pública não comporta esse nível de degradação. Os que calam vão se encaminhando para a vala comum do lamaçal onde chafurdam quem não têm a mínima grandeza para ocupar as funções para as quais foram investidos. Logo serão cobrados pela omissão cúmplice.

 

 

 

 

 

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Ponto Final — Repercussões da entrevista de Geraldo Pudim

Ponto final

 

 

Entrevista de Pudim

Repercutida em blogs e redes sociais locais tão logo saiu publicada (aqui) no início da manhã do último domingo, a entrevista com Geraldo Pudim (PMDB), deputado estadual e pré-candidato a prefeito de Campos, provocou várias reações. Algumas delas, no meio político, você, leitor, pode buscar na matéria (aqui) que dá a manchete da página anterior desta edição da Folha.

 

Repercussão desfavorável

Para além dos políticos, entre aqueles que os elegem, as reações pareceram majoritariamente desfavoráveis ao ex-aliado que atacou com veemência não só o casal Garotinho e suas práticas, como também a Wladimir, filho da prefeita e seu secretário de Governo. No blog “Opiniões”, hospedado na Folha Online, e primeiro a reproduzir a íntegra da entrevista, 24 comentários tinham sido feitos (aqui) à postagem até o fechamento desta edição. E entre eles, apenas um foi favorável ao entrevistado.

 

Só após 30 anos?

Em sua maioria, a reação geral parece ter sido melhor resumida no comentário feito no blog pela leitora Marcia (aqui): “Alguém que leva 30 anos para descobrir que a liderança que seguia cegamente está errada, que leva 30 anos para perceber que a forma de fazer política do grupo a que pertence não vai ao encontro dos interesses públicos, etc, merece a confiança do eleitor? É subestimar em demasia a inteligência alheia”.

 

Pudim x Pudim

Por outro lado, houve quem, como o advogado, publicitário e crítico de cinema Gustavo Oviedo, utilizasse a democracia irrefreável das redes sociais (aqui) para simplesmente contrastar o dito na entrevista, no dia da sua publicação, com as palavras do entrevistado em passado bem recente. Em 7 de julho de 2014, escrevia Pudim e lembrou Oviedo: “Sou feliz por ter caminhado ao lado de Garotinho até aqui e mais feliz ainda por saber que ainda caminharei nos desafios que se colocarem à nossa frente na incansável luta pelos direitos do povo”.

 

Publicado hoje na coluna “Ponto Final”, da Folha da Manhã

 

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Sérgio Moro: “Um povo inteiro que paga propina é um povo sem dignidade”

O texto é grande e Sérgio Moro não aparenta ter, como prosista, o mesmo talento que demonstra na magistratura, à frente da Lava-Jato. Mas vale muito a pena ler até o fim esse relato de um credor da República, a quem reputo entre os maiores brasileiros do meu tempo de vida, sobretudo para não cedermos aos panos quentes da canalha que ecoa “o Brasil é assim mesmo”, desperdiçando uma oportunidade histórica para superar dogmatismos ideológicos insustentáveis, à esquerda e à direita, e nos passar a limpo enquanto país. Do contrário, fica a advertência final: “O tempo está passando e o momento, em parte, está sendo perdido”.

Confira o texto, publicado hoje, aqui, no Blog do Noblat, seguido de um vídeo do que um juiz pode inspirar numa nação:

 

 

Protesto - Moro

 

 

Sérgio Moro, juiz federal
Sérgio Moro, juiz federal

Caminhos para reduzir a corrupção

Por Sérgio Fernando Moro

 

A corrupção faz parte da condição humana. Isso não é um álibi, mas uma constatação. Sempre haverá quem, independentemente das circunstâncias, ceda à tentação do crime.

Outro fenômeno é a corrupção sistêmica, na qual o pagamento de propina torna-se regra nas transações entre o público e o privado. Isso não significa que todos são corruptos ou que todas as interações entre agentes privados e públicos envolvam sempre propina.

Mas, na corrupção sistêmica, o pagamento da propina, embora não um imperativo absoluto, torna-se um compromisso endêmico, a regra do jogo, uma obrigação consentida entre os participantes, normalmente refletida no pagamento de percentuais fixos de comissões sobre contratos públicos.

A economia perde eficiência. Além dos custos óbvios da propina, normalmente inseridos nos contratos públicos, perde-se a racionalidade na gestão pública, pois a apropriação dos valores passa a guiar as decisões do administrador público, não mais tendo apenas por objetivo a ótima alocação dos recursos públicos.

Talvez seja ela a real motivação para investimentos públicos que parecem fazer pouco sentido à luz da racionalidade econômica ou para a extraordinária elevação do tempo e dos custos necessários para ultimação de qualquer obra pública.

Mais do que isso, gera a progressiva perda de confiança da população no estado do direito, na aplicação geral e imparcial da lei e na própria democracia. A ideia básica da democracia em um estado de direito é a de que todos são iguais e livres perante a lei e que, como consequência, as regras legais serão aplicadas a todos, governantes e governados, independentemente de renda ou estrato social.

Se as regras não valem para todos, se há aqueles acima das regras ou aqueles que podem trapacear para obter vantagens no domínio econômico ou político, mina-se a crença de que vivemos em um governo de leis e não de homens. O desprezo disseminado à lei é ainda um convite à desobediência, pois, se parte não segue as regras e obtém vantagens, não há motivação para os demais segui-las.

Pior de tudo, a corrupção sistêmica impacta o sentimento de autoestima de um povo. Um povo inteiro que paga propina é um povo sem dignidade.

Pode-se perquirir quando o problema começou, mas a questão mais relevante é indagar como sair desse quadro.

Há uma tendência de responsabilização exclusiva do poder público, como se a corrupção envolvesse apenas quem recebe e não quem paga. A iniciativa privada tem um papel relevante no combate à corrupção. Cite-se o empresário italiano Libero Grassi. Em ato heroico, no começo da década de 90 na Sicília, denunciou publicamente a extorsão mafiosa, recusando-se a pagar propina.

Ficou isolado e pagou com a vida, mas seu exemplo fez florescer associações como o Addiopizzo, que reúne atualmente centenas de empresários palermitanos que se recusam a ceder à extorsão. Não se pretende que empresários daqui paguem tão alto preço para tornarem-se exemplos, mas, por vezes, poderão se surpreender como a negativa e a comunicação às autoridades de prevenção, que podem mostrar-se eficazes.

Mas o poder público tem igualmente um papel relevante. As regras de prevenção e repressão à corrupção já existem. É preciso vontade para torná-las efetivas. Se a Justiça criminal tratasse a corrupção com um terço da severidade com que lida com o tráfico de drogas, já haveria uma grande diferença.

Em parte, a inefetividade geral da lei contra a corrupção e contra figuras poderosas é um problema de interpretação e não de falta de regras. O exemplo do Supremo Tribunal Federal no julgamento da Ação Penal 470 deve ser um farol a ser considerado por todos os juízes.

Dizer que as regras existem não significa que não é preciso melhorá-las.

O que mais assusta, em um quadro de naturalização da propina, é a inércia de iniciativas para a alteração das regras legais que geram as brechas para a impunidade. O processo penal deve servir para absolver o inocente, mas também para condenar o culpado e, quando isso ocorrer, para efetivamente puni-lo, independentemente do quanto seja poderoso.

Não é o que ocorre, em regra, nos processos judiciais brasileiros. Reclama-se, é certo, de um excesso de punição diante de uma população carcerária significativa, mas os números não devem iludir, pois não estão lá os criminosos poderosos.

Para estes, o sistema de Justiça criminal é extremamente ineficiente. A investigação é difícil, é certo, para estes crimes, mas o mais grave são os labirintos arcanos de um processo judicial que, a pretexto de neutralidade, gera morosidade, prescrição e impunidade.

Um processo sem fim não garante Justiça. Modestamente, a Associação dos Juízes Federais do Brasil apresentou sugestão ao Congresso Nacional, o projeto de lei do Senado 402/2015, que visa eliminar uma dessas grandes brechas, propiciando que, após uma condenação criminal, em segunda instância, por um Tribunal de Apelação, possa operar de pronto a prisão para crimes graves e independentemente de novos recursos.

Críticos do projeto apressaram-se em afirmar que ele viola a presunção de inocência, que exigiria o julgamento do último recurso, ainda que infinito ou protelatório. Realisticamente, porém, a presunção de inocência exige que a culpa seja provada acima de qualquer dúvida razoável, e o projeto em nada altera esse quadro.

Não exige, como exemplificam os Estados Unidos e a França, países nos quais a prisão se opera como regra a partir de um primeiro julgamento e que constituem os berços históricos da presunção de inocência recursos infinitos ou processos sem fim. O projeto não retira poderes dos Tribunais Superiores que, diante de recursos plausíveis, ainda poderão suspender a condenação. Os únicos prejudicados são os poderes da inércia, da omissão e da impunidade.

Mas há alternativas. Em sentido similar, existe a proposta de emenda constitucional 15/2011, originária de sugestão do ministro Cezar Peluso, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal. O Ministério Público Federal apresentou dez propostas contra a corrupção que deveriam ser avaliadas pelo governo e pelo Congresso, assim como os projetos citados, com a seriedade que a hora requer.

O fato é que a corrupção sistêmica não vai ceder facilmente. Deve ser encarada da forma apropriada, não como um fato da natureza, mas como um mal a ser combatido por todos.

Os tempos atuais oferecem uma oportunidade de mudança, o que exige a adoção, pela iniciativa privada e pela sociedade civil organizada, de uma posição de repúdio à propina, e, pelo Poder Público, de iniciativas concretas e reais, algum ativismo é bem-vindo, para a reforma e o fortalecimento de nossas instituições contra a corrupção.

Milhões já foram às ruas protestar contra a corrupção, mas não surgiram respostas institucionais relevantes. O tempo está passando e o momento, em parte, está sendo perdido.

 

 

 

 

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