Mercado Municipal de Campos para quem e por quê?


Mercado Municipal
Por Marcelo Lessa
Compreendo este nobre espaço não somente como um espaço de reflexão e de manifestação da opinião crítica mas, também, um espaço para dar satisfações aos leitores de nossas atividades na vida pública. Principalmente para esclarecer o que nem sempre é informado de maneira exata. Refiro-me ao Mercado Municipal, tema deste breve relato.
Tem gerado bastante discussão um projeto de revitalização do entorno do Mercado Municipal, com demanda no Ministério Público no sentido de impedir o prosseguimento das respectivas obras em andamento no Município. O argumento é que o projeto em execução “empacharia” o prédio do mercado, dificultando sua visualização, porque ficaria emparedado pelos boxes que serão construídos para abrigarem os ambulantes que exercem o comércio em seu entorno.
Mas o que o demandante não leva em conta é que, atualmente, o prédio do Mercado se encontra nas mesmíssimas condições: “empachado”, emparedado pelos referidos ambulantes, que exercem seu comércio de forma improvisada, impedindo ainda mais a visualização do prédio do Mercado. Com o projeto que se pretende para o local, ainda que se mantenha a situação, ao menos minimiza-se o impacto da visualização, porque diminui o gabarito construído ao redor e padroniza os boxes, criando uma espécie de shopping popular ao ar livre.
É a solução ideal? É a solução correta na perspectiva da preservação do patrimônio histórico-arquitetônico? Não. Reconhece-se que não. A solução correta, como parece quererem os demandantes, é banir dos arredores do mercado todos os comerciantes que há décadas exercem o comércio informal na localidade, com isto tirando o sustento de inúmeras famílias mantidas por gerações através deste comércio. E a pergunta que se impõe é a seguinte: para onde levar esses comerciantes? Espalhá-los pelo centro da cidade? Mas aí teria que combinar com a ACIC e a CDL, que, outrora, demandaram no Ministério Público justamente o contrário, ou seja, a retirada dos camelôs do centro da cidade. Ou levá-los para um local isolado, onde os fregueses, evidentemente, não teriam como ir fazer suas compras? Uma sugestão seria muito bem-vinda.
Ora, o bom senso reclama uma visão macro do problema, que não permite o encontro da solução ideal, mas apenas da solução possível, já que não se pode deixar de considerar, ao lado do aspecto histórico-arquitetônico, o aspecto social da questão, uma situação que nesta perspectiva está consolidada há décadas, com a mesma riqueza histórica da construção que se pretende deixar em evidência, para deleite contemplativo dos que poderiam observá-la à distância.
Cabe ao Ministério Público ponderar os valores em jogo; e não deixar que o exagero de um interesse venha a aniquilar o outro, já que ambos são para lá de legítimos.

Manda quem não pode, obedece quem não tem juízo
Por José Paes
A questão envolvendo o Mercado Municipal e o seu entorno voltou a ser destaque nesta semana, pelos seguintes motivos: manifestações de camelôs cobrando melhores condições de trabalho e rapidez nas obras do antigo espaço que ocupavam e declarações da Promotoria de Tutela Coletiva de Campos “autorizando” a continuação dessas mesmas obras pelo Município, mesmo após recomendação do Inepac — órgão estadual que trata da preservação do patrimônio histórico — em sentido contrário.
Inicialmente, gostaria de fazer um singelo esclarecimento. O Ministério Público, em seus diversos níveis e esferas, exerce importantíssimo papel na sociedade, sendo instituição essencial à função jurisdicional do Estado e à defesa do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis. Mas ao contrário do que pode eventualmente transparecer, o Ministério Público não tem o poder de liberar ou deixar de liberar a continuidade de obras públicas. Tem sim, o dever de fiscalizar e, eventualmente, através dos mecanismos processuais que lhe são facultados, até mesmo requerer ao Judiciário eventuais ordens nesse ou naquele sentido.
Dito isto, preciso externar minha preocupação com o posicionamento adotado pela 2ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Campos, no sentido de referendar a continuidade das obras do Mercado Municipal e do Shopping popular, da forma como propostas pela Prefeita de Campos.
A continuidade das obras, da forma como proposta pela Prefeitura Municipal, certamente comprometerá todo o esforço que diversas entidades e cidadãos vêm empregando para garantir a preservação e revitalização desse importante e histórico Prédio, de fundamental importância para o projeto de revitalização do Centro Histórico da nossa cidade.
Não se desconhece nem se é insensível a situação das milhares de pessoas que direta e indiretamente retiram o seu sustento do Mercado Municipal e do Shopping Popular. O que se está tentando expor, é que a preservação do Mercado Municipal não implica necessariamente em prejudicar essas pessoas. Inúmeras alternativas que contemplam, ao mesmo tempo, o aspecto da preservação do prédio e o aspecto da questão social já foram apresentadas ao longo dos últimos anos. Basta ter boa vontade e atitude por parte do Município, para que o diálogo seja iniciado e uma solução que atenda a todos os interesses seja efetivamente implementada.
O que não se pode admitir, é que entre o descaso da Administração Municipal e arroubos de arrogância, a questão seja tratada com tamanha singeleza, sob um viés tão obtuso. Não se trata aqui do prazer de observar um prédio a distância, mas do desejo de devolver e integrar à comunidade um prédio em que pulsa a história dessa cidade.
Publicados hoje na Folha da Manhã
Em e-mail e site, MPF fala em prisão do diretor do HFM, mas diz que decisão foi da delegada

“Na verdade o diretor (do Hospital Ferreira Machado, Ricardo Madeira) foi conduzido à delegacia (134ª DP de Campos), mas a delegada (Nathália Patrão) entendeu, e ela tem todo o direito de fazer isso, que não haveria como averiguar responsabilidade dele. Quer dizer, isso foi o entendimento dela na lógica criminal. Por isso ela não o autuou em flagrante. Ele foi conduzido até a delegacia junto com os demais (seis presos, liberados após pagamento de fiança) e lá a delegada, que é quem naquele momento faz esse juízo, entendeu que não haveria como comprovar ali, naquele momento, que ele teria culpa ou mesmo dolo no que aconteceu (armazenamento de medicamentos com data de validade vencida no HFM). Isso não exime ninguém, durante as apurações, daqui a um, dois, três, quatro, cinco, seis meses, que a gente apure que há responsabilidade tanto na perspectiva da improbidade, quanto criminal. Esse foi juízo inicial da delegada, que a gente tem mais é que respeitar”.
Em entrevista gravada pela reportagem da Folha, foi isso que o procurador da República em Campos, Eduardo Oliveira, esclareceu numa coletiva encerrada agora há pouco, sobre a condução do diretor do HFM, Ricardo Madeira, após uma vistoria do MPF ter flagrado remédios com datas de validade vencida no hospital. Em outra entrevista gravada, ainda na noite de ontem, com a delegada Nathália Patrão, ela explicou a sua interpretação e ação sobre o caso:

— Foi lavrado um auto de prisão em flagrante de seis pessoas, que foram as responsáveis por manter o remédio impróprio para consumo armazenado. Então a gente se direcionou pela responsabilidade penal pessoal, não lavrando o auto de flagrante em face do diretor do hospital, que tem diversas funções e delega. Apenas os responsáveis diretos pelo armazenamento desse medicamento impróprio para consumo no armário é que foram conduzidos e presos em flagrante. Todos pagaram fiança e foram liberados. O diretor do hospital vai responder civelmente, administrativamente. Com certeza vai recair uma responsabilidade em cima dele sobre tudo, mas o direito penal é uma responsabilidade pessoal. Não é porque ele é o diretor que iria responder por uma situação dessa, porque ele não tem como fiscalizar 24 horas todos os remédios que existem num hospital daquele porte. Isso é aceitável e razoável.
Ventilada ontem na 134ª DP, a prisão do diretor do hospital chegou a ser publicada momentaneamente no Blog do Bastos e na Folha Online. Todavia, a informação foi suprimida momentos depois, após ser negada pela assessoria do direção do HFM, pelo próprio Ricardo Madeira, além da delegada.

Sobre a notícia da sua prisão, ouvido também na noite de ontem por este blog, antes de receber, ao seu lado, leitor, o pedido de desculpas público em noma da Folha (aqui) pela veiculação virtual momentânea da informação incorreta, Ricardo disse:
— A notícia de que fui preso e solto sob fiança é mentira. Após a constatação de remédios com datas de validade vencidas na vistoria do Ministério Público Federal (MPF) no Hospital Ferreira Machado (HFM), eu fui, sim, à 134ª DP, mas de livre e espontânea vontade, na condição de testemunha. Não sou responsável pela compra, pela guarda ou pela distribuição de medicamentos. Não teria, portanto, como ser responsabilizado.
Confira abaixo, com os destaques do blog, as versões oficiais do MPF sobre o caso, emitidas hoje por e-mail e em seu site (aqui) sobre o caso:


Crítica de cinema — Entre drama e comédia
Entre abelhas — “Até que ponto a gente sabe que existe?” Em seu cotidiano, o ser humano parece condenado ao esquecimento e a diferentes espécies de invisibilidade, que o levam a permanecer em total ou parcial isolamento, seja por opção ou não. Geradas pelas ausências física e emocional e suas consequências, a invisibilidade e as consequências são o ponto central do filme “Entre abelhas”, dirigido e roteirizado (em parceria com o ator Fábio Porchat) por Ian SBF – responsável, também, pelos vídeos do canal Porta dos Fundos.
Apesar de classificado, também, como comédia e de contar com parte do elenco que atua nos vídeos produzidos pela produtora Porta dos Fundos, o longa-metragem segue, em grande parte da história, distante do tradicional viés cômico da dupla de roteiristas e atores. Em cena, Fábio Porchat interpreta Bruno, um homem que não aceita o pedido de separação de Regina, vivida por Giovanna Lancellotti. A dificuldade para lidar com a nova fase de sua vida faz com o protagonista perca a capacidade de enxergar as pessoas que estão a sua volta.
Em busca de explicações, Bruno procura médicos, que não conseguem definir o mal que acomete o homem. As primeiras pessoas que deixam de ser notadas por ele são desconhecidas. No decorrer da história, aliado ao desinteresse pelo mundo que o cerca – após a decepção pelo fim do casamento –, começam os desaparecimentos dos amigos e companheiros de trabalho. Com o auxílio da mãe, dona Ângela (Irene Ravache), e de Nildo, personagem de Luis Lobianco, Bruno tenta encontrar meios para normalizar sua vida e relações sociais.
Em “Entre abelhas”, o público se depara com Porchat em um papel, que, embora passe por breves situações de humor, possui maior tendência ao drama. Bruno desvincula, timidamente, o ator dos demais personagens a que dá vida nas produções do grupo que atua em Porta dos Fundos. Em poucas sequências, é possível reconhecer o humorista, cuja carga, no desempenho do papel, é mais voltada ao aspecto trágico e dramático do que às brincadeiras e piadas sempre presentes nos roteiros destinados ao canal da web.
Ao contrário do que é esperado pelo público – devido ao elenco, encabeçado por Porchat, que conta, também, Marcos Veras e Letícia Lima –, a comicidade do filme brasileiro é concentrada em breves e rápidos momentos, como na aparição de Luis Lobianco, que também faz parte da produtora Porta dos Fundos, e nas cenas em que o protagonista vivencia a angústia e o pavor – apresentados com leve humor – do sumiço de rostos e corpos pelas ruas e bares, sendo estas a contraparte do filme “Mulher invisível”, dirigido por Claudio Torres e lançado em 2009, no qual Pedro (Selton Mello) passa por situações bizarras e hilárias por ser o único a enxergar Amanda (Luana Piovani).
Distanciando-se do aspecto cômico, que está longe de ser o principal do roteiro, “Entre abelhas” mostra circunstâncias que, embora desenvolvidas superficialmente, tendem a levar quem assiste a refletir sobre diversos temas, como invisibilidade, separações e dificuldades para lidar com novas fases da vida. Em seu final de semana de estreia nacional, o filme foi visto por 171.700 pessoas. O número, aquém da expectativa de seu diretor e roteirista, reflete o encontro do público com um filme brasileiro, que, diferentemente da maior parte dos longas-metragens de comédia produzidos no país, opta por mostrar situações de tensões e conflitos internos ao invés de prender os espectadores com gargalhadas e humor exagerado e artificial.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira o trailer do filme:
Saúde Pública de Campos: A alma do negócio é a propaganda; mas o corpo é seu
Aqui, o jornalista e blogueiro Fernando Leite postou desde ontem o vídeo do encerramento do jornal Folha no Ar, da Plena TV (canal 24 da Via Cabo e 3, da Ver TV), apresentado e produzido pelo jornalista Robson Almeida. No simples contraste das imagens da propaganda milionária do governo municipal de Rosinha Garotinho (PR) com os flagrantes de superlotação e descaso generalizado capturados ontem nos corredores do Hospital Ferreira Machado (HFM), durante a vistoria do Ministério Público Federal (MPF), que ainda gerou (aqui) a prisão em flagrante de seis funcionários pelo armazenamento de medicamentos fora da validade, pouco ou nada resta a ser dito.
Nos parabéns ao Robson pelo belo trabalho jornalístico, confira com seus próprios olhos de leitor, contribuinte e eleitor, o quadro real da Saúde Pública de Campos, bancado com seu dinheiro de impostos municipais reajustados extorsivamente este ano, como o IPTU (relembre aqui), na justificativa oficial de melhor atendê-lo:
Atualização às 20h27: O belo trabalho jornalístico de Robson Almeida no fechamento do Folha no Ar de ontem, na Plena TV, foi destacado também aqui, no blog Carraspana Campista
Folha errou e deve desculpas a Ricardo Madeira e a você, leitor

“A notícia de que fui preso e solto sob fiança é mentira. Após a constatação de remédios com datas de validade vencidas na vistoria do Ministério Público Federal (MPF) no Hospital Ferreira Machado (HFM), eu fui, sim, à 134ª DP, mas de livre e espontânea vontade, na condição de testemunha. Não sou responsável pela compra, pela guarda ou pela distribuição de medicamentos. Não teria, portanto, como ser responsabilizado”. Foi o que garantiu agora à noite, por telefone, o diretor do HFM, Ricardo Madeira.
A notícia da sua prisão e da sua soltura sob fiança chegou a ser apurada pela equipe de reportagem da Folha presente à 134ª DP, sendo depois repassada sem a confirmação devida ao jornalista Alexandre Bastos, que aqui tinha assumido a cobertura virtual do caso desde a manhã. Com link ao Blog do Bastos, a versão da prisão de Ricardo chegou a circular alguns minutos também na Folha Online, sendo retirada de ambos tão logo a assessoria questionou a informação. Sem a versão oficial até agora do MPF, a delegada Nathália Patrão, responsável pelo caso, confirmou também agora há noite a versão de Ricardo:
— Foi lavrado um auto de prisão em flagrante de seis pessoas, que foram as responsáveis por manter o remédio impróprio para consumo armazenado. Então a gente se direcionou pela responsabilidade penal pessoal, não lavrando o auto de flagrante em face do diretor do hospital, que tem diversas funções e delega. Apenas os responsáveis diretos pelo armazenamento desse medicamento impróprio para consumo no armário é que foram conduzidos e presos em flagrante. Todos pagaram fiança e foram liberados. O diretor do hospital vai responder civilmente, administrativamente. Com certeza vai recair uma responsabilidade em cima dele sobre tudo, mas o direito penal é uma responsabilidade pessoal. Não é porque ele é o diretor que iria responder por uma situação dessa, porque ele não tem como fiscalizar 24 horas todos os remédios que existem num hospital daquele porte. Isso é aceitável e razoável.
Diante disso, o que não é aceitável ou razoável foi o erro virtual que a Folha chegou a cometer por alguns minutos, arrastando com ela neste tempo seu blog mais lido, por conta de uma falha evitável na apuração da matéria na 134ª DP, bem como na sua coordenação dentro da redação, atribuindo momentaneamente a Ricardo Madeira uma prisão que na verdade se restringiu a seis de seus subordinados. A ele e a você, leitor, fica nosso sincero e devido pedido público de desculpas.
Visto de Marte, o Sol é azul

“A Terra é azul!”. Foi o que teria dito em reação espontânea o cosmonauta russo Yuri Alekseievitch Gagarin (1934/68), em 12 de abril de 1961, ao olhar pela janela da nave espacial Vostok, a bordo da qual se tornou o primeiro homem em órbita da Terra. Pois, divulgadas ontem, fotos feitas pela sonda Curiosity, no último dia 15 de abril, quase 54 anos exatos após o voo espacial de Gagarin, revelaram que visto em seu poente no solo do planeta Marte, o Sol também é azul.
De acordo com um comunicado oficial da Nasa: “Isso faz com que as cores azuis da mistura de luzes vindas do Sol fiquem mais concentradas na parte do céu onde o astro se encontra, em comparação com a maior dispersão do amarelo e do vermelho. O efeito é mais pronunciado perto do pôr do Sol, quando a luz vinda do Sol cruza um caminho maior na atmosfera do que ao meio-dia”.
Tiradas por uma Mast Camera, que captura as cores de forma bastante similar ao olho humano, a sequência de quatro imagens foi tirada num intervalo de 6 minutos e 51 segundos e mostra o Sol azul se escondendo por trás de montanhas do Planeta Vermelho, como Marte ficou conhecido por sua cor vista da Terra, numa localidade que os astrônomos batizaram como cratera Gale.
Confira abaixo uma foto e aqui a sequência completa no site da Nasa.

Adendo da segunda com acento português ao poema do domingo
Aqui, publiquei o poema “O Monstrengo”, de Fernando Pessoa (1888/1935), bem como a justificativa fraterna e histórica de minha escolha poética sempre feita aos domingos. Como fui muito influenciado pelo áudio da interpretação de Paulo Autran (1922/2007) desses versos pessoanos, optei por reproduzi-los ao final da postagem, tentando comungar com você, leitor, aquilo que tanto me impactara. Mas, buscando no youtube o áudio de Autran, acabei esbarrando com um curta de animação sobre o mesmo poema, da lavra de Fernando Simões, Hugo Tiago Andrea e Valter Ramos, falado em português de Portugal e ambientado no fantástico que permeava o imaginário humano nos sécs. XV e XVI das Grandes Navegações.
Por conselho do meu irmão, Christiano Abreu Barbosa, e da minha namorada, Mahelle Pereira, ele também segue abaixo, como adendo retroativo da segunda-feira ao poema do domingo:
IV. O Monstrengo
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: “Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?”
E o homem do leme disse, tremendo:
“El-Rei D. João Segundo!”
“De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?”
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
“Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?”
E o homem do leme tremeu, e disse:
“El-Rei D. João Segundo!”
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
“Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!”
70 anos do fim da II Guerra — A César o que é de César
Ao analisar aqui a disputa eleitoral a presidente e governador ainda no primeiro turno, em setembro do ano passado, e projetar acertadamente a vitória final de Dilma Rousseff (PT) e Luiz Fernando Pezão (PMDB), o blog usou como analogia a arte da guerra que definiu os campos de batalha da II Guerra Mundial (1939/45). No maior espetáculo de barbárie da história humana, ao custo final de mais de 60 milhões de vidas, o nazismo alemão de Adolf Hitler (1889/1945) acabou derrotado pelo comunismo soviético tão homicida quanto de Josef Stálin (1879/1953).
Na comemoração destes 70 anos do fim da II Guerra, que só acabaria com a rendição do Japão após receber duas bombas atômicas na cabeça como ultimato do capitalismo yankee, necessária a leitura do excelente artigo do jornalista português Carlos Fino, que o blog pede licença para reproduzir abaixo. Afinal, vivendo num tempo de paz construído a partir daquela guerra, na qual também correu sangue brasileiro e campista, é sábio seguir o antigo dito de um rabi da Galileia: “A César o que é de César” (Mt. 22:21).
Confira:


Vitória contra o nazismo — O seu a seu dono
Por Carlos Fino
Quando Mário Soares visitou a URSS, em Novembro de 1987 — numa viagem que acompanhei como intérprete da delegação nacional — o primeiro acto público do então presidente português foi depor uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido, junto às muralhas do Kremlin.
Soares quis assim, nas suas próprias palavras, “prestar homenagem ao povo soviético pela sua contribuição decisiva para a derrota do nazismo”.
O gesto e a declaração foram bastante apreciados em Moscovo, onde a Segunda Guerra Mundial não é uma vaga lembrança de um passado distante, mas algo presente ainda hoje pelo colossal impacto negativo na economia do país e acima de tudo pelo preço de sangue que custou — um total de 26 milhões mortos, estimando-se que cerca de 60% dos lares soviéticos tenham perdido pelo menos um membro do seu núcleo familiar.
Soares não queria um regime comunista em Portugal e fez tudo para o evitar. Mas isso não o impedia, como político hábil e conhecedor das realidades internacionais, de reconhecer o enorme sacrifício dos soviéticos, em particular do povo russo, para derrotar o nazismo.
Números impressionantes
Os números são, de facto, impressionantes, e não deixam margem para dúvidas: foi o Exército Vermelho, com 11 milhões de mortos, que em batalhas duma violência e grandeza inauditas — como as de Kursk e Estalinegrado — inflingiu as maiores derrotas ao aparelho militar nazi, quebrando-lhe a espinha dorsal, numa impressionante contra-ofensiva que haveria de culminar com a tomada de Berlim.
Basta dizer que nos campos de batalha da URSS a Alemanha sofreu 3/4 de todas as suas perdas na guerra.
Foi também a frente leste que arcou com as maiores destruições. Em 1943, antes da contra-ofensiva vitoriosa, a URSS tinha perdido 2/3 da sua capacidade industrial — uma escala sem qualquer paralelo na frente ocidental.
Notando que os soviéticos pagaram o preço mais elevado da carnificina — 95% das perdas militares dos exércitos aliados — o escritor e jornalista britânico Max Hastings escreve que o Exército Vermelho “foi o principal motor da destruição do nazismo” (in “Inferno: The World at War, 1939-1945”).
Paradoxo trágico
Há um paradoxo trágico nessa vitória que também não pode ser esquecido— o regime estalinista era tão brutal quanto o hitlerista. Na altura da guerra já tinha provocado milhões de mortes e acabaria depois por impor nos territórios libertados ditaduras comunistas que esmagaram a vida democrática dos países do leste europeu.
É isso que explica, ainda hoje, a desconfiança desses Estados — em particular os Bálticos, mas também a Polónia, a Roménia e a Bulgária — face à Rússia e o seu alinhamento preferencial com os Estados Unidos.
Acresce, desde há pouco mais de um ano, o descontentamento ocidental com o regime de Pútin devido ao apoio que este dá aos autonomistas da Ucrânia.
Mas essa realidade trágica passada e esse desconforto presente não apagam o papel histórico que a URSS teve na derrota da Alemanha nazi. E invocá-los para não comemorar com os russos essa vitória histórica não parece ser a melhor política.
Que os Estados Unidos a fomentem, procurando isolar Moscovo, compreende-se. Desde a última guerra, confessadamente, Washington faz tudo para impedir a criação de um pólo de poder alternativo na Europa, fomentando por isso o desentendimento dos europeus com a Rússia.
Mas essa hostilidade só contribui para aproximar a Rússia da China, o que pode revelar-se, a prazo, altamente negativo para os interesses ocidentais, incluindo dos próprios Estados Unidos.
A Alemanha parece entendê-lo. Daí que Merkel, embora ausente da parada da vitória, tenha enviado na véspera o seu ministro dos Negócios Estrangeiros à Rússia e decidido ela própria ir a Moscovo encontrar-se com Pútin no dia seguinte.
Moscovo, por seu turno, parece não ter ainda perdido inteiramente a esperança de reconstituir os laços com o Ocidente. Pútin reafirmou-o agora na parada da vitória ao agradecer a contribuição dos aliados para a derrota do nazismo. E o responsável pela política externa do Kremlin disse há dias estar pronto para reatar os laços com a Otan/Nato.
A anterior aproximação com a China, que terminou em ruptura, deixou marcas negativas na Rússia, e esta preferirá sempre algum equilíbrio entre os dois pólos do que apostar tudo num só.
Resta saber se haverá disposição a ocidente para reatar o diálogo com Pútin, tudo parecendo depender da forma como for ou não resolvido o conflito na Ucrânia.
Por enquanto, a História hesita. Mas o compasso de espera não deverá ser longo.
Seja como for, no que respeita à derrota do nazismo, não pode haver dúvidas — o sacrifício dos soviéticos, em particular dos russos, foi crucial. E é de elementar justiça reconhecê-lo. O seu a seu dono.
Publicado aqui, no portugaldigital.com








