Ponto final — Previsão do tempo

Ponto final

 

Atribui-se ao ex-governador mineiro Magalhães Pinto (1909/96) a famosa máxima: “Política é como nuvem. Você olha e ela está de um jeito. Olha de novo e já mudou”. Dentro deste relativismo, é possível que Anthony Garotinho (PR) ainda vire essa eleição a governador, depois da virada que tomou na pesquisa Ibope divulgada ontem, primeira em que Luiz Fernando Pezão (PMDB) apareceu à sua frente já no primeiro turno.

A apenas 11 dias das urnas de 5 de outubro, Pezão confirma mais uma vez sua tendência de crescimento. Nas três últimas pesquisas Ibope, divulgadas em 2, 9 e 23 de setembro (ontem), ele subiu inicialmente de 19% para 25%, para agora registrar 29%, num impressionante crescimento de 10 pontos percentuais em menos de um mês. Já Garotinho, primeiro caiu de 27% para 26%, índice com o qual ontem se manteve.

Quanto ao segundo turno, do empate exato em 35% na consulta Ibope divulgada dia 2, Pezão passou Garotinho na projeção seguinte em 40% a 33%, abrindo agora consistentes 10 pontos de vantagem: 43% a 33%. Ou seja, o governador cresceu oito pontos, enquanto o deputado federal caiu dois.

Se a estagnação eleitoral parece ser o grande problema de Garotinho, diante do franco crescimento de Pezão, não é o único. Também estacionado, o senador Marcelo Crivella (PRB) se mantém na terceira colocação com os mesmos 17% nas três últimas pesquisas Ibope. Todavia, segundo a divulgada ontem, ele também ganharia o segundo turno de Garotinho pelo governo fluminense com relativa facilidade, por 41% a 33%.

Política é como nuvem. Ao dizer que foi Deus quem quis que ele soubesse da virada no Ibope enquanto estava em Campos, demagogia à parte, o horizonte amplo da planície goitacá ontem reservou poucas nuvens para Pezão, nestes 11 dias até 5 de outubro. Já para Garotinho e sua intrépida trupe, a cada nova espiadela no céu, o clima parece cada vez mais sujeito a ventos fortes, trovoadas e pancadas de chuva. Aguardemos a nova previsão do tempo ainda esta semana do Datafolha.

 

Publicado hoje na Folha.

 

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Porque Marina pode perder, mais do que Dilma pode ganhar

Marina, Dilma e Aécio (foto de Orlando Brito)
Marina, Dilma e Aécio (foto de Orlando Brito)

 

Saulo Queiroz, empresário e ex-deputado federal
Saulo Queiroz, empresário e ex-deputado federal

Perspectivas para o segundo turno

Por Saulo Queiroz

Podem ocorrer mudanças no cenário nestes 15 dias que restam de campanha, mas pouco provável que mudará o desenho de um segundo turno entre Dilma e Marina. A reação de Aécio, tímida se considerarmos o pouco tempo restante, fica comprometida pelo seu desempenho em Minas, muito aquém da expectativa de pelo menos uma maioria em seu berço político. Para entrar no páreo, precisaria avançar pelo menos sete pontos, chegando a 24%. Representa todo o eleitorado do Centro-Oeste, algo em torno de dez milhões de votos. Aécio terá que buscar esses votos só no embornal de Marina. Muito complicado.

Vale, por isso, uma avaliação de potencial das duas candidatas na disputa de segundo turno. Comecemos por Dilma. Primeira observação importante é distinguir a eleição em que não há um candidato a reeleição daquela em que um dos contendores busca a manutenção do poder. Neste caso, onde se encaixa Dilma, a escolha do eleitor tem um caráter plebiscitário: quero ou não quero que ela continue no cargo.

Desde as convenções, seu desempenho nas várias listas do Ibope e Datafolha se manteve em uma variação pequena, entre 34% e 39%. Durante todo esse tempo, cerca de 60% do eleitorado estão dizendo que não querem reeleger a presidente. É o caráter plebiscitário.

Todavia, na simulação de segundo turno contra Marina, Dilma tem avançado bem e os números já mostram uma situação de equilíbrio. Mas isso não basta para ganhar.

O detalhe é que para o segundo turno todas as variáveis são desfavoráveis à presidente. Não há perspectivas de receber apoio de partidos que perdem no primeiro turno, caso de PSDB, DEM e PTB, que tenderão a caminhar com Marina.

Os resultados das eleições estaduais tendem a favorecer Marina.

No Rio Grande do Sul, haverá segundo turno entre Ana Amélia e Tarso Genro. Por conta da polarização natural, Ana Amélia, em nítida vantagem, deve apoiar Marina. No Paraná, existe a perspectiva de Beto Richa vencer no primeiro turno, devendo apoiar Marina no segundo. Raimundo Colombo em Santa Catarina deve também vencer no primeiro turno e apoiará a reeleição da presidente no segundo turno.

No Sudeste, o PT deve ganhar no primeiro turno em Minas e o PSDB em São Paulo. Em Minas, no segundo turno Marina poderá contar com o PSDB de Aécio, o que poderia equilibrar a disputa, e em São Paulo, se houver empenho do PSDB, Marina pode consolidar uma grande vantagem.

O segundo turno na eleição do Rio, entre Garotinho e Pezão, não ajuda Dilma, porque o atual governador é favorito e não deverá se empenhar pela reeleição da presidente. No Espírito Santo, Dilma praticamente não tem ninguém, como não tem agora.

No Nordeste, os adversários de Dilma nos dois maiores colégios eleitorais, Bahia e Pernambuco, devem vencer no primeiro turno e poderão atuar no segundo turno com muita força, de forma a reduzir ainda mais a vantagem que Dilma tem hoje na região, que é de apenas 13 pontos percentuais (53% a 40%). Nos demais estados, o resultado do primeiro turno não mudará o cenário favorável a Dilma, que deve ganhar em todos eles.

No Norte o quadro é muito favorável para a presidente nos três principais estados (Pará, Amazonas e Tocantins). No segundo turno ela deve manter nítida vantagem, bem acima de 60% dos votos válidos.

No Centro-Oeste, a vantagem de Marina no segundo turno deverá ser ampliada, porque, com exceção de Mato Grosso do Sul, seus parceiros que disputarão o governo terão desempenho nitidamente superior no segundo turno, como mostram pesquisas de Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal.

Marina, aparentemente entra no segundo turno agregando duas vantagens importantes: a simetria no horário eleitoral e o possível apoio de partidos políticos importantes, mal-sucedidos no primeiro turno, caso de PSDB e DEM, mas com vitórias importantes no primeiro turno na eleição de governador, caso de São Paulo, Paraná e Bahia. Depois a oportunidade de, com tempo de televisão reforçado, poder realmente dizer ao país o que pretende e, o que é vital.

Neste final de primeiro turno, por conta de equívocos que se repetiram, seus adversários estão conseguindo desqualificar seu preparo para o cargo e a impossibilidade de atrair quadros competentes para compor seu governo e garantir maioria confiável no Congresso. Se quiser ganhar a eleição, ela terá que desmistificar, com ações concretas, estas duas questões.

Em algumas questões terá, por isso, que arbitrar entre suas convicções pessoais e de seu partido e o senso comum da população e as regras da lei, como chamou a atenção Roberto Rodrigues no caso do Código Florestal.

Dependendo de como as coisas correrem no segundo turno, é perfeitamente possível que a vontade de mudar perca para o temor do imponderável. A atriz principal desse filme se chama Marina Silva.

 

Publicado aqui, no globo.com

 

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Ponto Final — A bela e o lindinho

Ponto final

 

Mais de uma pessoa já constatou que a deputada estadual Clarissa Garotinho (PR) herdou o talento político do pai; com vantagens contadas por arroba na silhueta. Ontem, por exemplo, em matéria publicada na página 5 da edição de hoje, ao ser indagada sobre as fortes declarações do senador Lindberg Farias contra seu pai, Clarissa usou a ironia para bater de volta não só no candidato petista ao governo do Rio, como em quem aconselhou este a fazer de Garotinho de alvo preferencial: o ex-presidente Lula.

Em entrevista exclusiva aos jornalistas Dora Paula Paes e Arnaldo Neto, publicada na Folha do último domingo (aqui), Lindberg quis desconversar a pergunta sobre sua fama de não cumprir acordos, exemplificada com uma acusação do político da Lapa, respondendo: “Garotinho não tem autoridade moral para atacar ninguém”. Pois ontem, em matéria do jornalista Alexandre Bastos, publicada hoje na página ao lado (aqui), Clarissa respondeu: “Eu entendo o senador. Está querendo criar uma onda na reta final, mas até agora nem uma marolinha!”

No caso, a deputada estadual do PR e candidata a campeã de votos como deputada federal menosprezou a intenção de Lindberg de tentar criar uma onda eleitoral de última hora ao governo do estado. E ao dizer que a tal “onda” não é nem “marolinha”, Clarissa bateu também em quem mandou Lindberg bater em Garotinho. Ainda presidente, em 2008, Lula chamou de “marolinha” a mesma crise mundial que agora, seis anos depois, corrói a economia do país e afeta as chances de Dilma Rousseff continuar presidente nos próximos quatro anos.

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

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Artigo do domingo — Acabou o milho, acabou a pipoca?

 

Até as últimas duas semanas, quem julga entender algo de política afirmava, sem medo de errar, que o pleito para governador do Rio neste ano repetiria a eleição à Prefeitura de Campos, em 2004, e a suplementar, em 2006. Em ambas, hoje deputado estadual do PR em busca de reeleição, Geraldo Pudim só venceu o primeiro turno para refugar no segundo, vencido por Carlos Alberto Campista e depois por Alexandre Mocaiber.

No caso, o deputado federal Anthony Garotinho (PR) repetiria Pudim se confirmasse sua própria liderança ao primeiro turno do governo do estado em outubro próximo, mas acabasse superado nas urnas de novembro pelo segundo colocado do mês anterior. E é exatamente o que as pesquisas projetam tanto se seu adversário no segundo turno for o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), quanto o senador Marcelo Crivella (PRB).

Na última consulta Ibope da corrida ao Palácio Guanabara, divulgada no dia 9 deste mês, Garotinho ainda mantinha a dianteira no primeiro turno, com 26% das intenções de voto, mas já em empate técnico com Pezão, que apareceu apenas um ponto percentual atrás, enquanto Crivella manteve seus 17%. Todavia, na mesma amostragem, o político da Lapa perderia de 40% a 33% para Pezão no turno final — no qual não passaria do empate técnico de 34% a 33%, caso o adversário fosse Crivella.

Quanto à pesquisa Datafolha, liberada no dia 10, Pezão já apareceu em empate exato com Garotinho, ambos com 25%, para o pleito de outubro, ao qual Crivella registrou 19%. E no segundo turno? Garotinho tomaria um vareio tanto de Pezão (35% a 47%) quanto de Crivella (33% a 45%), perdendo para ambos pela mesma considerável diferença de 12 pontos percentuais.

Mas se Garotinho é derrotado em quase todas as simulações do segundo turno estadual em 2014, nos dois principais institutos de opinião brasileiros, por que não se cumpriria a analogia com a derrota final de Pudim nas eleições municipais de 2004 e 2006? Simples: Garotinho corre o risco não só de perder a liderança da corrida ao governo fluminense para Pezão, ainda no primeiro turno, como de acabar fora do segundo, sendo ultrapassado na reta final também por Crivella.

Menos conceituado do que Ibope e Datafolha, que não soltaram novos números ao governo do Rio na última semana, o Gerp divulgou no dia 16 a pesquisa mais recente da disputa. Nela, Garotinho (23%), Pezão (21%) e Crivella (20%) apareceram quase juntos na escadinha do empate técnico no primeiro turno. No segundo, o político de Campos também perderia as simulações tanto com Pezão (30% a 32%), quanto com Crivella (30% a 35%).

Com 12% das intenções de voto no Datafolha e 9% no Ibope e no Gerp, o senador Lindberg Farias (PT) ainda parece distante dos líderes na corrida a governador registrada pelas pesquisas. Fora delas, no entanto, o petista tem dado as demonstrações mais recentes de que Pezão hoje parece ter mais garantias de acesso do segundo turno do que Garotinho.

Não bastasse ter abertamente trocado o governador do PMDB pelo deputado do PR como principal alvo das suas críticas, seguindo o conselho que recebeu pessoalmente do ex-presidente Lula, o próprio Lindberg deixou clara sua análise do atual quadro eleitoral, em entrevista exclusiva publicada hoje na Folha (aqui): “Garotinho está caindo nas pesquisas e não tem força para enfrentar Pezão. Tenho condições de crescer e tirar Garotinho do segundo turno”.

Pelo menos em relação à primeira afirmação, o petista parece prenhe de razão na comparação das duas últimas pesquisas de cada instituto, na qual o crescimento de Pezão e a queda de Garotinho surgem como tendências inequívocas. O primeiro subiu pelo Ibope (19% a 25%), Datafolha (23% a 25%) e Gerp (15% a 21%), enquanto o segundo caiu nos três: 27% a 26% (Ibope), 28% a 25% (Datafolha) e 25% a 23% (Gerp). Fungando ao cangote de ambos, apesar de ter mantido os mesmos 17% nas duas últimas consultas do Ibope, Crivella cresceu pelo Datafolha (de 18% para 19%) e pelo Gerp (de 18% para 20%).

Leitor de pesquisas como poucos, ninguém está mais ciente da realidade do que Garotinho. Não por outro motivo, após ficar sem postar em seu blog por quase 24h, entre os dias 10 (quando foi divulgada a última pesquisa Datafolha) e 11, além de cancelar vários compromissos nos dias seguintes, sob alegação de “virose”, o candidato do PR ressurgiu bem ao seu estilo, no dia 18, numa entrevista ao vivo no RJ TV, onde disparou sua conhecida metralhadora giratória contra as Organizações Globo.

Na aparente impossibilidade retórica de responder às perguntas da jornalista Mariana Gross sobre processos contra ele e Rosinha, por conta da administração desta no governo do estado, Garotinho “respondeu” acusando a Globo de sonegação fiscal na compra dos direitos de transmissão dos jogos da Copa do Mundo de 2002. Para quem só é capaz de enxergar o mundo pelos antolhos do maniqueísmo, foi uma reação contundente (e merecida) contra a toda poderosa “Vênus Platinada” dos irmãos Marinho, ao estilo do ex-governador Leonel Brizola (1922/2004).

Todavia, para quem tem capacidade de enxergar o dois somado ao outro, e projetar o quatro como resultado final da equação, soa meio óbvia a lembrança de que as denúncias de Garotinho no RJ TV já vinham sendo feitas, não é de hoje, pela Rede Record, principal concorrente da Globo e propriedade de Edir Macedo, tio de Crivella. Nem é preciso estar tomado da onisciência do espírito santo para identificar o sinal terreno.

Na melhor das hipóteses, se estiver no segundo turno com Pezão, Garotinho tenta construir uma ponte “evangélica”, senão capaz de conquistar o apoio declarado de Crivella, suficiente ao menos para que este libere os fieis eleitores da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd). Na hipótese menos boa, caso não consiga estancar sua queda e acabe fora do segundo turno, só restará a Garotinho orar para lá estar o mesmo Crivella, que passaria a ser sua possibilidade de salvação do limbo político no estado do Rio.

Se até 15 dias atrás o que Garotinho mais tinha a temer era ser o Pudim de uma década atrás, ele tem só mais duas semanas, até 5 de outubro, para tentar exorcizar de si e dos seus um medo muito maior: ser o Paulo Feijó de 2004, quando o deputado federal hoje no PR liderou boa parte da corrida à Prefeitura de Campos, mas foi atropelado na reta final e acabou fora do segundo turno.

Por ora, diante da expectativa de virada de Pezão já nas próximas pesquisas, o clima reinante nas hostes do PR goitacá e fluminense é o de “acabou o milho, acabou a pipoca”.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Artigo do domingo — Não passarão?

Guermica, de Pablo Picasso, pintado em Paris, em 1937
Guermica, de Pablo Picasso, pintado em Paris, em 1937

 

 

“No, la pintura no está hecha para decorar las habitaciones. Es un instrumento de guerra ofensivo y defensivo contra el enemigo” (“Não, a pintura não está feita para decorar apartamentos. Ela é uma arma de ataque e defesa contra o inimigo”). As palavras duras de Pablo Picasso (1881/1973) só não são mais fortes do que as imagens monocromáticas do famoso painel “Guernica”, considerado uma das suas obras primas, assim como do próprio movimento cubista do qual o pintor espanhol foi o principal expoente.

Cidade do País Basco, província ao norte da Espanha, Guernica foi completamente destruída pelo bombardeio da Luftwaffe, a força aérea de guerra da Alemanha nazista, que usou a Guerra Civil Espanhola (1936/39) como tubo de ensaio para sua tática da blitzkrieg (guerra relâmpago), com a qual conquistaria quase toda a Europa, antes de ser derrotada na II Guerra Mundial (1939/45). O horror de uma guerra mecanizada e sem pudores contra populações civis indefesas, que quedou dos céus sobre Guernica em 1937, foi o que Picasso retrataria no mesmo ano, como prenúncio daquilo que se abateria sobre todo o mundo, literalmente, nos anos seguintes.

Com o mesmo empenho com que Picasso se opunha ao massacre de Guernica e aos fascistas que o perpetraram, outro pintor de menos talento, Adolf Hitler (1889/1945), feito Führer (“Líder”) da Alemanha nazista após fracassar como artista, apoiava o general espanhol Francisco Franco (1892/1975) no golpe militar contra o governo eleito democraticamente pelo povo da Espanha.

Com um oceano, um hemisfério, um continente e alguns anos de diferença, outra democracia de sangue latino vai também definindo seus quadros às vésperas de outras eleições. No Brasil, a presidente Dilma Rousseff (PT) mostra ainda ter lenha para queimar. Não só suportou a “blitzkrieg” eleitoral de Marina Silva (PSB), como já apresenta sinais de recuperação junto ao eleitor.

Se no Ibope da semana anterior, divulgado em 3 de setembro, Dilma tinha 37% das intenções de voto, contra 33% da principal concorrente, na nova amostragem do instituto, liberada no dia 12, a presidente cresceu dois pontos, aparecendo com 39%, enquanto Marina caiu para 31%, perdendo os mesmos dois pontos. E a vitória clara de Marina no segundo turno, prevista pelo Ibope anterior (46% diante dos 37% da presidente), se transformou num empate quase absoluto, no qual Marina hoje tem 43% (queda de quatro pontos) contra 42% de Dilma, que subiu consideráveis cinco pontos no mesmo curto espaço de tempo.

Esse movimento de recuperação de Dilma e queda de Marina também foi registrado no Datafolha. Na comparação das duas últimas pesquisas do instituto, divulgadas em 3 e 10 de setembro, se o empate técnico entre as duas ex-ministras de Lula ficou mantido no primeiro turno (Dilma tinha 35% contra 34% de Marina, e agora tem 36% contra 33%), a vitória antes folgada da candidata do PSB no segundo turno (48% contra 41% da presidente) se transformou em dúvida exata, com as duas apresentando agora os mesmos 47% de intenções de voto.

Diferente de Dilma, quem tem demonstrado dificuldades em reagir ao avanço rápido do principal adversário, é o deputado federal Anthony Garotinho, candidato do PR contra o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Entre as duas últimas pesquisas do Ibope, liberadas respectivamente aos dias 2 e 9 deste mês, Pezão cresceu impressionantes seis pontos, passando de 19% a 25%, enquanto o político da Lapa, para não dizer que está estagnado, perdeu um ponto: tinha 27% e caiu para 26%. E, mais grave, o empate exato em 35% que o Ibope apontava no segundo turno entre ambos, se transformou em previsão de vitória final relativamente fácil para Pezão, que subiu para 40%, enquanto Garotinho agora só tem 33%.

No Datafolha, entre as pesquisas divulgadas em 4 e 10 de setembro, o quadro se desenha ainda mais desanimador ao candidato do PR. No primeiro turno, Pezão cresceu dois pontos, passando de 23% a 25%, enquanto o campista caiu de 28% para 25%. Mas é nas simulações de segundo turno que a situação se agrava para Garotinho, que caiu de 36% para 35%, enquanto o atual governador subiu de 45% para 47% das intenções de voto, abrindo uma considerável diferença de dois dígitos na decisão final.

De fato, o impacto da última projeção do Datafolha foi tão forte, que o próprio Garotinho, no mesmo dia 10 em que a pesquisa foi divulgada, pareceu atordoado ao ficar sem postar nada em seu blog, desde o final da manhã daquele dia, só voltando a emitir sinal virtual de vida quase 24 horas depois, quando foi obrigado a admitir publicamente o crescimento de Pezão. E os sinais de desânimo, bem como as ameaças para tentar conter a debandada no grupo, não passaram despercebidos nas expressões e discursos do comício de anteontem na praça São Salvador, quando Garotinho entregou sua campanha “em primeiro lugar a Deus e, em segundo, ao povo”.

Na incerteza do Divino, quanto ao povo, apesar de ter sido bravateada a presença de mais de 15 mil pessoas na praça, ninguém que lá esteve foi capaz de enxergar, com muito boa vontade, no máximo um quinto disso.

Garotinho, então, é carta fora do baralho, como se arriscam a já apregoar alguns? Longe disso! Marcelo Crivella (PRB) que aparece com 17% no Ibope e 19%, pelo Datafolha, ainda pode ser fator surpresa, tanto no primeiro, quanto no segundo turno. Muito embora em sua entrevista exclusiva publicada hoje na Folha, o sobrinho de Edir Macedo deixe nas estrelinhas da última resposta a indicação de que, num segundo turno entre Pezão e Garotinho, caminharia com o primeiro. E não é nem preciso ser mais inteligente do que Aécio Neves (PSDB), aliado de Dilma na desconstrução de Marina, para projetar isso.

Inteligência é o que nunca faltou a Garotinho. Tampouco ao generalíssimo Francisco Franco, que recebeu o apoio de Hitler para vencer a Guerra Civil Espanhola, mas nunca retribuiu o favor na II Guerra Mundial.

O resultado? O líder da Alemanha se mataria no fundo de seu bunker, em abril de 1945, numa Berlim posta de joelhos pela ex-União Soviética com tanta lenha para queimar quanto Dilma e Pezão demonstram ter agora. Enquanto isso, Franco continuou governando a Espanha até bem perto de morrer, de causas naturais, em 1975, dentro dos mesmos princípios fascistas derrotados 30 anos antes, nos campos de batalha da II Guerra.

Mesmo que Garotinho perca a disputa ao governo do estado, só um tolo pode supor que seu candidato à sucessão de Rosinha, independente do nome, não entre na disputa como favorito em 2016. Da mesma maneira, só outro tolo acreditaria que a oposição local não vá mais uma vez dividir sua força já inferior em várias candidaturas ainda menores, exatamente como fizeram na Guerra Civil Espanhola os defensores do estado democrático de direito. Foi quando popularizaram no mundo o inspirador lema “!No passarán!” (“Não passarão!”), antes dos coturnos franquistas passarem sobre suas cabeças.

 

Publicado hoje, na edição impressa da Folha.

 

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Na história republicana do Brasil, não houve político mais influente do que Lula

Historiador Marco Antonio Villa
Historiador Marco Antonio Villa

O silêncio de Lula

Por Marco Antonio Villa

Na história republicana brasileira, não houve político mais influente do que Luiz Inácio Lula da Silva. Sua exitosa carreira percorreu o regime militar, passando da distensão à abertura. Esteve presente na Campanha das Diretas. Negou apoio a Tancredo Neves, que sepultou o regime militar, e participou, desde 1989, de todas as campanhas presidenciais.

Quando, no futuro, um pesquisador se debruçar sobre a história política do Brasil dos últimos 40 anos, lá encontrará como participante mais ativo o ex-presidente Lula. E poderá ter a difícil tarefa de explicar as razões desta presença, seu significado histórico e de como o país perdeu lideranças políticas sem conseguir renová-las.

Lula, com seu estilo peculiar de fazer política, por onde passou deixou um rastro de destruição. No sindicalismo acabou sufocando a emergência de autênticas lideranças. Ou elas se submetiam ao seu comando ou seriam destruídas. E este método foi utilizado contra adversários no mundo sindical e também aos que se submeteram ao seu jugo na Central Única dos Trabalhadores. O objetivo era impedir que florescessem lideranças independentes da sua vontade pessoal. Todos os líderes da CUT acabaram tendo de aceitar seu comando para sobreviver no mundo sindical, receberam prebendas e caminharam para o ocaso. Hoje não há na CUT — e em nenhuma outra central sindical — sindicalista algum com vida própria.

No Partido dos Trabalhadores — e que para os padrões partidários brasileiros já tem uma longa existência —, após três decênios, não há nenhum quadro que possa se transformar em referência para os petistas. Todos aqueles que se opuseram ao domínio lulista acabaram tendo de sair do partido ou se sujeitaram a meros estafetas.

Lula humilhou diversas lideranças históricas do PT. Quando iniciou o processo de escolher candidatos sem nenhuma consulta à direção partidária, os chamados “postes”, transformou o partido em instrumento da sua vontade pessoal, imperial, absolutista. Não era um meio de renovar lideranças. Não. Era uma estratégia de impedir que outras lideranças pudessem ter vida própria, o que, para ele, era inadmissível.

Os “postes” foram um fracasso administrativo. Como não lembrar Fernando Haddad, o “prefeito suvinil”, aquele que descobriu uma nova forma de solucionar os graves problemas de mobilidade urbana: basta pintar o asfalto que tudo estará magicamente resolvido. Sem talento, disposição para o trabalho e conhecimento da função, o prefeito já é um dos piores da história da cidade, rivalizando em impopularidade com o finado Celso Pitta.

Mas o símbolo maior do fracasso dos “postes” é a presidente Dilma Rousseff. Seu quadriênio presidencial está entre os piores da nossa história. Não deixou marca positiva em nenhum setor. Paralisou o país. Desmoralizou ainda mais a gestão pública com ministros indicados por partidos da base congressual — e aceitos por ela —, muitos deles acusados de graves irregularidades. Não conseguiu dar viabilidade a nenhum programa governamental e desacelerou o crescimento econômico por absoluta incompetência gerencial.

Lula poderia ter reconhecido o erro da indicação de Dilma e lançado à sucessão um novo quadro petista. Mas quem? Qual líder partidário de destacou nos últimos 12 anos? Qual ministro fez uma administração que pudesse servir de referência? Sem Dilma só havia uma opção: ele próprio. Contudo, impedir a presidente de ser novamente candidata seria admitir que a “sua” escolha tinha sido equivocada. E o oráculo de São Bernardo do Campo não erra.

A pobreza política brasileira deu um protagonismo a Lula que ele nunca mereceu. Importantes líderes políticos optaram pela subserviência ou discreta colaboração com ele, sem ter a coragem de enfrentá-lo. Seus aliados receberam generosas compensações. Seus opositores, a maioria deles, buscaram algum tipo de composição, evitando a todo custo o enfrentamento. Desta forma, foram diluindo as contradições e destruindo o mundo da política.

Na campanha presidencial de 2010, com todos os seus equívocos, 44% dos eleitores sufragaram, no segundo turno, o candidato oposicionista. Havia possibilidade de vencer mas a opção foi pela zona de conforto, trocando o Palácio do Planalto pelo controle de alguns governos estaduais.

Se em 2010 Lula teve um papel central na eleição de Dilma, agora o que assistimos é uma discreta participação, silenciosa, evitando exposição pública, contato com os jornalistas e — principalmente — associar sua figura à da presidente. Espertamente identificou a possibilidade de uma derrota e não deseja ser responsabilizado. Mais ainda: em caso de fracasso, a culpa deve ser atribuída a Dilma e, especialmente, à sua equipe econômica.

Lula já começa a preparar o novo figurino: o do criador que, apesar de todos os esforços, não conseguiu orientar devidamente a criatura, resistente aos seus conselhos. A derrota de Lula será atribuída a Dilma, que, obedientemente, aceitará a fúria do seu criador. Afinal, se não fosse ele, que papel ela teria na política brasileira?

O PT caminha para a derrota. Mais ainda: caminha para o ocaso. Não conseguirá sobreviver sem estar no aparelho de Estado. Foram 12 anos se locupletando. A derrota petista — e, mais ainda, a derrota de Lula — poderá permitir que o país retome seu rumo. E no futuro os historiadores vão ter muito trabalho para explicar um fato sem paralelo na nossa história: como o Brasil se submeteu durante tantos anos à vontade pessoal de Luiz Inácio Lula da Silva.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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