Desde ontem, quando 2,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo assistiram à presidente Dilma Rousseff (PT) ser vaiada e xingada ao vivo, pela torcida brasileira que lotou a Arena Corinthians, em São Paulo, no Brasil 3 x 1 Croácia, que abriu a Copa do Mundo, os céleres simpatizantes do governo federal petista têm insistido em segmentar o fato como evento isolado, lido a partir do conceito marxista da luta entre classes sociais. Por essa visão, uma governante como Dilma, que deu continuidade às políticas de inclusão social do ex-presidente Lula, sobretudo a partir da distribuição maciça de bolsas assistenciais, estaria sendo atacada por uma elite branca, raivosa e preconceituosa de São Paulo, capital econômica do país, embora também seja, ironicamente, o berço de nascimento do PT.
Dentro desse raciocínio, essa mesma tal “elite branca” seria a única capaz de pagar os caríssimos ingressos cobrados pela Fifa ao evento que os governos populares de Lula e Dilma, paradoxalmente, tanto lutaram para trazer ao Brasil — apesar dos atrasos vergonhosos nas obras nos estádios e do adiamento, só para depois da Copa, de grande parte das obras de infraestrutura prometidos como legado permanente à população.
Felizmente, com o advento da internet e da democracia irrefreável das redes sociais, essa leitura não resiste a uma simples consulta no Youtube. A partir dos eventos lá registrados em áudio e vídeo por qualquer cidadão munido de celular, é possível constatar que as vaias e os xingamentos à presidente Dilma, cuja queda de aprovação e popularidade se acentua a cada nova pesquisa, se trata de um fenômeno nacional, presente tanto nas ruas quanto em eventos pagos, que nasceu há cerca de um ano e cresceu gradativamente, até alcançar a previsível evidência mundial de ontem.
Senão, vejamos:
15/06/13 Na abertura da Copa das Confederações, no Brasil 3 x 0 Japão, no estádio Mané Garrincha, em BRASÍLIA, a presidente Dilma Rousseff foi sonoramente vaiada, embora ainda sem ser xingada, quando foi apresentada oficialmente pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter. Relembre:
17/06/13 Num dos protestos que estouraram em junho do ano passado, na democracia sócioeconômica plena das ruas paulistanas, surge o grito “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”, que só agora, quase um ano depois, causou tanta surpresa, sendo apressadamente atribuído a uma suposta “elite branca”. Como aconteceria no Itaquerão, também nas ruas o hino nacional serviu de introdução aos xingamentos à presidente da República. Veja:
31/05/14 No show de O Rappa, realizado em Ribeirão Preto (SP), na 13ª edição do João Rock, considerado o maior festival de música pop e rock do interior, o cantor Falcão toma o microfone para fazer um desabafo até raro na classe artística, ainda majoritariamente ligada ao PT, ou com medo da feroz patrulha dos seus militantes: “Infelizmente o legado que tem da Copa é um legado muito escroto, muito pequenininho, muito nada a ver. (…) E só tem dois tipos de Copa, a que vencer e a eleição que vem logo depois. A gente não pode esquecer disso”. O público presente de cerca de 40 mil pessoas respondeu em uníssono, a apenas 12 dias da abertura da Copa: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”. Confira:
No mais, para quem teve que deixar qualquer torcida de lado para trabalhar na cobertura do jogo de abertura de uma Copa do Mundo no Brasil, na qual se foi obrigado a também registrar o “Ei, Dilma, vai tomar no cu!” da torcida, cabe o eco pessoal à reação de Falcão ao mesmíssimo coro, menos de duas semanas atrás:
— Você viu que eu jamais falaria isso. Mas esse desabafo não é meu, não. Esse desabafo é de vocês, é nosso, é de todo mundo. É só um desabafo! Mas mesmo se ganhar, eu vou continuar pensando desse jeito, mesmo se ganhar. Me falaram que a Copa está comprada. Eu não acredito nisso, porque tem seleção que joga pra caralho.