Vinicius de Moraes — A um passe de Didi, Garrincha avança

Vinte e oito gols em 9 jogos, numa espetacular média de mais de três por partida. Dois clássicos em jogos de antologia (Holanda 5 x 1 Espanha e Itália 2 x Inglaterra). Atuações individuais de gala do brasileiro Oscar, do holandês Arjen Robben, do maestro italiano Andrea Pirlo e até da grata surpresa costarriquenha Joel Campbell. E o alemão Bastian Schweinsteiger, o português Cristiano Ronaldo e, sobretudo, a Argentina de Lionel Messi em pleno Maracanã, ainda nem entraram em campo ainda.

Seja por seu batismo na emoção do canto à capela do hino brasileiro, ou na catarse da vaia e do xingamento à presidente Dilma, neste céu e inferno na Terra que nos faz tão humanos quanto qualquer outro entre as 32 nações aqui reunidas, ninguém pode dizer que essa Copa não tenha começado muito bem, obrigado! E na torcida para que esse encantamento não se quebre, pelo menos dentro das quatro linhas, que as bençãos do Poetinha Vinicius de Moraes caiam sobre este domingo de mais futebol, no soneto por ele dedicado ao encantador de pernas tortas do rude esporte bretão:

 

Vinicius de Moraes

 

O anjo das pernas tortas

(Vinicius de Moraes)

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola trança
Feliz, entre seus pés — um pé de vento!

Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: Gooooool!
É pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. É pura dança!

Rio de Janeiro, 1962

 

Didi e Garrincha
Sempre pela direita, os maiores meia e ponta da história do futebol mundial, da seleção brasileira e do Botafogo, o campista Didi e Mané Garrincha foram fundamentais na conquista de duas Copas do Mundo, em 1958 e 62

 

 

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Suíços picham sede da Fifa em apoio aos protestos no Brasil

Manifestantes suícos picharam a sede da Fifa em apoio aos protestos dos brasileiros contra a Copa (foto: 20 Minuten)
Manifestantes suícos picharam a sede da Fifa em apoio aos protestos dos brasileiros contra a Copa (foto: 20 Minuten)

 

A sede da Fifa, em Zurique, foi pichada em protesto contra Copa do Mundo. Cerca de 150 pessoas se reuniram na tarde desse sábado (14/06) em apoio às manifestações do Brasil contra o evento, e atacaram o local. O grupo usou tinta vermelha para pintar a entrada da sede, de acordo com policiais locais, os autores do ato não foram alcançados.

A manifestação foi pacífica, apesar de ter causado danos à sede da Fifa. De acordo com as autoridades policiais, os manifestantes levavam bandeiras de organizações de juventude de esquerda, e cartazes com os dizeres “Nós amamos o futebol — nós odiamos a FIFA”. Fotos do ato foram divulgadas no jornal sueco 20 Minuten. O periódico também destacou que os manifestantes agiram em apoio aos protestos brasileiros que ocorrem no Brasil desde o ano passado, durante a Copa das Confederações.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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Antes tarde do que nunca, as saliências holandesas com os campeões espanhóis

Como ainda não escrevi nada sobre o surpreendente e acachapante Holanda 5 x 1 Espanha da última sexta (13/06), numa histórica desforra da final da Copa de 2010, construída sobretudo a partir das atuações de antologia dos atacantes Robben e Van Persie, sem contar o menino Blind na lateral-esquerda, fiquemos nesta bem humorada manhã dominical com uma imagem capaz de falar mais do que mil palavras atrasadas. Certo que o Leão da Casa de Orange, como diria o jornalista Ancelmo Gois, fez saliências em campo com o touro miúra da Casa dos Bourbon. Mas bem que poderia ter tido só um pouquinho mais de respeito com os atuais campeões do mundo…

 

espanha e holanda

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País da Copa — Dilma é xingada no Mineirão e cai em pesquisa; Lula ataca e prevê violência

Depois do Itaquerão, em São Paulo, na abertura da Copa  de quinta, ontem foi a vez da torcida brasileira do Mineirão, mesmo sem a presença da presidente, entoar o coro: “Ei, Dilma, vai tomar no c(...)!”
Depois do Itaquerão, em São Paulo, na abertura da Copa de quinta, ontem foi a vez da torcida brasileira do Mineirão, mesmo sem a presença da presidente, entoar o coro: “Ei, Dilma, vai tomar no c(…)!”

 

Após ter dividido opiniões e mergulhado o país em polêmica, desde o Brasil 3 a 1 Croácia que abriu a Copa do Mundo na última quinta (12/06), no Itaquerão, o  coro “Ei, Dilma, vai tomar no c(…)!” da torcida brasileira não está mais restrito a São Paulo (relembre aqui), nem à necessidade da presença física da presidente da República. Ontem, o coro foi novamente entoado pela torcida brasileira presente ao jogo Colômbia 3 x 1 Grécia, válido pela primeira rodada do Grupo C, no Mineirão, em Belo Horizonte (MG), reduto eleitoral do senador Aécio Neves (PSDB), principal concorrente da oposição  à corrida presidencial. Embora seja mineira nascida e criada na capital, em família de classe média alta, Dilma Rousseff fez carreira política no Rio Grande do Sul.

Distante da sua cidade natal, Dilma ontem estava em Recife, reduto de outro adversário em sua disputa à reeleição, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB). O compromisso da presidente não foi assistir ao outro jogo da rodada no Grupo C, Costa do Marfim 2 x 1 Japão, realizado na Arena Pernambuco, mas participar de encontro com o ex-presidente Lula (PT). Na tentativa de defender sua afilhada política dos ataques sofridos na Copa do Mundo que ambos tanto trabalharam para trazer ao Brasil, Lula deu ainda mais ênfase ao discurso do medo, do qual o PT foi vítima no passado, mas passou a adotar para tentar conter a tendência de queda de Dilma, que votou a cair em nova pesquisa Sensus também divulgada ontem: de  34% (em abril) para 32,2%, enquanto Aécio subiu de 19,9% para 21,5% nas intenções de voto (conheça aqui a íntegra da consulta).

Acuado por ver sua candidata a presidente em queda e xingada publicamente pela população, sendo alvo dos protestos contra a Copa, graves denúncias de corrupção na Petrobras e ostentando um péssimo desempenho na condução da economia do país (confira aqui), enquanto dentro do próprio PT ainda há quem queira que ele mesmo assuma mais uma vez o risco pessoal e político da candidatura, o ex-presidente abandonou o estilo “Lulinha Paz e Amor” que levou o PT ao poder, para disparar sua metralhadora giratória contra as “elites” e a imprensa, chegando a prever violência na campanha:

— Nós estamos com um problema sério neste país, Dilminha. Esta campanha está correndo o risco de ser uma campanha violenta, em que a elite brasileira está conseguindo fazer o que nós nunca conseguimos, que é despertar o ódio entre as classes. Está conseguindo fazer com que o ódio tome conta da campanha neste ano, e não medirá esforços para a quantidade de mentiras e preconceitos que vão contar contra a senhora.  “[Os xingamentos são] uma falta de respeito, uma cretinice fomentada por uma parte da imprensa brasileira que, agora, está falando que não é para fazer assim, que não era para ter palavrão.

  

Em Recife, para fazer política na terra de Eduardo Campos, em dia de jogo de Copa, Lula atacou para tentar defender Dilma e previu violência na campanha presidencial (foto de Vitor Tavares - G1)
Em Recife, para fazer política na terra de Eduardo Campos, em dia de jogo de Copa, Lula atacou para tentar defender Dilma e previu violência na campanha presidencial (foto de Vitor Tavares – G1)

 

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Vaia no Itaquerão foi eco do “nós contra eles”

tiro pela culatra

 

 

Merval Pereira1O sentido das coisas

Por Merval Pereira

 

Não havia apenas membros das elites brasileiras no estádio, não foram apenas as alas VIPs que xingaram a presidente, e não é nada desprezível o significado político do que aconteceu naquela tarde em São Paulo. A presidente Dilma tem um problema sério pela frente, pois é evidente a má vontade dos paulistas com seu governo e com o PT, provavelmente turbinado pela gestão medíocre do prefeito Fernando Haddad na capital paulista.

As pesquisas estão aí para mostrar que ela perde em São Paulo num hipotético segundo turno, tanto para Aécio Neves quanto para Eduardo Campos. Os xingamentos à presidente tem um lado lamentável relacionado muito mais à nossa civilidade como sociedade do que com o respeito que se deve ter a um presidente da República.

Os xingamentos tornaram-se a maneira corriqueira de expressar desagrados nos campos de futebol do país inteiro, e está longe o dia em que chamar o juiz de ladrão, ou mesmo xingar sua mãe, eram maneiras de protestar. Hoje, qualquer criança, de qualquer nível social ou econômico, tem no xingamento mais vulgar a maneira corriqueira de expressar seu descontentamento nos campos de futebol.

A banalização dos xingamentos, uma violência verbal, juntamente com a violência física, são pragas do nosso futebol que precisam ser extirpadas, e a presidente Dilma foi vítima desse hábito nada educado e rigorosamente condenável. Mas os excessos da multidão, formada por pessoas de todos os níveis sociais, não eximem a presidente de ser merecedora do repúdio expresso pelas vaias e pelos xingamentos.

Claro que o melhor seria se esses excessos verbais não tivessem existido, e que as vaias, como na abertura da Copa das Confederações do ano passado, fossem o instrumento para exprimir o sentimento que domina parcela cada vez maior da população.

Dias antes, a presidente Dilma havia se aproveitado de seu cargo para, em cadeia nacional de rádio e televisão, num abuso de poder, defender-se das críticas a seu governo, sem que houvesse possibilidade de contestação. A conta chegou no jogo de estreia do Brasil, quando a multidão presente ao estádio soube distinguir perfeitamente o que é nacionalismo real daquele patriotismo forçado pelos políticos que fez o escritor e pensador inglês do século XVIII Samuel Johnson dizer que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”.

A presidente Dilma havia mandado que sua imagem não aparecesse no telão do estádio, para não ficar exposta à ira dos torcedores. Mas, num gesto demagógico, colocaram-na no telão ao comemorar o gol de empate do Brasil, ao lado do vice Michel Temer. Foram impiedosamente vaiados.

O torcedor presente ao Itaquerão aplaudiu a bandeira do Brasil sempre que ela surgiu em campo, fosse na cerimônia de abertura ou na entrada dos times, cantou o Hino Nacional à capela num emocionante e espontâneo rasgo de patriotismo, e entoou cânticos populares exaltando o fato de ser brasileiro.

Com relação à presidente da República, auto-emudecida pela previsão de que receberia uma imensa vaia caso sua presença fosse anunciada, o estádio inteiro demonstrou sua insatisfação com ela de maneira grosseira, porém sincera.

A grosseria é um problema nosso, de uma sociedade que precisa encontrar novamente o caminho da civilidade e da convivência pacífica entre os contrários.

Essa exacerbação dos sentidos não ajuda a democracia, mas é preciso salientar que esse clima de guerra permanente foi instalado pelo PT, que não sabe fazer política sem radicalização e que precisa de um inimigo para combater. A prática do “nós contra eles” acaba levando a radicalizações como a de quinta-feira.

A vaia é um problema da presidente Dilma e do PT.

 

Publicado hoje na edição impressa de O Globo.

 

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Primeira zebra da Copa: Costa Rica derrota Uruguai e lidera Grupo da Morte

zebraNa primeira grande zebra da Copa, a Costa Rica venceu agora há pouco o Uruguai, numa surpreendente virada de 3 a 1, no Castelão de Fortaleza. Quer surpresa maior? Até o apito final do clássico europeu Inglaterra x Itália, que começa daqui a pouco sob o calor úmido de Manaus, a Costa Rica, quem diria, ocupa a  liderança do Grupo D, também chamado de “Grupo da Morte”, com três ex-campeões mundias entre os quatro que disputam duas vagas às oitavas de final.

Se tivesse que apostar sobre o resultado do próximo jogo da Copa, empilharia minhas fichas na juventude da seleção inglesa, equilibrada pelos veteranos Gerrard e Wayne Rooney. Mas a categoria do maestro italiano Pirlo, mesmo aos 35 anos, nunca pode ser subestimada. Quanto ao seu voluntarioso companheiro de time Mario Balotelli? Bem, só vendo…

 

Atualização às 20h58: Apesar da boa apresentação da garotada inglesa, sobretudo Sterling (19 anos), Welbeck (23 anos) e Sturridge (24 anos), que marcou o gol da sua seleção,  a vitória por 2 a 1 foi da Itália. Balotelli não recebeu muitas bolas, mas o suficiente para quase marcar um golaço numa delas, em arremate por cobertura e quase sem ângulo, no final do primeiro tempo. Mas na segunda etapa, o atacante usaria a cabeça para achar o caminno das redes e dar números finais à partida.

Todavia, foi no lance do gol italiano que abriu o placar, num preciso chute fora da área de Marchisio, que se desvelou a jogada mais cerebral da partida. Como só podem fazer os gênios da bola, Pirlo não precisou tocar nela, deixando-a passar calmamente por entre as pernas, no corta luz que enganou toda a defesa inglesa e abriu o espaço para Marchisio enfiar o pé. No finalzinho do jogo, no estilo que ele disse ter “herdado” do nosso Juninho Pernambucano, mas levou a um patamar superior, Pirlo ainda cobrou uma falta, num chute cheio de efeito que explodiu no travessão inglês.

Aos 35 anos, em sua quarta Copa do Mundo, o craque italiano já declarou que está disputando no Brasil a sua última. Embora ainda não se saiba como esta vai terminar, já se pode prever como será a próxima: mais pobre, sem a elegância de Pirlo.

 

Em 11 de junho, véspera da abertura da Copa, Pirlo recebeu na concentração italiana, em Mangaratiba (RJ), o jogador que sem seu livro disse ter lhe inspirado na cobrança de faltas: Juninho Pernambucano
Em 11 de junho, véspera da abertura da Copa, Pirlo recebeu na concentração italiana, em Mangaratiba (RJ), o jogador que sem seu livro disse ter lhe inspirado na cobrança de faltas: Juninho Pernambucano

 

 

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Nelson Rodrigues — A grandeza do homem do Brasil é uma piada

Garrincha

 

 

Nelson Rodrigues A piada imortal

Por Nelson Rodrigues

 

“Já descobrimos o Brasil e não todo o Brasil. Ainda há muito Brasil para descobrir. Não há de ser num relance, num vago e distraído olhar, que vamos sentir todo o Brasil. Este país é uma descoberta contínua e deslumbrante”.

Amigos, eu ando falando muito do Brasil. E muita gente já rosna, com tédio e irritação: — “Você está descobrindo o Brasil?” É exato. Estou, sim, estou descobrindo o Brasil. Eis que, de repente, cada um de nós, cada um dos setenta milhões de brasileiros passa a ser um Pedro Álvares Cabral.

Já descobrimos o Brasil e não todo o Brasil. Ainda há muito Brasil para descobrir. Não há de ser num relance, num vago e distraído olhar, que vamos sentir todo o Brasil. Este país é uma descoberta contínua e deslumbrante. E justiça se faça ao escrete: — é ele que está promovendo, quem está anunciando o Brasil.

A princípio, o sujeito pode pensar que o escrete revelou o Brasil para o mundo. Isso também. Todavia, o mais importante e o mais patético é a descoberta do Brasil para os próprios brasileiros. Pergunto: — o que sabemos nós do Brasil? Pouco ou, mesmo, nada. A partir de 58, o Brasil começou a aparecer aos nossos olhos.

Digo mais: — foi o escrete que ensinou o brasileiro a conhecer-se a si mesmo. Tínhamos uma informação falsa a nosso respeito. Sempre me lembro de um amigo meu que era um bem, um símbolo nacional. Exuberante como um italiano de Hollywood, um italiano de anedota, o sujeito tinha o gosto do berro e do gesto largo. Se via um vago conhecido, ele abria os braços até o teto e se arremessava com a efusão de um amigo de infância. Tipo gozadíssimo. E o Fulano costumava dizer, aos uivos: — “Eu sou um quadrúpede!” E para evitar dúvidas, ampliava: — “Eu sou um quadrúpede de 28 patas!”

Esta autocrítica jocunda e feroz era o que todos nós fazíamos. O sujeito, aqui, não acreditava nem nos outros, nem em si mesmo. E aquele que se nega está, ao mesmo tempo, negando a própria terra. Quando dissemos: — “Eu sou uma besta!” — estamos vendo bestas por toda parte. Não havia nenhum ufanismo no Brasil. Em absoluto. Como o meu amigo citado, cada um de nós era um Narciso às avessas, que cuspisse na própria imagem.

Em 58, o escrete ainda embarcou desconfiado. Mas já uma dúvida instalava-se em nosso espírito. O sujeito já não sabia se era ou não uma besta chapada ou, na melhor das hipóteses, uma semibesta. A campanha de 58 viria clarificar o problema. Chegamos na Suécia, ainda perplexos. Vencemos a Áustria e empatamos com a Inglaterra. Vem, finalmente, o jogo com a Rússia.

Eu vou dizer o momento exato em que se inaugurou o verdadeiro Brasil. Foi após o hino nacional brasileiro. Os jogadores ainda estavam perfilados e trêmulos. A Rússia seria uma prova crucial. Mais do que nunca dava em cada jogador o dilema: — “Ser uma besta ou não ser uma besta?” E, então, soou, naquele escrete contraído, a voz de Garrincha. Com a sua candura triunfal, dizia o Mané para o Nilton Santos: — “Aquele bandeirinha tem a cara do ‘seu’ Carlito!” Houve, então, o riso incoercível, total. Foi o bastante. O escrete tomou-se de uma nova e feroz potencialidade. E da piada de Garrincha partiu para a vitória

Ali, começava o verdadeiro Brasil. Ninguém sabe, mas foi uma piada que derrotou a grande, a colossal, a imbatível Rússia. A mesma piada deu ao brasileiro a sensação da própria grandeza. Com um quase pânico, o homem do Brasil percebeu que era genial.

 

Jornal dos Sports, 27/5/1962

 

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Interpol investiga no Brasil manipulação de resultados na Copa do Mundo

Ronald Noble, secretário geral da Interpol, e Joseph Blatter, presidente da Fifa (foto de Arnd Wiegmann - Reuters)
Ronald Noble, secretário geral da Interpol, e Joseph Blatter, presidente da Fifa (foto de Arnd Wiegmann – Reuters)

 

O secretário geral da Interpol (organização internacional que coopera com policias de diversos países), Ronald Noble, revelou à rede americana CNN que a instituição enviou uma equipe para o Brasil para investigar uma possível manipulação de partidas na Copa do Mundo.

“Posso garantir que, agora, enquanto a Copa acontece, existem grupos de crime organizado trabalhando com apostas ilegais. Isso pode influenciar no resultado de um jogo ou no que acontece em campo, com suborno ou corrupção”, disse Noble em entrevista ao apresentador Richard Quest no programa Quest Mean Business, na tarde de ontem (13/06).

“E quando você pensa é um evento grande, é muito importante, esse tipo de coisa não pode acontecer, é que aí você tem um problema. Por isso, enviamos uma equipe da Interpol ao Brasil, para ajudar os brasileiros, e outras equipes pelo mundo para investigar esses grupos de crime organizado que trabalham com manipulação de resultados. Isso tem que ser vigiado”.

Na noite desta sexta, Luiz Eduardo Navajas, delegado da Polícia Federal e coordenador da Interpol no Brasil, negou aqui a existência de uma operação da instituição no país investigando manipulações de resultado na Copa. De acordo com Navajas, houve um mal entendido com relação à entrevista de Noble.

Segundo Ronald Noble, as apostas não seriam apenas sobre os resultados dos jogos, mas também sobre outros lances que acontecem em campo. “Um pênalti, qual equipe dá a saída de bola, para quem é o primeiro escanteio… as pessoas apostam milhões de dólares nessas coisas. É assim que definimos o termo ‘manipulação’ num jogo”.

Questionado sobre uma eventual participação de árbitros, jogadores e outros envolvidos na organização da Copa do Mundo, ele disse que a possibilidade existe, mas não deu mais detalhes. “Há possibilidade, mas não sei se é provável. Não prevejo o futuro, falo apenas sobre o que está acontecendo”.

Noble também falou sobre a investigação aberta pela Fifa para apurar os supostos casos de suborno nas eleições para as sedes das Copas de 2018, na Rússia, e 2022, no Qatar. “São promotores muito respeitados pelo mundo. Leio muito no jornal sobre as suspeitas com a Fifa, mas vou esperar a investigação e as evidências para saber o que aconteceu”, analisou.

“Espero que a Fifa apoie as investigações, que são independentes, e dê todos os recursos possíveis. Mas talvez isso não aconteça, porque é uma investigação independente, que chegará a algumas conclusões. Mas confio na integridade e na credibilidade de quem está investigando, e o relatório final deverá ser respeitado”, afirmou.

Fifa e Interpol já colaboraram para investigar manipulação de resultados no futebol. Em janeiro de 2012, a entidade que organiza o futebol mundial anunciou que contaria com agentes internacionais para apurar as denúncias, além de elaborar um programa de proteção para quem denunciasse esquemas de manipulação de jogos.

 

Fonte: UOL

 

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Copa politicamente incorreta: Quem chama jogador de “veado” é chamado de “macaco”

 

“Macacos!” Foi assim que muitos torcedores espanhóis se referiram ontem aos brasileiros, inundando as redes sociais com comentários racistas sobre os anfitriões da Copa do Mundo, logo depois da sua seleção ser goleada de 5 a 1 pela Holanda, com apoio entusiasmado da torcida da Fonte Nova, em twiter espanhóisSalvador (BA). Na verdade, o público presente ao jogo começou vaiando apenas um jogador da Espanha: o brasileiro naturalizado Diego Costa, artilheiro do Atlético de Madri, que optou por defender o novo país, mesmo que tivesse sua convocação também garantida na seleção de Felipão.

Dentro da lógica do politicamente correto, se os espanhóis foram racistas virtuais após a partida, ninguém pode dizer que os brasileiros não foram homofóbicos ao vivo durante o jogo. Além de vaiar cada vez que o jogador naturalizado tocava na bola, a torcida brasileira no estádio também entoava o coro: “Diego, veado!”. Encerrado o primeiro tempo dominado pela Espanha, mas com o placar parcial equilibrado em 1 a 1, o futebol empolgante jogado pelos holandeses na etapa final, quando marcaram mais quatro gols, fez com que a torcida que já perseguia Diego Alves passasse a vaiar também o resto do time espanhol. Na Fonte Nova, talvez alguém ainda tivesse na memória os mesmos comentários racistas nas redes sociais, que já tinham sido feitos após a final da Copa das Confederações, no Maracanã, em 30 de junho do ano passado, quando o Brasil bateu os espanhóis por 3 a 0.

Na reação racista ao apoio brasileiro a Holanda, que teve ontem teve sua revanche da final da Copa de 2010, os espanhóis usaram principalmente o Twiter para escrever mensagens como:

— “Macacos brasileiros. Como (eles) não têm nada o que fazer ficam felizes com a derrota da Espanha e fazem a ‘ola’. Coitados”

— “Do que riem esses macacos brasileiros? Celebrando a vitória da Holanda… macacos”

— “Macacos brasileiros, que passem fome o resto de suas vidas”

—  “Os brasileiros celebram mais que os holandeses na arquibancada. Que patéticos esses macacos”

— “O destino quer que a gente fiquei em segundo. Para acabarmos com os putos brasileiros. Macacos!”

A última mensagem fazia referência à possibilidade da Espanha, após a derrota pelo placar dilatado, se classificar em segundo lugar do Grupo B, pegando nas oitavas de final o primeiro colocado do Grupo A, que tem o Brasil ainda como favorito.

 

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Após encenar pênalti no campo, Fred continua a interpretar em vídeo da CBF

Assim como o pênalti que encenou em campo, ontem, gerando o gol da virada brasileira contra a Croácia, Fred hoje encenou, diante a câmera da CBF, a versão de que não cavou a penalidade (foto: AP)
Assim como o pênalti que encenou em campo, ontem, gerando o gol da virada brasileira contra a Croácia, Fred hoje encenou, diante a câmera da CBF, a versão de que não cavou a penalidade (foto: AP)

 

Depois de encenar o pênalti que gerou o gol da virada do Brasil, ontem, contra a Croácia, a repercussão negativa do lance em todo o mundo (confira aqui) fez com que a CBF gravasse e divulgasse hoje um vídeo, no qual o centroavante titular de Felipão continuou a interpretar não ter se atirado acintosamente dentro da área, induzindo o erro do árbitro japonês Yuichi Nichimura, no jogo de abertura da Copa do Mundo:

— Foi pênalti claro. Não existe mais pênalti ou menos pênalti. A Fifa mandou a comissão de arbitragem aqui para orientar todos os jogadores, para não ter agarra-agarra na área que os árbitros iam dar pênalti. Naquele lance, dominei a bola com a direita já para virar para a esquerda, eu sofri uma carga no ombro, perdi o alcance da bola, me desequilibrou e eu caí. Não sou jogador de ficar caindo. Um jogo atrás, contra a Sérvia, sofri uma carga, me desequilibrei e mesmo caído fui para a bola para fazer o gol. Ouvi muita gente falando que não foi pênalti, mas teve sim a carga e foi suficiente para me tirar da bola para eu fazer o gol. Nada vai abalar nosso ambiente aqui, nada vai tirar o nosso foco, e está todo mundo muito preparado. Não vamos tirar o brilho da nossa vitória, que foi muito merecida, que foi muito difícil.

Após a partida, os croatas não economizaram nas reclamações contra os erros de arbitragem que favoreceram  a seleção brasileira. Zagueiro que disputou o lance com Fred, Dejan Lovren disse que é melhor “dar a taça logo ao Brasil”. Por sua vez, o técnico croata Niko Kovac denunciou na coletiva após o jogo:

— Se alguém viu pênalti, levante a mão. Eu não posso levantar a mão. Nenhum dos presentes no estádio ou os 2,5 bilhões que assistiram à partida mundo afora viram pênalti, se for assim, haverá mil pênaltis na Copa,. Foi ridículo o que fizeram. Não tem nada a ver com esse árbitro em especial, tem a ver com jogar aqui no Brasil, o Brasil ser o grande favorito para ser campeão. As regras valem para os dois lados. O slogan da Fifa é “respeito”, então, que haja respeito para as duas equipes, se continuarmos assim, vamos ter um circo.

A polêmica levou o chefe do departamento de arbitragem da Fifa, o suíço Massimo Busacca, a também se pronunciar publicamente sobre o lance. Para ele, ainda não se pode falar em erro do árbitro japonês e muito menos em punição:

— Foi uma decisão, tomada de forma honesta, sobre o que ele viu e para o que se preparou. A gente não pode falar em punição.

Confira o vídeo da CBF com a versão de Fred:

 

 

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Xingamentos a Dilma nasceram das ruas, um ano antes da Copa do Mundo

Desde ontem, quando 2,5 bilhões de pessoas ao redor do mundo assistiram à presidente Dilma Rousseff (PT) ser vaiada e xingada ao vivo, pela torcida brasileira que lotou a Arena Corinthians, em São Paulo, no Brasil 3 x 1 Croácia, que abriu a Copa do Mundo, os céleres simpatizantes do governo federal petista têm insistido em segmentar o fato como evento isolado,  lido a partir do conceito marxista da luta entre classes sociais. Por essa visão, uma governante como Dilma, que deu continuidade às políticas de inclusão social do ex-presidente Lula, sobretudo a partir da distribuição maciça de bolsas assistenciais, estaria sendo atacada por uma elite branca, raivosa e preconceituosa de São Paulo, capital econômica do país, embora também seja, ironicamente, o berço de nascimento do PT.

Dentro desse raciocínio, essa mesma tal “elite branca” seria a única capaz de pagar os caríssimos ingressos cobrados pela Fifa ao evento que os governos populares de Lula e Dilma, paradoxalmente, tanto lutaram para trazer ao Brasil — apesar dos atrasos vergonhosos nas obras nos estádios e do adiamento, só para depois da Copa, de grande parte das obras de infraestrutura prometidos como legado permanente à população.

Felizmente, com o advento da internet e da democracia irrefreável das redes sociais, essa leitura não resiste a uma simples consulta no Youtube. A partir dos eventos lá registrados em áudio e vídeo por qualquer cidadão munido de celular, é possível constatar que as vaias e os xingamentos à presidente Dilma, cuja queda de aprovação e popularidade se acentua a cada nova pesquisa, se trata de um fenômeno nacional, presente tanto nas ruas quanto em eventos pagos, que nasceu há cerca de um ano e cresceu gradativamente, até alcançar a previsível evidência mundial de ontem.

Senão, vejamos:

15/06/13 Na abertura da Copa das Confederações, no Brasil 3 x 0 Japão, no estádio Mané Garrincha, em BRASÍLIA, a presidente Dilma Rousseff foi sonoramente vaiada, embora ainda sem ser xingada, quando foi apresentada oficialmente pelo presidente da Fifa, Joseph Blatter. Relembre:

 

 

17/06/13 Num dos protestos que estouraram em junho do ano passado, na democracia sócioeconômica plena das ruas paulistanas, surge o grito “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”, que só agora, quase um ano depois, causou tanta surpresa, sendo apressadamente atribuído a uma suposta “elite branca”. Como aconteceria no Itaquerão, também nas ruas o hino nacional serviu de introdução aos xingamentos à presidente da República. Veja:

 

 

31/05/14 No show de O Rappa, realizado em Ribeirão Preto (SP), na 13ª edição do João Rock, considerado o maior festival de música pop e rock do interior, o cantor Falcão toma o microfone para fazer um desabafo até raro na classe artística, ainda majoritariamente ligada ao PT, ou com medo da feroz patrulha dos seus militantes: “Infelizmente o legado que tem da Copa é um legado muito escroto, muito pequenininho, muito nada a ver. (…) E só tem dois tipos de Copa, a que vencer e a eleição que vem logo depois. A gente não pode esquecer disso”. O público presente de cerca de 40 mil pessoas respondeu em uníssono, a apenas 12 dias da abertura da Copa: “Ei, Dilma, vai tomar no cu!”. Confira:

 

 

No mais, para quem teve que deixar qualquer torcida de lado para trabalhar na cobertura do jogo de abertura de uma Copa do Mundo no Brasil, na qual se foi obrigado a também registrar o “Ei, Dilma, vai tomar no cu!” da torcida, cabe o eco pessoal à reação de Falcão ao mesmíssimo coro, menos de duas semanas atrás:

— Você viu que eu jamais falaria isso. Mas esse desabafo não é meu, não. Esse desabafo é de vocês, é nosso, é de todo mundo. É só um desabafo! Mas mesmo se ganhar, eu vou continuar pensando desse jeito, mesmo se ganhar. Me falaram que a Copa está comprada. Eu não acredito nisso, porque tem seleção que joga pra caralho.

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