No salto mortal, Klose comemorou o gol em seu primeiro toque na bola, que empatou o jogo para a Alemanha e igualou o recorde de Ronaldo como maior artilheiro de todas as Copas (foto: Reuters)
Tecnicamente, esta Copa teve até aqui três grandes jogos: o Espanha 1 x 5 Holanda (dia 13), o Inglaterra 1 x 2 Itália (14) e o Alemanha 4 x 0 Portugal (16), todos na primeira rodada.
Encerrada hoje a segunda rodada, tivemos nela os dois jogos mais épicos do Mundial: o Uruguai 2 x 1 Inglaterra (16) e o Alemanha 2 x 2 Gana de ontem.
Por jogo técnico, entenda-se aquele definido na qualidade de um time, na habilidade de seus jogadores.
Por épico, aquele de maior dramaticidade, onde as chuteiras parecem ser estar amarradas não com cadarços, mas às veias das pernas de cada jogador, como heróis clássicos a compor uma Ilíada.
Sobre Uruguai e Inglaterra, no qual o artilheiro Luisito Suárez saiu de uma astroscopia no joelho, há menos de um mês, para resgatar com dois gols a mística da Celeste, já escrevi aqui.
Ontem, foi o dia de uma Alemanha favorita na teoria e no campo encontrar uma igual na Gana, melhor seleção africana nesta Copa.
Após um primeiro tempo disputado, mas sem gols, Mario Götze completou de cabeça um cruzamento da direita para abrir o placar e a expectativa por outra goleada alemã.
Ledo engano!
Para provar a igualdade entre aqueles homens de pele pálida e retinta em busca da mesma glória, foi também no arremate preciso de um cruzamento pela direita que Andre Ayew empatou o jogo.
De igual para igual, os ganeses provaram que poderiam ser superiores, depois que Philipp Lahm perdeu a bola no meio e Asamoah Gyan recebeu um passe em profundidade para entrar na área, tocando na saída de Manuel Neuer.
Quando tudo parecia perdido, no fracasso de mais um favorito, os alemães foram buscar suas esperanças no banco de reservas. Seu craque Bastian Schweinsteiger e seu veterano atacante Miroslav Klose entraram em campo.
Na primeira jogada de Schweinsteiger, uma trama pela esquerda do ataque germânico gerou um escanteio.
Cobrado, após um desvio no primeiro pau, Klose aproveitou a oportunidade para completar de pé direito e se tornar o maior artilheiro de todas as Copas, com 15 gols, igualando o recorde do brasileiro Ronaldo.
Na celebração daquele homem maduro de 36 anos, o salto mortal do moleque que acabara de conquistar a imortalidade nos campos.
Homens brancos e negros iguais no placar, no talento, na entrega, na glória vermelha de sangue não derramado dos irmãos Boateng, Jérôme da Alemanha e Kevin-Prince de Gana, filhos da África como todos os homens.
Felipão atacou o treinador holandês Van Gaal na coletiva hoje (foto de Ricardo Matsukawa – Terra)
Por Anderson Regio, Celso Paiva e Fábio de Mello Castanho
O técnico Luiz Felipe Scolari não demorou para responder as declarações dadas pelo técnico da Holanda, Louis Van Gaal, que atacou o fato da Seleção Brasileira jogar depois de Holanda x Chile, marcado para as 13h, já sabendo o resultado da partida e o possível adversário que enfrentará nas oitavas de final. Apesar de não dizer o nome, Felipão deu diversas dicas que se dirigia especificamente a Van Gaal.
“Primeiro tenho que pensar em ganhar amanhã (contra Camarões). Quero falar isso, porque alguns se manifestam dizendo de escolher o resultado, ou são burras ou mal intencionadas, se perdemos não classificamos. A gente não vai escolher adversário. A Fifa que escolheu as datas e os horários. Parem de endeusar A, B ou C. Porque são contrários a nós”, disse Felipão.
O treinador foi mais longe e lembrou o tempo em que Van Gaal dirigiu o ex-meia Rivaldo no Barcelona. Os dois tiveram uma rixa e o ex-jogador brasileiro sempre disse que o treinador o prejudicou na equipe catal. “Estou conhecendo as pessoas agora. Através do que imaginava não conhecer. Principalmente o que o Rivaldo me falava”.
Em entrevista dada à Revista ESPN, Rivaldo falou sobre como era sua relação com o atual treinador da seleção holandesa. “Van Gaal é um grande treinador, mas não aceitava opinião. Tem que ser a opinião dele. E como eu estava muito bem na época, batia de frente. Quando ganhava, era o esquema tático dele. Quando perdia, era culpa dos jogadores. Quando me chamavam para ir à imprensa, jogava a responsabilidade para ele. Dava alguma confusão. Uma vez ele brigou comigo por 20 segundos de atraso, até mostrou o relógio. Parava treino para eu colocar a camisa para dentro. Aí eu ia à imprensa e chutava o balde”.
Felipão voltou a falar do assunto na pergunta seguinte. Mesmo a indagação sendo sobre a equipe de Camarões, ele aproveitou para alfinetar novamente. “Quando dizem que o Brasil pode escolher, expressam e manifestam um mal estar de desprezo a Camarões. Fico chateado com isso, perdeu um de 1 a 0 para o Méxino e outro de 4, quando ficou com um a menos e mexeu no time com o intuito de virar o resultado porque tinha uma chance. Alguns treinadores não entendem ou são mal intencionados”.
O treinador, porém, não quis dizer o nome quando foi questionado mais claramente a quem se referia. “Vocês sabem quem é”, disse. A declaração de Van Gaal foi dita horas antes da entrevista de Scolari. “A Fifa antes de todos os jogos carrega a bandeira do Fair Play, de fazer um jogo justo, essas coisas, mas usa esses truques. Não é Fair Play”, afirmou o técnico. “Acho o mesmo que você, imagino. É ridículo”, respondeu Van Gaal a um jornalista quando indagado sobre a decisão do Grupo A ser depois do Grupo B da Copa do Mundo.
Van Gaal disse ainda que espera que o Brasil mostre ética no duelo contra Camarões. “Vamos nos focar na vitória amanhã contra o Chile e não nos afetará o que o Brasil vai fazer depois. Presumo que vão fazer seu dever esportivo. Mas é sempre um motivo de discussão. Por que isso? É uma pergunta justa”.
Enquanto alguns se omitem e calam, outros põem o dedo na ferida e a boca no trombone. Transcrita daqui, confira a postagem abaixo:
Após dezoito agressões contra jornalistas desde o início do Mundial, o vice-presidente do Partido dos Trabalhadores acusou uma dezena de jornalistas e humoristas de propagar o ódio.
A tensão entre o governo e os jornalistas da oposição acaba de subir de tom. Num artigo publicado a 16 de junho de 2014 no site do Partido dos Trabalhadores (PT), atualmente no poder, o vice-presidente do partido Alberto Cantalice estabelece uma lista negra de jornalistas designados como os “pitbulls da grande mídia”. Para o dirigente petista, o ódio de Reinaldo Azevedo, Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli, Guilherme Fiúza, Augusto NunesDiogo Mainardi, Lobão e dos humoristas Danilo Gentili e Marcelo Madureira contra as medidas progressistas dos governos Lula e Rousseff se tornou ainda mais evidente desde o começo do Mundial, que esperam que fracasse.
Esses “inimigos da pátria” não demoraram em responder. O jornalista Demétrio Magnoli denunciou em Globo um artigo “calunioso” e uma ação de propaganda por parte do PT. Magnoli se mostra preocupado pelo fato de um político do partido no poder convidar à “caça” dos jornalistas opositores “na rua”. Já Reinaldo Azevedo, da revista Veja, afirmou sua intenção de processar Alberto Cantalice por “difamação”.
“Repórteres sem Fronteiras expressa sua inquietação pelas graves acusações dirigidas contra os jornalistas provenientes de um alto cargo do PT”, declara Camille Soulier, responsável da seção Américas da organização. “Não ignoramos o contexto polarizado da mídia, que pode exagerar o descontentamento geral. No entanto, as dificuldades sentidas pelo PT não justificam o recurso à propaganda de Estado.”
Essas acusações foram lançadas num clima social tenso, com a multiplicação de movimentos populares contra as despesas do governo com a Copa do Mundo. A polícia militar tem respondido através da força e alguns jornalistas foram agredidos. No total, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI) já contabilizou 17 agressões de jornalistas no âmbito de manifestações desde a abertura do Mundial. Entre as vítimas, contam-se correspondentes daCNN e de agências internacionais, como a Reuters e a Associated Press, assim como jornalistas da mídia local ou profissionais independentes. Karinny de Magalhães, jornalista e ativista do coletivo Mídia NINJA, foi detida e espancada até desmaiar.
Aos 17 casos citados se juntou a detenção arbitrária de Vera Araújo, do diário O Globo, no passado dia 15 de junho, elevando para 18 o número de abusos. A jornalista estava filmando a detenção de um turista argentino e acabou também sendo presa. Uma investigação foi aberta contra o policial militar responsável pela detenção.
Quem está solteiro e quiser testar a sorte na Pelinca ou na Princesa Isabel, durante as comemorações dos jogos do Brasil na Copa — e se depois de Camarões, não houver o que comemorar, é melhor desistir —, o comediante Marcos Castro dá bons exemplos: das cantadas que você deve evitar!!!… Rs
Seja por nacionalidade, etnia, política, religião, ideologia, orientação sexual, ou mesmo futebol, não há nada mais perigoso na vida coletiva do que o “Nós contra Eles”. Quem, diabos, determina quem são o “Nós”? Quais interesses humanos segregam do outro lado o “Eles”?
Tão certo quanto todos se imaginam o “Nós”, jamais o “Eles”, é o fato da primeira pessoa do plural se pretender sempre conjugada em defesa do “Bem”, oposta ao “Mal” que só espreita na coletividade sorrateira da terceira pessoa, pela inexistência de uma trigésima quinta.
Primeiro a deixar registro de uma crença fundamentada nos conceitos de bem (Ahura Mazda) e mal (Angra Mayniu) foi o profeta persa Zaratustra, que teria vivido no séc. VI a.C., segundo a tradição. Não por outro motivo, quando propôs a superação do bem e do mal, para que do homem se fizesse o super-homem, ser adequado às novas prerrogativas morais da civilização industrial do séc. XIX, o filósofo alemão W. F. Nietzsche (1844/1900) o fez em seu “Assim falou Zaratustra”, a partir da releitura da figura histórica.
Como a filosofia de Nietzsche, com endosso da sua irmã, acabou sendo usada para tentar justificar pela ciência o nazismo (corruptela de nacional-socialismo) na Alemanha, num saldo final de mais de 60 milhões de mortos na II Guerra Mundial (1939/45), o grande problema talvez não esteja nos conceitos, mas em quem os utiliza — e para justificar quais ações. Como traziam inscrito nas fivelas dos seus cintos os soldados da SS alemã que executaram seis milhões de seres humanos em campos de extermínio pela Europa: “Gott mit uns” (“Deus conosco”).
Enquanto, graças a Deus, não atingimos o mesmo nível de hipocrisia, é quase certo que se pensaram como “Nós” e do “Bem” as mais de 60 mil pessoas que em coro xingaram a presidente Dilma Rousseff na abertura da Copa, durante o Brasil 3×1 Croácia, nas arquibancadas do Itaquerão (relembre aqui). Na dúvida, certo inteiro é que o mesmo coro de xingamento a Dilma não foi entoado ali pela primeira vez, tendo sido criado e repetido desde as manifestações de rua em junho de 2013, com farto registro em áudio e vídeo na democracia irrefreável das redes sociais (confira aqui).
Mas e daí? Contra os “Eles” em coro do “Mal”, provavelmente também se viram como “Nós” pelo “Bem” muitos dos que ecoaram o discurso de Lula. Apesar da falta de coragem para acompanhar Dilma no Itaquerão com que ele “presenteou” seu time do coração, o ex-presidente depois quis posar de cavaleiro em defesa da donzela, atribuindo os xingamentos a uma suposta “elite branca” (recorde aqui).
Menos mal que tanto Lula, quanto quem se prestou a fazer-lhe claque, tenham sido rapidamente expostos ao ridículo pelo ministro Gilberto Carvalho (veja aqui). Mesmo falando diante de blogueiros chapa branca e militantes do PT, ele testemunhou menos de uma semana após o ocorrido: “no Itaquerão não tinha só elite branca, não. Não fui para o jogo, mas estive ao lado [do Itaquerão], numa escola (…) fui e voltei de metrô. Não tinha só elite no metrô. Tinha muito moleque gritando palavrão dentro do metrô que não tinha nada a ver com elite branca”.
Certamente, quem se dá o trabalho de ler as pesquisas além dos seus números totalizados, percebe que o percentual de eleitores de Dilma, à parte sua tendência generalizada de queda (relembre aqui e aqui), diminui na exata proporção em que aumenta o nível socioeconômico e de escolaridade das regiões e dos entrevistados. Mas seja na maioria dos métodos assistenciais (ou assistencialistas?) de um governo popular (ou populista?), não é diferente do que Lula também fez no Brasil. Tampouco, para usar um exemplo local, do que a prefeita Rosinha faz em Campos, ou do que o deputado federal Garotinho pretende voltar a fazer no Estado do Rio.
E neste sentido, não deixa de ser antropologicamente irônico observar quem se pensa “Nós” em nome do “Bem”, ao se opor aos Garotinho em Campos e no Estado, sem atentar ao limite lógico ultrapassado ao defender um governo federal que opera em diapasão moral, político e persecutório muito parecido. É o oxímoro cada vez mais anacrônico de se julgar Garotinho e Rosinha como o “Eles” do “Mal”, pelos mesmos supostos motivos que se busca enxergar Lula e Dilma como o “Nós” pelo “Bem”.
A elaboração pública de listas negras, por exemplo, reunindo jornalistas e opinadores de diferentes matizes ideológicos, que tenham em comum a “petulância” de criticar um governo de qualquer esfera, é fascismo aqui, é fascismo no Rio, é fascismo em Brasília, é fascismo em nossa casa, no estádio ou na rua. N’ELE reside todo o MAL que deveria ser combatido por qualquer “Nós” com pretensão de “Bem” e sem a dúvida das aspas.
Enquanto isso, a Seleção Brasileira joga de novo amanhã, contra a pior Camarões de todas as Copas, investigada pela suspeita de manipulação de resultado manifesta previamente pela própria Fifa (leia aqui). Sem precisar disso ou de simulações de pênalti, dá para Neymar e cia. (haverá companhia?) ganharem o jogo e a moral necessária para encarar a fase eliminatória e daí embalar.
Dá também para chegar à final do Maracanã, como podem fazê-lo quatro ou cinco outras seleções. Mas nesta reedição presente e paisana da “pátria de chuteiras” militar de 1970, a única coisa que não dá, mesmo em quem nem era nascido, é deixar de sentir saudade do futebol de Pelé, Gérson, Tostão, Jairzinho, Rivelino, Clodoaldo e Carlos Alberto Torres. Mas é só disso!
De resto, mais do que as estultices regurgitadas num coro de arquibancada ou nas bravatas de um ex-presidente sem noção do prefixo, o que deveria ecoar é a advertência do pensador Samuel Johnson (1709/84), cuja Inglaterra já foi até desclassificada:“O patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Neste Brasil em ano de Copa e eleições, oxalá ele não seja o primeiro. Pelo BEM de todos NÓS!
Se ontem à tarde Lionel Messi resolveu o jogo difícil contra o Irã no Mineirão (aqui), fora dele as autoridades de segurança pública brasileira tiveram a prova de que terão muito a fazer para evitar enfrentamento físico de torcedores, como o registrado entre argentinos e brasileiros na madrugada anterior, na Savassi, bairro boêmio de Belo Horizonte (BH). No Rio, o Maracanã já foi invadido duas vezes por torcedores: argentinos no Argentina 2×1 Bósnia do último dia 15, e chilenos no Chile 2×0 Espanha do dia 18. E ontem o diário esportivo Olé anunciou que 200 mil hermanos se deslocarão para Porto Alegre na próxima quarta, dia 25, onde a Argentina decidirá no Beira Rio a liderança do Grupo F contra a Nigéria. Apenas 2o mil desse 1/5 de milhão de argentinos iria com ingressos à capital gaúcha, que fica a 1.472 km de Buenos Aires.
No entanto, o subcomandante geral da Brigada Militar de Porto Alegre, Coronel Silanus Mello, disse não acreditar nos números noticiados pela mídia argentina:
— Não acreditamos em mais de 50 mil, aproximadamente. Sabemos que entre 16 e 20 mil estão com ingressos comprados. Vamos agir para manter a tranquilidade que temos até agora. Tivemos uma grande movimentação de torcedores em Holanda e Austrália e não houve um foco sequer de confusão. Nem todo argentino é problemático. Temos um planejamento que não será alterado. Não vamos generalizar a torcida argentina. A imensa maioria sabe se comportar muito bem. A preocupação é em relação a um grupo, os chamados barra bravas, que se conseguirem entrar no Brasil, vamos estar atentos.
Assista abaixo o vídeo do confronto na madrugada de ontem, entre argentinos e brasileiros, mas ruas de Belo Horizonte:
Já nos descontos do jogo duro contra o Irã, Messi deu a vitória a a classificação a Argentina
Com mais de 80% da posse de bola durante o jogo, mas ainda assim com as duas melhores chances de gol produzidas pelo Irã, a Argentina só se salvou hoje de um vexame do Mineirão por conta de um único lance de gênio. Mesmo sem jogar bem, como todo seu time, aos 46 do segundo tempo, Lionel Messi fez o que sempre faz: cortou o marcador da direita para a esquerda, soltou sua canhota e decidiu a partida, num chute em diagonal e curva precisas de fora da área.
Se todos sabem que Messi só corta para a esquerda, é conhecimento tão inútil quanto foi para os marcadores de Garrincha (Bicampeão em 1958 e 62, além de 66) saber que só poderiam ser driblados pela direita de quem os transformaria sem dó em “João”. A diferença é que, como sempre foi com o ponta do Botafogo e da Seleção Brasileira, o argentino tem sido pela sua seleção, pelos menos nos dois jogos desta Copa, tão decisivo quanto sempre foi jogando pela Barcelona, ou talvez ainda mais, considerada a última temporada não tão brilhante do clube catalão. No Brasil, depois de ter definido a vitória de 2 a 1 sobre a Bósnia (relembre aqui), Messi garantiu agora há pouco contra o Irã não só o jogo, mas a classificação da Argentina às oitavas de final.
Certo de que o técnico Alejandro Sabella tem muitas coisas a acertar para ver confirmado na prática do campo o favoritismo argentino creditado por todos os teóricos do planeta. Já com a Copa iniciada, foi mais uma vez visível a inconsistência coletiva entre tantos talentos individuais do meio para frente, sempre aberta ao sustos pela mediocridade dos jogadores de defesa, com exceção do goleiro Romero, cuja boa atuação hoje foi igualmente decisiva em pelo menos três defesas salvadoras.
Mas independente do destino coletivo dos hermanos no Brasil, bem como das eleições individuais da Fifa, seja atuando por clube ou seleção, ninguém mais tem o direito de duvidar: desde que o francês Zinedine Zidane se aposentou na Copa de 2006, o maior gênio do futebol mundial ainda é Lionel Messi.
Ralf Mutschke,diretor de segurança da Fifa e ex-agente da Interpol (foto: AFP)
Para o diretor de segurança da Fifa e chefe da entidade para o combate à manipulação de resultados, o jogo da próxima segunda-feira entre Brasil e Camarões, em Brasília, tem mais riscos do que os de abertura, contra a Croácia, e da final da Copa do Mundo. Ralf Mutschke disse, na manhã desta sexta-feira, no Maracanã, que todos os jogos do Mundial são acompanhados pela equipe do Sistema de Detecção Prévia (EWS, da sigla em inglês) e explicou as razões do cuidado.
— Olhamos todos os critérios para apontar um nível de risco maior do que o jogo de abertura e o da final. É um jogo mais vulnerável porque implica em classificação, diferença de gols, envolvendo uma seleção já eliminada — explicou.
Mutschke disse que a equipe do EWS discutiu sobre os resultados de Camarões e o comportamento dos jogadores, inclusive com o Grupo de Estudos Técnicos da Fifa (TSG, da sigla em inglês), que faz os relatórios técnicos e táticos da Copa do Mundo. Ele admitiu que a seleção africana teve conflitos por premiação, brigas durante o jogo com o México, mas negou a existência de uma investigação em curso.
— Temos uma hotline para denúncias de árbitros e jogadores. Nenhum registro foi feito durante a Copa do Mundo, até o momento — acrescentou.
Mutschke disse ainda que o futebol é um esporte ameaçado pelos fraudadores.
— O futebol está sendo ameaçado pela manipulação, pelo crime organizado. Eles (os criminosos) tentam se infiltrar. É importante proteger a integridade e a credibilidade do jogo. Os jogadores, além de artistas, são vítimas — justificou.
Ex-policial da Interpol com 33 anos de experiência em investigações de crimes internacionais, Mutschke informou que a Fifa assinou um contrato de dez anos com a Interpol para trabalhar conjuntamente no combate à manipulação e à fraude. Em apenas dois anos no cargo, 192 das 209 federações nacionais filiadas à Fifa nas seis confederações continentais já receberam cursos, folhetos explicativos e orientação. Só no Brasil, este ano, aconteceram três reuniões prévias antes da Copa do Mundo com os chefes de segurança das 32 seleções participantes do megaevento.
— Estabelecemos essa estratégia de tolerância zero. Estamos examinando cada denúncia de manipulação de resultados.
A maior dificuldade, segundo o dirigente, é a legislação de um sem número de países que ainda não prevê punição na área criminal. Perguntado se conhecia o escândalo da Máfia do Apito, que, em 2005, anulou apenas 11 jogos do Campeonato Brasileiro da Série A de um total de 40 contaminados, ele respondeu.
— Há cada vez mais gente do crime organizado infiltrada e tentando fraudar os resultados do futebol porque não há risco de prisão para eles. A legislação de muitos países não prevê. Há muitas pessoas tentando fraudar o mercado de apostas porque a punição penal muitas vezes não acontece. Por isso, aumenta a responsabilidade de cada federação, cada confederação e associação membra (da Fifa). Precisamos educar as federações para que digam não à manipulação.
O sistema de combate à manipulação é feito de análises com base em ações de inteligência, jogadores, partidas de alto risco e árbitros. Há o monitoramento de apostas em tempo real pela EWS (Early Warning System), com exame forense de padrões de apostas suspeitas. Até o TSG colabora com análises em tempo real sobre táticas e comportamento anormal de jogadores.
— Quando algo é observado, discutimos entre nós os comportamentos e decidimos se devemos apresentar alguma denúncia — acrescentou Mutschke.
De 15 de maio a 11 de junho (véspera da abertura da Copa), 89 partidas internacionais foram analisadas pelo grupo que faz parte do EWS e nenhuma, segundo Mutschke, apresentou comportamento anormal dentro de campo ou no mercado de apostas:
— Eu penso que não haver indícios de alguma movimentação (anormal) não significa que não hajam situações que pareçam bizarras, estranhas. Sempre acompanhamos os indícios e podemos dar uma olhada mais de perto — concluiu.
Apesar de ter craques como Pogba e Benzema (que hoje marcou um gol, teve outro anulado após o apito final e perdeu um pênalti), a coletividade é a maior virtude do futebol da França, cujos cinco gols de hoje sobre a Suíça saíram de cinco jogadores diferentes (foto de Sergei Grits – AP Photo)
Antes da Copa, a crônica esportiva mundial foi quase unânime ao apontar quatro favoritos a conquistá-la: Espanha, Alemanha, Brasil e Argentina. Um dia antes do Mundial começar, analisando as possibilidades de quem corria por fora, escrevi aqui: “Sinceramente, se tivesse que apostar em ‘surpresa’ nesse torneio curto, de no máximo sete jogos, sendo os último quatro eliminatórios (perdeu, volta para casa), empilharia minhas fichas sobre a França”.
Bem, se os 3 a 0 na estreia francesa diante de Honduras não queriam dizer lá muita coisa, dada a fraqueza do adversário, a convincente goleada de 5 a 2 emplacada agora há pouco sobre a Suíça, cabeça de chave do Grupo E, coloca a França entre os times “grandes” que apresentaram o melhor futebol até agora nesta Copa. Ao seu lado, a Alemanha fará seu segundo jogo amanhã, contra a Gana, após a sapatada de 4 a 0 que aplicou na estreia contra Portugal de Cristiano Ronaldo.
Entre os times “médios”, o Chile foi o mais consistente, com vitórias contra a Austrália (3 a 1) e a Espanha (2 a o). Em pontos conquistados (seis), foi uma atuação igual à da Costa Rica, que saiu das equipes consideradas “pequenas”, com pouca tradição, para se tornar a grande surpresa. Mas considerado o nível dos adversários superados, Uruguai (3 a 1) e hoje Itália (1 a 0, o fato é que a seleção do pequeno país da América Central, tradição às favas, é a de melhor desempenho até agora na Copa.
Diante de uma Inglaterra sem nada a perder e determinada a cumprir bom papel na despedida, será interessante ver a Costa Rica já como franco atiradora revelada. Mas nada mudará sua conquista às oitavas de final, num “Grupo da Morte” contra três campeões do mundo, com um deles (a Inglaterra) já eliminado e os outros dois (Itália e Uruguai) com uma briga de foice no escuro marcada, na próxima terça (24/06), na disputa pela segunda vaga. E isso nem o mais otimista costarriquenho poderia projetar antes da Copa começar.
Todavia, confirmem ou desmintam previsões, há surpresas e surpresas. Se a França é uma surpresa com chances de brigar pelo título — embora provavelmente vá encarar a Alemanha nas quartas de final —, quase ninguém enxergaria essa mesma envergadura no Chile, ou, sobretudo, na Costa Rica. Se conseguisse chegar às semifinais, como só fez quando sediou a Copa em 1962, o desempenho chileno já poderia ser considerado tão épico quanto o resgate dos seus 33 mineiros da mina de San José. Quanto a Costa Rica, embora possa encontrar um acesso em tese menos difícil às quartas de final, por pegar nas oitavas um adversário vindo do Grupo C, o mais fraco da Copa, ninguém em sã consciência projetaria nada além disso.
Chile e Costa Rica ainda pertencem àquela categoria de surpresa capaz de eliminar um ou mais favoritos à Copa, mas não vencê-la.
Falando nos favoritos, e quanto aos demais? Antes de perder para o Chile, a Espanha já havia sido humilhada na goleada de 5 a 1, e só espera cumprir tabela contra a Austrália para voltar para casa. A Argentina mostrou pouco contra a Bósnia, além de um único lance genial de Messi, mas terá excelente chance amanhã, contra o fraco Irã, de ganhar mais confiança na competição. Já o Brasil, embora tenha conseguido bater uma Croácia sem Mandzukic e com a ajuda capital do juiz, depois ficou no empate sem gols contra o México.Como los hermanos diante da seleção dos aiatolás, o time de Felipão terá a pior Camarões de todas as Copas para tentar inspirar confiança por algo além da sua defesa.
Merecem também análises a Holanda, que empolgou na goleada sobre a Espanha, mas ficou devendo nos sofridos 3 a 2 sobre a Austrália, e a Bélgica, que todos apostavam como possível surpresa, mas suou em sua estreia para virar de 2 a 1 em cima da Argélia. Com nível real abaixo do seu primeiro jogo, bem como acima do segundo, os holandeses têm cancha para voos mais altos, nem que seja para bater mais uma vez na trave. Quanto à Bélgica, até pela juventude da sua talentosa geração, seu teto nesta Copa talvez ainda seja o mesmo do Chile: uma semifinal estaria bom demais.
Por fim, Itália e Uruguai. Além da expectativa por um dos grandes jogos da Mundial, qualquer um que na terça passar às oitavas, não duvide, leitor: deve ser temido.
Se confirmarem o favoritismo, se classificarem em primeiro lugar em seus grupos, Brasil e Argentina só se cruzariam na final da Copa, no Maracanã, em 13 de julho. E caso isso se confirme, quer saber como dois solícitos campistas ajudariam um hermano da terra de Messi e Di Maria a chegar à av. Pelinca para assistir ao jogo histórico? Pois dê uma conferida no hilário vídeo que a rapaziada da WebTV Campos produziu e divulgou aqui, na democracia irrefreável das redes sociais:
Gostou? Pois se quiser conhecer melhor o trabalho dessa criativa galera, confira aquia matéria da jornalista da Folha Talita Barros.
Ruiz corre para confirmar com o bandeirinha seu gol de cabeça, que bateu no travessão e quicou pouco depois da linha, mas seria confirmado pelo juiz
Se a vitória ontem do Uruguai contra a Inglaterra (aqui), por 2 a 1, foi épica, o triunfo da Costa Rica sobre a Itália, agora há pouco, foi histórico. Apontada desde o sorteio das chaves como mera figurante no “Grupo da Morte” (o D), que reunia três ex-campeões mundiais, os costarriquenhos já tinham surpreendido o mundo. Mas se na estreia na Copa, ao derrotar os uruguaios por folgados 3 a 1, a seleção da América Central foi considerada, inclusive (aqui) neste blog, como “zebra”, após o 1 a o de hoje sobre a Itália, com o gol de cabeça do meia Bryan Ruiz, a Costa Rica não só confirmou seu futebol de grande aplicação tática e bom toque de bola, como garantiu a classificação antecipada às oitavas de final e eliminou da Copa a Inglaterra, com quem agora jogará para fechar a fase de grupos na próxima terça (24/06), em Belo Horizonte.
E além de justa, a vitória costarriquenha de hoje poderia ter sido mais ampla, pois poucos minutos antes do gol de Ruiz, no final do primeiro tempo, o zagueiro italiano Giorgio Chiellini fez um pênalti claro no atacante Joel Campbell, não marcado pelo juiz chileno Enrique Osses. Em entrevista após o jogo, demonstrando tanta intimidade com as gírias futebolísticas do país da Copa, quanto já provou ter com a bola, Campbell apostou: “Após vencermos o Uruguai, passamos a ser a ‘zebra’, como vocês dizem aqui no Brasil. Agora, provamos que podemos ser mais”.
Realmente poderão seguir além de qualquer projeção mais otimista, já que os dois primeiros do forte Grupo D pegarão nas oitavas os dois primeiros do fraco Grupo C, o que em tese garante uma passagem menos difícil às quartas de final. Além disso, com sua classificação a Costa Rica abriu a promessa de outro jogo épico e decisivo na disputa pela outra vaga, no confronto direto entre a Itália de Andrea Pirlo, que jogará pelo empate, contra o Uruguai de Luisito Suárez, também na próxima terça, em Natal.
Como diz o lateral-direito Daniel Alves na propaganda televisiva da Adidas: “É, malando, o bicho vai pegar!”
Lula só pensa naquilo. Diante das vaias (normais no ambiente dos estádios) e dos xingamentos (deploráveis em qualquer ambiente) a Dilma Rousseff na abertura da Copa, o presidente de facto construiu uma narrativa política balizada pela disputa eleitoral.
A “elite branca” e a “mídia”, explicou, difundem “o ódio” contra a presidente-candidata. Os conteúdos dessa narrativa têm o potencial de provocar ferimentos profundos numa convivência democrática que se esgarça desde a campanha de ataques sistemáticos ao STF deflagrada pelo PT.
O partido que ocupa o governo decidiu, oficialmente, produzir uma lista de “inimigos da pátria”. É um passo típico de tiranos — e uma confissão de aversão pelo debate público inerente às democracias. Está lá, no site do PT, com a data de 16 de junho (Leia AQUI).
O artigo assinado por Alberto Cantalice, vice-presidente do partido, acusa “os setores elitistas albergados na grande mídia” de “desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior” e enumera nove “inimigos da pátria” — entre os quais, este colunista.
Nas escassas 335 palavras da acusação, o representante do PT não cita frase alguma dos acusados: a intenção não é provar um argumento, mas difundir uma palavra de ordem. Cortem-lhes as cabeças!, conclama o texto hidrófobo. O que fariam os Cantalices sem as limitações impostas pelas instituições da democracia?
O artigo do PT é uma peça digna de caluniadores que se querem inimputáveis. Ali, entre outras mentiras, está escrito que os nove malditos “estimulam setores reacionários e exclusivistas a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes”.
Não há, claro, uma única prova textual do crime de incitação ao ódio social. Sem qualquer sutileza, Cantalice convida seus seguidores a caçar os “inimigos da pátria” nas ruas. Comporta-se como um miliciano (ainda) sem milícia.
Os nove malditos quase nada têm em comum. Politicamente, mais discordam que concordam entre si. A lista do PT orienta-se apenas por um critério: a identificação de vozes públicas (mais ou menos) notórias de críticos do governo federal.
O alvo óbvio é a imprensa independente, na moldura de uma campanha de reeleição comandada pelo ex-ministro Franklin Martins, o arauto-mor do “controle social da mídia”. A personificação dos “inimigos da pátria” é um truque circunstancial: os nomes podem sempre variar, aos sabor das conveniências.
O truque já foi testado uma vez, na campanha contra o STF, que personificou na figura de Joaquim Barbosa o ataque à independência do Poder Judiciário. Eles gostariam de governar um outro país — sem leis, sem juízes e sem o direito à divergência.
Cortem-lhes a cabeça! A palavra de ordem emana do partido que forma o núcleo do governo. Ela está dirigida, imediatamente, aos veículos de comunicação que publicam artigos ou difundem comentários dos “inimigos da pátria”.
A mensagem direta é esta: “Nós temos as chaves da publicidade da administração direta e das empresas estatais; cassem a palavra dos nove malditos.” A mensagem indireta tem maior amplitude: no cenário de uma campanha eleitoral tingida de perigos, trata-se de intimidar os jornais, os jornalistas e os analistas políticos: “Vocês podem ser os próximos”, sussurra o persuasivo porta-voz do presidente de facto.
No auge de sua popularidade, Lula foi apupado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dilma foi vaiada na Copa das Confederações. As vaias na abertura da Copa do Mundo estavam escritas nas estrelas, mesmo se o governo não experimentasse elevados índices de rejeição.
O governo sabia que viriam, tanto que operou (desastrosamente) para esconder a presidente-candidata dos olhos do público. Mas, na acusação desvairada de Cantalice, os nove malditos figuram como causa original da hostilidade da plateia do Itaquerão contra Dilma!
O ditador egípcio Hosni Mubarak atribuiu a revolução popular que o destronou a “potências estrangeiras”. Vladimir Putin disse que o dedo de Washington mobilizou um milhão de ucranianos para derrubar o governo cleptocrático de Viktor Yanukovich. O PT bate o recorde universal do ridículo quando culpa nove comentaristas pela recepção hostil a Dilma.
Quanto aos xingamentos, o exemplo nasce em casa. Lula qualificou o então presidente José Sarney como “ladrão” e, dias atrás, disse que FHC “comprou” a reeleição (uma acusação que, nos oito anos do Planalto, jamais levou à Justiça). O que gritaria o presidente de facto no anonimato da multidão de um estádio?
Na TV Estadão, critiquei o candidato presidencial José Serra por pregar, na hora da proclamação do triunfo eleitoral de Dilma Rousseff, a “resistência” na “trincheira democrática”.
A presidente eleita, disse na ocasião, é a presidente de todos os brasileiros — inclusive dos que nela não votaram. Dois anos mais tarde, escrevi uma coluna intitulada “O PT não é uma quadrilha”, publicada nos jornais O GLOBO e “O Estado de S. Paulo” (25/10/2012), para enfatizar que “o PT é a representação partidária de uma parcela significativa dos cidadãos brasileiros” e fazer o seguinte alerta às oposições: “Na democracia, não se acusa um dos principais partidos políticos do país de ser uma quadrilha.”
A diferença crucial que me separa dos Cantalices do PT não se encontra em nossas opiniões sobre cotas raciais, “conselhos participativos” ou Copa do Mundo. Nós divergimos, essencialmente, sobre o valor da liberdade política e da convivência democrática.
Se, de fato, como sugere o texto acusatório do PT, o que mais importa é a “imagem do país no exterior”, o “inimigo da pátria” chama-se Cantalice. Nem mesmo os black blocs, as violências policiais ou a corrupção sistemática são piores para a imagem de uma democracia que uma “lista negra” semioficial de críticos do governo.
Leia mais sobre a “lista negra” do PT, aqui, no Blog do Bastos, único jornalista a noticiar o caso na blogosfera goitacá.