Brazuca de cristal e as chances de surpresa na Copa

 

A França do clássico meia Pogba, que bateu a Holanda num amistoso em março, é a maior candidata a surpresa da Copa
A França do clássico meia Pogba, que bateu a Holanda num amistoso em março, é a maior candidata a surpresa da Copa

 

Em artigo publicado no último domingo (aqui), disse que as seleções da Espanha, Alemanha, Argentina e Brasil eram mais cotadas para ganhar a Copa do Mundo que começa amanhã. Como não há novidade nisso, pois as quatro integram a lista de favoritos de qualquer um que entenda algo de futebol, embora em tempos de Copa todos achem entender, passemos às especulações que nos restam neste limbo passageiro entre o encerramento dos amistosos e a hora da bola rolar para valer: Qual time poderá surpreender? Que jogadores podem se destacar?

Ao falar do favoritismo espanhol, já havia listado no domingo o Chile como uma possível surpresa no mesmo Grupo B, composto ainda por Holanda e Austrália. Pessoalmente, por mais que o futebol chileno tenha evoluído, não apostaria na eliminação precoce de espanhóis ou holandeses em 2014, campeões e vice, respectivamente, em 2010. Mas se vier a ser, improvável que o Chile caminhe às oitavas sem ser pelos pés do seu jovem atacante Alexis Sánchez, concorrente de Neymar no ataque titular do Barcelona. De qualquer maneira, mesmo que o Chile passe em segundo lugar no grupo, pegaria nas oitavas o primeiro colocado do Grupo A — do também favorito Brasil, que tem os chilenos anotados e sublinhados no caderninho da freguesia mais fiel.

Sinceramente, se tivesse que apostar em “surpresa” nesse torneio curto, de no máximo sete jogos, sendo os último quatro eliminatórios (perdeu, volta para casa), empilharia minhas fichas sobre a França. Nas eliminatórias europeias à Copa, os franceses só ficaram em segundo na sua chave porque perderam o jogo de volta pelo placar mínimo diante da Espanha, após terem empatado o primeiro confronto em 1 a 1 contra os campeões do mundo.

Na fase de amistosos deste ano, “Les Bleu” venceram bem a Holanda (2 a 0) em março, antes de massacrarem a Jamaica (8 a 0) no último domingo, exorcizando o trauma pelo corte do meia-atacante Frank Ribéry, dois dias antes. Eleito terceiro melhor jogador do mundo em 2013, atrás apenas do português Cristiano Ronaldo (Real Madri) e do argentino Lionel Messi (Barcelona), o francês do Bayer de Munique faria falta em qualquer time do mundo.

Mas quem queria ver Ribéry no Brasil, aconselha-se prestar atenção no incisivo atacante Karin Benzema, do Real Madri, no e no clássico meia Paul Pogba, da Juventus de Turim. Com apenas 21 anos, este último tem sido o principal artífice do jogo técnico e eficiente apresentado pela França. Apesar de treinar a seleção italiana do maestro Andrea Pirlo (também jogador da Juventus), Cesare Prandelli não teve dúvida ao afirmar no último domingo ao jornal francês L’Equipe: “Pogba é o melhor meio-campista do mundo”.

E ninguém melhor do que o Brasil, favorito eliminado da Copa de 2006 pela conexão direta Zinédine Zidane/Thierry Henry, sabe os estragos que podem ser causados pela união de um meia elegante e um atacante matador numa seleção francesa. Ademais, a França caiu no grupo E, completo pela cabeça de chave Suíça, pátria da tática do “ferrolho”, além de Equador e Honduras. Foi uma sorte oposta à de outros três ex-campeões mundiais, reunidos no “Grupo da Morte” (o D): Uruguai, Inglaterra e Itália — com a Costa Rica a fazer-lhes figuração.

A Itália é sempre Itália. E ninguém, em nenhuma Copa, pode excluí-la do grupo de favoritos. Mas se Uruguai, Inglaterra, ou ambos chegarem à segunda fase, podem surpreender. Até porque o primeiro e o segundo do forte Grupo D, pegarão nas oitavas de final, respectivamente, o segundo e o primeiro do fraco Grupo C, composto de Colômbia (que perdeu o atacante Falcão García, sua principal estrela, por contusão), Grécia, Costa do Marfim e Japão.

Ou seja, quem do “Grupo da Morte” (o D) passar às oitavas, nelas enfrentará um time do “Grupo da Baba” (o C), para tentar o acesso às quartas de final. Com um time jovem, mais voltado à preparação para 2018, mas ainda tutelado pela experiência dos volantes Frank Lampard (Chelsea) e Steve Gerrard (Liverpool), além do atacante Wayne Rooney (Manchester United), a Inglaterra pode ganhar impulso numa ladeira das circunstâncias.

Já o Uruguai, pelo contrário, tem um time envelhecido, com uma defesa razoável, um ataque excelente e um meio de campo indigente. Caso o veterano atacante Diego Forlán (eleito melhor jogador da Copa de 2010) ainda tenha pernas, não lhe faltam inteligência e categoria para recuar ao meio e tentar municiar na frente os letais Edinson Cavani (Paris Saint-Germain) e Luizito Suárez (Liverpool) — este, recuperando-se de contusão. E se os uruguaios conseguirem sua difícil vaga às oitavas de final, com acesso em tese menos complicado às quartas, a própria torcida brasileira pode passar a ser assombrada (e até possuída) pela poderosa mística de 1950.

Das seleções que nunca ganharam uma Copa do Mundo, a Bélgica é a que chega ao Brasil mais credenciada a surpreender. Dificilmente ganhará o título, mas pode chegar longe o suficiente para eliminar alguns favoritos. Criou esta expectativa a partir das oito vitórias, seis empates e nenhuma derrota da excelente campanha nas eliminatórias europeias, que lhe concedeu a condição de cabeça de chave do Grupo H.

Da segurança do goleiro Thibaut Courtois (Atlético de Madri) à habilidade do meia-atacante Eden Hazard (Chelsea), os belgas têm um time jovem e equilibrado, capaz de resgatar seus melhores dias em Copas do Mundo, nos anos 1980 (4º lugar em 86, no México) e 1990, quando sempre deixaram boa impressão pela técnica e vocação ofensiva. E a impressão presente é que não terão dificuldades em se classificar às oitavas, num grupo ainda composto por Argélia, Rússia e Coreia do Sul.

Por fim, bom não esquecer que um time africano e/ou do Leste Europeu têm costume de revelar surpresas positivas nas Copas. Da África, pode ser a Costa do Marfim do famoso atacante Didier Drogba (Galatasaray) e do meia de exceção Yaya Touré (do campeão inglês Manchester City), assim como a Gana dos elegantes volantes Michael Essien e Sulley Muntari, ambos do Milan.

Já entre as seleções dos povos eslavos, pode errar grosseiramente quem menosprezar a Bósnia do meia Miralem Pjanic (Roma) e do excelente centroavante Edin Dzeko, temido artilheiro do Manchester City. Todavia, a maior promessa do Leste Europeu vem mesmo da Croácia. Menos mal que apesar dos habilidosos meias Luka Modric (Real Madri) e Ivan Rakitic (comprado há dois dias pelo Barcelona), os croatas não poderão contar amanhã com seu arisco atacante Mario Mandzukic (Bayer de Munique), suspenso do jogo de estreia da Copa, contra o Brasil.

Como não se pretende ser uma Mãe Dináh, até porque ela mesma nunca foi de acertar suas previsões, resta torcer para que role logo a bola. Mas a Brazuca, não a de cristal.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Seleção da Alemanha cria no Brasil o Baêa de Munique

Palco do desembarque das caravelas de Pedro Álvares Cabral em 1500, o paradisíaco litoral sul da Bahia foi descoberto pelos alemães como sede para sua seleção de futebol nesta Copa do Mundo de 2014. Se a escolha trará bons resultados em campo, só saberemos depois da estreia da Alemanha diante de Portugal, na próxima segunda, dia 16, a partir das 13h, no estádio da Fonte Nova em Salvador. Mas, até lá, quebrando todos os esteriótipos da frieza germânica, dois dos seus principais jogadores, o goleiro Manuel Neuer e o volante Bastian Schweinsteiger, parecem já ter criado uma filial na simpática mestiçagem ariana em solo brasileiro: O Baêa de Munique!!!…

Bombando desde ontem na redes sociais do Brasil, da Alemanha e do mundo, confira o vídeo abaixo com o coro do hino do Sport Clube Bahia:

 

 

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Artigo do domingo — Copa do Mundo, lembranças e palpites

Neymar brilhará na Copa como no amistoso contra o Panamá?
Neymar brilhará na Copa como no amistoso contra o Panamá?

 

Sempre que alguém me pergunta qual trabalho mais tenho prazer de fazer em jornal, não tenho dúvida ao afirmar: cobertura de Copa do Mundo. Como simples espectador, acompanho Copas desde a de 1982 na Espanha. Como jornalista, passei a cobri-las, sempre pela TV e para a Folha, desde a realizada em 1990, na Itália.

Em 82, aos 10 anos, quando tudo nos parece maior, o encantamento do menino não foi superior ao do seu mundo adulto por aquele selecionado nacional, o melhor que já vi: o Brasil de Zico, Falcão, Sócrates, Júnior, Leandro, Luisinho, Telê e cia. Infelizmente, numa fatalidade que definiria o próprio futebol a partir dali, os deuses da bola nos brindariam com a “Tragédia do Sarriá” — nome de um estádio de Barcelona que não existe mais, como deixaria de existir o futebol-arte como estilo de jogo do Brasil. Nas quartas-de-final, com três gols do oportunista atacante Paolo Rossi, a Seleção Brasileira acabaria eliminada por 3 a 2 pela Itália, que soube impor seu tradicional estilo “Catenaccio” (na tradução: “porta fechada”) e ganhou o impulso necessário para vencer, não sem justiça, aquele Mundial.

Lógico, sempre ficará sem resposta a indagação do que poderia ter sido aquela partida, e o futebol do Brasil e do mundo depois dela, se o juiz israelense Abraham Klein tivesse marcado o pênalti claro de Claudio Gentile sobre Zico, cuja camisa foi rasgada pelo implacável marcador italiano. Mas é como versejou o poeta português Fernando Pessoa, pela pena do seu heterônimo Álvaro de Campos: “Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido?/ Será essa, se alguém a escrever,/ A verdadeira história da humanidade”.

Na história “inverídica” do que foi, em 1990, quando a Itália sediou a Copa, quem colheu da sua semeadura pragmática de oito anos antes foi a consistente Alemanha (ainda só Ocidental) de Lothar Matthäus e Jürgen Klinsmann. Mas, aos 18 anos, a experiência de acompanhar profissionalmente uma Copa, de maneira detida e fria, para depois poder descrever cada jogo em texto, numa análise pormenorizada de cada atuação individual, enquanto quase todos que se conhece estão bebendo para festejar ou afogar as mágoas, foi uma experiência bastante enriquecedora; o oxímoro de uma paixão sóbria.

Dentro desta sobriedade, se tivesse que escolher o melhor jogo nestas oito Copas, duas como torcedor, seis como cronista, ficaria em dúvida sobre dois 3 a 2 válidos por quartas-de-final: o Inglaterra 3 x 2 Camarões (2 a 2 no tempo normal), em 1990, na qual os africanos liderados pelo veterano atacante Roger Milla perderam na prorrogação, após colocarem na roda de bobo os inventores do futebol; e o Brasil 3 x 2 Holanda, nos EUA, definido naquela bomba de Branco, na cobrança de uma falta que ele na verdade cometera, com direito a corta-luz de bunda de Romário, que pavimentaria nosso caminho ao Tetra em 1994.

Quanto à melhor atuação individual, também não teria como escolher entre as apresentadas em outras duas quartas-de-final. A primeira, de Diego Maradona, se deu no Argentina 2 x 1 Inglaterra de 1986, no México, quando depois de abrir o marcador com a “mão de Deus”, “El Pibe de Oro” depois driblaria meio time inglês para marcar seu segundo, considerado com toda justiça o gol mais bonito na história das Copas. Vinte anos depois, a outra exibição paralela seria anotada por Zinédine Zidane, no França 1 x 0 Brasil de 2006, na Alemanha, quando além de cobrar com perfeição a falta para o atacante Thierry Henry abrir (e definir) o placar, Zizou quebrou a espinha soberba dos brasileiros, humilhados aos olhos do mundo com dribles e lençóis desconcertantes.

Sobriamente, neste “ser-se ao meio-dia,/ que é quando a sombra foge/ e não medra a magia”, como advertia o entusiasta do futebol e poeta João Cabral de Melo Neto, impossível se prever o que acontecerá depois que a bola começar a rolar oficialmente nos gramados brasileiros, daqui a apenas quatro dias, na Copa deste ano da Graça de 2014. Se tivesse que apontar favoritos, diria que as melhores seleções, tecnicamente, são a da Espanha e da Alemanha. Mas acho que neste grupo também devem ser incluídos a Argentina e o Brasil.

Bem verdade que a atual campeã Espanha tem uma chave classificatória difícil, diante da força sempre respeitável da Holanda, sua vice em 2010, e um Chile em ascensão na promessa de surpresa. Ademais, o time que ganhou tudo desde a Eurocopa de 2008, está envelhecido. Entre seus maestros Xavi Hernández  e Andrés Iniesta, o primeiro, há algum tempo, tem aparentado decadência. Ademais, os espanhóis torcem pela recuperação do brasileiro naturalizado Diego Costa, vindo de contusão, para tentar resolver sua antiga carência de homens de área.

Problemas de contusão também rondam a Alemanha. Já preocupada uma lesão do seu maior craque, o volante Bastian Schweinsteiger, outro titular da equipe, o meia Marco Reus, foi obrigado a sair de campo no amistoso da última sexta, na goleada de 6 a 1 contra a Armênia, com uma contusão no tornozelo esquerdo. Além do que, a base dessa seleção, preparada desde a Copa que sediaram em 2006, precisa resolver sua aparente contradição: uma geração com talento acima da média, mas ainda sem mostrar a mesma determinação que sempre marcou os alemães no futebol, como em tudo mais na vida.

Livres até agora do fantasma das contusões, os argentinos e brasileiros têm suas próprias contradições a resolver. Nossos hermanos têm, talvez, a melhor linha de ataque do mundo, com Ángel di María, Gonzalo Higuaín, Lionel Messi e Sergio Agüero, mas uma defesa fraca. Se o problema não é novo, tampouco é recente o principal dilema do seu jogador mais importante: Messi, finalmente, conseguirá ser pela Argentina o que é no Barcelona?

Quanto ao Brasil, se é igual a dependência que a equipe tem da sua principal estrela, a contradição é ironicamente inversa: Neymar seguirá jogando mais pela Seleção Brasileira do que consegue fazer no Barcelona? A julgar por sua atuação brilhante nos 4 a 0 contra o Panamá, a resposta seria sim. Levado em consideração, no entanto, o amistoso seguinte e derradeiro, diante da Sérvia, quando o individualismo do jovem atacante esteve fora do tom, como seu amigo Thiaguinho ao cantar o hino nacional antes do jogo, poderemos ter problemas.

Quer Júlio César volte a exibir sua melhor forma, ou não; Thiago Silva e David Luiz endossem em campo o valor da zaga mais cara do mundo, ou não; Daniel Alves e Marcelo confirmem a vocação ao apoio, sem deixar buracos na defesa, ou não; Luiz Gustavo e Paulinho sejam capazes de marcar e manter a qualidade do passe, ou não; Oscar perca a posição de titular para Willian, ou não; Hulk consiga ir além da aplicação tática, ou não; Fred ache seus gols de centroavante, como soube encontrar contra a Sérvia, ou não; só nos pés de Neymar o Brasil poderá reencontrar a arte que já teve um dia. Ganhe a Copa ou não.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

 

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Heróis cearenses, Homero de Hollywood — Era tudo verdade

Orson Welles foi buscar sua Odisseia numa vila de pescadores do Ceará
Orson Welles foi buscar sua Odisseia numa vila de pescadores do Ceará

 

Desde Pero Vaz de Caminha, escriba da esquadra portuguesa de Pedro Álvares de Cabral, o olhar estrangeiro sobre o Brasil nos testemunha antes mesmo de nos tornarmos Brasil. Neste meio milênio de lá para cá, raras vezes esta nação hoje dividida aos olhos do mundo pela Copa, teve a chance de se enxergar Narciso pela retina alheia, quanto no documentário “É tudo verdade”, do mestre estadunidense Orson Welles (1915/85), que o Cineclube Goitacá exibe hoje, a partir das 19h30, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com av. 13 de Maio, com entrada livre.

Com “Cidadão Kane”, de 1941,  Orson Welles revolucionou o cinema
Com “Cidadão Kane”, de 1941, Orson Welles revolucionou o cinema

Aos 25 anos, Welles já era um gênio da sétima arte. Nesta idade, havia dirigido, co-escrito, produzido e atuado como protagonista de “Cidadão Kane”, de 1941, seu primeiro filme, com o qual revolucionou toda a estética do cinema. Antes de completar 26, ele desembarcou no aeroporto Santos Dumont, em 8 de fevereiro de 1942, para produzir um documentário sobre o carnaval do Rio, que se iniciaria dali a apenas seis dias. E filmar a folia carioca era missão diplomática das mais sérias: estreitar os laços de amizade entre EUA e Brasil, do norte ao sul das Américas, enquanto os demais continentes do mundo ardiam na II Guerra Mundial (1939/45).

Nunca concluído, devido ao descontentamento com os rumos das filmagens por parte do estúdio RKO, em Hollywood, e do governo brasileiro do ditador Getúlio Vargas (1882/1954), “É tudo verdade” chegou a ser considerado perdido durante décadas. Parte das cenas foi descoberta só em 1985, ano da morte de Welles, esquecida num arquivo da RKO.

Finalmente editado em 1993, gerou a versão na qual o filme deixou de ser apenas uma lenda. Como nunca chegou a ser exibido em circuito comercial de cinema, a chance de assisti-lo hoje, no telão da sala multimídia da Oráculo, onde o Cineclube Goitacá funciona toda quarta-feira, será ainda mais especial.

Na verdade, o documentário de Welles foi dividido em três partes. A primeira “My Friend Bonito” (“Meu Amigo Bonito”), já havia sido filmado no México, em 1941, pelo diretor Norman Foster, seu parceiro no projeto encomendado pelo governo dos EUA, dentro da política de “Boa Vizinhança” adotada com a América Latina, durante a II Guerra.

Welles filmando o carnaval carioca de 1942
Welles filmando o carnaval carioca de 1942

Welles estava ocupado, dirigindo seu segundo longa de ficção, “Soberba” (1942), além de atuar como ator em “Jornada do Pavor” (1943), também dirigido por Foster. Assim que concluiu as filmagens de ambos, com a promessa de que poderia editar “Soberba” no Brasil, Welles veio com a missão de filmar o carnaval em tecnicolor, no que seria a segunda parte do documentário: “The Story of Samba” (“A História do Samba”).

A terceira e última parte de “É Tudo Verdade”, intitulada “Four Men on a Raft” (“Quatro Homens numa Jangada”) foi uma acréscimo pessoal do próprio Welles. Ainda nos EUA, ele soubera por uma matéria na revista Life da história real de quatro pescadores cearenses, que deixaram sua vila nos arredores de Fortaleza, navegando mais de 2,5 mil quilômetros de mar aberto, durante 61 dias, numa frágil jangada a vela, até chegarem ao Rio de Janeiro, então capital da República, para levar suas reivindicações trabalhistas ao presidente Getúlio Vargas.

Welles desembarca de avião em Fortaleza, em busca da história dos seus jangadeiros
Welles desembarca de avião em Fortaleza, em busca da história dos seus jangadeiros

Se Welles já vinha desagradando tanto ao governo brasileiro, quanto a RKO em Hollywood, ao buscar as origens do carnaval no samba e nas cerimônias de umbanda e candomblé dos morros cariocas, em meio à miséria das favelas, o descontentamento aumentou quando ele se dispôs a narrar a odisseia dos quatro pescadores dispostos a enfrentar o oceano Atlântico em busca de direitos trabalhistas. Só que, ao tentar reencenar sua chegada na Baía de Guanabara, uma onda virou a jangada. Os  quatro foram ao mar, mas apenas Jerônimo André de Souza, Raimundo Correia Lima (o Tatá), e Manuel Pereira da Silva (o Manuel Preto) retornaram à superfície. Líder dos jangadeiros, Manoel Olímpio Meira, o Jacaré, não subiu à tona e seu corpo nunca foi encontrado.

A partir dali, Welles, que presenciou toda a tragédia, tomou a missão de terminar aquele filme como pessoal, acima daquela que seu governo e seu estúdio lhe destinaram. Mesmo com a verba cortada pelo RKO, contando apenas com US$ 10 mil e uma equipe reduzida, ele embarcou num avião para Fortaleza e de lá se mudou para a aldeia dos pescadores, na Praia do Peixe, hoje Praia de Iracema. Tratado pelos locais como “Napoleão do Cinema” e “Galegão Legal”, ele filmou durante dois meses a história dos jangadeiros, tomando contato direto com sua dura realidade.

Francisca Moreira da Silva, com 13 anos, foi a estrela descoberta pelo filme de Welles
Francisca Moreira da Silva, com 13 anos, foi a estrela descoberta pelo filme de Welles

No documentário, Jerônimo, Tatá e Manuel Preto são eles mesmos. A morte de Jacaré nos mares do Rio, é representada por outro pescador, no mar do Ceará, que no filme deixa viúva a personagem interpretada por Francisca Moreira da Silva, de 13 anos, feita atriz sem nunca ter visto antes um filme. É a partir desta tragédia que, na licença poética do documentário, os pescadores tomam a mesma jangada São Pedro para singrar o dorso das ondas, de Fortaleza ao Rio, com escalas em Recife e Salvador, em busca dos seus direitos.

Pressionado pelo governo brasileiro e após uma mudança na direção do estúdio, a RKO demitiu Welles e tomou todo o material que ele havia filmado no Brasil. “Soberba”, o filme que deixara pronto em Hollywood, ao contrário do que lhe fora prometido, foi editado à sua revelia. Com o corte de 45 minutos do original e acréscimo de um final feliz, seu lançamento foi um fracasso, manchando a reputação do diretor, assim como seu documentário brasileiro nunca concluído. Ele ainda tentou levantar fundos, durante quatro anos, trabalhando como ator, para comprar os direitos de “É Tudo Verdade”, mas não teve êxito.

Em “A Terra Treme”, de 1948, Visconti também usa pescadores para interpretar sua realidade
Em “A Terra Treme”, de 1948, Visconti também usa pescadores para interpretar sua realidade

Se “Cidadão Kane” foi um marco na história do cinema, ao criar conceitos e técnicas de filmagem até então inexistentes, “É Tudo Verdade” também está à frente do seu tempo, mesmo de outros gênios do cinema, mas que tentariam só depois algumas coisas feitas por Welles no Brasil, sem nunca terem podido assistir ao seu documentário. Ao usar as famílias dos pescadores locais para interpretarem a si próprias, em 1942, o diretor estadunidense se antecipa a todo o Neorrealismo italiano, sobretudo Luchino Visconti (1906/76), que faria exatamente o mesmo em seu “A Terra Treme”, de 1948.

Também impossível assistir a marca dos pés deixada pelos jangadeiros em sua marcha sobre as dunas de areia, sem lembrar as tomadas muito semelhantes, feitas pelo inglês David Lean (1908/91), em seu clássico “Lawrence da Arábia”, de 1962. O uso dos closes nos rostos dos personagens, para realçar suas emoções, embora não fosse exatamente uma novidade, só teria o mesmo uso superlativo em outro mestre italiano, Sergio Leone (1929/89), que em 1942 era ainda um adolescente.

Os jangadeiros imortalizados por Welles
Os jangadeiros imortalizados por Welles

Outro talento precoce de Hollywood, e sem educação acadêmica de cinema, quando o diretor contemporâneo Quentin Tarantino quer um desses mesmos closes nas filmagens, ele grita no set: “Give me a Sergio Leone!” (“Dê-me um Sergio Leone!”). Se tivesse podido assistir a “É Tudo Verdade”, nos tempos de sua formação cinematográfica, como atendente de uma vídeo-locadora em Los Angeles, talvez Tarantino bradasse: “Give me a Orson Welles!” (“Dê-me um Orson Welles!”).

Por fim, o Welles de “É Tudo Verdade”, antecipa o próprio Welles que uma década mais tarde, em 1952, transporia ao cinema “Othello”, uma das maiores tragédias do dramaturgo inglês William Shakespeare (1564/1616). Os brilhantes planos sequência que abrem o filme feito na década seguinte, com o cortejo veneziano do funeral de Othello e Desdemona, são muito, mas muito semelhantes, ao que o diretor havia feito antes, nas areias cearenses, no féretro do jangadeiro morto, para conferir rito de terra ao descanso marinho de Jacaré.

É neste momento, em “É tudo verdade”, que se revela aos olhos mais atentos o gênio de um estrangeiro refletido nas retinas da nossa gente. Diante à emoção calada naqueles a quem a ficção permitiu um sepultamento negado pela vida, a mesma cruz que balança ao vento ondula também nas meninas dos olhos da menina do povo feita atriz e viúva. Raras vezes as odisseias das gentes brasileiras tiveram um Homero à altura.

 

De roupas civis e às gargalhadas, Roosevelt e Getúlio chegam de jipe ao local onde os EUA instalariam sua base militar em Natal, durante a II Guerra Mundial
De roupas civis e às gargalhadas, Roosevelt e Getúlio chegam de jipe ao local onde os EUA instalariam sua base militar em Natal, durante a II Guerra Mundial

 

 

Tudo aconteceu muito rápido. Em dezembro de 1941, o ataque japonês em Pearl Harbor lançou os EUA na II Guerra Mundial (1939/45), fazendo seu presidente, Franklin Delano Roosevelt (1882/1945), rever a política externa para a América Latina. No lugar do “Big Stick” (grande porrete) adotado no início do séc. 20, pelo então presidente Theodor Roosevelt (1858/1919), seu primo mais liberal, Franklin, inaugurou a “Good Neighbor Policy” (política da boa vizinhança). A ideia era neutralizar qualquer influência dos países do Eixo (além do Japão, Alemanha e Itália) junto aos governos latino-americanos.

Em relação ao Brasil, a situação preocupava mais, pois além de vários ministros do presidente Getúlio Vargas (1882/1954), na ditadura do Estado Novo (1937/1945), serem abertamente simpáticos ao fascismo italiano e ao nazismo alemão, a cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte, era estrategicamente fundamental nas operações de guerra. Dada a limitada autonomia de vôo dos aviões da época, e o fato da Alemanha de Adolf Hitler (1889/1945) ter conquistado toda a Europa continental, a posição geográfica de Natal, ponto mais oriental da América do Sul, fazia dela o único lugar possível para que os aviões bombardeiros pudessem cruzar o oceano Atlântico e atacar a África do Norte, importante palco do teatro de guerra.

Ciente de que qualquer conflito se vence também com a propaganda, Roosevelt (o Franklin) aproveitou a disseminação mundial do cinema de Hollywood, para convocar seus maiores diretores na tentativa de seduzir os latino-americanos. É nessa época, por exemplo, que o cineasta e produtor Walt Disney (1901/66) vem ao Brasil com sua equipe, ainda em 1941, e cria o papagaio malandro Zé Carioca, estrela dos filmes de animação “Alô, amigos” (1942) e “Você já foi à Bahia?” (1944).

Na mesma leva, Orson Welles desembarcaria no Rio em 1942, ainda a tempo de filmar o carnaval daquele ano, mesmo em que os EUA instalariam sua base militar em Natal. Em troca, Getúlio ganhou de Roosevelt a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda, que serviria de base à industrialização do Brasil. Nesse jogo de interesses, Orson sabia muito bem que nem tudo é verdade.

 

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

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