Wladimir Garotinho no microfone do Folha no Ar (Foto: Genilson Pessanha/Folha da Manhã)
“Algum secretário está preocupado em Jefferson ser candidato? Eu desconheço e chego a achar que é uma invenção para ver se cola (risos). Na verdade, eu tenho preocupação com a pessoa do Jefferson, que até poderia ter um futuro político no parlamento estadual ou federal. Mas a sede de poder do seu partido o deve queimar antes da hora, podendo inviabilizar seu futuro”. A advertência foi feita ao blog pelo prefeito Wladimir Garotinho (PP).
— Tanto o Wladimir (PP) quanto seus secretários têm se preocupado — disse Gilberto à Folha FM 98,3.
TRANSPORTE PÚBLICO DE CAMPOS
A despeito das cutucadas político-eleitorais, a jovem liderança do PT goitacá elogiou a reabertura do Restaurante Popular em Campos por Wladimir. Mas fez críticas contundentes à situação do transporte público no município:
— A questão do transporte público é central. Às vezes, ficamos perdidos na discussão política, de bastidores, mas a vida do povo trabalhador de Campos, no transporte público, é muito sofrida. Não há construção de política pública neste sentido — questionou Gilberto no Folha no Ar. E mereceu resposta detalhada de Wladimir:
— O transporte público em Campos é complexo e não tem solução rápida. Sempre foi dito isso, por qualquer estudioso do assunto, não por palpiteiros. Isso se deve a extensão territorial do município e o sucateamento das empresas. Temos um projeto e está sendo colocado em prática, requer tempo, mas a direção sempre é mais importante do que a velocidade. Não adianta ser afobado e fazer errado, como fez Rafael Diniz (Cidadania), e caotizar todo o sistema. Temos estações de integração sendo construídas, temos bilhetagem eletrônica unificada sendo licitada e onde hoje atuam as vans, devido a um acordo judicial, passarão a atuar microônibus, dando mais conforto aos usuários. Hoje a Prefeitura investe cerca R$ 3 milhões por mês em subsídio de óleo diesel aos ônibus e vans. Se não fosse essa política pública, todos já teriam fechado as portas ou a passagem teria que estar bem mais elevada. Portanto, uma decisão política, uma política pública em benefício da população. Após a consolidação das estações, vamos ao passo seguinte: a modernidade da nossa frota, com os ônibus elétricos. Já estamos em conversa com a Enel X e com uma empresa chinesa para viabilizar o modelo na cidade — garantiu o prefeito.
Campos, Gilberto Gomes, Jefferson Manhães de Azevedo, Wladimir Garotinho, Caio Vianna, Thiago Rangel, Marquinho Bacellar e Sérgio Mendes (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Embora tenha só 27 anos, em 2020, quando tinha 24, Gilberto foi o segundo colocado entre os candidatos a vereador de Campos pelo PT, com 848 votos. E tem adquirido experiência parlamentar como assessor de Lindbergh na Câmara Federal. Prova desse amadurecimento político, ele mantém Carla como possível candidata a prefeita de Campos. Na qual a ex-prefeita de São João da Barra tem densidade eleitoral. Sua lembrança a 2024 é o reconhecimento disso. Mas são vedadas candidaturas majoritárias seguidas em municípios vizinhos. Em 2020, Carla já tinha sido reeleita prefeita de SJB.
Wladimir e Jefferson
Como a coluna adiantou em 3 de junho, Jefferson ainda vai conversar com Carla. Para tentar ter o apoio de uma política popular em Campos e a única detentora de mandato do PT na região. Se tiver sucesso nessa etapa, ele só falará publicamente como postulante a prefeito após a conclusão da eleição a reitor e diretores do IFF, entre o final de outubro e o início de novembro deste ano. Até as convenções partidárias de julho de 2024, ninguém é oficialmente candidato. Mas quem conhece a política goitacá sabe que, salvo o imponderável, as candidaturas de Wladimir e Jefferson, hoje, parecem não ter volta.
Caio, Thiago, Marquinho e Sérgio
Há outros prefeitáveis com potencial eleitoral, como o deputado federal Caio Vianna (PSD), o estadual Thiago Rangel (Podemos) e o presidente da Câmara de Campos, Marquinho Bacellar (SD). Mas estes dependem da conjuntura, sobretudo do apoio do presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar (PL), irmão de Marquinho. Cujo grupo político vive a pacificação com os Garotinho, costurada pelo governador Cláudio Castro (PL). O ex-prefeito Sérgio Mendes (Cidadania) também quer se candidatar. Mas, a despeito do seu bom governo entre 1993 e 1996, precisa pontuar nas pesquisas a 2024.
Favorito à reeleição
Nenhum dos possíveis adversários de Wladimir nas urnas de 6 de outubro de 2024 nega que, hoje, o prefeito é favorito à reeleição. Se a eleição fosse amanhã, muitos apostam que ele repetiria o feito da mãe, Rosinha Garotinho (União), em 2012, quando se reelegeu prefeita de Campos em turno único. Se houvesse segundo turno, já seria considerado uma vitória da oposição. Cujas melhores chances estão na pulverização em três, ou pelo menos duas candidaturas com densidade. Por outro lado, se a pacificação entre Garotinhos e Bacellar se mantiver até o pleito, o prefeito otimiza seu favoritismo.
Restaurante x transporte
“O governo Wladimir, sem dúvida, caminha com força para essa reeleição”, admitiu Gilberto ao Folha no Ar. A uma administração municipal popularmente bem avaliada, o jovem petista deu nota 6 e classificou de “regular”. Ele elogiou a reabertura do Restaurante Popular. Mas bateu no que deve ser explorado pela oposição na campanha: “A questão do transporte público é central. Às vezes, ficamos perdidos na discussão política, de bastidores, mas a vida do povo trabalhador de Campos, no transporte público, é muito sofrida. Não há construção de política pública neste sentido”.
Secando a pacificação
O PT de Campos sabe que o fim da pacificação entre Garotinhos e Bacellar seria o melhor caminho para tentar levar a disputa pela Prefeitura ao segundo turno. “Wladimir é um grande candidato à reeleição, a depender se a pacificação. Será algo determinante. Até quando irá durar? Quanto mais 2024 se aproximar, maior a tendência que atritos voltem a acontecer. A pacificação entre Garotinhos e Bacellar é de conveniência. Quem vai determinar isso é o fiador: Cláudio Castro. Marquinho está aí. E não parece muito satisfeito como as coisas foram conduzidas”, ponderou Gilberto.
Na mira, a Câmara
Com ou sem pacificação, a candidatura própria do PT a prefeito de Campos parece certa. E Jefferson o nome para tentar furar a bolha petista numa cidade bolsonarista, mas que deu a Lula 100.427 votos em 2022. “Chamo companheiros de outros partidos, além da federação PT, PC do B e PV, chamar o PSB, o Psol. O desempenho de Natália (candidata a prefeita do Psol em 2020) foi espetacular. Ela tem grande possibilidade de se eleger vereadora, comigo lá. O PT está preocupado com as nominatas, em fazer pelo menos um vereador. Pode anotar: a gente volta à Câmara em 2024”, apostou Gilberto.
Confira abaixo, na íntegra, o vídeo do Folha no Ar com Gilberto Gomes analisando os planos políticos nacional, estadual e de Campos:
Em nome do meu filho único, da sua mãe, Dora Paula, do seu irmão, Aquiles, no meu nome e no das nossas famílias, convidamos para a missa de 30 dias de Ícaro Paes Pasco Abreu Barbosa. Que, em seus 23 anos de vida, quatro de jornalismo, cativou a tantos. Será celebrada pelo padre Hélio Rosa da Silva, às 19h desta terça, dia 13 de junho de 2023, na Igreja da Paróquia do Sagrado Coração de Jesus, na rua Riachuelo, nº 280, Parque Riachuelo.
(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr., a quem Ícaro chamava de “Irmão”)
Ícaro e a ave canora no alto da Fortaleza de Massada, em Israel, diante do Mar Morto, 3 de fevereiro de 2023:
O convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (9), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3, é Gilberto Gomes, secretário de Comunicação do PT de Campos e assessor parlamentar da Câmara de Deputados. Ele falará da dificuldade em ser PT em uma cidade bolsonarista como Campos se revelou nas eleições presidenciais de 2018 e 2022.
Gilberto também analisará os governos Lula (PT), Cláudio Castro (PL) e Wladimir Garotinho (PP). E, a partir deste enfoque mais local, falará da pacificação entre os grupos políticos dos Garotinhos e dos Bacellar, além de tentar projetar as eleições municipais de 2024, nas quais deve concorrer a vereador e com candidatura própria do PT a prefeito de Campos.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Com as potenciais candidaturas a prefeito de Campos em 2024, as nominatas a vereador também começam a ser montadas nos grupos políticos de Rodrigo Bacellar, Wladimir Garotinho e do PT goitacá do professor Jefferson Manhães de Azevedo, atual reitor do IFF (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Eleição a vereador de 2024
Na edição do último sábado (3), esta coluna tratou das potenciais candidaturas a prefeito de Campos nas eleições de 2024. Nas quais o detentor do cargo, Wladimir Garotinho (PP), e o professor Jefferson Manhães de Azevedo (PT), reitor do IFF, hoje parecem nomes sem volta. Enquanto outros, como o deputado federal Caio Vianna (PSD), o estadual Thiago Rangel (Podemos), o presidente da Câmara Municipal Marquinho Bacellar (SD) e o ex-prefeito Sérgio Mendes (Cidadania), dependem da conjuntura destes menos de 16 meses que separam o eleitor campista da urna. Mas e o pleito a vereador?
Os Bacellar (I)
Como as movimentações à eleição majoritária, as nominatas que disputarão as 25 cadeiras da Câmara de Campos, no pleito proporcional de 2 de outubro de 2024, também começam a ser montadas. Mas a arquitetura destas está diretamente assentada na definição das candidaturas à Prefeitura. Um exemplo prático? “Rodrigo (Bacellar, PL, presidente da Alerj) vai lançar ou apoiar candidato a prefeito, ou não? É isso que vai determinar o desenho e o tamanho das nominatas do nosso grupo”, revelou um seu aliado. Que é também um dos principais articuladores políticos dos Bacellar em Campos, além de nome forte do grupo a vereador.
Os Bacellar (II)
Se fixou a definição das candidaturas a vereador na decisão política de Rodrigo sobre prefeito de Campos, essa fonte dos Bacellar fez também uma ressalva à coluna: “Não tem nada 100% certo, mas as conversas (sobre as nominatas) estão bem adiantadas. E não é uma questão de siglas partidárias, mas dos componentes para cada sigla. Não adianta ficar esperando que venha tudo montado lá de cima”, advertiu. Sobre a decisão do presidente da Alerj para as eleições de Campos, bem como sobre as siglas em que seu grupo as disputará, também vai interferir o destino partidário de Rodrigo: se fica no PL ou se vai para o União.
Em SJB (I)
Outra fonte do grupo dos Bacellar adiantou que “tudo está bem encaminhado para Rodrigo no União”. O peso da decisão do presidente da Alerj não tem reflexos só sobre Campos. Em São João da Barra, por exemplo, embora haja a aliança dos Bacellar com o vereador Elísio (PL), é cada vez mais consensual que ele e o deputado estadual Bruno Dauaire (União), aliado de Wladimir, só teriam chance juntos contra a reeleição da prefeita Carla Caputi (sem partido). Feito por Elísio seu sucessor como presidente da Câmara de SJB, Alan de Grussaí (Cidadania) abriu ao Folha no Ar na última sexta (2): “Elísio pode compor também com a Carla Caputi”.
Em SJB (II)
A provar como as coisas são tão incertas quanto interligadas, na entrevista recente que concedeu à Folha FM 98,3, Alan também projetou: “Pode haver essa pacificação entre os Dauaire (com os Garotinho) e os Bacellar, que têm dois representantes muito fortes lá: o Franquis Arêas (PSC) e o Elísio. Eles podem, sim, se unir para concorrer com a atual prefeita, podem endurecer também”. O presidente do Legislativo sanjoanense também não deixou dúvida sobre a força do presidente da Alerj no município: “Rodrigo está em ascensão e, onde coloca a mão, sempre vem muito forte. Ele é muito bem avaliado em SJB também”.
Os Garotinho (I)
Em Campos, como a candidatura de Wladimir à reeleição é tão certa quanto a de Carla Caputi em SJB, a questão das nominatas parece mais definida aos Garotinho. O grupo hoje trabalha abrigar seus principais candidatos a vereador em, pelo menos, cinco legendas. Ao PP, novo partido do prefeito, iriam os quatro edis como ele eleitos em 2020 pelo PSD: Fábio Ribeiro, Álvaro Oliveira, Fred Rangel e, talvez, Kassiano. Assim como o vereador Bruno Pezão (atual PL). O PP também pode abrigar candidaturas de secretários municipais ao Legislativo. Como Wainer Teixeira (Administração), Paulo Hirano (Saúde) e Marcelo Feres (Educação).
Os Garotinho (II)
No Agir, seriam candidatos à reeleição os vereadores governistas Juninho Virgílio (União), Dr. Edson (Pros) e, talvez, Marcos Elias (PSC). O PDT manteria Leon Gomes e receberia Cabo Alonsimar (Podemos). O MDB manteria Silvinho e abrigaria Marcione, hoje, União. Sobretudo se a legenda, também atual de Nildo Cardoso, receber Rodrigo Bacellar. Nildo e Abdu Neme (Avante) esperariam a definição das legendas de apoio à tentativa de reeleição de Wladimir. Que tem feito o dever de casa, ao tentar atrair o Republicanos. Para tirá-lo de Thiago Rangel em uma candidatura a prefeito e isolar o líder da oposição na Câmara, Anderson de Matos.
O PT de Campos
Noves fora os dois maiores grupos políticos da cidade, o PT tem na provável candidatura a prefeito de Jefferson Azevedo o maior trunfo ao seu principal objetivo eleitoral na Campos de 2024: reconquistar uma cadeira na Câmara. Ex-ocupante desse assento, a professora Odisséia Carvalho, presidente do partido na cidade, deve disputá-lo mais uma vez. Ela ocuparia o espaço vago do petroleiro José Maria Rangel. Bem votado a vereador em 2020, ele não se elegeu. E ascendeu na Petrobras com o governo Lula. Segundo colocado do PT no último pleito legislativo do município, Gilberto Gomes é outro nome com bom potencial eleitoral.
Quem foi Ícaro Paes Pasco Abreu Barbosa, em seus 23 anos de vida? Você, leitor da Folha da Manhã, o conheceu através das suas muitas reportagens, desde que ele iniciou sua carreira no jornalismo, a partir de 2019. Como os seguidores dos veículos do Grupo Folha de comunicação o conheceram pela dinamização que, como alguém da sua geração, ele imprimiu ao assumir em 2021 as redes sociais do Folha1, da Folha FM 98,3, da Plena TV. E conferiu a elas níveis de alcance e engajamento virtuais ainda inéditos, numa história real de 45 anos de jornalismo.
Para conhecer um pouco mais da história desse jovem, morto precocemente no último dia 13 e que teve por ofício contar as histórias dos outros, o programa Folha no Ar da manhã de ontem buscou algumas fontes da sua vida. Tão breve quanto marcante à delegada de Polícia Civil Madeleine Dykeman, ao vereador Nildo Cardoso, ao repórter-fotográfico Genilson Pessanha, à jornalista Joseli Matias, ao estudante João Marcelo Coutinho, ao empresário André Pinto e ao radialista Cláudio Nogueira. Que falaram também por outros. E puderam revelar, mesmo a quem amou Ícaro desde o ventre da sua mãe, novas faces do profissional de imprensa e do homem que ele se tornou.
Ícaro Barbosa uniu tecnologia à tradição no jornalismo de Campos, sentado na mesa do seu avô, o jornalista Aluysio Barbosa, na redação da Folha da Manhã (Foto: Genilson Pessanha/Folha da Manhã)
Madeleine Dykeman – Conheci Ícaro, na verdade, primeiro pelo texto dele. Só depois que eu fui conhecer a pessoa dele. Na época, eu era delegada de São João da Barra e atuei com uma investigação complexa, de um roubo, em que a gente teve várias frontes de investigação. Prendemos parte de uma quadrilha, no outro dia prendemos outra parte, e no final fizemos prisões no Espírito Santo. De modo que a investigação era complexa, envolvia muitos fatos. Ao final, fiz uma coletiva contando toda a narrativa. Ao final, eu ainda não conhecia o Ícaro pessoalmente. O meu sogro me mandou e falou: “Olha que reportagem bacana na Folha”. E nesse momento, quando eu li aquele texto, falei assim: Que gênio foi esse que escreveu esse texto? Porque ele conseguiu fazer isso de uma forma objetiva, simples, e, principalmente: todas as ideias centrais daquela investigação estavam ali contidas. Aquilo me impactou. Naquele momento, eu vi que tinha sido Ícaro, e o meu marido já o conhecia. Foi aí que eu pedi para ele me apresentar o Ícaro, e tivemos nosso primeiro encontro entre jornalista e fonte. Felizmente, eu tive a oportunidade de dizer ao Ícaro o quanto ele era brilhante, o quanto eu realmente sentia isso no meu coração. Toda vez que eu tinha uma investigação importante, de repercussão, sempre a primeira matéria que eu ia buscar, de referência, era aquela que ele escrevia. Eu costumava dizer que Ícaro não precisava mais assinar aquilo que ele escrevia, porque era tão destacável que, ao ler as reportagens dele, eu já sabia que era ele quem tinha escrito. E a gente foi construindo uma relação de amizade. Nós não éramos íntimos de estar nos mesmos ambientes, mas ele tinha uma forma de se aproximar de mim como nenhum outro jornalista ousou ter. Eu falo que ele era uma pessoa doce, ao mesmo tempo marcante. Ao longo do tempo, essa minha admiração por ele foi crescendo. Eu senti que existia uma admiração muito recíproca sobre nós, cada um com a sua função, mas existia esse respeito pela profissão um do outro, por aquilo que o outro representava dentro do seu âmbito de trabalho. Houve esse sentido de construção de confiança. Eu tinha confiança nas coisas que eu falava para ele, assim como eu sinto que ele tinha confiança quando me pedia algo, assim como quando eu também não podia falar, porque há casos sigilosos, em que a gente não pode antecipar a investigação. Ele sempre muito gentil, entendia. Quando eu soube da partida do Ícaro, foi um impacto, porque eu me vi chorando como criança naquela madrugada. Um menino brilhante que nos deixou. Eu tenho no meu coração que ele deixou um grande legado para os que o conheceram; deixou um grande legado para os jornalistas que atuaram com ele; deixou um grande legado também para você, Aluysio, que certamente se tornou um homem melhor por ter sido pai do Ícaro, por ele ter sido o seu amor.
Nildo Cardoso – A gente já vinha acompanhando o trabalho de Ícaro. Há dois anos, ele e o Genilson foram fazer uma matéria na minha residência, em Poço Gordo, sobre energia solar, fotovoltaica, que estava sendo instalada em três empresas nossas. Isso foi motivo de um caderno da Folha. Eu não sabia quem iria fazer a matéria. Quando cheguei e me deparei com ele, foi uma surpresa, porque era uma pessoa que eu tinha vontade de conhecer pessoalmente, por tudo o que a gente ouvia falar, e também porque a Dora, quem eu não poderia deixar de citar, estava fazendo a cobertura na Câmara sobre a questão política. E o Ícaro chegou lá em casa com Genilson, fotógrafo, e nós levamos pelo menos duas horas conversando. Falamos sobre tudo: pandemia, eleições, o setor cerâmico, e ele atento, ligado a tudo. Ele não era centrado em apenas uma matéria. Tinha um âmbito muito mais amplo dentro do jornalismo do que as pessoas podem imaginar. Eu senti ali uma experiência de uma pessoa que tinha, naquela época, 21 anos. Era uma pessoa que ouvia, tinha sua opinião própria, mas dava atenção a todos. Ele era um uma pessoa interessante no sentido de receber e dar atenção, independente da idade. Respeitava as opiniões. Aí nós fomos para a matéria, fomos para a cerâmica conversando, levamos ali praticamente metade da tarde desse dia. Tomamos café e fomos conversando até chegar de fato ao campo, já que toda a instalação foi feita em terra. Ali ficaria mais fácil fazer fotos para a matéria, que ficou excelente. Eu guardo esse caderno com muito carinho. Ao fazer essa homenagem a Ícaro na Câmara, parecia que a Câmara tinha perdido uma pessoa daqui de dentro, pela manifestação de todos que ocuparam a tribuna naquele momento para falar sobre ele. Ícaro tinha um conhecimento acima da média. Era um menino muito maduro para a sua idade.
Genilson Pessanha – Ícaro era um garoto brilhante. Chegou à redação com aquele jeito dele, muito calmo, tranquilo. Até a pedido seu, Aluysio, sempre dei alguma orientação a ele na rua, trabalhando com ele, por ser o repórter fotográfico mais antigo da Folha. Senti em Ícaro um potencial muito grande. Ele chegava fazendo muitas perguntas, querendo saber das coisas. No início, ele meio acanhado, mas um garoto inteligente, um garoto amoroso. Foi um filho que eu ganhei, com que Deus me presenteou nesse tempo em que a gente trabalhou junto. Tive oportunidade de aprender com ele também, por causa das suas ideias. Ele tinha sempre uma ideia à frente. Eu tinha uma experiência de rua, e ele sempre muito atento às coisas. Quando nós tínhamos alguma pauta no dia seguinte, ele se preocupava e me passava mensagem no dia ou na noite anterior, combinando de nos encontrar tal hora. Foi uma relação muito boa, uma experiência ímpar, com um ser humano incrível. Como foi colocado por Nildo e pela doutora Madeleine, ele foi uma pessoa que impressionava pela idade dele. Muitos jovens são deslumbrados, mas ele era muito centrado, focado, preocupado com o resultado das matérias. Vivemos momentos bons! Ficou um buraco tremendo. Ele marcou muito a minha vida e a minha família. Como você disse em seu texto, Aluysio, o Ícaro voou. Fica uma lacuna muito grande para o jornalismo. Um jovem de 23 anos, com um futuro brilhante pela frente. Tenho vários registros dele atuando, como também em momentos de descontração. A pandemia foi marcante para muitas pessoas, perdemos muitas pessoas queridas, conhecidas, e nós atuamos no front. Eu sempre costumava dizer que era no front, sem frescura, sem moleza. Ícaro jamais será esquecido.
Joseli Matias – Apesar de o jornalismo vir de berço para ele, que frequentava a redação desde pequenininho, no início ele não demonstrava ter muito interesse no jornalismo. Era muito tímido, gostava de ficar na redação desenhando. Ele era muito bom nisso. Em 2019, quando ele chegou à Folha para trabalhar como repórter, a partir do momento em que ele assumiu aquele posto, você não via mais o Ícaro tímido. Ele ia para a rua, mantinha contato com as fontes, não tinha timidez. Ele enfrentava aquilo e era um grande repórter. Também percebi que ele já chegou dinamizando a Folha. A gente já trabalhava há algum tempo com o jornal online, mas tinha uma dificuldade de implantar multimídia, tinha dificuldade de fazer aquela interface com as redes sociais, e ele chegou fazendo isso. Na rua, além da matéria, ele pensava no vídeo para a rede social, na foto ideal para rede social. Ele tinha esse pensamento que, até então, a maioria dos repórteres não tinha. Ícaro gostava sempre de inovar. Ele tinha sempre uma visão diferente em suas sugestões de pauta. O que ele sugeria, a gente parava e pensava: nossa, por que eu não pensei nisso? Depois que ele assumiu as redes sociais da Folha, elas cresceram por causa dessa visão. Apesar de muito novo, Ícaro era muito inteligente, muito estudioso. Sempre foi muito curioso também, gostava de aprender. Quando não sabia de alguma coisa, ele perguntava. Tinha uma relação muito boa com o pessoal da redação. Ele gostava de ficar na redação. Ficava de manhã, no turno da tarde ele continuava e ficava com o pessoal da edição. Era muito receptivo quando a gente fazia alguma observação em relação ao trabalho, e isso tudo permitiu que ele evoluísse muito rápido. Ele mudou totalmente a cara das redes sociais da Folha, que hoje são um sucesso por conta desse trabalho de Ícaro.
João Marcelo Coutinho – Estudei com Ícaro desde o segundo período, desde 2004, 2003, até o 9º ano, em 2014. Na mesma sala, tomando esporro, eu e ele fazendo bagunça, estudando. A gente sempre teve muitos gostos em comum, como videogame, música. A gente sempre gostou de uma música mais antiga; rock dos anos 60, 70. Uma das minhas músicas preferidas, “Faroeste Caboclo”, foi ele quem me apresentou. Ele sabia cantar a música inteira, a gente cantava junto. Filmes também. Me lembro que, na época do João e Maria (ensino fundamental), em 2008, 2009, por aí, a gente fez uma viagem para Petrópolis. Fomos juntos no ônibus. Eu tinha um DVD portátil, ele falou para eu levar, que ele levaria um filme maneiro para a gente ver na viagem. Eu tinha 8 anos, ele devia ter 9, porque era quase um ano mais velho que eu. Ele levou “Cemitério maldito”. Eu inocente, fui ver com ele e fiquei quase uma semana sem dormir depois de assistir ao filme (risos). Como a gente sempre teve gostos em comum, depois de mais velhos também, por política, economia, foi se criando uma amizade natural. A gente era amigo antes de descobrir que você (Aluysio) é amigo do meu pai, meus tios; meu avô era amigo do seu pai e tal. Depois que descobrimos isso, fomos ficando mais amigos. Como cresci com ele, fui pegando as fases dele. Como muita gente, ele não gostava muito de estudar, eu também não gostava. Mas nas coisas que ele gostava, virava praticamente uma enciclopédia. Me lembro de que, quando criança, ele era apaixonado por tubarão. Sabia tudo. Tem informações sobre tubarão que eu sei até hoje por causa dele: tubarão maior, menor, o mais agressivo, o menos agressivo. Ele sabia cada coisa! Teve até um show de talentos lá no João e Maria, em que ele deu uma palestra sobre tubarão, com 9 anos de idade. Meus primos mais velhos ficaram assustados com a oratória dele, uma criança falando daquele jeito. Também sempre desenhou muito bem, gostava muito de desenhar. Um pouco depois da viagem que vocês fizeram à Grécia, Aluysio, ele começou a ficar apaixonado por mitologia grega, Esparta, Atenas. O cara sabia tudo. Com uns 12 anos, podia dar uma palestra de 2h falando sobre isso. Ele sempre se aprofundava, sabia tudo sobre os assuntos dos quais gostava. E depois, mais velho, começou a pegar gosto por leitura, por Hemingway. Ele até me indicou um livro, “O velho e o mar”. Eu achava que ler Hemingway era difícil, mas ele falou que não, que era um autor com uma linguagem tranquila. Do Hunter Thompson, ele falou para eu ler “Medo e delírio em Las Vegas”. Foi um jornalista em quem ele se inspirou, do estilo dele: bloquinho na mão, escrevendo, uma coisa mais raiz. Ícaro sempre foi um cara diferente, sempre conseguiu fazer amizade com um pessoal mais velho, pela cabeça que ele tinha. O cara era fora de série mesmo, era diferente.
André Pinto – Ícaro chegou do nada aqui (no bar Bicho André), me foi apresentado por um amigo: “Esse é Ícaro, filho de Aluysio”. A primeira impressão que eu tive foi de que, por ser filho de fulano, deveria ser um rapaz meio esnobe. Mas ele, não. Ele foi uma pessoa simples, cativou a todo mundo de estalo. Com o passar dos dias, fui tendo uma identificação com ele, com os gostos dele a respeito de filmes, de música, rock and roll e tudo mais. Ele era um cara de 23 anos, mas com cabeça de uns 30. De tudo o que se conversava, ele sabia: filmes, música, rock, blues, Eric Clapton, The Doors. Ele só foi nos conquistando, a cada dia mais. Frequentava tanto o bar quanto a minha casa. E conquistou também a turma daqui, os fregueses, pessoas de 70, 60 e poucos anos. Ele se enturmou com todos. Achava ele engraçado, autêntico, até pela maneira de vestir. Eu até zoava ele, por usar umas camisas psicodélicas, extravagantes. Era um cara de opinião fortíssima, não estava nem aí para o que os outros pensavam. Até coloquei um apelido nele, de Agostinho Carrara. Ele levava na sacanagem, sempre com alto astral. Nunca vi Ícaro de baixo astral. Estava sempre transbordando alegria, energia positiva. Eu só tenho lembranças de alegria com ele. Foi fora de série! Não esquentava a cabeça. Poderiam sacanear ele, que não estava nem aí. Um cara maduro, amigo, companheiro.
Fontes da vida de Ícaro como jornalista e homem: a delegada de Polícia Civil Madeleine Dykeman, o vereador Nildo Cardoso, o repórter-fotográfico Genilson Pessanha, a jornalista Joseli Matias, o estudante João Marcelo Coutinho e o empresário André Pinto (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Madeleine – Ícaro era diferente. Apesar de ele ser um menino calmo, introspectivo, pelo menos em seu ambiente de trabalho, sua presença no local era determinante. Não por ele ser da Folha da Manhã, que é um órgão de imprensa tão importante em nossa cidade. Foi pelo talento e pela competência que ele conseguiu conquistar seu lugar. Ele nunca se utilizou do instrumento Folha da Manhã para se apresentar. Ele ganhou todos os espaços pela pessoa dele, e isso é o mais determinante. Isso nos traz a alegria de dizer às pessoas o quão magnífico Ícaro era. Ele será lembrado como esse profissional exemplar, essa pessoa marcante nos nossos corações, independente do tempo.
Nildo – Como profissional, Ícaro dispensa comentários. E como homem também. Ninguém ficaria duas horas sentado, tomando café, conversando sobre vários assuntos, se não tivesse uma bagagem. Ele era um cara preparado para discutir, debater, para estar em qualquer ambiente. Com todas as ocupações que a gente tem, não só na vida pública, mas também nos negócios da gente, que tira um dia para ficar na roça, e ali você não para. Ali, a gente começou a se encantar com um jovem. Eu tenho um filho de 40 anos, outro de 39, outro de 35, e todos trabalham dentro do setor de cerâmica, cada um toma conta da sua empresa, cada um tem a sua formação. E você se depara com um jovem de 21 anos. Cheguei a comentar sobre a capacidade da formação e do futuro que estava por vir. É um profissional do qual você, Aluysio, tem que se orgulhar, como todos nós que estamos aqui hoje, por falar sobre Ícaro. A convivência com ele foi um aprendizado para mim. Gerou uma admiração que vou carregar para o resto da minha vida.
Cláudio Nogueira – A gente tem aqui, na rádio, durante o dia, vários flashes, no “Direto da Redação”, justamente fazendo essa sinergia entre os veículos do Grupo Folha. E sinergia foi algo que ele já chegou implantando entre as empresas do grupo, que tem a Folha FM, a Folha da Manhã, a Plena TV, a Inter TV, a Hits Macaé. Ele criou esse laço direto entre a gente. Como a Joseli falou, não era raro ele fazer o plantão da manhã e mandar flash também no plantão da tarde. O que fica para a gente, que é mais experiente, mais velho, é que a gente se sente meio que pai. Ainda mais eu, que tenho três filhos homens, dois com 26 anos, praticamente a mesma idade do Ícaro. Não é que a gente quer ser pai, mas, automaticamente, o dobro da idade nos dá a condição de experiência para tentar ensinar a esses jovens. É interessante que não tenho história triste com Ícaro. Inclusive, numa reunião da diretoria do Grupo Folha, em que eu participei, com você (Aluysio), Diva, Christiano e Ícaro, em que ele ensinava para nós detalhes da internet. Toda vez que eu vejo uma postagem de um cachorrinho, de um animal, eu me lembro do Ícaro. Ele falou: “Tendo animal, tendo um cachorrinho, um gatinho, isso é engajamento bruto”. Essa coisa desse linguajar mais específico dessa geração, que é a geração da internet. Eles já pegaram esse caminho sem volta, que é o caminho da tecnologia. Ele ia implantando as coisas nesse caminho digital. Era outro ser humano, diferente, mas com a sua inteligência, puxando você e o seu pai, o velho Aluysio, e a mãe também, a Dora. Ele juntava esse conhecimento, essa cultura dele, que era vasta, apesar da pouca idade, com o carisma, com aquele jeito diferente. Ele era diferente e era marcante. Aqui, na rádio, sempre que terminava um flash ele perguntava como estava a sua dicção. Todo dia ele falava aquilo, e eu dizia que era só falar mais pausadamente, mais tranquilo. E ele falava: “Eu estou na rua, um corre-corre danado”. E eu falava para ficar tranquilo, que Nelson Gonçalves era gago, mas na hora de cantar tinha a voz mais bonita do Brasil. Ele deu muita risada. Para encerrar: uma das qualidades que mais percebi no Ícaro é que ele não andava sob a sua luz (Aluysio). A doutora Madeleine falou que ele não usava o jornal Folha da Manhã para se apresentar em nada, ele se apresentava como Ícaro Barbosa. E não por ele não se orgulhar. Mas, por ter luz própria. Ter um menino novo, de 23 anos, com luz própria, é muito difícil.
Genilson – Pela manhã, trabalhávamos eu, Ícaro e Fabiano, que é tio do Ícaro. Havia aquela aproximação, por ser tio e tal, mas também respeitando sempre. Ele zoava um pouco o Ícaro. Toda vez que Ícaro entrava no carro, ele perguntava: “E aí, Ícaro, hoje vai ter aquele bordão? ‘Eu sou Ícaro Barbosa, falando diretamente aqui da redação da Folha da Manhã’ (risos)”. Foram momentos muitos que a gente viveu. É inexplicável. Teve um final de semana lá em casa, em que marcamos de fazer um hambúrguer artesanal. Fomos eu, ele, Fabiano com a família, e ficamos lá batendo papo. Foi uma tarde descontraída, com muita zoação. Momentos que marcaram muito. A gente passava muito tempo junto na redação, na rua, e ele sempre me cobrando fontes que ele não conseguia por ser novo. Teve um dia, no meu aniversário, em que foi até surpresa. Juntou um pessoal da manhã, e ele chegou com um bolo na mão: “Aí, seu ‘coroavírus’”, por causa da cobertura que a gente fez da pandemia. E como Madeleine falou, ele nunca fez questão de dizer que era Ícaro Barbosa do jornal Folha da Manhã. Ele era Ícaro. Como Cláudio Nogueira falou, a luz era dele. Nas pautas, a gente estava sempre junto, falando a mesma linguagem, apesar da diferença de idade. Agradeço a Deus pela oportunidade de eu ter estado, de ter vivido esses momentos com ele. Vai ser meu eterno Ícaro. Cada vez que olhar para o céu, vou saber que tem uma estrela brilhando. Ele brilhou para nós todos, com uma luz que contagiou e emanou. Um excelente profissional, um garoto desprovido de vaidades. Ícaro deixou sua marca conosco.
Joseli – Ícaro tinha muito potencial e gostava de aprender. Ele estava sempre em contato com a gente, o pessoal mais velho. Até a chegada das estagiárias, ele era o mais novo da redação, mas assumiu a edição e a direção das redes sociais com muita competência. Ícaro percebia a importância de ser tudo muito rápido, tudo imediato. As coisas aconteciam e ele era o primeiro a vibrar, pedir que enviassem o vídeo. Enquanto a gente ia fazendo a matéria, ele já ia editando o vídeo, sempre com muita empolgação. E apesar de começar e gostar de fazer polícia, Ícaro também sempre teve uma sensibilidade muito grande, com matérias mais humanas. Ele estava sempre atento às redes sociais, que acabam sendo um canal do leitor com a Folha da Manhã. Quando a pessoa não tinha mais a quem recorrer, já tinha ido ao poder público, recorria à Folha através das redes sociais. E Ícaro estava sempre atento. Quando esses apelos chegavam, ele era de uma sensibilidade extraordinária. Pegava aquilo de forma imediata e já pautava. Se não tivesse alguém para fazer a pauta, ele mesmo fazia. A gente teve retorno de pessoas que foram ajudadas por matérias da Folha; e a maioria delas por essa sensibilidade. Ele estava sempre ali, o tempo inteiro, com as redes sociais: dia de semana, final de semana, ele mantendo esse contato com nossos leitores. Apesar de muito novo, ele tinha essa coisa de dar a resposta. Ele sempre dava um retorno muito rápido. Abraçava essas pautas. Na hora da edição, a gente ia ver a matéria de Ícaro, e aquilo tinha crescido de uma forma. A matéria se transformava e ganhava uma proporção gigantesca. Ele mantinha essa rotina dele de repórter, gostava de continuar escrevendo. Muitas vezes, era ele quem dava o ritmo para a redação, porque ele corria, adiantava a edição do vídeo enquanto a gente escrevia. Estava sempre correndo e tinha uma sensibilidade emocionante. Como Madeleine e Genilson falaram, ele nunca usou o sobrenome dele para se impor ou adquirir qualquer vantagem que fosse. Estava sempre ali disposto a aprender, aberto a críticas, e por isso evoluiu muito rápido. Era muito bonito ver como ele se divertia na redação, gostava da redação. Às vezes ele ficava até o fechamento. Aí chegava Souza, a quem ele chamava de irmão, que também entrava nas brincadeiras. Mesmo muito novo, a gente via como foi rápido para ele fazer fontes. Ícaro tinha acesso a informações privilegiadas; coisas que a gente não tinha acesso, ele tinha e passava para a gente. Isso mostra um pouco de Ícaro. Ele vai fazer muita falta.
João Marcelo – Na história em que enchemos a sala do apartamento do Rio de areia, no carnaval, eu culpava ele e ele me culpava. Até hoje não sei quem levou a praia toda para casa. Mas, pelo menos a gente limpou lá, deixou tudo direitinho (risos). Estava me lembrando agora também de uma história em uma das excursões que a gente fazia pela escola. Acho que essa foi em 2010. Fomos a um museu e, na volta, passamos em uma fábrica de chocolate. A gente sempre lembrava dessa história quando estava junto. Ele comprou uns bombons, mas começou a comer os bombons. Já tinha comido os cinco e foi me dar um. Quando fui comer, senti um gosto estranho, azedo, e falei que o bombom estava estragado. Fomos perguntar à mulher, ela falou: “Menino, isso é bombom de licor!” E ele já tinha comido uns cinco, com 10 anos de idade. Só sei que depois ele foi dormindo no ônibus, apagadão (risos).
André – Ele não perdia a linha. Sempre com aquela classe. O que eu tenho para falar é que você (Aluysio) era o ídolo dele. Você estava sempre presente nas conversas dele, com histórias. Até comentei com você a respeito de uma história, de um sufoco que você passou no Pontal, para atravessar a nado à Ilha da Convivência. Ele contava sempre, falava de você com o maior orgulho. E nosso negócio aqui era mais baseado no rock and roll, em filmes. Tem filmes antigos que eu falava: como esse cara assistiu a esses filmes? Ele assistiu “Cidadão Kane”, coisas antigas. Cativou a mim e aos fregueses do bar dessa maneira.
João Marcelo – Foram 20 anos de amizade, praticamente. O acompanhei desde criança bobona até o jornalista que ele virou. Fiquei surpreso também. Eu conhecia todo o gosto dele por leitura, por cultura e tal. Mas, quando comecei a ler os textos dele… Mano, tenho certeza que esse cara ia acabar fazendo algum livro em alguma época, por estar escrevendo muito bem. Ele sempre postava nos stories muitos textos do Hemingway, dos autores que ele gostava, e geralmente eu lia. E tinha alguns que eu começava a ler e achava maneiros, e no final ele assinava I.A.B., que era como assinava os textos. Eu pensava que fossem de caras que ele lia, mas no final eram dele. Teve um dia em que eu vi que ele estava virando um jornalista bravo mesmo. Em alguma segunda-feira de manhã, ele me ligou 8h30, 9h, e falou: “estou aqui em Tocos”. Eu falei: “fazendo o que aqui?” E ele: “Vim fazer uma matéria sobre as vans, com motoristas de van”. Alguns jornalistas poderiam ligar para o motorista e marcar uma reunião, conversar por telefone, tomar um café e tal. Mas ele foi, entrou na van, começou a conversar com o motorista, fazendo uma matéria sobre ele. Aí veio para cá, me ligou, tomou um café comigo, colocou o papo em dia, porque a gente estava há um tempo sem se ver. Com 20 anos de amizade, é aquilo tipo de amizade que você pode ficar seis meses sem ver a pessoa, mas quando vê, parece que tinham se visto ontem. O cara era jornalista raiz mesmo, vivenciando na veia o que a fonte vivencia para colocar o melhor na matéria. Agradeço porque foram 20 anos de amizade. Muitas risadas, tomamos muito esporro junto, fomos para a coordenação várias vezes. Foi bom demais enquanto durou. André falou que você (Aluysio) era o ídolo dele. E ele te deu um apelido que eu achava o máximo. Ele falava: “O Big Boss está vindo aí”. Ficava te chamando de Big Boss.
André – O que eu tenho pra falar é o seguinte: nesses dois últimos anos,
tive o prazer de conhecer o Ícaro, e ele entrou no rol dos meus melhores amigos, de 50, 60 anos, entendeu? Ele faz parte disso. Vai estar no meu coração. Nunca vou desejar a você (Aluysio) e a Dora os sentimentos… Dou a você e a Dora os parabéns por terem colocado no mundo esse filho maravilhoso, além do tempo, com quem eu tive o prazer de conviver por esses dois anos. Eu sei que o tempo vai passar, mas a dor nunca vai passar, vai ser eterna. Mas, que dê um pouquinho, um pinguinho de conforto para vocês. Obrigado por essa oportunidade. Ícaro ficará eternamente em nossos corações. Não só no meu, mas nos de todos os amigos que ele cultivou aqui.
Página 6 da edição de hoje da Folha da Manhã
Página 7 da edição de hoje da Folha da Manhã
Confira, em três blocos, a íntegra com os vídeos do Folha no Ar de ontem, em edição especial, sobre a vida do jornalista Ícaro Barbosa:
Os advogados Filipe Estefan e Mariana Lontra Costa, respectivamente, presidente e secretária geral da OAB Campos, são os convidados do Folha no Ar desta quarta (7), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles falarão do papel histórico e atual da OAB no município e na comarca de Campos dos Goytacazes.
Filipe e Mariana também falarão dos pleitos dos advogados e seu atendimento pela OAB, com atenção ao preenchimento dos cargos de juízes no Norte Fluminense. Por fim, os dois advogados analisarão os governos Lula (PT), Cláudio Castro (PL) e Wladimir Garotinho (PP). E projetarão como enxergam hoje as eleições municipais de 2024.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
A partir das 7h da manhã desta terça (6), ao vivo na Folha FM 98,3, o Folha no Ar trará uma edição especial sobre o jornalista Ícaro Barbosa. Diretor de redes sociais do Grupo Folha, ele faleceu precocemente no último dia 13, com apenas 23 anos.
Serão três blocos para falar de Ícaro como jornalista e como homem. O primeiro com a delegada de Polícia Civil Madeleine Dykeman e o vereador Nildo Cardoso. O segundo com a jornalista Joseli Mathias, editora geral da Folha da Manhã, e o repórter-fotográfico Genilson Pessanha. E, o terceiro, com o comerciante André Pinto e o estudante João Marcelo Coutinho.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Ícaro brinda à vida no Cafe Internationaal, na Amterdã de 2 de janeiro de 2023 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Aluysio diante da foto de Ícaro no bar que este frequentava, o Bicho André (Foto: Rafael Abreu)
Um dia após o outro. Sem nenhuma garantia como se acordará no próximo. Assim se dá com todos que vivem o luto por quem amam. Como não há amor maior que o de mãe e pai pelos filhos, a perda física destes, sobretudo precoce, é a dor humana mais lancinante. Estocada à medula, além desse amor sem medida, pela incompreensão e impotência. Diante da inversão da ordem natural da vida. Desse parir para dentro o vazio.
Desde que meu filho único, o jornalista Ícaro Barbosa, morreu na noite do último dia 13, com apenas 23 anos, muitos têm sido os relatos sobre ele. Alguns, de pessoas que eu sequer conhecia. Vários ressaltaram características que nele já sabia presentes. Mas que, confirmadas fora do juízo sempre passional da família, reforçam o homem e profissional que meu filho se tornou ao juízo da taba goitacá. À qual, além de mera promessa, Ícaro já era entrega.
Na tentativa de seguir seus passos e encurtar a distância que sua morte impôs, estive no último sábado (27) no Bicho André, na rua Lacerda Sobrinho. Era o bar que ele passou a frequentar desde que foi morar sozinho, próximo dali. Cujo proprietário, o André Pinto, colocou uma foto de Ícaro na parede do estabelecimento. Entre duas placas que meu filho lhe trouxe de Amsterdã, quando a conhecemos juntos em janeiro deste ano agora tão triste.
Ícaro fez no bar uma penca de amigos, todos mais velhos. Aos quais se nivelava em seus elevados conhecimentos em música, cinema, literatura e história. Foram muitas as histórias contadas em sua memória. Tão querida a todos quanto a mim. Um desses companheiros de bar, o Rafael Khenaifes, também jornalista, me disse algo. Talvez sem perceber ter sido a melhor definição à única opção que resta a um órfão do filho: “luto é luta!”
Lutar em uma realidade física sem Ícaro é inglório. À sua mãe, a jornalista Dora Paula Paes, e a mim, beira por vezes à impossibilidade. Mas, mesmo a quem sente orgulho de tê-lo por filho, é menos difícil a partir das manifestações de afeto e gratidão à vida desse homem tão jovem. Que, em seu voo alto e breve em busca do sol, brilhou na vida de tantos. Seguem alguns desses testemunhos de luz:
“Conheci o Ícaro em um dos piores momentos da minha vida. Minha filha tinha um problema grave no coração e precisávamos de ajuda. O Ícaro abriu as portas do Folha1 e publicou a nossa história. Nunca esquecerei esse gesto! Ele estará sempre em minhas orações e pensamentos.”
(Keilla Cabral, comerciante e leitora do Folha1)
“Ícaro era um fantástico rapaz, alguém que cada vez mais já considerava um amigo pessoal. Muito pela admiração ante às suas diversas qualidades. Não imagino a dor que os pais dele estão sentindo. Se veem amputados da presença do grande e infinito amor, melhor amigo, feito às suas imagens e semelhanças. Peço a Deus que conforte, na medida do possível, e que receba o grande Ícaro em seus braços nessa nova etapa de sua existência. Chegará um dia em que todos estarão juntos novamente. Tendo entendido muito sobre este plano, Ícaro nos deixou para seguir sua jornada infinita.”
(Pedro Emílio Braga, delegado de Polícia Civil)
“Enquanto digito esta mensagem, as palavras parecem fugir da minha cabeça e não sei o que dizer. Falar de Ícaro seria tão fácil, mas pareceria estranho, porque não teria como resguardar minha fala de palavras alegres. As lembranças que tenho dele são todas felizes. Como não seriam? Um ‘menino‘ que vi correr tímido pela redação, que vi crescer gentil e educadamente, um colega de redação sorridente, cheio de presteza, de ideias, de inteligência, de opinião; um amigo que, quando me encontrava, em qualquer lugar, sempre achava tempo de parar para conversar um pouco, contar da vida, lembrar de umas passagens e experiências vividas na Folha, um jornalista que me mandava mensagens, até há bem pouco tempo, pedindo informações e respostas a demandas, um homem que eu chamava de ‘menino’, tratando-o como tratava meus filhos. O sentimento que me vem, ao pensar Ícaro, é de alegria, leveza, boa conversa, respeito… A tristeza, ao pensar em Ícaro, é por saber que tudo agora é lembrança e saudade. A agonia que senti ao saber dessa perda me deixou trêmula por dias, sem palavras ou coragem de expressar meus pêsames, como ainda estou agora ao escrever, tentando, sem êxito, expressar meu sentimento. Pode parecer bobagem, mas eu queria é não estar escrevendo. Não há nada que eu possa falar sobre sua dor, Aluysio, sobre a dor de Dora, porque a dor é sua e a dor é dela. Pode parecer fraqueza, mas eu gostaria de abraçar vocês e chorar com vocês para amenizar a minha dor. Ícaro voou. A nós restou a gravidade.”
(Verônica Nascimento, jornalista)
“Ícaro era uma pessoa transparente e autêntica, suas qualidades eram facilmente perceptíveis. Gostaria de compartilhar meus últimos momentos com ele e algumas percepções. Na sexta-feira (12), estávamos juntos, bebemos alguns litrões e doses de uísque barato no Bicho André. Nos divertimos muito, Ícaro estava feliz com a viagem que vocês fizeram no início do ano, Aluysio, e com muitos planos. Ele te amava e admirava muito, você era uma inspiração clara para ele. Ele falava muito sobre Hemingway e Thompson, mas com certeza o seu maior ídolo e espelho era o próprio pai. Desde que voltei a morar em Campos em 2019, Ícaro e eu nos tornamos amigos, e ele sempre me disse que você prometia uma viagem a Canudos. Ele mencionava isso sempre que podia. No sábado anterior (6), no Rock Goitacá, e também na sexta-feira ele disse mais uma vez que seria a próxima viagem.”
Campos de 2024 entre Wladimir Garotinho, Jefferson Manhães de Azevedo, Sérgio Mendes, Caio Vianna, Thiago Rangel e Marquinho Bacellar (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Wladimir e Jefferson
O prazo para filiação partidária vai até 6 de abril do próximo ano, com convenções em julho, a todos que quiserem disputar as eleições municipais de 6 de outubro de 2024, daqui a 16 meses. Mas, em Campos, as movimentações já começaram às disputas a vereador e prefeito. Nesta, salvo o imponderável, dois nomes hoje parecem certos: Wladimir Garotinho (PP), na tentativa natural de reeleição, e o professor Jefferson Manhães de Azevedo (PT), reitor do IFF. O ex-prefeito Sérgio Mendes (Cidadania) também pretende disputar novamente o cargo, mas precisa pontuar nas pesquisas. Além destes, todos os demais nomes dependem da conjuntura.
Segundo turno?
A coluna conversou com quatro articuladores políticos da cidade, que habitam no primeiro escalão do grupo dos Garotinho, dos Bacellar no Rio de Janeiro e em Campos, e do PT. São fontes de alta qualidade e conhecimento, que terão as identidades preservadas. Mas não suas informações, que são de interesse público. A todos, Wladimir aparece como franco favorito à reeleição. Se a eleição fosse hoje e tivesse que ser disputada no segundo turno, isso já seria considerado uma vitória da oposição. Na qual o perfil de Jefferson como gestor, além da sua preparação para debates, causa preocupação aos líderes do grupo político da Lapa.
Do IFF à Carla
No PT de Campos, ao Rio, à Brasília, a candidatura de Jefferson a prefeito é considerada certa. Puxada por ela, a intenção é montar uma nominata forte à Câmara Municipal, para o partido reconquistar uma cadeira. Reitor do IFF, ele não vai tratar publicamente da eleição de 2024 até que a da sua sucessão na maior instituição de ensino do município e da região esteja definida, provavelmente entre outubro e novembro de 2023. O deputado federal Lindbergh Farias (PT/RJ) já lançou, no Folha no Ar de 18 de abril, o nome de Jefferson. Mas este terá que conversar antes com a deputada estadual Carla Machado (PT), ex-prefeita de SJB.
PT/PSD?
Sondada há algumas eleições a prefeita de Campos, Carla não pode tentar o cargo em 2024, pois a legislação eleitoral veda candidatura a prefeito em pleito consecutivo após uma reeleição ao cargo em município vizinho. Mas ela tem capital eleitoral nos dois, além de ser a única dona de mandato do PT na região. A potencial candidatura de Jefferson poderia ser beneficiada se o PT-RJ oficializar seu apoio à tentativa de reeleição a prefeito da cidade do Rio de Eduardo Paes. Cujo PSD, partido também do deputado federal Caio Vianna e do vereador Bruno Vianna, poderia em troca apoiar o hoje reitor do IFF a prefeito de Campos. Chapa que, não se descarta, Caio poderia integrar.
Caio e Thiago
Caio tem o recall da eleição a prefeito de 2020, quando disputou um segundo turno duríssimo vencido por Wladimir. Mas ficou aquém do esperado em sua votação na cidade a deputado federal em 2022. E só conseguiu assumir mandato agora graças à ginástica de Eduardo Paes com os suplentes. O filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna não está fora da disputa à Prefeitura de Campos em 2024. Inclusive, a depender da conjuntura, com apoio dos Bacellar. Assim como o deputado estadual Thiago Rangel (de saída do Podemos ao Republicanos). Sobre Caio, no entanto, há consenso em todos os grupos políticos da cidade que seu nome já teve mais força.
Rodrigo deve sua ascensão meteórica na política fluminense à sua capacidade de articulação. Não entrará numa eleição majoritária em sua cidade natal, sobretudo em apoio ao irmão, se não enxergar pragmaticamente chance de vitória. Um dos seus principais nomes no Rio acha que Marquinho a prefeito, hoje, “seria uma aventura”. Enquanto um dos principais nomes do grupo em Campos só vê uma possibilidade do presidente da Câmara disputar com Wladimir em 2024: “se a pacificação azedar”. Caso se mantenha, não está nem descartado que os Bacellar apoiem a reeleição do prefeito de Campos. O que poderia ser, na prática, garanti-la.
Tudo, inclusive nada
Reconhecido como favorito, Wladimir teria como pior cenário em 2024 uma oposição pulverizada em duas ou três candidaturas com densidade eleitoral, além de Jefferson. No PP, o prefeito deve ter sua filiação oficializada por Arthur Lira, o poderoso presidente da Câmara de Deputados, em 7 de julho. Tem outro apoio de peso no governador Cláudio Castro (PL), aliado também de Rodrigo. Enquanto os três assim se mantiverem, a pacificação entre Garotinhos e Bacellar tende a durar. E favorece à reeleição. Só que a urna é daqui a 1 ano e 4 meses. Até lá, no sábio dito do ex-vice-presidente Marco Maciel: “tudo pode acontecer, inclusive nada”.
Ícaro e uma de suas paixões, Atafona, em 21 de junho de 2020 (Foto: Ícaro Barbosa)
Enquanto escrevo, na manhã de sexta à edição deste sábado da Folha, me preparo para ir mais tarde à missa de 7º dia do meu filho, o jornalista Ícaro Paes Pasco Abreu Barbosa, morto no último sábado (13), com apenas 23 anos. Mesmo antes destes serem à luz contados, desde que estava no escuro terno da barriga da sua mãe, a jornalista Dora Paula Paes, ele é a paixão da minha vida. Meu menino, meu doce príncipe, com seus questionamentos existenciais de Hamlet. E a quem, nas palavras deste, sempre amarei “do coração do meu coração”.
Não sei que vida me resta, sem poder ver, ouvir e tocar Ícaro. Cujo cheiro busco nas suas camisas e roupas de camas usadas que recolhi com suas demais coisas, sofregamente, em seu apartamento. Talvez ninguém tenha definido melhor esse vazio absoluto do que outro órfão do filho, o poeta Fagundes Varela: “Eras a glória, — a inspiração, — a pátria,/ O porvir de teu pai!”
Muito além de meu filho e de Dora, Ícaro foi homem por ele mesmo. Um homem lindo para além da visão da mãe, do pai e da família. Visão que pude, entre orgulho e dor, reforçar nos vários depoimentos dados sobre ele. Inclusive de pessoas que eu não conhecia. Mas que, em sua vida breve e intensa, meu filho marcou.
Abaixo, na gratidão mais sincera de um filho e um pai por todos, alguns deles:
“Ícaro era brilhante. Tive a oportunidade de dizer isso a ele inúmeras vezes. Mesmo partindo aos 23 anos, deixou grande legado. Ao saber da partida dele, chorei como criança. Foi só então que descobri o quanto de fato eu o adorava. Poucos jornalistas tinham acesso a mim quanto ele. Um pedido dele era uma ordem, não pelo posicionamento, mas pelo carinho e cordialidade com que sempre me tratou. Sentirei muita saudade desse grande jovem e de seu brilhantismo.”
(Madeleine Dykeman, delegada de Polícia Civil)
“Conheci o Ícaro pessoalmente em abril de 2022, quando ele foi junto comigo fazer uma matéria sobre pessoas vivendo na extrema pobreza. Pude vê-lo sensível ao sofrimento alheio, pude vê-lo com um olhar além da matéria jornalística, com um olhar de amor ao próximo. Só peço a Deus na pessoa do Espírito Santo que conforte os corações sentidos neste momento.”
(Célio Marins, pastor pentecostal)
“É com profunda dor e tristeza que o PT de Campos se solidaria com a partida de Ícaro Abreu Barbosa no último dia 13 de maio. Jovem jornalista com futuro promissor em nossa cidade. Irreparável perda.”
(Odisseia Carvalho, professora e presidenta do PT de Campos)
“Lembro do Ícaro em momentos diferentes de vida, nas três passagens que tive pela Folha. Sempre sorridente, alegre, curioso e comunicativo com todos. Aparecia vez em quando com desenhos sempre bem traçados que gostava de fazer. Recordo-me que ele me entrevistou quando da morte do meu pai, em 2019. Achei que estava numa espécie de rito de passagem da vida, pois o vira tão pequeno e, de repente, estava ele a me colher informações para redigir sua matéria. Entrei para Folha às vésperas de ser pai do meu primeiro filho. Este jornal sempre me lembrará paternidade. Sempre me trará lembranças de família. A família Folha. E sou grato por isso, a Aluysio, ao seu pai, ao Ícaro, a todos.”
(Thiago Freitas, jornalista)
“Quando Ícaro tinha, acho, que 3 ou 4 anos, mandei confeccionar para ele uma marca de gado estilizada, que entreguei quando estava com a sua mãe, Dora. Um ‘i’ entre o par de asas de ferro. Ali desejava a ele não só que pudesse vir a ser um produtor rural, mas também que suas asas fossem seguras, fortes o suficiente para não derreterem. Que ingenuidade a minha, as asas de ferro também haviam sido forjadas no fogo. Não tive a oportunidade de lhe dar o primeiro livro sobre jornalismo como fiz com o seu pai, Aluysio. Quando dei por mim já estava sendo entrevistada por ele. Ícaro tinha pressa e voou com as asas que ele construiu. Pouse, menino pássaro, pouse nos ombros do grande Pai, que está te esperando com muito amor.”
(Jane Nunes, jornalista)
“Nossa amizade foi tão breve quanto marcante. Nosso último encontro foi dentro do Trianon. Conversamos sobre o espetáculo, sobre Marcelo Pirica, e fechamos nosso papo falando da minha arte. Quando ele me surpreendeu por saber tanto do que eu faço e por ter me dito que gostava. Fiquei lisonjeado, feliz. É difícil não conter as lágrimas da tristeza por sua partida. Ficou sua mensagem aqui em nosso coração. Vou sempre ligar o céu a você, meu saudoso Ícaro.”
(Ricardo Salgado, artista plástico)
“Estou estupefata! Que menino bom! Educado! Atencioso! Diferenciado, considerando a geração a que ele pertence. Tive oportunidade de conversar algumas vezes com ele, quando me procurou para falar sobre a história de vida do meu pai, via mensagens WhatsApp. Mas foi suficiente para saber que ele era especial. Descanse em Paz, Ícaro!”
(Sônia Renata Ribeiro, bancária e assistente social)
“Ícaro foi um jovem brilhante e amado por todos que o conheceram, e assim será eternamente lembrado. Que o brilho de Ícaro invada os lugares escuros e frios em que podem estar o coração dos que o amaram.”
(Maycon Morais, jornalista)
“Estou orando pelo espírito de Ícaro, com quem tive o prazer de conversar algumas vezes. Que menino especial. Fala mansa, humilde, um olhar genuíno como dos anjos, leve, energia boa! Com certeza está em um lugar de luz, amparado pelos espíritos benfeitores.”
(Fátima Castro, presidente da Associação Irmãos da Solidariedade)
“Assim como o Ícaro da mitologia, ele simbolizou a busca pela liberdade e coragem de voar alto. Que as lembranças dos momentos compartilhados tragam algum conforto neste momento difícil. Desejo força e coragem para enfrentar a tristeza e seguir em frente. Que a memória de Ícaro permaneça viva no coração de todos.”
“Sei que Ícaro era um menino bom, trabalhador, inteligente, dedicado. Acompanhei alguns textos dele e momentos que você registrou, Aluysio. Uma viagem linda de vocês. Tenho certeza de que você cumpriu sua missão com ele e terá maravilhosos momentos de recordação. Em oração constante por todos que o amam.”
(Débora Batista, jornalista)
“Conheci Ícaro na sala de aula, quando devia ter uns 10 anos de idade. Ele sempre externava a grande admiração e o amor que nutria por você, como pai, Aluysio, e pelo avô Aluysio.”
Ricardo Antônio Machado Alves (professor)
“A última vez que eu vi Ícaro Barbosa foi no show de Dodó Cunha, no cover de Cazuza. A gente nunca sabe quando vai ser a última vez. Rezemos pela alma desse grande jornalista, tão jovem e tão experiente ao mesmo tempo.”
(Érica Viana, servidora municipal de SJB)
“Ícaro, mesmo com pouca idade, deixou seu legado de carisma e competência. Lembro muito dele novo, no Auxiliadora, quando levava meu filho. E depois o acompanhava em seu crescimento profissional como jornalista.”
(Gustavo Crespo Potência, criador de conteúdo digital)
“Estava no interior de São Paulo, no fim de semana, quando recebi a notícia da partida precoce de Ícaro. Acompanhava Adriano, meu filho mais novo, em seu primeiro voo. Ele quer seguir o caminho escolhido por Nelinho, meu filho mais velho, no curso de piloto privado. Da pista, acompanhei tenso a decolagem e preferi me retirar até que ele retornasse dessa primeira experiência. Adriano voltou extasiado com a sensação de estar sobre as nuvens e da perspectiva de ‘ver o sol mais de perto’. Desde então estou procurando palavras para me dirigir a você, Aluysio. Mas só as encontrei no seu texto ‘O voo do Ícaro de um Dédalo órfão do filho único’, a melhor tradução de amor que já li em um momento como esse.”
Luiz Costa (jornalista)
“Ícaro me fez sentir pequena. Passou por mim aos 15, ou 16, por aí. Sobrevoou rapidamente minhas aulas sem encontrar razões para se demorar. E estava certo. Ele intuía muito mais do que o que eu tinha para dizer, o que eu era capaz de dizer. Entendi isso assim que o Ícaro jornalista se mostrou. Quase escrevi para ele, há um tempo atrás. Queria elogiar seu texto, dizer que, quando tive oportunidade, perdi. Eu perdi. Olhei, e não vi. Não imagino onde você encontrará algum alento, Aluysio. Mas torço muito para que nunca duvide da sua grandeza na vida desse filho.”
(Ana Beatriz Cardoso, professora)
“No último sábado um grande amigo perdeu um filho. Um rapaz de 23 anos que brilhava. Esse amigo, sua mãe, avós, tios e tias vivenciaram o antinatural. O contrassenso. O impensável. O devastador. É uma dor que é difícil pensar nela ou tentar entendê-la; buscar explicações. Hoje eu pude dar um abraço no meu menino que chegava da escola. Havia jogado futsal, e estava contente por ter marcado gol. Me contava entusiasmado seu dia, e aquilo me causou uma dor profunda, apesar do contraste da alegria de ainda poder beijá-lo e dizer que o amo, mais que qualquer coisa. Mas por me colocar, mesmo de forma impossível, na posição daquele amigo, não pude resistir ao choro que meu filho não entendia. Ícaro, na mitologia grega, tinha asas. Voou com elas para outro lugar, mas veremos sua luz por aqui sempre, pois diferente de uma estrela, ele não deixará de existir.”
(Edmundo Siqueira, servidor federal e jornalista)
“Aluysio, o seu voo de Ícaro será sempre o do maior amor do mundo! Lendo agora o que você escreveu sobre o seu único filho não consigo te dizer nada, nem posso, nem imagino. Só sei que onde você estiver Ícaro estará sempre com você.”
(Elis Regina Nuffer, jornalista)
“Você e Ícaro, Aluysio, protagonizaram uma história muito bacana. Inspiradora para muitos. Nos inevitáveis acertos e erros da vida. Mas de modo intenso, sempre.”
(Victor Queiroz, promotor de Justiça)
“Meu amigo,
Desse lado do hemisfério,
Há dor que bate forte
Mesmo tudo aqui primavera
Ambienta uma espera de morte
Sei que aí no outro lado
Ela já veio, mais do que sobressalto
Sem esperar o tempo da batida de falta
Coração na mão que nem mesmo a apatia suporta
Mas tenho certeza
A dignidade e beleza dos seus gestos
Permanecem incólumes
Seu amor e presença sempre manifestos
Enormes
Que ele voe
Que você veja
Voo de condor de cura
Sobre fosso da tristeza”
(Manuela Cordeiro, antropóloga, poeta, professora da Universidade Federal de Roraima em residência na San Diego State University, Califórnia, EUA)
Ícaro e Aluysio Abreu Barbosa no cume do Monte Sinai, na porção asiática do Egito, ao nascer do sol de 25 de janeiro de 2023 (Foto: Ícaro Barbosa)
Ícaro voador
“Ícaro e Dédalo”, óleo sobre tela de Clarles Paul Landon, 1799
Tinha uns 7 anos quando meu pai, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa, me presenteou com a obra completa infantil de Monteiro Lobato. Com ela tomei conhecimento da mitologia grega de Ícaro e Dédalo. Filho e pai, respectivamente, que constroem dois pares de asas com penas de pássaro e cera de abelhas. E com elas fogem do cativeiro na ilha de Creta.
Antes de saírem voando sobre o Mar Egeu, o pai aconselhou o filho que não subisse perto demais do sol, para que este não derretesse a cera das asas. Inebriado pela proximidade com o astro rei, Ícaro ignorou a advertência paterna. A opção do jovem foi ser o homem mais próximo ao sol. Pela qual morreu na queda. Em prantos, o pai seguiu voo e vida órfão do filho.
Desde feto — Desde que o menino que fui leu a história pela primeira vez, tomou sua decisão: teria um filho, o seu menino, a quem chamaria de Ícaro. Cumprida em 15 de julho de 1999, quando nasceu Ícaro Paes Pasco Abreu Barbosa, meu filho com a jornalista Dora Paula Paes. Após 20 anos de expectativa, minha interação com ele começou quando ainda era feto. Quando passou a se mexer na barriga da mãe, a partir do quarto mês de gestação.
Chegava tarde da noite, às vezes de madrugada, do trabalho puxado de editor-geral da Folha, deitava na cama e o acordava. Mexia de maneira carinhosa, mas insistente, na barriga da mãe. Até ser respondido de dentro dela, em diálogo de tato até que caíssemos ambos no sono. Desde ali, ele se fez notívago, característica que manteria em seus 23 anos de vida, encerrados precocemente na noite do último sábado (13).
O bebê — Recém-nascido, lembro de segurá-lo na cama, a nuca apoiada na palma da mão direita, com a coluna deitada até a metade do antebraço. Passava horas em contemplação e gratidão ao Divino. E indagava em mantra o pensamento: “Como pude fazer algo tão perfeito?”
Quando começou a falar, aos 2 anos, se deu o apelido com que passaria a ser chamado em família: Carô. Ainda incapaz de reproduzir o “í”, foi assim que ele primeiro se reconheceu e identificou enquanto indivíduo. Sua primeira palavra foi “mama”. Que me deu uma inveja danada de Dora.
Ele só me identificaria foneticamente meses depois. Passou a me chamar de “papagaio”. No início, foi frustrante a quem passara a vida ansiando ser chamado de pai pelo filho chamado Ícaro. Como daria saudades depois, quando ele, por volta dos 4 anos, finalmente começou a me chamar de “papai”. E aposentou, sem motivo aparente, a distinção paterna de “papagaio”.
Menino e adolescente — Aos 10 anos, Ícaro também experimentou a paternidade. Sua mãe Dora, com quem vivia, teve mais um filho. Que o meu batizou com outro nome grego: Aquiles. Mesmo que este tenha pai no exercício do papel, como nunca viveu com a mãe, coube ao meu filho ser pai cotidiano do irmão. A quem, em nome dessa relação tão bonita, tomei por afilhado.
Aquiles e Ícaro, em 16 de julho de 2014 (Foto: Facebook)
Figura paterna para Ícaro tão ou mais importante que eu, era o seu “vovô Ísio”. O velho Aluysio e ele extrapolavam em muito a relação já naturalmente especial entre avô e neto. Meu pai era carente e meu filho, uma criança muito carinhosa. A morte de Aluysio, em 2012, foi o trauma mais impactante da vida de Ícaro.
Ícaro e Zidane (Foto: Ícaro Barbosa)
O trauma só foi superado quando, a conselho de um amigo com experiência profissional com adolescentes, dei ao meu filho um filhote de buldogue francês que batizei Zidane. Além do nome, herdou o apelido do craque francês: Zizou. O que aquele pequeno cão ensinou a Ícaro em responsabilidade, dedicação e compromisso, talvez nenhum humano tenha conseguido.
O jornalismo — Ícaro cresceu muito em seus 23 anos de vida. Quatro anos antes, enquanto cursava História, decidiu ser jornalista em julho de 2019. Inicialmente, fui contra. Até porque, tinha feito a mesma opção na juventude. Para até hoje me indagar que historiador poderia ter sido.
Criança e adolescente criado dentro de uma redação de jornal, como eu também havia sido, ele tomou sua decisão. E alcançou evolução rápida na profissão. Sua boa bagagem de leitura e cultural o ajudou. Como a distinção do pai no temperamento: onde sou assertivo, ele era doce. Paradoxalmente, tinha preferência pela reportagem de polícia. Que é a melhor escola do jornalismo, embora desagradável à maioria.
Ícaro começando no jornalismo, em cobertura da enchente em Lagoa de Cima, em 30 de novembro de 2019 (Foto: Genilson Pessanha)
Com a adaptação do jornalismo às redes sociais, das quais ele era íntimo geracional, as assumiu na Folha a partir de 2021. Conferiu-lhes dinamismo e passou a integrar a diretoria. No tamanho físico, Ícaro não era alto nem baixo. Com seu 1,78m, tinha exatamente a minha altura e dos dois tios gêmeos maternos. E, tão logo passou a ter barba, deixou a sua crescer. Como a que sempre cultivei, desde a juventude.
Após batalhar contra a tendência à obesidade desde a adolescência, Ícaro decidiu fazer uma cirurgia bariátrica no início da juventude. Foi outra decisão pessoal dele à qual fui inicialmente contra. Mas depois da qual passou a ter um figurino bem menos largo, embora ainda corpulento, também semelhante ao meu. O que me fez perder algumas camisas, moletons e casacos que só percebia terem outro dono, quando os via vestidos nele.
A literatura — Como roupas, levou-me vários livros. Quase todos os de Homero, Heródoto, Tucídides, Plutarco, Shakespeare, Cortez, Gibbon, Nietzsche, Twain, Kerouac, Fitzgerald e Hemingway. Este, talvez, sua maior influência. Tanto pela introdução da sua intensa vida de “porre, pesca, caça, guerra” quanto da prosa jornalística como matérias de literatura.
Por conta própria, leu outros autores, como William Faulkner e Hunter Thompson, pai do jornalismo gonzo, em que se abandonou a objetividade e “isenção” jornalística. Para o repórter se assumir como personagem da história. É o que ele, ousadamente, buscava implementar em seus textos e na Folha.
Para além do jornalismo, abarcou uma compreensão sobre a prosa modernista dos EUA, da primeira metade do século XX, em contraponto histórico e conceitual com o pós-II Guerra Mundial (1939/1945), impressionante em um autodidata tão jovem. Neste sentido, escreveu um texto (confira na íntegra aqui), que cheguei a mandar a literatos, como o historiador Arthur Soffiati e poeta Adriano Moura, sem dizer quem era o autor.
Só após os dois, sempre sem favores no juízo crítico, elogiarem a consistência do texto como minha, revelei que era de Ícaro. Destaco o trecho sobre literatura e convicções:
— Convicções fortes são difíceis para qualquer escritor preservar. Fitzgerald desmoronou quando o mundo parou de dançar seu jazz. A força das convicções de Faulkner tropeçou quando ele precisou enfrentar os negros do século XX ao invés dos símbolos negros de seus livros. Thompson vacilou quando a revolução digital da internet bateu na porta de seu rancho e ameaçou sua persona e modo de vida. Todos estes escritores ficaram atolados no que parece uma crise de convicções causada, como as de Hemingway, pela natureza cruel de um mundo que se recusa a ficar parado tempo o bastante para que o enxerguem com alguma clareza.
Aluysio, Dora e eu o influenciamos no jornalismo. Mas Hemingway e Thompson estavam uma oitava acima nas suas referências em letras e vida.
Em 7 de abril de 2020, dia do jornalista e ainda antes de tomar conhecimento de Hunter Thompson, Ícaro elencou suas influências no ofício: Ernest Hemingay, Aluysio Abreu, Dora Paula Paes e Aluysio Barbosa (Montagem: Ícaro Barbosa)
O articulista — Foi com base em Thompson que ele narrou a vida e a morte, aos 52 anos, em 10 de fevereiro de 2022, de uma figura icônica da contracultura de Campos. Marcelo Silva Martins, o Pirica, era meu amigo de infância. Que conheceu e se identificou com Ícaro ainda criança de colo, para dele se tornar amigo quando adulto, sem minha intermediação.
Além de noticiar a morte de Pirica, vítima de um atropelamento, escrevi um texto pessoal sobre ele, publicado no dia 12. E só depois fui ver que, desde o dia 10, Ícaro já havia feito antes o mesmo, publicando nas redes sociais e sem me avisar. Comparando os dois escritos, sem favor de pai, pude constatar o quanto meu filho havia crescido como jornalista. O testemunho dele (confira na íntegra aqui) descrevia Pirica melhor do que fui capaz. Destaco o trecho:
Pirica e Ícaro no “escritório” do primeiro, na calçada da Beira Valão, em plena pandemia da Covid-19 (Foto: Fernanda Toledo)
— Naquele dia, assim como quando recebi o soco que foi a notícia da sua morte, lembrei de um trecho do livro que estava lendo na época, “Medo e Delírio em Las Vegas”, do jornalista estadunidense Hunter S. Thompson: “Lá vai ele. Um dos protótipos pessoais de Deus. Uma espécie de mutante de alta potência que nunca foi considerado para fabricação em massa. Muito estranho para viver e muito raro para morrer”. Numa quinta nebulosa, pensei que nenhuma combinação de palavras ou notas musicais vai ilustrar tão bem o que foi o lendário Pirica. Seja lá o que tenha significado para si mesmo e para todos aqueles tantos campistas que conviveram com ele.
A música — Ícaro, como Pirica, adorava música, sobretudo blues e rock. De tanto ouvir desde criança, foi muito além a partir de algumas influências minhas: Robert Johnson, BB King, Aretha Franklin, Janes Joplin, Beatles, Cream, Eric Clapton, Buddy Guy, Raul Seixas, Rita Lee, Barão Vermelho, Cazuza, Legião Urbana, Lobão, Nirvana, The Doors. Vocalista e letrista desta banda, Jim Morrison seria outra grande influência ao meu filho.
Fomos juntos ao show do Pearl Jam no Maracanã, em 2018. Além de algumas edições do Festival de Blues e Jazz de Rio das Ostras e similares em Campos. Agora profundamente arrependido, estava cansado e não o acompanhei no Dia do Rock Goitacá na Praça do Liceu, no sábado do último dia 6.
A política — Vários amigos em comum me disseram que Ícaro curtiu bastante. Como sua mãe me falou que ele lhe confidenciou sua maior alegria. Em meio à música, comungou seu vinho com um morador de rua. “Ele contou que bebeu a alegria do homem que tomou vinho na tampa de uma quentinha, como se estivesse bebendo na melhor taça”, repassou Dora.
Apesar da preocupação social latente em um coração maior que ele, Ícaro era um libertário. Dos que pretendem a junção do anarquismo com o liberalismo econômico. Que, cansei de explicar sem sucesso, são como água e óleo. No calor das discussões políticas, eu o chamava de “reacinha de sapatênis”. Por sua vez, ele me classificava de constitucionalista de centro-esquerda, sem que isso fosse um elogio. E seguíamos, ambos, com nossas convicções.
Companheiro de viagem — Da infância à sua idade adulta, Ícaro foi também meu grande companheiro de viagem. Pelo Brasil, muitas no Rio, algumas na serra do Espírito Santo, no Nordeste e nas cidades históricas de Minas. Mas, sobretudo no exterior, ao qual quase sempre viajávamos apenas nós, precisando contar muito um com o outro.
Em 2009, quando ele tinha apenas 10 anos, passamos 33 dias entre Turquia e Grécia. Em um roteiro histórico que montei junto com meu irmão, Christiano, padrinho de Ícaro, foi sedimentada a grande paixão do meu filho por História e cultura clássica. Como é pelo consumismo e o Pateta os que levam os filhos dessa idade à Disney.
Entre vários momentos marcantes, andamos nas ruínas históricas de Esparta durante todo um dia muito quente daquele vale do Peloponeso. E cruzamos apenas com outra pessoa: uma turista italiana de meia idade. Lembro de, em certo momento, ter-lhe dito: “Fizemos o que nem Alexandre conseguiu: Esparta é nossa!” Ao que ele, criança, sorriu com orgulho.
Ainda naquela viagem, estávamos na ilha de Ítaca, lar do mítico príncipe Odisseu, em seu batismo à “Odisseia” de Homero. Quando mergulhamos de máscara e snorkel na praia de Filiatro, das mais belas do mundo. Enquanto eu tinha praticado caça submarina desde a adolescência, ele nunca havia mergulhado.
Apesar da claridade da água azul turquesa, o Mar Mediterrâneo, por semiaberto, é pobre em vida marinha, comparado ao oceano Atlântico. De cujo fundo, Ícaro crescera ouvindo histórias. Para dar-lhe algo próximo, recorri a um velho truque da caça. Subimos a cabeça à superfície para lhe explicar antes. Após, peguei um ouriço e o esmaguei com uma pedra, estripando-o. E, como combinado, ficamos imóveis na superfície, a observar.
Antes escondidos nas pedras, os peixes surgiram para se refastelar do banquete oferecido. Enquanto o faziam, sem poder emitir som dentro d’água, Ícaro passou seu pequeno braço de criança em torno dos meus ombros. Foi sua maneira de agradecer “no mar que Ulisses cortou”, em versão submarina de Castro Alves, comungada por filho e pai.
Em maio de 2013, quando Ícaro tinha 12 anos, passamos seis dias pelo Uruguai, entre Montevidéu e Colônia de Sacramento. Em fevereiro de 2015, quando ele tinha 13 anos, junto também da minha mãe, Diva, passamos 9 dias na Cidade do México. Com tempo para passar um deles na grandiosa cidade pré-colombiana de Teotihuacán. Onde meu filho e eu subimos aos cumes das pirâmides do Sol e da Lua.
Aluysio e Ícaro navegando pelo rio Tigre, na cidade homônima de Tigre, nos arredores de Buenos Aires, na Argentina de junho de 2019
Em junho de 2019, quando meu filho já tinha 19 anos, cumprimos um roteiro de 17 dias entre Argentina e Chile. Desembarcamos em Buenos Aires, fomos para Bariloche e de lá atravessamos os Lagos Andinos até Santiago, onde passamos meu aniversário. Como presente, foi a primeira viagem internacional em que ele também foi meu companheiro de copo.
Subimos um dia ao Vale Nevado, onde Ícaro pôde ver neve pela primeira e única vez. E me sacanear muito pela minha incompatibilidade natural com o piso escorregadio de gelo. Na capital chilena, diante do Palácio de La Moneda, pudemos também testemunhar os protestos que sacudiram o país naquele ano.
Despedida em três continentes — A última viagem internacional, mais longa que fizemos, durou 45 dias entre janeiro e fevereiro deste ano. Nos quais conhecemos cinco países em três continentes. Foi também, vejo hoje, a nossa despedida. E a primeira em que ele, com um inglês já muito melhor do que o meu e mais afeito aos mapeamentos virtuais pelo celular, tomou de mim a função de guia.
Ícaro, no Museu Van Gogh, diante de um dos autorretratos de Van Gogh, na Amsterdã de 3 de janeiro de 2023 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ícaro e Aluysio Abreu Barbosa nas grandes Pirâmides de Gizé, no Egito de 7 de janeiro de 2023 (Foto: Mohammad)
Na Holanda, navegamos pelos canais e as telas de Van Gogh em Amsterdã, dedicando um dia a bater pernas na capital de Haia. No Egito, conhecemos muito mais pirâmides do que as três mais famosas de Gizé, com Ícaro se aventurando sozinho dentro delas. Fomos também ao sítio pouco visitado de Tel el-Amarna, onde foi criado historicamente o conceito do Deus único.
Conhecemos a imponente Cidadela de Saladino, no Cairo. Atravessamos juntos o Egito da cidade de Alexandria ao norte, à Assuã, ao sul. Navegamos por todos os museus e o rio Nilo. Atravessamos da África à Ásia para seguirmos as pegadas de Moisés no Êxodo e vermos juntos o sol nascer no cume do Monte Sinai.
Aluysio e Ícaro na Mesquita de Muhammad Ali, dentro da Cidadela de Saladino, no Cairo de 23 de janeiro de 2023 (Foto: Ícaro Barbosa)
Em Israel, descemos na sua capital “ocidental” de Telavive. De onde fomos de carro a Eremos Grotto, dividindo só nós dois a gruta em que Jesus orava e meditava sozinho diante do Mar da Galileia. E seguimos ao Monte das Beatitudes, onde ele proferiu o Sermão da Montanha, base do cristianismo.
Ícaro e Aluysio na Eremos Grotto, gruta diante do Mar da Galileia, onde Jesus orava e meditava sozinho, em Emek ha-Jarden, Israeal (Foto: Ícaro Barbosa)
Depois fomos à cidade “oriental” de Jerusalém, percorremos toda a Via Dolorosa do Cristo. Na Basílica do Santo Sepulcro, oramos no Gólgota onde ele foi crucificado e entramos onde teria ressuscitado. No alto do Monte das Oliveiras, descemos às tumbas dos profetas Ageu, Zacarias e Malaquias, do Velho Testamento. E descemos até à base do Monte, onde Jesus chorou ao pedir que o Pai afastasse dele o cálice do suplício e da morte.
Ícaro e Aluysio, iluminados apenas pelas velas levadas nas mãos, no interior da Tumba dos Profetas Ageu, Zacarias e Malaquias, do Velho Testamento, no alto do Monte das Oliveiras, em Jerusalém (Foto: Ícaro Barbosa)
Ainda em Jerusalém, percorremos o Muro das Lamentações. E vivemos, no mesmo dia, as experiências angustiante do Museu do Holocausto e historicamente exultante do Museu de Israel. Fomos depois visitar a Palestina, até Jericó, cidade mais antiga do mundo, continuamente habitada há 10 mil anos, que vimos cercada pelo exército israelense.
Ícaro e Aluysio diante das muralhas de Jericó, cidade mais antiga do mundo, habitada continuamente há 10 mil anos, no sítio arquológico de Tell es-Sultan, na Palestina (Foto: Ícaro Barbosa)
Depois de subirmos ao Monte Gerizim, na Cisjordânia, em que os samaritanos adoram Deus segundo tradição própria, voltamos a Telavive. De onde embarcamos para Paris, para encontramos minha mãe, quase local na capital da França. Vimos os três a Catedral de Notre-Dame em reconstrução, visitamos o túmulo de Napoleão, no Les Invalides, e os Museus de Orsay e de Rodin. E, apenas Ícaro e eu, passamos um dia inteiro no Museu do Louvre.
Ícaro e Aluysio na disputa de espaço para ver a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, no Museu do Louvre, na Paris de 12 de fevereiro de 2023 (Foto: Ícaro Barbosa)
Novamente com dona Diva, saímos de Paris para visitar o Palácio de Versalhes e sua suntuosidade, ao qual Ícaro e eu fomos igualmente refratários. E seguimos até à bela comuna de Amboise, no Vale do Loire. Onde, após termos conhecido várias de suas obras, ficamos felizes ao constatar o fim de vida digno que Leonardo da Vinci teve.
Ícaro, Diva e Aluysio no atleier de Leonardo da Vinci no solar Clos Lucé, na Amboise de 10 de fevereiro de 2023 (Foto: Ícaro Barbosa)
Como ocorreu em Santiago em 2019, tivemos a chance histórica de ver neste ano de 2023, em Telavive e depois em Paris, o começo dos protestos que depois tomariam os dois países a partir das suas capitais.
Definição — Nessa grande última viagem, a melhor definição do homem que Ícaro se tornou veio do egípcio Mohammad, conhecedor profundo da cultura milenar do seu país, como dos hóspedes de todo mundo que hospedava e cujas culturas se empenhava em conhecer.
Dono de uma pousada em Saqqara, nos arredores do Cairo, após dividir algumas noites frias em seu pátio, entre a fogueira de lenha e goles de café, Mohammad formou juízo. Que dividiu apenas comigo, em inglês, apertando minha mão e olhando dentro dos meus olhos, quando nos despedimos: “You are a father blessed by God. Your son is a golden boy and a special man” (“Você é um pai abençoado por Deus. Seu filho é um menino de ouro e um homem especial”).
Amor após a morte — Troquei as primeiras fraldas de Ícaro. Como vesti seu corpo adulto e já sem vida pela última vez. Em seus 23 anos, ele foi e é muito melhor do que jamais serei. Honesto a ponto de nunca pedir dinheiro aos próprios pais, ético, inteligente, culto, alegre, atencioso, educado, generoso, amigo e humilde, sem abrir mão das suas convicções.
Como todo homem que chega muito perto do sol, para refletir mais que outros a luz, meu filho único brilhou e se foi cedo demais. Levou consigo o melhor de mim. Não compreendo a sua partida. Mas descobri que podemos amar completamente, sem entender completamente.
Fisga da entranha descobrir o que resta desse saber não poder vê-lo de novo, com seu riso fácil e sacana. Dormir, sonhar com ele vivo e acordar para lembrá-lo morto é ter pavor do acordar. Antes dele, buscava no céu noturno estrelas cadentes e variava pedidos. Depois que meu filho nasceu, só pedi uma coisa.
Meu voo mais alto, meu maior orgulho, é ser pai de Ícaro. O amei do momento em que abriu os olhos ao que eles se fecharam. Amo agora. Amarei sempre. Como a nada mais.
Entre o smathphone e o laptop, na mesa que herdou do avô Aluysio Cardoso Barbosa, Ícaro na redação da Folha da Manhã (Foto: Rodrigo Silveira)