Ocinei Trindade — Eu também quero ser prefeito, rei, presidente e rico

Ocinei 13-09-16

 

 

Dizem que foi golpe, sim. Quando a monarquia acabou no Brasil, em 1889, com um golpe republicano do Marechal Deodoro da Fonseca e seus pares, não sei se alguém foi para as ruas do país dizer com faixas: “Fora, Pedro II”.  A História do Brasil-República é uma sucessão de golpes e traições, mandatos inconclusos, mortes suspeitas de presidentes, desde o primeiro presidente que renunciou, passando por Julio Prestes, Vargas, Juscelino, Jango, Tancredo, Collor, Lula que se deram mal de algum modo… Pensei que Dilma morreria envenenada no seu primeiro ano de mandato pelo vice do PMDB, maior partido fisiologista do país. Levou seis anos para o veneno fazer efeito, e ainda contou com ajuda do próprio PT para retirá-la de cena (há quem discorde, lógico). Saiu viva, mas envenenada para sempre. Highlander e Lula só pode existir um. Garotinho idem.

Um dia, quiseram que eu me candidatasse à Prefeitura de Campos. Dei uma gargalhada. Depois sugeriram que concorresse a vereador. Ri menos. Depois, tentei me filiar a um partido novo, com propostas inovadoras, participativas, coletivas, ambientais e democráticas. Não fui aceito nem como membro. Confesso que até cogitei imaginar como seria meu mandato de prefeito. Eu seria, talvez como Prestes, levaria, mas não assumiria. Ou, como Jânio, renunciaria pouco tempo depois, já que com as forças ocultas do poder não se pode brincar. Todavia, eles foram presidentes e eu seria prefeito virtual. Só que todo governante local se espelha em um líder nacional. A gente anda bem mal de referência. Quero acreditar na renovação política do Brasil, mas tá osso, viu. Ser vereador é uma missão linda e árdua, pena que não elegemos os melhores. Fui impichado antes da Dilma, sem direito a nada, muito menos a sonho de padaria no tal partido.

As promessas de campanha estão mais abundantes com as redes sociais digitais acessadas. A televisão e o rádio já não são a única opção para caciques e nanicos da política serem vistos e ouvidos. Toda vez que vejo alguém querendo se reeleger ou fazer um sucessor de governo, me pergunto se é tão difícil ser governante ou parlamentar quando se aplica bem o dinheiro público, cuida das escolas, hospitais, segurança pública, valoriza o funcionalismo e alivia a carga tributária. Não entendo o por quê dessas coisas não funcionarem como deveriam. Para onde vai tanto dinheiro? A indústria da propina ou do tráfico de influência chegarão ao fim algum dia? Até onde permitimos?

Todos os dias sou abordado de alguma forma para saber em quem vou votar para prefeito de Campos. Já disse que queria a Angela Merkel, mas não tem como. Sendo assim, já eliminei quase todos de cara devido ao histórico e às ligações perigosas que discordo veementemente. Constato que o nosso legislativo, judiciário e setores privados ajudam a manter um bando de gente ruim disputando eleição. Outro dia, li numa rede social de uma amiga virtual petista e esquerdista convicta sobre o cenário político local e nacional: “É muito filho da puta pra pouca puta que pariu”. Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, disse que “só as mães são felizes”. Não sei se mãe de político pensa o mesmo. Achei a frase-protesto postada genial e humorada (Não sejamos pudicos e moralistas com o termo “puta”. Em Portugal, ser puto não é demérito na infância. Sou puto à portuguesa, garanto). Só que a frase da co-autora resume um certo senso ou consenso popular.

Estão querendo me convencer a votar em um candidato de oposição a Rosinha. Ainda não decidi, pois sou contra o voto de protesto, acho o voto em branco um posicionamento claro de eleitor, além de ser contra a obrigatoriedade do voto. Entretanto, acho que o poder e os governos precisam alternar, sim, e Campos costuma ter prefeitos biônicos e sem autonomia. Poder vicia, corrompe e encegueira, além de iludir. Outro dia, perguntei a um ex-deputado estadual se ele não cansa de jogar xadrez na política todos os dias do ano e vinte e quatro horas por dia. Ele disse que é assim mesmo, quem não joga, não sobrevive. Em entrevista recente a Mario Sérgio Conti, no programa Diálogos,  o ex-ministro de Lula e Dilma, o filósofo Mangabeira Unger, disse que o Brasil tem jeito se houver um projeto coletivo, que os partidos se perderam (PT e PSDB), que o PMDB de Temer nada vai mudar e que o moralismo não combate corrupção. Acho Mangabeira genial, mas deu aquele frio na espinha e perguntei a mim: a saída do Brasil voltou a ser o aeroporto?  Brasil, ame-o o deixe-o? Será que no Brasil a luta de classes como apontou Karl Marx consagrou a luta de elites?

Certa vez, depois de entrevistar o então deputado federal Arnado Vianna, perguntei se ele conhecia o filme A grande ilusão, de Steven Zaillian, estrelado por Sean Penn, história inspirada no livro aclamado AlltheKing´smen (Todos os homens do rei), de Robert Penn Warren. A pergunta foi uma curiosidade em off, pois à época, Campos vivia uma batalha cinematográfica entre o grupo de Arnaldo e de Garotinho para saber quem ocuparia o trono, quer dizer, a cadeira de prefeito. Ele disse que desconhecia. Eu, que nem aceito fui para me filiar a um partido político, disse então que todo político e eleitor precisavam assistir a este filme americano ou ler o livro para refletir um pouco mais sobre demagogia e o discurso demagógico. Acho que ele não gostou do meu comentário, mas os questionamentos que faço não são para afrontar autoridade ou magoar ninguém, e sim, para colocar em prática a inteligência que cada um de nós possui, inclusive para dominar o xadrez da sobrevivência nesta cidade linda e triste. Se penso, logo existo, creio ainda que, se voto, logo resisto. Ou não.

No último domingo, no Mercado Municipal de Campos, peguntei quantos candidatos a prefeito foram lá pedir votos. Me disseram que apenas um. Tive curiosidade de saber em quem votariam os feirantes. Uma vendedora do camelódromo disse que não sabia em quem votaria, e que nem conhecia todos os candidatos. Mas como ela era uma “cidadona”, era obrigada a votar, e só sabia que votaria em um colega camelô candidato a vereador porque era próximo dela e que a ajudará se eleito for. Eu e minha amiga constatamos: por ela ser uma “cidadona”, isto a obrigava votar. Talvez, se fosse uma cidadã, poderia ser diferente. Estamos cheios de “cidadões e cidadonas” neste município e neste país. Faltam-nos educação, saúde, segurança, transporte, dignidade e justiça (lema de campanha de todos os candidatos a qualquer cargo público e que não cumprem) para exercermos, de fato e direito, a nossa cidadania plena. Por falar em Mercado Municipal, uma obra inacabada ali prevê o estrangulamento maior do prédio histórico. Campos tem tradição em demolir ou desvalorizar seu patrimônio arquitetônico (parece que ninguém aprendeu a lição do antigo Trianon), o que é uma lástima. Vou decidir meu voto após os debates públicos entre os candidatos na Uenf e na televisão. Queria saber o que vão fazer com essas obras sem conclusão.

Realizei um sonho de consumo esta semana. Paguei caro por um CD importado da trilha sonora do filme O agente da Uncle, dirigido por Guy Ritchieem 2015. Quando assisti ao filme, fiquei impactado e perturbado com as composições do inglês Daniel Pemberton. Levei um ano para concretizar a compra, pois no Brasil não se vende a soundtrack. O filme é de suspense e espionagem durante a Guerra Fria, anos 1960, e tem até Tom Zé na lista (o álbum é uma obra-prima, luxuoso). Neste momento de tensão que o Brasil atravessa, além do futuro de Campos cheio de riscos e incertezas, dirijo pelas ruas da cidade como se estivesse dentro da ação do filme, com volume nas alturas, e com a dúvida se posso ser um rei déspota, um grande farsante ou agente com chances de eliminação a qualquer momento nesta sociedade perigosa que estamos convivendo. Piada ou loucura? Melhor se fossem. Se bem que, assistir à propaganda política na televisão às vezes é mais engraçado que Zorra e A Praça é Nossa. 

No poema “Povo-nulo”, de Gabriel O Pensador,  em seu livro  Diário Noturno, o último verso diz: Todo mundo se ilude, mas não toma uma atitude, todo mundo ainda sonha, mas ninguém toma vergonha”Ter alguma história para contar e amigos por perto podem me fazer um homem rico e de palavra.  Eu me aproprio das palavras para dar sentido às coisas que não fazem sentido e vice-versa. Que sentido há hoje em Campos, no Rio de Janeiro e no Brasil? É como Clarice Lispector em A paixão segundo GH por meio de sua personagem afirma: “Meus primeiros contatos com as verdades sempre me difamaram”Vou dirigir o carro até onde der com minha estimada trilha de cinema em alto e bom som. Só não posso atropelar candidato, nem eleitor.

 

ps: a foto é ilustrativa, eu não dirijo sem cinto de segurança.

 

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Ponto Final — Paraná confirma Pro4 no empate técnico de Chicão e Rafael

Ponto final

 

 

Perguntas

Por que a Rede Record só divulgou ontem (12) a pesquisa que encomendou (aqui) ao instituto Paraná, sobre a sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR)? Feita entre os últimos dias 4 e 8, a consulta  teve sua metodologia registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) desde o dia 3. Poderia, portanto, ter sido divulgada desde o dia 9, na última sexta-feira.

 

E a rejeição?

A curiosidade se aguça diante de outra pergunta: por que a Record divulgou o resultado das intenções de voto dos seis candidatos a prefeito de Campos, mas não a rejeição de cada um deles? Como a ordem nas intenções de voto foi idêntica à da pesquisa do instituto Pro4 — encomendada pela Folha, feita entre os dias 2 e 3 deste mês, e divulgada  (aqui) desde o dia 6  —, nada impede supor que a rejeição na pesquisa Paraná tenha seguido a mesma ordem.

 

Maior rejeição

Na comparação entres os números dos institutos Pro4 e Paraná, respectivamente, nas intenções de voto da consulta estimulada, a ordem ficou: Dr. Chicão (29,8% e 31,9%), Rafael Diniz (24,2% e 25,9%), Caio Vianna (11,6% e 15,7%), Geraldo Pudim (4,5% e 4,6%), Nildo Cardoso (2,6% e 2,9%) e Rogério Matoso (2,1% e 2,4%). Se a ordem é rigorosamente a mesma e os números, tão parecidos nas intenções de voto; como teria sido na rejeição, que mede os candidatos entre aqueles no qual o eleitor jamais votaria?

 

Menor rejeição

No índice tão temido, sobretudo no caso do segundo turno que os dois institutos indicam à disputa pela Prefeitura de Campos, só os resultados do Pro 4, pela Folha, foram dados ao conhecimento do público. Neles, Chicão também liderou, com 22,6%, seguido de Pudim (20,8%), Caio (10,8%), Nildo (6,6%), Rogério (5,5%) e Rafael, dono da menor rejeição, com 2,4%.

 

Empates técnicos

Apesar da rejeição aferida pelo Pro4, de acordo com os números da pesquisa Paraná, Chicão venceria o segundo turno nas simulações contra Pudim (51,8% x 22,2%), Caio (45% x 35,3%) e Rafael (45,1% x 40%). Todavia, dentro da margem de erro de quatro pontos percentuais para mais ou menos, pelo instituto contratado pela Record, Chicão e Rafael empataram tecnicamente tanto nas intenções de voto do primeiro turno (31,9% x 25,9%), quanto num segundo turno hipotético — ao que tudo indica, cada vez mais provável.

 

Por que será?

Se os números do Pro4 foram integralmente divulgados pela Folha e os do Paraná tiveram divulgação parcial pela Record, resta ainda outra pergunta: onde estão os resultados do Precisão? Conhecido em Campos por sua ligação com o garotismo, o instituto também fez sua pesquisa, entre os dias 1 e 5 deste mês, muito embora só a tenha registrado dia 6, no TSE. E, com todo esse cuidado de conhecer os números antes de registrar a metodologia para aferi-los, ninguém fora do governo Rosinha ainda os viu, ou ficou sabendo deles. Por que será?

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Memórias

 

Música Tocando em Frente de Almir Sater – Maria Bethânia

 

 

 

 

Bottrel 10-09-16

 

 

Não há nada mais bonito que o amor, me disse uma vez certo senhor. Que a vida vale a pena quando se tem alguém para amar não é algo a duvidar, amor preso, sem vazão, explode dentro do peito, é mais triste que doença do coração.Mas quem não guarda um pouco de amor para si se perde caminhando entre as vidas vazias de poesia num mundo em que o amor é iguaria a ser comida com cuidado. Às vezes me sinto assim, vazio de poesia, quando me dobro às exigências frias da vil existência coletiva e me esvai o tempo para ler, ver e ser.

Mas uma palavra escrita com a alma sai do corpo como sai a semente da terra, cresce nos sorrisos que criou, desce nas lágrimas que deixou. Assim escrevi para encontrar o amor, com as raízes no coração e as flores na menteme preparei para ver nascer as primeiras palavras do projeto Memórias balançadas em berços feitos de sorrisos. Logo cresceram para contestar o tempo com suas sílabas de vida tônica a se reconciliar mais tarde no corpo de um poeta convidadoao encontro do tempo com a vida, para transformar em poesia a história de quem já é conhecido antigo do tempo e da vida.

Memórias tomou forma e se levantou nos braços de um grupo de escritores campistas dispostos a transformar a vida de idosos asilados em poesia. O primeiro encontro aconteceu no último sábado, dia 03 de setembro no Asilo do Carmo, primeira instituição a ser contemplada pelo projeto. Tão emocionante como a ideia já supõe ser, a alma se encheu e transbordou em sorrisos ao ver a comunhão entre idosos e poetas, lado a lado, atentos a cada palavra que vinha ao mundo muitas vezes sem nenhum ouvido para entrar e nenhum coração para abrigar.

O projeto ainda está no início, haverá outro encontro coletivo, portanto se você quiser viver essa experiência ainda está em tempo e estamos todos de braços abertos para recebê-lo, é só enviar um e-mail para fabiobottrel@gmail.com com os dados para contato e Memórias no assunto, que registrarei a inscrição e informarei os grupos em redes sociais nos quais mantemos contato não só por e-mail. Os textos escritos serão organizados em uma coletânea a ser lançada num evento em homenagem aos idosos com exposições fotográficas e festividades. O lucro de todas as atividades do projeto será revertido para os idosos. Em breve teremos nosso próximo encontro e gostaríamos de contar com você!

 

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Guilherme Carvalhal — O míssel

Carvalhal 08-09-16

 

 

Um dia, na pequena, pobre e desconhecida nação de Rondanovi, o presidente realizou um comunicado oficial transmitido por todas as estações de TV:

— Iremos construir o primeiro míssil de nosso país.

O povo embasbacou. Acharam que afrouxou um parafuso do presidente, que de tanto lidar com líderes políticos de nações em guerra se deixou contaminar pelo espírito belicista. Nos programas de debate político, os comentaristas tentavam compreender quais as intenções dessa proposta, sem chegarem a nenhuma resposta lógica, tendo em vista que Rondanovi jamais entrou em uma guerra e nem havia qualquer probabilidade ou pretensão para o mesmo.

Diante da repercussão, a assessoria de comunicação da presidência iniciou um forte trabalho de divulgação para explicar em detalhes o que se passa por trás da proposta. Utilizaram de todos os meios para a população compreender por completo e sem desvios as reais intenções do mandatário.

O plano do governo visava inserir a república na modernidade das técnicas de combate. Em plena época dos drones e de veículos de combate não-tripulados, o país ainda utilizava velhos fuzis da Segunda Guerra Mundial. Esse passo à frente precisava acontecer o mais breve possível e o momento era esse, pois as nações imperialistas facilmente invadiriam o país de olho em sua jazidas de potássio e no plantio de flores artesanais, principal produto de exportação.

Meio a contragosto, os eleitores engoliram a ideia. Não parecia nada de urgente, mas poderia ser útil. Poderia não ter utilidade, mas não havia pressa para acabar. E assim tocaram adiante.

Com o início do projeto, aumentou a demanda no consumo de aço. Os engenheiros testavam muitas possibilidades, então a mineração de ferro e a siderurgia cresceram. Também surgiu demanda por combustível para o motor. E daí se seguiram vagas na indústria de peças, pintura, na estrutura de disparo, etc.

Em poucos meses o desemprego do país despencou a níveis espantosos. Os estatísticos analisaram e concluíram que foi o melhor desempenho financeiro de sua história. A cadeia bélica estimulou de arrasto a agricultura, a construção civil, o comércio e o setor de serviços. Rondanovi finalmente ganharia respeito.

A empolgação contagiou os cidadãos. A felicidade cresceu, as festas aumentaram, os compositores criavam melodias enaltecendo o ponto de excelência ao qual a nação atingia. As crianças agora se orgulhavam de usar os uniformes escolares nos tons da flâmula e pela primeira vez a fala do presidente na Assembleia Geral da ONU foi levada em consideração pela comunidade internacional:

— Ainda exportaremos mísseis — mencionou um dos chefes da equipe de desenvolvimento em um talk show. Seu otimismo o levou a considerar futuramente a instalação de um amplo complexo industrial militar, com a produção de armas, veículos, aeronaves e até sonhava com o ápice: a bomba atômica.

Meses depois, quando o presidente anunciou a conclusão do projeto e que Rondanovi agora dispunha de seu próprio míssil com tecnologia nacional, o povo enlouqueceu. Pelas muitas cidades o festejo tomou conta das ruas e nunca se registrou tantas execuções do hino nacional.

No dia oficial do lançamento, a população compareceu em peso à base aérea. Empunhavam a bandeira do país em total êxtase com a novidade. A banda marcial executava muitas músicas e no palanque o locutor discursava em tom ufanista.

Quando principiaram a contagem, o público acompanhou uníssono. 10, 9, 8, a emoção aumentava, corações palpitavam, 7, 6, 5, o presidente roía as unhas querendo que tudo desse certo. 4, 3, 2, os mais frágeis até desmaiaram antes da hora.

1. O míssil subiu e muitos flashes de câmeras de celulares brilhavam registrando o instante. O míssil atingiu uns vinte metros de altura quando se notou que perdia força. A explosão diminuía bem antes de chegar ao apogeu e ele perdia altura paulatinamente. Junto a esse efeito, a fuselagem começou a desmontar, soltando placas de metal e disparando rebites feito tiros. Aquela estrutura nas cores da bandeira e com o brasão de armas do país se desmontava, deixando a ossatura externa exposta. Essa sucata caiu até o auge do vexame: a ogiva espatifou no chão e não explodiu.

O povo chorou ao testemunhar o sonho não concretizado. As esperanças se desmontaram e se transformaram em rebotalho chovendo sobre a ampla planície. Cabisbaixos, deram as costas abandonando a cerimônia marcial e o presidente, esse aos prantos perante a vergonha pública. Resignados, retornaram para casa aguardando o dia em que novas promessas do presidente resgatassem sua capacidade de serem felizes.

 

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Carol Poesia — Cremosa

(Arte de Amanda Erthal)
(Arte de Amanda Erthal)

 

 

Acordou de madrugada com dor na consciência.

Arrependida por ter se permitido mais uma vez.

Olhou-se no espelho: nua, lambuzada, exausta e sozinha.

Traída pelo próprio desejo.

Por que diabos a vontade era mais forte do que o objetivo de resistir?

Não sabia. Era sempre a mesma ladainha: bastava vê-lo para sentir a nuca arrepiada e uma gota de suor descendo pela lombar.

Depois ficava chateada, deprimida, sentindo-se puta, vendida.

Ele – frio. Mas para ela, quanto mais gelado mais excitante. A tentação era constante.

Não resistiu.

Foi até a cozinha, abriu a geladeira e devorou, com tesão de gorda, a mousse de limão, o pavê de amendoim e dois terços da torta de chocolate.

Foda-se a dieta, não era de fazer cu doce.

 

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Fabio Bottrel — E agora, quem poderá nos salvar desse buraco?

Sugestão para escutar enquanto lê: Oscar Lorenzo Fernández – Reisado do Pastoreio

 

 

 

 

(Tela do pintor Frade)
(Tela do pintor Frade)

 

 

O sol brilhava nas testas umedecidas de suor misturado com terra expelida pelos dedos que esfregavam as gotas descendo feito cortantes folhas. O verde da capineira refletia a vida seca, balançando com o vento cada grão do relento que Gerônimo sentia dentro de si enquanto observava tão pouco precisava aquele pé de braquiária. Observava a vida se colorir em preto e branco dentro de si, algo dizia que não deveria estar ali, no buraco que alguém cavou por ele, sem que ele percebesse. Enquanto se apoiava com as duas mãos sobre o topo da enxada olhava Sô Zé trabalhar feito um cão, que homem durão, as rugas na sua pele predizem uma idade que nunca chegara de verdade. O chapéu de palha umedecida de suor de Sô Zé balançava a cada enxadada forte no solo duro arrancando com tudo, raiz, mato e pé, coisa de Sô Zé, fazia da vida sarapaté.

— Ô Gerômo, que que sô tá parado aí olhando pro tempo?

Enquanto Gerônimo sentia uma gota de suor derramar pelas pálpebras e lhe arder os olhos com o sal amargo da pele sofrida continuava a olhar o horizonte de pasto grande e a enxada incansável de Sô Zé cavando buracos sobre o próprio pé.

— Lembrei de papai e tive saudade, Sô Zé.

— Mas, assim, do nada, homi? Comigo a idade já levô tudo que tinha abrigo aqui dentro.

— Pois é… cada vez que esse suor arde meus olhos eu lembro de papai, sabe Sô Zé, papai queria que eu fosse dotô… me dava até os mesmos livros que via os filhos do sinhô que pagava as enxadadas dele. Quando eu ia ver meu véio capinando no meio do pasto ele falava brabo a beçapra eu correr pra dentro do nosso barraco ler os livros que os filhos do sinhôtavam lendo, me fazia ver as gotas de suor na sua testa já toda marcada e dizia que transformaria cada uma nas tintas do meu diploma de dotô, nas palavras que ele nem mesmo sabia ler.

— Mas cumé que a gente viradotô nesse mundo, tem jeito não… tem é que dá gaças a deus de tê terra pá capiná, e continua logo aí senão o sinhô vem e recrama com nóis que o tratô faz mió.

— Então Sô Zé, esses dias eu tenho pensado que acho que num é pra nós dá graças a deus de capiná não…Ocê nunca parou pra pensá não, por que que a gente se estrupia todo igual nossos pais e nossos filhos continuam se estrupiando igual a gente enquanto os filhos do nosso patrão tão lá na frente?

— Mas que pensamentos esquisitos são esses homi?

— Ah, me dei pra pensar nessas coisas do mundo enquanto escutava na televisão lá do meu barraco uma moça perguntá quem pode nos salvá desse buraco.

— Que buraco?

— O da cidade.

— Mai sô, a cidade tá cheia de buracos, é só eu andar nela que quase caio neles.

—Mas Sô Zé acho que buraco que ela quis dizer é de tê arruinado nossa cidade, cê acredita nisso Sô Zé?

—Ô Gerômo, depois que eu descobri que a Disney fica perto da 28 de Malço eu cridito em qualquer coisa! Até que o Papai Noel mora na Lapa.

— Eu num entendo muito disso, não… mas do buraco eu fiquei curioso e fui perguntápr’aquele rapaz inteligente do sítio ali do vizinho e ele botô umas minhoca na minha cabeça…

— Aquele mininocabiçudo que fica chamando nosso patrão de mau-caráter?

—É…ele começou falando que o buraco que a gente tá levou 20 bilhões de reais…

— Mai eu saio agora pá caçá esse buraco!

—Prest’enção no que eu tô explicando, Sô Zé.

—To prestando, mainum sei quanto é 20 bilhão de real.

— É tanto dinheiro que daria para cobrir toda essa terra até onde a nossa vista não tem fim.

— Tanto assim? – Perguntou Sô Zé coçando a cabeça fazendo força para tentar imaginar tanto dinheiro.

Gerônimo passa a mão calejada na calça esfarrapada e tira de dentro do bolso direito uma nota de 10 reais amassada e coloca no chão.

—Tá vendo essa nota de 10 reais?

—Tô…

—10 reais dez vezes dá 100 reais – Gerônimo mediu a nota com os pés e deu algumas passadas para demonstrar até onde iria 100 reais.

100 reais dez vezes dá mil reais – Gerônimo deu passadas maiores.

1.000 reais dez vezes dá 10 mil reais – Enquanto Sô Zé o acompanhava ele demonstrava com o dedo aonde ia o dinheiro até 20 bilhões de reais e em pouco tempo perceberam que não daria para imaginar aonde iria aquele montante.

— Foi assim que o rapaz me explicou o que a nossa cidade recebeu, que é dinheiro d’a gente… Sô Zé, ocê acha que era para nós tá aqui nesse sol encardido capinando feito um curisco com esse dinheiro todo?

Sô Zé tirou o chapéu molhado de trabalho duro e olhou para o horizonte afora a vista de onde o dinheiro iria.

— É muto dinheiro né Gerômo?

— Pois é…

— Mai tem passagem a 1 real…

— Pois é, Sô Zé, mas se esse dinheiro fosse investido em educação nós podia ter oportunidade de intévirar dotô igual papai queria e numprecisá de passagem de 1 real.

— É…

— E ocê acha que eles querem que a gente pare de dependê dessa passagem de 1 real?

Sô Zé colocou a mão na testa como um boné e olhou o horizonte vista afora que não daria para enxergar aonde o dinheiro iria.

— Acho que não né Gerômo?

— Pois é Sô Zé, por isso que eu acho que tem um troço errado d’a gente tá aqui se estrupiando…

— Imagine só se nóis virasse dotô, quem ia capinápo patrão? – Perguntou Sô Zé com o chapéu no peito e um sorriso no canto da boca de imaginar a cena dizendo ao senhor que não precisa mais dessa pena, pois agora tinha um lugar para ele onde senta essa gente em poltrona de penas.

—Tá vendo, Sô Zé, é isso que eu comecei a pensá, quem diz que esse mundão é bão e feito de gente trabaiadora é que num tá na nossa pele…

— MaiGerômo dinheiro pá mai de metro assim num some, deve de ter sido invistido em algum lugá…

— Onde?

Sô Zé coçou a cabeça com força.

— Na saúde?

— Minha muié precisou ir para o hospital e foi atendida com as costas no ferro fri pra daná, que num tinha nem colchonete… colchonete, Sô Zé, até nós tem em casa! Mesmo minha muiétando muito mal num deram uma amostra grátis do remédio, tivemos que juntar nosso dinheirinho dias a fio com ela ruim, pra comprá o tal do remédio…

Enquanto os dois conversavam passava um carro todo adesivado de foto sorridente levantando poeira correndo feito um avião, eis que o cão sem dono avista os dois perto da cerca conversando, para o carro e se aproxima.

— Ô meus amigos! – Disse o homem com um adesivo numerado na camisa e uma foto dele próprio sorrindo igual tiririca enquanto lá do outro lado da cerca os dois se olhavam e não entendiam nada.

—Cê conhece esse homiGerômo?

— Conheço não, Sô Zé…

— Mai que esse homitá com essa alegria rabial toda, saltitando a cerca agarrando até os fiofó no arame farpado pá falá com nóis, sô?

— Ah, Sô Zé, tô te falando que essa época faz todo mundo ficar assim. Ah lá, parece até que o homisentô num prego.

Com a respiração ofegante o homem se desvencilhava das braquiárias até chegar aos dois que observavam a sua trajetória hercúlea em zigue-zague. Quando se aproximou dos dois, apoiou no ombro de Gerônimo enquanto seu corpo curvava com as mãos no joelho tentando respirar a ponto de ser possível falar, percebeu ali que estava muito sedentário.

—Cêtá bem, homi? – Perguntou Sô Zé.

— Meus amigos! Vim aqui me apresentar a vocês para dizer que estou aqui pra melhorar a vida de vocês! Lutando junto! Para uma cidade melhor!

— Que isso, homi… lutando junto como se o sinhô num consegue nem dar três passos no pasto? – Perguntou Gerônimo.

— Mas eu estou lá! Representando vocês!

— Lá naquele palácio grego?

— Lá… em frente a pracinha!

— No castelo grego?

—É…!

— Enquanto a gente tá aqui capinando pasto… – Disse Gerônimo para Sô Zé – Eutô dizendo Sô Zé, esse troço tá muito estranho.

— Vim aqui para cuidar de vocês! De tudo que precisarem! – Enquanto falava tirava do bolso panfletos com a sua cara caricata entregando aos dois e logo começou a sussurrar – Se estiverem com dificuldade em pagar alguma conta de casa me avisem, o importante é que toda a família de vocês esteja feliz e saudável. Por falar em saúde… – O homem corre até o carro e abre o porta-malas – Trouxe muitos remédios, amostra-grátis! Para o que precisarem!

— Ah lá, Sô Zé… o homem tá com o carro cheio de remédio pra distribuir enquanto minha muié não conseguiu nenhum… que que esse remédio tá fazendo com esse homi e num tá no hospital? Tão tirando denóis e tentando parecê que é favô Sô Zé, cênumtá vendo não?

— Mai que fí das unhas discarado, hein?! Some daqui estrupíço! – Continuou gritando Sô Zé alto como se espantasse um urubu rodeando a carcaça. Ao perceber a reação negativa o homem prontamente entrou no carro e foi distribuir as amostra-grátis do hospital em troca de votos por outras bandas.

O dia já ia entardecendo e os dois em vez de trabalharem ficaram pensando e Sô Zé preocupado com a reclamação do patrão ao perceber que não produziram muito, logo as enxadas voltaram a arrancar as raízes mais grossas do chão, mas não demorou muito tempo para ele se incomodar de novo e parar de capinar.

—Gerômo, depois dessa conversa num dá pá aceitáficá capinando aqui nesse sol.

— Pois é, Sô Zé, eu to sentindo a mesma coisa, to batendo essa enxada nesse chão duro aqui cuma raiva danada.

— Mai Gerômo, né possívetá tudo assim, é muto dinheiro, e esse negóço de curtura, tem nada pá nóisfazê não?

— Sô Zé, eu fiquei sabendo que o teatro tá fechado há três ano por cadi um ar condicionado. E no carnaval só um rapaz que vei de fora recebeu duas vezes mais que uma escola inteira nossa de 500 pessoas.

— Mai cadiquê isso?!

— Ô Sô Zé esse buraco tá mais fundo que a gente imaginava…

— E quem que vai salvánóis dele?

— Acho que nós mesmo.

Gerônimo e Sô Zé em vez de parar de falar na crise e trabalhar resolveram pensar e fazer a mudança, pois ao pensar descobriram que os únicos que podem salvá-los desse buraco são eles mesmo.

 

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De hoje ao dia 12, pausa no “Opiniões”

pausa

 

 

Por motivos de ordem pessoal, de hoje ao próximo dia 12, este “Opiniões” ficará sem atualizações — à execção do textos dos colaboradores do blog, que serão publicados regularmente nos próximos dias 3 (sábado), 6 (terça), 8 (quinta) e 10 (sábado). Quanto a nós, leitor, se Deus quiser, nos reecontraremos daqui a 11 dias.

 

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Paula Vigneron — Ela

Campos, aurora de 26/08/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Campos, aurora de 26/08/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Os olhos pareciam confundir realidade e ficção. A seu lado, uma idosa dormia profundamente. Estava fraca, Há quantos dias estava ali? As paredes brancas se transformaram em uma câmara densa. Sufocavam. Ou seria o descompasso de sua respiração? Ora, transparecia serenidade. Ora, tensão. Quem passava gostava de analisá-lo. Alto, magro, belo. Em outros tempos, havia conseguido unir inteligência e beleza na medida certa para atrair as pessoas. “Ele é diferente dos demais”, diziam as meninas apaixonadas. Bobas. Não sabiam que, no fundo, todos são iguais.

Será?

Antônio, hoje, observa no espelho o que restou de sua plenitude. Agora, no entanto, não podia se levantar. Restaram somente as lembranças da passagem do tempo. As palavras ditas. As bocas beijadas. Os olhares trocados com outras, tantas, muitas mulheres. Os olhos dela. Ela. A mulher que ainda permanecia em pé a seu lado desde o dia em que dera entrada naquele quarto de hospital.

Onde?

Ao redor, rostos, vozes, gestos e observações desconhecidas. E ela continuava por perto, em algum canto distante. Ele não podia vê-la nem tocá-la. Mas seria capaz de descrever, com riquezas de detalhes, a sua sonoridade. Nos atos, nas palavras e no jeito. “Uma pluma que acaricia nossa alma”, comentava com os amigos. Diziam que era fase. Besteira. Ninguém confiava em sua fidelidade. “É só mais uma, rapaz. Você sabe. Quantas outras fazem parte da sua lista de achadas e perdidas?” E os homens gargalhavam das piadas. Antônio analisava, buscava a graça. Mas eles estavam errados. Todos eles.

E ele?

Esticou a mão para tocá-la. Em foto, em carne, em osso, em alma. Os dedos perderam a sensibilidade. “Por isso, não a sinto”, tentava se convencer. E conseguia. Misturava cenas do passado para desenhar o presente e ter a sorte, quem sabe, de traçar um futuro. Ela corria em sua direção para anunciar uma conquista. Comemoravam. Beijos, abraços, histórias. Por vezes, ficava brava. “Tem um gênio de cão”, desabafou com o irmão mais velho, que ria e se espantava com as mudanças do caçula. “Em outros tempos, não restaria nada além de sua impaciência.” O casal gostava de contar seus casos. As impressões de amigos e familiares rendiam risadas e comentários irritadiços. Pela voz, Antônio sabia, com precisão, o que se passava no interior dela.

E a voz?

Era doce. Direta. Ríspida. Agressiva. Cortante. Era? Chafurdava os compartimentos de sua memória para buscar o tom exato da frase que ela diria. Perdia-a. O avanço dos minutos resultava em completo afastamento. Sua mãe lhe contou isso na infância. “Quando uma pessoa morre, esquecemos aos poucos todos os detalhes. É como uma fotografia que o tempo trata de envelhecer e apagar vagarosamente. Ficam os traços do sorriso, o fundo da imagem e, no final, o nada.”

O nada.

Mas, com ela, não. Não poderia ser assim. Uma recordação qualquer. A tarde no parque. O encontro com os parentes. As idas ao cinema que terminavam em discussões quase filosóficas sobre os filmes vistos, inclusive os mais superficiais. Ela encaixava uma teoria para explicar decisões e opções de diretores e produtores. “Como você não entendeu a referência?”. Ela brigava quando tinha que explicar algum ponto obscuro. Os tons. A voz. As frases surgiam em sua cabeça como as frases de um livro de literatura. Um filme mudo. Era nisso que ela se transformara. Em silêncio. Ao lado, a máquina mostrava, agora, o descompasso de seu coração.

A perda definitiva.

Pessoas, vestidas de brancos, posicionaram-se ao redor dele. Via as luzes provenientes de todos os cantos daquele quarto. “Vocês estão me sufocando”, disse. Mas a voz não saia. E seu tom? Mesclavam-se, aos poucos, o homem e a mulher. Os sons desaparecendo. “Aja com cautela”, lembrou-se do conselho do irmão. Dissera isso em vários momentos de sua vida. “Ajo, Sandro. Mas o que faço agora?” A boca aberta ecoava o vazio. Buscava o timbre exato para cruzar com o dela.

Cautela.

O sorriso. Os dentes levemente amarelados devido aos maus hábitos. E Antônio gostava. Sentia prazer ao ver as imperfeições dela. Estava acostumado à rouquidão que, no início, havia estranhado. “E agora, Sandro?” Mãos diversas, cores diferentes, tocavam o peito dele. As luzes pareciam mais fortes. Sentia-se leve como há tempos não conseguia. Paz. Nirvana. Atrás daquela confusão de dedos e expressões, o sorriso dela. A voz tomou conta do ambiente. Límpida. Clara. Sonora. Sorriu em compreensão. Desejou encostar os lábios nos dela, mas aguardaria. Não demoraria muito mais. Passado e presente em comunhão para traçar, com sorte, o futuro.

 

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“Nós contra eles” contra quem?

O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), sem sua inabilitação política, foi golpe? De quem? Em visões opostas, mas complementares no uso da História, deram suas análises os jornalistas Ricardo André Vasconcelos e Mary Zaidan.

A primeira, após longo silêncio, traz faca entredentes no “nós contra eles”. A segunda é sutil ao revelar contra quem.

Aqui e aqui, confira ambas nas transcrições abaixo:

 

 

Ricardo André Vasconcelos, jornalista
Ricardo André Vasconcelos, jornalista

Cunhas, Aécios e Temers: A lata de lixo da história vos espera

Por Ricardo André Vasconcelos

 

Em primeiro de abril de 1964, a auréola do poder que se prometia eterno ornava as cabeças dos civis e militares que derrubaram o presidente João Goulart. Magalhães Pinto, Carlos Lacerda e a maioria das empresas de mídia se uniram aos militares para interromper, por duas décadas, as reformas de base que o então Brasil entre agrário e industrial exigia.  Atrasaram o país em pelo menos 50 anos. Dez anos antes, haviam tentado o mesmo levando ao suicídio o presidente Getúlio Vargas, a um ano e quatro meses do fim de seu mandato conquistado nas urnas.

O golpe parlamentar, perpetrado hoje em Brasília, não é pois novidade e muito menos original. “Ódio velho não cansa”, ensina o sempre saudoso Adão Pereira Nunes. Mesmo que Vargas, Goulart e Dilma tenham cometidos seus pecados, o que justifica a interrupção de seus mandatos não são esses pecados, e sim a absoluta incapacidade das elites brasileiras de se contentar com muito que lhe dão. Elas querem tudo.

Vargas foi chamado de “pai dos pobres e mãe dos ricos”, Jango talvez tenha sido o que menos tenha agradado aos poderosos;  e Dilma, como Lula, encheu até não mais poder as burras dos banqueiros e congêneres. Então, por que as elites — termo para o qual torcem o nariz os genuínos integrantes e os aspirantes a elas — teriam conspirado contra um governo legítimo para instalar um bando de sanguessugas nos gabinetes do Planalto? Porque justamente mais o tudo não lhes bastam. Querem impedir qualquer possibilidade histórica de ascensão das classes estacionadas abaixo delas.

Financeira e ideologicamente falando, o Brasil entra hoje numa pauta político-econômica mais retrógrada do que tínhamos há 40, 50 anos, sem falar nos direitos sociais ameaçados de sumir pelo ralo e uma agenda conservadora-religiosa de provocar engulhos. As manchetes dos jornais desde o final de semana já adiantavam os programas “modernizantes” que privatizam hospitais, escolas e creches. Querem o que dá lucro e as despesas sociais que vão para iniciativa privada para que cobrem o quanto quiserem e, assim  alijar qualquer possibilidade de ascensão social das camadas mais pobres. Bye-bye classe média.

Quem viver verá o retrocesso. Mas como a história é caprichosa e cíclica, verá também que ela reserva para a sua fétida lata de lixo, personagens como Cunhas, Aécios e Temers que,  por má-fé política ou pura ambição financeira, participaram do ardil que culminou com o impeachment da agora ex-presidente Dilma Rousseff. Mas não estarão sozinhos, porque dividirão a lata de lixo da história com gente como Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Costa e Silva, cuja mão assinou o Ato Institucional nº 5, e toda a sórdida gente que há cinco séculos teima em impedir a emancipação do povo brasileiro.

Bom apetite para vocês e paciência para nós.

 

 

Mary Zaidan, jornalista
Mary Zaidan, jornalista

Foi golpe

Por Mary Zaidan

 

Cassada por 61 dos senadores, sete a mais do que Constituição determina, Dilma Rousseff não preside mais o Brasil. Tudo dentro dos conformes. Ou nem tanto. Por 36 votos foram mantidos os seus direitos políticos, possibilidade aberta por decisão mais do que polêmica do presidente da Suprema Corte, Ricardo Lewandowski. Algo digerível na política, acostumada a negociatas aqui e acolá, mas que causa espanto jurídico. E consequências nefastas.

Depois de ser elogiado nos meios jurídicos e políticos pela condução impecável da sessão do impeachment iniciada na quinta-feira, Lewandowski cedeu a um acordo bem tramado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, e o PT. Turvou o processo que tão bem havia conduzido. E maculou a sua história.

De Lewandowski, e só dele, pode ser cobrada a estapafúrdia permissão de que fosse apreciada uma modificação na Constituição sem quórum qualificado, sem convocação para tal e em votação única.

Em sua defesa, nem mesmo poderá dizer que foi surpreendido pela questão de ordem feita pelo PT durante a sessão. A peça que preparou para autorizar o estupro à Constituição havia sido cuidadosamente elaborada. Tinha páginas e páginas, referências, citações. Uma indecência.

Com isso, pela primeira vez na História, um dispositivo constitucional foi alterado pelo voto de menos da metade dos senadores, abrindo-se precedentes perigosíssimos. Não só para futuras cassações — a bancada pró Eduardo Cunha que o diga —, mas também ao rito de alterações na Carta Magna, que exige aprovação em comissão especial e de dois terços da Câmara e do Senado em duas votações.

Na sessão do dia 31 de agosto, o Senado cassou Dilma Rousseff por crime de responsabilidade. Constitucionalmente. E, irresponsavelmente, afrontou a lei maior do país com o aval e estímulo do presidente da mais alta Corte. Atentou contra a Constituição. Golpeou-a.

 

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