Após nocaute das urnas de Campos, onde está Michael Spinks?

 

Onde está Michael Spinks?

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Tyson vs Spinks 1Era 27 de junho de 1988, poucos meses antes do garotismo chegar ao poder em Campos pela primeira vez. Foi quando um jovem de então, com apenas 28 anos, derrotou nas urnas a velha liderança do ex-prefeito Zezé Barbosa (1930/2011). Já em Atlantic City, alguém ainda mais jovem deveria enfrentar seu grande teste.

“Iron” Mike Tyson já tinha impressionado o mundo, ao ser o campeão de boxe peso pesado mais jovem da história. Tinha apenas 20 anos, quando derrotou o campeão Trevor Berbick (1954/2006) em 22 de novembro de 1986, em Las Vegas. A agressividade do estilo de Tyson fez com que o Berbick tivesse quatro quedas consecutivas no mesmo nocaute final, caindo e tentando se levantar para cair de novo, bêbado pela potência destruidora de uma força da natureza.

Conquistado o cinturão do Conselho Mundial de Boxe, Tyson trabalharia no ano seguinte para unificar o título da categoria mais importante do boxe profissional. Em 7 de março de 1987, contra James “Quebra Ossos” Smith, e em 1º de agosto do mesmo ano, contra Tony Tucker, o jovem campeão se tornou dono também dos cinturões da Associação Mundial de Boxe e da Federação Internacional de Boxe.

Mas, nos dois combates, o “baixinho” Tyson (1,78m) teve sua temida fúria em parte contida pela envergadura maior dos oponentes. Ganhou de Smith (1,93m) e Tucker (1,96m) por pontos, na decisão dos jurados, não com os nocautes brutais pelos quais se notabilizara.

Não por outro motivo, com apenas 21 anos, Tyson começou a ser questionado por parte do público e da mídia especializada. Ambos iniciaram uma campanha para lembrar ao jovem fenômeno que ainda havia outro campeão na categoria, igualmente invicto: Michael “Jinx” Spinks.

Campeão olímpico em Montreal-1976, na verdade Michael Spinks não só nunca havia perdido uma luta em sua carreira profissional, como sequer tinha sofrido uma queda, até seus 31 anos. Pugilista técnico, veio da categoria dos meio pesados. Era considerado o irmão “ajuizado” do errático Leon Spinks, que por sua vez ganhara e perdera o cinturão dos pesos pesados em 1978, em dois combates decididos por pontos, contra o legendário campeão Muhammad Ali (1942/2016), maior lutador de todos os tempos.

Por conta do seu respeitável cartel de 31 lutas, 31 vitórias e 21 nocautes, Michael Spinks se tornou um mantra na boca dos detratores de Mike Tyson. Até entrar no ringue naquela noite de junho de 1988, para defender seu cinturão, Tyson teve que ouvir durante todo o ano anterior a advertência, transformada em campanha para provocá-lo: “Mas tem o Michael Spinks! Mas tem o Michael Spinks!”.

No Trump Plaza Cassino, com a presença do proprietário Donald Trump, hoje candidato republicano a presidente dos EUA, espécie de “Bolsonaro” acima do Equador, o clima era de tensão e expectativa. E, soado o gongo inicial, a luta durou exatamente 91 segundos.

Após aguardar um ano por aquele combate, transmitido ao vivo pela TV para todo o mundo, o desavisado saiu da sala para pegar uma cerveja na geladeira da cozinha. E se surpreendeu quando voltou para constatar, incrédulo, um Spinks humilhantemente atirado fora das cordas do ringue, com as órbitas perdidas dos olhos em direções opostas ao mesmo nada.

Após encerrar a luta com um gancho de direita devastador contra a testa do desafiante, ainda na metade do primeiro assalto, Tyson abriu os dois braços e repetiu ao mundo sua indagação: “Where’s Michael Spinks? Where’s Michael Spinks?” (“Onde está Michael Spinks? Onde está Michael Spinks?”).

Depois do resultado das urnas de Campos no último domingo, com uma vitória avassaladora de Rafael Diniz (PPS) nas sete Zonas Eleitorais do município, ainda no primeiro turno, na qual o jovem neto de Zezé Barbosa derrotou 28 anos depois o envelhecido algoz do seu avô, tem muita gente até agora perguntando a mesma coisa.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

Confira no vídeo abaixo o massacre de Tyson sobre Spinks:

 

 

 

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Fabio Bottrel — Cidades e Pessoas

 

Música: Joan Manuel Serrat- Cantares

 

 

 

 

Bottrel 08-10-16

 

 

Sempre tive adoração pelas mulheres que fizeram da minha vida poesia, como se o meu amor fosse recordações da infância perdida, nunca entendi o prazer do mulherengo ao se completar de vazios. Assim também fui com as cidades que fizeram parte da minha vida, amei todas como se não existissem outras e mesmo que o relacionamento esteja distante, a gratidão é eterna.

Caminhando sobre o mar de pedras brancas da Praça do Liceu iluminada pelo sol que acabara de acordar, fiquei a imaginar a semelhança do destino da cidade quanto ao de uma pessoa enquanto me vinha à cabeça o poema Cantares de Antonio Machado, tudo passa e tudo fica, porém o nosso é passar, descobrimos quem somos ao ver os entes que ficam e os que deixamos pelo caminho.

Campos, ao andar se faz caminho, e ao voltar a vista atrás, se vê a senda que nunca se há de voltar a pisar. Em sua beleza vi essência desse poema e como um cônjuge sofrido como nunca merecestes ser, enfim tomastes a coragem de seguir em frente, e seus filhos esperançosos que volte a sorrir.Como “manancial de nova vida onde jamais bebi, água, vens tu até mim, bem sei que à noite “enquanto tu dormias, sonhei, bendita ilusão! Que era Deus que trazia dentro do coração.”

 

Tudo passa e tudo fica

porém o nosso é passar,

passar fazendo caminhos

caminhos sobre o mar

 

Nunca persegui a glória

nem deixar na memória

dos homens minha canção

eu amo os mundos sutis

leves e gentis,

como bolhas de sabão

 

Gosto de ver-los pintar-se

de sol e grená, voar

abaixo o céu azul, tremer

subitamente e quebrar-se…

 

Nunca persegui a glória

 

Caminhante, são tuas pegadas

o caminho e nada mais;

caminhante, não há caminho,

se faz caminho ao andar

 

Ao andar se faz caminho

e ao voltar a vista atrás

se vê a senda que nunca

se há de voltar a pisar

 

Caminhante não há caminho

senão há marcas no mar…

 

Faz algum tempo neste lugar

onde hoje os bosques se vestem de espinhos

se ouviu a voz de um poeta gritar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar”…

 

Golpe a golpe, verso a verso…

 

Morreu o poeta longe do lar

cobre-lhe o pó de um país vizinho.

Ao afastar-se lhe viram chorar

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”

 

Golpe a golpe, verso a verso…

 

Quando o pintassilgo não pode cantar.

Quando o poeta é um peregrino.

Quando de nada nos serve rezar.

“Caminhante não há caminho,

se faz caminho ao andar…”

 

Golpe a golpe, verso a verso.

 

(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)

 

 

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Do legado de Ulysses que nos governa, a quem vai governar Campos

Ponto final

 

 

Um século

Se fosse vivo, Ulysses Guimarães teria completado ontem 100 anos. Para quem hoje tem menos de 40, talvez seja difícil dimensionar a importância do parlamentar na história recente do Brasil. Foi figura de proa em todos os passos da redemocratização do país, num protagonismo assumido desde sua corajosa anticandidatura a presidente contra o genereal Ernesto Geisel (1907/96), em 1973; passando pela luta pela anistia dos presos e exilados políticos na luta contra a Ditadura Militar (1964/85), em 1979.

 

“Diretas Já”

Junto a vários outros políticos de peso, como os também experientes Tancredo Neves (1910/85) e Franco Montoro (1916/99), além dos mais jovens Mário Covas (1930/2001) Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, Ulysses esteve à frente do movimento “Diretas Já”. Entre 1983 e 1984, a luta pela emenda constitucional gerou as maiores manifestações populares até o Brasil de então, para pedir nas ruas o direito de eleger no voto popular o presidente em 1985. Os militares venceram, mantendo a eleição presidencial no colégio eleitoral do Congresso, mas nela foram derrotados por Tancredo.

 

“Ódio e nojo à Ditadura!”

Com a morte súbita do novo presidente, antes mesmo de assumir, e com o perigo do retorno dos militares inconformados com a perda do poder após 21 anos, Ulysses foi o esteio moral que garantiu a posse do vice de Tancredo, José Sarney, ex-aliado dos generais. Garantida a transição, Ulysses abraçou uma nova missão, certamente sua maior. Presidiu entre 1987 e 88 a Assembléia Nacional Constituinte, na qual foi parida a chamada “Constituição Cidadã”, que nos rege até hoje. E, ao promulgá-la, disse fazê-lo com “ódio e nojo à Ditadura!”.

 

Último combate

Com o fracasso do governo Sarney, incapaz de conter o avanço da hiperinflação herdada dos militares, Ulysses e seu PMDB acabaram sendo os maiores prejudicados quando a eleição direta a presidente finalmente veio, em 1989. Ao concorrer naquilo pelo que mais lutou, o experiente parlamentar não foi além do sétimo lugar na disputa majoritária pelo Palácio do Planalto. Mas, eleito Fernando Collor de Mello, quando a maioria achava que Ulysses cairia no ostracismo, assumiu na Câmara a condição de líder do impeachment do jovem e destemperado presidente.

 

O mito e o legado

Batizado com o nome latino do maior navegador grego, que penou no mar durante 10 anos antes de regressar para sua casa, após lutar na legendária Guerra de Tróia, Ulysses morreria no mar de Angra dos Reis, num acidente de helicóptero em 1992. Seu corpo, num reforço do mito tão ao gosto das civilizações clássicas, nunca foi achado. Mas enquanto vivermos numa democracia, sob a égide das leis da Constituição de 1988, seu legado respira, sua, saliva, aconselha, grita, acolhe e luta. Num tempo tão pobre de lideranças políticas no Brasil, o contraste do que foi Ulysses como homem público deveria constranger a todos nós.

 

Rafael no “Panorama”

Prefeito eleito de Campos, Rafael Diniz (PPS) será entrevistado hoje na Rádio Continental (AM 1270), do Grupo Folha. No programa “Panorama Continental”, apresentado por Cláudio Nogueira, Diniz responderá a perguntas dos ouvintes e traçará um perfil do planejamento para seu governo, que se inicia em 1º de janeiro. Nogueira promete buscar do prefeito a revelação de pelo menos um nome do secretariado que está sendo montado. É ouvir e conferir. Na internet, a Continental pode ser ouvida no site www.radiocontinentalam.com.br

 

Presidência

Divulgado o resultado das urnas, a expectativa agora é por saber quem será o presidente da Câmara de Campos. Despontam Marcão (Rede), aliado de Rafael e mais votado no pleito, e Thiago Virgílio (PTC), do palanque rosáceo. Marcão tem menos vereadores em seu grupo, mas já se movimenta para saber qual é a aceitação entre os pares, até mesmo os eleitos em outros palanques. Virgílio tem um grupo maior, mas é um dos 37 investigados no “escandaloso esquema” denunciado pelo Ministério Público Eleitoral quanto à possível troca do Cheque Cidadão por voto. Se condenado, pode perder o mandato.

 

Com a colaboração dos jornalistas Antunis Clayton e Arnaldo Neto

 

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Guilherme Carvalhal — Preço

Carvalhal 06-10-16

 

 

Após seguir as indicações de um viajante andaluz acerca do reino das amazonas, Ulrico Schimidel rumou ao norte desmembrando-se do grupo de espanhóis que seguia ao Prata. Durante essa jornada que acabou caindo em meio ao reino batizado por ele como Cornucópolis.

Essas paragens de ponto hoje indeterminado, cogitado como a umas tantas léguas a noroeste de Belém, constavam de uma área mais larga que as tradicionais tribos, onde funcionava uma agricultura mais eficaz que a assistida por essas bandas e providenciava maior fartura do que em quaisquer outros aldeamentos de índios.

Pelos muitos campos coletivos abundavam as roças de mandioca, milho e feijão, além de diversas hortaliças. Complementavam sua dieta com uma sempre farta disponibilidade de carne de caça pelos arredores. Além dos víveres alimentícios, abundavam a madeira e a cerâmica, utilizadas para armazenamento de alimentos para as épocas de baixa produção. Entre as benfeitorias constavam boas ocas, pontes, cercas contra animais e outras estruturas. Um povoado de muita felicidade entre seus moradores.

Constatou o viajante alemão uma nódoa nesse paraíso terreno. Ao centro desse vilarejo existia uma enorme cabeça granítica perfeitamente esculpida de uns dois metros de alturas e três de larguras. Rezava a lenda local que ela caiu do céu em tempos imemoriais e que desde então todos a celebravam como seu deus. E para agradá-la de tempos em tempos sacrificavam alguns de seus jovens, imolando-os em uma imensa pira ao lado do ídolo pétreo.

Ulrico presenciou uma dessas cerimônias de holocausto. Colocaram três rapazes e três moças, nenhum passando dos 20 anos. Amarram-nos a um poste de madeira sobre um amontoado de folhas secas, as quais queimaram e deixaram lá até arder. Entretanto, o laço a prendê-los servia para evitar que pulassem fora movidos por instintos, já que nenhum deles se lamentou por morrer. Na verdade consideravam uma honra falecer para garantir a prosperidade da coletividade, marcando-se eternamente na alma de cada conterrâneo.

Abismado diante de cadáveres chamuscados em tão tenra idade, o visitante comentou com o cacique acerca da crueldade da ritualística. O líder então o convidou para uma longa caminhada pela região, na qual apontou várias outras tribos extintas, fosse pelas intempéries, pela guerra, por doenças ou pela fome. Dentre todas, apenas a sua prosperou. A única que realizava costumeiros sacrifícios humanos.

O cacique conhecia a falsidade daquela estátua. Seus ancestrais mantiveram a verdade enquanto enganaram o restante da população: esculpiram-na para dar uma razão de ser aos habitantes após anos e anos de privações. Então, precisando atender aos desejos de um deus caprichoso, todos se mobilizaram e saíram do seu comodismo, movidos pela premência em expandir sua comunidade. Se precisavam ceder jovens e boa parte de seus bens, precisariam sempre pensar em levar a tribo adiante, pois sempre haveria um deus a devorá-los. Esse desespero os movia.

Ulrico não sabia se vangloriava ou lamentava tal sabedoria. Lembrava dos povoados percorridos e os comparava. Encontrava o limite entre bem e mal extrapolado e ponderava acerca das possibilidades. Assustou-o caso em outros continentes algum déspota decidisse se valer de tal artimanha.

Como não se decidia quanto à qualidade dos ensinamentos proporcionados por esse povoado, livrou-se da responsabilidade de transmitir uma filosofia que poderia ser boa ou má. Rasgou de seu diário as páginas que retratavam essa tribo e preferiu deixá-la flanar ao esquecimento do tempo.

 

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Democracia irrefreável das redes sociais — Obama 2008 a Campos 2016

Yes we can

 

 

 

Você decide!

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Começou com a primeira eleição de Barack Obama a presidente dos EUA em 2008. O então jovem e carismático senador democrata de 47 anos disputou o pleito contra o candidato republicano John McCain, enfrentando por tabela o estabelishment dos EUA, personificado nos interesses das poderosas indústrias bélica e petrolífera do seu país.

Verdade que jornais liberais tradicionais como New York Times e Washington Post até demonstravam uma simpatia tímida por aquele candidato filho de um africano do Quênia, com nome esquisito e muito parecido com o do (hoje, falecido) inimigo nº 1 do país. Mas contra o poder de redes de TV conservadoras como a Fox, foi com o uso dos blogs e, sobretudo, da democracia irrefreável das redes sociais, que o slogan “Yes We Can” (“Sim, nós podemos”) se tornou um fenômeno entre o eleitorado da maior potência mundial.

Com essa nova maneira de fazer política, antevendo a capacidade de mobilização das massas em tempo real através das plataformas digitais, a campanha de Obama conseguiu atrair um público que até então não estava envolvido do processo político. O The Huffington Post, conceituado agregador de blogs estadunidenses afirmou: “Se não fosse a internet, Barack Obama não seria presidente. Se não fosse pela internet, Barack Obama não teria sido nem o candidato”.

A última referência diz respeito ao fato de que, para conseguir a vaga do Partido Democrata, Obama teve que competir com a inicialmente favorita Hillary Clinton, esposa do popular ex-presidente Bill Clinton. E, passados oito anos do primeiro presidente negro eleito e reeleito na história dos EUA, Hillary agora caminha para sucedê-lo como a primeira mulher no cargo mais importante do mundo.

A verdade é que, após sua vitória em 2008, primeiro contra Hillary, nas primárias dos Democratas, e depois nas urnas contra McCain, a mídia dos EUA e do mundo apelidou o feito de Obama como “a eleição do Facebook”. Após a sucessão presidencial dos EUA, o brasileiro mais atento à política, inclusive internacional, sobretudo às formas de interação entre o eleitor e seus representantes, passou a se perguntar: quanto tempo isso vai levar para chegar aqui?

Chegou antes pelo mundo muçulmano do Oriente Médio e do Norte da África, também conhecida como África Saariana ou Magreb, para os árabes. A partir de dezembro de 2010, com mobilizações feitas a partir das redes sociais, as revoluções populares se alastraram em escala exponencial na Tunísia, Egito, Líbia e Síria, onde provocaram quedas de governos e até linchamentos de ditadores — quem não se lembra da morte, pelas mãos do seu próprio povo, do outrora temido ditador líbio Muammar Kadafi (1942/2011)?

Também ocorreram grandes protestos na Argélia, Bahrein, Djibuti, Jordânia, Omã, Iémen e Iraque — país que Obama cumpriria sua promessa de desocupar. Em escala menor, mas sempre arrebanhados nas redes sociais, protestos menores aconteceram no Kwait, Líbano, Mauritânia, Marrocos, Arábia Saudita, Sudão e Saara Ocidental. Greves, manifestações, passeatas e comícios contaram com o uso de mídias como Facebook, Twitter e YouTube para se organizar e sensibilizar a comunidade internacional, driblando as tentativas de repressão e censura da Internet por parte dos Estados.

Ainda que não tenha levado a bom fim em grande parte dos países da Primavera Árabe, como na Síria, cuja Guerra Civil ali iniciada até hoje choca o mundo, o fenômeno de mobilização das massas a partir das redes sociais finalmente chegou ao Brasil em junho de 2013. Naquilo que ficou conhecido como “Jornadas de Junho”, o início foi restrito a poucos milhares de participantes, em São Paulo, pela redução da tarifa do transporte público.

Viralizada nas mídias sociais, a forte repressão policial, sobretudo no protesto do dia 13, multiplicou a participação popular em várias cidades brasileiras. Milhões foram às ruas, não mais apenas pela redução da passagem de ônibus e contra a ação da Polícia, mas por uma gama variada de temas, como gastos públicos em grandes eventos como Copa do Mundo e Olimpíadas, má qualidade do serviço público e corrupção política.

Passado o susto, sobretudo dos petistas, que viram perdido o monopólio das ruas que dominavam desde o final dos anos 1980, apesar da grande repercussão nacional e internacional, houve quem dissesse que “o gigante tinha adormecido”. Mas num país cindido com as figadais eleições presidenciais de 2014, pela grave recessão econômica que se procurou maquiar até o pleito e pela corrupção endêmica no governo federal eviscerada pela operação Lava Jato, cuja primeira fase se deu em 17 de março de 2014, as redes sociais voltaram a despertar o gigante.

Se foram a Câmara e o Senado Federal, sob o controle do Supremo Tribunal Federal (STF), que cassaram o segundo mandato presidencial de Dilma Rousseff (PT), a verdade é que as instâncias máximas dos poderes Legislativo e Judiciário foram obrigadas a fazê-lo pela pressão popular mobilizada pelas mídias sociais. Em 15 de março, 12 de abril, 16 de agosto e 13 de dezembro de 2015, milhões de brasileiros foram às ruas contra o governo Dilma e a corrupção, nas maiores mobilizações populares da Nova República — a partir do fim da Ditadura Militar (1964/85).

Mas o ápice do movimento foi nas manifestações populares de 13 de março, as maiores da história do Brasil. Nelas, se estima que 3,3 milhões de brasileiros tomaram as ruas de pelo menos 250 cidades, mobilizados pelas mídias sociais, para selar o fim antecipado dos 13 anos do lulopetismo no poder.

Em seus resultados variados, se pode gostar ou não daquilo que começou com a eleição de Obama em 2008, passou pela Primavera Árabe de 2010, pelas Jornadas de Março de 2013 e pelos protestos 2014/15 que levaram ao impeachment de Dilma. Só não se pode negar que nenhum desses fatos históricos aconteceria sem a democracia irrefreável das redes sociais.

A eleição de hoje, a prefeito de Campos, talvez seja o primeiro teste real das ativas mídias sociais goitacá nas definições do destino da cidade. Instituições como Ministério Público Estadual (MPE), Justiça Eleitoral e Polícia Federal (PF) locais têm se desdobrado para fazer com que a decisão, leitor, seja apenas sua, na urna.

Você, e mais ninguém, vai decidir em que tempo estamos vivendo.

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

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Seis homens e um destino: seu voto, hoje, a prefeito de Campos

Ponto final

 

 

Política & Polícia

Desde o período pré-eleitoral, esta coluna se converteu num resumo entre opinião e noticiário dos fatos políticos do dia. E com a ação desassombrada do Ministério Público Eleitoral (MPE), da Justiça Eleitoral e da Polícia Federal (PF) — cujas consequências irão além das urnas de 2 e, ao que parece, 30 de outubro —, a política goitacá se viu mais uma vez misturada com decisões judiciais e inquéritos policiais. Nesta seara, tivemos ainda ontem (aqui) outra apreensão da PF e do Tribunal Regional Eleitoral (TRE): R$ 138 mil numa casa e num carro dentro de um condomínio de luxo, junto material de campanha de um candidato governista a vereador.

 

Os seis

Muito embora nada indique que os abusos eleitorais respeitarão o dia da eleição, resta ficar na torcida para que nada corrompa (ainda mais) seu direito intransferível de escolher quem vai governar sua cidade, da sua família, vizinhos, colegas de trabalho, amigos e conhecidos a partir de 1º de janeiro de 2017. E são seis os candidatos que se dispõem a isso. Pela ordem decrescente das intenções de voto nas últimas pesquisas (aqui), são eles: Rafael Diniz (PPS), Dr. Chicão (PR), Caio Vianna (PDT), Nildo Cardoso (DEM), Geraldo Pudim (PMDB) e Rogério Matoso (PPL).

 

Rafael

Rafael talvez tenha sido, entre todos, o de pré-campanha mais fraca. Junto do seu PPS, só conseguiu o apoio de duas legendas pequenas: Rede Sustentabilidade de PV. Mas ao se manter vivo até a convenção, transformou a aparente fraqueza em sua maior força, com uma campanha curta, mas muito bem bolada, na TV e, sobretudo, nas redes sociais, onde talvez ganhasse o pleito em turno único. Do mundo virtual ao real, após patinar nas pesquisas entre junho e agosto, sua campanha se transformou em setembro numa onda espraiada muito além da “pedra”. Orador articulado, empolga pelo emocional, no qual às vezes se excede.

 

Chicão

Como esta coluna ressaltou diversas vezes, por sua simpatia pessoal e bom desempenho nas pesquisas pré-convenção, Dr. Chicão sempre foi o governista mais viável à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR). Se alguns, até entre os rosáceos, questionam sua capacidade, deveriam perguntar qual outro nome chegaria tão rápido nas intenções de voto aos 33% dos mesmos eleitores que desejam a continuação do governo. Orador sem brilho e forçado a atacar, sendo atacado de todo lado, sua participação nos debates não foi boa. Homem digno e médico conceituado, pode pedir voto a qualquer um, sem ter que pedir desculpas a ninguém.

 

Caio

Caio começou bem, não só nas pesquisas que chegou a liderar em junho, como pela brilhante pré-campanha. Tirou o PEN do pai e ex-prefeito Arnaldo Vianna (PMDB), trouxe para compor sua chapa o vereador Gil Vianna (PSB), que seria o vice de Rafael, e manteve o PSB numa queda de braço contra Anthony Garotinho (PR). Mas, sem o apoio de Arnaldo, que ficou com Pudim, Caio estagnou nas pesquisas. Com sua inflexão ensaiada, foi bem no debate da InterTV, mas ainda pesa sobre ele a suspeita de ser o “Cavalo de Tróia” do garotismo, levantada por Pudim. Se houver segundo turno, estando ou não nele, definirá seu futuro.

 

Nildo

Nildo é um dos políticos mais experientes de Campos. Apesar do jeito às vezes assertivo de liderança tradicional da Baixada, conhece todos os caminhos que levam o eleitor à urna. Batalhou em sua pré-campanha, sendo descartado pelo PMDB para conquistar a candidatura pelo DEM, na qual trabalha para superar Pudim e, se der, Caio. Tem consciência que sua votação a prefeito é fundamental para puxar votos também para o filho, José Leandro Cardoso (DEM), candidato a vereador. Assumiu o compromisso com a oposição no segundo turno.

 

Pudim

Nos debates, Pudim mostrou que talvez seja o candidato com mais conhecimento técnico da Prefeitura de Campos. Todavia, o apoio de Arnaldo, no lugar de agregar a popularidade do ex-prefeito, acabou se prestando ao consumo desta, fruto do repúdio natural da população a um pai contra o próprio filho. Garotista desde a gênese do grupo, ainda nos anos 1980, é hoje crítico mais feroz da “parentocracia” na qual os antigos aliados querem transformar a política de Campos e região. É o mais firme no compromisso com a oposição num eventual segundo turno.

 

Matoso

Ex-vereador, Matoso não conseguiu encarnar a opção jovem da mudança, que os eleitores identificaram em Rafael e Caio. Batalhador, perdeu a vaga do PMB, mas conseguiu não só se candidatar pelo PPL, como tirar o PC do B de aliança com o PT e ainda pegar o Pros de Caio. Foi nos debates, sobretudo da InterTV, o mais contundente contra os governistas, quando se dirigiu ao líder do grupo pela tela da Globo: “Desafio o coronel Garotinho para um debate em sua rádio, mas olho a olho, como homem” . Para o riso dos ouvintes, o desafiado bravateou no dia seguinte, à distância segura do microfone da sua rádio, ontem mais uma vez tirada do ar (aqui) pela Justiça: “Não temo homem nenhum. Não sou covarde”.

 

O destino é você

Paixões à parte — e desde que os gregos inventaram antes de Cristo a democracia, não há política sem paixão —, quem quiser encontrar virtudes nos seis candidatos, certamente as achará. Assim como os defeitos que todos temos e nos diferenciam por quanto cada um deles é capaz de nos fazer descer moralmente. Com seus currículos merecedores de respeito tanto por eleitores, quanto por opositores, temos seis homens e um destino: você, leitor, hoje, na urna. A escolha é só sua!

 

Publicado hoje (02) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Meu amor durou um parágrafo

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Chopin – Spring Waltz

 

 

 

 

Bottrel 01-10-16

 

 

O parágrafo mais denso é esse, que começa com uma letra perdida e termina com uma palavra mal dita. Numa noite mal dormida esperava o dia chegar enquanto observava suas costas arquear com uma respiração tranquila e profunda, logo se tornaria ofegante quando a luz do dia banhasse os seus olhos. Lá fora chovia, gotas de lágrimas molhando toda a cidade. Antes que eu te pergunte, menina na minha cama, por que te espantas quando alguém te ama, é uma pena que não percebas o teu sono mais tranquilo despido de maquiagem. Dito e feito, acima dos teus seios o sol te banhou por inteiro, coloriu seu rosto nu a acordar e me olhar encabulada como eu já esperava, antes de se despedir peço que retire a máscara e veja que a tua pele ainda é nova, e se te doer a carne crua chorarei contigo o elogio das suas próprias lágrimas. Mas antes que eu pudesse dizer, você já se foi, para ser como tudo na vida, uma eterna partida.

 

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“Modus operandi histórico e incoercível” tira rádio de Garotinho do ar

Aqui e aqui, os jornalistas Alexandre Bastos e Suzy Monteiro noticiaram a retirada do ar mais uma vez da rádio do grupo de comunicação do secretário municipal de Governo, Anthony Garotinho (PR), nas próximas 48h, por decisão do juiz da 249ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Elias Pedro Sader Neto.

O magistrado esclareceu que não há conflito da sua decisão com o recente retorno ao ar da rádio, em decisão do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) no último dia 28. Na verdade, o juízo da 249ª ZE se baseou justamente na reincidência, nos dias 29 e 30, do surto de violentos ataques verbais contra juiz, delegado, promotores, candidatos e jornalistas, cometidos por Garotinho assim que sua rádio voltou ao ar.

Abaixo, com os colchetes do blog, para facilitar seu entendimento, leitor, alguns trechos da decisão:

 

“Inicialmente, convém assentar que a presente medida não se encontra em rota de colisão com a decisão proferida pelo Eg. Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro no mandado de segurança nº 359-54.2016.6.19.0000. Bem ao contrário, segue-o fielmente.

(…)

E assim se afirma, porque o primeiro representado [Garotinho], conquanto não seja candidato, é líder estadual do PR e, sabidamente, a locomotiva do grupo político que se encontra no poder executivo municipal, com pretensão à continuidade por meio do atual vice-prefeito, Dr. Chicão.

No plano dos fatos, a ampla degravação dos programas dos dias 29 e 30 de setembro provam, sobejamente, por seu conteúdo, a probabilidade de direito e a urgência do deferimento da tutela provisória (…)

Agora , a situação é ainda pior, pois o primeiro representado [Garotinho] retornou a rádio, nos programas dos dias 29 e 30, ainda mais ferino, apregoando, dentre outras muitas inverdades, manipulações e dubiedades, que o TRE/RJ desabonou a decisão que suspendeu o funcionamento do segundo representado [a rádio], quando na verdade apenas analisou aspectos instrumentais ligados à incompetência do juízo da 75ª Zona Eleitoral  [que tirou a rádio do ar nas duas vezes anteriores].

Não se pode olvidar, que a transgressão que se pretende prevenir trata-se de modus operandi histórico e incoercível do primeiro representado [Garotinho], o qual, assim, desde cedo, ingressou na vida política.

Por fim o próprio nome da rádio, expressamente alusivo ao “JORNAL O DIÁRIO”, mais do que pista, deixa escancarado que ambos são gêmeos xifópagos, e que o abuso do meio de comunicação aqui reclamado em face dos representados, constitui apenas uma pequena fração da realidade.

(…)

Outrossim, à vista da contumácia incoercível dos representados [Garotinho e a rádio], DETERMINO A IMEDIATA SUSPENSÃO  da programação normal da Rádio Jornal O Díario Ltda – EPP, por 48 horas (…)

Advirta-se que a presente multa processual não prejudica eventual imposição da multa eleitoral”

 

Confira abaixo, em suas três folhas, a íntegra da decisão:

 

rádio1

 

Rádio2

 

Rádio3

 

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Ponto final — Por que Rosinha não paga os 12 mil Cheques Cidadão?

Ponto final

 

 

 

“Opção única e exclusiva da Prefeitura”

Em ofício divulgado ontem para desmentir as informações sobre o Cheque Cidadão deturpadas pelos veículos de mídia da cidade cooptados e pertencentes ao grupo de comunicação dos Garotinho, o juiz Eron Simas dos Santos, da 99ª Zona Eleitoral de Campos, esclareceu: “a decisão proferida por este juízo determinou a suspensão do Cheque Cidadão apenas para as pessoas que foram cadastradas a partir de 01/06/2016 e que qualquer suspensão que atinja os demais beneficiários decorre opção única e exclusiva da Prefeitura Municipal”.

 

Explicação simples

Extraída do texto sem juridiquês do magistrado, a explicação é simples. Ao acatar, em 22 de setembro, a tutela de urgência solicitada pelo Ministério Público Eleitoral (MPE), o juiz determinou a suspensão dos 18 mil Cheques Cidadão concedidos entre junho e setembro, sob suspeita de utilização eleitoral. Para se dimensionar o aumento das inscrições ao programa, eram apenas 12 mil os que recebiam o benefício antes de junho. E, desde que foi impedida de pagar aos novos 18 mil na suposta compra de seus votos, o governo Rosinha deixou de pagar também aos 12 mil anteriores, inscritos apenas por sua demanda social comprovada.

 

Denúncia e operações

A denúncia original da imposição de interesse meramente eleitoral nas 18 mil novas inscrições de junho a setembro, corrompendo os critérios de avaliação social que atestaram o ingresso dos 12 mil anteriores, não foi feita pelo MPE, mas por assistentes sociais da própria Prefeitura, revoltadas com a ingerência autocrática da proximidade da eleição. A partir dessas denúncias internas, se deram quatro operações da fiscalização do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), inclusive na sede da secretaria municipal de Desenvolvimento Social e três Centros de Referência de Assistência Social (Cras).

 

 “Escandaloso esquema”

O farto material apreendido nessas operações, segundo comunicado gerado em 17 de setembro pela assessoria do MPE no Rio, “comprovou que os candidatos envolvidos no esquema tinham acesso a quantidades variadas, de acordo com sua influência política no grupo, de Cartões do Cheque Cidadão entregues pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Humano e Social para distribuição em seu reduto eleitoral, entre os eleitores que se comprometessem a, em troca, favorecê-los com o voto”. Foi a mesma nota do MPE que classificou a fratura exposta do ilícito eleitoral como “escandaloso esquema”.

 

“Vale Voto”

No dia seguinte à suspensão dos novos 18 mil Cheques Cidadão que seriam trocados por voto nas urnas de amanhã, a Polícia Federal (PF) também entrou em campo, numa operação com outro nome emblemático: “Vale Voto”. No dia 23, a PF prendeu a secretária municipal de Desenvolvimento Humano, Ana Alice Alvarenga; e a coordenadora do Cheque Cidadão, Gisele Koch Soares. Ambas postas em liberdade ontem pelo juízo da 100ª ZE de Campos, após tentativas frustradas de fazê-lo nos Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Do que ambas falaram nesta uma semana, o tempo irá revelar.

 

“Loteamento da cidade”

Enquanto ouvia Ana Alice e Gisele sobre o “escandaloso esquema”, antes das duas serem soltas ontem, com a condição de não participarem de atividades eleitorais ou voltar às suas repartições, um novo passo foi dado à “Vale Voto”. Em 27 de setembro, a PF cumpriu 14 mandados de busca e apreensão, 13 em órgãos da Prefeitura de Campos e um em Uberlândia (MG) — onde fica a sede da Trivale, empresa que administra o Cheque Cidadão. E do que a PF encontrou, consta em seu inquérito: “Vislumbra-se um verdadeiro loteamento da cidade, dividindo as áreas de residência de pessoas em situação de risco entre aliados políticos, a fim de que obtenham dividendos políticos a partir da concessão de benefícios sociais”.

 

Por que não paga?

Em nenhum dos passos acima, desde a origem das denúncias nas próprias assistentes sociais da Prefeitura, passando pelas 37 Ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aijes) do MPE, pelas decisões da Justiça Eleitoral, das ações e prisões da PF, nunca esteve ninguém da oposição política de Campos. Afirmar isso, como quem na última quinta (29), no debate da InterTV, tentou atribuir a responsabilidade ao adversário que pesquisas recentes apontaram polarizado consigo à sucessão de Rosinha, não é verdade. Como bem esclareceu o juízo da 99ª ZE, quem hoje governa Campos só não paga os 12 mil cadastrados do Cheque Cidadão — por demanda social, não de voto — porque não quer.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

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