Guilherme Carvalhal — Outra vida possível

 

 

 

Certo dia minha avó me confessou em um surto de inesperada sinceridade e autocomiseração que passou a vida apaixonada por outro homem. Gostava de um filho de fazendeiro chamado Plínio desde a mocidade, cujo contato se afastou quando esse mudou pro Rio de Janeiro pra estudar. Mesmo assim, nas vindas dele de férias, os dois caminhavam pelo campo, não longe demais pro povo não comentar. Esse rapaz dizia “quero me casar com você”. E minha vó correspondia sorridente e enamorada em seus tempos primaveris e inocentes.

Entretanto, não agradava seu pai esse tal Plínio. Meu bisavô, um matuto que valorizava serviço de macho, não aceitava a filha de namoros com um almofadinha que estudava pra ser advogado. Queria alguém de trabalho pesado, da enxada, do serrote, do martelo, que realmente suasse para sustentar a família. E não admitia os seus, pobres de nascença e de vivença, envolvidos com gente rica.

Seguindo o costume daqueles tempos, meu avô indicou um moço que se encaixasse em seus critérios como noivo. E ela, muito obediente, casou-se com Jerônimo, meu avô Jominho, conforme todos o conheciam. Nunca o amou, mas sempre o respeitou, ela me revelou em um misto confuso de resignação e arrependimento alguns meses após enviuvar.

Curiosa com essa relato e indignada com as desventuras do passado, procurei mais acerca dessa antiga história, propelida por uma repentina pulsão, não sei precisamente se em busca de alguma justiça ou se por outro misterioso objetivo. Viajei à velha cercania onde meus avós passaram a juventude, desenterrando as imagens perdidas dos seus primeiros passos. Perguntei sobre os nomes aos atuais moradores, mas ninguém mais se recordava, no máximo resgatando uma memória vaga e imprecisa. Dirigi-me ao cartório, solicitei para analisar antigas certidões de nascimento e obtive a de Plínio, de onde descobri seu nome completo.

Pesquisando na internet, me deparei com informações desse meu quase avô. Plínio tornou-se desembargador em Santa Catarina e constituiu sua vida nesse estado. Achei relatos de jornais o mencionando e consegui saber um pouco sobre sua atuação em Florianópolis. Do casamento com Cláudia ele teve dois filhos e uma filha, médico, juiz, médica. Vários netos e uma única neta.

Porém, uma notícia me chocou. Um site de notícias informava uma tragédia, o suicídio de Natália, a neta. Encheu-se de remédios para dormir e sofreu parada cardíaca, sendo que sucedeu essa a outras duas tentativas anteriores em que a resgataram antes de morrer. As fotografias das matérias mostravam a jovem, os longos cabelos pintados de loiro, o nariz afinado na ponta, a campeã sub-17 de natação, a aprovada no vestibular de medicina, aquela que percorreu a Europa como presente pelos 18 anos, achada morta no chão de seu quarto envolta em uma papa de vômito.

Essa revelação me impregnou de um estranho pavor, um medo a me fazer tremer as mãos, e prestes a entrar em colapso deitei-me na cama, esbaforida, exausta, desesperada. Sem nem compreender exatamente porquê, ao convalescer desse súbito mal-estar comprei passagem para Florianópolis e no dia seguinte embarquei, sem ao menos me preocupar com malas ou com o que mais carregaria. Ciente do cemitério onde a sepultaram, logo ao sair do aeroporto pedi ao taxista que me levasse lá, exigindo pressa do motorista.

Percorri entre fileiras de túmulos até achar o dela. O nome por extenso na placa de bronze, o jarro de flores já apodrecidas e acumulando água de chuva e larvas de mosquito. Nascida em 1988, assim como eu. Única neta mulher de Plínio e Cláudia, assim como eu de Jerônimo e Ieda. Tudo extremamente parecido, em uma conjunção que não poderia ser mera coincidência. E eu, também batizada Natália, filha do segundo filho, guardando uma medalha de natação em casa e de licença do setor de oftalmologia do hospital. Ajoelhei-me chorando, derrubada por uma forte tristeza, e ao mesmo tempo aplacada por um forte alívio, ciente, assustadoramente ciente, de que caso vovó tivesse se casado com Plínio seria eu quem jazeria naquela sepultura.

 

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Este post tem um comentário

  1. Sandra Caetano

    Amei,amei,amei!!!!! Só saquei que era ficção, depois de quebrar a cabeça querendo entender pq uma pessoa chamada “Guilherme” usaria, para descrever a si mesmo, o adjetivo “curiosa”! Claro que suspeitei razões simples pra isso, mas foi um susto , foi uma pena pra mim, que vc não tivesse vivido essa outra vida possível, só até o 5º parágrafo!

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