Opiniões

De 1789 a 2021 entre Trump, Bolsonaro e Mussolini

 

Entre as fotos dos supremacistas brancos de Donald Trump no Capitólio em Washington, em 6 de janeiro de 2021, e os camisas negras fascistas de Benito Mussolini no Palácio Quirinal de Roma, em 31 de outubro de 1922, qualquer semelhança não é mera coincidência (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

De 1789 a 2021, a História espera o amanhã

 

George Washington

Há alguns anos que marcaram a História. Um deles foi 1789. Mais lembrado pela eclosão da Revolução Francesa, foi também nele que os EUA já elegiam George Washington seu primeiro presidente. Sob a mesma Constituição e no mesmo sistema que elegeu (relembre aqui) Joe Biden à Casa Branca em 3 de novembro de 2020, 231 anos e 46 presidentes depois. Com uma coça de 306 a 232 votos do colégio eleitoral, e mais de 7 milhões de votos populares de vantagem sobre Donald Trump. Que usou seus últimos dias no poder para incitar publicamente seus militantes mais raivosos a invadirem o Congresso (confira aqui) que reconhecia a eleição de Biden, causando cinco mortes (confira aqui) na última quarta-feira (06). E transformou este 2021 ainda no início em outro ano que passará à História.

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes

Ao Brasil, o pleito dos EUA de novembro e seus desdobramentos foram tão importantes, como prelúdio das nossas próprias eleições presidenciais de 2022, quanto foi o ano de 1789. Nele, a ainda colônia de Portugal pariu seu primeiro movimento de independência: a Inconfidência Mineira. Que teve como um dos líderes e seu mártir o alferes de cavalaria Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Se isso é ensinado aos brasileiros desde crianças, no ensino fundamental, há detalhes históricos menos conhecidos, mas emblemáticos. Ao ser preso, pela acusação de traição à Coroa Portuguesa, Tiradentes tinha consigo uma cópia da Constituição dos EUA.

Foi a mesma Constituição rasgada na quarta. Por Trump e os supremacistas brancos dos EUA, de classe média baixa e pouca escolaridade, que creem nele (confira aqui) como líder de uma guerra secreta contra os pedófilos adoradores de Satanás no alto escalão do governo, no mundo empresarial e na imprensa. E quem crê nisso, ou que a Terra é plana, ou na Cloroquina — “de Jesus”, como cantado no Brasil pelos militantes de Jair Messias Bolsonaro — como cura à Covid-19, ou acredita que as vacinas contra a doença podem matar, ou transformar seres humanos em jacarés, é capaz de acreditar em qualquer coisa. Inclusive nas denúncias de “fraude”, feitas por Trump sem apresentar uma única prova, nas urnas que assinaram sua ordem de despejo da Casa Branca, no próximo dia 20.

 

 

A partir de outra quarta-feira, a segunda daqui em diante, quando será devolvido à condição de cidadão comum, Trump poderá ser responsabilizado pelos crimes que cometeu. E deve, para servir de exemplo ao mundo, inclusive ao seu latin cover no Palácio do Planalto. Com Biden no poder e um Congresso invadido em que conseguiu eleger (confira aqui) a maioria na Câmara e no Senado, acaba a “brincadeira” de golpe do bolsonarismo no Brasil — por bem ou, como foi na quarta, por mal. O mesmo golpe que sua grande referência e inspiração, revelado caudilho de 5ª categoria, tentou dar nos EUA. Com o qual reduziu a mais importante democracia do mundo, pelo menos por um dia, a uma república bananeira.

 

 

Se o dito popular “quem gosta de banana é macaco” está certo, após a invasão do Capitólio, Bolsonaro não perdeu a oportunidade de macaquear mais uma vez as denúncias de “fraude” de Trump. Derrotadas em todas as ações em que ingressou na Justiça do seu país. Na quinta (07), um dia após a tentativa de golpe trumpista na democracia de lá, seu macaco de imitação ameaçou a democracia daqui: “Se não tivermos voto impresso em 2022, vamos ter problemas maiores que o dos EUA”. Coincidência ou não, na segunda (04), dois dias antes do “problema” nos EUA, quem visitou a Casa Branca? Ganha uma bananada quem disser (confira aqui) o deputado federal brasileiro Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), apelidado pelo vice-presidente do seu pai, Hamilton Mourão, de “Bananinha”.

 

 

Por sua condução desastrosa da pandemia da Covid, que na quinta (07) ultrapassou a marca de 200 mil mortos no Brasil, e as consequências econômicas ao país que ainda devem piorar muito nos mais de 11 meses restantes de 2021, Bolsonaro já começa a fabricar a desculpa para sua eventual derrota nas urnas em 2022. E tentar melá-las, caso perca. Mesmo que hoje seja o favorito a elas, enquanto mantiver seus 30% de aprovação popular, 20 pontos percentuais acima da linha histórica do impeachment no Brasil. Mas pesa mais ao capitão sua condição de “macaca de auditório” de Trump. Que meses antes do pleito de novembro passado, já projetando sua derrota, denunciava “fraude” (entenda aqui) por conta dos votos pelos Correios. Estes, incentivados pelos democratas de Biden por conta da Covid, autorizados pela Suprema Corte dos EUA e praticados naquele país desde sua Guerra Civil (1861/1865).

 

 

Ao ser o primeiro presidente dos EUA a atacar sua própria democracia, o primeiro a ter um pronunciamento ao vivo interrompido pelas principais redes de TV, o primeiro (confira aqui)  a ser bloqueado pelas redes sociais, o primeiro (confira aqui) ameaçado pelo segundo processo de impeachment  no mesmo mandato, o primeiro em 152 anos (confira aqui) que não comparecerá à posse do seu sucessor e o primeiro em 28 anos a não ser reeleito, Trump tatuou sobre a própria testa a pecha que sempre teve prazer patológico em atribuir aos outros: “loser” (“fracassado”). Após a vontade popular sentenciá-lo nas urnas com o bordão que ele tornou famoso, ao eliminar os participantes em seu reality show de sucesso: “You’re fired!” (“Você está demitido!”). E, pelo que promoveu na última quarta-feira, agora corre o risco de acabar preso. No que, entre os ex-presidentes do seu país, seria também o primeiro.

 

 

Se ninguém levava a sério a possibilidade de alguém como Bolsonaro ser eleito presidente do Brasil em 2018, antes que alguém como Trump fosse eleito presidente dos EUA em 2016, as cenas dos próximos capítulos, até 2022, prometem.

 

Bolsonaro e Trump trocaram camisas personalizadas das seleções de futebol do Brasil e dos EUA, em visita à Casa Branca de 19 de março de 2020 (Foto: Kevin Lamarque – Reuters)

 

Alguns papeis, no entanto, já estão definidos. Ao usar a violência e a intimidação física como arma política, quem incentivou e invadiu o Congresso dos EUA desvelou sua condição real de fascista, muito além da banalização do adjetivo pela esquerda festiva. Quem dúvida tiver, basta olhar a foto dos supremacistas brancos de Trump diante do Capitólio em Washington, em 6 de janeiro de 2021. E para a foto da marcha dos camisas negras que levaram ao poder o líder fascista Benito Mussolini, diante do Palácio Quirinal de Roma, residência real da Itália em 31 de outubro de 1922. Que fez deste outro ano que passou à História. Assim como 1945, 80 milhões de mortos depois, quando aquela história chegou ao fim. Com o ex-comunista Mussolini e seus últimos seguidores executados e pendurados em praça pública, na cidade de Milão, como gado. Enquanto os EUA se tornavam a grande potência mundial.

 

 

Após serem capturados e executados, o líder fascista Mussolini e seus últimos seguidores tiveram os corpos pendurados como gado na Piazza Loreto de Milão, em 29 de abril de 1945

 

Oxalá, como foi com Trump, a história se defina no voto. E na lei. A História espera o amanhã.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

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Este post tem 8 comentários

  1. Como uma pessoa pode escrever tanta merda ?
    Realmente, a imprensa agora é partidária, não informativa.

    1. Marcos Caldeira,

      Se é merda, atrai moscas. Mas que a merda de fato seja saneada no voto, como foi nos EUA. E na lei, como será após o dia 20. A outra opção está registrada, ao final da postagem, em vídeo e foto da Milão de 1945.

      Grato pela chance de reforçar a lembrança!

      Aluysio

  2. É merda, sim, o que está escrito, a partir do momento em que um jornalista, que deveria ser imparcial e mostrar os fatos sem militância (porque deveria ter a responsabilidade de expor os fatos para que o leitor tire suas conclusões) , escreve o que lhe interessa, expondo, por exemplo, Bolsonaro como fascista, mas se cala diante dos diversos atos de censura à jornalistas e pessoas que não tem a mesma opinião dos lacradores; censura esta praticada no Brasil pelas autoridades judiciais e plataformas. Porque vc não acusou de de fascismo, quem matou um colega seu, no Rio de Janeiro, com um foguete, num protesto da esquerda; ou quando antifas tacaram fogo na bandeira do Brasil. Vc não se sente responsável pelo silêncio diante disso tudo? Quem é fascista, são vcs, lacradores, que se dizem liberais. Saia da bolha, cara e se vista da responsabilidade de assinar uma coluna neste jornal. Ou dê a oportunidade de debater suas idéias com alguém, no seu jornal.

    1. Mas será o Benedicto, Damião? Você, apenas quatro postagens abaixo, me ameaçou com censura em uma suposta nova ditadura que seria implantada no Brasil. E escreveu em seu comentário: “Com certeza, se tudo correr ‘bem’ vc vai viver pra se ver censurado no nosso país”. E agora vem chorar e xingar “merda”, como criança contrariada, porque as coisas estão correndo mal para uma direita histérica cada vez mais próxima ao fascismo histórico? E as plataformas digitais e a lei, nos EUA, no Brasil e no mundo, finalmente começam a dar um basta à produção de fake news e teorias da conspiração em massa que elegeram Trump e Bolsonaro?

      Por favor, vá chorar na cama que é lugar quente. Se bem que a coisa ainda vai esquentar mais, após a invasão do Congresso dos EUA por Trump, com apoio de Bolsonaro, no cover da marcha dos camisas negras fascitas de Mussolini sobre Roma, em 1922. A bolha de vocês estourou, com o sangue de cinco mortos. Incluindo um policial do Capitólio, que morreu para impedir que gente como você o invadisse. Quem não acordar à realidade, será engolido por ela. E dê graças a Deus que agora será pela lei, com aqueles que já estão puxando cana e os que ainda irão puxar. Não no varal de gado humano da Milão de 1945.

      Grato pela chance do aviso!

      Aluysio

  3. Hipocrisia! A imprensa ajudou a criar Bolsonaro e o bolsonarismo, agora diz não ter nada a ver com isso.

    Enquanto a imprensa internacional se mostrava perplexa pelo fato de o tolerante, alegre e receptivo povo brasileiro ter escolhido um nome de extrema-direita, conhecido por declarações misóginas, racistas e homofóbicas, a mídia brasileira, mais otimista, considerava que o polêmico Bolsonaro, ao chegar ao poder máximo da nação, seria facilmente controlado, “colocado na linha” e, o que é mais importante, executaria a agenda neoliberal de Paulo Guedes.

    O fato de a mídia, unanimemente, ter aderido à campanha de Bolsonaro (mesmo de forma envergonhada) não foi algo surpreendente. Conforme a história nos mostra, para o grande capital (de quem a imprensa hegemônica é o principal porta-voz) não importa se o poder político estiver nas mãos de um “democrata” como Fernando Henrique Cardoso ou de um “extremista” como Jair Bolsonaro: o importante é garantir a manutenção dos lucros. O capital não pode parar.

    No entanto, os resultados negativos na área econômica e, principalmente, as atitudes irresponsáveis do presidente em relação à pandemia do coronavírus demonstraram cabalmente a total incapacidade de Bolsonaro para comandar o Brasil.

    Diante dessa realidade, tornou-se imprescindível para a grande mídia desvincular-se totalmente da imagem do presidente e esconder de todas as formas o seu apoio ao ex-capitão durante a última campanha eleitoral (assim como feito em relação a Fernando Collor, na década de 1990).

    Bolsonaro virou o “filho feio que não tem pai”.

    A imprensa ajudou a “parir” Bolsonaro, agora não quer mais embalá-lo.

    1. Carlos Eduardo Ferreira de Souza,

      Quando ainda era cogitada para vice de Bolsonaro, foi Janaina Pachoal quem deu a melhor definição do que se cristalizaria como o bolsonarismo: “petismo de sinal trocado”. Diferente de Fernando Henrique nos anos 1990, Bolsonaro não só assumiu, como acirrou o “nós contra eles” criado pelo PT. Sobretudo após a corrupção sistêmica dos seus 13 anos de governo se somar à maior recessão da história da República do Brasil, no desastre do governo Dilma, com sementes plantadas ainda no segundo governo Lula.

      Assim como as fake news que elegeram Bolsonaro em 2018 só pegaram carona na novidade das redes sociais. Mas foram introduzidas na disputa presidencial brasileira pelo PT, na eleição de 2014. Quando foram usadas em suas milionárias campanhas de TV, de maneira igualmente sórdida, contra uma ex-correligionária: Marina Silva.

      A mesma imprensa chamada de “PIG” — expressão cunhada por Paulo Henrique Amorim, um dos maiores maus-caracteres do jornalismo brasileiro — e de “coxinha” é a mesma chamada de “comunista” e “esquerdista” por denunciar o comportamento sociopata de Bolsonaro desde deputado federal. Passando pela campanha presidencial, com a pausa necessária pelo episódio da facada, até o seu (des)governo. Se exceção houve em 2018 na grande imprensa brasileira, ao dourar a pílula do que estava anunciado para ser, ela é restrita ao site O Antagonista. Que pulou do barco bolsonarista junto com Sérgio Moro — com todas as críticas que este merece, desde a liberação de delação de Palocci a seis dias do primeiro turno, para depois aceitar ser ministro de quem beneficiou politicamente.

      Candidato que todas as pesquisas apontavam com mais chances de bater Bolsonaro no segundo turno de 2018, Ciro foi sabotado por Lula da cadeia, que entregou de bandeja a cabeça da petista Marília Arraes — neta de Miguel Arraes — na disputa do governo de Pernambuco, para tirar o apoio do PSB ao cearense. Ultrapassado pela rápida transferência de Lula para Haddad, após o TSE confirmar o que todos já sabiam, Ciro está absolutamente correto ao afirmar que quem criou Bolsonaro foi o PT. Um, sem o outro, é Piu-Piu sem Frajola. Para se aprofundar um pouco na analogia, leia: https://opinioes.folha1.com.br/2020/10/18/lula-bolsonaro-piupiu-frajola-e-o-pateta-no-mercado-municipal-de-campos/

      Se uma coisa que Biden, após derrotar Sanders nas primárias democratas, provou ao derrotar também Trump em 2020, é que o caminho para o Brasil sair em 2022 da dicotomia entre o criador (o lulopetismo) e a criatura (o bolsonarismo) está no centro. Eleitoralmente, o que for mais viável entre o centro-esquerda e a centro-direita. Se Baleia Rossi vencer a eleição à presidência da Câmara Federal, esse caminho se reforça. Se der Arthur Lira, Bolsonaro mantém seu atual favoritismo.

      Isso, lógico, enquanto o presidente mantiver seus 30% resilientes de aprovação. Onde os 10% perdidos no eleitorado de classe média foram temporariamente repostos pelos 10% do cornavoucher, que roubou do cocho do Bolsa-Família de Lula.

      Grato pela chance da explanação!

      Aluysio

  4. Esse tom de ameaça é um estilo bolsonarista. Os que estavam nas catacumbas foram atraídos pelo espírito violento e boiaram no esgoto do obscurantismo, negando ciência e pior em pareceria com fundamentalistas que estão denegrindo a imagem do evangelho e provocando sequelas imprevisíveis. Se o Bolsonaro faz ameaças, podemos fazer previsões. Em 2022 irá acontecer semelhante aos estados Unidos, ele irá perder a eleição e responderá pelas acusações sem foro privilegiado.

  5. Parabéns pela explanação, Aluysio. Não precisamos concordar em tudo para entender que a história traça e traz caminhos que se entrelaçam. Talvez os que não apreciam a história, e, também, política (em seu sentido etimológico) tem o medo de ser dragado por informações sólidas e preferem a cauterização de suas próprias crenças. Por fim, concorde ou descorde da imprensa, fato é que só existe democracia com imprensa livre e combate à Fake News.

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