Nélio Artiles: “se não tem vacina, tem que diminuir circulação para evitar colapso”

 

Nélio Artiles, referência em infectologia na medicina de Campos e região (Foto: Folha da Manhã)

 

“Se você não tem vacina o suficiente para todo mundo, você tem necessidade de restrição maior, sim, de circulação das pessoas. Vários países demonstraram a eficácia disso. Se não tem vacina, nós temos que diminuir a circulação. A questão da máscara, falta muito na cidade de Campos, assim como no país todo, a questão fiscalização. Você recomenda, mas as pessoas continuam fazendo aquilo que querem fazer. Eu preciso tomar as atitudes que sei que funcionam, se não com a vacina, que não chega, com ações que tenham efeito semelhante, de diminuir a circulação e evitar um colapso (do sistema de saúde de Campos) que está à vista, que provavelmente vai acontecer daqui a algumas semanas”. Foi o que disse no início da manhã de hoje ao Folha no Ar, da Folha FM 98,3, o médico infectologista Nélio Artiles, professor e referência de vários colegas que atuam na sua especialidade em Campos. Incluindo Charbell Kury, à frente do combate à pandemia da Covid no governo Wladimir Garotinho (PSD).

Noticiado ontem com exclusividade pelo blog Opiniões, o novo fechamento do comércio de Campos, nos serviços não essenciais, deve ser definido em reunião nesta sexta (19), com possibilidade de passar a vigorar a partir da próxima terça (23). O objetivo é não deixar que a rede de saúde da cidade entre em colapso, como já acontece em todos os municípios do Noroeste Fluminense, que desde ontem registram 100% de ocupação dos leitos para Covid:

— Não sou contra o fechamento do comércio por um período, com muita sensibilidade e muita dor, porque a gente sabe como o comércio de Campos está sofrendo com isso. Mas eu não consigo ver de outra forma, porque as perdas serão inevitáveis. A gente ouve muitas pessoas do comércio que falam que se as lojas tomam cuidado, fazem uma restrição do número de pessoas dentro, as chances (de contaminação) são menores. Mas é a logística do comércio funcionando, esse movimento que envolve comércio, escola, templo religioso. Deve haver uma restrição de todas as possibilidades de aglomeração. Se tem fila para internação por Covid, e na UTI da Unimed já tem, mas não tem vacina, então nós precisamos fechar, precisamos diminuir, aumentar a fiscalização. Se tivesse vacina para todo mundo, estava resolvido; mas não tem — alertou Nélio.

O infectologista também advertiu para a inutilidade do tratamento precoce para a Covid, que ainda é defendido pelo governo Jair Bolsonaro (sem partido) e até por colegas médicos, geralmente alinhados politicamente ao presidente:

— Eu ainda estou ouvindo falar, gente discutindo que tem que fazer azitromicina, cloroquina e ivermectina. Ainda estou ouvindo; colegas meus! Coisa que já acabou, que já está mais que comprovado que não funciona. E as pessoas continuam indo na farmácia, comprando ivermectina, porque acham que vai proteger. E isso é um problema grave, porque leva as pessoas a acharem que estão livres (da Covid). É preciso ter bom senso e fazer aquilo que está comprovado. Uma das primeiras coisas que a gente precisa fazer é filtrar a orelha, precisa perceber o que se ouve hoje em dia. As fake news ainda estão por aí. Não criticar a imprensa. A voz da ciência está na imprensa. E tem muita gente ignorante, que não sabe o que fala, mas falando com “certeza” do que está falando. E tudo que nós já sabemos é lavar as mãos, distanciamento social, evitar circulação e uso de máscara de forma adequada.

Com o programa à participação dos ouvintes e telespectadores, pelo streaming ao vivo do Folha no Ar pelo Facebook, muitos deles fizeram críticas às filas formadas não só para vacinação da população de Campos na Uenf, com para obtenção de senhas no Hospital Plantadores de Cana (HPC), embaixo de sol. Nélio não se furtou a responder, garantindo que Charbell seria sensível às críticas, mas endossando algumas delas:

— Os questionamentos têm pertinência. Eu tenho certeza que o Dr. Charbell tem sido sensível a essa questão. Quando se faz um planejamento, tem que se mudar a cada momento. Não é só a população que está percebendo; eles (do governo municipal) também estão. O Charbell já fez um posicionamento, de que vai haver uma descentralização, vai ampliar esses pontos de vacina. Há todo um contexto logístico que envolve isso. Nós sabemos que as vacinas são hoje alvo de roubos. Então você precisa ter a Polícia, para fazer isso com segurança; não pode ser em qualquer lugar. Mas eu concordo plenamente: com todo o sofrimento que a população está passando, não há que ofertar mais esse, de ficar esperando ao sol, principalmente pessoas idosas. E fazer isso de uma forma mais racional. Não é simplesmente chamar todos, durante a semana. Mas fazer isso de uma forma estratégica e seriada. A cada dia, um quantitativo, para que as pessoas não fiquem na esperança de tomar a vacina e não ter a vacina para receber.

 

Confira abaixo, em três blocos, os vídeos da entrevista do médico infectologista Nélio Artiles ao Folha no Ar da manhã de hoje:

 

 

 

 

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Este post tem 5 comentários

  1. Manoel Ribeiro

    o que nós estamos vivendo agora é resultado do carnaval… só fazer as contas…

    1. Aluysio Abreu Barbosa

      Caro Manoel Robeiro,

      Qual carnaval? O que não tivemos este ano?

      Grato pela chance de indagar o óbvio!

      Aluysio

  2. Não tem que entrevistar médicos, tem que entrevistar Biólogos. Alguém aí conhece a UENF…?

  3. Cesar Peixoto

    Nélio Artiles uns dos médicos infectologista mas conceituado na medicina de nossa cidade, eu estou com ele. Quero parabenizar a Folha da Manhã pela brilhante entrevista.

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