Do céu ao purgatório, a tragédia como ethos do Botafogo

 

(Imagem: Reprodução de TV)

 

Este blog tem um grupo de WhatsApp que divide com o programa Folha no Ar. Composto de lulopetistas, bolsonaristas e nem-nem, sua moderação dá um certo trabalho nestes tempos de bipolaridade política. Ainda assim, é tido como um dos mais conceituados da cidade e região. Rende pautas e alguns debates interessantes.

Nesse grupo, na manhã de hoje, um amigo botafoguense aparentemente jogou a toalha por conta da atuação ruim do seu time na noite de ontem. Em que até o bom goleiro John falhou bisonhamente no gol do argentino Estudiantes de La Plata, que deu números finais ao placar. Ao que respondi com um texto sincero, mas um pouco mais longo, que reproduzo abaixo:

 

O empresário estadunidense John Textor, Pai Provedor do Glorioso (Foto: Botofogo)

 

Sempre tive simpatia pelo Botafogo, por conta das histórias sobre Garrincha, Didi e Nilton Santos que meu pai me contava. E aprendi terem composto, ao lado do Santos de Pelé, Zito e Pepe, a fase de ouro do futebol brasileiro. O sentimento se reforçaria com a leitura de “Nunca houve um homem como Heleno”, de Marcos Eduardo Neves.

Em 2023, torci sinceramente para o Botafogo sair da fila no Brasileirão. Assim como para o Fluminense do meu pai (confira aqui) na Libertadores daquele ano. E, com o primeiro, pude sentir na pele a frustração com uma das maiores pipocadas da história do mesmo futebol brasileiro.

Na sequência, após o Botafogo golear por 4 a 1 um Flamengo todo desfalcado no Brasileiro de 2024, a arrogância de parte da sua torcida — como a do flamenguista médio, só que com menos títulos e torcida — me irritou bastante. E, sem a minha azarada torcida pessoal, que deu sorte ao Fluminense, vi o Botafogo ser campeão com merecimento (confira aqui) do Brasil e da América do Sul. Pelo que liguei a alguns botafoguenses, para cumprimentar e reconhecer a façanha.

Tenho muita desconfiança dos que defendem a inexorabilidade das SAFs no futebol de clubes. Sinceramente, não sei se estão certos. Mas sempre vou preferir o sistema dos clubes em que os sócios votantes impõem freios, contrapesos e consequências às decisões do comando do futebol. Como Leila no Palmeiras ou Rodolfo Landim no Flamengo, onde a condução errática das molecagens de Gabigol rendeu a eleição da oposição a presidente.

A todos os botafoguenses que liguei para saudar pelos títulos de 2024, frisei que aquele time tinha dois craques: Almada e Luiz Henrique. Não sei se nenhum deles contou a John Textor, estadunidense a encarnar nosso messianismo lusitano de Dom Sebastião. Mas o fato é que o gringo vendeu os dois jogadores, não quis pagar o que o luso Artur Jorge pediu e o resultado está aí. Exposto em 2025 como o dente perdido pelo argentino Barboza. E não há o que o clube possa fazer sobre as decisões do seu Pai Provedor.

Não tenho argumento racional à constatação de muitos botafoguenses, de que, sem o dinheiro de Textor, o Glorioso não teria como reencontrar seu tempo de glória. Mas, como lembrou o Cristo, toda moeda tem duas faces. Particularmente, creio que o equilíbrio entre a arrogância catártica de 2024 e a desesperança presente de 2025 seria mais salutar. Mas, vendo de fora, reconheço que a tragédia, no sentido grego, faz parte do ethos do Botafogo.

 

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