Um dia, na pequena, pobre e desconhecida nação de Rondanovi, o presidente realizou um comunicado oficial transmitido por todas as estações de TV:
— Iremos construir o primeiro míssil de nosso país.
O povo embasbacou. Acharam que afrouxou um parafuso do presidente, que de tanto lidar com líderes políticos de nações em guerra se deixou contaminar pelo espírito belicista. Nos programas de debate político, os comentaristas tentavam compreender quais as intenções dessa proposta, sem chegarem a nenhuma resposta lógica, tendo em vista que Rondanovi jamais entrou em uma guerra e nem havia qualquer probabilidade ou pretensão para o mesmo.
Diante da repercussão, a assessoria de comunicação da presidência iniciou um forte trabalho de divulgação para explicar em detalhes o que se passa por trás da proposta. Utilizaram de todos os meios para a população compreender por completo e sem desvios as reais intenções do mandatário.
O plano do governo visava inserir a república na modernidade das técnicas de combate. Em plena época dos drones e de veículos de combate não-tripulados, o país ainda utilizava velhos fuzis da Segunda Guerra Mundial. Esse passo à frente precisava acontecer o mais breve possível e o momento era esse, pois as nações imperialistas facilmente invadiriam o país de olho em sua jazidas de potássio e no plantio de flores artesanais, principal produto de exportação.
Meio a contragosto, os eleitores engoliram a ideia. Não parecia nada de urgente, mas poderia ser útil. Poderia não ter utilidade, mas não havia pressa para acabar. E assim tocaram adiante.
Com o início do projeto, aumentou a demanda no consumo de aço. Os engenheiros testavam muitas possibilidades, então a mineração de ferro e a siderurgia cresceram. Também surgiu demanda por combustível para o motor. E daí se seguiram vagas na indústria de peças, pintura, na estrutura de disparo, etc.
Em poucos meses o desemprego do país despencou a níveis espantosos. Os estatísticos analisaram e concluíram que foi o melhor desempenho financeiro de sua história. A cadeia bélica estimulou de arrasto a agricultura, a construção civil, o comércio e o setor de serviços. Rondanovi finalmente ganharia respeito.
A empolgação contagiou os cidadãos. A felicidade cresceu, as festas aumentaram, os compositores criavam melodias enaltecendo o ponto de excelência ao qual a nação atingia. As crianças agora se orgulhavam de usar os uniformes escolares nos tons da flâmula e pela primeira vez a fala do presidente na Assembleia Geral da ONU foi levada em consideração pela comunidade internacional:
— Ainda exportaremos mísseis — mencionou um dos chefes da equipe de desenvolvimento em um talk show. Seu otimismo o levou a considerar futuramente a instalação de um amplo complexo industrial militar, com a produção de armas, veículos, aeronaves e até sonhava com o ápice: a bomba atômica.
Meses depois, quando o presidente anunciou a conclusão do projeto e que Rondanovi agora dispunha de seu próprio míssil com tecnologia nacional, o povo enlouqueceu. Pelas muitas cidades o festejo tomou conta das ruas e nunca se registrou tantas execuções do hino nacional.
No dia oficial do lançamento, a população compareceu em peso à base aérea. Empunhavam a bandeira do país em total êxtase com a novidade. A banda marcial executava muitas músicas e no palanque o locutor discursava em tom ufanista.
Quando principiaram a contagem, o público acompanhou uníssono. 10, 9, 8, a emoção aumentava, corações palpitavam, 7, 6, 5, o presidente roía as unhas querendo que tudo desse certo. 4, 3, 2, os mais frágeis até desmaiaram antes da hora.
1. O míssil subiu e muitos flashes de câmeras de celulares brilhavam registrando o instante. O míssil atingiu uns vinte metros de altura quando se notou que perdia força. A explosão diminuía bem antes de chegar ao apogeu e ele perdia altura paulatinamente. Junto a esse efeito, a fuselagem começou a desmontar, soltando placas de metal e disparando rebites feito tiros. Aquela estrutura nas cores da bandeira e com o brasão de armas do país se desmontava, deixando a ossatura externa exposta. Essa sucata caiu até o auge do vexame: a ogiva espatifou no chão e não explodiu.
O povo chorou ao testemunhar o sonho não concretizado. As esperanças se desmontaram e se transformaram em rebotalho chovendo sobre a ampla planície. Cabisbaixos, deram as costas abandonando a cerimônia marcial e o presidente, esse aos prantos perante a vergonha pública. Resignados, retornaram para casa aguardando o dia em que novas promessas do presidente resgatassem sua capacidade de serem felizes.
Sugestão para escutar enquanto lê: Oscar Lorenzo Fernández – Reisado do Pastoreio
(Tela do pintor Frade)
O sol brilhava nas testas umedecidas de suor misturado com terra expelida pelos dedos que esfregavam as gotas descendo feito cortantes folhas. O verde da capineira refletia a vida seca, balançando com o vento cada grão do relento que Gerônimo sentia dentro de si enquanto observava tão pouco precisava aquele pé de braquiária. Observava a vida se colorir em preto e branco dentro de si, algo dizia que não deveria estar ali, no buraco que alguém cavou por ele, sem que ele percebesse. Enquanto se apoiava com as duas mãos sobre o topo da enxada olhava Sô Zé trabalhar feito um cão, que homem durão, as rugas na sua pele predizem uma idade que nunca chegara de verdade. O chapéu de palha umedecida de suor de Sô Zé balançava a cada enxadada forte no solo duro arrancando com tudo, raiz, mato e pé, coisa de Sô Zé, fazia da vida sarapaté.
— Ô Gerômo, que que sô tá parado aí olhando pro tempo?
Enquanto Gerônimo sentia uma gota de suor derramar pelas pálpebras e lhe arder os olhos com o sal amargo da pele sofrida continuava a olhar o horizonte de pasto grande e a enxada incansável de Sô Zé cavando buracos sobre o próprio pé.
— Lembrei de papai e tive saudade, Sô Zé.
— Mas, assim, do nada, homi? Comigo a idade já levô tudo que tinha abrigo aqui dentro.
— Pois é… cada vez que esse suor arde meus olhos eu lembro de papai, sabe Sô Zé, papai queria que eu fosse dotô… me dava até os mesmos livros que via os filhos do sinhô que pagava as enxadadas dele. Quando eu ia ver meu véio capinando no meio do pasto ele falava brabo a beçapra eu correr pra dentro do nosso barraco ler os livros que os filhos do sinhôtavam lendo, me fazia ver as gotas de suor na sua testa já toda marcada e dizia que transformaria cada uma nas tintas do meu diploma de dotô, nas palavras que ele nem mesmo sabia ler.
— Mas cumé que a gente viradotô nesse mundo, tem jeito não… tem é que dá gaças a deus de tê terra pá capiná, e continua logo aí senão o sinhô vem e recrama com nóis que o tratô faz mió.
— Então Sô Zé, esses dias eu tenho pensado que acho que num é pra nós dá graças a deus de capiná não…Ocê nunca parou pra pensá não, por que que a gente se estrupia todo igual nossos pais e nossos filhos continuam se estrupiando igual a gente enquanto os filhos do nosso patrão tão lá na frente?
— Mas que pensamentos esquisitos são esses homi?
— Ah, me dei pra pensar nessas coisas do mundo enquanto escutava na televisão lá do meu barraco uma moça perguntá quem pode nos salvá desse buraco.
— Que buraco?
— O da cidade.
— Mai sô, a cidade tá cheia de buracos, é só eu andar nela que quase caio neles.
—Mas Sô Zé acho que buraco que ela quis dizer é de tê arruinado nossa cidade, cê acredita nisso Sô Zé?
—Ô Gerômo, depois que eu descobri que a Disney fica perto da 28 de Malço eu cridito em qualquer coisa! Até que o Papai Noel mora na Lapa.
— Eu num entendo muito disso, não… mas do buraco eu fiquei curioso e fui perguntápr’aquele rapaz inteligente do sítio ali do vizinho e ele botô umas minhoca na minha cabeça…
— Aquele mininocabiçudo que fica chamando nosso patrão de mau-caráter?
—É…ele começou falando que o buraco que a gente tá levou 20 bilhões de reais…
— Mai eu saio agora pá caçá esse buraco!
—Prest’enção no que eu tô explicando, Sô Zé.
—To prestando, mainum sei quanto é 20 bilhão de real.
— É tanto dinheiro que daria para cobrir toda essa terra até onde a nossa vista não tem fim.
— Tanto assim? – Perguntou Sô Zé coçando a cabeça fazendo força para tentar imaginar tanto dinheiro.
Gerônimo passa a mão calejada na calça esfarrapada e tira de dentro do bolso direito uma nota de 10 reais amassada e coloca no chão.
—Tá vendo essa nota de 10 reais?
—Tô…
—10 reais dez vezes dá 100 reais – Gerônimo mediu a nota com os pés e deu algumas passadas para demonstrar até onde iria 100 reais.
100 reais dez vezes dá mil reais – Gerônimo deu passadas maiores.
1.000 reais dez vezes dá 10 mil reais – Enquanto Sô Zé o acompanhava ele demonstrava com o dedo aonde ia o dinheiro até 20 bilhões de reais e em pouco tempo perceberam que não daria para imaginar aonde iria aquele montante.
— Foi assim que o rapaz me explicou o que a nossa cidade recebeu, que é dinheiro d’a gente… Sô Zé, ocê acha que era para nós tá aqui nesse sol encardido capinando feito um curisco com esse dinheiro todo?
Sô Zé tirou o chapéu molhado de trabalho duro e olhou para o horizonte afora a vista de onde o dinheiro iria.
— É muto dinheiro né Gerômo?
— Pois é…
— Mai tem passagem a 1 real…
— Pois é, Sô Zé, mas se esse dinheiro fosse investido em educação nós podia ter oportunidade de intévirar dotô igual papai queria e numprecisá de passagem de 1 real.
— É…
— E ocê acha que eles querem que a gente pare de dependê dessa passagem de 1 real?
Sô Zé colocou a mão na testa como um boné e olhou o horizonte vista afora que não daria para enxergar aonde o dinheiro iria.
— Acho que não né Gerômo?
— Pois é Sô Zé, por isso que eu acho que tem um troço errado d’a gente tá aqui se estrupiando…
— Imagine só se nóis virasse dotô, quem ia capinápo patrão? – Perguntou Sô Zé com o chapéu no peito e um sorriso no canto da boca de imaginar a cena dizendo ao senhor que não precisa mais dessa pena, pois agora tinha um lugar para ele onde senta essa gente em poltrona de penas.
—Tá vendo, Sô Zé, é isso que eu comecei a pensá, quem diz que esse mundão é bão e feito de gente trabaiadora é que num tá na nossa pele…
— MaiGerômo dinheiro pá mai de metro assim num some, deve de ter sido invistido em algum lugá…
— Onde?
Sô Zé coçou a cabeça com força.
— Na saúde?
— Minha muié precisou ir para o hospital e foi atendida com as costas no ferro fri pra daná, que num tinha nem colchonete… colchonete, Sô Zé, até nós tem em casa! Mesmo minha muiétando muito mal num deram uma amostra grátis do remédio, tivemos que juntar nosso dinheirinho dias a fio com ela ruim, pra comprá o tal do remédio…
Enquanto os dois conversavam passava um carro todo adesivado de foto sorridente levantando poeira correndo feito um avião, eis que o cão sem dono avista os dois perto da cerca conversando, para o carro e se aproxima.
— Ô meus amigos! – Disse o homem com um adesivo numerado na camisa e uma foto dele próprio sorrindo igual tiririca enquanto lá do outro lado da cerca os dois se olhavam e não entendiam nada.
—Cê conhece esse homiGerômo?
— Conheço não, Sô Zé…
— Mai que esse homitá com essa alegria rabial toda, saltitando a cerca agarrando até os fiofó no arame farpado pá falá com nóis, sô?
— Ah, Sô Zé, tô te falando que essa época faz todo mundo ficar assim. Ah lá, parece até que o homisentô num prego.
Com a respiração ofegante o homem se desvencilhava das braquiárias até chegar aos dois que observavam a sua trajetória hercúlea em zigue-zague. Quando se aproximou dos dois, apoiou no ombro de Gerônimo enquanto seu corpo curvava com as mãos no joelho tentando respirar a ponto de ser possível falar, percebeu ali que estava muito sedentário.
—Cêtá bem, homi? – Perguntou Sô Zé.
— Meus amigos! Vim aqui me apresentar a vocês para dizer que estou aqui pra melhorar a vida de vocês! Lutando junto! Para uma cidade melhor!
— Que isso, homi… lutando junto como se o sinhô num consegue nem dar três passos no pasto? – Perguntou Gerônimo.
— Mas eu estou lá! Representando vocês!
— Lá naquele palácio grego?
— Lá… em frente a pracinha!
— No castelo grego?
—É…!
— Enquanto a gente tá aqui capinando pasto… – Disse Gerônimo para Sô Zé – Eutô dizendo Sô Zé, esse troço tá muito estranho.
— Vim aqui para cuidar de vocês! De tudo que precisarem! – Enquanto falava tirava do bolso panfletos com a sua cara caricata entregando aos dois e logo começou a sussurrar – Se estiverem com dificuldade em pagar alguma conta de casa me avisem, o importante é que toda a família de vocês esteja feliz e saudável. Por falar em saúde… – O homem corre até o carro e abre o porta-malas – Trouxe muitos remédios, amostra-grátis! Para o que precisarem!
— Ah lá, Sô Zé… o homem tá com o carro cheio de remédio pra distribuir enquanto minha muié não conseguiu nenhum… que que esse remédio tá fazendo com esse homi e num tá no hospital? Tão tirando denóis e tentando parecê que é favô Sô Zé, cênumtá vendo não?
— Mai que fí das unhas discarado, hein?! Some daqui estrupíço! – Continuou gritando Sô Zé alto como se espantasse um urubu rodeando a carcaça. Ao perceber a reação negativa o homem prontamente entrou no carro e foi distribuir as amostra-grátis do hospital em troca de votos por outras bandas.
O dia já ia entardecendo e os dois em vez de trabalharem ficaram pensando e Sô Zé preocupado com a reclamação do patrão ao perceber que não produziram muito, logo as enxadas voltaram a arrancar as raízes mais grossas do chão, mas não demorou muito tempo para ele se incomodar de novo e parar de capinar.
—Gerômo, depois dessa conversa num dá pá aceitáficá capinando aqui nesse sol.
— Pois é, Sô Zé, eu to sentindo a mesma coisa, to batendo essa enxada nesse chão duro aqui cuma raiva danada.
— Mai Gerômo, né possívetá tudo assim, é muto dinheiro, e esse negóço de curtura, tem nada pá nóisfazê não?
— Sô Zé, eu fiquei sabendo que o teatro tá fechado há três ano por cadi um ar condicionado. E no carnaval só um rapaz que vei de fora recebeu duas vezes mais que uma escola inteira nossa de 500 pessoas.
— Mai cadiquê isso?!
— Ô Sô Zé esse buraco tá mais fundo que a gente imaginava…
— E quem que vai salvánóis dele?
— Acho que nós mesmo.
Gerônimo e Sô Zé em vez de parar de falar na crise e trabalhar resolveram pensar e fazer a mudança, pois ao pensar descobriram que os únicos que podem salvá-los desse buraco são eles mesmo.
Por motivos de ordem pessoal, de hoje ao próximo dia 12, este “Opiniões” ficará sem atualizações — à execção do textos dos colaboradores do blog, que serão publicados regularmente nos próximos dias 3 (sábado), 6 (terça), 8 (quinta) e 10 (sábado). Quanto a nós, leitor, se Deus quiser, nos reecontraremos daqui a 11 dias.
Campos, aurora de 26/08/16 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Os olhos pareciam confundir realidade e ficção. A seu lado, uma idosa dormia profundamente. Estava fraca, Há quantos dias estava ali? As paredes brancas se transformaram em uma câmara densa. Sufocavam. Ou seria o descompasso de sua respiração? Ora, transparecia serenidade. Ora, tensão. Quem passava gostava de analisá-lo. Alto, magro, belo. Em outros tempos, havia conseguido unir inteligência e beleza na medida certa para atrair as pessoas. “Ele é diferente dos demais”, diziam as meninas apaixonadas. Bobas. Não sabiam que, no fundo, todos são iguais.
Será?
Antônio, hoje, observa no espelho o que restou de sua plenitude. Agora, no entanto, não podia se levantar. Restaram somente as lembranças da passagem do tempo. As palavras ditas. As bocas beijadas. Os olhares trocados com outras, tantas, muitas mulheres. Os olhos dela. Ela. A mulher que ainda permanecia em pé a seu lado desde o dia em que dera entrada naquele quarto de hospital.
Onde?
Ao redor, rostos, vozes, gestos e observações desconhecidas. E ela continuava por perto, em algum canto distante. Ele não podia vê-la nem tocá-la. Mas seria capaz de descrever, com riquezas de detalhes, a sua sonoridade. Nos atos, nas palavras e no jeito. “Uma pluma que acaricia nossa alma”, comentava com os amigos. Diziam que era fase. Besteira. Ninguém confiava em sua fidelidade. “É só mais uma, rapaz. Você sabe. Quantas outras fazem parte da sua lista de achadas e perdidas?” E os homens gargalhavam das piadas. Antônio analisava, buscava a graça. Mas eles estavam errados. Todos eles.
E ele?
Esticou a mão para tocá-la. Em foto, em carne, em osso, em alma. Os dedos perderam a sensibilidade. “Por isso, não a sinto”, tentava se convencer. E conseguia. Misturava cenas do passado para desenhar o presente e ter a sorte, quem sabe, de traçar um futuro. Ela corria em sua direção para anunciar uma conquista. Comemoravam. Beijos, abraços, histórias. Por vezes, ficava brava. “Tem um gênio de cão”, desabafou com o irmão mais velho, que ria e se espantava com as mudanças do caçula. “Em outros tempos, não restaria nada além de sua impaciência.” O casal gostava de contar seus casos. As impressões de amigos e familiares rendiam risadas e comentários irritadiços. Pela voz, Antônio sabia, com precisão, o que se passava no interior dela.
E a voz?
Era doce. Direta. Ríspida. Agressiva. Cortante. Era? Chafurdava os compartimentos de sua memória para buscar o tom exato da frase que ela diria. Perdia-a. O avanço dos minutos resultava em completo afastamento. Sua mãe lhe contou isso na infância. “Quando uma pessoa morre, esquecemos aos poucos todos os detalhes. É como uma fotografia que o tempo trata de envelhecer e apagar vagarosamente. Ficam os traços do sorriso, o fundo da imagem e, no final, o nada.”
O nada.
Mas, com ela, não. Não poderia ser assim. Uma recordação qualquer. A tarde no parque. O encontro com os parentes. As idas ao cinema que terminavam em discussões quase filosóficas sobre os filmes vistos, inclusive os mais superficiais. Ela encaixava uma teoria para explicar decisões e opções de diretores e produtores. “Como você não entendeu a referência?”. Ela brigava quando tinha que explicar algum ponto obscuro. Os tons. A voz. As frases surgiam em sua cabeça como as frases de um livro de literatura. Um filme mudo. Era nisso que ela se transformara. Em silêncio. Ao lado, a máquina mostrava, agora, o descompasso de seu coração.
A perda definitiva.
Pessoas, vestidas de brancos, posicionaram-se ao redor dele. Via as luzes provenientes de todos os cantos daquele quarto. “Vocês estão me sufocando”, disse. Mas a voz não saia. E seu tom? Mesclavam-se, aos poucos, o homem e a mulher. Os sons desaparecendo. “Aja com cautela”, lembrou-se do conselho do irmão. Dissera isso em vários momentos de sua vida. “Ajo, Sandro. Mas o que faço agora?” A boca aberta ecoava o vazio. Buscava o timbre exato para cruzar com o dela.
Cautela.
O sorriso. Os dentes levemente amarelados devido aos maus hábitos. E Antônio gostava. Sentia prazer ao ver as imperfeições dela. Estava acostumado à rouquidão que, no início, havia estranhado. “E agora, Sandro?” Mãos diversas, cores diferentes, tocavam o peito dele. As luzes pareciam mais fortes. Sentia-se leve como há tempos não conseguia. Paz. Nirvana. Atrás daquela confusão de dedos e expressões, o sorriso dela. A voz tomou conta do ambiente. Límpida. Clara. Sonora. Sorriu em compreensão. Desejou encostar os lábios nos dela, mas aguardaria. Não demoraria muito mais. Passado e presente em comunhão para traçar, com sorte, o futuro.
O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), sem sua inabilitação política, foi golpe? De quem? Em visões opostas, mas complementares no uso da História, deram suas análises os jornalistas Ricardo André Vasconcelos e Mary Zaidan.
A primeira, após longo silêncio, traz faca entredentes no “nós contra eles”. A segunda é sutil ao revelar contra quem.
Aqui e aqui, confira ambas nas transcrições abaixo:
Ricardo André Vasconcelos, jornalista
Cunhas, Aécios e Temers: A lata de lixo da história vos espera
Por Ricardo André Vasconcelos
Em primeiro de abril de 1964, a auréola do poder que se prometia eterno ornava as cabeças dos civis e militares que derrubaram o presidente João Goulart. Magalhães Pinto, Carlos Lacerda e a maioria das empresas de mídia se uniram aos militares para interromper, por duas décadas, as reformas de base que o então Brasil entre agrário e industrial exigia. Atrasaram o país em pelo menos 50 anos. Dez anos antes, haviam tentado o mesmo levando ao suicídio o presidente Getúlio Vargas, a um ano e quatro meses do fim de seu mandato conquistado nas urnas.
O golpe parlamentar, perpetrado hoje em Brasília, não é pois novidade e muito menos original. “Ódio velho não cansa”, ensina o sempre saudoso Adão Pereira Nunes. Mesmo que Vargas, Goulart e Dilma tenham cometidos seus pecados, o que justifica a interrupção de seus mandatos não são esses pecados, e sim a absoluta incapacidade das elites brasileiras de se contentar com muito que lhe dão. Elas querem tudo.
Vargas foi chamado de “pai dos pobres e mãe dos ricos”, Jango talvez tenha sido o que menos tenha agradado aos poderosos; e Dilma, como Lula, encheu até não mais poder as burras dos banqueiros e congêneres. Então, por que as elites — termo para o qual torcem o nariz os genuínos integrantes e os aspirantes a elas — teriam conspirado contra um governo legítimo para instalar um bando de sanguessugas nos gabinetes do Planalto? Porque justamente mais o tudo não lhes bastam. Querem impedir qualquer possibilidade histórica de ascensão das classes estacionadas abaixo delas.
Financeira e ideologicamente falando, o Brasil entra hoje numa pauta político-econômica mais retrógrada do que tínhamos há 40, 50 anos, sem falar nos direitos sociais ameaçados de sumir pelo ralo e uma agenda conservadora-religiosa de provocar engulhos. As manchetes dos jornais desde o final de semana já adiantavam os programas “modernizantes” que privatizam hospitais, escolas e creches. Querem o que dá lucro e as despesas sociais que vão para iniciativa privada para que cobrem o quanto quiserem e, assim alijar qualquer possibilidade de ascensão social das camadas mais pobres. Bye-bye classe média.
Quem viver verá o retrocesso. Mas como a história é caprichosa e cíclica, verá também que ela reserva para a sua fétida lata de lixo, personagens como Cunhas, Aécios e Temers que, por má-fé política ou pura ambição financeira, participaram do ardil que culminou com o impeachment da agora ex-presidente Dilma Rousseff. Mas não estarão sozinhos, porque dividirão a lata de lixo da história com gente como Magalhães Pinto, Carlos Lacerda, Costa e Silva, cuja mão assinou o Ato Institucional nº 5, e toda a sórdida gente que há cinco séculos teima em impedir a emancipação do povo brasileiro.
Bom apetite para vocês e paciência para nós.
Mary Zaidan, jornalista
Foi golpe
Por Mary Zaidan
Cassada por 61 dos senadores, sete a mais do que Constituição determina, Dilma Rousseff não preside mais o Brasil. Tudo dentro dos conformes. Ou nem tanto. Por 36 votos foram mantidos os seus direitos políticos, possibilidade aberta por decisão mais do que polêmica do presidente da Suprema Corte, Ricardo Lewandowski. Algo digerível na política, acostumada a negociatas aqui e acolá, mas que causa espanto jurídico. E consequências nefastas.
Depois de ser elogiado nos meios jurídicos e políticos pela condução impecável da sessão do impeachment iniciada na quinta-feira, Lewandowski cedeu a um acordo bem tramado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, e o PT. Turvou o processo que tão bem havia conduzido. E maculou a sua história.
De Lewandowski, e só dele, pode ser cobrada a estapafúrdia permissão de que fosse apreciada uma modificação na Constituição sem quórum qualificado, sem convocação para tal e em votação única.
Em sua defesa, nem mesmo poderá dizer que foi surpreendido pela questão de ordem feita pelo PT durante a sessão. A peça que preparou para autorizar o estupro à Constituição havia sido cuidadosamente elaborada. Tinha páginas e páginas, referências, citações. Uma indecência.
Com isso, pela primeira vez na História, um dispositivo constitucional foi alterado pelo voto de menos da metade dos senadores, abrindo-se precedentes perigosíssimos. Não só para futuras cassações — a bancada pró Eduardo Cunha que o diga —, mas também ao rito de alterações na Carta Magna, que exige aprovação em comissão especial e de dois terços da Câmara e do Senado em duas votações.
Na sessão do dia 31 de agosto, o Senado cassou Dilma Rousseff por crime de responsabilidade. Constitucionalmente. E, irresponsavelmente, afrontou a lei maior do país com o aval e estímulo do presidente da mais alta Corte. Atentou contra a Constituição. Golpeou-a.
Consumado o impeachment constitucional da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) no Senado, por 61 votos a 20, mas paradoxalmente mantidos seus direitos políticos, por 42 votos e 36, com duas abstenções, roncararam com força as trovoadas da tempestade de boçalidades e ressentimentos — tanto para expressar contrariedade, quanto comemoração — que desabou na democracia irrefreável das redes sociais.
Para quem entende um pouco de política, chega a ser irônico observar os “especialistas” de ocasião, como acontece com o futebol em época de Copa do Mundo, opinando na pretensão de justificar “tecnicamente” os pitacos mais ingênuos. Como quem tenta afirmar que se Dilma não recebeu a pena da inabilitação política, como o senador Fernando Collor de Mello (PTB) quando afastado da presidência em 1992, é porque a ex de hoje não seria culpada do crime pelo qual acabou de ser condenada.
Ao largo dos quereres meramente pessoais, quem sabe enxergar o jogo jogado vê nessa aparente contradição a manobra clara do presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB), visando depois conceder ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB) a mesma indulgência ora ofertada a Dilma. E quem hoje comemorou a “aliviada” de Renan com Dilma, certamente se investirá da moral seletiva dos jardins de infância para amanhã condenar a repetição da mesma leniência com Cunha.
Mas, filtradas do lixo afunilado à tampa do bueiro durante as tempestades, as redes sociais também podem estiar o pensamento com alguns textos que, independente da toada, conseguem dar profundidade à discussão entre causas e consequências. Entre eles, o blog pede licença ao reproduzir dois, para endossar a mesma aposta que ambos fazem com argumentos distintos: Dilma não volta mais, mas o que a tirou do poder ainda está longe de ter fim.
Publicadas originalmente aqui e aqui, a primeira análise, mais sucinta, é do cientista social campista George Gomes Coutinho. A segunda, mais longa, é do jornalista carioca Pedro Doria. Vamos a elas:
George Gomes Coutinho, sociólogo e professor (Foto: Reprodução de Facebook)
2018 promete mais que o visto em 2014
Por George Gomes Coutinho
O que eu posso dizer neste momento é que as consequências da votação do Senado não se encerraram. O que finda de fato neste momento é o pacto subserviente da centro-esquerda simbolizada na “Carta ao Povo Brasileiro” de 2002. Os agrupamentos que patrocinaram o MBL e congêneres não se mostraram confiáveis, como assim sempre foi em toda nossa História, nem como aliados de ocasião. Por fim, a agenda de retrocessos graves proposta pelo mercado e que devem ser levados adiante pelo governo Temer, promete eleições em 2018 ainda mais tumultuadas do que as que vimos em 2014. A caixa de pandora do impeachment aberta em 1992 como solução legítima para impasses entre legislativo e executivo apenas adquiriu a conotação mais farsesca e trágica neste 31 de agosto de 2016.
Pedro Doria, jornasta e escritor (Foto: Reprodução do Facebook)
O impeachment de Dilma na História
Por Pedro Doria
Apesar de inúmeras denúncias, quando o julgamento pelo Senado do impeachment do presidente Fernando Collor chegou ao fim, só havia uma acusação devidamente comprovada. Um Fiat Elba utilizado pela primeira-dama Rosane Collor fora pago com o cheque de uma conta fantasma controlada pelo ex-tesoureiro de campanha, Paulo Cesar Farias.
Para que o impeachment termine com condenação, é preciso enquadrar o presidente da República em um dos itens listados pela lei 1.079, promulgada em 10 de abril de 1950. É ela que determina quais os crimes de responsabilidade cometidos pelo chefe do Executivo.
Collor foi enquadrado em artigos frágeis:
O artigo 8º, inciso 7: “permitir, de forma expressa ou tácita, a infração de lei federal de ordem pública” e
O artigo 9º, inciso 7: “Proceder de modo incompatível com a dignidade, a honra e o decoro do cargo”.
Quebra de decoro é, no fim das contas, tudo aquilo que os parlamentares concordarem estar em desacordo com o comportamento esperado. O atentado à ordem pública vem de ter violado as normas de conduta dos servidores da União. Collor se beneficiou do poder inerente ao cargo que ocupava.
O enquadramento é frágil porque, no fim das contas, deputados e senadores, se assim o desejarem, poderão encontrar motivos para enquadrar qualquer presidente em ambos os artigos.
Hoje, o Senado Federal decidiu pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Hoje, história não é passado. Ela está em curso. O impeachment de Collor não foi polêmico. O de Dilma, é.
O artigo da lei 1.079/50 no qual ela foi enquadrada não existia no tempo dele. É um artigo que entrou, através da Lei de Responsabilidade Fiscal, no ano 2000.
Artigo 10, inciso 6: “Ordenar ou autorizar a abertura de crédito em desacordo com os limites estabelecidos pelo Senado Federal, sem fundamento na lei orçamentária ou na de crédito adicional ou com inobservância de prescrição legal”.
São as pedaladas fiscais.
O governo deposita, mensalmente, um valor aproximado em bancos públicos como Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. É para que sejam pagas pensões, bolsas e outros tantos benefícios. Às vezes ocorre de faltar dinheiro. Entre 2014 e 15, o governo Dilma deixou acumular este buraco por vários meses, chegando à cifra total de R$ 40 bilhões.
Fez isso por motivo político.
A contabilidade da União e a dos bancos públicos segue regras distintas. Assim, nos balanços, durante um período o valor que ainda não havia sido pago aos bancos já era documentado como sanado. E o dinheiro que não saíra dos cofres do governo não apareceu como ausente. Tudo estritamente legal. E, principalmente no caso de 2014, ano eleitoral, fez parecer que a economia do país estava melhor do que a realidade.
O Tribunal de Contas da União, ao avaliar a prática, decidiu que estava configurada uma operação de crédito. Que, de forma disfarçada, o governo tomou dinheiro emprestado aos bancos públicos. Estaria, assim, enquadrado num crime de responsabilidade passível de impeachment.
É uma interpretação.
A lei é de 2000. A defesa da presidente Dilma Rousseff argumenta que prática similar ocorreu nos últimos anos do governo Fernando Henrique, durante todo o período Lula e nos primeiros anos de Dilma. O TCU jamais havia feito qualquer questionamento. Tem, dizem os defensores, o direito de mudar sua interpretação. Mas, se há mudança, não pode condenar retroativamente.
O que os acusadores dizem, porém, é que as manobras de 2014 e 2015 são diferentes. O volume da dívida acumulada foi muito maior do que jamais fora feito e o Executivo demorou muito além do razoável para cobrir o buraco.
O governo, assim, aproveitou-se do fato de controlar os bancos públicos para, em momentos que politicamente o interessavam, disfarçar a real situação das contas públicas. Justamente a prática que a Lei de Responsabilidade Fiscal coíbe.
A defesa tem contra-argumento. O problema, o TCU parece definir, não é a prática, mas o volume e o prazo. Se havia teto, era preciso definir antes.
A acusação responde, em essência, que o governo se faz de esperto. Manipulou as contas aproveitando-se do que percebia como brecha na lei.
Impeachment é um bicho raro. É um julgamento no qual os juízes são políticos, não magistrados. É um julgamento no qual quem interpreta a lei é o poder mais político dentre os três. O Legislativo. Juízes, na dúvida, inclinam-se a favor do réu.
A polêmica não é difícil de compreender. É uma matéria de interpretação que pode ser argumentada de uma forma ou de outra. A pena, porém, não é pequena. É imensa: a perda do mandato de presidente da República. Entre uma interpretação possível e a outra, a consequência é imensa.
Paulo Brossard, que escreveu um estudo memorável sobre o impeachment, defendia que o texto da Constituição dava margem à polêmica. Para ele, “crime de responsabilidade” deveria ser substituído por “infrações políticas”. Assim ficaria claro o que o impeachment de fato é. Um julgamento político.
Em espanhol, aliás, chama-se juicio politico. Quando se torna incapaz de negociar ao menos um terço dos votos de uma das duas casas parlamentares, qualquer presidente da República se expõe à perda do próprio mandato. Ele perdeu, em essência, sustentação no Legislativo.
Foi o que ocorreu com Dilma Rousseff. Ela perdeu a capacidade de se sustentar politicamente e, assim, perdeu o mandato. A interpretação de que houve crime de responsabilidade é legítima. A interpretação de que não houve, idem. O que define é a política.
Mas Dilma é diferente de Collor. Porque, diferentemente de Collor, que não tinha um partido de verdade, Dilma tem. E o PT não perdeu por completo sua base de apoio na sociedade. Ela diminuiu incrivelmente por conta dos escândalos de corrupção e da terrível gestão econômica. Só que ela existe. E política, como já antecipava Alexander Hamilton ao inventar o impeachment, desperta paixões.
Seus partidários não se conformam. Percebem que, no Judiciário, talvez o resultado fosse distinto. É possível. Mas, no Senado, o julgamento é inevitavelmente político. O fato de ser político não o torna inconstitucional. Pelo contrário: é a própria Constituição, ao escolher Câmara e Senado para o processo, que determina um julgamento político.
Dizem que a história condenará os que cassaram Dilma Rousseff.
É impossível dizer como a história lerá nosso tempo. Mas é possível afirmar que a história não verá o impeachment apenas pelas pedaladas. Quando historiadores se debruçarem sobre este 31 de agosto de 2016, não vão isolar o impeachment por si e apenas. Observarão o contexto. E o contexto, no mínimo, começa em julho de 2013. Inclui a inacreditável Operação Lava Jato, esta sim realmente inédita no Brasil. Perceberão a crise econômica que se estabeleceu, tomarão nota do nível de agressividade no discurso político da campanha presidencial de 2014. Não se esquecerão que apenas três milhões de votos separaram Dilma de seu adversário no segundo turno, Aécio Neves, indicando um país polarizado, dividido, rachado. Perceberão que não foram poucos os políticos, de ambos os lados, a investirem para que as divisões se acentuassem.
O impeachment de Dilma é sintoma da crise de uma maneira de fazer política que derrete perante a pressão popular. E os indícios são de que este período histórico não terminará com o impeachment. Porque não faltam políticos dispostos a aprofundar as divisões. De ambos os lados.
No momento de confraternização entre Lewandowski, José Eduardo Cardoso (PT), Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), na histórica sessão de ontem (29) no Senado, flagrado pela lente de Givaldo Barbosa, não resta margem a nenhum outro tipo de pergunta:
— Contra ou a favor, é por esse tipo de gente que você briga?
Num dos intervalos da sessão de interrogatório no Senado Federal, Lewandowski, José Eduardo Cardoso, Aécio Neves e Dilma Rousseff trocam sorrisos e gentilezas (Foto: Givaldo Barbosa – Agência O Globo)
Três jornalistas e uma professora de educação física. A partir da próxima quinta, dia 1º de setembro, Saulo Pessanha, Paul Vigneron, Camilla Silva e Helô Landim, sucederão o historiador Aristides Soffiati (aqui) como os novos blogueiros hospedados pela Folha Online.
Abaixo, em palavras próprias, um pouco de cada um, bem como o que eles pretendem trazer a você, leitor, nesses novos pontos de encontro virtual. Para começar a conferi-los, basta clicar sobre o layout de cada blog:
O jornalista Saulo Pessanha, 66 anos, está há algumas décadas militando na imprensa de Campos. Ele assina duas colunas na Folha da Manhã. Na blogosfera, está voltando, depois de quase dois anos fora do ar. Saulo debutou na profissão em A Notícia, então sob o comando de Hervé Salgado Rodrigues, em 1969. Ao longo da carreira, foi correspondente da revista Placar, do Jornal dos Sports e da Ùltima Hora. Fora do jornalismo, foi dono de bar — o Bar Doce Bar, ponto de boêmios e intelectuais na noite de Campos, nos anos 1970. Também escreveu livros: “A Imprensa de Campos pelo avesso — 400 gafes e pérolas” e “Anedotário Político — 400 casos de Campos e adjacências”, volumes I e II.
Trabalho, há aproximadamente dois anos, como repórter da Folha Dois, caderno de cultura da Folha da Manhã. Junto a essa tarefa, publico, quinzenalmente, contos no blog Opiniões. E, agora, também a convite de Aluysio Abreu Barbosa, compartilharei com os leitores textos, jornalísticos e literários, por meio do blog Vigneron.
Diante da avalanche de notícias a que somos submetidos diariamente, a ideia é que a página virtual, que estará no ar em breve, possa ser um meio de filtrar e analisar fatos do cotidiano sobre assuntos diversos, principalmente quanto à área cultural. O espaço será utilizado, também, como meio para divulgação de interessantes produções, tanto locais quanto nacionais, relacionadas à literatura, música, teatro e cinema.
A nossa opinião pode ter inumeráveis tons de cinza. Nós podemos defendê-la com todos os argumentos que tivermos. Os argumentos podem ser variados, às vezes, até antagônicos e inteiramente válidos. Eles só não podem ser falsos. O blog Preto no Branco nasceu com a intenção de desfazer boatos, mentiras criadas e difundidas, respostas duvidosas de assessorias, entre outros. A ideia é que ele também tenha um espaço para opinião, devidamente identificado. É bem certo que verificar informações é a função básica do jornalismo. O blog é, portanto, apenas uma extensão do trabalho da redação de todos os dias.
Graduada em Educação Física ,docente I do Governo do Estado do Rio de Janeiro . Especialista em Gerenciamento de Projetos — MBA Gerenciamento de Projetos pelo Isecensa, expertise na gestão de programas de atividade física e saúde com ênfase na Gestão do Envelhecimento Saudável. Especialista em Qualidade de Vida e Gerontologia pela Faveni e aluna de Iniciação Científica do Mestrado em Educação Física da Uerj.
O blog Vida Ativa, hospedado na Folha da Manhã, tem por objetivo difundir e dialogar com os leitores sobre as questões que cercam envelhecer no mundo , no Brasil e especificamente em campos dos Goytacazes. Conversaremos sobre envelhecimento ativo, a importância da atividade física para a longevidade e as políticas públicas que são realizadas com essa finalidade, além é claro do exercício da cidadania no cumprimento da legislação que envolve o idoso no país.
Bazófias. A realidade transmitida pelos meios de comunicação, sobretudo os de apelos visuais como a televisão e a internet, nos enche de bazófias. Olhemos para o buraco onde vivemos. As redes sociais digitais nos presenteiam quase exageradamente com bizarrices diárias a cada minuto. Em Campos, assistir ao casal Garotinho falar sobre os adversários de eleição e questionar quem tem competência para tirar o município do buraco é uma amostra de bizarras bazófias. A gravação tem sido compartilhada aos borbotões. Uma zorra, misto de humor e espanto o discurso que não para se ser replicado pelos internautas ávidos por uma ciberinquisição sempre. O casal queima no espaço nestes dias, assim como o prefeito carioca, Eduardo Paes, que durante solenidade, disse em vídeo vazado na rede à uma mulher negra e pobre que recebeu dele uma casa popular: “trepe muito aqui”. Com a internet, morrer pela boca ficou mais rápido e fácil.
Pode ter sido um ato falho, mas em análise do discurso, Maingueneau poderia nos dar uma aula sobre a postura e a fala dos governantes que se expõem em um vídeo caseiro cheio de riscos cínicos para uma eleição. Se Campos está ou não no buraco, resta saber se o resto do Brasil se mudou para a Lua cheia de crateras incontáveis. Constato que política, moral, econômica e eticamente estamos a quase sete palmos abaixo da superfície, com uma pá de cal pronta para ser usada a qualquer instante. Se nossos políticos vão mal de discurso, imaginem a população. Votar em quem e para quê, caras pálidas de pau com cal e óleo de peroba?
Por falar em eleições municipais, me pediram para citar os números de outros candidatos de Campos pelas cartas do tarô, além do Louco (22), Enforcado (12), Diabo (15) e a Morte (13) que disputam. Vamos lá. O PP que tem o número 11 representa a Força (não confundir com forca). O número 35 do PMB é a carta do Desconsolo. Já o 23 do PPS é a carta do Lavrador. Estes são apenas trocadilhos que nada têm a ver com jogo de buraco, mas quem souber jogar… Entretanto, se dependermos do jogo da propaganda política na tevê, no rádio e na internet, posso afirmar que os concorrentes a prefeito e a vereador estão bem fraquinhos e pouco convincentes. Em tempos de crise, contratar marqueteiro ficou difícil. Então, que tal realizar um “vivo” pelo Facebook ou Whatsapp agora? Ai, que medo.
Falta pouco para saber se o buraco da Dilma Rousseff é mais embaixo, em cima, mais ao centro, à direita ou à esquerda. Enquanto o país aguenta um governo tampão que substitui interinamente um governo ruim (porém legítimo eleitoralmente, apesar de indefensável), caminhamos para o enterro político da presidente afastada, e quiçá, da era lulista que encheu o Brasil de orgulho, esperança e prosperidade. Porém, estas conquistas foram reduzidas a quase pó nos últimos tempos pela ganância, mentira e pela corrupção dos nossos políticos que nós brasileiros fingimos não possuir, mas que adoramos criticar naqueles que elegemos de quatro em quatro ou de dois em dois anos. Para governar e se manter nos cargos políticos, dizem, mentir é mais que necessário. É criar ou inventar verdades que nunca existiram ou existirão, coisas como fazer boi voar e galinha ter dentes. Temos políticos bem criativos. Enquanto uns fritam Dilma sem batatas, outros a dilaceram e a servem crua mesmo, com sangue escorrendo, inclusive alguns de seus companheiros de partido que carregam bandejas com Dilma em pedaços. Na política, trair, mentir e coçar, é só começar.
Eu não sou como Regina Duarte, mas tenho medo. Temo o ódio e a intolerância, independentemente de partido (se é que temos alguma ideologia nesse aspecto). Temo o fanatismo religioso misturado às questões políticas, igrejas cristãs que levantam bandeiras de guerra aos adversários contrários de qualquer segmento e que são apoiadoras de candidatos políticos suspeitos ou fichas-sujas. Depois que a Igreja se separou do Estado há séculos, estamos retrocedendo em massacres e discriminações medievais, pois a ignorância e a cegueira são tamanhas nos templos, apesar de tanta informação, internet e todas as mídias. Em um país com 13 milhões de analfabetos, saber ler e interpretar texto é quase um milagre. Brasileiro é um preguiçoso adorável, macunaínamente falando, e que adora pecar pela omissão, praticamente um vício.
Andam confundindo políticos com Deus. “Feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”, diz o Salmos 33. Campos e o Brasil são democráticos ou teocráticos? Em regimes teocráticos como o do Irã, ser contrário a um aiatolá é mortal. Em algumas cidades brasileiras, o risco de morte também existe, pois poder e dinheiro em jogo fazem a gente matar mãe e filho e chorar sua morte sem remorso, quiçá a de um inimigo. Temos nos comportado como os radicais muçulmanos que vêm espalhando terror pelo mundo, maculando a verdadeira face do islamismo. Temos alimentado a discriminação de quem se veste ou pensa e age diferente de nós. Até governantes da França, berço de revoluções humanistas vem cerceando a liberdade de expressão das mulheres muçulmanas, querendo obrigá-las a tirar o véu e o burkini — traje típico de banho público e esporte feminino, pois qualquer um pode ser suspeito de terrorismo. Temo a demonização dos ateus e oposicionistas e críticos a qualquer governo. Temo a censura e a opressão das autoridades no Brasil e no mundo afora. Exagero meu? Pode ser. Ou, é a utopia, talvez distopia, nossa de cada dia. Temer ou não temer: eis a questão que pode nos deixar no buraco para sempre. Mas quem verdadeiramente se importa?
Nos últimos dias, o Brasil perdeu três personalidades notáveis (não vou citar João Havelange, apesar de saber a importância de seu legado). Refiro-me à atriz Elke Maravilha, símbolo de arte, cultura, beleza, amor, humor e inteligência que assisti desde criança na televisão, no cinema, nas entrevistas e nos espetáculos. Quem quiser pensar em ser uma pessoa melhor e cheia de sabedoria, procure acessar os muitos depoimentos e participações de Elke disponíveis na rede. Sua essência e profundidade podem nos ajudar bastante antes de cairmos de vez no buraco escuro da morte. Perdemos também o jornalista Goulart de Andrade, um mestre que sabia tudo de televisão e entrevistas em comandos pela madrugada. Muitas vezes, quando ele dizia, “vem comigo”, eu fui.
Outro jornalista mestre que partiu foi Geneton Moraes Neto. Hoje, antes de escrever este texto, assisti a uma de suas corajosas entrevistas-dossiê com o general Newton Cruz, símbolo da repressão no período de ditadura militar brasileira. Fiquei pensativo e impactado ao ver como temos políticos eleitos democraticamente e que agem e se comportam feito o polêmico Cruz, um militar inteligentíssimo disposto a tudo para abater oponentes ou opositores. Ele foi retrato de uma memória triste e desumana do Brasil que ainda nos caracteriza. Nossa arrogância e nosso abuso de autoridade nos entregam dentro e fora dos buracos. Como mudar isto? Estou pensando na resposta. Sobre a perda de Geneton, o cantor Caetano Veloso resumiu: “Quando morre um bom jornalista, a verdade fica mais triste”. Pois é. “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, canta o poeta Vinicius de Moraes.
Ontem, nas tribunas ao lado de um ex-presidente Lula (PT) indiciado pela Polícia Federal por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, para assistir ao ato final do julgamento do impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff (PT), o compositor Chico Buarque deve ter pensado no conselho dado por ele, mas ignorado, logo que os petistas chegaram ao governo federal: que criassem o ministério do “vai dar m(…)!”.
O que se sabe
Não se tem notícia se nenhum grande compositor local deu esse mesmo conselho ao casal que governa a cidade de Campos. O que se sabe é que todas as pesquisas (aqui e aqui) registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — mesmo aquelas (aqui) que os interesses rosáceos escondem, mas a Folha revela — indicam a existência de segundo turno. E não é segredo para ninguém que ganhar em turno único era a grande aposta do marido e secretário de Governo da prefeita Rosinha Garotinho (PR), Anthony Garotinho (PR).
Rosinha, Campos e o buraco
Pressionados pelo desgaste natural desses quase oito anos de governo, sobretudo pela desastrosa gestão do segundo mandato, Rosinha e Garotinho resolveram aparecer (aqui) juntos, num vídeo viralizado nas redes sociais, no final da última semana. Nele, ao lado de um Garotinho de sorriso tão amarelo, quanto mal disfarçado, Rosinha admite: “O que você faria de diferente, por exemplo, para tirar Campos do buraco?”.
Já deu m(…)!
Se Campos está no buraco, o que não dá para fazer diferente é eximir de responsabilidade seu casal de governantes na “m…” buarqueana na qual enfiaram a terra dos grandes sambistas Wilson Batista (1913/68) e Geraldo Gamboa (1930/2016). E quem acha que a reversão desse quadro é possível com a prática que foi alvo de duas operações da Justiça Eleitoral — (aqui) num galpão da Alberto Lamego, no domingo (28), e (aqui) numa auto-escola em Travessão, ontem (29) — talvez valha a pena observar o rigor da lei com Lula e Dilma para saber que “m…” muito maior ainda pode estar por vir.
Tentativa
O discurso de Dilma Rousseff na tentativa de defender seu retorno ao governo até que foi considerado bom pela mídia nacional e internacional. Entretanto, dificilmente conseguira reverter o resultado final do processo, que tende a terminar até amanhã. Para voltar ao comando da nação, Dilma precisa do apoio de 28 dos 81 senadores. Na última votação do processo, no início deste mês, teve apoio só de 21.
No Açu
Mesmo em período de crise, o Porto do Açu tem divulgado notícias positivas. Ontem, por exemplo, teve início a primeira operação de transbordo de petróleo. Nos tempos de Eike Batista, muito foi especulado sobre o futuro e o conceito de “porto indústria” do complexo sanjoanense. Agora, tudo caminha para que o Porto volte mesmo sua atenção para o setor petrolífero, devido ao posicionamento estratégico para atendes as bacias de Campos e Santos.
Dinheiro
Segundo calendário divulgado pela Prefeitura de São João da Barra, amanhã é dia de pagamento dos servidores. Com número de funcionários bem menor que Campos, o pagamento é feito em apenas um dia. Os campistas começaram a receber ontem e os depósitos prosseguem hoje e amanhã.
Se a corrida pela Prefeitura de Campos pudesse ser medida pelo interesse que as entrevistas dos seis candidatos na geraram aos leitores da Folha Online, site mais lido em Campos e no interior do RJ, os resultados seriam um pouco diferentes do que apontaram as últimas pesquisas de opinião registradas (aqui, aqui e aqui) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a sucessão de Rosinha Garotinho (PR).
Entrevista de Pudim feita em 22 e publicada em 23 de agosto, foi a mais acessada entre os seis candidatos a prefeito de Campos (Foto: Michele Richa – Folha da Manhã)
Bem verdade que pode não por critério de intenção de voto, mas do interesse natural pelo ex-aliado que deserta e passa a atacar o grupo que seguiu por mais de 30 anos. Todavia, a entrevista que mais gerou interesse do leitor foi (aqui) a de Geraldo Pudim (PMDB). Somados os 2.215 acessos que a matéria teve na Folha Online no dia 23, em que foi publicada, mais os 1.024 do dia seguinte (24), a sabatina de Pudim somou 3.239 visualizações.
Entrevista de Rafael Diniz feita em 25 e publicada em 26 de agosto, foi a segunda que mais gerou visualizações na Folha Online (Foto: Michelle Richa – Folha da Manhã)
Em segundo lugar, ficou a entrevista de Rafael Diniz (PPS). Publicada (aqui) no dia 26, teve nele 1.619 acessos, acrescidos aos 636 do dia seguinte (27), totalizando 2.255 visualizações. Em terceiro veio Caio Vianna (PDT), cuja entrevista (aqui) somou 1.599 visualizações nos dois primeiros dias — 889 no dia 27 e 700, no dia 28.
Entrevista de Caio Vianna (à dir.) feita no dia 25 e publicada dia 27, foi a terceira em visualização na Folha Online do jornal (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Em quarto ficou Rogério Matoso (PPL), que teve a entrevista (aqui) acessada 775 vezes no dia 24 e 390, no dia 25, somando 1.165 visualizações. A quinta colocação coube (aqui) a Nildo Cardoso (DEM), com 990 visualizações nos dois primeiro dias — 615 no dia 25 e 375, no dia 26.
Ao lado do vereador Paulo Hirano (PR), a entrevista dada Chicão foi a que menos gerou acessos entre as seis publicadas na Folha Online (Foto de Michelle Richa – Folha da Manhã)
A entrevista que menos gerou interesse do leitor da Folha Online foi a do candidato governista, Dr. Chicão (PR). Bem verdade que, embora a edição impressa dos jornais de domingo costume ser sempre a mais lida, o fenômeno é inverso nas versões online. Isto ressalvado, a sabatina de Chicão, publicada (aqui) no domingo de ontem gerou, por enquanto, apenas 864 acessos — 595 no dia 28 e 260, até agora, neste dia 29.