Carol Poesia — Queima filme total

 

(Foto de Diomarcelo Pessanha)

Eu não vou defender a liberdade do ex-presidente Lula e nem vou apoiar a sua prisão. A gravidade do impasse em questão não se resume a concretizar a condenação ou não, o que mais chama a atenção é a arbitrariedade do Supremo – oscilando entre cumprir o que estava determinado pela Constituição de 88 ou não, dependendo do condenado da vez.

Em 2009, a Corte proibiu a execução provisória da pena, ao julgar um condenado pela Justiça de Minas a sete anos e meio de prisão por homicídio. O réu, que era rico, recebeu habeas corpus, por 7 votos a 4. Os ministros vencidos foram Menezes Direito, Carmém Lúcia, Joaquim Barbosa e Ellen Gracie.

Em 2016, o Supremo voltou atrás no “combinado” de 2009, e autorizou a prisão de um condenado a cinco anos e meio de encarceramento por roubo.

Agora, mais uma vez, o retorno da pauta – executa-se ou não prisão após condenação pela segunda instância da Justiça Federal?

Justiça? Que Justiça? Para quem? Essa “roleta russa” é uma vergonha sem fim! Assistimos, em tempo real, a falta de critérios das maiores autoridades do nosso país. Depois de tantos escândalos e vergonhas escancaradas pela Lava a Jato, solturas descaralhadas realizadas pelo embuste (Você sabe quem!) que tanto nos indigna, esse habeas corpus à moda lotérica enterra de vez a moral dos abutres do Judiciário.

Enganam-se meus poucos alunos que cursam Direito com o sonho e fazer justiça. Vivemos em um país sem lei. Como fazer justiça? Os outros muitos, que optam pela carreira por causa dos concursos, saibam que nos processos seletivos também há corrupção. Mas sobre esses “detalhes” vocês tem menos inocência do que eu.

Desculpem, vou parar por aqui. Ando sem esperanças e não gosto de escrever assim.

Fiz campanha para Lula, antes de poder votar. Lembro-me de uma briga no colégio porque um colega de turma (de nome Getúlio, curiosamente) rasgou a capa do meu fichário, que continha um grande adesivo com a estrela vermelha. Eu tinha 15 anos, nem votava ainda. Com 16, fui no ônibus do Cefet (atual IFF), para o Rio fazer passeata pelo PT. Eleitora, votei no ex-presidente em todas as eleições das quais participei. E, como muitos brasileiros, chorei honestamente com a sua vitória.

Diante da falência do sistema judiciário do país – arbitrário, aleatório, recheado por interesses que não são o de justiça, corrupto e cheio de baixezas (não podemos esquecer das infâmias pós-morte Marielle) — Lula preso ou livre já não é uma questão urgente. Alguém me conta depois. Com ele ou sem ele, não vejo futuro nas próximas eleições.

 

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Chico Alencar em Campos na sexta para bater papo e lançar biografia

 

Deputado federal e pré-candidato do Psol ao Senado, Chico Alencar vem a Campos nesta sexta para lançar livro (Foto: Assessoria)

Nesta sexta, dia 6, a partir das 16h, o deputado federal Chico Alencar (Psol-RJ) vai estar no Calçadão de Campos dos Goytacazes, próximo ao Pelourinho, para bater um papo sobre a conjuntura. Intervenção Militar, Fake News, Reforma Trabalhista e da Previdência, Intolerância e a execução da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) estão entre os temas que o parlamentar deve abordar junto com propostas e perspectivas de superação e transformação das mazelas que o Estado do Rio, em especial, vem sofrendo. Em seguida, às 18h, a Editora Ilustre lança no Sindicato dos Trabalhadores em Saneamento (Staecnon) a biografia “Chico Alencar — Caminhos de um aprendiz”, editada por financiamento coletivo com a ajuda de mais de 400 colaboradores. As atividades têm apoio do Núcleo José do Patrocínio.

A biografia, escrita pelos jornalistas Pedro de Luna e Marcelo Movschowitz, é um livro imprescindível para entender o Brasil de hoje, resgatar a dimensão cidadã da política e recobrar esperanças para a construção de uma sociedade justa e fraterna. Caminhos de um aprendiz não relata apenas a vida social e política do biografado. Sua história pessoal, seus amores, dos quais nasceram quatro filhos, ali também estão. Tudo isso embalado por muita arte, música e literatura, referências presentes em seu dia a dia.

“Podem esperar o relato franco e sincero de uma história de vida de um brasileiro comum, da geração que resistiu à Ditadura e que trabalha para construir a Democracia, de fato”, declara Chico Alencar.

O livro conta com depoimentos muito francos do cantor Milton Nascimento, Luiza Erundina, Cristovam Buarque, Saturnino Braga e Marcelo Freixo, entre outros – inclusive adversários políticos, como Ronaldo Caiado. Conta também com caricaturas de Aroeira, Paulo Caruso e Ziraldo. O projeto gráfico é do Estúdio Malabares, sob os cuidados da designer Ana Dias, a segunda dos quatro filhos de Chico. O livro é vendido pela editora apenas pela internet e em eventos de lançamento.

 

HISTÓRIA – Antes de ocupar o quarto mandato consecutivo como deputado federal, Chico Alencar percorreu um longo caminho. A liderança surgiu naturalmente no grêmio escolar, despontou no movimento das associações de moradores e culminou em sua primeira atuação político-partidária, quando elegeu-se vereador e, depois, deputado estadual. Mas no meio do caminho havia pedras, entre elas as derrotas nas duas eleições que disputou para prefeito do Rio.

Certo é que da infância feliz na então capital federal e no interior, marcada pelos valores e limitações da educação religiosa da época, à juventude reprimida pela ditadura militar, passando pelo ingresso na Universidade Federal Fluminense (UFF), onde se descobriu professor de História, o seu trajeto foi agitado e repleto de percalços. Foi peregrinando pelas salas de aula de inúmeros colégios no Rio de Janeiro que confirmou sua vocação como educador e também como escritor. De lá para cá, publicou mais de 30 livros, inclusive infantis, só ou em parceria.

Chico foi considerado por seis vezes o deputado federal mais atuante, de acordo com os jornalistas que cobrem a Câmara (Prêmio Congresso em Foco) e, desde 2006, um dos 100 parlamentares mais influentes do Congresso Nacional pelo DIAP (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). Atualmente é pré-candidato ao Senado.

 

SERVIÇO:

Roda de Conversa e Lançamento do livro Chico Alencar – Caminhos de um aprendiz (428 páginas, Ilustre Editora, R$ 50), de Pedro de Luna e Marcelo Movschowitz e Roda de Conversa sobre Educação.

 

Dia 06 de abril (Sexta)

16h – Roda de Conversa no Calçadão de Campos

18h – Lançamento da Biografia no Sindicato dos Trabalhadores em Saneamento – Staecnon

Rua Marechal Floriano, 147 – Centro

 

Da assessoria do deputado

 

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Antagonista afirma que HC de Lula será dado pelo STF nesta quarta

 

(Foto de Diomarcelo Pessanha, em entrevista exclusiva de Lula à Folha da Manhã)

 

 

 

Lula receberá o Habeas Corpus (HC) do Supremo Tribunal Federal (STF) nesta quarta. E pelo caminho poderão passar (aqui) todos os políticos e empresários encarcerados por crimes do colarinho branco na Lava Jato. Assim como os demais presos “comuns” em condenações de segunda instância.

Um dos cinco ministros favoráveis à prisão só após condenação transitada em julgado — nunca, para quem pode pagar bons advogados e protelar até a prescrição — levantará questão de ordem na sessão. O que seria a senha para Rosa Weber, fiel da balança, definir a questão por 6 votos a 5.

A informação amanheceu (aqui) agora há pouco no site O Antagonista, parcialíssimo em sua cobertura, mas que não costuma dar “barriga” — notícia falsa no jargão jornalístico.

 

 

 

 

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Carla sacode tabuleiro da eleição, mas antes tem eleição da mesa

 

 

 

 

Carla sai ou fica?

Carla Machado (PP) deixará a Prefeitura de São João da Barra (SJB) para se candidatar às eleições legislativas de outubro? E, se o fizer, será pré-candidata a deputada estadual ou federal? Ouvida por jornalistas da Folha da Manhã, a começar pelo sanjoanense Arnaldo Neto, primeiro a divulgar (aqui) a novidade, Carla admitiu a possibilidade. E ao blog “Opiniões”, hospedado no Folha 1, ela disse ontem (aqui) que tomará sua decisão na sexta (06).

 

Federal ou estadual?

Caso decida renunciar para poder assumir uma pré-candidatura, Carla deixou esta aberta: tanto poderia ser à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), quanto à Câmara Federal. Especula-se que por seu partido, o PP, um candidato a deputado estadual precisaria de 40 mil votos para se eleger, enquanto um a federal, de 60 mil. “Embora para deputado estadual pareça ser mais fácil, por precisar de menos votos, você os disputa com mais candidatos. A dificuldade pode ser a mesma”, avaliou a prefeita, evitando falar de números.

 

Marcão e Wladimir

Se decidir mesmo deixar a Prefeitura sanjoanense, que ocupa pela terceira vez, uma coisa é certa: a novidade mexerá com todo o tabuleiro regional às eleições de outubro. Se Carla mirar em Brasília, o principal afetado seria o presidente da Câmara de Campos, vereador Marcão (Rede). Pré-candidato a deputado federal, ele aparecia até agora como o nome regional de maior densidade para disputar uma vaga ao Congresso Nacional com Wladimir Garotinho (PRP). Contra Carla e Marcão, estes dividiriam os votos do sempre popular antigarotismo, enquanto o filho do casal correria sozinho na mão oposta do eleitorado.

 

Dauaire e Machado

Por outro lado, se decidir renunciar como prefeita para concorrer à Alerj, Carla iria afetar diretamente a pré-candidatura à reeleição do deputado estadual Bruno Dauaire (PR, de saída ao PRP). Assim, no lugar de um aliado (Marcão), ela atingiria o jovem representante do clã que há décadas tem como adversário em SJB. Em contrapartida, especula-se a possibilidade do irmão da prefeita sanjoanense e vereador de Campos, Fred Machado (PPS), também  se lançar à Alerj.

 

Força eleitoral

Como dentro ou fora da família Machado ninguém cogita ter dois irmãos disputando o mesmo voto, o vereador Abu (PPS) poderia herdar de Fred a pré-candidatura a deputado estadual — e a tarefa de enfrentar Carla. O que isso significa? Num PT enfraquecido pela fraca campanha do senador Lindbergh Farias a governador, em 2014, para deputada estadual, Carla fez 24.849 votos. Destes, 8.853 foram em SJB, 11.312 em Campos e 2.282, em São Francisco de Itabapoana. Se ela conquistou, respectivamente, 33,7%, 4,6% e 9,6% do eleitorado desses municípios, governados à época por adversários, o que faria agora com três prefeitos aliados?

 

E Rosa?

A questão é: se deixar a Prefeitura para seu vice, Alexandre Rosa (PRB), Carla continuaria tendo nele um aliado? Ela garante que ambos amadureceram, teriam diálogo e não repetiriam os “erros do passado”. De 2009 a 2011, eleito vereador na reeleição da prefeita, Rosa se aliou à oposição e chegou à presidência da Câmara. O acirramento foi tanto que, no verão de 2011, SJB ficou sem promover seus tradicionais shows de verão. Bem verdade que depois ele voltou ao governo, chegando a ser agredido com um soco na cara por quem abandonou. Depois, em 2012, foi eleito como vice de Neco, que rompeu ruidosamente com Carla.

 

Antes, a mesa

Entre lembranças do passado e especulações sobre o futuro, há quem aposte que a posição da prefeita será determinada pelos eventos do curto calendário até a decisão desta sexta. Amanhã, quarta-feira (04), enquanto o país vai parar para assistir ao julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Lula (PT) no Supremo Tribunal Federal (STF), será a eleição da nova mesa diretora da Câmara de SJB. Nela, Carla cobra compromisso dos seus sete vereadores para eleger Alex Firme (PP) à presidência. Na quinta (05), ela terá uma reunião com lideranças partidárias do Rio. E, na sexta, anuncia se continuará prefeita ou não.

 

Publicado hoje (03) na Folha da Manhã

 

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Guilherme Belido — Ninguém queria a Lava Jato, a não ser as ruas

 

Página 12 da edição de 18/03/18 da Folha da Manhã

A força das ruas

Por Guilherme Belido(*)

 

Seria apenas lamentável se, pior ainda, não fosse dramático, que o Brasil, tão afortunado pelas riquezas e belezas naturais, praticamente não tivesse do que comemorar ou se orgulhar.

Exceções à parte, pergunta-se em que segmentos ou áreas de atuação podemos erguer a cabeça e, altivos, manifestar satisfação? Nas obras das Olimpíadas? Nos estádios construídos para a Copa do Mundo ou no desempenho da Seleção? Na queda de Dilma ou ascensão de Temer? Em nossa política ambiental? Na preservação dos rios? No sistema penitenciário? Na área de Segurança ou de Saúde? Na Educação? Pois é! Nem apelando aos píncaros do devaneio podemos se lhes negar o que salta evidente.

No Congresso, o sentimento que nos reporta é de vergonha. No executivo, indagamos do porquê tantos ainda estarem soltos. E na Corte Suprema, nos frustramos pelo vaivém das decisões, pelas disputas internas e interferências políticas, a apequenar aquele que em discurso vazio se diz imune ao apequenamento.

Mas como todo mal é desafiado pelo bem para garantir que não dure para sempre, o Brasil tem, sim, do que comemorar e se orgulhar: a operação Lava Jato, que no mês passado completou quatro anos.

E a questão merece ser sublinhada, lembrada e debatida, posto tratar-se de uma das raras que se coloca incondicionalmente ao lado da sociedade e só pela pressão do povo não se esvaeceu pelo caminho.

Ou estariam os figurões da política, do empresariado, os altos executivos, os dirigentes partidários e demais ‘medalhões’ ombreados com a sociedade em detrimento de seus interesses espúrios?

A pergunta é infantil, para não dizer ridícula. Ninguém queria a Lava Jato. Via de regra, deputados, senadores, governadores, presidentes de partidos, senadores, ministros de estado, ex-presidentes e presidentes da República (assim mesmo, no plural), bem como grandes empreiteiros e altos executivos da maior empresa brasileira rechaçaram com unhas, dentes e discursos a Força Tarefa formada pela Polícia Federal, Ministério Público, Procuradoria-Geral da República, Receita Federal e 13ª Vara Criminal de Curitiba.

Mas a Lava Jato foi sustentada pelo clamor do povo, em seu nome tem sido exercida e só por seu apoio a tão longe pôde ir. Interessante lembrar que em 2016, quando completou dois anos e a artilharia da investigação estava concentrada no PT, foi relativamente festejada. Mas a partir daí, quando começou a se dirigir aos demais partidos, em especial PSDB e PMDB, as pressões para seu esvaziamento foram contundentes.

Mas a sociedade, nas ruas, vendo que a Força Tarefa estava dando resultados até então nunca vistos, bancou a operação. Não uma investigação qualquer, mas a que combatia o maior escândalo de corrupção da história do País, para alguns o maior do mundo.

Daí que todas as manifestações a favor têm relevância singular e devem ser comemoradas de maneira efusiva. Bem entendido, não se desconhece excessos e exageros da Lava Jato. Tampouco que nem sempre o melhor direito prevaleceu e que prisões preventivas descabidas e conduções coercitivas desnecessárias ocorreram. Mas, não há de se cobrar perfeição numa investigação desta envergadura.

Notável – quer em âmbito nacional, quer em iniciativas regionais de um País de extensão continental – a consciência cidadã de expoentes da sociedade que, em suas respectivas áreas de ação, apoiam a investigação que vem colocando na prisão os algozes do Brasil.

Na semana passada, durante o I Congresso Jurídico Uniflu, realizado no auditório da Faculdade de Direito de Campos – lotado por representantes de diferentes categorias classistas –, foi realizado o debate ‘Diálogo sobre a Operação Lava Jato’, com a participação do juiz Eron Simas, do promotor Victor Queiroz, do professor de Direito Antonio Carlos Santa Filho e do cirurgião-dentista Alexandre Buchaul, colaborador do blog ‘Opiniões’, que em recente artigo analisou os caminhos da Lava Jato. A mediação esteve a cargo do jornalista Aluysio Abreu Barbosa, diretor de redação da Folha da Manhã.

Seguindo a tradição de quatro décadas, a Folha não se descuida de por em relevo os temas que expressam os reais e superiores interesses da sociedade.

Não sendo diferente, a Lava Jato tem recebido especial atenção deste jornal, sensível à expressiva importância da Lava Jato para o Brasil e, muito em particular, para o Rio de Janeiro, estado que sofreu como nenhum outro os saques em seus cofres públicos.

No aniversário de 4 anos da Lava Jato, a Folha da Manhã publicou página inteira, intitulada ‘Caça aos corruptos’, rotulando a Operação ‘como marco de um novo Brasil e que a Lava Jato resgatou o princípio de que ninguém está acima da lei’.

 

(*) Jornalista, bacharel em Direito e editor da página “Guilherme Belido Escreve”

 

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Carla confirma possibilidade de sair e fala de quem seria prefeito

 

Carla Machado e Alexandre Rosa

 

 

Como o jornalista Arnaldo Neto, da Folha da Manhã, adiantou aqui em seu blog, é real a possibilidade Carla Machado (PP) renunciar à Prefeitura de São João da Barra para ser pré-candidata a deputada estadual ou federal na eleição de outubro. Ela ainda não tomou sua decisão, mas garantiu que o fará até a próxima sexta (06).

Um dos principais questionamentos desde que a possibilidade passou a ser veiculada é: como ficaria a relação da prefeita com Alexandre Rosa (PRB), seu vice, caso deixasse com ele o executivo de SJB? A dúvida tem exemplo na ruidosa ruptura de Carla com Neco (MDB), depois que ela fez dele seu sucessor na Prefeitura, em 2012.

Sobre sua relação com Rosa, que já fez oposição a ela no passado, Carla falou ao blog:

— Eu e ele temos hoje mais maturidade. Até porque já tivemos divergências no passado (de 2009 a 2011). Ele era presidente da Câmara e me fez oposição. Foi um erro por falta de diálogo. E ele não vai se repetir. Isto, se for o caso de eu sair.

 

Confira a cobertura completa na edição desta terça (03) na Folha da Manhã

 

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Dos imbecis e seus ecos, ontem e agora

 

Aí, o sujeito se presta a republicar nas redes sociais a fake news de que a vereadora Marielle Franco teria ligação com o Comando Vermelho. E, questionado, tenta se justificar: “mas quem disse foi uma desembargadora”.

É o mesmo tipo de imbecil que, se vivesse na década de 30 do século passado, ecoaria: “judeus, negros e ‘mestiços’ são raças inferiores”. E, se questionado, tentaria justificar: “mas quem disse foi o líder da Alemanha”.

 

 

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Alexandre Buchaul — Lula lá?

 

 

 

A justiça deveria cegar-se a estímulos que a fizessem decidir com base em algo mais que a lei. Entretanto, juristas são seres humanos sujeitos as mesmas emoções, incoerências e inexatidões que nós, meros mortais. Vivemos fortes emoções nos cenários político e judicial de nosso país, a politização do juízo e a judicialização da política tem levado o cidadão a esquecer que há limites a ambas, que o poder é limitado e, talvez, esteja aí a maior virtude da democracia.

O entendimento de que se deve dar início ao cumprimento de pena após julgamento em segundo grau é controverso, alguns afirmam ferir o princípio da presunção de inocência, outros afirmam que a presunção de inocência é ultrapassada quando se tem conjunto de provas adequado à persecução penal e juízo colegiado, como na segunda instância. À parte as discussões teóricas sobre essa questão, o que se vê a partir da operação Lava Jato e do entendimento do STF a favor das prisões após condenação em segunda instância é o avanço claro de ações contra crimes do colarinho branco, contra políticos criminosos que tinham nos processos arrastados por décadas, através de recursos meramente protelatórios, a sua garantia de impunidade.

Cabe lembrar que a revisão do entendimento atual beneficiaria não apenas o Lula, mas todo o alto escalão político brasileiro que tem perdido o sono ao anúncio de cada nova prisão, de cada nova delação. O assombro com a possibilidade iminente de prisão faz com que os criminosos do colarinho branco tenham crises de sinceridade, as delações daí oriundas têm tornado possível avançar em investigações sobre os esquemas de desvios de recursos que até então eram blindados.

Diante do julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Lula, que fará o STF? Caminhará conforme seu anterior entendimento a favor das prisões ou fará a revisão e se posicionará contra as prisões antes que se esgotem todos os possíveis recursos? Ouso dizer que o mundo aguarda essa resposta e mais, que não se pode permitir que assunto dessa importância e gravidade permaneça susceptível a liminares estranhamente concedidas, a decisões monocráticas que ponham por terra avanços como o da Lei da Ficha Limpa.

O povo deve atuar para que a democracia cumpra seu papel no combate a corrupção, as leis que permitem a impunidade dos poderosos são criadas e modificadas por nossos escolhidos no pleito eleitoral. É das urnas que saem os Eduardo Cunha, Aécio, Temer, Picciani, Lula e Garotinho da vida, é com nosso consentimento que praticam seus crimes!

 

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Folha da Manhã anda próxima e ao mesmo tempo com Elio Gaspari

 

Intitulada “Temer, Lula e Justiça em debate”, a matéria de observação e análise publicada hoje (aqui) neste blog e na Folha foi pensada inicialmente como artigo de opinião. Como os cruzamentos do Judiciário com a política nacional são complexos, o texto cresceu e acabou convertido em matéria de fundo. Nela, se tentou interpretar fatos como o julgamento do Habeas Corpus do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Supremo Tribunal Federal (STF) e o cerco da Justiça se apertando sobre o presidente Michel Temer (MDB).

Sobre o atual governo do Brasil, o jornalista Elio Gaspari também analisou a impressionante sucessão dos fatos. E os mais recentes foram as prisões pedidas pela procuradora geral da República, Rachel Dodge, e autorizadas pelo ministro do STF Luís Roberto Barroso. Na operação Skala, vários nomes intimamente ligados a Temer foram presos na última quinta (29). E, tão inesperada quanto a operação, foi a liberação dos presos apenas dois dias depois, na noite de sábado (31).

Em sua coluna publicada hoje em jornais como O Globo e Folha de São Paulo, Elio Gaspari chegou a conclusões semelhantes, e publicadas no mesmo dia, às da matéria da Folha (da Manhã). Esta apostou: “Para muitos analistas, o governo Michel Temer (MDB) morreu na última quinta (29) — véspera de Sexta da Paixão e sem esperança de ressurreição”. Já Gaspari afirmou sobre o presidente: “Com o escândalo de suas relações perigosas e da MP dos Portos na vitrine, seu governo continua, mas acabou”.

Em outro ponto, Gaspari concluiu: “o tempo corre a seu favor (de Temer), pois faltam só seis meses para e eleição”. E matéria que reproduziu da planície goitacá a mesma visão sobre o Palácio do Planalto, fez a ressalva: “O presidente provavelmente não cairá porque estamos a pouco mais de seis meses de eleger seu sucessor. Mas governará como morto-vivo no meio ano que lhe resta”.

Não sem orgulho por andar bem próximo e ao mesmo tempo com quem considero o maior jornalista brasileiro vivo, confira aqui e na transcrição abaixo a íntegra da nota de Elio Gaspari:

 

Jornalista Elio Gaspari

 

 

O ministro Barroso flechou Temer

​Michel Temer está convencido de que, se não tivesse sido bombardeado pelo grampo de Joesley Batista, teria aprovado a reforma da Previdência e o destino de seu governo seria outro. O problema é que foi ele quem abriu a porta do Jaburu para o empresário.

Temer parece ser uma reencarnação do sujeito que estava em Hiroshima, tomou um trem e foi para Nagasaki, sobrevivendo a duas bombas atômicas. Com o escândalo de suas relações perigosas e da MP dos Portos na vitrine, seu governo continua, mas acabou.

O ministro Luís Roberto Barroso teria achado o mapa da Ilha do Tesouro e não haverá “jogada de mestre” capaz de recolocá-lo de pé. Apesar disso, resta a Temer a oportunidade de presidir a campanha eleitoral como o presidente que gostaria de ter sido.

A campanha parece apenas radicalizada, mas está acima de tudo desorientada. O candidato que lidera as pesquisas está mais perto da cadeia do que do Planalto. Sonha-se com um nome que una o centro, mas ninguém sabe o que vem a ser esse centro, além de um disfarce do “mais do mesmo” que produziu as geleias dos plenários do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

Temer não é responsável por essa confusão, mas ajudaria a clarear as águas se fechasse sua agência de marquetagens.

Havendo uma denúncia da procuradora-geral, ela corroerá a imaginação dos çábios do palácio, mas é improvável que essa iniciativa leve à sua deposição. Afinal, não há um vice conspirando contra ele e o tempo corre a seu favor, pois faltam só seis meses para e eleição.

 

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Temer, Lula e Justiça em debate — P.S. Liberdade, ameaça e tiros

 

Temer e Lula em 9 de abil de 2015 (Foto: Ricardo Stuckert – Instituto Lula)

 

 

Em 13 de março de 2016, o artigo intitulado “Quedado pela gravidade” fazia a analogia do governo federal Dilma Rousseff (PT) com o prédio do Julinho, em Atafona. Quem caminhava à beira mar atafonense no final da tarde de 5 de abril de 2008, pôde testemunhar a queda (do prédio) poucos minutos após notar sua face norte inclinada em ângulo insustentável. Newton fez o resto. Na próxima quinta, serão 10 anos, como lembra a matéria do jornalista Arnaldo Neto, na página seguinte desta edição.

Houve quem não gostasse da projeção em metáfora. Gostando ou não, o governo do Brasil se mostrava inclinado em nível inadmissível à gravidade, naquele março de 2016. Não por outro motivo, Dilma seria afastada da presidência menos de dois meses depois, em 12 de maio. E teria seu impeachment consumado em 31 de agosto do mesmo ano.

Para muitos analistas, o governo Michel Temer (MDB) morreu na última quinta (29) — véspera de Sexta da Paixão e sem esperança de ressurreição. No peito do presidente apelidado de “Vampirão”, a estaca de madeira foi fincada pela operação Skala, da Polícia Federal (PF). E foi afiada nas delações da Lava Jato, acusada de ter sido feita para colocar Temer na presidência.

 

Ricardo Saud, executivo da JBS, cujos depoimentos à Lava Jato levarariam à prisão do casal Garotinho, na Caixa d’Águra, e dos amigios de Temer, na Skala

 

Aqui, uma curiosidade: as delações que levaram à operação Skala foram do empresário Ricardo Saud, da JBS. Foi ele que também delatou à Lava Jato ter repassado R$ 2,6 milhões de caixa dois à campanha de Anthony Garotinho ao governo estadual em 2014. Confirmadas pelo empresário local André Luiz da Silva Rodrigues, o “Deca”, dono da Working, as denúncias em Campos se estenderam à formação de quadrilha para extorquir, com emprego de arma de fogo, as empreiteiras que prestavam serviço ao governo municipal Rosinha Garotinho. A investigação levaria à prisão do casal mais famoso da Lapa na operação Caixa d’Água.

 

Garotinho preso no Rio pela operação Caixa d’Água em 22/11/17

 

Bebendo da mesma fonte, a Skala foi montada para coletar provas ao inquérito que apura se Temer editou um decreto para favorecer empresas que atuam no setor portuário. O presidente provavelmente não cairá porque estamos a pouco mais de seis meses de eleger seu sucessor. Mas governará como morto-vivo no meio ano lhe resta. E talvez o separe da cadeia.

Na dúvida, à exceção dos que têm foro privilegiado, todos os homens do presidente estão presos. Aos parceiros do MDB Eduardo Cunha, Geddel Vieira de Lima, Henrique Eduardo Alves e Rodrigo Rocha Loures, mais três amigos de Temer foram para o xilindró na operação de quinta: o advogado José Yunes, o coronel reformado da PM João Baptista Lima Filho e o ex-ministro da Agricultura (dos governos Lula e Dilma) Wagner Rossi. Ex-assessor especial do presidente, Yunes é seu íntimo desde que ambos cursaram juntos Direito, nos anos 1960.

 

Amigos desde que cursaram juntos Direito nos anos 1960, o ex-acessor especial da presidência José Yunes e Michel Temer

 

O mais grave a Temer não é nem a possibilidade de ser pedida ao Congresso, pela terceira vez, autorização para que ele seja investigado enquanto ainda ocupa a presidência. Mas o fato de que os 13 mandados de prisão e 20 de busca e apreensão, autorizados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, foram pedidos pela Procuradoria Geral da República (PGR). Não alinhada ao seu antecessor Rodrigo Janot, escolhida como chefe do PGR por Temer e acusada de se reunir com ele antes de assumir o cargo, quem pediu foi Raquel Dodge, indicando a contundência das evidências contra o presidente.

Para quem ignora que a lei da gravidade funciona a despeito das ideologias, curiosa foi a reação ao cumprimento dos mandados: “estou muito preocupado com essa escalada de um autoritarismo inconsequente”. Mais curioso ainda notar que as palavras que a Lava Jato tornou tão comuns à boca da esquerda brasileira, dessa vez foram ecoadas pelo ministro da secretaria de Governo de Temer, Carlos Marun (MDB), aliado até a última hora de Eduardo Cunha. Coincidência?

 

HABEAS CORPUS DE LULA

É neste clima que o STF vai julgar nesta quarta-feira (04) o pedido de Habeas Corpus (HC) de Lula. Na sessão em que deveria fazê-lo, no último dia 22, o placar de 7 a 3 se limitou a admitir a análise do HC. Mas depois do ministro Marco Aurélio de Mello exibir acintosamente uma passagem de avião, para alegar um compromisso anterior, o STF descumpriu seu compromisso com a nação que, dividida no desejo do desfecho, igualmente ansiava por ele.

Isso tudo no dia seguinte a Barroso dizer na cara de Gilmar Mendes o que o Brasil pensa deste: “você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia”. Como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), foi Gilmar quem esperou o plenário entrar de recesso no final de 2017 para no dia seguinte decidir sozinho a liberdade de Garotinho na Caixa d’Água.

 

 

Sem nada com isso, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) negou no dia 26 os embargos de declaração da defesa de Lula. O mesmo tribunal de segunda instância já havia confirmado a condenação do líder petista pelo juiz federal Sérgio Moro, no caso do triplex do Guarujá. E ampliou a pena dos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro para 12 anos e um mês de prisão. Sua eventual aplicação foi suspensa porque, dois dias antes, o STF não julgou o HC, mas determinou que até fazê-lo o ex-presidente não poderia ser preso. O placar foi mais apertado: 6 votos a 5.

Com base na última pesquisa Datafolha de 29 e 30 de janeiro, feita após a confirmação da condenação pelo TRF-4, cerca de 35% de brasileiros declararam intenção de voto em Lula. Se ele for preso, esses eleitores ficarão tão contrariados quanto os 40% que disseram não votar nele de jeito nenhum, caso o ex-presidente permaneça condenado e livre. Nesta possibilidade, reside o dilema da ópera bufa do STF: se Lula abrir com sua gravidade fantástica o precedente, poderão passar por ele todos os presos condenados em segunda instância no Brasil.

Não é novidade que tanto ao julgamento do HC de Lula, quanto à tentativa de revogação do atual entendimento do STF que permite o cumprimento da pena após condenação em segunda instância, o voto que definirá a questão é o da ministra Rosa Weber. Em 2016, ela optou pela condenação só após o trânsito em julgado e foi voto vencido. Mas seguiu o entendimento da maioria em todas suas decisões seguintes. E ela se mostrou visivelmente contrariada com o adiamento do julgamento do mérito do HC do líder petista.

Especula-se que uma solução alternativa do STF ao caso de Lula — a fixar jurisprudência aos demais —, seria esperar o julgamento do recurso no Superior Tribunal de Justiça (STJ) para se cumprir a sentença. Mas há quem não tenha constrangimento de tentar forçar a porteira por conta própria. Recusado como juiz de primeira instância em dois concursos públicos em São Paulo, mas guindado ao STF após ser advogado-geral da União no governo Lula, Dias Toffoli abriu um impressionante currículo de decisões após a polêmica sessão do STF do dia 22.

 

Dias Toffoli e Lula, quando o primeiro era advogado-geral da União no governo do segundo

 

Cinco dias depois, em 27 de março, Toffoli deu liminar favorável ao ex-senador Demóstenes Torres (DEM), afastado do Congresso por participação na quadrilha do contraventor Carlinhos Cachoeira. No precedente mais relevante, o ministro permitiu que Demóstenes concorra às eleições de 2018, em descumprimento à Lei da Ficha Limpa, que impede Lula de ser candidato a presidente. Na mesma sessão, Toffoli rejeitou uma denúncia contra o senador Romero Jucá (MDB) e permitiu a prisão domiciliar ao deputado estadual Jorge Picciani (MDB). No dia seguinte, 28 de março, ele libertou o deputado federal afastado Paulo Maluf (PP).

 

JUSTIÇA EM DEBATE

No último dia 21, véspera do adiamento do julgamento do HC de Lula no STF, a Faculdade de Direito de Campos (FDC) promoveu o debate “Diálogos sobre a operação Lava Jato”, em iniciativa do advogado e professor da instituição Rafael Crespo. Como debatedores, o juiz de Direito Eron Simas, o promotor de Justiça Victor Queiroz, o professor de Direto Antônio Carlos Santos Filho e o odontólogo e militante político Alexandre Buchaul falaram sobre a operação Mãos Limpas na Itália dos anos 1990, sobre a operação Lava Jato nela inspirada e sobre as ações que esta inspirou em Campos, como as operações Chequinho e Caixa d’Água. Depois, a discussão foi aberta ao público, que lotou o evento, com gente assistindo até do lado de fora.

 

Interesse popular lotou o auditório da FDC no debate “Diálogos sobre a Lava Jato”, realizado no último dia 21 (Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

Juiz eleitoral da Chequinho, relativa à troca de Cheque Cidadão por voto no pleito municipal de 2016, Eron julgou 38 Ações de Investigação Judicial Eleitoral (Aijes), com 42 réus. E, à exceção de um, condenou os demais a oito anos de inelegibilidade e cassação do diploma dos eleitos, em decisões mantidas no TRE e no TSE, a não ser na nulidade dos votos. No debate, falando da demanda de celeridade nos processos numa Justiça tão criticada por sua morosidade, ele sentenciou: “Às vezes é melhor um final desastroso do que um desastre sem fim”.

Por sua vez, Buchaul frisou que “a Lava Jato é o pontapé inicial de mudanças que serão consolidadas pela democracia, por eleições com ânsia de renovação. E isso já está acontecendo desde as últimas eleições municipais”. Já Victor, reforçou sua brilhante participação em artigo escrito após o debate, publicado neste jornal e no blog “Opiniões”. Nele, frisou: “os operadores do direito precisam colaborar para a rápida solução das investigações e dos processos (…) Se assim não se fizer, a sociedade e os criminosos, especialmente os do andar de cima, terão sempre a impressão de que praticar crimes pode valer a pena”.

Contraponto necessário do debate, ao ecoar a visão garantista do Direito, Antônio Carlos falou da preocupação com os contornos que o processo penal passa a assumir em razão da Lava Jato: “Eu acho que o maior risco da Lava Jato não é dentro do seu processo criminal. O maior risco são os efeitos colaterais que ela pode gerar ao vender à população a ideia de que um processo penal com poucas garantias, com muitas prisões, muitas conduções coercitivas, é a solução de tudo. O Estado não deve focar na redução de garantias no processo penal”.

Ao final do evento, um dos seus organizadores, o promotor de Justiça Marcelo Lessa, desabafou com alguns componentes da mesa, em particular que permitiu tornar público: “Criticavam a Justiça brasileira por só prender pobre e preto. Aí, quando os maiores criminosos de colarinho branco do país são presos ou ameaçados de prisão, a Justiça é criticada e questionada para não prender. Se for isto, que assumam: Justiça no Brasil só pode prender pobre e preto”.

 

Publicado hoje (01) na Folha da Manhã

 

Página 5 da edição de hoje (01/04) da Folha da Manhã

 

P.S. Todos os presos da operação Skala foram soltos na noite do Sábado da Paixão (31), com o pedido da procuradora geral da República Raquel Dodge atendido pelo ministro Luís Roberto Barroso. No pedido, Dodge afirmou que o objetivo das prisões, de instruir as investigações em curso, já havia sido cumprido. As prisões temporárias terminariam nesta segunda (2), mas, já neste sábado, a Procuradoria Geral da República enviou a Barroso um pedido para que as prisões fossem revogadas.

“Desse modo, tendo as medidas de natureza cautelar alcançado sua finalidade, não subsiste fundamento legal para a manutenção das medidas, impondo-se o acolhimento da manifestação da Procuradoria-Geral da República. […] Revogo as prisões temporárias decretadas nestes autos. Expeçam-se, com urgência, os respectivos alvarás para que se possa proceder à imediata soltura”, disse Barroso na decisão.

Dodge havia optado em pedir as prisões temporárias porque as conduções coercitivas estão proibidas no país desde dezembro, por decisão do indefectível Gilmar Mendes. Ou a prisão bastou, de quinta a sábado, para se avançar na investigação sobre o decreto de Temer para favorecer empresas na operação portuária, ou se chegou a um grande acordão nacional.

E enquanto o ministro do STF Edson Fachin anunciou ter a si e sua família ameaçadas de morte, na mesma terça (27) tiros foram dados na caravana de Lula, no Paraná.

 

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Hamilton Garcia — Por que somos assim?

 

 

O título acima foi tirado do livro recém lançado pela editora Verbena-FAP[1], organizado por Cristovam Buarque et alii, reunindo textos de variados autores, como José de Souza Martins, Lourdes Sola, Bolívar Lamounier,  Marco A. Nogueira, Alberto Aggio, entre outros. Os organizadores tinham em mente entender como nos equilibramos “em meio a uma generalizada crise, a qual estaria (…) corroendo a sociedade e suas estruturas”, não obstante questionarem a ideia de um “estado de crise”.

Não vou comentar os textos que fazem parte da coletânea nessa minha estreia aqui na blog “Opiniões”, hospedado no Folha 1 — atendendo ao generoso convite do diretor do jornal e editor do blog Aluysio Abreu Barbosa. Apenas, pretendo tecer algumas considerações em torno do tema da nossa recorrente instabilidade político-institucional, que tem a data da República (1889) e, portanto, não deveria nos causar espanto.

Não obstante isso, em qualquer época as crises chocam porque se trata de processos muitas vezes dolorosos que afetam vidas (às vezes mortalmente). No caso atual, o espanto também se deve ao processo deseducativo que teve transcurso nos meios de comunicação e na intelectualidade, do Plano Real (1994) até a eleição Presidencial de 2014, quando os grupos no poder chegaram ao ápice da manipulação das expectativas e, mais recentemente, à própria maquiagem da realidade.

Nesse período, quando ainda era comum realizar nas universidades debates entre pessoas de opiniões diferentes, me lembro que fui convidado a participar de uma mesa sobre a conjuntura político-eleitoral de 2006 e me foi pedida uma sugestão de nome para o evento. Eu, então, sugeri algo que incluía o nome Crise no tema em discussão, o que fez meu interlocutor, um equilibrado colega da Uenf, fazer uma cara de espanto e me perguntar: “mas, que crise é essa Hamilton?!”. Bem, estávamos na primeira eleição após o escândalo do Mensalão petista, mas o clima era de total otimismo com a recuperação econômica (modesta) que agora, de maneira pouco usual em nossa história, vinha acompanhada de políticas de inclusão social e combate ao desemprego.

Bem, o resto já sabemos, mas o episódio mostra nossa dificuldade cultural em problematizar nos períodos de otimismo, além da dificuldade política (universal) de relativizar os feitos de governos que apoiamos ou rejeitamos.

Seja como for, devemos buscar entender a persistência histórica das nossas crises — nosso “estado de crise” —, para além de sua dimensão cíclica, que se relaciona com as dificuldades naturais dos processos de democratização/modernização que se processam, no Ocidente, desde as revoluções burguesas do século XVII. Aliás, aqui está uma das chaves para entender porque as crises em determinados países, como o nosso, sempre nos levam ao limiar de uma refundação enquanto em outros, como na Inglaterra e EUA, são resolvidos nos marcos institucionais fundadores de suas modernidades políticas (respectivamente, séc. XVII e XVIII).

Eis nosso problema: onde se encontra o marco fundador de nossa modernidade política?

Nossa independência, provocada pela revolução liberal portuguesa, que precipitou a volta do monarca lusitano à terra natal, em 1821, abriu as portas para um reinado nacional sem rupturas radicais com o legado português, mantendo o monopólio sobre as terras (inclusive urbanas) e o trabalho escravo como pilar da economia, situação que impediu a emergência de uma sociedade isonômica por aqui. José Bonifácio bem tentou emplacar uma constituição moderna (liberal) no país, mas foi desautorizado e exilado por D. Pedro I, que impôs a constituição centralizadora/conservadora que nos regeria até o advento da República.

Na República (1889), de novo, a mudança ocorre sob o signo da continuidade, sem rupturas: os militares derrubam a Monarquia por questões corporativas, sem um programa de reformas claramente elaborado e temendo a sociedade civil constituída após o fim a escravatura. Os oponentes civis que lhes sucedem, utilizam o liberalismo para edificar um regime de oligarquias regionais que orbitam o poder central ocupado pelas parcelas mais fortes da classes terratenentes, sem cogitar de reformas econômico-sociais inclusivas e usando o Estado para seus fins privados. Assim, a modernização econômica vai se processar por via das contingências externas (1ª Guerra Mundial, 1914-18), sem reforma agrária, e a modernização política vai esperar mais uma década para, finalmente, se colocar no centro do palco através de um novo golpe militar (Revolução de 1930).

É Getúlio Vargas que, no Estado Novo (1937-45), golpe sustentado pelos militares e por um empresariado já afeito ao intervencionismo estatal, vai inaugurar uma fase de intensa modernização econômico-social e estatal (de cunho racionalizante) mantendo, todavia, a sociedade aprisionada ao paternalismo. Somente a partir da  redemocratização de 1945 é que conheceremos partidos nacionais que visavam representar os interesses sociais. Mesmo assim, em 1947, o partido dos trabalhadores (PCB) era posto na ilegalidade e os sindicatos mantidos sob as rédeas do governo.

Quando a urbanização nos bate às portas, a partir dos anos 1950, e os conflitos sociais (greves operárias e revoltas camponesas) adquirem uma dimensão importante, a modernização do Estado claudicava e a inclusão social restava barrada num parlamento pouco representativo, em meio a instituições políticas atrofiadas — não obstante a diversificação social provocada pelos avanços econômicos —, fazendo com que, de novo, a crise cíclica de democratização desembocasse em intervenção militar. Ao final do último ciclo militar, que durou inéditos 20 anos, a economia fora modernizada, mas a racionalização do Estado ficara restrito à esfera federal e a inclusão social limitara-se à classe-média urbana e rural, ficando as instituições políticas prisioneiras do casuísmo do regime.

A redemocratização de 1984 e a Constituição de 1988, finalmente, abriram as portas para a igualdade social, mas a economia viu seu pilar industrial regredir, colocando em risco as conquistas sociais alcançadas, e a modernização política parou na porta do sistema partidário-eleitoral, tomado por novas oligarquias vindas de baixo, provando que a democracia, desacompanhada de boa regulação, ao contrário do que rezam certos evangelhos, não é garantia de bom governo.

Num país sem instituições solidamente modernizadas e culturalmente reformadas, de longa data, as crises, combinadas à desigualdade, insegurança econômica e corrupção arraigada, passam a ser material inflamável exposto ao combustível fóssil das fricções sociais típicas da modernidade que, nas democracias maduras, costumam ser resolvidas, não agravadas, por eleições sucessivas.

 

[1] http://www.fundacaoastrojildo.com.br/2015/produto/brasil-brasileiros-porque-somos-assim/.

 

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Cientista político Hamilton Garcia é o novo colaborador do “Opiniões”

 

Marcado pela participação quase diária dos seus colaboradores, amanhã este “Opiniões” ecoará uma novo voz: a do cientista político e professor da Uenf Hamilton Garcia. A partir deste sábado, ele escreverá no blog em periodicidade quinzenal.

Para saber um pouco mais sobre ele, ou do que pretende trazer a você, leitor, nada melhor do que saber por palavras próprias:

 

Cientista político e professor da Uenf Hamilton Garcia

 

Formado em Sociologia&Política pela PUC/RJ, fez Mestrado em Ciência Política na Unicamp e Doutorado em História Contemporânea na UFF, se dedicando ao estudo dos partidos de esquerda.

Atualmente leciona na Uenf disciplinas de Política e Sociologia Política voltadas para a compreensão dos processos políticos e seus múltiplos desenvolvimentos — levando em conta fatores “genéticos” e “mutacionais” produzidos ao longo das formações histórico-sociais que lhes servem de base. É colaborador do sítio Gramsci e o Brasil e da Fundação Astrojildo Pereira.

A proposta é discutir, à luz do materialismo histórico e da perspectiva crítica (reflexiva), os fenômenos políticos que nos circundam, ajudando o leitor a, antes de tudo, entendê-los para depois enfrentá-los.

 

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