Guiomar Valdez — “É declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil”

 

 

 

No domingo que iniciou esta semana, 13 de maio, completaram 130 anos da Abolição do Trabalho Escravo no Brasil. A cada ano que passa, venho observando que se tornaram ‘anêmicos’ os debates, as manifestações e os eventos sobre o conteúdo dessa data dentro do processo histórico brasileiro. Parece que se esgotaram a importância e também as críticas de suas limitações. Parece que já está tudo compreendido para todos. Como lembra a historiadora Lilia Schwarcz (USP), já um ano meio depois desta lei, a República chegou e no seu hino, de forte poder simbólico, há uma estrofe muito conhecida: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”. Mas, também possui uma, que afirma: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”! Ou seja, já, naquele momento, os republicanos afirmavam não acreditar mais que tivesse havido trabalho escravo. Segundo ela, isto representava um processo de ‘amnésia nacional’.

Pois bem, esta minha observação, sobre a ‘anemia’ ou a ‘secundarização’ desse fato histórico, talvez seja fruto da cultura da ‘modernidade líquida’ em que vivemos. Até porque, nestes tempos, até a História já foi condenada à morte. Para os desavisados (mal-intencionados ou não) só existe o ‘presente contínuo’, versão just-time. É óbvio que nenhum fato histórico deve ser recuperado de forma despolitizada, de maneira messiânica/personalista e desarticulada do espaço, do tempo, da estrutura material e da cultura, ou seja, de forma fragmentada/isolada. Entretanto, tenho a hipótese de que é isso que vem acontecendo sobre os eventos, debates, manifestações, que tratam das mazelas, dos desdobramentos, das permanências, sobre o histórico do trabalho escravo em nosso país.

A ‘amnésia nacional’, passa também por não mais compreendermos a História como processo no espaço-tempo. No que resulta numa atomização temática, presente em muitos movimentos sociais, como, por exemplo, os que tratam do racismo estrutural, perpetuado em nossa sociedade, que, absurdamente, se apresenta em movimentos e lutas, distanciado da realidade das categorias interpretativas, classe e trabalho. E, sendo assim, completamente distanciado da ideia de racismo também como ideologia, tão bem constituída/formulada já no final do século XIX, como uma importantíssima estratégia de expansão e dominação do sistema capital. Sempre atualizada/revisada, seja para atender a mundialização sistêmica, seja para reproduzir/dominar diante da diversidade histórica local/regional/nacional.

As ‘diásporas ou migrações contemporâneas’, com seus racismos e fundamentalismos, estão aí como versão atualizada do contexto das ‘diásporas dos séculos XVI a XIX’ no Ocidente. A partir do século XX até hoje, são agudizadas, tendo a guerra como meio e fim da acumulação sistêmica em busca do domínio das mercadorias estratégicas.

Se nos tornarmos ‘míopes’ na interpretação das lutas contra o nosso racismo, no mínimo, culparemos apenas o passado, nos embaçará a perspectiva da História enquanto processo, dessa barbárie que é o racismo. Neste sentido, é pertinente a compreensão de que, de acordo com o historiador Amilcar Araújo Pereira (UFRJ): “As estratégias racistas para a perpetuação dos privilégios para a população branca no Brasil não são uma herança permanente da escravidão. O que há são diversas formas de atualização desses processos discriminatórios e que vão resultar nas desigualdades raciais com as quais convivemos hoje”. Ou seja, ao longo dos 130 anos da lei que põe fim ao trabalho escravo, demos continuidade e foi se radicalizando o racismo estrutural.

O ‘bom combate’ ao nosso racismo estrutural, potencializando-o para a superação de qualquer forma político-cultural que hierarquize os seres humanos, passa por compreendê-lo como processo histórico, como decorrente de lutas e muitas lutas dos que sofrem o preconceito e a discriminação da ideologia racista, bem como dos que se tornam apoiadores ou se ‘convertem’ a esta causa mesmo não tendo o perfil traçado do racismo em questão. Nessas batalhas marcadas por derrotas, mas, também, por vitórias, é preciso estarmos atentos às construções personalistas e de heroísmos às avessas, já que não estamos tratando de história pessoal, mas, de História coletiva, de um grupo, de uma comunidade, de uma sociedade.

Derrotas e vitórias não devem ser superestimadas, nem subestimadas, como também, os espaços onde elas acontecem, quando analisamos a História enquanto processo, dado ao seu dinamismo e a dialética enquanto seu tipo de movimento. Nesse sentido, não se deve hierarquizar os fatos históricos que concorreram e que concorrem até hoje para as vitórias na luta contra a ideologia do racismo em nosso país. Isso é muito perigoso, pode se voltar contra os movimentos sociais, no sentido da sua absorção aos ditames culturais hegemônicos. Logo, não combatendo o racismo estrutural.

A busca pela Justiça, traduzidas em Leis e num Direito mais includente e democrático, por exemplo, são importantes a serem resgatados, enquanto processo, memória coletiva, dos tantos e tantas que deram vida e sangue para o reconhecimento do problema em questão: o racismo, em seu tempo e espaços. Daí porque, minha preocupação, meu estranhamento, quanto à ‘anemia’, à ofuscação da Lei Áurea, nesse processo. Dada as suas limitações, sei que não há motivos para reduzir tudo a celebração despolitizada e personalizada; mas, e os lutadores e as batalhas, os debates na casa legislativa, as tensões, etc., para chegar até o momento da sua assinatura? Não são importantes?

Recordo agora algumas outras leis/conjuntos de princípios e afins, fruto do processo histórico, com seus atores a continuarem dando vida e sangue nessa construção: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, que em 1948, 60 anos após a Lei Áurea, afirmava que ‘ninguém será mantido em escravatura ou servidão’; a Lei Nº 1.390/1951 – ‘Afonso Arinos’, (63 anos depois), que, por exemplo, inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceitos de raça ou de cor;  a Lei Nº 7.437 de dezembro de 1985, que inclui entre as contravenções penais a prática de atos resultantes de preconceito de raça, de cor, de sexo ou de estado civil; a Lei Nº 7.716/1989, a ‘Lei Caó’, que no seu artigo 1º, afirma que “serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, tornando a discriminação racial, crime; a Lei Nº 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileira; toda legislação que diz respeito às políticas afirmativas/cotas; a Lei Nº 12.288/2010, que criou o Estatuto da Igualdade Racial, dentre outras coisas, definindo o significado de desigualdade racial: “toda situação injustificada de diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas públicas ou privadas, em virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica”.

Eis o objetivo ao trazer este assunto: defender uma interpretação histórica que leve em consideração a totalidade social; que seja uma interpretação que articule todas as dimensões, jamais hierarquizando as dimensões, os fatos, os símbolos e os ‘personagens’! A fragmentação, muitas vezes presente nos movimentos sociais que combatem o nosso racismo estrutural, podem colaborar, mesmo sem perceber, para perpetuar a Cultura Política conservadora, alimentadora do status-quo e das razões conjunturais e estruturais da ideologia racial, protagonista da reprodução sistêmica. Do ponto de vista da economia-política crítica, tudo pode ser transformado em mercadoria, inclusive, e, principalmente, os símbolos, a capacidade criadora, dos movimentos de resistência e emancipadores!

Reflito com a psicanalista Maria Rita Kehl:

“Cabe perguntar que tipo de cisão do eu permite que o brasileiro ria das feridas sociais do país em que vive, como se estivesse sempre do lado de quem segura o cabo do chicote — como se não percebesse as lambadas e a humilhação que também o atingem. Será o nosso bovarismo social efeito de uma identificação com o opressor não em suas características avançadas (em termos de valores republicanos, lutas igualitárias etc.), mas sim como arremedo das aparências da civilização, conciliadas com a manutenção da versão contemporânea do escravismo em uma sociedade que continua criminosamente desigual?”

É isso! E mais! Como nos alerta Makota Valdina: “Não sou descendente de escravos. Eu descendo de seres humanos que foram escravizados”. As vitórias nestas batalhas existem, são reais, mas inconclusas; são reais, mas, não suficientes; são limitadas, mas, avançam, acumulam forças. Isso é processo! Afinal, as razões para esse ‘fardo do tempo histórico’ no combate ao nosso racismo estrutural, são as mesmas, desde a Lei Imperial Nº 3.353 de 13/05/1888 até os dias de hoje: a profunda, injusta e desumana desigualdade sócio-econômica-racial em nosso país!

 

Observação: Lilia Schwarcz (entrevista – www.bbc.com – BBC Brasil – 10/05/2018); Amilcar Araújo Pereira (entrevista – interceptbrasil.com.br – 11/05/2018); Maria Rita Kehl (livro autoral – “Bovarismo brasileiro” – Boitempo, 2018); Makota Valdina (entrevista – www.palmares.gov.br – 17/04/2013); site JUSBRASIL – jusbrasil.com.br).

 

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Paula Vigneron — Paralelos

 

Atafona, fim de tarde de 21 de janeiro de 2018 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

— Alan!

O homem se moveu rapidamente. Acendeu a luz. Olhou ao redor. Mais uma vez, estava sozinho. Era a segunda noite consecutiva em que acordava com a voz de uma mulher chamando-o. Não se lembrava qual havia sido a última vez em que dividira o quarto com alguém. Havia semanas. Meses. Anos? Não sabia. Apagou a luz e retornou à cama, refletindo sobre a solidão e o que ela estava causando nele.

Estava quase dormindo. Via-se caminhando por um bosque, desacompanhado, enquanto elaborava uma nova história em sua cabeça. O prazo dado pela editora estava expirando. Ele já tinha negociado todos os adiamentos possíveis com Nelson, que o criticava abertamente pela “irresponsabilidade e falta de comprometimento”. Mas o homem nada entendia sobre seu trabalho.

— Alan!

Pulou da cama e correu até o interruptor. Ainda com olhos meio fechados, analisou todo o espaço. Abriu a porta. Caminhou rapidamente por todos os cômodos. E se sentiu bobo. Infantil. “Atormentado por nada”, pensou no momento em que retornava ao quarto. “Me tornei um grande idiota”, concluiu, entre lamentos.

Mais uma vez, fechou os olhos. Retornou ao ponto em que estava. No bosque. Caminhando. Toda a narrativa se formava sem esforço em sua cabeça. O roteiro invisível parecia levá-lo a um descanso sob a árvore. Ele realmente andava exausto. Passava os dias entre possíveis ideias que poderiam ser apresentadas ao editor. Precisava dormir. Se pudesse, profundamente. E seria ali.

— Alan!

— Não é possível! — e acendeu o abajur. Na escrivaninha em que costumava trabalhar, estava sentada uma mulher. Os cabelos claros jogados para trás em uma desarrumação cuidadosa. O perfume doce quase enjoativo tomando o ambiente. As pernas balançando no ritmo de algum som que somente ela escutava. Os olhos vidrados nele.

— Quem é você? Como entrou aqui?

Ela sorriu maliciosamente. As unhas grandes e escuras ajeitavam as folhas deixadas sobre o computador. Ele detestava que mexessem em seus rascunhos.

— Tire a mão daí — e pegou os papéis enquanto a mulher gargalhava com o mesmo malicioso tom. Ele a olhava espantado. Não se lembrava daquele rosto. Não conhecia ninguém com aquelas roupas. Não seria capaz de dizer de onde e quem era nem como havia entrado em sua casa.

— Qual é o seu nome?

— Você sabe. E sabe bem.

Tentou se recordar. Ninguém tinha a chave de sua casa. Era cópia única. Exclusiva.

— Se soubesse, não estaria perguntando. E ainda quero saber como entrou em minha casa. Nunca a vi.

— Não. De fato. Mas me imaginou. Exatamente como sou. Todos os traços de meu corpo. Do cabelo enrolado à pinta nas nádegas, como você disse. Acho que poderia ser mais simples. Poderia ser bunda mesmo.

Ele continuava sem entender.

— Sim. Não me olhe com espanto. Você tem mania de seguir o pensamento politicamente correto em seu trabalho.

— Mas eu não poderia ver suas nádegas em meu ambiente de trabalho. Aqui, este lugar é o meu ambiente de trabalho. E não o compartilho com colegas, muito menos com estranhos.

— Prazer, Estela.

“Estela. O jeito malicioso era uma combinação desajeitada da menina e da mulher que ela conservava em seu interior. Ora, desaforada. Ora, doce. Por vezes, deselegante com quem julgasse necessário. Não hesitaria em invadir o quarto de um estranho que a interessasse.”

— Mas isso não é possível! – disse Alan enquanto corria para a sua mesa de trabalho. Procurou, procurou, procurou. Revirou os papéis desordenados. Lembrava-se de que havia marcado a folha com um traço de hidrocor vermelho.

— É esta que você está procurando? — perguntou a mulher, sacudindo um papel parcialmente escrito.

— Sim. Essa — e pegou da mão de Estela. Leu trechos da história inacabada. Ali estava o nome dela. — Não é possível.

— É, sim. Há tempos, ando chateada com você. Como é possível você começar a traçar as primeiras linhas sobre minha história e deixá-la de lado, dias depois? Ficarei ao seu lado até que você tenha posto o ponto final.

Ele continuava a observá-la atentamente. Devia ter bebido demais naquela noite. Estava se sentindo desanimado pela falta de criatividade que passara a acompanhar seus dias.

— Então? Não vai começar a trabalhar?

— Pelo amor de Deus, me deixa dormir — e andou até o interruptor. Ao olhar para trás, a mulher estava deitada em sua cama. Não tinha espaço para ele. Ela mantinha a malícia. Ele entendeu o recado. Mudou a direção e caminhou até a cadeira, sentando-se. Ligou o computador. Buscou o arquivo. Estava fechado há semanas. Alan não sabia como retomar a história.

Bateu os dedos no teclado. Apagou. Tentou novamente. Apagou. Estava tenso.

— Dessa forma, não terá condições de me deixar seguir em frente, querido — disse Estela, sentando-se perto do homem. Leu a última frase do texto. — Que tal mudar o caminho? Olhe bem para mim. Acha que tenho cara de final feliz?

Ele a observou. Os traços. A expressão marcante. Encarando-a, notou que havia descrito a personagem de forma superficial. Realmente, não combinava com ela. Como um artista que esculpe seu objeto de trabalho, deslizou, novamente, os dedos sobre o teclado. Desta vez, em ritmo uniforme. Parava vez ou outra para ver o que Estela o dizia com seus movimentos peculiares. Se escrevesse algo que a desagradava, ela reclamava. Em voz alta ou silenciosamente. Acabara de aprender a lê-la.

“Após derrubar a última colher de açúcar, bebeu, de uma só vez, o resto do café amargo. Ponto final”, narrou Alan ao finalizar o texto. Respirou fundo, após fechar os olhos, reabrindo-os em seguida. Admirou o silêncio. Agora, somente agora, fora capaz de perceber que a voz e o cheiro e o gosto da mulher que criara perseguiam-no todas as horas do dia, desde que tentara esquecê-la.

Levantou-se da cadeira. Os primeiros raios de sol invadiam o quarto. Fechou a janela. Sentia-se renovado. Há tempos, não sabia o que era pôr o ponto final em uma história. Deitou-se. Nos últimos momentos de lucidez, sentiu uma respiração em seu pescoço e sorriu ao eco da risada maliciosa.

 

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Disputa entre facções instala guerra civil em Guarus

 

 

 

Charge do José Renato publicada hoje (17) na Folha

 

Campos: 102 mortos em 2018

A intervenção federal no Estado do Rio dura três meses. E por mais que os militares venham se esforçando, os casos de violência reforçam a sensação de que nada mudou. Campos está longe de ser de ser exceção. Pelos números de 2017, foi considerada (aqui) a 45ª cidade mais violenta do mundo (14ª entre as 17 cidades brasileiras listadas) pela organização mexicana Segurança, Justiça e Paz. Com 102 homicídios em 2018, 12 só nos primeiros 16 dias de maio, o município teve ontem (16) mais dois (aqui): um jovem de 20 anos morto com um tiro na testa no Parque Eldorado e outro de 29, assassinado a tiros em Custodópolis, após ser perseguido por bandidos.

 

Armas contra crianças e gestante

Apesar dos dois novos homicídios, o caso de violência que mais revoltou os campistas, após ser viralizado nas redes sociais, foi (aqui) o de dois adultos e dois adolescentes armados que invadiram duas casas no Parque Santa Rosa. A Polícia Militar (PM) informou que eles queriam matar um homem, que moraria numa das casas. Não o encontrando, roubaram aparelhos eletrônicos e apontaram suas armas para crianças de 2, 4 e 7 anos, ameaçando também várias mulheres, uma delas grávida de seis meses. Os quatro são do Parque Santa Clara, onde foram presos pouco depois, com uma pistola calibre 380, dois revólveres 38 e 39 munições.

 

Do Mediterrâneo ao Paraíba

Os palcos da escalada da violência campista — Parques Eldorado, Santa Rosa e Santa Clara, assim como Custodópolis — integram uma área de disputa entre facções criminosas rivais que seus moradores e os policiais chamam de “Faixa de Gaza”. A referência é a uma estreita área da Palestina, espremida entre Israel, Egito e o Mar Mediterrâneo, palco de constantes conflitos armados entre árabes e judeus. Na margem esquerda do rio Paraíba do Sul, o problema não é religioso, mas sim a união entre as organizações do tráfico de drogas Amigos dos Amigos (ADA) e Terceiro Comando Puro (TCP) na capital do Estado.

 

 

“Terror de Fiúza”

Em Campos, o tráfico da favela Tira Gosto é ligado ao TCP, e o da Baleeira, ao ADA. Ligado a este e apontado como chefe do tráfico do Santa Rosa, Francio da Conceição Batista, o Nolita, não aceitou a união. Após comandar uma série de invasões armadas nas casas populares do bairro, expulsando moradores, ele foi preso (aqui) em 8 de março, se dizendo “o terror de Fiúza”. A referência foi a André Fiúza, preso como chefe do tráfico da Tira Gosto, enquanto Amarildo dos Prazeres, o Tupã, cumpre pena por chefiar o tráfico da Baleeira. Mesmo presos, os dois tiveram áudios que teriam sido trocados entre si, falando de Nolita, vazados pelo WhatsApp.

 

Capa da Folha do último domingo (13)

 

A Síria é aqui

Em sua edição do último domingo, a Folha trouxe (aqui) uma matéria dos jornalistas Aldir Sales e Daniela Abreu sobre a violência em Campos e suas ligações intestinas com o crime organizado. Ela deu a manchete do jornal: “A Síria é aqui”. Do barril de pólvora do Oriente Médio à violência desenfreada na planície goitacá, uma personagem da reportagem foi o refugiado da Síria Haysam Mtanios, de 49 anos. Com a guerra civil em seu país, há quatro anos ele deixou sua capital, Damasco, para morar em Campos. E testemunhou as diferenças da barbárie semelhante: “Aqui bandido mata gente na rua, mas lá você se senta na rua e tem bombas”.

 

Casais Doria e Moro em Nova York na última terça (15)

 

Não basta ser…

“À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. A frase do imperador romano Julio César ao se separar da esposa Pompeia é muito usada nos dias de hoje quando o assunto é honestidade alheia. O juiz Sérgio Moro é responsável por levar a Lava Jato ao patamar de maior operação anticorrupção do mundo. Em Nova York, na última terça (15), recebeu mais um prêmio pelo trabalho, o de Personalidade do Ano da Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Nem foi o fato, mas uma foto que ganhou destaque.

 

…deve parecer

Acompanhado da esposa, o juiz posou para foto com João Doria, do PSDB, que também estava com a esposa. As críticas ganharam as redes sociais, recordando outra fotografia, com outro tucano: o senador Aécio Neves. Esses cliques polêmicos endossam o discurso de seletividade da Lava Jato, ecoado por seguidores de políticos como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado em um dos processos da operação.

 

Mulher de Moro

Para a advogada Rosangela Moro, esposa do magistrado, também é aplicada a frase de Júlio César. Informações sobre uma possível ligação dela com o PSDB sempre voltam a circular na internet. E aparecer em uma foto ao lado de um dos nomes de maior destaque do partido é apagar incêndio com gasolina. Ao casal, não basta ser honesto, deve parecer honesto.

 

Com o jornalista Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (17) na Folha da Manhã

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — As gambiarras da culpa social

 

“Villa Miséria”, em Buenos Aires

 

 

Não há nada que defina melhor um país subdesenvolvido do que a existência de favelas nele. Elas estão no Brasil e no resto de América Latina (chamadas villas misérias; chabolas, cantegriles, pueblos jovenes, etc.). O seu surgimento, permanência e até aumento mostra claramente a classe de governos que tiveram, e tem, os países onde elas estão: administrações que não são capazes de criar um sistema econômico que favoreça toda sua população, ou que nem sequer conseguem criar um sistema assistencialista eficiente capaz de integrá-las ao resto da cidade.

Em outras palavras, uma sociedade que tem favelas é aquela cujo estado é falho. Independente da visão ideológica que cada um possa ter, não há como não tirar a responsabilidade institucional para o fato de que existam territórios com pessoas largadas à sua própria sorte. Do ponto de vista da direita, pode se culpar ao governo de afogar com impostos e restrições a atividade econômica, diante a necessidade de manter um gasto público que não cabe no bolso do país. Desde a esquerda, se dirá que os governos nunca favoreceram a distribuição da riqueza, ou que deliberadamente decidiram manter a miséria para ter mão de obra barata, etc.

Para simplificar, uma analogia pode ser feita com os moradores de rua. Eles, muitas vezes, ocupam espaços públicos que deveriam ter outra finalidade do que servir de abrigo improvisado. Desde a direita, se protesta pela inação do estado em retirar as pessoas de lá. Desde a esquerda, se lamentam as políticas de exclusão que obrigaram o sujeito a dormir na praça — ou na porta dos Correios, no caso campista. Visto desde qualquer extremo, é o estado que não está fazendo a coisa correta.

Mas, qual deveria ser a coisa certa a fazer? O bom senso indica que é uma mistura das duas posições: oferecer ao indigente uma chance de estar num lugar melhor do que nesse espaço, e também fazer-lhe saber que não se tolerará que continue ali.

A mesma combinação de ações é a que teria que acontecer nas favelas: rigidez para impor a ordem, e ações sociais para criar uma alternativa viável para sair da marginalidade. O grande problema é que para fazer isso os governos precisam de dois elementos: vontade e recursos.

Os recursos, quando existem, vão sendo podados na medida em que passam pelas diferentes instâncias administrativas, com boas e más desculpas, e o que chega ao destino final é uma parte ínfima. Com a vontade acontece mais ou menos o mesmo: ela vai sendo cerceada pela ambição pessoal, as dificuldades da burocracia ou a simples apatia. Quem duvide disto, pode visitar um posto de saúde, uma delegacia, ou uma escola qualquer.

O resultado é o que está aí. É a nossa realidade latino-americana.

O pior é que todos sabem disso. O sabem os políticos, os gestores públicos, os servidores, os magistrados, e os cidadãos em geral. É um óbvio ululante que cria uma espécie de culpa coletiva, mas que em lugar gerar ações para solucionar o problema criam gambiarras institucionais. Desculpas paliativas.

São gambiarras institucionais, por exemplo, o sistema de progressão de pena, que faz com que um condenado saia da cadeia após cumprir um sexto da pena (‘criamos presídios desumanos. Façamos com que o cara fique pouco tempo lá’), a blindagem das escolas cariocas (‘não podemos deter os tiroteios, nem as balas perdidas’), o foro privilegiado (‘não podemos  garantir uma justiça eficiente e rápida para todos’), o sistema de cotas (‘não oferecemos uma educação básica niveladora’), os subsídios eternos a certas indústrias (‘não são capazes de competir’).

As soluções definitivas demandariam uma mudança de mentalidade que, basicamente, contempla austeridade, trabalho, eficiência, eliminação de privilégios e honestidade. Evidentemente, as nossas sociedades não estão dispostas a suportar tamanho sacrifício.

 

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Pichações na Uenf acendem o debate entre protesto e vandalismo

 

 

 

Capa da Folha da Manhã de hoje (16)

 

Pichações na Uenf

Desde o assassinato a tiros da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março, a Folha foi um dos tantos veículos de mídia do Estado, do Brasil e do mundo a cobrar a elucidação do crime bárbaro. Assim como tem noticiado todas as denúncias de corrupção do governo Michel Temer (MDB). Por isso mesmo tem independência para ecoar em seu noticiário (aqui) e nesta coluna de opinião os questionamentos feitos às pichações que amanheceram espalhadas ontem (15) nos prédios da Uenf, com palavras de ordem a favor da vereadora executada e contra o presidente em exercício.

 

Manifesto x integridade

Depois de brigar por sua implantação nos anos 1990, a Folha tem acompanhado atentamente a vida da instituição mais importante de ensino de Campos e região. A partir do fechamento (aqui) da Casa de Cultura Villa Maria, em 18 de abril do ano passado, este jornal cobrou da comunidade e do poder público (aqui, aqui e aqui) a reação devida à maior crise enfrentada pela Uenf em seus 27 anos, que se arrasta até os dias de hoje. Reitor da universidade neste momento de penúria financeira do Estado, Luis Passoni disse ontem sobre as pichações: “Embora compreenda a necessidade da juventude se manifestar, a gente tem que preservar a integridade do campus”.

 

Opiniões uenfianas

A fala do reitor da Uenf foi ecoada pelo professor de ciência política Hamilton Garcia: “Poderiam ter usado cartazes porque não danifica o patrimônio. É o espírito da época que entende que pichar não é um problema, mas é um equívoco”. Entre o corpo discente, houve divisão. Membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Gilberto Gomes disse: “Não houve depredação, mas tiveram o intuito de sujar. É uma forma de manifestação pacífica”. Outro universitário, Gabriel Marques ponderou: “Alguns dizem que é uma forma de se expressar, mas eu acho totalmente errado. Devemos agir com cautela e respeitar nosso patrimônio”.

 

Vida e morte

Todos os entrevistados ressaltaram o clima de Fla x Flu político vivido no país, do qual as pichações foram frutos. O “Marielle vive” merece ser ecoado. Sobretudo enquanto sua execução covarde não for devidamente solucionada, como o deputado federal Chico Alencar (Psol) cobrou (aqui) em entrevista exclusiva à Folha. Mas não sem o equilíbrio de uma parlamentar de esquerda, negra, lésbica e feminista, que também dava assistência às famílias dos PMs mortos da cidade do Rio. Já o “Fora Temer”, pichado em vários outros prédios de Campos, se refere a um governo talvez já morto e que só espera 1º de janeiro de 2019 para ser sepultado.

 

Sem clima?

Mesmo com a Copa do Mundo sendo na Rússia, a expectativa de faturamento em solos tupiniquins é grande. A estimativa é que 33% das micro e pequenas empresas esperam faturar com a torcida pela Seleção Brasileira. O comércio está pronto, só esperando os clientes. Nas ruas é que a empolgação anda devagar. Em tempos bicudos, com desemprego batendo a casa dos 13 milhões, está difícil encontrar em Campos, por exemplo, ruas enfeitadas já no clima para torcer. Até mesmo para se vestir para a Copa, com a sonhada camisa oficial, está puxado.

 

Negociações suspensas

A Coreia do Norte suspendeu as negociações com a Coreia do Sul e expõe como motivo os eventuais exercícios militares entre sul-coreanos e estadunidenses. Paralelamente, o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, informou que pode cancelar a reunião de cúpula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada para o dia 12, em Cingapura.

 

Com os jornalistas Dora Paula Paes e Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Bolsonaro lidera sem Lula, PT queima navios e Ciro navega à direita

 

 

 

Lula e Bolsonaro lideram

Divulgada ontem, a pesquisa CNT/MDA confirmou duas tendências relevadas nas consultas anteriores: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda é o político mais popular do Brasil, com 32,4% das intenções de voto ao Palácio do Planalto. Mas preso pela Lava Jato e provavelmente fora da eleição pela Lei da Ficha Limpa, sem Lula o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) lidera a corrida presidencial. Com 18,3%, ele foi seguido fora da margem de erro pela ex-senadora Marina Silva (Rede), com 11,2%; pelo ex-ministro Ciro Gomes (PDT), com 9%; e pelo ex-governador paulistano Gerado Alckmin (PSDB), com 5,3%.

 

Sem Lula, Bolsonaro

Feita entre 9 e 12 de maio, com 2.002 pessoas de 137 cidades brasileiras e margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou menos, a pesquisa CNT foi a primeira já sem o nome do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa (PSB), que anunciou no dia 8 sua decisão de não concorrer em outubro. A liderança de Bolsonaro fora da margem já havia sido constatada na consulta anterior, feita pelo instituto Paraná entre 27 de abril e 2 de maio. Nela, a vantagem do presidenciável de extrema direita foi ainda maior: 20,5% das intenções de voto, enquanto Marina ficou com 12% — 8,5 pontos, contra os 7,1 da CNT.

 

Capitão bateu teto?

Apesar da liderança, a série da CNT indica que Bolsonaro já pode ter batido seu teto. Na pesquisa anterior do mesmo instituto, realizada entre 28 de fevereiro e 3 de março, ele liderou entre 20% a 20,9% nos três cenários sem Lula. Mesmo dentro da margem de erro, o ex-capitão do Exército registrou queda de cerca de dois pontos na comparação com a consulta divulgada ontem. O fato é que, pela CNT, ele não cresceu suas intenções de voto nos últimos dois meses. Mesmo com sua prisão neste período, Lula também caiu pouco: dos 33,4% do início de março aos 32,4% de agora.

 

Prisão justa para 51%

Apesar de, dentro da margem de erro, ter mantido seu percentual de intenções de voto nas duas consultas CNT, a última registrou um dado preocupante ao líder petista: sua prisão em 7 de abril, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, foi justa para 51% da população. Outros 38,6% a consideraram injusta, enquanto 10,4% não souberam ou quiseram responder. Diante de uma pergunta diferente, 49,9% dos entrevistados disseram não acreditar que Lula disputará o pleito presidencial de outubro. Mas 40,8% ainda apostam na possibilidade, enquanto 9,3% não souberam ou quiseram responder.

 

PT queima navios

Desde 6 de fevereiro, ao tomar posse da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luiz Fux garantiu que a “Justiça será irredutível na aplicação da Lei da Ficha Limpa”. Foi apenas 12 dias após o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) ter condenado Lula a 12 anos e um mês de prisão, em decisão unânime, no caso do triplex do Guarujá. Preso há cinco semanas, o ex-presidente teria dado a ordem para o PT descartar a aliança com a vice na chapa de Ciro. Ex-porta-voz do governo Lula, André Singer escreveu na Folha de São Paulo do dia último12: “Ciro começou a carreira no PDS (ex-Arena) e militou por muito tempo no PSDB”.

 

Ciro à direita

Descartado pelo PT numa união das esquerdas, Ciro já se declarou favorável à prisão após condenação em segunda instância e agora busca um vice ligado ao centro-direita político e ao grande capital nacional. Após ter sondado o presidente da Coteminas, Josué de Alencar (filho de José de Alencar, falecido ex-vice-presidente de Lula), o presidenciável do PDT agora flerta com Benjamin Steinbruch para compor a sua chapa. Filiado ao PP, ele é banqueiro, presidente do consórcio privado que controla a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e um dos homes mais ricos do país.

 

Esquerda mal

Contradições ideológicas à parte, Ciro pode não estar pragmaticamente equivocado. Apesar de líder na pesquisa CNT, Lula ainda não parece ser capaz de transferir seu imenso capital eleitoral ao petista mais provável para substitui-lo: o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad não foi além dos 2,3%. Presidenciáveis mais à esquerda foram ainda pior: a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) cravou 0,9%, enquanto o líder do MTST Guilherme Boulos (Psol) anotou 0,6%. Mas como os indecisos, brancos e nulos chegaram a 45,7%, 2,5 vezes mais que as intenções de voto em Bolsonaro, tudo pode estar ainda em aberto.

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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Alexandre Buchaul — Cavalo Paraguaio

 

 

 

À medida que transcorre o tempo nesse ano eleitoral, postulantes a cargos políticos vão surgindo e lançando suas pré-candidaturas, algumas com maior estardalhaço, outras sem repercutir mesmo entre os familiares dos próprios pré-candidatos. Candidaturas como a do ex-ministro Joaquim Barbosa, detentora de bom percentual de intenções de voto não são comumente abandonadas, entretanto, já havia os que apostavam nisso, fazendo um paralelo com a aposentadoria do então ministro ainda durante o julgamento do mensalão.

Muitos lançam suas pré-candidaturas apenas para, no jargão do meio, por um termômetro, medir o tamanho da própria envergadura política, para em seguida abrir mão da disputa em favor de outrem, não raras vezes por motivos nada republicanos. Sejam cadeiras do executivo, sejam do legislativo a prática é recorrente e alguns aspirantes a políticos acabam por ficar mesmo marcados pelo hábito de o fazerem.

Com a última pesquisa publicada sobre as intenções de voto para o governo do Estado do Rio de Janeiro ficou evidente a vantagem do ex-jogador de futebol e atualmente senador Romário sobre os demais pré-candidatos. No entanto, a notícia de investigações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre movimentações financeiras suspeitas envolvendo a família do senador, nos conduz a lembrar do episódio em que Romário, se colocando como postulante à disputa da Prefeitura do Rio de Janeiro, fora atingido por suspeitas envolvendo movimentações financeiras em bancos suíços e desistira da candidatura.

A eventual desistência de Romário na disputa deixaria o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, em situação bastante confortável e desenharia um possível segundo turno entre ele e Índio da Costa, já que o campeão de rejeição, Garotinho, provavelmente morreria na praia mais uma vez. Com esse cenário a aposta na vitória de Eduardo Paes, só agora decisão que o permite eleger-se, parece barbada e o baixinho, campeão dos gramados, assim como o Bernadinho, precisam abrir os olhos para não acabarem com a alcunha de cavalos paraguaios.

 

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Jornalismo ruim, mortes de Geisel e “tapa” de Bolsonaro

 

 

 

Lições do jornalista

Fundador desta coluna, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012) era crítico ao desdém dos repórteres dos grandes centros com a imprensa do interior. Ele sabia bem do que estava falando, pois trabalhou na redação do Jornal do Brasil dos anos 1970, considerada uma das grandes escolas de jornalismo do país, antes de voltar a Campos, fundar a Folha e continuar trabalhando como correspondente do diário carioca — à época, o maior do Estado. Seu trabalho como repórter no “furo” internacional da descoberta de petróleo na Bacia de Campos está no livro “Jornal do Brasil — História e Memória”, da jornalista Belisa Ribeiro.

 

Jornalismo ruim

Episódios recentes demonstraram como — por incompetência ou, pior, dolo — é ruim a cobertura jornalística dos grandes centros sobre os fatos de Campos. Foi o caso da série de três reportagens do SBT Rio sobre as denúncias da delegada federal Carla de Mello Dolinski contra a operação Chequinho, veiculadas entre 30 de abril e 2 de maio. Foi o caso também da nota publicada na última sexta (11) pela jornalista Berenice Seara no jornal carioca Extra,  sobre o processo de infidelidade partidária movido pelo Rede contra o vereador Marcão Gomes (PR), presidente da Câmara de Campos.

 

Indução a erro

Logo em sua primeira matéria, o SBT Rio chegou a induzir a pensar que as operações Chequinho e a Caixa d’Água fossem a mesma coisa. Na verdade, a primeira nasceu da troca de Cheque-Cidadão por voto na eleição municipal de 2016, denunciada por assistentes sociais da própria Prefeitura. Já a Caixa d’Água foi derivada das delações do empresário Ricardo Saud à Lava Jato, confirmadas pelo empresário local André Luiz da Silva Rodrigues, o “Deca”, relativas ao repasse de R$ 3 milhões não declarados à campanha de Anthony Garotinho a governador, em 2014. Em comum, as operações só tiveram o fato de terem gerado a prisão de Garotinho.

 

105 dias depois…

Mas a pauta das três reportagens do SBT Rio girou mesmo em torno de requentar as denúncias da delegada federal Carla Dolinski contra a Chequinho. Graves, elas já haviam sido investigadas pela Polícia Federal (PF) e Tribunal Regional Eleitoral (TRE), antes de serem arquivadas pelo desembargador Carlos Santos de Oliveira, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), em 15 de janeiro. Foram exatos 105 dias antes do SBT-Rio levar ao ar sua primeira matéria, cujo arquivamento só foi informado, bem de passagem, na segunda reportagem, após a verdade ser devidamente estabelecida nesta coluna.

 

Nove dias depois…

Na sexta foi a vez de Berenice Seara noticiar no Extra sobre o processo de infidelidade partidária contra Marcão. Ela chegou a especular que “vereadores já falam no retorno de Marcos Bacellar (PDT) ao cargo de presidente”. Mas não se deu ao trabalho jornalístico básico de confirmar a informação com Bacellar, que afirmou a esta coluna: “Não passa de especulação”. A jornalista também não informou que o pedido liminar pelo mandato de Marcão foi negado no TRE pelo desembargador Antônio Aurélio Abi Rami desde 2 de maio. Comparado ao SBT, o gap entre o fato e sua sonegação até que foi menor: “apenas” nove dias.

 

Abertura e assassinatos

Por ter preparado o processo de reabertura política do país com sua “distensão lenta, gradual e segura”, Ernesto Geisel (1907/96) era o general-presidente da nossa última ditadura militar (1964/85) visto com mais complacência. Mas sua memória ficou irremediavelmente maculada com a revelação de um memorando da CIA dando conta que, 15 dias após sua posse na presidência, ele soube da execução de 104 opositores políticos e autorizou que a prática continuasse. A CIA descreveu uma reunião da cúpula militar do governo Geisel em 30 de março de 1974. Depois dela, pelo menos outras 89 pessoas foram executadas pelo Estado.

 

Bom jornalismo

Num bom trabalho jornalístico da grande mídia, ontem O Globo publicou uma entrevista com o pesquisador brasileiro Matias Spektor, que encontrou o documento do serviço de espionagem dos EUA. Professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, ele disse: “Eu acho que ilustra, com a nova evidência, aquilo que o (jornalista) Elio Gaspari já mostrou: que o Geisel, apesar de ser o presidente da abertura, também reprimia”. Em seu livro “A Ditadura Escancarada”, Gaspari lembrou a justificativa dada pelo general aos historiadores Maria Celina d’Araujo e Celso Castro, que publicaram o livro “Ernesto Geisel” em 1997.

 

Geisel e Bolsonaro

Enquanto ainda era vivo para tentar se defender por suas mortes, Geisel disse: “Era essencial reprimir. Não posso discutir o método de repressão, se foi adequado, se foi o melhor que se podia adotar. O fato é que a subversão acabou”. A quem sobreviveu ou não viveu a história agora recontada, a lição do passado pode ser válida quando um presidenciável líder nas pesquisas exibe orgulhoso em seu gabinete os retratos de todos os generais-presidentes. Na sexta (11), sobre Geisel, Jair Bolsonaro (PSL) disse: “Errar, até na sua casa, todo mundo erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece”.

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Hamilton Garcia — A democratização do Estado

 

 

 

 

A democracia representativa no Brasil é uma experiência historicamente recente, cuja inauguração pode ser associada ao fim da monarquia-escravista (1888-89) e ao processo de urbanização e diversificação econômico-social que a partir daí se encorpou. Se comparada à da Inglaterra, bem mais antiga, é também bastante mais irresoluta. Os ingleses, depois de um longo período de disputas religiosas (1547-58), conflitos políticos agudos e guerras civis (1640-89) — com um Rei decapitado (1649) e uma República autoritária (Cromwell, 1653-58) —, encontraram seu modelo numa Igreja reformada (1559) e numa Monarquia Constitucional governada por um Parlamento representativo sob a égide da Declaração de Direitos (1689), que afirmava a liberdade dos indivíduos como base inalienável das formas de governo.

No nosso caso, nem a Igreja foi reformada, nem o poder absoluto do Estado foi decapitado; tudo se deu, como reza nossa tradição, de maneira segura e sincrética, mantendo-se os indivíduos subjugados ao poder oligárquico, fonte primeira do poder de Estado. Depois de derrubada a Monarquia por uma conjuração militar-civil (1889), no qual o povo assumiu o papel de expectador — tanto ativo, como passivo —, inaugurou-se um período (Primeira República) onde as oligarquias agrárias ganharam autonomia (federalismo) e as burguesias voz ativa no cenário político das mais importantes cidades (liberalismo) sem, contudo, ameaçar o poder estabelecido sobre o vasto território — inclusive os currais eleitorais, beneficiados pela vigência do voto aberto e a ausência de autoridade corregedora isenta — e as mentalidades (Igreja Católica).

Não obstante o conservadorismo do pacto elitista inaugural da República — com a fracassada pretensão reformista de certos segmentos militares (positivistas) —, as novas classes sociais urbanas manifestariam seu descontentamento político, mesmo tendo contra elas o liberalismo de fachada instituído pela Constituição de 1891 e a dura repressão das forças policiais. Medidas como o fim do voto censitário, dos privilégios nobiliárquicos e da dominância eclesiástica sobre as localidades e a educação — entre outras iniciativas legais modernizadoras —, mesmo descasadas de reformas econômico-sociais progressistas (agrária, urbana, tributária, financeira, etc.), foram suficientes para, pelo menos, inaugurar um período de aspirações democráticas, que acabaria por desnudar o descompasso entre a superestrutura jurídico-política e as mudanças econômico-sociais, de sentido democratizante, provocadas pelo avanço do capitalismo — descompasso este que, não obstante os avanços percebidos desde 1985 (Nova República), está na base da instabilidade política dos nossos dias.

As curtas experiências liberal-democráticas vividas após as intervenções civis-militares de 1930 e 1945 — logo descontinuadas por intervenções análogas de polaridade invertida e sentido diverso, em 1937 e 1964 —, demonstraram a fragilidade (e força) de nossa tradição republicana. Nelas, podemos enxergar as marcas profundas do nosso modo de ser contemporâneo, radicado na formação social polarizada por quatro séculos de latifúndio, onde tanto a sociedade civil se forjou comprimida pelo esmagador peso do agrarismo colonial, como a sociedade política (Estado) se amalgamou ao compromisso neopatrimonial, mesmo quando sob a liderança de seus segmentos dissidentes (populismo).

Enquanto 1930 e 1945 nos revelaram uma sociedade civil trabalhadora frágil, incapaz de conter os arroubos jacobinos de suas lideranças — rupturismo que propiciou o retrocesso autoritário após a aventura “revolucionária” de 1935, e, depois, em sentido inverso, levou os comunistas a apoiar o ditador que antes queriam derrubar, precipitando a intervenção militar redemocratizadora —, 1937 e 1964 mostraram a inapetência da sociedade civil burguesa em lidar com as pressões legítimas (e ilegítimas) pela democratização vindas de baixo, cedendo ou estimulando o protagonismo conservador de caserna ao invés de pactuar a reforma das instituições republicanas da qual participavam — dentre elas o Parlamento e o Judiciário —, de modo a reverter seu embotamento histórico (patrimonialismo).

A semelhança com a crise de hoje não é mera coincidência: a sociedade civil trabalhadora continua presa fácil de lideranças retrovisoras (bolivarianistas) e de um populismo que, embora descido às fábricas, ainda veste o manto sagrado dos pais dos pobres, enquanto as principais instituições republicanas (redemocratizadas) claudicam pela insuficiência das reformas até aqui efetuadas, abrindo amplo espaço para o conservadorismo de caserna, agora autonomizado pela fórmula político-eleitoral do bolsonarismo.

De auspicioso, apenas a emergência de uma nova sociedade civil burguesa disposta a renovar as lideranças políticas do liberalismo, contra a vontade de seus partidos tradicionais; um novo ativismo do Ministério Público e do Judiciário, que — dentro de seus limites funcionais e ainda adstritos à esfera federal — permitem o avanço das reformas institucionais que Executivo e Legislativo tentam barrar; e uma liderança militar (Alto Comando) até aqui inclinada a apoiar ambas as novidades e agir, se necessário, apenas na condição de última instância.

Tal conjunção, que tem constituído até aqui a verdadeira âncora de nossa ainda frágil liberal-democracia — diga-se de passagem, contra a vontade de boa parte das esquerdas, inclusive a desconfiança de certos segmentos seus de viés liberal —, carece, é verdade, de uma concertação política mais ampla do que a permitida pelos parâmetros corporativos dos operadores do direito; mas isto parece estar sendo superado, não obstante sua mais nítida expressão eleitoral, Joaquim Barbosa, ter desistido da postulação por conta de uma aparente falta de vocação.

O que é importante nisso tudo, é que a sociedade civil, por meio da política bem pensada e articulada, pode vencer a pesada herança semirrepublicana que resiste no Estado, nas corporações e nas mentes de todos os quadrantes ideológicos, mas para isso vai ter que se livrar dos mitos e das concepções ideológicas anacrônicas e pseudorrealistas que impedem-na de enxergar o cenário em toda a sua inteireza e complexidade, inclusive contemplando os remédios contra a pior de todas as heranças: a marginalização social por meio da pauperização econômica e da alienação laboral-educacional, que exigem a reinvenção do liberalismo (liberalismo-social) e do progressismo-nacional (neodesenvolvimentismo).

 

Atualizado às 16h16 de 13/05 para edição de imagem.

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TRE indeferiu liminar do Rede contra vereador Marcão

 

 

 

Negada liminar contra Marcão

Ontem (11), a jornalista Berenice Seara noticiou (aqui) no jornal carioca Extra o processo por infidelidade partidária contra o vereador Marcão Gomes. Presidente da Câmara Municipal de Campos e pré-candidato a deputado federal, ele foi para o PR, deixando o Rede, cujo diretório estadual agora busca o mandato de vereador no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para o suplente Tiago Miquilito. O que o jornal carioca não informou é que o relator do processo no TRE, desembargador Antônio Aurélio Abi Rami Duarte já negou o pedido de liminar da Rede e Miquilito. Estranho, pois isso foi desde 2 de maio, 9 dias antes da nota de ontem.

 

 

 

Decisão liminar do desembargador do TRE Antônio Aurélio Abi Rami Duarte, favorável a Marcão, desde 2 de maio

 

Antagonista do “Chucky”

Apesar do que não noticiou sobre o caso, que aguarda o julgamento do mérito no TRE, Berenice especulou que na Câmara de Campos “vereadores já falam no retorno de Marco Bacellar (PDT) ao cargo de presidente”. Vereador experiente e combativo, Bacellar é um dos mais ferrenhos opositores na política goitacá ao ex-governador Anthony Garotinho (PRP), a quem apelidou de “Chucky” no passado, em referência ao personagem malévolo da franquia de filmes de terror “O Brinquedo Assassino”.

 

“Não passa de especulação”

Indagado pela coluna, Bacellar desmentiu ontem a especulação sobre seu retorno à presidência do Legislativo goitacá, a partir do processo de infidelidade partidária contra Marcão: “Isso não existe dentro da Câmara. Nunca me pronunciei sobre isso. E nem soube que nenhum vereador tenha dito uma palavra sobre o caso. A eleição da mesa diretora é em dezembro. Não há nenhum motivo para que essa discussão seja adiantada agora. Não passa de especulação”.

 

Prioridade dos Bacellar

Especulações (e seus insondáveis motivos) à parte, Bacellar tem se dedicado na vida real a ajudar na pré-candidatura do seu filho, o advogado Rodrigo Bacellar (SD), a deputado estadual. Jovem bastante articulado, não só em Campos e região, mas na cidade do Rio, Rodrigo tem atraído ao seu grupo nomes respeitados, como o ex-tucano Alexandre Buchaul. Nos limites impostos pela legislação eleitoral, ele tem trabalhado na organização do partido para as eleições de outubro, em mais de 30 municípios, entre Norte, Noroeste e Sul Fluminense, Regiões Serrana e dos Lagos, além do grande colégio eleitoral da Baixada Fluminense.

 

Articulação

Se confirmar sua candidatura a deputado estadual, o grande parceiro de Rodrigo Bacellar, sobretudo na Baixada Fluminense, tende a ser o deputado federal Áureo (SD), de Duque de Caxias, que pretende concorrer à reeleição. Outra possibilidade de aliança é com o deputado federal Alexandre Valle (PR), de Itaguaí, que também deve tentar renovar seu mandato. Em endosso das boas relações políticas dos Bacellar com Marcão, caso este confirme sua candidatura à Câmara Federal, há ainda a chance da dobrada deste com Rodrigo no município de São João da Barra.

 

Gregos e troianos

Marcão também tem ampliado o conhecimento do seu nome pela região. Na quinta (10), ele recebeu o título de cidadão de Itaperuna, na comemoração dos 129 anos de emancipação do município polo do Noroeste Fluminense. O vereador de campos agradeceu à presidente do Legislativo, Amanda Corrêa Braga Pacheco (PDT), e ao vereador Sinei dos Santos Menezes (PTN) pela indicação, que também homenageou a ex-prefeita Rosinha Garotinho (Patriota), natural de Itaperuna. Nos aplausos da plateia, o filho Wladimir Garotinho (PRP), o vereador Thiago Ferrugem (PR) e seus colegas afastados Linda Mara e Thiago Virgílio (ambos do PTC).

 

Desculpas devidas      

Reza o dito popular que perguntar não ofende. Isto posto, será que os arautos do Facebook que se prestaram rapidamente a especular que a vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e o motorista Anderson Silva teriam sido executados a tiros por traficantes, vão agora pedir desculpas publicamente em suas linhas do tempo? Ou vão guardar o devido ato de contrição para quando PMs, ex-PMs e milicianos responsáveis pelo crime covarde forem finalmente presos?

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Garotinho na Justiça e na pesquisa, Marielle e Lilico

 

 

Charge do José Renato Publicada hoje (11) na Folha

 

 

Garotinho ensina a Lula e Cabral

Em sua edição de ontem (10), esta coluna observou (aqui) que diferente de vários líderes políticos presos por corrupção, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Sérgio Cabral (MDB), o ex-governador Anthony Garotinho (PRP) tem colhido êxitos jurídicos no enfrentamento contra operações que já o levaram a três prisões, como a Chequinho e Caixa d’Água. Nesta última, o político da Lapa conseguiu na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) com que o juiz da 98ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Ralph Manhães, seja obrigado a ouvir testemunhas de defesa no processo. Na quarta (09), o magistrado já marcou até a data: 16 de maio.

 

Do “Éden” a Campos

Ralph havia se negado a ouvir as testemunhas de Garotinho, alegando se tratar de iniciativa “protelatória”. Mas foi obrigado a rever sua posição, por determinação da Segunda Turma do STF — conhecida como “Jardim do Éden” por suas decisões favoráveis a políticos, empresários e operadores envolvidos em esquema de corrupção. Um dos seus integrantes, Ricardo Lewandowski estará em Campos no próximo dia 18, para participar do debate “Judicialização da Saúde”, no teatro Trianon. Antes, em decisão monocrática, ele suspendeu o julgamento de Garotinho pela Chequinho do Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

 

Combinou com os russos?

Suspender um julgamento de um condenado em primeira instância é uma decisão, no mínimo, estranha. A coisa só fica fácil de ser entendida quando constatado que, sem uma condenação colegiada, Garotinho se livra da Lei da Ficha Limpa e pode concorrer às eleições de outubro. Mas, beneficiado duas vezes por alguns dos ministros publicamente mais questionados do STF — na Segunda Turma, além de Lewandowski, estão Gilmar Mendes e Dias Toffoli —, quem conferiu a pesquisa Paraná à corrida pelo Palácio Guanabara, publicada ontem (10) pelo Jornal do Brasil, pode ter ressalvado ao político da Lapa: “só faltou combinar com os russos”.

 

“Mas, seu Feola…”

A expressão teve origem na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, quando o técnico brasileiro Vicente Feola (1909/75) explanou aos seus jogadores uma jogada infalível ao jogo do Brasil com a seleção da extinta União Soviética, cuja principal república era a Rússia. Considerado intelectualmente limitado, mas de grande sabedoria popular, o gênio do futebol Mané Garrincha (1933/83) perguntou ao treinador: “Mas, seu Feola, o senhor combinou com os russos?”. Após Garrincha desmontar o esquema defensivo russo no improviso “implanejável” dos seus dribles, o Brasil venceria aquele jogo e os demais, até conquistar a Copa, nossa primeira.

 

“Russos” do Rio

Os “russos”, no jogo eleitoral da eleição a governador do Rio, são os eleitores. Feita entre 4 e 9 de maio, com 1.850 pessoas em todo o Estado e margem de erro de 2,5 pontos percentuais, a pesquisa Paraná mostrou outro ex-gênio do futebol liderando: o senador Romário (Podemos), com 26,9%. Ele veio seguido do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (DEM), com 14,1%; de Garotinho, com 11,6%; e dos deputados federais Indio da Costa (PSD) e Miro Teixeira (Rede), respectivamente com 8,8% e 6,2%. Terceiro colocado nas intenções de voto, o político da Lapa só é insuperável na rejeição: 71,9% do eleitorado fluminense não votam nele de jeito nenhum.

 

Impossibilidade matemática

Para se ter uma ideia do que essa imensa rejeição de hoje representa, em 2014, quando naufragou ainda no primeiro turno na sua obsessão em voltar a ser governador, a rejeição de Garotinho era de 48%. O índice negativo foi registrado em pesquisa Datafolha feita de 1 a 2 de outubro daquele ano, enquanto o pleito se deu no dia 5. Eleitores são ganhos e perdidos na paixão. Já as eleições são vencidas e perdidas pela matemática. Até porque, não há paixão — ou ministro do STF — capaz de fazer quem já perdeu com 48% de rejeição ser capaz de ganhar, quatro anos depois, quando a repulsa popular à sua figura chegou a 71,9%.

 

Marielle e Siciliano

Ontem, o ministro da Segurança Raul Jungmann oficializou o que O Globo havia relevado dois dias antes: o vereador carioca Marcello Siciliano (PHS) e o miliciano Orlando de Curicica são investigados como mandantes da execução a tiros da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março. A causa seria a expansão de programas sociais de Marielle em áreas controladas por Siciliano. Ao campista com mais de 35 anos, o crime e seus supostos motivos lembraram outro fato bárbaro: no início de 1997, o vereador Lilico (PMN) apareceu morto a golpes de martelo na cabeça, ao lado da estrada de Travessão.

 

Lilico e Zezinho

Como o assassinato de Lilico não foi obra de “profissionais” como o PM e o ex-PM suspeitos de atirarem contra Marielle e Anderson, o autor foi logo identificado: seu suplente, Zezinho de Travessão, também do PMN. Ele estaria pessoalmente endividado e precisava assumir a vaga na Câmara para pagar seus credores, não necessariamente pelos ganhos republicanos de um vereador em Campos. Segundo revelou à Polícia, Zezinho ficou ainda mais irritado com Lilico, após saber pelo então prefeito Garotinho que este havia oferecido uma vaga na secretaria de Transportes ao vereador. Estimuladas, algumas paixões têm fim trágico.

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

Atualização às 18h31 para correção de data

 

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Guilherme Carvalhal — Marisa e o tigre

 

 

 

Marisa assistiu o tigre entrar em depressão no mesmo dia em que assinou uma petição no Avaaz exigindo que Jó libertasse seus escravos: o bicho sofria de doença celíaca e o glúten das tigelas de trigo andava causando maus humores no intestino. Assim, precisou ir contra as recomendações do veterinário com MBA em desmafagafamento que dizia que o mesmo não precisava de carne.

Ademais, a essa hora pouco lhe importava, tais infortúnios, pois lamentava a batida do Ibama que multou dona Chica por maus tratos de animais:

— Ainda bem que não é vitiligo — comentou uma vizinha acerca do estado do pobre felino. — Pedro anda com marcas esquisitas no peito do pé — lamentou pelo rapaz.

Pela janela pensou: que fazer para o pobre tigre? As batatinhas esparramadas pelo chão seriam um substituto à altura? Desconfiou, pois as mesmas eram transgênicas. O açougue anunciou promoção de carne do boi da cara preta, mas um grupo de vegetarianos protestou. Os soldados da cabeça de papel interviram a mando do governo e a violência instaurou no recinto. Melhor não, pensou Marisa.

O tigre continuava com seus melindres, coitado:

— O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou — postou em trejeitos melodramáticos no Facebook para que todos conhecessem como funcionava a comunicação entre eles, de onde um comentarista citou esse como um caso claro de relação abusiva. Chegou ao extremo de ameaçar beber leite com manga e uma associação de pedagogos o criticou, pois estimularia negativamente as crianças.

Marisa deixou de lado tais melindres e saiu de casa em busca de se livrar de tamanha pressão animal. Prestou atenção nos carregadoras da transportadora empurrando uma mala sem alça cor de burro quando foge e se espantou com um moleques vândalos que cuspiam e escarravam na estátua em carrara do irmão gêmeo do João Sem Braço:

— Essa juventude — protestou junto à velhinha que conduzia uma cabra cega pela coleira.

A velhinha sentou-se ao seu lado. Comentou do curupira que fazia fisioterapia para consertar a postura dos pés após ter sofrido bullying na escola. Marisa riu e em contrapartida contou do caso do tigre:

— Dê a ele umas boa colheradas de Biotônico Fontoura. Um matuto deu pros porcos, pras galinhas, e todos eles revigoraram. Canja de galinha não faz mal pra ninguém. Banana é vitamina, engorda e faz crescer. Com jeitinho você coloca ele na linha — explicou a senhora torcendo pequenos pepinos.

Marisa se vislumbrou com a sabedoria da senhora. Falava com aquele tom de vovó que tem resposta para tudo, como se herdasse tradições de pajés, de feiticeiras africanas, de benzedeiras das zonas rurais:

— Como a senhora ficou sabendo de tudo isso?

A senhora deu um risinho:

— Pelo Whatsapp.

 

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