Igor Franco — Paolla Oliveira e o recalque

 

Os justiceiros sociais estão em polvorosa neste carnaval. Da prescrição sobre as fantasias permitidas para este carnaval ao manual de como realizar uma paquera, os progressistas já possuem material suficiente para escrever um novo Index Librorum Prohibitorum. Tal como as velhas freiras dos antigos internatos mediam o comprimento das saias das alunas, há sempre um bando de justiceiros sociais no corredor mais próximo munidos de suas réguas problematizadoras para avaliarem o que pode ou não ser feito/ vestido/ visto/ publicado/ curtido/ compartilhado.

Para seu azar, a atriz Paolla Oliveira foi a vítima da vez dos patrulheiros da consciência alheia. A beleza intensa da atriz só pode ser comparada à intensidade do recalque despertado após a publicação de uma foto fantasiada de índia. O furor das feministas de plantão neste Carnaval logo resultou em manchetes como “foto polêmica de Paolla Oliveira divide opiniões na internet”. Como observa o crítico cultural Alexandre Borges, toda vez que um justiceiro social menciona “divisão de opiniões”, pode acreditar que a única divisão existente é, de fato, a opinião dele versus a de qualquer outra pessoa normal. Exceto três ou quatro desocupados que incomodavam com mensagens repetidas, a esmagadora maioria dos mais de sete mil comentários da foto repetidos elogios como “linda”, “deslumbrante”. A desconexão com a realidade é traço marcante dos justiceiros sociais, que buscam moldar o mundo à sua visão — e não o contrário.

O que se tornou o progressismo nos dias de hoje — uma implacável perseguição às opiniões de quem ouse divergir do suposto consenso das almas mais elevadas da academia e da mídia — reflete um pouco a mistura louca que deu origem a esse fenômeno político-social.

Na formulação do psicólogo canadense Jordan Peterson, o progressismo é o resultado do pós-modernismo relativista com a dialética marxista salpicada de leitura foucaultiana do mundo, a partir de estruturas de poder e hierarquia. Em resumo: para o progressismo moderno, ao mesmo tempo em que é possível afirmar que não há superioridade moral da cultura ocidental (ou do “homem branco”) sobre a cultura indígena, é inegável o fato de que os indígenas foram oprimidos pelo homem branco e essa opressão permanece hoje embutida nas relações de poder estabelecidas na sociedade, sendo a “fantasia de índio” no Carnaval apenas uma das expressões dessa opressão continuada. Ao denunciar uma inocente foto do Instagram, o justiceiro social cumpriria, assim, sua missão de denunciar e fragilizar tais estruturas, contribuindo para uma rachadura a ponto de fraturar o atual sistema de poder, que ruiria, permitindo a construção de uma nova forma mais justa, que privilegiasse os antigos oprimidos.

Um observador mais atento poderia levantar uma série de questionamentos, do tipo “por que a nova estrutura seria mais justa, uma vez que o conceito de justiça precisa ter uma validade única e os relativistas discordam disso?” ou “sendo a sociedade construída sobre estruturas de poder e hierarquia, a mera inversão dos papéis não perpetuaria a lógica da opressão, desta vez com atores distintos?” ou, por fim, “sendo mulher, não seria Paolla Oliveira parte de uma minoria que deveria ser protegida e não denunciada?”. Esse tipo de contra-argumentação é pesada demais para os ouvidos dos justiceiros sociais. Convencidos que estão de sua infinita bondade em relação aos oprimidos, a racionalidade e a coerência por trás de seus atos são meros detalhes que podem ser esquecidos ou deixados de lado se a agenda de defesa das minorias puder ser cumprida.

Numa leitura menos sofisticada, segundo Mário Henrique Simonsen, um dos mais brilhantes pensadores brasileiros, por esse tipo de incoerência, “ninguém sabe o que significa (o progressismo) porque, na verdade, não significa coisa alguma além de um progressivo estado de tumulto mental”.

Eu, humildemente, ouso discordar de Simonsen e Peterson. A única leitura possível do progressismo pós-moderno é: uma reunião de gente insuportavelmente chata e ressentida, pronta para disparar sua metralhadora de frustrações sobre qualquer pessoa capaz de levar a vida como deseja — e não como eles desejam.

 

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Em cartaz em Campos, filme sobre jornalismo é opção no Carnaval

 

Capa do Washington Post de 1º de julho de 1971

 

 

Por indicação da professora e escritora Carol Poesia, colaboradora do blog, assisti na noite de ontem (11) a “The Post — A Guerra Secreta”, de Steven Spielberg. Tem duas indicações ao Oscar: melhor filme e atriz (Meryl Streep). Como sempre, ela está muito bem na pele da proprietária do conceituado jornal Washington Post. Assim como um parceiro de Spielberg desde “O Resgate do Soldado Ryan” (1998): Tom Hanks, que agora interpreta o editor-geral do Post.

Apesar do começo um pouco arrastado, o filme engrena quando se apresenta seu drama real, no começo dos anos 1970: às vésperas de se abrir ao mercado de ações, na tentativa de se capitalizar, o Post deveria ou não publicar documentos secretos que provavam as mentiras contadas por cinco presidentes dos EUA sobre a Guerra do Vietnã (1955/75)? Isto depois do jornal ter sido “furado” pelo New York Times, seu tradicional concorrente, proibido por uma decisão judicial de seguir na cobertura do caso.

Quem já assistiu a “A Montanha dos Sete Abutres” (1951), sabe o quão difícil é fazer um filme sobre jornalismo depois do clássico definitivo do mestre Billy Wilder (1906/2002), que foi jornalista em sua Áustria natal, antes de se mudar para os EUA com a ascensão do nazismo. E quem não assistiu ainda precisa aprender muita coisa sobre jornalismo e cinema.

O jornalismo teve tratamento de primeira também em longas mais recentes, como “O Informante” (1999), de Michael Mann; “O Abutre” (2014), de Dan Gilroy; e “Spotlight: Segredos Revelados” (2015), de Thomas McCarthy, que levou o Oscar de melhor filme. Isso sem contar, é claro, com o nem tão recente assim “Todos os Homens do Presidente” (1976), de Alan J. Pakula. Mas essa é uma história que, mesmo filmada 41 anos antes, trata do final de “The Post” (e do governo Richard Nixon).

Mesmo para jornalistas que nunca passaram pela edição, o filme de Spielberg talvez seja o mais revelador das enormes pressões nos bastidores das decisões de (e sobre) uma redação de jornal. Cai com uma luva tanto ao tempo presente dos EUA, com um imbecil guindado a presidente pelo colégio eleitoral (não pelo voto popular) como Donald Trump, que já elegeu como “inimigos” os mesmos Washington Post e New York Times. E, como luva, também bate à face presente dos imbecis tupiniquins à direita e à esquerda, cujo eco das vozes pelas redes sociais demonstra pouca noção de ridículo na pretensão de “substituir” o jornalismo.

E mais não digo para, como alerta a persongem de Meryl Streep: “não pular o lead”. Para quem não gosta de Carnaval ou quer fazer um pit stop durante a folia, é uma excelente opção. Em versão legendada, desde a última quinta (08), está em cartaz em Campos no Shopping 28.

Confira o trailer do filme:

 

 

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Aristides Soffiati — Drenagem urbana de Campos

 

 

 

“Riacho do Navio/ Corre pro Pajeú/ O rio Pajeú vai despejar/ No São Francisco/ O rio São Francisco vai bater no mei do mar…” A melodia ritmada de Luiz Gonzaga dá uma ideia simples do que é uma bacia hídrica. Na verdade, ela é mais complexa que isso. Uma bacia tem um rio principal com rios secundários, rios terciários e muitos outros. O rio principal desemboca numa lagoa ou no mar.

A Baixada Campista foi construída por dois sistemas hídricos. O principal é o do Paraíba do Sul. O segundo é… Fica difícil nomeá-lo porque não se trata de um rio apenas, mas sim de um complexo de rios e lagoas. No passado, eu daria a ele o nome do último rio – Iguaçu –, que saía da lagoa Feia e chegava ao mar. Hoje, vou denominá-lo de sistema Ururaí, por ser este rio bem conhecido. O primeiro integrante da bacia é o rio Imbé e todos os que desembocam nele. O Imbé desemboca na lagoa de Cima, assim como o Urubu, e escoa pelo Ururaí até a lagoa Feia, que hoje chega ao mar pelo construído canal da Flecha.

Os dois sistemas ou cruzavam lagoas ou tinham lagoas em suas margens ligadas a eles por canais naturais ou não. Entre os dois também existiam defluentes — rios que saem de outro, ao contrário do afluente — que nasciam no Paraíba do Sul e engrossavam o rio Iguaçu por conta da ligeira declividade da planície.

Na visão de uma geometria euclidiana, a baixada era um verdadeiro caos. Para um naturalista, era um caos maravilhoso pela complexidade e pela biodiversidade. Para aumentar áreas para a agropecuária, o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) substituiu o rio Iguaçu pelo canal da Flecha e escavou canais retilíneos das lagoas para os dois sistemas hídricos. A finalidade era drenar as lagoas e aproveitar seu leito para atividades econômicas.

A cidade de Campos alastrou-se de forma desordenada sobre lavouras e pastos. Como as lagoas da planície são muito rasas, entendeu-se que não era necessário tamponar seus leitos vazios para a nivelação do terreno. Terra para isso só na margem esquerda do Paraíba do Sul, área de tabuleiros, que já se esgotam com a extração de terra. Para agravar mais a dificuldade de drenagem, os canais abertos para tanto se transformaram em valas de esgoto e depósito de lixo. Os moradores de Campos não sabem como os canais deixados pelo DNOS são importantes para uma planície aluvial. Assim, com uma chuva mais intensa, Campos alaga.

Já escrevi muito sobre esse assunto. Dessa vez, particularmente, quero tratar da drenagem urbana na borda da cidade onde ficam os bairros Parque São Lino, Parque Dr. Beda, Parque Rui Barbosa e Parque São Benedito, todos eles extensão do Parque Aurora. E a expansão continua numa área verde em direção ao canal de Tocos. Pelo visto, nenhuma providência será tomada para impedir o inchaço urbano. No passado, onde estão esses bairros, existiam muitas lagoas. Num mapa de 1954, Alberto Ribeiro Lamego ainda as registrou, nomeando as lagoas da Caraca e da Barata, assim como o brejo do Cachorangongo. A lagoa da Piabanha drenada ainda não foi alcançada pela cidade e tinha fundamental importância para a baixada.

 

Mapa desenhado por Alberto Ribeiro Lamego em 1954, mostrando a área com lagoas e brejos hoje ocupada pelo Parque Autora e outros bairros

 

Para drenar as lagoas nas terras para onde, futuramente, a cidade cresceria e daria lugar a novos bairros, sendo o Parque Aurora, o DNOS abriu o canal do Rosário. Segundo informação pessoal do Engenheiro Agrônomo José Carlos Mendonça, ele foi canalizado sob a rua Doutor Beda, ficando com um trecho aberto de aproximadamente 1,500 m. Ele desemboca no canal de Tocos que nasce no canal Campos-Macaé que desemboca na lagoa do Jacaré, que é associada à lagoa Feia. Portanto, de forma artificial, ele foi incorporado ao sistema Ururaí.

 

 

Canais ao sul da cidade de Campos

Tanto ele quanto o canal Santo Antônio, também afluente do canal de Tocos, contribuem para a drenagem urbana. Como todos os canais que cortam a cidade ou que a cidade abraçou, a visão da população sobre eles é bastante negativa. Por isso, eles recebem esgoto clandestino e lixo. Ficam entupidos por resíduos e por vegetação que cresce por conta dos nutrientes contidos no esgoto, pela lâmina d’água delgada e pela luz do sol. Quando chove, eles transbordam e geram reclamações dos moradores que os entupiram. Então, a prefeitura efetua uma limpeza superficial neles para tudo começar novamente na próxima estação chuvosa.

 

Entroncamento do canal de Tocos no canal Campos-Macaé. Estrutura abandonada e danificada, exigindo restauração e manutenção

 

Há quem reclame daqueles que criticam o governo municipal e não fazem proposições. Não sou desses. Proponho que o governo coloque em discussão o quanto antes a revisão do Plano Diretor de 2008 e a questão da macrodrenagem urbana. Existem um plano talvez defasado por nunca ter sido aplicado e um conselho específico para o assunto. A partir de então, voltemos a proceder a um diagnóstico dos canais no entorno de Campos e um plano de recuperação e proteção da rede. Se a questão não for tratada de forma estrutural, anualmente continuaremos a fazer intervenções paliativas.

 

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Os evangélicos no país do Carnaval

 

Nada tenho contra os evangélicos. Teologicamente, acho muito interessantes alguns dos seus aspectos, como o estudo da Bíblia e a retomada de principíos do judaísmo do Velho Testamento. Ademais, quem já leu “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Mar Weber (1864/1920), é capaz de perceber a contribuição relevante que o elemento evangélico traz à essência católica brasileira, representado em figuras como o procurador da República Deltan Dallagnol, ou o juiz federal Marcelo Bretas.

Agora, noves fora o papo sério, não me leve a mal que hoje é Carnaval…

 

 

 

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Alexandre Bastos — Transporte Público: ações e desafios

 

 

 

Dentre os compromissos assumidos pelo governo Rafael Diniz, um das mais importantes, sem dúvidas, é a reorganização do sistema de transporte público de Campos. Sistema esse que, nos últimos 30 anos, se manteve aquém daquilo que seria o ideal para atender a população.

Logo no início da sua gestão, o prefeito se comprometeu a realizar um grande rodada de conversas com os empresários vencedores do edital do transporte público do município para tomar pé da situação e saber o porquê do não cumprimento dos termos do edital 001/2013 no qual sete empresas foram habilitadas a operar as linhas em Campos. Afinal, apenas a fase zero deste edital fora cumprida e, mesmo assim, com falhas.

Basicamente, os empresários apontaram o sistema de transporte alternativo como grande causador da crise do transporte público em Campos. O que é uma meia verdade: a falta de planejamento pela antiga gestão na regulamentação do transporte alternativo provocou um ambiente de beligerância entre as categorias. Afinal, colocar as vans fazendo as mesmas linhas dos ônibus estimulou um ambiente de concorrência e não de complementaridade, como deveria ser: vans fazendo as linhas que os ônibus não cobriam, ampliando a cobertura na malha viária. Além disso, o programa “Passagem Social”, como muitos outros programas da gestão passada, focou mais na política do que em planejamento e estratégia. A passagem era barata (com subsídio do poder público), mas o sistema se tornava cada vez mais falido e ultrapassado.

Não obstante essa situação, nossa estratégia foi abrir um amplo diálogo com ambas as categorias (ônibus e vans), mas não sem cobrar o que cada uma deveria entregar em serviço e cumprimento dos termos do edital. Do ponto de vista da empresas de ônibus o cumprimento da fase 1 do edital que previa a implantação do sistema de bilhetagem eletrônica e GPS.

Foi organizada uma reunião com a empresa Tacon, vencedora do edital para implantação do sistema de bilhetagem eletrônica e sistema GPS. Reunião cujo prefeito estaria presente. Com exceção do representante da Turisguá, nenhuma empresa apareceu. Qual interesse em boicotar uma reunião que visava o cumprimento dos termos do edital e que organizaria boa parte da vida das empresas de ônibus?

Do outro lado, logo em abril do ano passado, foi iniciado o recadastramento das vans do Serviço de Transporte Alternativo Municipal de Passageiros (Setamp). Das 298 vans cadastradas apareceram 253. Todos com alguma exigência de documentos a cumprir. E começamos juntos com essas que apareceram o processo de regularização. As vans que não compareceram foram convocadas a prestar explicação sob pena da suspensão da permissão para circular.

Garantir o direito da população de ir e vir e de ter transporte com regularidade de horário e com uma ampla cobertura da malha viária é a meta principal. A atual gestão irá avançar energicamente para uma solução que vá sanar os vícios, cujos quais alguns atores do sistema de transporte estão acostumados. Nenhuma medida está descartada, já que o interesse maior é entregar um serviço satisfatório para a população.

 

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Guiomar Valdez — “Para os sem confete e sem serpentina”!!

 

 

 

Nesta semana pré-carnaval poucos pensam naqueles que não curtem esta nossa festa popular (eu curto!). Pensando neles, resolvi destacar dois assuntos desta semana que me chamaram a atenção e que precisam de uma leitura e avaliação mais apuradas, já que como ‘filha’ de Momo, não poderei fazer neste momento. Daí a ideia de compartilhar para estes, esperando alguma colaboração na reflexão.

O primeiro assunto é sobre a situação crítica da “matrix” do capital no seu processo inerente de crises de superprodução! NÃO SE APRENDEU COM 1929, PARECE QUE NÃO SE APRENDEU COM 2008! Aliás, segundo Mészáros, não há saída civilizatória, já que essas crises deixaram de ser cíclicas para serem constantes. Essa é a novidade.
As bolsas estão literalmente enlouquecidas…o sinal veio em 26 de janeiro último. Segundo analistas, o mais importante, neste momento, “não é saber se esse ajuste ocorrerá nesta semana (possivelmente ainda não) ou ainda no primeiro semestre deste ano (bastante provável).

O mais importante é afirmar que esse ajuste ocorrerá. E criativamente muito severo. Ocorrerá com uma magnitude absoluta e relativa muitas vezes superior aos ajustes ocorridos nos dois últimos ciclos” (www.viomundo.com.br e www.theintercept.com ). Como agir nestes tempos? Qual a resposta política que daremos? Considerando, que estamos tratando da ESTRUTURA MATERIAL da sociedade em que vivemos. Portanto, de algo, indiscutivelmente concreto, mas, que muitos e muitos de nós não enxergamos!

O outro assunto é sobre o convite que a cantora Anitta recebeu para proferir palestra no evento ‘Brazil Conference’, que acontece anualmente na Universidade de Harvard. Este evento “é realizado pela comunidade brasileira de estudantes de Harvard e do MIT para promover o encontro com líderes e representantes da diversidade do Brasil. O objetivo é encontrar soluções inovadoras para o futuro do País.

Em 2017, o juiz Sérgio Moro participou do evento. Também estiveram lá os empresários Jorge Paulo Lemann e Luiza Trajano, a ex-presidente Dilma Rousseff, o publicitário Nizan Guanaes e o ator Wagner Moura”. (www.diariodocentrodomundo.com.br)

Do que aprendi até agora, Anitta se tornou uma celebridade, uma referência, não apenas no mundo da música brasileira, mas, também, como símbolo de resistência cultural das periferias. Daí quem possa criticar, não concordar com estas afirmativas, está sujeito à acusação de preconceito. Na minha página no facebook, fiz um comentário (dialogando com dois amigos) sobre este assunto, que transcrevo aqui, como sempre refletindo:

Este assunto é pertinente para um baita debate avaliador e formulador de ideias críticas mais ampliadas sobre o nosso tempo, que articulem, por exemplo, cultura, identidade, hegemonia, diversidade, minorias, a fragmentação pós-moderna, movimentos sociais e os possíveis caminhos para contrapor ao capital e à sociedade burguesa. É neste campo que procuro fazer minhas análises e tomar posição, pois, para mim, não há nada que escape à territorialização mercantil do capital, inclusive, e, principalmente, o ‘território das periferias’, o ‘território do gênero e sexualidade’, etc, etc, etc. Procuro exercitar um certo distanciamento crítico, sobre estas questões, exatamente, por respeitar as diferenças, a diversidade, a liberdade, e, não, o contrário.

Admito que hoje em dia o meu posicionamento está à margem, como também, na fronteira da incompreensão de muitos movimentos político-culturais marcados pela atomização e autonomia frágil, pois não tem na totalidade social seu enraizamento. Às vezes, a posição respeitosa, livre e crítica, pode ser interpretada como preconceito ou discriminação. São tristes características desse nosso tempo. Gostei demais de ter dialogado com vocês. Um forte abraço. Sigamos em frente!
Dica: Um colega nosso do Instituto Federal do Amazonas – Ygor Olinto Rocha Cavalcante, (historiador e psicanalista), em recente artigo para o site www.portaldomovimentopopular.com.br, “As celulites ideológicas e a malandragem do mercado em Anitta”, de 08/01/2018, tratou um pouco dessas questões.

Aguardando contribuições…

 

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Paula Vigneron — Retrato

 

Ruínas de Atafona, final da manhã de 06/02/18 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Olhou a fotografia. Fechou os olhos.

A tarde transcorria calma. Para um dia de festa, a casa se assemelhava a um espaço abandonado. Esquecido. Temia que as amigas da escola não fossem ao seu aniversário. No ano anterior, preferiu não festejar para não correr o risco de ficar sozinha. Mas, desta vez, seria diferente. Estava ficando uma moça. “Já vou fazer 10 anos”, exclamou quando a mãe a chamou de criança.

Será mesmo diferente desta vez? A pergunta chacoalhava a cabeça de Beatriz. Andava agoniada. Da sala para a cozinha. Da cozinha para a varanda. Da varanda para o quarto.

“Faltam duas horas para começar a sua festa. Não precisa ficar agoniada deste jeito”, repreendeu a mãe.

Sentou-se para assistir ao programa de desenhos. Não gostou. Mudou para o canal de músicas. Trocou para o de animais domésticos. Desligou a televisão.

“Mãe, as duas horas já passaram? E se ninguém vier? Vou ficar sozinha.”

“Todos virão.”

Segurava o passado em suas mãos.

Às 19h, a campainha tocou. A menina correu em direção ao portão para descobrir quem seria seu primeiro convidado. Pôs a mão no cadeado. Talvez Priscila. Enfiou a chave. Ou João. Girou-a. Não. Certamente, era Magali. A moça responsável pelos salgados sorriu para a menina.

“Você deve ser a aniversariante. Meus parabéns, criança.”

Beatriz chorou. Sentiu-se sozinha. Correu para o sofá da sala e abraçou o travesseiro. Dissera à mãe que ninguém iria comparecer à comemoração. Sentia medo desde o momento em que os primeiros detalhes começaram a ser organizados. Soluçava com o rosto coberto. Sentiu um toque diferente. Insistente. Levantou a cabeça para dizer que queria continuar sozinha e encontrou Alan, seu mais bagunceiro amigo. As lágrimas foram substituídas por sorriso, abraço e um presente que poderia esperar até mais tarde para ser revelado.

Segurou a mão do menino e o levou a um passeio pela casa. Apresentou os cômodos e, por fim, a mesa do bolo. Ambos planejaram uma guerra de doces na hora em que os convidados começassem a cantar o “parabéns para você”.

Os sorrisos eram sentidos nos toques de seus dedos.

Em minutos, a casa abrigava mais crianças do que poderia. Os pais se organizavam em conversas na área externa, atentos aos filhos. Foi colocada uma música. Meninos e meninas dançavam. Cada um com seu ritmo e sorriso, sem preocupações com as impressões que deixariam nos outros. Beatriz carregava uma alegria nunca vista antes por sua mãe, que admirava cada passo da criança.

A mesa do bolo ainda permanecia intacta. Por vezes, meninos e meninas se aproximavam para tentar pegar os doces, mas eram repreendidos por olhares dos pais. Voltavam, então, à roda formada por todos os amigos. Conversas, brincadeiras, corridas. Vozes altas e finas se atropelavam. Ao perceber o passar das horas, a mãe da aniversariante reuniu os convidados para os momentos finais da festa.

“Parabéns para você, nesta data querida…”, começaram os amigos da garota, que acompanhava as palmas com as bochechas vermelhas. Ao apagar as velas, Alan e Magaliiniciaram uma guerra de doces. Brigadeiros cremosos atingiam os cabelos de Beatriz, que revidava os ataques, entre risadas e gritos. Os pais se afastaram, aflitos, dando ordens para que a bagunça fosse encerrada. Nada adiantou.

Uma máquina fotográfica foi posicionada diante da confusão. Imediatamente, todos se arrumaram em frente à mesa para registrar o momento. Beatriz estava coberta de chocolate. Sua mãe mesclava olhares de repreensão e alegria. Mas compreendia que, neste dia, a garota estava sendo feliz. Plenamente feliz. Aquela era ela. Sempre seria ela.

Abriu os olhos e guardou sua imagem em uma gaveta da memória.

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — Notas de um Ranzinza #2

 

 

 

Fora o Michel Temer e o Roberto Jefferson — e suas respectivas claques: governo e PTB —  ninguém acha cabível que Cristiane Brasil possa ser ministra do trabalho. A cada semana aparece um antecedente mais constrangedor do que o anterior sobre a deputada. No entanto, a atitude da presidente do STF, Carmen Lúcia, de manter o suspense sobre a palavra final que a Justiça dará sobre a questão, mantendo a sua liminar sem o julgamento definitivo, beira à arbitrariedade. O melhor seria definir logo se Cristiane pode ou não pode ser empossada. Seria bom que pudesse, porque isso seria muito ruim para aqueles dois que mencionei no começo do parágrafo.

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Aliás, falando da arbitrariedade de manter uma medida cautelar sem nunca colocá-la em pauta para ter uma decisão final, vocês se lembram da lei que o Congresso promulgou em 2013 que determinava o reparto dos royalties para todos os estados, incluídos os não produtores (Lei 12.734/2012)? Carmem Lúcia concedeu liminar, naquele ano, suspendendo temporariamente seus efeitos, e nunca mais se falou do assunto. Que bom, né?

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Há quatro semanas, na minha participação neste blog (aqui), falei que seria legal que o governo municipal entendesse que o conceito de urgência também se aplica às necessidades da população, e fizesse uma contratação emergencial para começar a manutenção da iluminação pública, enquanto aguarda a liberação do TCE para realizar a licitação definitiva. Felizmente, e finalmente, esta semana foi anunciado que os trabalhos começam hoje, na praia do Farol.

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Quando vim morar em Campos, me lembro do espanto que me causou ver uma ambulância com o nome de um deputado estadual colado nas laterais — nome que tinha incorporado justamente a palavra ‘ambulâncias’. Na época, não sabia que essa era uma prática comum na política brasileira, e me parecia inaceitável que um representante utilizasse seus proventos, e os dos seus assessores, para gastá-los em promoção pessoal, sob a desculpa de fazer um ‘serviço à comunidade’. Achava, e ainda acho, que a tarefa de um legislador não é fazer o que o poder executivo não faz, mas fiscalizar, denunciar e promover os instrumentos legais para que o governo atue como o representante pretender. Até porque, ainda que tenha a melhor das intenções — coisa rara — ele só atenderá uma pequena parcela da população, quando seu trabalho e seus recursos deveriam se concentrar em promover o interesse coletivo e impessoal. É lamentável que ainda hoje tenhamos deputados, e vereadores, que persistem nessa conduta.

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Segundo informa o jornalista Saulo Peçanha (aqui), há polêmica sobre a decisão da prefeitura de utilizar as instalações do Cepop para abrigar a Secretaria de Obras. A Liga do Carnaval de Campos (!) é contra. O Centro de Eventos Populares Osório Peixoto é uma obra faraônica, não apenas pelo superdimensionamento e pelos recursos que se gastaram na sua construção, mas também porque o prédio é tão prático e funcional quanto são as pirâmides do Egito. Pensando bem, as pirâmides possuem mais utilidade, pois geram recursos do turismo histórico.

Proponho promover um circuito similar em Campos, direcionado ao turismo arqueológico-político, para que sejam apreciadas as instalações que a prefeitura constrói ou adquire e depois abandona, enquanto aluga imóveis para alocar servidores. Além do Cepop, integrariam o circuito o museu Olavo Cardoso, o Palácio da Cultura e a antiga Faculdade de Filosofia.

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Matéria de hoje do jornal Folha de S. Paulo informa que, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Ipsos Moris em 38 países, o Brasil é o segundo país com menor noção da sua própria realidade.

A pesquisa não levou em conta, felizmente, o que os magistrados brasileiros pensam acerca de receber auxílio moradia ainda ganhando 19 vezes mais do que o salário médio do cidadão comum.

 

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Alexandre Buchaul — Cleptocracia

 

 

 

Com o título desse artigo o jurista Modesto Carvalhosa adjetivou todas as instâncias de todos os poderes constituídos de nossa jovem e escandalosa república. Teria ele razão, ou trata-se apenas de retórica moralista?

Podemos observar, com clareza que nos deveria corar as faces, indícios os mais graves de variados desvios. Assim como o futebol, também não inventamos a corrupção ou como já ouvi dizer a CPF (comissão por fora), mas assim como com a redonda, também nesse esporte parece que nossos conterrâneos têm aquele algo mais, ou menos, que eleva a prática ao estado da arte. Tive uma profunda decepção ao ler Gomorra, do escritor italiano Roberto Saviano, para quem vivencia a política brasileira o livro tem ares de literatura infanto-juvenil. Competir com a realidade tupiniquim, como perceberam os autores de House Of Cards, não é fácil.

De Triplex no Guarujá a auxilio moradia de juízes e outros, com hábitos alimentares menos ortodoxos, nossa república amarga a imoralidade de atores que, quando flagrados, se defendem nas minúcias hermenêuticas da lei ou na retórica pós-guerra de perseguidos políticos. Vale tudo para manter privilégios e escapar incólumes, ou com o menor nível de danos possível, das consequências dos atos praticados. O “whataboutismo” do “mas e o fulano?” talvez seja o mais debochado e cínico dos argumentos dos debates políticos na terra das palmeiras aonde canta o sabiá.

Ao tentar, através de inversão de significados e repetição contínua, transformar os crimes comuns de Lula em crimes ou perseguição políticos, seus seguidores repetem a velha fórmula já tantas vezes usadas com sucesso pelas esquerdas mundo afora. Bolsonaro, por sua vez, abusa da truculência para constranger aqueles que ousam o escrutinar. Prática adotada por muitos professores quando questionados por alunos, eu mesmo tive alguns assim, escondiam a incompetência sob o manto da arrogância. Já os juízes… os juízes nem se preocupam em responder questões morais postas por meros mortais. Quem somos nós para por a prova o valor dos semideuses de nossa república?

Espero que sejamos capazes de paulatinamente aperfeiçoar nosso sistema, eliminando os canalhas e evitando os “salvadores da pátria” que vez por outra surgem e se tornam em curto prazo grandes decepções. Vemos, com certo ineditismo, alguns figurões sendo condenados e presos. Ainda há muitos que o merecem ser e o judiciário precisa ter seus membros desvairados sendo responsabilizados. Ouso acreditar que o Brasil tem jeito, apesar das cascas de banana, das jabuticabas e dos chequinhos que encontraremos pelo caminho.

 

 

 

 

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Aristides Soffiati — Estiagem da discussão sobre chuvas e alagamentos

 

De férias em Atafona, dolosamente não acompanho a mídia de Campos. Mas, desde a quinta passada (25), ainda com céu claro e sol a pino, pude ler no mar verde enconstando sobre a foz barrenta do rio Paraíba o prefácio da massa de ar frio que chegaria ao nosso litoral no sábado (27). E despencaria como tempestade sobre a planície goitacá na terça seguinte (30).

Ao acompanhar as redes sociais, mesmo de soslaio, pude constatar a repercussão dos alagamentos recorrentes em Campos, sempre que chove forte sobre a cidade. E, hoje, o historiador, escritor e ambientalista Aristides Soffiati, meu capitão, enviou um artigo sobre o assunto, para publicação neste “Opiniões”.

No meio de tanta besteira brotada desde o subsolo, no que diz respeito às chuvas de Campos e seus consequentes alagamentos, é sempre bom estiar o pensamento com alguém capaz de tratar do assunto com responsabilidade, conhecimento e a devida seriedade:

 

 

Pelinca alagada com as chuvas de terça (foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Alagamentos

Por Aristides Soffiati

 

Com os alagamentos na cidade de Campos por conta das últimas chuvas, uma apresentadora de telejornal esbravejou contra a prefeitura em frente às câmaras. Nas redes sociais, pessoas que deveriam ser mais informadas por suas formações, criticavam a prefeitura por nada fazer, supondo logo que ela jogaria a culpa nos prefeitos anteriores. Há professores de história que desejam a cobertura do canal Campos-Macaé, conhecido por valão, entendendo que ele não tem mais finalidade.

Desde o primeiro, todos os prefeitos são culpados. Na verdade, a responsabilidade com os alagamentos começa com as origens da cidade. Não se pode transplantar um modelo de cidade concebido na Europa para a zona tropical impunemente. Mais ainda, erguer uma cidade europeia numa planície de inundação da zona tropical e achar que a natureza respeitaria o desejo dos europeus que aqui se instalaram no século XVII.

Levanto a hipótese de que Pero de Gois, donatário da Capitania de São Tomé, tentou erguer um povoado europeu na margem do Paraíba do Sul, como informa Gabriel Soares de Souza, mas acabou expulso pelas águas de planície aluvial. Então, buscou terreno mais alto e protegido nos tabuleiros e na zona serrana do vale do rio Itabapoana. No entanto, os Sete Capitães, mesmo encontrando pouco espaço seco para o gado, insistiram na construção de currais na baixada. Os fundadores de Campos não pensaram no alto custo de manter um núcleo urbano europeu numa planície aluvial na zona tropical.

O engenheiro campista Saturnino de Brito escreveu, na década de 1920, que a engenharia não podia satisfazer completamente aqueles que abominavam alagamentos, transbordamentos e inundações numa baixada. Ele concebeu um sistema de canais de drenagem para Santos, sistema adotado com sucesso, mas não muito mais considerado como importante. Ele projetou uma grande área livre às margens do rio Tietê, no ponto em que se ergueu a cidade de São Paulo. A intenção era criar uma área de expansão do Tietê em suas cheias e, ao mesmo tempo, uma área de lazer para os paulistanos.

Ele deixou escrito que um dique na margem esquerda do rio Paraíba do Sul deveria ser construído em ponto afastado do rio para incluir as lagoas a fim de que elas atuassem como amortecedores de enchentes. Ele concebeu uma rede de canais para Campos em ambas as margens do canal Campos-Macaé para drenar águas de chuva acumulada na cidade. Pela margem direita, um canal atravessaria a Avenida Pelinca, antes um grande brejo. Este canal receberia outro canal que deveria drenar a lagoa Dourada, ao lado do antigo Fórum, hoje sede da Câmara Municipal. Toda a água drenada desembocaria no canal Campos-Macaé.

 

Com as chuvas de terça, Pelinca retomou sua origem de brejo (foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Na margem esquerda, outro longo canal começaria na altura do Cepop, onde existia a lagoa do Goiabal, passando pela lagoa de Santa Ifigênia, na atual rua Formosa, pela lagoa de João Maria, no entorno do edifício Salete, correndo ao longo da Avenida 28 de Março até desembocar no canal Campos-Macaé, que manteria drenada a lagoa do Osório, a maior e mais conhecida da cidade.

O princípio defendido por Saturnino de Brito era o seguinte: se queremos uma cidade europeia numa planície inundável da zona tropical, é preciso fazer ajustes. Embora nunca escrito, o princípio é depreendido de seus projetos. Mas a questão é que, numa economia de mercado, a terra vale dinheiro. São Paulo preferiu se transformar num inferno a destinar as margens do Tietê a uma imensa área livre, maior que o Central Park de Nova Iorque. O engenheiro Camilo de Menezes, do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, defendeu que o dique da margem esquerda do Paraíba do Sul em Campos, corresse junto ao rio, na forma de estrada. Assim, os interesses de proprietários rurais eram atendidos. Sucessivos prefeitos entenderam que o projeto dos canais de macrodrenagem na cidade de Campos correspondia à terra retirada do mercado. A pressão da especulação imobiliária, de engenheiros, arquitetos e da própria população levou o planejamento urbano a inviabilizar um desenvolvimento controlado.

E mais ações agravaram o problema dos alagamentos. Os canais que o DNOS abriu visavam a drenagem de lagoas para a agropecuária, não para a cidade. O antigo córrego do Cula, um dos eixos de ligação entre o Paraíba do Sul e o extinto rio Iguaçu, foi sendo segmentado e aterrado. Restou dele um estirão contínuo na cidade de Campos entre o Paraíba do Sul e o canal Campos-Macaé. Aos poucos, graças à ignorância dos prefeitos e à sanha da especulação imobiliária, inventaram que ele não era o Cula, mas sim um canal aberto pela Usina do Queimado nos anos de 1920. Ainda houve um esforço para protegê-lo com o instituto do tombamento. Ele foi tombado pelo Inapac sem nenhuma preocupação do órgão em conhece-lo. Tombado de qualquer maneira. Ele está sendo progressivamente destruído aos olhos do poder público e da população, que o preferem aterrado.

A grande e limpa lagoa do Saco foi drenada pelo canal do mesmo nome para o canal de Cacumanga até a lagoa Feia. Hoje, o canal liga nada a outro canal de drenagem. Em suas margens, uma urbanização desordenada e um grande condomínio atrás do Shopping Boulevard contribuem com esgoto e lixo para o canal. A lagoa do Saco volta a aparecer na rua Rocha Leão quando chove um pouco mais. O fantasma dessa lagoa encontra o fantasma da lagoa Dourada. Basta atravessar a linha do trem.

O brejo da Pelinca, mal drenado e superadensado de ruas e construções, alaga com qualquer chuvinha. No meio da cidade, o canal Campos-Macaé não drenou adequadamente a lagoa do Osório, como pretendia Saturnino de Brito. Para piorar a situação, o canal foi estreitado e poluído, quase não tendo mais comunicação com o rio Paraíba do Sul. O trecho entre o rio e a rua Formosa foi coberto. Mais tarde, Rosinha, quando governadora do Estado do Rio de Janeiro, construiu a ponte Leonel Brizola, cuja cabeceira no lado de Campos, funciona como um rio caudaloso quando chove, a despejar água no leito asfaltado da antiga lagoa do Osório. Na condição de prefeita de Campos por dois mandatos, ela gastou outro rio, este de dinheiro, para construir um sistema de drenagem para o Campos-Macaé. Não funcionou.

 

Descida da ponte Brizola, construída por Rosinha, é ponto de alagação a cada chuva (foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Andemos em direção à ponte da Lapa. Ali, ao lado do edifício Fanta Uva, o antigo leito da lagoa do Curtume, alaga em tempo de chuva. Na rua Formosa, defronte ao 8º BPM, o leito asfaltado da antiga lagoa de Santa Ifigênia também alaga. No pé do edifício Salete, o leito impermeabilizado da lagoa João Maria acorda o fantasma da lagoa. Pras bandas do Cepop e do Novo Jóquei, a má drenada lagoa do Goiabal também alaga. Sempre que chove um pouco mais, os fantasmas das lagoas saem das sepulturas. Em breve, será assim com Guarus.

No governo de Arnaldo Vianna, houve o empenho em construir piscinões. Piscinão é uma redundância. Você extingue uma lagoa na superfície e constrói uma no subsolo. Campos tem 19 piscinões. Nenhum dá vencimento em dia de chuva. Eles estão entupidos e não absorvem nada. Na Pelinca, existem os piscinões-garagem. Qualquer bobeira permite a água entrar nas garagens abaixo do nível do solo e alagar tudo. Tem morador que perde o automóvel e precisa culpar alguém. Deus e São Pedro estão muito longe e podem castigar a pessoa pelas ofensas. Então, ela ofende a prefeitura.

Um fator ainda mais para agravar os alagamentos: a impermeabilização do solo com asfalto. A argila que está por baixo dele absorve água com dificuldade. O mais correto seria calçar as ruas com paralelepípedo. Mas os moradores querem asfalto. As empreiteiras também. E para os automóveis não correrem muito, a população pede quebra-molas.

Enfim, a drenagem já é difícil em situação natural. Com nossa secular ajuda, piorou. Existe um plano municipal de macrodrenagem urbana que nunca sai do papel. Entra prefeito e sai prefeito e o plano continua engavetado. Creio que já está desatualizado. Ele nunca foi prioridade para os governos. Temos poucas alternativas de escoamento superficial: canais Campos-Macaé, dos Coqueiros, de Cambaíba (a cidade já o alcançou) e de Cacumanga, todos canais primários, ligando o Paraíba do Sul ao sistema lagoa Feia. Os secundários e terciários saem desses ou desembocam nesses, como o canal natural do Cula e os canais construídos do Saco, de Santo Antônio e do Goiabal. Eles precisam ser otimizados. Inútil a drenagem subterrânea sem esses canais limpos e desimpedidos.

Se vocês querem morar numa cidade de padrão europeu erguida numa planície aluvial em zona tropical, é preciso cuidar muito bem do sistema de drenagem urbana. E o campista precisa saber aonde pisa. Ele nada sabe do espaço da sua cidade. O pior é que não quer saber.

 

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Guilherme Carvalhal — Amor póstumo

 

 

 

Às 23h03, Renata e Maurício entraram em uma conversa pelo Whatsapp. Assuntos frívolos: uma música da moda, um vídeo do YouTube. Às 23h44 Renata mandou uma risada — kkkkkk — e Maurício não respondeu. Ela considerou que ele dormiu com o celular na mão, então virou para o lado e o sono chegou.

Às 8h17 ela despertou e logo checou o celular. De cara, uma mensagem de Cecília, irmã de Maurício — ele teve um infarto fulminante naquela noite. Passou mal na cama, saiu correndo pelo corredor do prédio atrás de ajuda e caiu em frente ao elevador, onde um vizinho o achou já morto.

Assustada, ela abriu sua tela no celular. Releu como se ali encontrasse alguma explicação para essa perda. Ou como se, através dessa realidade digital, pudesse estabelecer contato com ele.

O peso maior foi o de imaginar a si mesma como a última companhia, mesmo virtual, da vida dele. Pensou nos moribundos no hospital e seu último suspirar de mãos dadas com os entes queridos. A imagem que levariam para o além seria dessa conexão redentor. Então ela estaria nessa memória eterna de Maurício, a despedida do mundo físico, o elo final precedendo a partida.

Ela compareceu ao velório sentindo-se especialmente ligada a ele. Manteve-se quieta observando o choro dos parentes, ela própria engolindo a inesperada angústia formada por esse enlace inesperado.

Conhecia Maurício há tempos, mas não se consideraria uma grande amiga sua. Papeavam esporadicamente, normalmente futilidades, sem trocarem intimidades. Apenas essa situação inusitada criaria um vínculo mais profundo.

Dali em diante, Renata se habituou a constantemente repassar as conversas com Maurício. Sua saudade se expressava nessa busca por sentidos avulsos naquelas frases, nas indicações de filmes, nas histórias de bar que contava. Tudo ganhava um significado novo.

Despertava um sentimento nunca visto antes. Sentiu uma vontade repentina de tocá-lo, de estar ao seu lado. Vasculhava suas fotos nas redes sociais e conjecturava como seria debruçar em seu braço nesses momentos.

O sentimento aos poucos se converteu em obsessão. A todo momento ela pensava em Maurício. Dirigindo, trabalhando, tomando banho, aquela efígie aparecia do nada, tirando sua concentração, sugando suas energias. Ela precisava pegar seu telefone, reler e divagar como estariam caso ainda estivesse vivo.

Em uma madrugada de insônia, deparou-se imersa em lembranças e fantasias. Levantou e sentou na sacada. Relia pela milésima vez aquela série de diálogos e esses textos não mais supriam sua carência. Beirava o desespero.

Olhou para baixo. Nove andares até o chão. Era hora de dar um basta. Jogou seu celular de lá de cima, rompendo em definitivo essa relação quimérica.

 

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Ricardo André Vasconcelos — Uma encruzilhada chamada 2018

 

Um longo caminho e uma encruzilhada no caminho do Brasil até outubro de 2018

 

 

A manifestação da presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) ministra Carmen Lúcia, durante jantar promovido pelo site Poder 360 em Brasília, na última segunda-feira, 29, praticamente sepultou tanto a possibilidade de registro da candidatura de Lula quanto deixou mais plausível sua prisão. Quanto à lei da Ficha Limpa, a ministra disse que a questão está pacificada na Corte e que é improvável que o STF reverta o entendimento atual: de que os condenados em segunda instância ficam automaticamente impedidos de concorrer a cargos públicos, independente de entrarem com recursos nos tribunais superiores. Foi mais longe: considerou que seria “apequenar o Supremo”, trazer a discussão por causa de um caso (condenação de Lula), a revisão da decisão de permitir a prisão de condenados em segunda instância. Carmem Lúcia lembrou que votou a favor da decisão duas vezes: “em 2009 fui voto vencido, em 2016, fui voto vencedor”. Consequência imediata da manifestação da presidente do STF, a defesa do ex-presidente pediu e teve negado habeas corpus ao STJ, para evitar a prisão imediata tão logo sejam julgados os embargos interpostos no TRF-4.

Nos trinta anos da Constituição Cidadã a democracia recente brasileira vai enfrentar o maior dos desafios de três décadas de construção. Como a Lula nada resta senão o enfrentamento vai buscar massa popular suficiente nas ruas para criar os fatos que alterem o entendimento do direito já posto. Da mesma forma movimento inverso deve buscar o mesmo para manter o petista fora da eleição.  Por um lado o cenário mostra uma encruzilhada da vida nacional onde, ou se opta pelo enfrentamento com consequências imprevisíveis ou manutenção da previsibilidade que nos trouxe até aqui. Há amadurecimento suficiente das instituições democráticas para levar a termo um processo eleitoral sob tal pressão como parece nunca visto antes. De um lado, pressão dos que entendem que eleição sem Lula é golpe, de outro, os que defendem que, condenado por uma justiça regularmente funcionando, ao ex-presidente resta o cumprimento da pena e suas consequências.

Justa ou não, a confirmação da condenação do ex-presidente Lula pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, é o divisor de águas das eleições de 2018. Todas as pesquisas até aqui apontavam o petista na preferência dos eleitores e um embate eventual no segundo turno contra o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Na iminência de ser barrado pela Lei da Ficha Limpa — que impede candidatura de condenados em segunda instância por determinados crimes, como corrupção passava e lavagem de dinheiro, pelos quais teve a pena aumentada para 12 anos e um mês pelos desembargadores do Tribunal da Lava-Jato — Lula pode colher, como fruto de batalha jurídica em defesa de sua candidatura, o papel de cabo eleitoral de alguém que eventualmente ganhe musculatura eleitoral no PT — Fernando Haddad ou Jacques Wagner — ou optar por outra candidatura de outra legenda, mas que una a esquerda, tipo Guilherme Boulos (PSOL) ou até Ciro Gomes (PDT). Com ou sem seu nome na urna eletrônica, Lula estará no centro do debate eleitoral.

Independente da definição do quadro de candidatos o Brasil vai às urnas em 07 de outubro dividido e deve sair mais rachado ainda. Na eleição de 2014, a vencedora deve 51,64% dos votos contra 48,36% do derrotado. A soma de votos nulos brancos e abstenções foi de 4,63%, ou seja, maior que diferença entre os dois candidatos. E, como a polarização só cresceu nos últimos quatro anos, é de se esperar uma disputa mais que acirrada, a menos que, sem Lula na disputa, a contundência antipetista modere o discurso dos adversários e surja alguma possibilidade de, tanto à esquerda quanto à direita, candidaturas pluripartidárias baseadas em programas comuns e convergindo para o centro de espectro ideológico, algo assim como Rodrigo Maia (DEM) ou Geraldo Alckmin (PSDB).

PSB, PDT, PCB e PSOL, entre outros, conversam sobre alternativas à candidatura de Lula, da mesma forma como no canto oposto, DEM, PDSB, PPS, PMDB e partidos-satélites, abririam mão de suas lideranças próprias para apresentar um projeto para o país. Talvez seja esta a grande necessidade do país hoje: um projeto do que queremos, para onde vamos e quais são as nossas escolhas. De um lado, um Estado intervencionista, com todos os seus benefícios e mazelas e, do outro, o liberalismo com os seus prós e contras. E que os 140 milhões de eleitores decidam quem tem a melhor proposta e lhe dê mais votos.

Pena que a vida real não é tão simples e democrática assim. Os discursos eleitorais são vazios, tanto de um lado quanto de outro. As propostas eleitorais resumem aquilo que os eleitores imaginam que querem — de acordo com o vaticínio dos deuses-marqueteiros — ouvir, e geralmente estão certos e se falassem o que precisa ser dito, não se elegeriam. Não entendemos ainda que as disputas eleitorais são as mais importantes oportunidades para o processo de educação política do povo e não apenas decidir quem vai ocupar o poder pelos próximos quatro anos. E com certeza não será desta vez que vamos mudar isso.

 

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