Quando pensamos políticas de inclusão social, e o Estado deve se ocupar bastante desta questão, ajustando os efeitos colaterais de uma política econômica mais liberal, nos deparamos com algum grau de consenso quando falamos em mecanismos que deem ao indivíduo autonomia ao fim do processo. Consideramos que a assistência é planejada para ter um momento em que não mais será necessária e que o número de assistidos, numa política inclusiva universalizada, seja decrescente ao longo do tempo.
Programas de distribuição direta de renda como o cheque cidadão, aqui em Campos dos Goytacazes, tem o mérito de levar o subsídio diretamente ao cidadão necessitado, atendendo a necessidade imediata e, por se tratar de programa previsto no orçamento municipal, ter previsibilidade de recursos que tornam possível o planejamento das políticas. Entretanto, a falta de objetivos claros além do atendimento a necessidade imediata, a falta de contrapartidas que de fato levassem a autonomia dos assistidos levou à dependência da manutenção da política de subsídio por prazos indefinidos, a falta de controle levou ao uso político eleitoral do programa que teve seu fim de forma trágica e vergonhosa, um escândalo que tem levado dezenas de políticos a responder ao Judiciário tendo seus mandatos cassados, alguns mesmo passando uma temporada no sistema prisional. A “Operação Chequinho” da Polícia Federal expôs a finalidade última do programa que fora a manutenção do poder a qualquer custo.
Agora surge no horizonte, quando se vislumbra novo pleito, a “Lei Marcão” com mecanismo que levaria as empresas a “doar” 1% do valor de seus contratos com a prefeitura ao fundo de assistência social com a finalidade de adquirir cestas básicas que seriam distribuídas a população desvalida. Tal programa social, afora a questão eleitoral latente, não contaria com a previsibilidade necessária para o planejamento das políticas, atenderia tão somente necessidades imediatas e não teria contrapartidas que permitissem vislumbrar a médio e longo prazo a autonomia dos assistidos. Ao fim do cheque cidadão vimos uma população tão pobre e dependente quanto antes e ao fim da distribuição de cestas básicas vislumbraremos o mesmo.
A Doutrina Social da Igreja já abordava há tempos a questão subsidiariedade-autonomia, esse binômio deve estar sempre em mente quando do planejamento de políticas sociais, ainda que os políticos, agora como outrora, se neguem a ouvir os especialistas no assunto. Deve-se buscar continuamente a independência e autonomia dos indivíduos, deve-se buscar que sejam autossuficientes, capazes de prover a si mesmos e suas famílias a partir do trabalho, da capacidade produtiva. Como na frase atribuída a Reagan “O melhor programa social é um emprego”. Mas com o hábito de nossos políticos de utilizar programas sociais para a compra de votos, não é de se espantar se daqui alguns anos surgir a “Operação Sacolão”.
Duas vidas de superação tiveram fim no mesmo dia: Marielle Franco e Stephen Hawking (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
“Eu poderia viver recluso numa casca de noz e me considerar rei do espaço infinito”
(Hamlet, Ato II, Cena II)
Semana entre mortes marcantes e pouco tempo para escrever. Na madrugada de quarta (14), o astrofísico e matemático inglês Stephen Hawking sucumbiu, aos 76 anos, à rara doença degenerativa contra a qual lutava desde os 21. Na noite do mesmo dia, a socióloga e vereadora carioca Marielle Franco (Psol), de 38, foi executada com quatro tiros na cabeça dentro do próprio carro, em pleno Centro do Rio. Junto dela, também foi assassinado o motorista Anderson Gomes (39), alvo de três disparos pelas costas.
Conheci Hawking pela fama de pop star, dada à associação das suas genialidade e doença, antes mesmo de ler “O Universo numa Casca de Noz” (2001). Bestseller escrito para leigos, sem uso da matemática, nele falava de microcosmo quântico e macrocosmo universal, conjecturando sobre temas ainda atuais à física teórica como partículas fundamentais, buracos negros, viagens no tempo e o futuro biológico e tecnológico da humanidade.
Uma das teses apresentadas por Hawking em seu livro era o “paradoxo dos gêmeos”. Por conta da série “Cosmos”, apresentada pelo astrônomo e astrofísico estadunidense Carl Sagan (1934/96) e exibida pela Rede Globo nas manhãs de sábado nos anos 1980, já era familiarizado com o conceito. Consequência da Teoria da Relatividade Restrita, fundamentada pelo físico judeu-alemão Albert Einstein (1879/1955), o paradoxo é um experimento mental sobre dois gêmeos: um fica na Terra, outro se lança pelo espaço em velocidade fantástica.
O resultado? Quando volta ao nosso planeta, o viajante sideral está bem mais novo do que seu irmão gêmeo, tornado ancião pela “lenta” velocidade terrena. Apesar do impacto, foi o único livro de Hawking que li.
Com o mesmo constrangimento, confesso: apesar de ser uma jovem liderança política em ascensão no Rio, quinta vereadora mais votada em sua primeira disputa eleitoral, não tinha ouvido falar de Marielle até sua morte. Sobre Anderson, motorista da vereadora há apenas dois meses, bastou saber que era casado e deixou um filho de apenas um ano.
Mãe também de filha única, Marielle era afrodescendente, lésbica e feminista. Ela se dizia “cria da Maré”, bairro carioca com grande concentração de favelas, onde nasceu e cresceu. Trabalhou desde os 11 para ajudar a custear seus estudos e, aos 19, se matriculou na primeira turma de pré-vestibular comunitário oferecido na Maré. Com 21, começou a militar em direitos humanos, após perder uma amiga numa troca de tiros entre PMs e traficantes.
Aos 23, iniciou a graduação em Ciências Sociais na PUC-RJ, a partir de uma bolsa integral do Programa Universidade Para Todos (Prouni). Depois, fez mestrado na UFF em Administração Pública, onde defendeu a tese “UPP — A redução da favela em três letras: uma análise da política de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro”.
Na eleição de 2006, ela fez parte da campanha vitoriosa de Marcelo Freixo (Psol) a deputado estadual. Nomeada assessora parlamentar, esteve à frente da coordenação da comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa. No último pleito, se lançou à Câmara Municipal do Rio e, com mais de 46 mil votos, foi a segunda mulher mais votada a vereador no Brasil.
No Legislativo carioca, Marielle presidiu a comissão de Direito da Mulher e foi eleita relatora da comissão que fiscalizava a intervenção federal no Estado do Rio. Por conta das constantes denúncias que fazia contra a violência policial nas incursões em comunidades carentes, sobretudo por parte do 41º BPM de Acari, bem como pelas características “profissionais” da sua execução, as suspeitas mais óbvias recaem sobre um câncer fluminense: a corrupção policial institucionalizada nas milícias.
Por pressão popular nacional e internacional, a despeito da criminosa ineficiência do Brasil na apuração de homicídios, o cerco parece se fechar nas evidências. As cápsulas 9 mm usadas na execução de Marielle e Anderson foram desviadas do lote UZZ-18, vendido em 2006 pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) à… Polícia Federal.
O mesmo lote teve munições identificadas em episódios anteriores: três no Rio e um, em São Paulo. Na maior chacina deste Estado, 17 pessoas foram executadas em 2015, nos municípios de Barueri e Osasco. Pelos homicídios de lá, coincidência ou não, três policias militares e um guarda civil municipal foram condenados.
Caso se confirmem as suspeitas, se estará diante de um desafio aberto da banda podre da Polícia do Rio à intervenção federal no Estado. Um tapa estalado e ardido na cara da própria democracia brasileira.
Pouco antes de ser morta, Marielle enviou um artigo ao Jornal do Brasil, publicado na última sexta (16). Nele, escreveu:
— No último final de semana, pelo menos cinco pessoas morreram e quatro ficaram feridas na Região Metropolitana do Rio. Delas, quatro eram mulheres. Alba Valéria Machado morreu ao tentar proteger o filho, em Nova Iguaçu. Natalina da Conceição foi atingida durante confronto entre PMs e traficantes na Praça Seca. Janaína da Silva Oliveira morreu em tentativa de assalto em Ricardo de Albuquerque. Tainá dos Santos foi atingida por um tiro de fuzil na comunidade Vila Aliança. São as mulheres negras e periféricas que perdem seus filhos para a letalidade.
Horas depois, a vereadora carioca foi a próxima vítima mulher, negra e periférica. Junto com ela, seu motorista periférico e branco. Ao que tudo indica, pelos mesmos motivos que a juíza branca Patrícia Acioli foi executada em 2011, com 21 tiros de armas restritas das forças de segurança, quando chegava à porta da sua casa de classe média alta, em Niterói. Titular da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo, ela tinha sido responsável pela prisão de pelo menos 60 policiais ligados a milícias e grupos de extermínio.
Em contrapartida, não dá para fazer oba-oba pseudo-ideológico com a entrevista do traficante Nem da Rocinha ao jornal espanhol El País, enquanto 134 PMs foram assassinados no Estado do Rio em 2017. E outros 27 só nestes primeiros 45 dias de 2018. Para os cegos à direita e à esquerda, bom lembrar que a parlamentar também dava assistência às famílias dos policiais mortos, tingidas do mesmo vermelho coagulado de sangue que poria fim à sua vida.
Goste-se ou não, Marielle representou o que o governo Lula (PT), que instituiu o Prouni em 2005, teve de melhor na inclusão educacional e social do país. Por partidas, vias, destinos (e quebra-molas) distintos, é exemplo de superação que pode ser comparado ao de Hawking. Se a vida e a obra deste viraram filme — “A teoria de tudo” (2014), de Steve Marsh —, as da ativista e vereadora carioca reúnem condições de também se tornar.
Até lá, talvez só as estrelas possam desvelar o que há para além deste buraco negro que se tornou a vida real do Rio. Referências universais do Brasil, pouca coisa hoje nos descreve melhor do que o paradoxo dos gêmeos.
Em 2008, choveu mais do que se esperava. As chuvas torrenciais começaram em novembro. Mais na bacia do rio Ururaí (a qual dou outra denominação atualmente) do que na do Paraíba, embora as duas sejam interligadas. Não sei lidar com números. Talvez tenha havia precipitação semelhante nas duas bacias, mas os efeitos mais destruidores foram sentidos na bacia do Ururaí pelas suas dimensões. O Ministério Público Estadual me perguntou como ele poderia ajudar a população da localidade de Ururaí, que estava embaixo d’água. Sugeri a detonação dos diques da lagoa Feia para aumentar a capacidade dela em absorver água. Confesso que eu não tinha certeza de que a água considerada excedente seria absorvida por uma lagoa maior. Sei apenas que seu espelho d´água aumentaria. Em 1900, uma estimativa dava para a lagoa 370 km². Em 2008, ela oscilava em torna de 170 km². É inconcebível que ela tenha perdido 200 m² em um século de forma natural. Foram certamente os avanços de proprietários de suas margens sobre seu leito, seguindo a sugestão da Engenharia Gallioli, empresa que trabalhou para o Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS).
Lagoa de Cima em dezembro de 2008 – Folha de São Paulo
O Ministério Público Estadual teve dificuldades de encontrar um juiz que aceitasse autorizar a detonação, embora houvesse um parecer técnico favorável, não de minha autoria, que não tenho formação adequada para formular um. Imobilizado pela justiça estadual, o MPE buscou o apoio do MPF, que ofereceu uma ação à justiça federal e dela obteve uma liminar para implodir cinco diques. Vivi um mês de muito movimento. Voo de helicóptero a todo momento. Locação de pontos para a colocação de dinamite. Diga-se a nosso favor que contamos com o apoio do Deputado Federal Geraldo Pudim, da Marinha, da Polícia Federal, do Batalhão Florestal do Estado, da Defesa Civil de Campos e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Naquela época, ainda não existia o INEA. O quadro foi bem diferente daquele vivido por pescadores em fins da década de 1970 e princípio da década de 1980.
Pescador tarrafeando no asfalto em dezembro de 2008 – Folha da Manhã
Houve confronto? Sim. Como evitá-lo? Práticas antigas estavam sendo questionadas e contestadas. Logo, formou-se uma oposição às operações comandadas pelo MPE. Por conta delas, o quinto dique não foi detonado. Muitas acusações foram levantadas: o rompimento dos diques permitiu à água acumulada avançar sobre localidades; certos lugares, como Retiro, foram invadidas por cobras; um estudo científico demonstrou que a implosão dos diques não contribuiu minimamente para reduzir o nível das águas, embora, na prática, não tenha sido esta a percepção dos moradores de Ururaí e Ponta Grossa dos Fidalgos; o Promotor de Justiça Estadual Marcelo Lessa, que comandava as operações, foi denunciado à Corregedoria do MPE. Mais tarde, depois que o momento crítico passou, depus a favor dele.
Ururaí alagado – Monitor Campista – dezembro de 2008
Com a implosão de quatro diques erguidos por proprietários, a área de lagoa saltou de 170 km² para 200 km². Não há mais como alcançar os 370 km² medidos pelo engenheiro Marcelino Ramos da Silva em 1900. Quatro grandes áreas pesqueiras foram conquistadas. Até agora, parece uma conquista irreversível e necessária. Em 2010, por solicitação do MPF, inspecionei a lagoa com alguns pescadores e as áreas adicionadas à lagoa continuavam sendo usadas para a pesca.
Implosão de dique na lagoa Feia – Monitor Campista – dezembro de 2008
Em 2009, o já existente Inea contratou os serviços da Coppetec/UFRJ, para fazer levantamento com fim de redragagem dos canais abertos pelo DNOS e encontrar soluções para minorar os efeitos de enchentes. Oficialmente, o Inea foi o autor do projeto, licenciou-o e inspecionou-o. Coube a Odebrecht executar os trabalhos com verbas do PAC. Novos embates. Marilene Ramos, arrogante secretária Estadual do Ambiente, veio com soluções prontas para a baixada e com ideias mirabolantes, tais como um canal transversal saindo do canal de Coqueiros, atravessando os canais de São Bento e Quitingute para desaguar no canal do estaleiro do Açu. Propôs também soluções para as enchentes nos rios Muriaé e Pomba. No primeiro, um canal sairia do rio antes de uma cidade para voltar a ele depois da cidade, com diques em Cardoso Moreira. No Pomba, as pedras do leito seriam detonadas para aumentar a capacidade de sua calha em absorver excesso de vazão. Ainda bem que nada foi adiante, embora a solução para o Muriaé não fosse de todo má se bem modificada.
Ponta Grossa em dezembro de 2008 – Divulgação
Dez anos depois, o Estado do Rio de Janeiro está dividido em 9 regiões hidrográficas (a décima, referente ao rio Itabapoana, jamais deveria ter sido extinta, com a bacia passando à gestão do comitê do baixo Paraíba). O gerenciamento do trecho final de bacia do Paraíba do Sul e da parte da bacia do Itabapoana que toca ao Estado do Rio está a cargo do Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itabapoana.
Sede de fazenda ilhada na lagoa Feia – dezembro de 2008. Divulgação
Atualmente, sou apenas uma voz solitária. Um historiador ambiental (ou eco-historiador, como gosto) que se dedica cada vez mais ao estudo da Ecorregião de São Tomé (Norte+Noroeste Fluminense+Sul Capixaba). Embora solitária, minha voz também é dissonante. Continuo defendendo que soluções mitigatórias para nossa região não dependem exclusivamente de decisões tomadas em benefício das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Entendo que as lagoas da margem esquerda do Muriaé devem ser recuperadas e usadas como reservatórios de água, também restaurando algumas lagoas da margem direita do Paraíba do Sul, que comportas e canais devem ser mantidos sempre bem conservados e bem operados; que a poluição hídrica deve sempre ser combatida e que matas ciliares devem ser recompostas.
Lagoa Feia na enchente de 2008 – Divulgação
E novamente chove. A lagoa Feia está bombando mais uma vez.
Diante do sofá vazio onde antes ocorreram os momentos de felicidade, o retrato agora engavetado junto a boletos por pagar não desenhava mais um casal sorridente; as nuances da areia da praia emoldurando o abraço se esvanecia, dando a entender que restava somente o nada.
O tempo nos prega tais surpresas. Ele nos relega o inesperado afastamento feito um nó que indubitavelmente se desfaz. Toda sinergia que o enlace inicial cria, quando os corações reciprocamente disparam, tende a se dissipar em uma névoa insípida que permanece apenas na memória.
De todas as aventuras da vida, as memórias se perpetuarão como a única herança palpável. Os contatos, os toques, nada mais disse se manifestará no mundo tangível. Tudo o que se foi se restringe nas sinapses do cérebro, formulando as lembranças, e mesmo essas muitas vezes contam com prazo de validade.
Memórias essas que vêm à tona conforme os pequenos acontecimentos do dia a dia nos remetem ao que vivemos juntos. O reencontro ao final do expediente, as brigas na hora de escolher um filme para assistir, isso tudo jaz no inconsciente trazendo uma imensa lição, a de como a felicidade reside justamente nas coisas mais ínfimas.
Seria aquele sapato que insistia em deixar no chão da sala, os fios de cabelo no ralo do chuveiro, o barulho do mastigar de chiclete. A mania de cutucar o próprio ouvido, o incômodo com a incidência solar na sala, o olhar-se no espelho e reclamar do pneu de cerveja na cintura. Isso dava sentido ao que tivemos. E agora já não faz sentido nenhum.
Sobrava o porta-retratos. Não significava mais nada, porém constituía uma prova cabal de que um dia você existiu. Dobrei-me ao parapeito e vislumbrei a calçada lá embaixo. Ninguém passava: soltei-o e o deixai cair, contemplando quando se espatifou em muito pedaços.
Permaneci debruçado ali por uns instantes, reflexivo, até uma cena me chamar a atenção. Um rapazinho passou, olhou aqueles cacos e os catou todos. Não entendi o que pretendia, se os colaria, se o usuária para outra coisa. Só sei que aquele pedaço exorcizado de mim de alguma forma fez sentido para ele.
Congresso Nacional (desenho de Oscar Niemeyer), ganha protagonismo com instabilidade do presidencialismo
Num regime presidencialista como o nosso, é normal que as eleições majoritárias ocupem a maior parte das preocupações dos eleitores, da mesma forma como consomem o tempo e energia dos atores políticos na construção de articulações e alianças. Afinal, é na figura do presidente da República que se concentra, até agora, as grandes decisões nacionais. O elemento recente neste cenário é o crescente protagonismo dos outros dois poderes (Legislativo e Judiciário, de formas distintas) na mesma medida da perda de eficiência e credibilidade do Executivo. Daí que, as eleições para a 56ª Legislatura (2019-2023) se revestem de especial importância porque os 513 deputados de federais e 57 senadores (2/3 do Senado) a serem eleitos no pleito de 7 de outubro próximo, atuarão numa realidade de semipresidencialismo ou semiparlamentarismo porque, na prática, o presidencialismo acabou.
O fim do presidencialismo da forma como conhecemos hoje, talvez seja o grande legado do governo Temer. Tornar-se refém da Câmara dos Deputados para livrar-se de duas denúncias — uma terceira estaria a caminho — por crimes cometidos durante o mandato e depois de ascender ao poder num golpe parlamentar, pode ter sido a pá de cal no sistema de governo que, desde a redemocratização, já se metamorfoseara em “presidencialismo de coalizão”. Todos seus antecessores — de Sarney à Dilma — bem ou mal governaram nesta corda bamba que os obrigaram a fatiar a administração pública em feudos representativos das forças políticas espalhadas pelos muitos partidos e em facções partidárias. Sarney, Itamar, Fernando Henrique e Lula tiveram jogo de cintura suficiente para concluir seus mandatos. Collor e Dilma apostaram na força do presidencialismo de direito e perderam para o parlamentarismo de fato. Foram mandados para casa mais cedo, mas foi Temer que levou o presidencialismo ao fundo do poço pelos atos e fatos recentes.
A origem desta distorção estaria na Constituição de 1988, de inspiração e concepção parlamentarista, mas na hora de os constituintes escolherem o sistema de governo deu presidencialismo. Decisão referendada por 69,2% dos eleitores que compareceram às urnas no 21 de abril 1993. Outros 24,6% optaram pelo parlamentarismo, 14,7% anularam o voto e 5,2% votaram em branco e 25,7 % do eleitorado simplesmente não compareceram. Exatos 30 anos antes do plebiscito de 1993, a derrota do parlamentarismo nas urnas foi ainda mais acachapante. Cerca de 80% dos eleitores da época escolheram a volta do presidencialismo, interrompido dois antes como única forma de tornar aceitável a posse do então vice-presidente da República, João Goulart em substituição ao titular, Jânio Quadros, que havia renunciado.
Ao imaginar o Estado tripartido em três poderes independentes, Montesquieu (1689-1755) mirava no absolutismo do Rei que, por unção divina, enfeixava em suas mãos poderes para fazer as leis, executá-las e ao mesmo tempo julgar e punir quem não cumpri-las. Dois séculos mais tarde, esse sistema de freios e contrapesos ainda funciona da mesma forma suscetível a inevitáveis ajustes de percurso, como estes a que o Brasil estará inevitavelmente sujeito nos próximos anos e, de preferência, já a partir das eleições de outubro.
Para esticar um pouco mais a reflexão, dentro do espírito dos poderes independentes e harmônicos, entende-se que para o Estado funcione imune à tentação da tirania, o Poder Legislativo tem mecanismos para conter uma episódica hipertrofia do Executivo e vice-versa. No enquanto, como neutralizar eventuais exageros da terceira perna do tripé de Montesquieu? Como a democracia reagiria ante uma possível ameaça oriunda do farfalhar das togas negras?
Coadjuvado por um Ministério Público cada vez mais onipresente, o Poder Judiciário ganha cada vez mais relevância e ares de imprescindibilidade, muito mais pela crescente descrença do Executivo e Legislativo do que pelos seus próprios méritos. Que esse protagonismo da Justiça é um bom freio de arrumação para a bandalha generalizada que tomou conta da política, não há dúvida. O desafio que se impõe é cuidar para que seus integrantes não se comportem como absolutistas imbuídos de uma missão salvadora da pátria como já se percebe aqui e ali. Para a vitalidade da democracia, não se inventou nada mais moderno e eficaz do que a velha fórmula de independência e harmonia entre os três poderes.
O atual governo municipal, por pura insapiência, está promovendo, deliberadamente (ou por desconhecimento de causa?), o desmonte de todo sistema municipal de cultura da cidade, elaborado, por força de sua adesão ao Sistema Nacional de Cultura (Lei Federal 12.343/2.010), nos oito anos do governo da prefeita Rosinha Garotinho, inclusive equipamentos culturais preciosos estão sofrendo a falta de interesse e de manutenção.
Para a formalização da adesão ao sistema, o que ocorreu em 2009, a urbe precisou se organizar, através da edição de mecanismos legais no sentido de cumprir seus preceitos filosóficos, envolvendo os eitos das culturas simbólica, cidadão e econômica, abrindo, com isso, perspectivas para que artistas de todas as correntes estéticas pudessem/possam viver de sua arte, independentemente de seu comprometimento político-partidário.
No primeiro momento, através de um olhar democrático, restabeleceu-se, com suas representações sociais e políticas, o Conselho Municipal de Cultura, bem como foram criadas as câmaras técnicas abrangendo todas as manifestações culturais, incluindo o carnaval e as demais de fulcros populares. Foram realizadas cinco conferências, a primeira delas nos estertores do governo de Alexandre Mocaiber, sob a presidência de Luciana Portinho.
Para dar cunho ao trabalho, a prefeita, em sua disposição prática, criou, através da Lei Municipal 8.205, de 28/12/2010, o Fundo Municipal de Cultura que, vencendo as barreiras burocráticas impostas pelo Tribunal de Contas do Estado, conseguiu publicar e executar dois editais públicos, beneficiando instâncias produtivas indicadas e devidamente aprovadas pelo Comitê Gestor, eleito pela maioria absoluta dos conselheiros.
Através de amplas discussões, com a aprovação prévia das câmaras técnicas, a prefeita sancionou a Lei Municipal 8.530, de 19/12/2013 e, antes, atendendo, igualmente, às pautas do Conselho de Preservação do Patrimônio Histórico (Coppam) estabeleceu, com rigor, a Lei Municipal 8.487, de 31/03/2013, passando a existir, pela primeira vez um instrumento que permitiu/permite o tombamento de cerca de 300 prédios do centro histórico, o maior conjunto de arquitetura eclética do interior do Estado do Rio de Janeiro.
Poucos sabem, mas a cidade possui, também, a Lei Municipal 8.525, de 17/12/2013, que dispõe sobre a destinação e o recebimento de patrocínio pelo poder público e estávamos cuidando, também através das câmaras, da edição de uma nova lei sobre incentivos fiscais, em favor das produções culturais; e do famoso Plano Municipal de Cultura, prevendo-se sua aplicabilidade, independente de forças partidárias, ao longo dos próximos 10 anos.
Com o apoio inconteste da então vereadora Auxiliadora Freitas e com a vontade política do presidente do Legislativo, o preclaro Dr. Edson Batista, todas as disposições legais da cultura foram inseridas na reforma da Lei Orgânica do Municipal (LOM), editado em 26 de agosto de 2014, através dos artigos 264 a 290. Lá está escrito: “O Conselho Municipal de Cultura, criado e regulamentado por lei própria, é reconhecido como instância deliberativa na formulação da política de cultura do município (…)”.
Não nos cabe criticar pessoas pelos descaminhos culturais, até porque sempre consideramos que o partido da cultura deveria ser, no mínimo, o “Partido Alto”. Mas não podemos ficar calados diante do desmonte das leis e dos equipamentos ao longo desses 14 meses. Os conselhos estão teoricamente desativados e dependentes de outras conferências para indicar os novos atores que dariam continuidade ao trabalho das câmaras técnicas.
O de Cultura andou realizando algumas reuniões pontuais, mas o Diário Oficial não registrou nenhuma providência com relação às pautas da V Conferência. E o Coppam, um órgão técnico, que incomodava grupos econômicos interessados em esterroar o patrimônio do centro histórico, também não tem atuado. E é com tristeza que registrarmos algumas perdas provocadas por decisões monocráticas, prova cabal do afastamento das representações comunitárias — o que contraria o estabelecido pela Lei 8.487/2013.
Quanto aos equipamentos, estamos diante de um circo de horrores. O Trianon, o Teatro de Bolso e o Arquivo Público não recebem investimentos suficientes para manutenção e as águas pluviais penetram nos sagrados espaços por ocasião das enxurradas. O Ceopo está abandonado por falta de políticas culturais, o mesmo ocorrendo com relação ao Palácio das Crianças. E o Museu Histórico, instalado no Solar do Visconde de Araruama, está recebendo chuva pelas claraboias e as paredes descascam pelo desleixo para com a coisa pública.
O que mais causa espanto, todavia, é que não vemos muitas pessoas e instituições reclamando contra a desfaçatez do sistema, o que nos faz refletir sobre a obra de Jean Baudrillhard, “À Sombra das Maiorias Silenciosas”. Pode ser, em tese, que estejam todos armazenando forças para um momento mágico de contestação. Ou existe uma cumplicidade consciente no discurso tênue e comprometido dos descontentes?
O que se constata, infelizmente, é que tudo está realmente mudando. Para pior…
No próximo dia 8 de março, não dê flores a uma mulher, chame-a para uma pelada. Sim, futebol. Ou a Cláudia, da mesa do lado, nunca te disse da trivela de canhota dela? Ah, já sei. Você é daquele tipo que pressupõe que elas não gostariam de bater uma bola com a galera do serviço. Provavelmente, se tivesse um negócio voltado para mulheres, deixaria apenas revistas de moda e celebridades na recepção. Livre-se desse preconceito: encha a mesinha de centro com exemplares de Playboy e G Magazine, porque, afinal, não podemos pressupor a heterossexualidade de ninguém, tampouco a homossexualidade, o não-binarismo…
Se você não está entendendo nada, provavelmente perdeu o bonde da história e ainda não conferiu as “40 condutas micromachistas” que você reproduz, ainda que não tenha consciência disso, publicadas no jornal El País por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A lista não-exaustiva — dada a criatividade e o ócio dos censores modernos — enumera uma série de comportamentos que você deveria abrir mão imediatamente, como o quase criminoso ato de chamar uma mulher de “linda”. Aliás, talvez fosse o caso de você não se dirigir a uma mulher antes que lhe seja permitido, sob pena de ofender a sensibilidade de quem quer que seja.
Segundo o mesmo portal de notícias, o dia 8 de março foi um “dia de luta”, cuja maior realização internacional foi levar aos trending topics a hashtag #MeToo, popularizada pelas artistas hollywoodianas. Soube-se que, a partir de agora, maridos violentos desistirão de suas agressões e islamitas – parceiros estratégicos do feminismo nos países desenvolvidos – permitirão que suas mulheres andem sozinhas sem que corram o risco de serem apedrejadas vivas. Nada mais pós-moderno do que a pretensão de mudar o mundo através de manifestações coletivas de sentimentalismo, fundamentadas na ignorância de que a simples denúncia de um mundo dividido entre oprimidas e opressores, identificados como todo “macho” que não compartilhe integralmente da visão feminista radical e passe por um processo de expurgo público de sua culpa hereditária e involuntária. Na insaciável tarefa de eleger culpados, censurar comportamentos e buscar a solução de todos os problemas reais através de manifestações virtuais, de fato sobra pouco tempo para que pessoas tão boas realizem uma análise mais detida a respeito das múltiplas causas da violência contra a mulher.
No Brasil, por exemplo, fiquei sabendo pela mesma matéria que milhares de mulheres marcharam contra o machismo e a violência, mas também contra Temer (???) e a Reforma da Previdência (???).
O Dia da Mulher carrega uma carga política indissociável, tendo sua origem mais conhecida nas manifestações de operárias russas à época da Primeira Guerra Mundial, culminando no direito ao voto, permitido às mulheres ainda durante o moribundo regime de Nicolau II, defenestrado pelos revolucionários dias depois. O dia 8 seria posteriormente reconhecido como feriado soviético, ligado umbilicalmente a diversas manifestações de partidos socialistas ao redor do globo. Após tal concessão a elas, os bolcheviques decidiram que as mulheres deveriam funcionar apenas como ferramenta do regime – a nova mulher soviética seria responsável por lançar a semente da revolução em suas casas. O divórcio foi facilitado e, em pouco tempo, dado o contexto da época, mulheres separadas e seus filhos eram cada vez mais numerosos entre os famintos. O desastre foi tão grande que a ditadura soviética precisou voltar atrás nas liberdades concedidas e incentivar a tão detestada família patriarcal. O regime ainda reservaria a elas vagas cativas em campos de trabalhos forçados, onde condições desumanas e estupros faziam parte do pacote.
Se você pensou que usar uma suposta data comemorativa como ferramenta política é prática nova do feminismo, está enganado. A esquerda é historicamente hábil em usar mulheres como massa de manobra. O resultado, invariavelmente, é piorar ainda mais a realidade para suas supostas protegidas.
Cristina Salgado Rodrigues (Foto: Arquivo de Família)
Morreu por volta das 20h30 de ontem (05), em sua residência, a professora Cristina Salgado Rodrigues, presidente do Educandário São José Operário. Ela tinha 68 anos e lutava bravamente, há cerca de um ano e meio, contra um câncer no fígado. Seu corpo será velado a partir das 8h de hoje, no São José Operário, que atende aos deficientes visuais de Campos e ao qual Cristina dedicou 23 anos da sua vida. O enterro será às 16h, no Cemitério do Caju.
Cristina faleceu em companhia do filho Cristóvão Hervé Lyzandro, do companheiro Walter Azevedo Júnior e da irmã, a jornalista Silvia Salgado. As duas são filhas do falecido jornalista e dramaturgo Hervé Salgado Rodrigues, durante muitos anos proprietário do jornal A Notícia, de maior circulação em Campos até o surgimento da Folha. Além de Hervezinho, Cristina deixa o filho Conrado Lyzandro, médico nefrologista conceituado no Rio de Janeiro, e cinco netos: Pedro, João, Hervé, Davi e Miguel.
Dona de belos olhos verdes, Cristina marcou todos que a conheceram pelo sorriso cativante e a elegância dos gestos. Amigo de adolescência de Hervezinho, tive o prazer de conviver com ela durante boa parte da minha vida. Mesmo agora distante de Campos, me solidarizo com sua família e legião de amigos e admiradores, entre os quais me incluo neste momento de sincero pesar.
Há algum tempo, conversava eu com um senhor que, do alto de seus mais de 80 anos, me relatava experiências de sua longa vida, sem a revolta ou o ímpeto dos jovens, sem o sarcasmo ou a indiferença dos canalhas, com a sabedoria de quem apenas contava histórias, não como quem diverte ou distrai-se apenas a passar o pouco tempo que lhe resta, mas como o ancião que pela tradição oral ensina, transmite sabedoria.
Dizia-me então, como quando ainda criança, com a curiosidade própria dos infantes, participava de um churrasco pela primeira vez na vida, algo estranho. Donde já se vira queimar carne no fogo? Contava que seu pai de forma alguma comera, achara tremendamente exótico comer carne sem que fosse frita. Nas traquinagens e correrias com as demais crianças, calhou que vissem, isso tudo corria no interior do Estado do Espirito Santo, homens chegados da capital, num “carrão”, algo bastante incomum e raro. Esgueiraram-se pelas beiradas do quintal, curiosos de saber o que faziam, de onde eram aquelas pessoas, foi quando vira, imaginem o assombro e deslumbre para uma criança pobre da roça, uma mala de dinheiro. Não sabia nada o então menino, apenas ficara admirado e correra a contar a seu pai o que vira. Como mandava o costume e a moral, fora repreendido. “Ficar por aí espiando os outros não era coisa de gente direita”, pouco importava se o era a mala de dinheiro. Apesar de não poder precisar a data, quem eram aqueles homens, ou sequer os governantes a época, ficaram as lições, uma aprendida à época, não se fica por aí espiando; a outra, aprendida com a experiência, de um jeito ou de outro sempre fora assim…
Ouvimos e vemos ações que nos deixam ora estupefatos, ora esperançosos, se jamais fora diferente, também jamais houvera uma operação Lava Jato. As ações da polícia federal que nos expuseram as entranhas nojentas da relação entre as empresas e os políticos, que pusera, “Como nunca antes na história do país”, gente graúda no banco dos réus, gente importante na cadeia. Saindo de Curitiba e chegando à Brasília as investigações, se levadas a cabo, deixarão sobrar pouco do que havia se estabelecido no modus operandi de nossos agentes político-empresariais. Cá em nossa planície já há envolvidos sendo investigados por desdobramentos dessa operação, pessoas habituadas as colunas sociais andam as voltas com o figurino que exibirão em outra parte dos jornais e, depois de ver o herdeiro do império da Odebrecht, amargar alguns meses de cadeia, já se percebem não mais intocáveis.
A justificativa, como se fosse justo, dos envolvidos é dizer que querem criminalizar a política, que os recursos desviados eram apenas caixa dois para alimentar campanhas eleitorais, para compra de apoio… tentam, admitindo crime menor, salvar os dedos enquanto se lhes vão os anéis. Lembro-me do senhor que ainda menino vira a mala de dinheiro, “sempre foi assim”. E observo com tristeza que a busca por subterfúgios que deem aparência justificável a compra de votos, compra de consciências, permanece viva como sempre. Dos percentuais desviados da Petrobrás e postos à luz pela Lava Jato, passando pelo Cheque Cidadão, inflado e distribuído a larga próximo a eleição e que deu origem a Operação Chequinho e chegando ao Sacolão a ser distribuído em ano eleitoral pelo governo municipal a partir de subterfúgio legal apelidado de Lei Marcão, não por acaso pretenso candidato a deputado, não há diferença.
Assistindo a um filme intitulado Ben-Hur, produção recente, não o “original”, após a corrida de bigas em que o Romano sai derrotado, o representante do Império Romano recebe condolências de interlocutor pela perda e responde “Perda? Veja isso! Eles querem sangue, são todos romanos agora”. Espero que o povo, após tantas notícias sobre corrupção e desvios de caráter, de tanto ser bombardeado com a exposição de negociatas, de privilégios que mesmo sendo legais, são imorais. De tantos chequinhos, auxílios moradia e sacolões não acabe por se tornar todo corrupto.
Como era de se esperar, o pré-candidato a deputado federal Wladimir Garotinho (sem partido) fez várias críticas ao governo Rafael Diniz (PPS). Assim como ao pré-candidato deste à Câmara Federal, vereador Marcão Gomes (Rede). O que surpreendeu foi que até chegou a elogiar o governo de Campos, no caso da redução do aumento no IPTU. Ainda assim, Wladimir prega que “Campos não aguenta mais três anos do governo Rafael”, conclamando que a população, como fez no impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), saia às ruas no protesto marcado por Anthony Garotinho (sem partido) para o dia 8. Ele também falou da “venda do futuro”, do destino partidário da família e das operações Chequinho e Caixa D’Água. E desabafou, como filho, sobre a prisão dos pais. Herdeiro orgulhoso do legado popular do garotismo, ele defende novos métodos, aos quais credita sua boa aceitação também na classe média.
(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Folha da Manhã – Nas últimas pesquisas do instituto Pappel entre os pré-candidatos locais a deputado federal, você aparece liderando com folga em todas as zonas. A que credita essa vantagem?
Wladimir Garotinho – Primeiro, minha família tem um trabalho consolidado na cidade. Eu também milito na política desde 2008, no PR. Fui presidente do partido aqui; organizei reuniões em todos os bairros de Campos, então fiquei uma pessoa conhecida, participando de reuniões, conversando com a comunidade, ouvindo as demandas da comunidade e levando ao governo Rosinha. Algumas vezes conseguindo resolver, outras não, mas sempre dando o feedback à população. Eu nunca ia à comunidade simplesmente fazer uma reunião. Eu ia à comunidade, fazia a reunião e, tudo o que me era demandado, eu fazia questão de retornar, seja com a resposta positiva ou negativa. Acho que isso me deixou conhecido, me deu uma certa credibilidade nos locais por onde eu passei, e acho que é esse o motivo de, hoje, as pessoas estarem reconhecendo o nosso trabalho, mesmo que não à frente de um cargo, mas fazendo trabalho político nas bases.
Folha – O que mais surpreende é sua liderança também nas antigas 98ª e 99ª. A chamada “pedra”, na zona central da cidade, sempre foi refratária ao garotismo. Acha que você veio para quebrar essa resistência histórica da classe média ao seu grupo político?
Wladimir – Eu sou filho de um casal conhecido na cidade, mas sou de uma geração diferente. Tenho 33 anos, sou aqui da “pedra”, moro na “pedra”, convivo aqui. Ser liderado não significa ser submisso, eu tenho minhas opiniões próprias, minhas convicções. Hoje, a “pedra” está se sentindo enganada pelo modelo que o atual prefeito pregou na eleição, e acho que isso me credencia a ter essa expressão na pesquisa. Não sei se vai se resultar na eleição. Espero que sim, vou trabalhar para que sim.
Folha – Mas, você tem esse objetivo: quebrar a resistência histórica da “pedra” ao garotismo?
Wladimir – Eu acho que o preconceito não parte só da “pedra” contra o Garotinho, pessoa física. Não ao que você chama de garotismo…
Folha – Os cientistas políticos e sociais que atuam no município é que chamam.
Wladimir – Isso também parte um pouco do Garotinho para com a “pedra”, porque o Garotinho sempre teve seus olhos mais voltados para a camada popular. Isso gerou uma animosidade entre ele e a chamada “pedra” de Campos. Eu tenho um legado a defender. Mas, também colocarei em prática o que eu penso em termos de ideias, propostas e realizações, atingindo também a “pedra”. Como falei, eu sou daqui, moro aqui, convivo e tenho amigos aqui. Acho que é importante a gente sempre frisar que a periferia da cidade sempre foi excluída de todo processo político. O Garotinho e a Rosinha trabalharam com a inclusão dessas pessoas. Posso citar como exemplo a passagem social, que incluiu essas pessoas e as aproximou da cidade. Hoje, as pessoas têm que pagar passagem mais cara para virem ao Centro da cidade. Isso exclui a periferia do Centro. Então, vou trabalhar defendendo o meu legado, que é o da minha família, mas também vou trabalhar para aquelas pessoas que têm uma certa rejeição ao grupo, mas que comigo não têm.
Folha – Você mora no entorno da Pelinca, não?
Wladimir – Sim. Na verdade, onde eu moro é Centro.
Folha – A pesquisas ainda tinham o empresário César Tinoco (PPS) como pré-candidato do governo Rafael Diniz (PPS). Acredita que a substituição dele pelo vereador Marcão Gomes (Rede), presidente da Câmara, vai provocar mudança nos números?
Wladimir – Acho que não. Apesar de Marcão ser mais conhecido, é mais fácil ligá-lo a Rafael. Apesar de César ser amigo pessoal de Rafael, o braço direito, a pessoa que ele confia. Politicamente, é mais fácil ligar Marcão a Rafael, porque ele é o presidente da Câmara dos Vereadores. Sem a presença do presidente da Câmara, Rafael não poderia, por exemplo, ter aprovado as medidas impopulares que aprovou, como o aumento da taxa de iluminação pública, o fim da passagem social, o fim de programas sociais. Então, politicamente, para conversar com as pessoas, é muito mais fácil ligar Marcão a Rafael.
Folha – Você falou em medidas impopulares. Na postagem do blog Opiniões, que anunciou (aqui) a redução do reajuste no IPTU, uma leitora indagou (aqui) em comentário: “vai aprovar aumento de IPTU no mesmo ano da cobrança?”
Wladimir – Redução não é ilegal.
Folha – Exato. Depois, falando à coluna Ponto Final, o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos esclareceu isso e fez críticas ao governo Rafael, mas creditou (aqui) essas medidas impopulares que você citou às “demandas reprimidas pelo populismo”. Concorda?
Wladimir – Eu não concordo, porque sempre se falou, e o Rafael e o Marcão falavam, a bancada de oposição falava, que precisava se pensar Campos além dos royalties. Nós tentamos fazer isso. Tentamos, várias vezes, mandar medidas para a Câmara, por exemplo, e o Carlos Alexandre foi um dos que entrou dizendo que é inconstitucional. Rafael criticava, Marcão criticava. Nós pensamos em fazer algumas…
Folha – Carlos Alexandre revelou (aqui) que o IPTU de 2010, que sua mãe queria aprovar, era inconstitucional, por ter sido votado no mesmo ano da cobrança. E ele estava certo, não?
Wladimir – Foi em 2010 e acho que teve outra…
Folha – Só que em 2010, na proposta travada do governo Rosinha, teve caso de aumento de até 150% no IPTU.
Wladimir – Mas, é diferente quando você fala de aumento de alíquota e valor venal. Quando você aumenta a alíquota, aumenta muito mais. O que Rafael, lá atrás, criticava, hoje ele está fazendo pior. Ele aumentou muito mais do que a gente propôs aumentar no passado.
Folha – Dezesseis por cento não é menos do que 150%?
Wladimir – Ele recuou, agora, por uma pressão da sociedade, das entidades, e eu acho até digno da parte dele recuar. Quando a gente erra e percebe que errou, a gente tem que dar o braço a torcer e recuar. Isso não é demérito nenhum. Nisso, ele acertou. Mas, ele recuou em um caso específico, o do IPTU, porque a pressão popular e das entidades foi muito grande em cima dele. Mas, nas outras, ele não recuou. Então, o que ele criticava lá atrás, quando nós tentamos fazer, que era Campos além dos royalties, para tentar gerar outros tipos de receita, ele agora está fazendo pior. Está aumentando muito mais, praticamente sufocando toda a teia produtiva da cidade de Campos. O dinheiro não circula, as pessoas estão sem condição e só têm que pagar imposto. Está cada vez mais difícil viver em Campos.
Folha – O principal ponto de sufocamento hoje parece ser (aqui) o transporte público. Quem não tem veículo próprio e mora na periferia, sobretudo na Baixada Campista, trabalha na área central e ganha salário mínimo, está praticamente trocando dinheiro para ir e vir de van.
Wladimir – Não é só a questão da passagem social. Muitas pessoas criticam, por exemplo, o programa Cheque Cidadão. Além de botar comida na mesa das pessoas, o programa Cheque Cidadão faz o dinheiro circular no comércio. Além de gerar emprego, renda. O fim da passagem social impede que o cara venha para o Centro. Se ele deixa de vir para o Centro, deixa de comprar aqui. Com o fim do Cheque Cidadão, o dinheiro deixa de circular no comércio. Também deixa de gerar emprego. Com isso, você vai criando um ambiente ruim na cidade, no ponto de vista econômico. Então, você acaba sufocando toda a cadeia produtiva; o dinheiro deixa de circular, e ainda vem um aumento absurdo de impostos e taxas. Ninguém consegue sobreviver a isso. A cidade não consegue sobreviver a isso. Rafael ficou preso a um discurso político e agora está preso a um problema técnico. Ele dizia que o problema era a “venda do futuro”. O problema ficou demonstrado pelos números da Prefeitura que não é a “venda do futuro”. O dinheiro da cessão de crédito que ele teve que pagar à Caixa foi 2,5% do orçamento dele. Aí você pode dizer: “ah, é porque conseguiu uma liminar”… Se ele não conseguisse (aqui) a liminar, não chegava a 8%. O problema não é a cessão de crédito, que foi necessária, lá atrás, para manter as coisas minimamente funcionando. O problema é que a arrecadação caiu.
Folha – Você faria, se fosse prefeito?
Wladimir – Eu faria. E acho que ele deveria ter feito.
Folha – Rafael deveria ter feito agora, no governo dele?
Wladimir – Deveria, porque não adianta ele querer fazer os ajustes necessários fazendo o povo sangrar. Precisa de ajustes? Precisa.
Folha – A máquina tem que ser enxugada?
Wladimir – Precisa de ajustes, precisa ser enxugada. Mas, de que adianta realizar os ajustes fazendo o povo sangrar, fazendo o povo passar fome, ficar desempregado? O próprio Marcão falou, numa entrevista, que tem 40 mil pessoas em Campos numa situação de extrema pobreza. No final do governo Rosinha, o último levantamento apontava 30 mil. Então, já subiu, em um ano, 10 mil. Tem gente passando fome. Eu estou falando uma realidade que ando na periferia e vejo que tem gente que não tem o básico do básico do básico. Então, não adianta cortar tudo. Eles encaram o programa social como custo. Eu não acho que seja custo, vejo como investimento.
Folha – Rafael prometeu (aqui) reabrir o Restaurante Popular.
Wladimir – Tomara que reabra. Vai ser um gol de placa. Ele não deveria nem ter fechado. Vamos ser realistas: um negócio que não custa nem R$ 250 mil por mês, que alimentava mais de 1.500 pessoas por dia, se ele acha que isso é custo, eu não acho que seja. Por isso que eu digo que as prioridades dele são invertidas. O problema é que ele ficou batendo em “venda do futuro” e nunca existiu “venda do futuro”. O problema foi a queda da arrecadação, devido à queda do preço do barril do petróleo, que vai voltar a subir.
Folha – A projeção da ANP é que volte a subir.
Wladimir – A projeção é que, lá para meados de 2019, Campos volte a ter uma receita melhor. Eu digo que ele está prevendo um orçamento de R$ 2 bilhões e não vai realizar R$ 1,8 bilhão. A arrecadação vai voltar a subir uma hora, só que, para poder passar o momento de grande crise que a cidade viveu a partir de 2015 e vive até hoje, você precisa ter o mínimo de estrutura para manter a cidade em ordem. Rafael não consegue manter a cidade minimamente em ordem. Então, esse discurso de “venda do futuro” não cola. Dizer que não tem dinheiro, não cola. Existem saídas, basta ele querer fazer.
Folha – A “venda do futuro” incomodou, não?
Wladimir – Incomodou porque foi um jargão criado pela oposição, propagado pela mídia. Vocês propagaram uma coisa que, na minha opinião, é uma inverdade. É normal em empresa privada e em serviço público recorrer a operação de crédito. Outro dia eu estava conversando com o vereador Neném (PTB), que é empresário. Ele me confidenciou que, para poder sobreviver nas lojas dele, está tendo que antecipar cartão de crédito. Isso para sobreviver, porque o movimento está muito fraco.
Folha – Você diz que “venda do futuro” é mentira. Qual é a verdade, então, em ceder a verba do futuro para receber no presente?
Wladimir – Olha o que representou, 2,5% do orçamento.
Folha – Mas a expressão não está equivocada. Não é uma mentira.
Wladimir – Não é uma mentira, mas foi usada de uma forma que desqualificasse o que foi feito para ajudar naquele momento presente. Era a única solução que tinha, naquele momento, para não sangrar como está sangrando hoje.
Folha – Mas isso não é como o sujeito que toma empréstimo no agiota para pagar o que devia a outro e continuar preso a uma nova dívida?
Wladimir – Isso é normal em qualquer instituição, privada ou pública, todo mundo faz isso. Dei o exemplo do vereador Neném, que me disse que, nas lojas dele, está tendo que fazer para sobreviver. Ele vende, o cara compra em 10 vezes no cartão de crédito e, não tendo como pagar as contas do mês, porque o movimento está fraco, ele vai lá e antecipa a venda de cartão de crédito. Paga lá os juros que tiver que pagar e antecipa. Isso é normal. Não pode é querer crucificar um governo porque fez o que era necessário para manter a cidade em ordem num período de crise.
Folha – A cidade continua em crise. Mas, se fosse prefeito, você faria?
Wladimir – Se não tivesse solução, sim.
Folha – Você acha que não tem solução?
Wladimir – Hoje? Não tem.
Folha – Então você faria?
Wladimir – Hoje, não tem. Rafael está preso a um problema técnico, porque ele entrou com uma liminar na Caixa e, agora, a Caixa não faria outra com ele. Foi uma saída achada na época para não deixar a cidade morrer como está morrendo hoje. Nós tivemos dificuldades, tivemos que parar as obras, mas a cidade não parou por completo, não morreu, como está morrendo. Se continuar como está, a cidade vai morrer. Ela foi a opção encontrada à época para que a cidade resistisse à forte queda da arrecadação devido à desvalorização do barril do petróleo. Você me perguntou se eu fosse prefeito, eu faria outra hoje. Eu não sou o prefeito e não tenho como afirmar se sim ou se não, mas não descartaria essa possibilidade.
(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Folha – O Ponto Final do último domingo anunciou (aqui) a troca de César por Marcão. E ouviu os dois, além de Rafael. Mas nenhum deles atribuiu a mudança à preocupação com a sua pré-candidatura. Essa análise ficou por conta da coluna. Mas, no Facebook, você a creditou ao prefeito, utilizando inclusive a charge do jornal, como se ele a tivesse desenhado. Não foi forçar a barra?
Wladimir – Da minha parte? Não acho, não. Li a coluna, vi a charge, publiquei aquilo porque lá dizia que o alvo era Wladimir.
Folha – Mas, quem disse foi a coluna e a charge. E você creditou a Rafael.
Wladimir – Não foi ele que disse? Nos bastidores, se credita a ele. Pelo menos nos bastidores da política, porque ele acha que Marcão tem uma densidade eleitoral maior do que a de César.
Folha – Ter você como alvo da mudança foi uma análise da coluna, que muita gente faz. Mas não foi uma declaração dele.
Wladimir – Eu, sinceramente, achei que tinha sido uma colocação do grupo dele, porque, nos bastidores, é isso que se fala. Mas, sinceramente, eu não estou preocupado com quem é o candidato da base. Seja César ou Marcão, vou me opor ao modelo de gestão do Rafael.
Folha – Pelo que Marcão de fato falou, ele pretende usar o discurso da experiência e da perspectiva que, se candidato e eleito, ele trará coisas como deputado a Campos. Como pretende responder a eventuais acusações de falta de experiência? E, se eleito, pode se esperar que sua atuação em Brasília trará benefícios para o município governado pela oposição ao seu pai?
Wladimir – Em primeiro lugar, experiência político-partidária eu tenho. Fui dirigente do partido aqui em Campos por muito tempo, fiz reuniões nos bairros e comunidades e tenho uma ligação muito forte direto com a população. Segundo: Marcão se diz um cara experiente. Eu admiro um presidente da Câmara, que se diz experiente, fazer aditivos com contrato da empresa de publicidade que é de propriedade do secretário de Comunicação. Essa experiência, para mim, não tem ajudado em nada ao povo de Campos. Simplesmente, ele é presidente da maior Câmara dos Vereadores do interior do estado e tem ajudado o prefeito a sufocar a cidade e o povo. Essa experiência dele, se for, por exemplo, de renovar aditivos e contratos com uma empresa que tem como dono o secretário de Comunicação do governo Rafael, para mim, essa experiência não conta. Sobre a segunda pergunta, ele disse que eu não trarei benefícios para Campos caso eu vença, porque Rafael é meu adversário. Talvez, Marcão esteja me medindo pela régua dele. Vou dar um exemplo clássico: meu pai, quando era deputado federal, trouxe para Campos um acelerador linear, porque era bom para os pacientes oncológicos de Campos. Ele colocou no hospital Álvaro Alvim, onde o diretor que cuidava e ainda cuida desse setor é Frederico Paes Barbosa, tio de Rafael Diniz, que é um excelente oncologista, por sinal. Eu não só vou trazer recursos, como vou fiscalizar a aplicação. Com certeza eu disponibilizarei recursos, se for para o bem da cidade, mas tenho que exigir um mínimo de transparência. Não dá, por exemplo, para o Portal da Transparência da Prefeitura ficar 100 dias sem ser atualizado e ninguém saber onde está sendo usado o dinheiro. Além disso, quem Marcão apoiou na eleição passada para deputado estadual e deputado federal? Ele apoiou Zeidan (PT), com base eleitoral em Maricá, e o que Zeidan fez por Campos? Nada! Ele apoiou Chico d’Ângelo (PT) para deputado federal. E o que Chico d’Ângelo (PT) trouxe para ele, Marcão, que era vereador em Campos? Nada! Então, Marcão, mais uma vez, quer me medir pela régua dele. Os deputados que ele apoiou, que eram de fora de Campos, não trouxeram nada para cá.
Folha – Paulo Feijó (PR) foi eleito deputado federal com o seu grupo político. E ele tem aprovado emendas parlamentares que garantiram recursos federais a Campos, sobretudo na área da Saúde. Ele serve nisso como exemplo?
Wladimir – Paulo Feijó está certo, ele é deputado de Campos e região. Tem que ajudar, tem que trazer recursos. A situação de Campos, hoje, necessita que todo mundo faça alguma coisa em benefício dela. Independente de qual grupo ele foi eleito, ele tem que trabalhar pela população que o elegeu, independente de qual prefeito estiver lá. E assim eu também o farei.
Folha – Apesar de, em tese, pertencer ao seu grupo político, Feijó tem o apoio disputado pelas pré-candidaturas a deputado federal de Marcão e do empresário Marcelo Mérida (PSD). Gostaria de ter o apoio dele? Como reagirá se não o tiver?
Wladimir – Eu e o Paulo Feijó sempre tivemos uma relação boa, próxima. Num passado não tão distante, ele disse que gosta muito de mim e que seria um prazer me ajudar. Mas, eu sei que a política é dinâmica e que, hoje, ele preferiu se afastar do grupo do Garotinho. Não quero nenhum tipo de conflito ou discussão com o Paulo Feijó. Desejo sorte e sucesso. Quem ele decidir apoiar, que seja bem sucedido na sua tarefa.
Folha – Mas, se você não tiver o apoio dele…
Wladimir – Tudo bem, está tudo certo, faz parte do jogo.
Folha – Falamos de Mérida. Ele e o petroleiro José Maria Rangel (PT) também são pré-candidatos locais a deputado federal. Como avalia essas postulações, uma mais ao centro e outra à esquerda? Acredita que tenham chance, ou serão eleitoralmente engolidos pelo seu embate com Marcão?
Wladimir – Eu acho que a polarização entre mim e o candidato do governo Rafael, independente de ser Marcão ou César, ela é inevitável. Mas, acho que as outras candidaturas são importantes. O Marcelo Mérida, por exemplo, representa um segmento forte na cidade de Campos, que nunca teve um representante legítimo postulando ao cargo do Legislativo Federal. É uma pessoa que eu conheço, tenho uma relação. Até conversei com ele, há poucos dias, sobre a pré-candidatura dele. Está bastante animado, acho um nome interessante no cenário atual. O José Maria, eu não conheço pessoalmente, mas sei que defende a política mais à esquerda. A polarização é inevitável, porque a Rosinha saiu do governo há pouco tempo e Marcão será o candidato do Rafael. Mas, a polarização será entre o Wladimir e o candidato do governo Rafael Diniz, que agora estão dizendo que vai ser o Marcão, mas as outras candidaturas são válidas e importantes, representam segmentos e camadas. Que o debate seja em alto nível, para o bem da sociedade. Que o jogo seja na bola, para o bem da sociedade.
Folha – Pode não ser?
Wladimir – Pode.
Folha – E se baterem na canela, você vai devolver?
Wladimir – Eu vou tentar fazer o debate no mais alto nível possível, mas, toda ação tem uma reação natural.
Folha – Sua pré-candidatura é algo certo, ou ainda depende das definições do seu pai, que é pré-candidato ao governo estadual, e irmã, Clarissa Garotinho (PRB), deputada federal eleita e licenciada para ser secretária do governo Marcelo Crivella (PRB)?
Wladimir – Minha candidatura é certa. Já está confirmada dentro do grupo, está confirmada na família. Não serei o único candidato do grupo a deputado federal em Campos. O grupo terá uma segunda opção.
Folha – Que seria quem?
Wladimir – Ainda está sendo estudado um segundo nome.
Folha – Comenta-se que Clarissa pode ser pré-candidata a deputada estadual. Se isso se confirmar, como ficaria seu apoio, tido como certo, à reeleição de Bruno Dauaire (PR)?
Wladimir – Clarissa tem base eleitoral fora de Campos. O Bruno é meu amigo, tem sido correto com o nosso grupo político, principalmente comigo, não posso reclamar de nada dele. Mas, nós também teremos outros candidatos a deputado estadual de Campos. Vou dobrar com todos os candidatos daqui. Não é só com o Bruno. Em relação à minha irmã, a base dela é fora. Ela vai fazer campanha fora. A base eleitoral dela é o Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense…
Folha – Como você avalia o mandato de Bruno na Alerj? Uma candidatura dele a prefeito de São João da Barra em 2020 tem que passar necessariamente pela reeleição em 2018?
Wladimir – Eu acho que o Bruno tem sido um excelente parlamentar. Tem desenvolvido um trabalho digno de um deputado estadual, tem defendido a região, tem defendido categorias importantes. Acho que ele tem uma reeleição muito bem encaminhada. E ele tem um sonho pessoal, um projeto dele, de disputar a Prefeitura de São João da Barra. Ele é de São João da Barra, a família dele tem história política lá. Se ele tem esse sonho, com certeza precisa se reeleger para se cacifar e disputar a eleição lá.
Folha – Não é segredo que sua candidatura a deputado estadual, em 2014, foi preterida por seu pai. E que você não reagiu passivamente a isso, bancando a candidatura de Bruno e provando sua força nas urnas. A história não corre o risco de se repetir?
Wladimir – Dessa vez, dentro do grupo e da minha família, a minha candidatura já é dada como certa. Da outra vez, eu tentei construir essa candidatura, ela foi abortada por uma questão de compromisso político. Meu pai tinha compromisso com Pudim, tinha compromisso com Jair Bittencourt à época, no Noroeste. Uma candidatura minha, por ter o sobrenome Garotinho, ia atrapalhar o Pudim, em Campos, e o Jair, no Noroeste. Eu disse ao meu pai que não tinha condição de apoiar o Pudim, pedi autorização para apoiar o Bruno. Tivemos uma conversa, eu, meu pai e minha irmã.
Folha – E ele deu essa autorização?
Wladimir – Deu. Só que, quando o Pudim percebeu que a maioria das pessoas que queriam votar em mim me acompanharam no projeto de Bruno, e que ele (Pudim) estava sendo esvaziado naturalmente por aquilo, ele começou a trabalhar contra mim e contra a candidatura do Bruno dentro do próprio grupo. Aí foi que gerou toda a animosidade. A candidatura do Bruno foi permitida. Quando tentaram frear a candidatura do Bruno, eu reagi, enfrentei o grupo dos “cabeças brancas”.
Folha – Garotinho, inclusive.
Wladimir – Sim, houve um determinado momento em que, por exemplo, eu fui tirado da presidência do partido (por Garotinho), aqui em Campos, sem saber que fui tirado. E fui deslocado de Campos para poder coordenar a campanha do meu pai na Baixada Fluminense, sem conhecer a Baixada Fluminense. Aquilo estava gerando uma animosidade com Pudim e também com os outros candidatos à época: Gil Vianna, Albertinho…
Folha – Foi bola nas costas do seu próprio pai?
Wladimir – Não digo bola nas costas. Ele tinha um compromisso de eleger Pudim, que era amigo e companheiro dele. E Pudim reagiu a isso, vendo que o meu apoio ao Bruno, que havia sido combinado, estava indo além do que eles achavam que eu poderia ir. Na verdade, eles não acreditavam que eu pudesse transferir tanto voto para o Bruno. Então, houve uma reação, uma tentativa de frear a campanha do Bruno e me frear. Mas, eu falei: ‘não, combinado foi combinado. Vou enfrentar, vou encarar’. Graças a Deus, eu tive êxito na minha empreitada.
Folha – Você confidencia que seu pai é seu ídolo. Mas, ao mesmo tempo, já deu algumas demonstrações de independência de pensamento. Qual o limite entre a idolatria e a subserviência?
Wladimir – Para mim, família é uma coisa sagrada. Eu vou honrar pai e mãe enquanto estiver vivo. Mas, como falei, somos de gerações diferentes, pensamos um pouco diferentes. Discordo muito dele internamente.
Folha – Pode dar exemplo?
Wladimir – Não posso discordar de forma externa, muitas vezes, porque isso vai gerar, além de um problema familiar, um problema político. E ele é o líder do grupo que eu faço parte.
Folha – Não pode dar algum exemplo?
Wladimir – São coisas internas, de condução e de métodos que ele aplica.
Folha – Você fala isso em eleição ou no governo?
Wladimir – No geral. Na condução política, na condução de governo. Às vezes, quando eu achava que alguma coisa não ia por um caminho bom, eu sempre fiz questão de alertar e dizer que eu não concordava.
Folha – Tem uma frase que você teria dito ao seu pai, no caso da Chequinho: “você vai acabar com o governo da minha mãe”…
Wladimir – Isso foi atribuído a mim por uma pessoa que mentiu em depoimento.
Folha – Beth Megafone…
Wladimir – Eu provei que ela mentiu.
Folha – Essa frase não existiu?
Wladimir – Existiram vários embates pessoais, mas questões de discordância de pensamentos e de métodos, não de objetivo. Métodos a gente discorda e discute internamente. Eu não posso chegar para fora e dizer o que eu discordo. Além de ele ser meu líder político, ele é meu pai. Ele é líder do grupo que eu faço parte. Mas ser liderado não significa ser subserviente, abaixar a cabeça para tudo. A gente tem que discordar; é na discordância que a gente discute, debate e cresce.
Folha – De todas as acusações e condenações que pesam sobre seus pais, como na Chequinho e na Caixa D’Água, pouca coisa sobrou para você. Na Chequinho, por exemplo, você foi absolvido da acusação criminal em dezembro. Qual a sua opinião sobre os dois casos?
Wladimir – Primeiro, juridicamente falando: eu fui absolvido na Chequinho por absoluta falta de provas. Provei com depoimentos que, no depoimento da principal testemunha…
Folha – Beth Megafone.
Wladimir – Ela não é só a Beth Megafone, é a principal testemunha, que deu luz a todo o processo. Eu provei que ela mentiu, pelo menos no meu caso. Se ela mentiu no meu caso, acho que também pode ter mentido nos outros casos.
Folha – Você acha que ela mentiu?
Wladimir – Eu acho que ela mentiu, aumentou e potencializou uma coisa…
Folha – Por que ela mentiria?
Wladimir – Não sei. Eu acho que vai ficar na consciência dela, até o resto da vida, o porquê de ela ter feito isso. O porquê eu não sei, se foi a mando de alguém ou se veio da cabeça dela. Pouco me importa. Mas, eu tenho certeza que ela mentiu.
Folha – Na condição de filho, o quão penoso foi ver seus pais presos?
Wladimir – No aspecto familiar, é muito difícil para qualquer um. Como falei, família é uma coisa sagrada. Você deve imaginar como é, para um filho, ver pai e mãe presos. Eu, como filho homem mais velho, tive que assumir a liderança familiar por um período, junto com a Clarissa, porque temos irmãos mais novos. Tendo que cuidar dos irmãos, procurar advogados, cuidar da defesa, cuidar de tudo. A gente ainda não voltou ao normal, porque os processos…
Folha – Ficou trauma?
Wladimir – Não é trauma, mas é que a gente ainda vive os processos, eles não acabaram. A gente vive com um sentimento ruim, porque muitas dessas acusações não são verdadeiras. A gente tem certeza que, com o tempo, vamos provar isso.
(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Folha – E a Caixa D’água?
Wladimir – Eu não fui citado nela, posso falar muito pouco. O que eu sei, li na imprensa e nos depoimentos. Acho que há muitas contradições.
Folha – Você acha que o Deca (empresário André Luis Ribeiro, dono da Working) também mentiu?
Wladimir – Eu acho que há muitas contradições. A principal não é nem do Deca, é do Pudim, porque ele era o coordenador de campanha. Diz ele que participou da reunião, abrindo a reunião, e ele não é acusado de nada? É muito estranho. Prefiro que a Justiça cuide. Vou me reservar a não tocar muito no assunto, porque a Justiça e o tempo vão provar quem estava certo e quem estava errado.
Folha – Mas, quando você falou da Beth, diz que ela mentiu.
Wladimir – Beth mentiu.
Folha – O Deca, então, não mentiu também?
Wladimir – Eu não sei, porque nesse processo eu não sou réu. Não participo de todas as coisas.
Folha – Você leu o depoimento do Deca?
Wladimir – Li parte do depoimento.
Folha – Aquilo é mentira?
Wladimir – Acho que a Justiça vai cuidar disso. No final, vai prevalecer a verdade.
Folha – Com Beth você foi assertivo: Com Deca, não. Por quê?
Wladimir – A Beth mentiu sobre mim, e sobre mim eu posso dizer. Sobre os outros, não posso falar. Vou deixar que a Justiça cuide disso. O que eu posso dizer é que houve a doação da JBS para a campanha do Garotinho através do PR. Ela foi oficial, está registrada na prestação de contas. Sobre esse assunto específico, não sei sobre ele. Então, não posso falar sobre o que eu não sei.
Folha – Quem esteve em Campos, no início da semana, foi (aqui) o empresário Fernando Trabach, dono “fantasma” da GAP, conhecida no município pela locação de ambulância no governo Rosinha. O Ponto Final alertou (aqui), em novembro, que ele poderia falar o que sabe. E, em dezembro, o jornalista Lauro Jardim noticiou (aqui) em O Globo: “Trabach está delatando. E é quase tudo sobre Garotinho”. Como seu grupo reage a mais essa possibilidade?
Wladimir – O Fernando Trabach não enganou só a gente. Na Prefeitura de Campos, ele participou de uma licitação e venceu. Mas, também participou de licitações na Polícia Civil e venceu, participou no Governo do Estado e venceu, participou de licitações em outras prefeituras e venceu. Se ele cometeu crime e errou, que ele pague. Se tiver que falar o que pensa que deve falar, que fale. Nós vamos nos defender de qualquer acusação.
Folha – Com tantos problemas com a Justiça, acredita realmente que seu pai, atualmente sem partido, conseguirá ser candidato a governador?
Wladimir – É o desejo dele, e ele vai batalhar para ser candidato a governador, porque o Rio de Janeiro, hoje, passa por um momento extremamente complicado, difícil, do ponto de vista econômico e financeiro, e também de quadros políticos. O Rio de Janeiro está sem quadros políticos. Quando foi governador pela primeira vez, Garotinho conseguiu reerguer o Estado, depois de pegar o Estado arrasado por Marcello Alencar. Ele tem um plano traçado e diz que vai recuperar o Estado de novo, depois do deserto deixado por Cabral e Pezão. Então, ele vai, até o final, tentar ser candidato a governador.
Folha – Fora do PR, qual será o destino partidário do grupo, mais especificamente seu e do seu pai?
Wladimir – Estamos em conversa com vários partidos. Ontem (quarta-feira, 28), teve uma reunião no Rio de Janeiro, com a presença do Brizola Neto (PDT), que gostaria muito que o Garotinho voltasse para o PDT. Também é o desejo do Garotinho e de todos nós da família. O PDT foi o berço político dele.
Folha – O berço dele foi o PT. Depois é que foi para o PDT.
Wladimir – É, mas o partido do coração dele é o PDT. Inclusive, ontem (28), o Brizola Neto pôde desmentir, inclusive, aquela história que o Garotinho e o Brizola terminaram brigados. Houve, sim, desentendimentos, o que é normal, mas, no final da vida do Brizola, eles estavam bem. O Brizola queria devolver o partido a ele.
Folha – Entrevistei (Aluysio Abreu Barbosa) o Brizola, no período que eles estavam rompidos. Ele fez muitas críticas a Garotinho. Perguntei se, então, ele se sentia como o doutor Frankenstein, por ter criado um monstro. Ele respondeu: “jovem jornalista, não chega a tanto. É mais um macaco em loja de louças”.
Wladimir – Eu lembro dessa entrevista. Mas, assim, o Brizola Neto foi o secretário particular do Brizola nos últimos 10 anos de sua vida, e ele me confidenciou algumas coisas que o avô falava para ele. O avô dele tinha um carinho muito grande pelo meu pai, e dizia sempre que o trabalhismo estaria sempre bem representado com o Garotinho. Queria, ao final da sua carreira, tentar unificar as forças dentro do PDT para que Garotinho retomasse o controle partidário e seguisse com os ideais de Brizola. Mas, o Brizola acabou falecendo, isso não foi possível. É o desejo do coração do Garotinho, voltar para o PDT. Se não for possível…
Folha – E o Lupi (presidente nacional do PDT), já conversaram com ele?
Wladimir – Eu conversei com o Lupi, o Brizola Neto já conversou com o Lupi, e estamos tentando marcar uma conversa do Garotinho com o Lupi, para definir como vamos caminhar; se o Garotinho vai para o PDT, se o PDT vai apoiar o Garotinho independente de para onde ele for… Estamos numa construção partidária, não só com o PDT. Meu pai já conversou com o PDT, o Pros, o PRP, o Patriota, vários partidos, para montar uma frente…
Folha – Clarissa acertou em se mudar antes ao PRB da Igreja Universal e de Crivella? Como avalia o governo dele no Rio e a atuação de Clarissa na secretaria de Desenvolvimento, Emprego e Inovação?
Wladimir – Clarissa foi para o PRB a convite de Crivella. Na verdade, na eleição municipal do Rio de Janeiro, existia uma conversa avançada entre Garotinho e Índio da Costa (PSD). Clarissa participou de uma outra articulação com o Crivella e a gente entendeu que era melhor apoiar o Crivella, para dar chance de ter um governo popular no Rio de Janeiro. O Índio não representava a camada popular. Crivella venceu a eleição e a convidou para ir para o PRB e ser secretária. Foi um convite direto do Crivella para ela, sem o grupo impor nada. Eu acho que ela vem fazendo um bom trabalho, já inaugurou três restaurantes populares no Rio de Janeiro. Crivella não está bem na gestão, mas, se vi uma pesquisa quantitativa, do Paraná Pesquisa, indicando que a popularidade dele ainda está num patamar aceitável, principalmente na periferia. Está bem, na medida do possível. Na última pesquisa que eu vi, do Instituto Grande Rio, o Rafael Diniz, por exemplo, está com 86% de ruim/péssimo. Eu vi essa pesquisa, não foi ninguém que me disse.
Folha – Foi feita quando essa pesquisa?
Wladimir – Há uns 20 dias.
Folha – Quem encomendou?
Wladimir – Não sei. Vi essa pesquisa na Alerj. Uma pessoa me mostrou. Quem encomendou, não faço a mínima ideia. Enfim, vi uma pesquisa indicando que o Crivella ainda tem uma boa aceitação na camada popular, apesar de o governo dele ainda estar patinando. Ele é um cara que, como sempre foi do Legislativo, foi para o Executivo agora e ainda está acertando os ponteiros.
Folha – Qual sua opinião sobre a intervenção federal no Estado do Rio?
Wladimir – Eu acho que só a intervenção federal não vai resolver nada. Só ocupação policial não é a solução. O Rio de Janeiro está sofrendo, hoje, o reflexo de uma política totalmente equivocada do governo Cabral e Pezão, principalmente na área social e na área de segurança, com as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s). As UPP’s se fixavam num local, o bandido saía dali e ia para outra área, o interior ou a Baixada Fluminense; criou braços onde não tinha e agora está mantendo esses braços e retomando as suas bases. Era uma política de não prender ninguém, simplesmente de ocupação por ocupação, sem dar oportunidade às pessoas da comunidade de terem um projeto social, uma educação, qualquer tipo de coisa que tirasse o jovem daquela influência do tráfico. Não prendiam os bandidos, que ocuparam outros espaços e agora estão retomando. Acho que a intervenção não tem que ser só na segurança, mas no Estado do Rio de Janeiro inteiro; afastar o governador, para ter alguma expectativa de que isso dê algum efeito.
Folha – Quando falou à Folha sobre a troca de César por Marcão na pré-candidatura do governo de Campos a deputado federal, você afirmou (aqui): “Independente de quem for o candidato, eu vou fazer oposição ao modelo de gestão do governo Rafael”. Perguntado ao que se opunha especificamente, você disse que falaria na entrevista. Estamos nela.
Wladimir – É um governo incoerente. Um governo que não tem prioridades específicas. Parece que é uma confraria de amigos. Agora, na reforma administrativa, ele (Rafael) está tentando mexer um pouco nisso.
Folha – Saiu hoje (quinta-feira, 01) no Diário Oficial: Fernando Leite e Dante Lucas, os “cabeças brancas”…
Wladimir – Mas, assim, é um governo que está sendo exatamente contrário de tudo o que se propôs na eleição. É um modelo de governo que está sufocando a teia produtiva da cidade, a cidade está morrendo, literalmente. Eu discordo de vir falar que não tem dinheiro. Nós temos muito menos recurso do que já tivemos, mas, no auge da crise, em 2015, a cidade resistiu. Nós mantivemos os salários em dia, mantivemos a coleta de lixo em dia, a iluminação pública. Hoje, ele não consegue manter o básico em dia, por falta de experiência, falta de equipe, preparo e prioridades. É um governo que faz exatamente tudo o que criticou, de forma ainda pior.
Folha – Você e o Bruno são da mesma geração de Rafael e muitos dos seus secretários, na casa dos 30 e poucos anos. Acha que, como referência dessa geração, o governo de Campos está representando mal?
Wladimir – Acho que o Rafael está fazendo mal não só à cidade, mas para uma geração de políticos da geração dele. Ele fracassando, outras pessoas podem olhar para essa mesma geração não querendo dar oportunidade no Executivo, porque acham que também não vai dar certo. Acho que Rafael não tem equipe; acho que não tinha a experiência necessária para assumir a Prefeitura; que as atitudes que ele tem tomado, uma atrás da outra, são equivocadas; e que não tem ninguém com pulso por trás dele, porque ele não consegue tomar as medidas que precisam ser tomadas. Não é que não consegue, ele tem tomado medidas equivocadas mesmo, e não tem pessoas com respaldo político e histórico por trás dele. Então, acho que está fazendo mal para a cidade e pode fazer mal para toda uma geração de políticos da faixa dele. Eu quero me colocar exatamente ao contrário disso. Sou novo, penso diferente dos meus pais, mas tenho um respaldo por trás. Tenho dois ex-governadores, pessoas de história, duas pessoas que provaram que foram bons administradores atrás de mim. Podem falar o que for do final do governo Rosinha, porque a cidade, o Estado e o país estavam numa crise, mas Rosinha foi reeleita com 70% de aprovação popular. A rejeição ao governo dela começou em 2015, quando a receita caiu de R$ 2,6 bilhões que eram previstos para R$ 1,5 bilhão.
Folha – A queda do barril do petróleo…
Wladimir – Sim, a queda do barril de petróleo, que foi de US$ 125 para US$ 27.
Folha – Isso não começou antes, com a derrota do seu pai ainda no primeiro turno da eleição a governador de 2014? Sinceramente?
Wladimir – Não. Não foi. Em 2014, a arrecadação prevista era de R$ 2,5 bilhões. Realizou R$ 2,1 bi e pouco, não chegou nem a R$ 2,2 bilhões. O orçamento previsto já começou a cair. E 2015 foi um caos, porque o barril foi a US$ 27. Tudo o que estava programado teve que ser revisto. Teve que adaptar o orçamento, parar todas as obras. Mas, como eu disse, a cidade resistiu. Nós conseguimos manter os salários em dia, porque tinha, por trás do governo, dois gestores, dois ex-governadores, pessoas capacitadas e comprometidas com aquilo. Rafael é inexperiente e não tem equipe.
Folha – Na última segunda (27), na reunião no Clube de Regatas Rio Branco, prévia à manifestação contra o governo marcada para 8 de março, seu pai esperava reunir 600 pessoas. Mas apenas 300 compareceram. Garotinho chegou a afirmar: “Não podemos expor o povo de Campos ao ridículo de convocar um ato para ir meia dúzia, eu tenho responsabilidade”. O protesto será mantido? Não seria melhor tentar vencer nas urnas, do que ficar chorando a derrota da última eleição?
Wladimir – O ato não é do grupo do Garotinho. Alguém precisa puxar um movimento. O Garotinho, como pessoa física, está tentando puxar o movimento. Mas, ele disse: “a decisão de manter ou não o ato vai partir de vocês. Vocês têm que decidir em conjunto se vão manter ou não o ato”. Eu acredito que muitas pessoas não foram à reunião porque, antigamente, você convocava uma reunião para qualquer coisa e a pessoa, de qualquer distrito, pagava R$ 1 e vinha. Pagava mais R$ 1 e voltava. Eram R$ 2. Hoje, para a pessoa comparecer à reunião, tem que pagar R$ 5,50. Então, do mesmo jeito que sufoca o comércio, também atrapalha as nossas reuniões e mobilizações. Mas, o ato em si, eu acho que é um ato em prol da cidade. Muita gente está insatisfeita com o governo Rafael. Eu acho que muita gente tem o desejo de externar isso. A rede social, que foi, talvez, o grande trampolim de Rafael na eleição, tem mostrado isso. Você vê poucas pessoas defendendo o modelo e a gestão do governo nas redes sociais. Mas, falta às pessoas deixar o computador e ir para a rua. O que derrubou Dilma não foram os processos, foi a rua.
Folha — Você usou o impeachment de Dilma como exemplo. O objetivo, então, é derrubar o governo?
Wladimir – Eu acho que Campos não aguenta mais três anos do modelo Rafael. Acho que a cidade está morrendo, a cadeia produtiva está morrendo, e a cidade não aguenta mais três anos desse modelo. Ele criou um passivo dele mesmo, do ano passado para este ano, em torno de R$ 400 milhões. Ele não consegue sequer pagar esse passivo este ano.
Folha – E os R$ 2,4 bilhões que o governo alega (aqui) ter recebido de dívidas?
Wladimir – Eu gostaria que esses R$ 2,4 bilhões que eles dizem fossem abertos, fossem mostrados. Eles pegam parcelamento de INSS, FGTS, que vencem daqui a 10, 12, 15 anos, e trazem a valor presente. Isso não existe. Essa dívida é uma dívida que vai ser de qualquer prefeito que entrar, porque a maioria disso é parcelamento de fundo de garantia e INSS de governos passados. Se você for pegar os R$ 2,4 bilhões que ele fala, tem dívida aí que é do governo de Arnaldo, do governo Mocaiber, que nós pegamos e parcelamos em 180 vezes. Isso é uma mentira pregada e propagada.
Folha – A eleição de prefeito de 2020 passa pelas urnas de outubro deste ano. Eleito deputado federal, seu nome se cacifa naturalmente para vir a prefeito, daqui a dois anos?
Wladimir – Eu não vou discutir eleição de prefeito, nem acho que tem que haver antecipação de campanha. Sou pré-candidato a deputado federal. Se Deus quiser, eleito, vou trabalhar pela minha cidade e região. Até a eleição de prefeito, outros nomes vão surgir, outras circunstâncias vão acontecer, e o fluxo da política segue.
A escolha do nome do presidente da Câmara dos Vereadores de Campos, Marcão Gomes (Rede), como representante da facção política atualmente no poder para concorrer a uma vaga na Câmara Federal, significa a disposição de Rafael Diniz (PPS) de disputar de verdade o comando da política local. É um teste de fogo, não só para a sucessão municipal de 2020, mas principalmente para aferir se o prefeito conseguiu ou não se consolidar como uma liderança alternativa ao garotismo. Do outro lado do ringue estará justamente o filho do casal Garotinho — cujo nome, Wladimir, é uma homenagem ao ex-líder estudantil nos anos 60, Wladimir Palmeira —, apontado como aposta garotista para tentar retomar a prefeitura daqui a dois anos.
Há 32 anos, nas eleições de 1986, as peças eram semelhantes, aparentadas. Zezé Barbosa, em seu terceiro mandato de prefeito, lançou o genro candidato a deputado estadual, tendo como principal adversário um jovem radialista. Era uma queda de braço entre o ocaso da velha liderança e o alvorecer da nova. O radialista, Anthony Matheus, que logo incorporaria ao nome a alcunha “emprestada” do ídolo José Carlos Araújo, o “Garotinho”, venceu a disputa com 33.439 votos pelo PDT, contra 30.751 votos do genro de Zezé, Sérgio Diniz (PMDB) e pai do atual prefeito. Ambos foram eleitos, mas o resultado numérico foi o principal sinal da ascensão de uma liderança e queda da outra e um par de anos depois, Garotinho foi eleito prefeito.
A história parece que se repete. De um lado uma liderança emergente, porém com grande dificuldade de consolidação e do outro, um “coronel” em desgraça crescente, não apenas pelo desgaste do tempo, como também muitos processos judiciais e que já renderam três prisões provisórias para Garotinho. Três décadas atrás isso seria impensável…
Para as eleições de outubro deste ano é previsível que tanto Marcão quanto Wladimir sejam eleitos, mesmo que os dois possam sofrer alguns tropeços por causa de seus partidos. O primeiro está (ainda) no minúsculo Rede, que acaba de sofrer uma perda significativa com a saída do deputado Alessandro Molon, considerado puxador de votos; e o segundo está, como o pai, sem legenda. Outra coincidência é a aparente independência, tanto de um quanto de outro, em relação aos seus patronos. O presidente da Câmara nem de longe se encaixa no perfil de “poste” e sabe como se beneficiar dos bônus sem o desgaste dos ônus de ser candidato de um governo que patina há 14 meses e dá sinais de envelhecimento precoce, enquanto o filho do casal Garotinho não só aparenta estar imune à impopularidade dos pais, como também já deu mostras de independência e até de enfrentamento dentro de casa. Preterido para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa há quatro anos, Wladimir desafiou o pai, lançou, bancou e elegeu o amigo Bruno Dauaire. Portanto, se eleitos, nem Marcão nem Wladimir serão tributários incontestáveis de padrinhos.
De um lado, o governo Rafael Diniz está passando por uma reforma para dar agilidade política ao governo que vem perdendo a luta para os problemas cotidianos, como por exemplo, dos transportes, que se arrastam sem sequer uma amenização. Busca azeitar a máquina para a batalha de outubro. Do outro, a velha tática da guerrilha política do garotismo que, sem o poder nas mãos, apela para a desqualificação dos adversários, dossiês, passeatas, denuncismo e etc…
No entanto, não custa lembrar que nem todos os eleitores se comportam diante da urna eletrônica como se o sistema eleitoral fosse do voto distrital, aquele em que você escolhe um candidato inscrito pela sua região ou distrito. Então, é possível ao eleitor ignorar a falsa dicotomia Marcão X Wladimir, ou Rafael X Garotinho e escolher um deputado que seja o seu representante no Congresso Nacional. Afinal, do que adianta ter um deputado local que arrume emendas parlamentares de meia dúzia de milhões para obras na cidade, mas que nas votações dos grandes temas nacionais vota de forma contrária ao que você pensa? E se o seu deputado, por exemplo, vota pelo impedimento de investigação contra o presidente da República? Nesta história não cabe bairrismo e os representantes que os eleitores da região mandaram para Brasília nas últimas décadas estão aí para provar que eleição para o Congresso não pode se resumir a briga de forças numa questão meramente paroquial.
Nas pesquisas entre os pré-candidatos a deputado federal em Campos, Wladimir Garotinho (sem partido) lidera em todas as Zonas Eleitorais do município. Bem verdade que estas consultas ainda não trouxeram colocaram no páreo o nome do vereador Marcão Gomes (Rede), presidente do legislativo goitacá, que (aqui) deixou a pré-candidatura de deputado estadual para ser o nome do governo Rafael Diniz (PPS) a disputar vaga para concorrer à Câmara Federal.
Para saber o que o filho do casal Garotinho pensa dessa troca governista e seus objetivos, sobre a “venda do futuro” de Campos e suas consequências, os erros (e acertos) da administração Rafael, as projeções políticas para 2018 e 2020, bem como os casos que renderam as recentes prisões dos seus pais nas operações Chequinho e Caixa D’água, sem contar a temida — e ainda não conhecida — delação (aqui) do empresário Fernando Trabacah, leia neste domingo (04) a entrevista de Wladimir à Folha da Manhã.