Escrevo este texto enquanto preparamos os equipamentos para mais uma ação de nosso projeto de extensão. Amanhã estaremos no Colégio Estadual Dr. Thiers Cardoso para a oficina Arte e Memória na escola: O Brasil através de sua música. Durante duas horas apresentamos um século de música, saindo de Adoniran e chegando a Emicida.
Bem, como alguns de vocês já sabem, minha tese expressa meu interesse sobre música e sociedade, sobre periferia e produção cultural. Meu texto anterior sobre insurgência e greve recuperava memórias sobre atuação dos estudantes na década de 90. Na contribuição de hoje olho para o futuro que encontramos nas escolas de Campos. E neste texto quero nomear alguns dos amigos que até aqui já responderam a minha pergunta: Marcos, Márcio, Gizele, Valéria, Fernanda, Jorge, Paulo, Rodrigo, Ana, Ausberto, Daniel, Michely, Marcely, James, Ivilla, Elaine e Marcelo.
Sabe o que temos em comum? Durante toda a nossa formação ou em parte dela, passamos pela escola pública e seguimos neste processo. Temos aqui professores da UFF, da Uenf, do IFF, amigos de Porto Alegre, de São João da Barra, de São Paulo, da Maré, de Cabo Frio… ou seja, com toda as suas limitações, com todas as deficiências que por ventura muitos trazem da escola pública, ela permanece como uma referência.
Como uma experiência de vida. Quando apresentamos a bossa nova para alunos expostos às rádios, não queremos levar o bom gosto cultural. Não queremos educá-los a gostarem destas produções com um discurso de autoridade. Nada disso.
Nossa aventura tem início nas marchas de carnaval com refrões como “bota o retrato do velho outra vez, bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho faz a gente trabalhar” para apresentar aos alunos a Era Vargas. Apresentamos Zé Carioca ao som de “Aquarela do Brasil” e seguimos com o barquinho de Nara Leão e Menescal até desembarcar no baião de Gonzagão. Essa oficina já passou pelo IFF na Semana de Geogradia, por Itaperuna, sendo apresentada também na Feira de Ciências da Uenf, no início deste ano.
Ao mesmo tempo em que tenho o prazer em reviver para alguns os festivais com Chico e Milton apresentando “Cálice”, percebo a demora com que os alunos engajam-se em nossa proposta. Mas não seria simples desinteresse. Talvez o desafio em repensar a escola resida nas formas de produção de engajamento. E no momento em que as primeiras batidas pesadas de Fim de Semana no Parque ganham o espaço, uma mudança qualitativa ocorre. Finalmente eles demonstram adesão ao discurso. Este é nosso ponto de reflexão e por isto os projetos de extensão são essenciais para pesquisa.
No dia 26 de agosto, no Jockey, mais de 30 alunos ecoaram “Rap da Felicidade”, ao som de Cidinho e Doca. Não faço distinção entre “Faroeste Caboclo”, “Construção” e “Rap da Felicidade”. São letras longas, contundentes, bem construídas internamente. O que mudou no cenário musical e na escola? As rádios e seu monopólio vendem sons e as imagens são parte fundamental da socialização juvenil. Não seria mais exatamente música para ouvir, mas para ver. Pode parecer estranha a idéia, mas reféns de uma sociedade do espetáculo, termo cunhado por Guy Debord, estes alunos de escola pública nem sempre realizam as conexões entre raça, classe e produção musical.
Certamente a forma como o corpo feminino é apresentado, não possibilita que essas meninas se libertem. No início da oficina, em uma linguagem bem direta, apresentei a seguinte letra “eu te amava nos tempos da escola, mas você não de deu atenção, pedi uma chance, pedi duas, mas você me disse não, vou marcar de te ver e não ir, vou te comer e abandonar, esta é a lei do retorno e não adianta chorar”.
Visivelmente com risos nervosos, confessaram conhecer a música. Então brinquei com os garotos “muito fora de moda esse comportamento, tratem as meninas com respeito, as mulheres hoje são espertas e inteligentes, não estão mais nessa onda”. Claro que as meninas aderiram. Mas é preciso enfrentá-los, em sua agressividade natural, em seu pedido truncado por afeto e orientação. Sim, a escola pública, assim como nossas universidades, são essas usinas de criatividade, desejos e incertezas. Não devemos moer seus espíritos para jogá-los em seus bairros. Sim, eles têm interação com o tráfico. Vamos colocar isto em debate. Sim, eles já têm uma vida sexual. E a religião não colaborou para mudar os quadros de aumento das doenças sexualmente transmissíveis.
Acabo por acaso de assistir a “Capitão Fantástico”. E o ponto interessante deste filme foi a capacidade de explicar os fenômenos do mundo tal como se apresentam. Vejam que Mc Don Juan, o cantor da letra citada acima, deve ter 16 anos. Em que momento de sua trajetória artística chegou a conceber que uma menina deve ser “comida e abandonada”?
Pois bem, vou contar a vocês que gravadoras como a Furacão 2000 testam nos bailes certas tendências que agora chegam à São Paulo. Ou seja, mesmo que Deise Tigrona quisesse cantar o amor, sua família era sustentada com o Rap da Injeção, “tá ardendo doutor”. Meus interlocutores na favela não queriam aquelas letras, apresentavam outras, até mesmo o chefe do tráfico em determinada favela proibia certas letras. Mas, vidrados na imagem, mantidos sobre excitação constante dos sentidos, nossos alunos de escola pública perdem a possibilidade de criar.
Somos tão jovens, éramos logo ali, nos anos 80, apaixonados e perplexos. Mas fosse o punk dos Titãs, ou o ska dos Paralamas, estávamos interessados em um país que não conhecíamos. Da mesma forma como ainda eram as letras de Renato Russo que embalavam nosso platonismo. Me parece que nossas experiências geracionais nos anos 80 ainda eram românticas. Pois bem, se a televisão nos deixou burros demais, a web explodiu as possibilidades, ampliou uma certa indiferença.
Simmel, um judeu alemão adorável nos fala dessa vida na cidade. De um espírito indiferente, estimulado pelo neon, acossado pelo excesso de luz, de som, de movimentos. Essa é a disputa vivida na escola pública. Sem violões e num tempo de alta velocidade, disputamos corações e mentes destroçados pelos conflitos urbanos, pela precariedade estrutural do bairro, pelo estigma policial, por uma subindústria cultural para a qual quanto mais exposição dos quadris, dos seios e dos dorsos masculinos, mais vendas.
E não se enganem, transexuais fazendo sucesso só serão permitidas por algum tempo. Pois a base que comanda o monopólio das rádios, televisões e jornais não foi alterada. Pablos ou Fernandas duram o tempo dos “likes” de estação. A luta real é contra este projeto de desmonte da escola pública e das universidades, ocupando, produzindo outros sentidos. Fazendo vídeos e músicas ao invés de consumir os hits de São Paulo com Mcs que sequer escolhem o que cantam.
Ah, e no meio disto tudo, estamos tentando fazer uma Mostra de Música em Campos, em novembro. Com total liberdade de criação.
Charge do José Renato publicada hoje (08) na Folha
Terrorismo medrou (I)
A civilidade imperou no desfile cívico, ontem, no Dia da Independência em Campos. Nas arquibancadas do Cepop, símbolo maior da gastança nos oito anos da gestão Rosinha Garotinho (PR), houve manifestações contrárias e favoráveis ao atual governo municipal. Mas todas dentro dos limites do estado democrático de direito. Comandante do 8º BPM, o tenente-coronel Fabiano Santos confirmou que seu setor de inteligência sabia do movimento urdido nas redes sociais para tentar ameaçar fisicamente o prefeito Rafael Diniz (PPS) durante o evento, na prática de terrorismo político que chegou a parar Campos na última segunda (04).
Terrorismo medrou (II)
Nas duas últimas edições desta coluna, a tentativa de impor o terrorismo ao município foi denunciada (aqui e aqui). Num movimento que usou a greve dos servidores na segunda, com insatisfação dos rodoviários, garis e motoristas de ambulância das empresas prestadoras de serviço, Campos ficou parte daquele dia sem ônibus e coleta de lixo. Esses movimentos reivindicatórios foram utilizados pelo grupo apeado do poder, após quase 30 anos, para tentar instalar o caos na cidade. Coagir publicamente o prefeito no 7 de Setembro seria a cereja desse bolo, cuja assadura foi interrompida quando a tampa do forno foi aberta e a receita revelada.
Terrorismo medrou (III)
Quem acompanha a política goitacá mais de perto, sabe que a acachapante vitória eleitoral de Rafael, ainda no 1º turno, em todas as sete Zonas Eleitorais, se deu também porque, após as primeiras prisões da operação Chequinho, o esquema de compra de votos do garotismo teve medo de sair às ruas. Guardadas as distinções devidas, não foi diferente ontem no Cepop. Também ontem, esta coluna advertiu que quem embarcasse na promoção de terrorismo pela cidade teria que medir as consequências dos seus atos. Para isso, só há uma solução: a imposição do limite da lei. Os próximos dias dirão se governo e oposição aprenderam a lição.
Sentença à vista
A semana chega ao fim, em meio a um feriado prolongado, com grande expectativa, já que não deve demorar muito para que seja divulgada a sentença daquele que é apontado pelo Ministério Público Federal e pela Polícia Federal como o “líder” do “escandaloso esquema” da Chequinho. Após a apresentação das alegações finais, feitas pelo advogado de Anthony Garotinho, o próximo passo do juízo da 100ª Zona Eleitoral é a sentença.
Bola de cristal
Não é de hoje que Garotinho brada por onde passa, ou nos espaços de comunicação que lhe restam, que será condenado. Mais uma vez parece ter colocado sua bola de cristal para funcionar, dando como certa uma sentença desfavorável, fruto, segundo ele, de “perseguição”. O que o marido da ex-prefeita Rosinha insiste em negar estão comprovados em várias provas e depoimentos, que puderam ser avaliados por, pelo menos, cinco advogados, que o representaram ao longo desta ação penal.
Pressão de Rosinha?
Nos bastidores dizem que mais do que sua condenação Garotinho tem temido as consequências à sua esposa, também alvo de ação judicial na Chequinho. Rosinha estaria receosa com o que está por vir e vê mais do que os planos eleitorais, sempre traçados pelo marido, serem comprometidos. A rotina de dona de casa, artesã e vendedora de cosméticos também estaria ameaçada. Dizem os mais próximos ao casal que uma suposta pressão de Rosinha sobre o “presente” de Garotinho tem sido mais perturbador do que qualquer sentença.
Restituição
Em tempo de crise, qualquer dinheiro é muito bem vindo. E para quem tem direito a restituição do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) de 2017, a consulta ao quarto lote estará disponível a partir das 9h de hoje. O lote contempla 2,257 milhões de contribuintes, totalizando a liberação de mais de R$ 2,7 bilhões. Também serão liberadas para consulta restituições residuais dos exercícios de 2008 a 2016. A consulta é feita no site oficial da Receita Federal.
O realejo tocava uma valsa antiga na esquina sobre a calçada. O tripé montado no concreto manchado por uma fina camada de lodo parecia sem firmeza com suas marcas de ferrugem e tinta gasta. As bases de borracha preta comida deslizavam na umidade prestes a cair. Os movimento de cordas e fole, um mecanismo já antigo e gasto, faziam sair o som grave e melancólico misturado com ruído de engrenagens oxidadas, uma combinação de balada de amor imperfeito com ranhuras metálicas ao fundo.
As pessoas paravam e rodeavam apreciando aquele espetáculo soturno, atraídas por um tipo negativo de curiosidade. O ritmo não causava estranheza aos ouvidos e alguns transeuntes ousavam dizer já tê-las ouvidas nos bailes de roça há muitos e muitos anos. Havia quem contasse detalhes e desse palpites quanto ao nome de seu compositor, um dito cujo que percorria o Nordeste com o acordeon nas costas.
Um senhor de cara enrugada, de linhas desenhadas a navalha, girava a manivela com seu braço frágil, dando origem à movimentação da máquina e produzindo a música. Saiba seu futuro por apenas dois reais, leia apenas quando chegar em casa, dizia um cartaz afixado à lateral de madeira corroída pelos cupins do realejo.
Sobre uma pequena bancada, atado por uma corrente, um papagaio mexia o pescoço ao ritmo da valsa, balançando de quando em vez as patas. Tomada de curiosidade e com sorriso divertido nos lábios, Clarice, que passava distraidamente, se deixou hipnotizar pelo som e assistiu pasma à apresentação da música e da ave esverdeada. Impressionada pelo exotismo e com desejo de participar daquela experiência inusitada, sacou uma nota e entregou ao velho. Ele deu algumas batidas com os nós dos dedos contra a madeira, sonorizando uma espécie de código, e o papagaio abaixou para bicar um pequeno envelope branco com um lacre dourado e os dizeres ratificando o “Só abra em casa” impresso, para em seguida entregá-lo. Pôs o papel dentro da bolsa, enviou um pequeno sorriso ao velho, que não retribuiu, e saiu, desejosa de ver o que o destino lhe reservaria.
O que deveria se tratar de simples brincadeira, algo de cunho altamente jocoso com o qual se deparara andando pela rua sem qualquer tipo de pretensão de seriedade (não haveria de acreditar numa simples previsão do futuro feita por um papagaio dançante bicando pedaços de papel escritos à mão sabe-se lá por quem) acabou lhe causando forte impacto. Abriu o envelope, viu a mensagem e um misto de agonia e raiva sucedeu; seus olhos esmaeceram e perderam repentinamente o brilho. Emburrou a cara e ficou recostada à janela pelo resto do dia, condoendo-se internamente e regurgitando a mensagem martelante em sua cabeça. Não conseguia simplesmente ignorar aquela predição maliciosa e para aliviar a tensão tamborilava furiosamente os dedos.
Everaldo olhou-a e notou com estava estranha. Em um lampejo de interesse perguntou o que havia ocorrido. Acostumara-se com suas crises, sua comiseração, seu pedido de piedade por si própria, porém nunca a vira com raiva; achava inclusive que fosse incapaz de ter este sentimento. Buscando confortá-la, dirigiu-lhe a palavra, coisa que raramente fazia, e ela rosnou um xingamento, levantou irritada e saiu de casa. Ele não entendeu nada e ficou a fitar o infinito tentando achar nele alguma resposta.
Caminhando pelas ruas, o papel não saía de sua cabeça. Tudo que ocorria indubitavelmente a levava a crer que sua vida não valia nada e mais e mais sentia esta confirmação. Parecia tratar-se de uma verdade inconveniente, quando lhe dizem algo que você é simplesmente incapaz de admitir, mas se vê diante da obviedade e simplesmente não pode negar. Era absurdo demais para qualquer ser humano admitir, ver real aquilo que tem de mais escondido em si, aquela verdade que nunca põe para fora, os segredos íntimos jamais revelados, aquilo que é preferível esquecer; Clarice viu-se com este lado exposto, atingida no âmago. Toda a verdade que se recusava a enxergar sobre si mesma cuspida em sua cara e da pior forma possível por alguém que não conhecia.
Talvez fosse uma simples brincadeira de mau gosto, algo arranjado para simplesmente incomodá-la. Rodou pelas ruas à procura do velho do realejo. Não estava mais no local onde se encontrava pela manhã. Desaparecera e nem as marcas do tripé permaneciam na camada de lodo, já apagadas pelos passos. Perguntou às pessoas próximas e ninguém lembrava que ele estivera ali. Realejo, o que é isto? Não, não vi nada. Aqui, com um papagaio? Você é louca? Ninguém viu. Ninguém sabia. Ninguém lembrava. Uma figura de traços tão singulares manipulando um aparelho completamento fora de uso em uma tradição de oráculos esquecida passou completamente despercebida. Todos comentavam durante a manhã e reparavam na estranheza da música emitida pelo aparelho. Agora nada.
Desesperou-se no meio da rua. Terá sido um sonho? Uma simples mensagem? Havia pago dois reais a ele com absoluta certeza. Ouviu o soar melancólico fundido com as engrenagens emperradas, estava claro em sua mente. Não se tratava de uma mera ilusão. Tudo parecia ser completamente real. Não fantasiou a música, o papagaio, o velho ou a mensagem. O que ocorreu? Aonde estava o velho? Qual significado disso tudo?
Clarice saiu andando repleta de confusões em sua mente. Teve momentaneamente algumas lembranças de infância, quando se perdia em meio a indagações diversas sobre várias coisas ao mesmo tempo. Um presságio de seu futuro. Mais parecia o presente. Cenário turvo. Sentiu um mal-estar no meio da rua. Correu a uma lixeira e vomitou. Os passantes se assustaram, um guarda veio perguntar se está tudo bem, ela disse que sim enquanto ainda cuspia os restos de caldo amarronzado com gosto de bile e limpava a boca com os dedos. Saiu andando envergonhada procurando algum canto para se esconder. Qual será seu futuro? Algo explicado em um pedaço de papel? Clarice sempre tentou achar explicação para tudo. Queria que tudo fizesse sentido. Desde a infância. Perguntava sobre as coisas ao redor, a lógica envolvendo cada processo do mundo captado pelos seus sentidos. Buscava um senso coerente para tentar entender. Qual o sentido do papel? Precisava haver. Qual a lógica da mensagem e do velho que tocava o realejo?
Tão sem sentido. Reles brincadeira. Não. Havia sentido. O que aquilo queria dizer? Seu pequeno momento capaz de destruir suas perspectivas de vida. Pedras rolando. Ou não haveria sentido algum e tudo seria mera obra do acaso? Assim como a origem do universo, do Big Bang à bomba de nêutrons; não havia coerência em nada daquilo que entendia como existência.
Clarice correu para a beirada do rio e vomitou. Os restos descerem junto com as águas. Permaneceu durante algum tempo. Ouvia o barulho do rio, as lágrimas desciam de seus olhos e murmurava baixinho consigo mesma o quanto odiava a própria vida. Perambulou desnorteada pelo resto do dia. As imagens distorciam em seus olhos. Estava perdida na cidade onde sempre morou. as ruas entortavam, sentia-se tonta, cambaleava pelas ruas, deixou-se cair no meio-fio, esforçou-se para permanecer em pé, circulou sem rumo até se cansar e voltar para casa.
Ao ver Everaldo, jogou-se aos seus braços em busca de amparo. Deixou todas as lágrimas saírem e reclamou de como sua vida era horrível. Ele a levou à cama e deu um remédio para dormir. Ficou sem entender porque ela estava deste jeito. Sobre a mesinha da sala havia um envelope que ele não tinha reparado. Talvez tivesse alguma ligação. Pensou que fosse alguma carta com notícias negativas, apesar de não haver remetente. Pegou o envelope e abriu. Lá dentro havia um papel em branco.
Hoje, no desfile de 7 de setembro, marcado para o Cepop, símbolo maior da gastança nos oito anos de governo Rosinha Garotinho (PR), se comemora o Dia da Independência do Brasil. Revisões históricas à parte, o evento poderá simbolizar até que ponto Campos é realmente independente, ou não, do grupo político que governou o município por quase 30 anos. Governando há pouco mais de oito meses, Rafael Diniz (PPS) estará presente. E dentro do clima de terrorismo instalado na cidade desde segunda (04), ontem continuou a se engendrar abertamente nas redes sociais os preparativos para hoje tentar coagir e ameaçar fisicamente o prefeito.
Interesses e interesses
Na edição de ontem (aqui) desta coluna, também viralizada nas redes sociais, se alertou até que ponto chegou o clima de “quanto pior, melhor” em Campos. Como foram cobradas a reação contra quem trabalha sem constrangimento contra a cidade, e a imposição do limite da lei a quem deixou o moral atrás de si, na prática de terrorismo político. Conduzido como massa de manobra por quem foi apeado do poder com a eleição de outubro, o descontentamento com o governo Rafael teve vários motivos ontem elencados aqui. Alguns deles são confessáveis e legítimos, outros nem tanto.
Alvo é IMTT?
Entre as causas menos nobres ao descontentamento, foi escrito: “há aqueles que perderam a boquinha, própria ou de alguém próximo”. Mas o que a coluna não citou ontem foi um caso inverso: o de quem tenta cavar sua boquinha no governo, criando-lhe dificuldades, para vender “facilidades” — como a “proteção” vendida pela máfia contra o mal que ela mesma pode causar. Por exemplo, e se o movimento que organiza nas redes sociais os protestos de hoje tivesse como um dos seus líderes alguém com passado suspeito na área do transporte? E se, no presente, ele agisse movido por ambição pessoal no Instituto Municipal de Trânsito e Transportes (IMTT)?
Presente repete passado
Como comportamento, geralmente, vem da prática, poderia ser o caso de alguém que atuasse num setor burocrático de transporte e passasse a fiscalizar com o rigor da lei as vans e lotadas numa certa linha intermunicipal. E, assim que parasse de receber o “agrado” da empresa de ônibus que monopolizasse essa mesma linha, passasse a defensor das mesmas vans e lotadas que antes perseguia. Alguém nesta condição, certamente não veria com bons olhos a atuação irretocável do arquiteto e urbanista Renato Siqueira à frente do IMTT, que fiscaliza (aqui) vans e lotadas em Campos por apego à lei, não interesse pecuniário escuso.
Delação futura
Como caso real e análogo ao exemplo hipotético, pertinente a situação de Rogério Onofre, ex-presidente do Departamento de Transportes Rodoviários do Rio (Detro), no governo Sérgio Cabral (PMDB). Preso pelo juiz federal do Rio Marcelo Bretas, ele foi solto pelo insuspeito ministro do Supremo Gilmar Mendes, para ser preso novamente pelo magistrado carioca, por ter ameaçado torturar e matar delatores. E se, seguindo o comportamento padrão de quem puxa cana na Lava Jato, Onofre também virar delator? Numa dessas coincidências da vida, isso poderia chegar ao protesto programado para hoje contra o governo de Campos? Mistérios!
Ovos do Pq. Aurora
Falando ontem à coluna, o vereador de oposição Thiago Virgílio (PTC) garantiu não ter nada a ver com o terrorismo que ameaça bater ponto no desfile cívico de hoje. Ele desmentiu gaiatices das redes sociais, dando conta que, através da sua arregimentação, teria acabado o estoque de ovos do Parque Aurora. Conhecido como “Pit Bull Rosa”, o edil ressalvou que sua combatividade é para os embates na tribuna da Câmara, “não num evento festivo, diante de crianças, estudantes, com agressões verbais e físicas”. No entanto, alfinetou o prefeito, que, segundo ele, fez a bancada governista esvaziar as sessões legislativas de terça e ontem.
Limite da lei
Primo de Thiago e também vereador, só que do governista G-5, Jorginho Virgílio (PRP) tem o mesmo receio. Não por outro motivo, ele se reuniu na terça com o comandante do 8º BPM, tenente-coronel Fabiano Santos, a quem alertou sobre pessoas que no dia anterior espalharam lixo no Capão e no Caju, além da convocação para tumultos hoje no Cepop. Ontem, numa reunião do prefeito com a base governista, foi pactuada a necessidade de reação política e da imposição do limite da lei contra o terrorismo que se tenta implantar na cidade. Quem nele embarcar, que saiba a quais interesses está servindo. E meça as consequências.
Esta semana finalizou um dos fenômenos mais importantes da televisão mundial: foi ao ar o ultimo episódio da terceira temporada de Twin Peaks, pela Netflix.
O seriado, criado pelo diretor David Lynch, teve as suas duas primeiras temporadas exibidas em 1990 e 1991, respectivamente. Numa pequena cidade do interior do estado de Washington, uma garota, Laura Palmer, é assassinada. Para investigar o crime, o FBI envia até Twin Peaks o agente Cooper, quem terá que lidar com uma fauna de habitantes bastante excêntricos. Mas não apenas isso. Com o decorrer dos capítulos, o ‘universo Lynch’ irá desflorando, apresentando também universos paralelos, entidades metafísicas y monstros sobrenaturais.
O programa se antecipou, em muito, a projetos como “Arquivos X”, “Lost” ou “The Leftovers”. E pagou um preço pela audácia: com a audiência despencando, a rede ABC, produtora do seriado, cancelou o projeto. No entanto, no último capítulo da segunda temporada, o agente Cooper se encontra com a falecida Laura Palmer no plano extra-terrenal chamado “Black Lodge”, e ali a moça faz uma profecia: eles se reencontrarão 25 anos mais tarde.
Com apenas alguns meses de demora, a predição de Palmer se realizaria. O canal americano Showtime, em parceria com a Netflix, estreou, de maio até esta semana, a continuação da saga metafísica de Lynch, um quarto de século depois. Para os antigos espectadores, tornar a ver os mesmos personagens, passados tantos anos, é se reencontrar com velhos conhecidos, além de provocar aquela melancolia de ver o que o tempo faz com rostos que recordávamos jovens. Para os novos assistentes, é uma experiência que lava os olhos diante de tanta mesmice e mediocridade.
Quem conhece um pouco da filmografia de David Lynch sabe que uma das obsessões do diretor é mostrar o contraste entre o corriqueiro e o sobrenatural, ou, mais bem, o aspecto surreal que se esconde por trás do cotidiano da sociedade norte-americana. Lynch nunca foi um narrador clássico, no sentido facilitar a vida para seus espectadores (suas duas exceções são The Elephant Man e, não casualmente, A Straight Story). Aquela característica se mantém, ou melhor, se potencia na terceira temporada do seriado.
E é ali onde reside a maravilha de Twin Peaks, e faz dela uma opção única entre as dezenas de programas de TV que hoje temos disponíveis: é absolutamente hipnótica e imprevisível. Embora alguns puristas sustentem que é necessário ter visto os capítulos prévios das temporadas anteriores, garanto que isto é absolutamente desnecessário. Você não vai entender absolutamente nada, mas não poderá largar os olhos da tela.
É necessário esclarecer: Twin Peaks pode ser totalmente maluca, mas não é indecifrável. Há uma secreta coerência dentro do universo metafísico de Lynch. Só que as regras que o regem não são aquelas do nosso mundo ‘normal’. Quem tenha assistido as temporadas 1 e 2 podem captar algumas coisas a mais do que os novos espectadores, mas também não vão pegar tudo. Por outro lado, entender, para Lynch, não é mais importante do que sentir. Ele quer que o espectador fique colado à tela, fascinado pela sucessão de imagens, sons e músicas.
No filme ‘O Ultimo Magnata’, de Elia Kazan, um poderoso produtor de Hollywood (Robert De Niro) tenta explicar ao prestigioso escritor (Donald Pleascence) que acaba de contratar para que escreva roteiros – e que não sabe nada de filmes – qual é o segredo do cinema. O faz improvisando uma situação sem lógica nenhuma, acerca de uma moça e um homem que a observa. De repente, De Niro para de contar a história, e fica olhando para o escritor, quem não se aguenta e pergunta: ‘o que acontece depois?”.
Isso é o que David Lynch consegue em Twin Peaks. Após cada cena absurda, surreal e inverossímil, você fica se perguntando ‘mas, o que acontece depois?’.
A cena do ‘O Último Magnata’ pode ser vista em Youtube, neste link.
Há limite ao “quanto pior, melhor” em Campos? Na segunda (04), a reboque da greve do servidor convocada por um Siprosep pressionado pelo receio de perder o poder para sua oposição interna, a cidade teve uma pequena mostra: coleta de lixo da Vital e ônibus parados até o final da tarde, além das ambulâncias da Prime circulando só com 30% da frota. Agora, num grupo de WhatsApp intitulado “Oposição ao Rafael Diniz”, perfis fake se organizam para tentar coagir e ameaçar fisicamente o prefeito no desfile cívico de 7 de setembro. Nas redes sociais já circulam gravações de áudio pregando: “o Rafael Diniz merece um tiro na cabeça”.
Nova campanha: terrorismo
Para quem tem memória ruim, convém lembrar das campanhas fracassadas por quem perdeu a eleitoral, em todas as sete Zonas de Campos, no 1º turno de outubro passado. Primeiro, as eleições a prefeito de Campos seriam anuladas em maio. Depois, o governo municipal não teria dinheiro para pagar o servidor — o que realmente aconteceria, se não fossem revertidos na Justiça (aqui) os termos pactuados pelos Garotinho na “venda do futuro”. Agora, aproveitando o descontentamento inevitável com os ajustes necessários para se pagar uma dívida de R$ 2,4 bilhões deixada (aqui) pelos oito anos de gestão Rosinha, a nova campanha é o terrorismo.
Descontentes
Por certo, não se pode generalizar. Há quem simplesmente não tenha votado em Rafael — embora minoria, não são poucos: mais de 141 mil campistas. Há quem tenha votado e, diante do contraste entre promessas de campanha e prática, se arrependido. Há o servidor que, independente do voto, briga pelo que entende ser seu direito. Há as empresas que prestam serviço à Prefeitura, cujos donos nem votam em Campos, mas também brigam pelo bolso. Há os do contra e aqueles que perderam a boquinha, própria ou de alguém próximo. Há até motoristas de lotadas e vans que param a cidade (aqui, aqui, aqui e aqui) para não ter suas ilegalidades fiscalizadas.
Reação
Independente do motivo, qualquer um pode ser contrário a qualquer governo. O que não se pode, pelo menos não se deve, é ser contra a cidade. Sobretudo quando essa (o)posição confere vaga na massa de manobra política de quem jogou esta mesma cidade na situação complicada na qual se encontra — talvez a mais difícil da sua história recente. Ao governo, por óbvio, cabe reagir politicamente, na Câmara Municipal e por um secretariado preso demais ao perfil técnico. Já contra o clima de terrorismo que se tenta implantar, a obrigação de reação é de todo o cidadão. Se o limite moral ficou para trás, quem lá o deixou deve temer o da lei.
Futuro em jogo
A expectativa é que as finanças do Estado do Rio entrem nos trilhos. O futuro político do Estado também está em jogo, segundo o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que assinou ontem, em Brasília, com o presidente da República em exercício, Rodrigo Maia (DEM), a homologação da adesão do Estado do Rio de Janeiro ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF). O governador fala em “ajuste duro”, necessário e mais importante para o seu sucessor no cargo.
Petiscos no Farol
O setor gastronômico da praia de Farol de São Thomé está pronto para a realização do 5° Festival de Petiscos. O evento começa amanhã e será realizado ainda nos dias 8, 9, 10, 15, 16 e 17, a partir do meio-dia, em frente à área da Marinha. Na área cultural, 20 bandas foram convidadas. Os pratos serão vendidos ao preço único de R$ 15. A iniciativa segue a proposta da atual gestão de manter o Farol movimentado o ano todo. O evento é organizado pela Associação dos Hoteleiros e Comerciantes da praia e tem patrocínio da iniciativa privada.
Ponto facultativo
Na sexta-feira, 8 de setembro, dia seguinte ao feriado de 7 de Setembro, Independência do Brasil, será ponto facultativo nas repartições públicas municipais de Campos. A decisão do prefeito Rafael Diniz foi publicada no Diário Oficial do Município, sob o Decreto 175/2017. A medida prevê ainda o funcionamento, sem prejuízo, dos serviços essenciais, como plantões médico-hospitalares e funcionamento das Unidades Básicas de Saúde (UBS), além da coleta de lixo, entre outros.
Flagrante da destruição de casuarinas saudáveis, com folhagem densa e verde, na orla de Atafona durante a tarde de ontem (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Após derrubar casuarina, a retroescavadeira empurra o ronco morto pela beira do declive de areia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Tronco da casuarina arrancada é jogado pela pá da retroescavadeira (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Ontem (04), em Atafona, presenciei e registrei em imagens a retirada de casuarinas por uma retroescavadeira da empresa União, que atua pela Prefeitura de São João da Barra (SJB) na desobstrução de areia entre a praia e a av. Atlântica. Sem tempo para apurar o caso, passei os flagrantes fotográficos (aqui) ao jornalista Arnaldo Neto, cujo blog é dedicado à cobertura dos fatos de SJB. Todavia, diante da repercussão do episódio e da afirmação de que as “árvores já estavam caídas”, porque “estão cercadas de umidade e areia”, só posso dizer que o secretário sanjoanense de Meio Ambiente, Alex Firme, está mal informado ou mentindo.
A versão oficial sobre as casuarinas arrancadas não convenceu a ninguém. Denunciada pelos flagrantes fotográficos, a ação do governo sanjoanense foi condenada tanto pelo ambientalista e historiador Aristides Soffiati, quanto pelo advogado Geraldo Machado, um dos líderes do movimento SOS Atafona, que tem cobrado do poder público ações contra o avanço do mar e das dunas na praia sanjoanense:
— Lamentamos mais essa agressão à natureza, gratuitamente levada a caso, não se sabe por ordem de quem, ou em atendimento de que interesse. Dizer-se que as árvores estavam fracas, não se aceita, porque é inverídica a tal versão; se é que alguém teve a coragen de isso afirmar. As casuarianas serviam de sombra e proteção natural contra o excesso de areia e sedimentos violentamente trazidos pelo forte vento nordeste, sobretudo nos meses de agosto a outubro. Agora, o que fazer para repor a coisa ao estado anterior? Plantar vegetação rasteira, cuja manutenção exige frequente e forte fiscalização, que o poder público não exercita? A bola fica com a Prefeitura. Nós, sociedade civil, ficamos à espera de respostas objetivas e convincentes — cobrou Geraldo.
Embora acredite que a casuarina não é a espécie vegetal ideal para ser plantada na faixa de areia de Atafona, no sentido de evitar ou retardar o avanço do ar, o professor Soffiati também condenou sua retirada pela ação do Meio Ambiente de SJB:
— A casuarina é uma espécie australiana. Ela resiste aos fortes ventos, pois suas folhas têm formato de fios. São folhas filiformes. Se me perguntarem se a casuarina é a espécie ideal para nossas praias, responderei que não. Mas não terei o desplante de recomendar o corte raso delas sem um plano elaborado de revegetação com espécies nativas, assim como não cometerei o erro absurdo de apoiar a morte de um alemão que se diverte no mar por não ser estrangeiro. Há casos consumados de plantio de casuarinas em praias, além de outras espécies exóticas. Em resumo, creio ser condenável a destruição de casuarinas sem um plano bem fundamentado para a sua substituição.
Abaixo, o rastro de destruição das casuarinas deixada na manhã de hoje em Atafona, entre a faxa de areia da praia e a av. Atlântica:
(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Nas redes sociais, a retirada das casuarinas causou revolta. No grupo “Lembranças de Atafona”, onde Arnaldo Neto publicou (aqui) o link da postagem em seu blog, hospedado no Folha1, com os flagrantes da ação do Meio Ambiente sanjoanense, várias foram as reações contra a ação do Meio Ambiente sanjoanse:
— Devo classificar como: crime ambiental, descaso ou incompetência? Isso só vai agravar a desertificação da orla de Atafona — avaliou Carlos Augusto Carvalho.
— Tirar as dunas, tudo bem. Agora tirar as casuarinas é sacanagem — condenou Edson Santos.
— Onde está o Ibama? A Areia, certo; casuarinas, é crime — denunciou Ginex Carvalho.
— Será que foi um acidente? Custo a acreditar que alguém seja idiota a ponto de premeditar — questionou Elizabeth Senra.
— Absurdo! A vegetação é que segura a areia! — advertiu Date Moll.
— Povo burro! São as raízes das árvores que mantém a solidez da muralha de areia que protege a praia. Colocam pessoas despreparadas para executar um serviço dessa natureza — apontou José Carlos Silva.
— Ministério Público, veja essa vergonha. Sai um pouquinho do ar-condicionado — convocou Robson Godinho.
— Que estupidez! Tem que ver de quem veio essa ordem absurda — quis saber Maria Helena Guaraná.
— Tudo de qualquer jeito, boi com abóbora. Cadê o zelo pelo planeta? Tirar a areia é uma coisa necessária. Agora, arrancar as casuarinas, jamais! — diferenciou Marcilia Leão Maciel Barcelos.
— Se elas estavam morrendo, como foi informado,deveriam plantar o triplo, pois as casuarinas foram trazidas e plantadas em toda orla para servirem de embate contra os ventos — explicou Nice Barcelos.
— Não é de hoje que estamos indo à secretaria de Meio Ambiente reclamar, mas parece que quanto mais reclamamos, mais eles nos afrontam. Já não aguentamos mais. Parece que fazem de propósito. Não tem nada de casuarina morrendo, não. As máquinas que estão derrubando. Eu tenho prova de que as máquinas estão tirando as casuarinas — comentou Cristina Botelho Godinho, antes de publicar (aqui) sua própria postagem, também com fotos, no grupo “Lembranças de Atafona”. Confira abaixo:
Rafael e Carla foram a Brasília reivindicar ao presidente em exercício, Rodrigo Maia, royalties para Campos e SJB pela passagem do mineroduto de ferro na região (Foto: Divulgação)
Acabou na noite desta segunda (04), em Brasília, a reunião entre os prefeitos de Campos e São João da Barra (SJB), respectivamente Rafael Diniz (PPS) e Carla Machado (PP), com o presidente em exercício Rodrigo Maia (DEM/RJ). O tema foi a possibilidade de recebimento dos royalties do minério de ferro pelos os municípios da região cortados pelo mineroduto entre as as jazidas de Minas Gerais (MG) e o Porto do Açu. O encontro foi intermediado pelo deputado federal Júlio Lopes, do PP de Carla.
Atualmente, os royalties do minério de ferro ficam só para o local de extração. Mas como se trata de uma indenização, o pleito é de que passe a ser recebido também pelos locais cortados pelo mineroduto. No Estado do Rio, além de Campos e São João da Barra, município de processamento e embarque, ele passa também por Porciúncula, Natividade, Bom Jesus do Itabapoana, Itaperuna e Cardoso Moreira. Além de SJB, o processamento e embarque do minério de ferro também é feito nos municípios de Itaguaí e Mangaratiba.
Do encontro em Brasília, o prefeito de Campos falou ao blog:
— Debatemos com o presidente em exercício, Rodrigo Maia, os interesses dos nossos municípios, especialmente a redistribuição dos royalties do minério de ferro, que traria mais recursos à nossa região. Estivemos com representantes da bancada federal de Minas Gerais, que se colocaram à disposição para discutir o assunto na Comissão Especial formada neste sentido, que tem como um dos membros o deputado Júlio Lopes. A bancada fluminense já está trabalhando para que a gente consiga alcançar esse objetivo. Aproveitamos a oportunidade para debater com o presidente sobre a questão dos royalties do petróleo. E ele também garantiu que é a favor de mais royalties, não de menos. O presidente disse que vai garantir um debate técnico sobre a questão — revelou Rafael.
Além de debater a possibilidade de redistribuição dos royalties do minério de ferro, o presidente República em exercício e presidente da Câmara Federal rechaçou a campanha de “Menos royalties” do petróleo conduzida por Macaé (Foto: Divulgação)
Essa foi mais uma investida regional em torno dos royaties de recursos minerais para a região, liderada por Carla e Rafael. Na última quarta (30), os dois prefeitos, mais a de Quissamã, Fátima Pacheco (PTN), e representantes de Búzios, Casimiro de Abreu e Carapebus, estiveram (aqui e aqui) no Rio com o secretário estadual da Casa Civil e de Desenvolvimento Econômico, Christino Áureo (PTN), e com o diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo (ANJ), Décio Oddone.
Do diretor-geral da ANP, os representantes dos seis municípios produtores tiveram (aqui) a garantia de que é descabida a campanha “Menos royalties, mais petróleo”, bancada sem preocupação com custos pelo prefeito de Macaé, Dr. Aluizio (PMDB). Em resposta direta ao slogan macaense, considerado infeliz por Oddone, este determinou o correto: “Mais royalties, mais empregos”. A polêmica gira em torno da maneira de se atrair empresas à exploração nos campos maduros (em declínio de produção) da Bacia de Campos.
No tempo presente, os criminosos, das mais diferentes patentes, flagrados no confessionário das escutas telefônicas e das lentes multivariadas das câmeras dos telefones celulares, exibem ao público passivo seu deboche e sua certeza de impunidade.
Todos, invariavelmente, todos acusados da devastação no erário público, se defendem, invocando o CREDO DOS CRETINOS, aquele que alega para os mais desavergonhados culpados o álibi da perseguição política.
Qualquer semelhança com o tempo presente, não é mera coincidência. É intencional.
Em entrevista à Folha, o presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado do Rio de Janeiro, o campista Marcelo Mérida, reafirmou que o setor lojista lançará um candidato a deputado federal, que possivelmente será ele próprio, e dois a deputado estadual nas eleições de 2018, com o objetivo de deixar de ser observador e passar a ser ator no cenário político. Fugindo do rótulo de ser ligado ao “garotismo”, Mérida disse que já teve conversas com o deputado federal Paulo Feijó (PR), de quem espera ter apoio, e que irá dialogar nesse sentido também com o prefeito de Campos, Rafael Diniz (PPS), pelo fato deste ser a liderança atual do município. Mas, acha que o projeto “independe do prefeito e caminha por si só”. Para ele, dentro do atual modelo eleitoral, é preciso “jogar de acordo com as regras”.
(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Folha da Manhã – Depois de revelada (aqui) no “Ponto Final”, a caravana de Campos para a Convenção da Federação Fluminense das CDLs, da qual você é presidente, gerou muita polêmica. Menos pela participação do que pelo fato de que a CDL-Campos iria desembolsar R$ 70 mil no transporte e hospedagem dos participantes no concorrido hotel Le Canton, em Teresópolis. Qual é a sua opinião?
Marcelo Mérida – Nós, da Federação, preparamos uma convenção extremamente pontual, onde tivemos uma temática maravilhosa, um final de semana muito produtivo. A CDL de Campos é extremamente importante dentro do contexto. Essa questão dos investimentos feitos pela CDL de Campos passa à margem da Federação. Entendo que as entidades têm que investir no capital, que são os comerciantes. Agora, a ordem de grandeza depende da diretoria. Passa à margem da Federação. Posso dizer que o comércio varejista do Estado do Rio saiu da convenção extremamente fortalecido. Discutimos a questão da automação comercial, que é uma realidade no mundo comercial, mas está muito distante da nossa realidade. A questão da tecnologia. Então, essa é uma questão particular da CDL de Campos. Eu acho que tem que ser tratada dentro da CDL ou dentro de um conjunto de informações que vão ser produzidas pela CDL.
Folha – O presidente da CDL-Campos, Joilson Barcelos, admitiu (aqui) que iria bancar a hospedagem. Só que que, em outras gestões, o hábito era bancar o transporte, e a hospedagem corria por conta dos participantes. Por que a mudança?
Marcelo – A gente sempre investiu nas caravanas de Campos. A ordem de grandeza, eu não sei precisar se, na época, investia só em hospedagem ou só em transporte, com ajuda de custo. Não sei precisar. Eu sei é que é importante, hoje, no momento que estamos, a gente ter uma agenda positiva. Não posso dizer que a CDL de Campos teve ou não teve essa intenção, mas o Joilson tem um capital importante dentro. Eu não estou dizendo que ele fez ou não fez. Só estou dizendo que é uma coisa interna da CDL, que tem que ser discutida entre os pares. Eu, como par, também posso ter opinião sobre isso. Acho que é momento das entidades investirem nessa questão de capital, na questão de eventos. Não posso dizer que, se foi R$ 70 mil, se foi pouco ou muito, se isso representa, no momento que estamos vivendo, uma mexida de caixa da CDL. Não posso precisar, porque não conheço, hoje, a realidade financeira da CDL.
Folha – O Joilson negou que haveria o interesse extraoficial de mostrar força na caravana para lançar sua pré-candidatura a deputado federal. Afinal, havia ou não? E como foi a participação campista na Convenção?
Marcelo – A caravana de Campos foi extremamente expressiva. Teve dois ônibus, uma van e vários carros. Ela foi extremamente expressiva e me prestigiou de uma forma diferenciada. Mas não houve, em momento nenhum, essa questão pontual. Nem houve uma discussão desse projeto macro que a gente vem falando de se inserir no processo político.
Folha – Não se tocou nisso?
Marcelo – Não, em momento nenhum, porque não era a pauta da Convenção, e não é o momento ideal para isso. Eu acho que não é momento da gente estar discutindo isso, mas, sim, os projetos. Não temos uma coisa definida com relação a nomes. Há projetos, sim, e acho que a gente está trilhando o caminho certo.
Folha – Ainda em relação à CDL-Campos, da qual você também já foi presidente, como vê a pré-candidatura de Orlando Portugal, ex-secretário municipal do governo Rosinha, na eleição à presidência da entidade no final do ano?
Marcelo – A CDL tem um grupo de sócios, qualificados como sócio ativos, de aproximadamente 100 nomes, e acho que todos estão capacitados para ser presidente. O Orlando é diretor da entidade há muitos anos, tem colocado seu nome na pauta para ser presidente. E acho que o Joilson está conduzindo esse projeto de forma muito tranquila, transparente, discutindo com os pares. Não sei se tem a definição de nomes apontados pelo presidente, mas acho que o Joilson está cacifado, enquanto presidente, a indicar um nome e conduzir bem o processo eleitoral. Sobre o Orlando, acho que reúne todas as capacidades, assim como os outros também reúnem. Se o nome de Orlando for apresentado, ele vai passar pelo colégio eleitoral.
Folha – Ele teria o seu voto?
Marcelo – Eu sempre busquei, nas CDLs, especialmente em Campos, a indicação do presidente. Isso é importante, fazer a sucessão do presidente, ainda mais quando se tem um presidente dedicado como o Joilson. Se ele indicar, eu voto.
Folha – Não é preciso ser comerciante ou comerciário para perceber a grave crise do setor. A recessão econômica em Campos é ainda pior do que no resto do Brasil?
Marcelo – Nós temos uma recessão, é fato. Os bairros estão sofrendo tanto quanto o Centro e os shoppings. É generalizado. O que eu posso falar é que o estado do Rio, hoje, vive uma dificuldade imensa em gerar recurso para manter a atividade do comércio ativa. Isso não é uma particularidade de Campos. Tenho andado de Norte a Sul Fluminense. Em 45 dias, mil lojas fecharam só na capital do Rio. Imagina: em mil lojas, você tira de circulação, no mínimo, três mil pessoas, três mil famílias que ficam desempregadas. Então, não é uma exclusividade de Campos. Eu tenho acompanhado que isso é uma tônica geral do estado.
Folha – Você acha que o servidor estadual estar sem receber direito interfere diretamente nisso?
Marcelo – Interfere diretamente. Nós não tínhamos uma noção exata do impacto da folha salarial do Estado. Nem nós, dos setores produtivos, e talvez nem o próprio Estado. Quantas pessoas em Campos dependem dessa folha salarial? Policial militar, professor… Então, isso impactou direto em todas as cidades. Nas que não têm uma economia consolidada, mais ainda. Campos tem alternativas econômicas. Há a folha salarial do Estado, mas, se você pegar cidades menores como Cardoso, Italva, São Fidélis, essas cidades estão sofrendo muito com o problema do Estado.
Folha – Na repercussão das primeiras notas do “Ponto Final” noticiando os movimentos de bastidores da CDL, você admitiu nas redes sociais que é pré-candidato a deputado federal. E voltou a fazê-lo falando depois (aqui) à própria coluna, embora tenha dito que ainda depende de discussão com a família. E aí, dona Simone já o liberou?
Marcelo – Olha, tem a discussão familiar. Isso é importantíssimo. Eu tenho uma convicção na minha vida: meu maior patrimônio é a minha família. Mas eu tenho também um compromisso com o meu setor, o setor produtivo. E tenho visto se desenhando com mais força, depois até mesmo do impacto da notícia no Ponto Final, que há uma manifestação positiva. E aí, eu já comecei a discutir isso internamente com os pares, os amigos, as classes produtivas do município, uma viabilidade. É claro que o nosso projeto não pode ficar à mercê de nomes. Então, um nome não pode se sobrepor ao nosso projeto. Se for da vontade da nossa classe, se for da vontade dos pares do estado do Rio, provavelmente a gente vai colocar o nosso nome à disposição. Eu ainda não tenho uma resposta da minha família. Mas entendo que, com a mesma responsabilidade que estou falando isso agora, a minha família tem o mesmo entendimento. É hora de a gente sair dessa passividade, sair desse momento de dependência da classe política, e se colocar.
Folha – Quando falou à coluna da Folha, você disse que é chegada a hora do setor lojista sair da posição de mero observador do jogo político, para se tornar também ator.
Marcelo – Ao longo dos anos, nós só fomos espectadores. Só sofremos. Os momentos que nós sofremos de inércia da gestão pública ou de ações que prejudicam a classe produtiva, foram porque nós éramos passivos. Não tínhamos uma voz ativa conhecedora. Por mais que a gente interaja na Congresso e na Alerj, não temos uma voz ativa falando do setor, defendendo interesses do setor, da classe produtiva. É esse mote que a gente quer dar.
Folha – Além do seu nome como pré-candidato a deputado federal, você revelou ao “Ponto Final” que as CDLs fluminenses querem lançar dois pré-candidatos a deputado estadual. Uma destas vagas já estaria na mira do empresário Fabiano Gonçalves, que disputou e perdeu por um voto a eleição a vereador pelo PRL e hoje é secretário de Administração do governo Rodrigo Neves (PV), em Niterói. A outra vaga da categoria à disputa da Alerj estaria em aberto?
Marcelo – O Fabiano preenche todos os pré-requisitos dessa participação. Já foi testado na urna e muito bem votado. Se nós tivéssemos sob a legislação do distritão, ele estaria eleito. E é um dos entusiastas. Já tem um capital político dentro de uma cidade com um número expressivo de eleitores. Foi secretário de Indústria e Comércio do bem avaliado governo do Rodrigo. Foi alçado a secretário de Administração. Então, eu acho que o Fabiano, hoje, é quem está mais cacifado dentro do movimento para a candidatura. O segundo nome, nós estamos estudando ainda. Estamos trabalhando com muita cautela nisso. Respeitando as regionalidades.
Folha – Em entrevista no último domingo, o deputado federal Paulo Feijó (PR), na experiência de seu quinto mandato, falou (aqui) que, antes de se lançar numa disputa eleitoral, você tem primeiro que se consolidar como representante do seu setor. Concorda? Isso já é realidade?
Marcelo – Sem dúvidas. Você não vai partir para uma aventura dessa se não tiver o apoio dentro de casa. E a gente não vai, em momento nenhum, colocar o projeto acima do sonho de qualquer que seja o candidato. Acho que isso está sendo costurado, a gente está amadurecendo. A questão das candidaturas advém da base lojista, o que não impede de estar interagindo com outros setores. As nossas demandas são muito parecidas com as da indústria, com as do serviço… Então, não vejo muita dificuldade de interagir e de fazer esse movimento. O Feijó é um deputado com vasta experiência e já tinha me falado, em uma conversa, que era importante consolidar isso para que esse projeto tivesse uma chance.
Folha – Embora Feijó veja com bons olhos a sua pré-candidatura, chegando a dizer que você seria um bom nome para ele passar o bastão da representação da região na Câmara Federal, ele afirmou também que isso ainda não está fechado e depende de mais conversa. Vê-se como um sucessor de Feijó? O que falta para esse apoio ser consolidado?
Marcelo – Eu respeito muito o Feijó, só que somos pessoas totalmente diferentes. Eu entendo que, hoje, nós precisamos de um deputado que esteja afinado com o setor varejista, que conheça disso e que, talvez não seja, não é o caso específico, mas, tenha uma independência para que possa se colocar no cenário. Independência é não seguir uma votação que suas bases não sejam consoantes. Eu ou o sistema, ele quer deputados que sejam consoantes com as ideias da classe. Eu acho que o deputado, assim como qualquer político, é fruto da sua base orgânica. Muitas vezes o Brasil, hoje, tem definições que partem do partido. Nós temos que debater e combater isso em termo de ideia. Eu não posso seguir uma determinação do meu partido se for contrária à minha base. Não justifica eu estar lá. Então, essas questões precisam ser muito bem definidas, para que a gente possa ter realmente pessoas que representem os interesses da base orgânica. Eu não me sinto na condição de ser o sucessor do Feijó. Sempre estive com ele, é um amigo, uma pessoa próxima. Respeito as individualidades dele. Posso não concordar com todas as ações dele, mas entendo que ele tem um legado muito positivo para a política local e regional. Já vivi a política de municípios menores e sei o quanto o Feijó é importante.
Folha – Ele chega a afirmar que, depois de Alair Ferreira, foi o deputado federal que mais trouxe para a região. Você concorda?
Marcelo – Eu acredito que sim. E digo mais: à época, Alair tinha uma posição muito voltada para Campos e São João da Barra. O Feijó, não. Ele pulverizou muito, deu grandes oportunidades às cidades pequenas. Mesmo nos municípios onde, eleitoralmente, ele não tinha um contingente, levou melhorias. Suceder o Feijó, eu posso não estar nesse patamar. Mas me senti muito honrado com as palavra de carinho. Isso me motivou.
Folha – Mas ele falou que demanda mais conversa.
Marcelo – Sim. Eu acho que a política tem que ser feita com conversa. Conversa sadia… Dentro do contexto de candidatura do nosso grupo, seja do Marcelo ou de quem for, eu quero continuar conversando com o Feijó, assim como quero interagir com o prefeito Rafael Diniz, porque ele, hoje, é a nossa liderança. O nosso prefeito. Quando se fala das dificuldades de Campos, muitas pessoas têm remetido às dificuldades do prefeito. Eu acho que as dificuldades a serem superadas são da sociedade. Sabíamos muito bem o que o prefeito ia encarar.
Marcelo – A divulgação dos números é essa. São números assustadores. Se R$ 2 bilhões já eram uma dívida considerada com o orçamento de R$ 2 bilhões, ainda mais agora.
Folha – Na verdade, a Rosinha teve uma execução orçamentária de R$ 3 bilhões, porque ela teve R$ 1,5 bi de orçamento e mais teve R$ 1,5 bi do dinheiro que ela pegou da PrevCampos, mais os empréstimos. Execução orçamentária que caiu pela metade nesse ano.
Marcelo – Por isso que eu falo: a sociedade não pode se furtar, hoje, a somar, não ao prefeito Rafael, mas à cidade de Campos. Isso tem que ser amplamente discutido pela sociedade, para que a gente busque caminhos. A natureza do Rafael já é de escutar, de conversar. Ele tem andado em todas as entidades, conhece os problemas que temos no município.
(Foto: Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Folha – Qual a importância da instalação da delegacia da Junta Comercial do Estado do Rio de Janeiro (Jucerja) em Campos, pleito antigo da CDL local, que se concretizou com a intervenção do governo Rafael?
Marcelo – Esse é um pleito que não é unicamente da CDL, mas também da Associação Comercial, da Carjopa, do Sindicato dos Contabilistas, de todos os agentes envolvidos no processo, que há anos vêm lutando por isso. É um pleito que passou por diversos governos. O Rafael abraçou essa questão. Houve a oportunidade também de a gente ter, hoje, um presidente da Jucerja extremamente capaz, um cara que tem andado pelo estado do Rio de Janeiro. O governo de Rafael abraçou esse pleito e implantou. Foi com muita alegria que a gente viu, em pouco tempo, que foi uma agenda extremamente positiva na cidade. É outra coisa que as entidades têm que trabalhar: as agendas positivas. A gente tem visto o caminho bem nebuloso que o prefeito está encarando, então, temos que fazer a nossa parte. Temos que ajudar. A Jucerja veio em boa hora. Se não fosse a equipe de Rafael Diniz ter abraçado, nós não teríamos a Jucerja hoje.
Folha – De modo geral, como você avalia os oito primeiros meses do novo governo municipal de Campos?
Marcelo – Ele está com dificuldades econômicas, dificuldades na parte de operacionalizar a gestão. Mas todos nós sabíamos que ele teria que passar por esse período. É um momento que a sociedade, toda a comunidade de Campos, tem que ser solidária. Mas também tem que ser escutada. A sociedade está num estado de letargia. Está parada. Nós temos que sair desse campo e ir para a atividade. Temos desafios pela frente. Temos que discutir o código tributário que foi para a Câmara. E não é discutir contra o projeto, mas discutir positivamente.
Folha – Vem reajuste de IPTU aí, no ano que vem. Há muito tempo o valor venal não é reajustado.
Marcelo – O momento, hoje, é de muita cautela. Um momento que a gente tem que avaliar todas as circunstâncias. A capacidade contributiva do cidadão está esgotada. Então, realmente, a gente pode dizer que, há muito tempo, não se corrige a planta original, mas a alíquota vem sendo corrigida todo ano. O valor venal não é corrigido, mas a alíquota é. Temos que discutir se, no conjunto da obra, esse valor não vai ficar inviável para a população. Hoje, cada centavo que se tira da população, isso reflete negativamente no município. Se você tira a capacidade da população, ela vai bater no poder público municipal. Se você tira a capacidade de reação própria, seja na área médica, escolar, tudo o que você tirar, vai reverter no município. E essa é uma preocupação que eu acho que o município tem que ter.
Folha – Na crise, todos os governos estão estudando uma forma de arrecadar mais. É um fio de navalha.
Marcelo – Eu questiono muito essa forma. Pra mim, é uma forma vencida. Isso de aumentar impostos, criar novas alíquotas. Existem outros mecanismos que o Governo não atua, que tem que atuar. Por exemplo, cobrança de ISS de alguns serviços que não são tributados por omissão do poder público ou porque não estão enquadrados. Nessas coisas, pode atuar. Agora, a gente tem que discutir isso. Quando você envolve a sociedade nisso, você tende a ter mais êxito nas suas ações. Eu acho que a gente precisava, talvez, ser mais ativo, e o Governo, mais receptivo. Nós precisamos falar mais, e o Governo, escutar mais.
Folha – Mas, na sua avaliação, quais seriam, nesses oito meses, de prática, as maiores virtudes e os maiores desacertos do governo Rafael?
Marcelo – Virtude eu acho que foi a interação. Interagiu com as entidades no começo. Depois, há um hiato nesse espaço, que foi aonde eu acho que o Governo tem sofrido mais. O período dos últimos 90 dias, em que não houve uma interação com a sociedade. Eu não posso creditar isso a nenhuma coisa pontual. Acho que nós, da sociedade civil organizada, não fomos ativos, e a Prefeitura também falhou nesse aspecto. O outro aspecto: há a percepção que a população queria um resultado muito imediato do governo do Rafael. Nós não estávamos preparados para entender que precisaríamos de um período maior. Esse é o ponto.
Folha – Ele chegou a falar, no início do mandato, que precisaria de um ano para arrumar a casa. Foi até muito criticado por isso.
Marcelo – Eu lembro disso. Acho que é realista. O governante, hoje, não tem que criar fato que não seja verdadeiro para a cidade. Penso que o governo de Rafael precisa ocupar mais os espaços com informações para a sociedade. Ele está trabalhando. Está interagindo.
Folha – Inegável que com a vitória acachapante de Rafael, em todas as sete Zonas Eleitorais (ZEs) de Campos, ainda no primeiro turno da eleição municipal passada, o perfil de jovem de classe média, bem apessoado e articulado, com relativa pouca bagagem na política, passou a ser valorizado. E este perfil é também o seu. Pretende tirar proveito disso? Como?
Marcelo – Nós temos um grande desafio pela frente. O conjunto da política. É o de resgatar a credibilidade da política. Hoje, motivar as pessoas é um grande desafio. O voto nulo não cancela a eleição. Então, esse voto nulo pode ser uma articulação da velha raposa política. Se a sociedade não vai votar, os poucos votos que ele tem, o elegem. É o voto de cabresto. Então, o grande desafio dessa nova geração é de trazer a credibilidade à política.
Folha – O seu perfil se aproxima ao de Rafael.
Marcelo – Sim. O Rafael não é uma grata surpresa porque já teve o mandato de vereador. O conjunto que levou o Rafael a ser um candidato e ter a votação que teve, da maneira que venceu, trouxe surpresa para o cenário político local, regional, quiçá nacional. No regional eu tenho o feedback. No primeiro turno. Isso também fez com que a população aumentasse a expectativa a curto prazo de ações que a gente sabe que não podem acontecer. Mas, voltando à pergunta original: o nosso grande desafio é resgatar isso, mobilizar e ser propositivo.
Folha – Você já conversou com Rafael sobre a intenção de vir candidato?
Marcelo – Tenho interagido bastante com o Rafael, mas ainda não tive essa conversa propositiva. Conversa política nós ainda não tivemos. Mas pretendemos ter. É óbvio que isso passa pelo poder público municipal, na pessoa do Rafael. Não é um projeto isolado. Tem um conjunto de fatores que levam à regionalização da política.
Folha – Em entrevistas de alguns pré-candidatos à Folha, todos os que não estão ligados ao garotismo falaram que têm que passar por Rafael. É um discurso. Você concorda?
Marcelo – Eu concordo que tem que passar pelo Rafael porque, hoje, ele é a liderança do município. Mas o nosso projeto independe do Rafael. Ele caminha por si só. É óbvio que, até pelas minhas convicções, ele tem que ser um projeto que some. E some com Rafael ou com quem estiver no comando do município. Mas, acho que essa conversa com ele é fundamental, para ele conhecer o projeto, para a gente poder mostrar a ele quais são as condições que temos para apresentar.
Folha – Você vai propor? Vai esperar que seja proposto?
Marcelo – Estamos num processo de interagir, de procurar mostrar. Temos mostrado a uma liderança regional, que é o Feijó. Temos mostrado dentro do contexto de candidatos a governador que estão se apresentando até o momento. Temos que interagir. Vamos procurar o Rafael, sim, na hora certa. O Rafael, hoje, goza desse prestígio. O cara que teve a votação que teve, tem que conhecer o projeto. Assim como a gente também não pode esquecer que o projeto tem que ser apresentado para toda a região. Se tiver um candidato genuinamente de Campos, tem que passar por todas as prefeituras.
Folha – Também na entrevista com Feijó, depois que este levantou a necessidade da sua aproximação com Rafael, foi falado que o governo municipal já trabalha com um nome como pré-candidato a deputado federal: o empresário Cesinha Tinoco, amigo de infância e colaborador próximo do prefeito. O que acha do nome? Há espaço para dois de Campos se elegerem à Câmara Federal?
Marcelo – Eu não tenho uma relação de amizade com o César. Nas vezes que estive com ele, foi de uma gentileza… E as pessoas que eu conheço que têm amizade com ele, sempre fizeram uma ótima referência. Um rapaz proativo, que é um parceiro do Rafael, amigo de infância. Eu acredito que seja um bom nome para representar o Norte e Noroeste Fluminense. Com relação a duas candidaturas, já tivemos várias que foram bem-sucedidas.
Folha – Mas você acha que é possível dois se elegerem?
Marcelo – É possível, sim. Temos um contingente eleitoral muito grande no município, na região. Não vejo problema. O nosso projeto não é para prejudicar nenhum grupo, mas para somar. Vejo com bons olhos a candidatura do César, se ela se consolidar. É uma pessoa que tem a somar dentro desse processo. É um empresário, conhece os problemas. Não vejo problema na proximidade. O Rafael é um prefeito que tem se mostrado com uma postura de prefeito da cidade. Ele atende às entidades, atende à sociedade. Tenho visto pelo noticiário que ele atende o funcionalismo público. Ele pensa macro. Não pensa pequeno. Uma grande liderança tem que pensar macro. Não vejo problema de a gente ter duas candidaturas viáveis na região. Confesso que a gente tem uma expectativa de ter esse projeto em todo o estado do Rio. É óbvio que precisa ter uma base, mas também precisa do conjunto. A gente vai ter respostas em outras regiões. Não vejo isso como um empecilho, não. Não é o maior empecilho.
Folha – Não só Feijó na entrevista, como você próprio, nas redes sociais, negaram que sua pré-candidatura seria um plano B do garotismo, talvez até como uma opção em 2020 na Prefeitura de Campos a Rafael, pelo perfil muito próximo, como já falamos anteriormente. Se você fosse eleito, se cacifaria, normalmente, num processo natural, para a eleição de 2020. Negativas à parte, se isso fosse verdade, você admitiria?
Marcelo – Na minha vida, não aceito rótulos. Nunca aceitei. Se tem uma coisa que, ao longo da vida, pelas iniciativas, aconteceu, foi eu ter virado o Marcelo da CDL. Virou quase um sobrenome. Se isso pode ser considerado rótulo, é o único que aceito na minha vida. A questão da disputa para o pleito do próximo ano é pontual. Já tive participação política, eleitoral, e já tinha pensado em nunca mais participar. Sobre a progressão natural, não passa isso pelo nosso cenário. Pode ser passo natural para quem quer levar a política como carreira. Se eu for eleito, pretendo cumprir meu mandato, porque não é o mandato do Marcelo. É o mandato da classe produtiva.
Folha – E se a classe produtiva quiser a Prefeitura?
Marcelo – Eu acho que a gente tem outros nomes. Campos, hoje, tem que centrar esforços para ajudar Rafael Diniz. Isso é fato e ponto. Em 2020, o Rafael tem que chegar lá bem, porque, se ele chegar mal, o setor produtivo vai chegar mal. As entidades sempre foram proativas para todos os prefeitos. Todos os chamamentos que recebemos, tentamos contribuir. Esse exercício de futurologia, eu deixo para a imaginação daquelas pessoas que querem fazer política diferente da que a gente pensa. Eu quero fazer política classista e, se tiver que participar do pleito eleitoral como deputado, vou para cumprir a missão. Se bem que muito candidato já prometeu isso e não cumpriu. Mas, pode gravar. É uma grande missão resgatar a credibilidade do político.
Folha – Além de você ter sido secretário de Rosinha e de Feijó estar no PR do ex-governador, outros nomes que estariam trabalhando em seu projeto político são intimamente ligados ao garotismo. São o caso do ex-vereador Mauro Silva (PSDB) e dos ex-secretários rosáceos Sérgio Cunha e Wainer Teixeira (PHS), de quem você já admitiu ser amigo pessoal. Isso sem falar em Orlando Portugal. Se você fosse apenas eleitor em 2018, sinceramente, não desconfiaria?
Marcelo – O Mauro Silva em momento nenhum participou desse projeto.
Folha – Ele está muito próximo do Joilson.
Marcelo – Eu não tenho esse contato estreito. Eles devem estar até trabalhando negócios juntos, não sei se é fato. Não posso dizer se é negócio, se é amizade. Sobre o Sérgio Cunha, eu já trabalhei com o pai (José Cunha Filho) e tenho uma amizade grande com ele. Mas isso não quer dizer apoio ao projeto. Eu já fui subsecretário de Rosinha, a convite de Carlos Alberto Faria e Eraldo Bacelar, que é meu amigo particular. Enquanto fui útil à classe, lá eu estive. Com um ano, pedi para sair e cessei a minha participação. Foi bom enquanto durou. Participo enquanto eu sou útil. Nós tínhamos uma demanda de ordenamento no Centro da cidade que tinha data fixada. A partir do momento que ela foi postergada pela segunda vez, eu senti que não era mais útil dentro do Governo e pedi para sair. Fui respeitado na minha decisão.
Folha – Como foi sua experiência com Rosinha?
Marcelo – Tive pouco contato com ela, mas sempre me atendeu muito bem. Nunca tive problema de relacionamento nas poucas vezes que interagi. Com Garotinho, menos ainda. Na época que eu estava no governo, ele não estava em Campos.
Folha – Talvez hoje pouca gente se lembre, mas o movimento “Muda Campos”, que levou Garotinho à Prefeitura de Campos pela primeira vez, em 1988, teve acolhida desde o nascimento na CDL, na gestão de Odilon Martins. De lá para cá, vários ex-presidentes da entidade tiveram passagem no garotismo, como Murillo Dieguez, Fábio Paes e você. Essa aproximação foi boa ou ruim para o setor lojista? Deve-se entender que ela acabou? Por quê?
Marcelo – Quando entrei na CDL, eu estava com 21 anos, em 1991. Não vivi isso. Eu sei do contexto histórico da CDL. E teve questões pontuais importantes. Mas eu nunca vi a política entrar na CDL. Já vi a CDL participar da política. Tanto é que, mesmo participando com membros de sua diretoria na Prefeitura, a CDL fez várias ações judiciais contra o poder público. Então, não consigo enxergar a política entrando na entidade. Consigo enxergar a CDL se manifestando na política.
Folha – Mas você acha que essa relação da CDL com o garotismo acabou?
Marcelo – Não é com o garotismo. Foi por coincidência de quem estava no poder.
Folha – Você falou que chegou a hora da CDL ser ator e não ser mais observador. Mas ela também foi ator. Quando integra um governo, está sendo ator, é administração pública. A CDL já colocou a mão na máquina.
Marcelo – Eu não vivi tão intensamente isso. O Murillo tem uma passagem muito importante pelas entidades. Deixou um legado, mudou o cenário, colocou a CDL num cenário diferenciado. Se nós tivéssemos o Murilo presidente por mais tempo, isso que estamos propondo agora, já teria sido feito lá atrás. Isso é dele. Naquele momento, os caminhos foram se construindo como secretário, com uma participação. E acho que isso deu resultado a ponto da gente chegar no estágio em que estamos agora, com maturidade para tocar esse projeto.
Folha – O prazo de filiação depende de mudanças, ou não, das regras eleitorais no Congresso. Você já foi filiado ao PSDB, com quem admitiu estar conversando, assim como com o PT do B. Isso sem contar o PHS, presidido em Campos por Wainer. Qual, afinal, será o seu caminho? Ele tem que ser o mesmo dos pré-candidatos das CDLs a deputado estadual?
Marcelo – No nosso projeto, ele vai se desenhar dentro da base eleitoral do candidato. É lógico que tem um vínculo maior. Mas, temos um pré-candidato já bem encaminhado em Niterói. Então, ele tem que concorrer dentro da base dele, dentro do cenário que tem, com as interferências locais. O prefeito ou outras. Isso não quer dizer que não vamos interagir nas nossas campanhas. Assim como, se for o candidato de Campos, temos que seguir o mesmo caminho. O movimento lojista, a nível nacional, não tem uma identidade partidária. Mas nós temos algumas definições. Os extremos não fazem parte do nosso contexto. A gente tem conversado. Queremos nos posicionar na hora certa.
Folha – Tem algum outro partido? Falamos em três.
Marcelo – PSD, do Índio da Costa; tem o Partido Novo, que precisamos saber qual espuma ele vai ter. Uma coisa é clara: a gente não quer participar do pleito buscando caminhos fáceis. Não queremos participar do partido para fazer um candidato. Queremos entrar em um conjunto para disputar e ganhar se tiver o voto. Até mesmo porque, temos discutido isso internamente, o modelo eleitoral está errado. Tem que ganhar é quem tiver voto. Próximo ao distritão. E não temos discutido só a questão de política institucional. Queremos nos diferenciar do modelo que está aí.
Folha – O partido que você definir para você, tem que ser o mesmo dos estaduais?
Marcelo – Não. O cenário local é que vai definir. Podem ser três partidos. Eu gostaria muito que o cenário político do Brasil fosse diferente, mas temos que jogar de acordo com as regras. Com a pulverização partidária, infelizmente. Há 10, 20 anos, o PT era um partido e os outros eram siglas. Hoje, não posso falar mais nisso. Dentro da conjuntura, ficou mais difícil entender o PT como um partido. Enfim, eu estou muito satisfeito, independente se o projeto vai deslanchar. Acho que agora nem tem volta mais, pela repercussão que está tendo, pela importância que isso está produzindo no processo, para que as pessoas amadureçam, se motivem a participar. Quando nós encolhemos, alguém ocupa o espaço.
Toda dúvida é boa quando se divide entre escolhas ainda melhores. Na dica de programação para este sábado (2), o blog compartilha um dilema pessoal do blogueiro.
Se você, leitor, for ficar em Campos, não dá para perder a homenagem ao advogado, professor e músico Rodrigo Magalhães, o Magalha, morto precocemente aos 48 anos, no último 23 de maio. Organizado por sua banda, a CrossTime, o Tributo a Rodrigo Magalha começa às 14h, na Ponto B (rua da Baronesa, nº 68), sem hora para acabar.
Para matar saudades e ter uma prova do que está por vir, confira no vídeo abaixo um pouco da guitarra de Magalha:
Na programação do Tributo a Magalha estão também as bandas Day Trippers, Mythical Mind, Reubes Pess Band, Rock Motor, Voxer, Miolo Radioativo e 4.0 Acústico, sem contar algumas participações individuais especiais. Para unir rock, homenagem a um grande cara (relembre aqui) e solidariedade, se pede que cada presente leve consigo 1 kg de alimento não perecível para doação.
Visual literalmente de cinema do Cineclube Atafona
Mas se sua opção, leitor, for aproveitar o friozinho na praia mais charmosa da região, o Cineclube Atafona é outra ótima pedida para passar o sábado, próximo à foz do rio Paraíba do Sul. O evento da CasaDuna (no cruzamento da av. Atlântica com a rua Julio Souza Valê Júnior, a Rua do Valão) tem entrada franca e começa às 18h, com a sessão do filme brasileiro “Que horas ela volta?” (2015), de Anna Muylaert, que traz Regina Casé no elenco.
Confira abaixo o trailer do filme:
À beira do oceano Atlântico, a programação do Cineclube terá sequência às 20h30, com a exibição de outro longa nacional: “Ventos de agosto” (2014), de Gabriel Mascaro, cuja história guarda muita semelhança com a própria Atafona. A curadoria do evento é de Júlia Naidin, Filipe Codeço e Fernando Codeço.
Confira abaixo o trailer da última atração do sábado atafonense:
Ninguém discute a estupidez do assassinato do estudante da Uenf Fernando Soares de Araújo, morto aos 21 anos com um tiro pelas costas, por um adolescente de 15 anos, na noite da última terça (29). Mas o mesmo fato, por mais chocante e trágico, pode ser visto por vários ângulos.
Na edição de ontem, a Folha trouxe (aqui) a crônica da jornalista e escritora Paula Vigneron sobre o episódio. Nele, foi externado o ponto de vista de quem acompanhou os bastidores da ocorrência policial, com a reação da mãe da vítima e do assassino.
Ciente do seu papel de tribuna, a Folha hoje trouxe mais uma análise do caso, pela socióloga, professora da Uenf e presidente da Aduenf, Luciane Silva. Nela, foi revelada a ótica de quem acompanha o problema da segurança pública de Campos não só na teoria, mas também no trabalho de campo acadêmico.
Abaixo, conheça as duas visões, extraídas do testemunho pontual e conjuntural. Porque sem conhecer uma ou outra, qualquer outra análise pode ser míope:
Fernando Soares Araújo, morto aos 21 anos, com um tiro pelas costas enquanto ia de bicicleta à casa da namorada, por conta de um telefone celular
Das lágrimas ao sorriso: os lados de um latrocínio
Por Paula Vigneron
Fernando Soares de Araújo. Vinte e um anos. Morador do Jóquei, em Campos. Na noite da última terça-feira, saiu de casa, de bicicleta, por volta das 22h, para visitar a namorada. No meio do caminho, quando seguia para a ciclovia da Avenida Arthur Bernardes, foi abordado por assaltantes. Queriam o celular. Na ação, antes de sair, um deles, de 15 anos, disparou um tiro. A bala atingiu o tórax do rapaz. Fernando morreu no Hospital Ferreira Machado (HFM).
Um policial à paisana acompanhou o crime. Tentou deter o suspeito, que atirou, também, em direção ao militar. Este disparou contra o adolescente e o atingiu. Depois, correu para capturar outro participante, de 17 anos, que conseguiu escapar e compareceu à delegacia, junto ao terceiro envolvido, na tarde de quarta-feira, após o fato ser noticiado. O executor foi socorrido e levado para o HFM.
Na manhã seguinte, horas após a morte de Fernando, com o braço esquerdo engessado e curativos nas costas, o executor chegou à delegacia para prestar depoimento. Sorria enquanto caminhava junto aos policiais. Simultaneamente, familiares e amigos de Fernando aguardavam, na porta do Instituto Médico Legal (IML), a liberação do corpo. Entre lágrimas, comentários sobre o rapaz: “um bom menino”, “menino de ouro”, “nosso menino se foi”, ditos em meio a abraços de consolo.
Na porta da unidade, rodeada por homens e mulheres, a mãe de Fernando, Ana Maria da Silva Soares, recebia afeto dos que chegavam. Seu menino era estudante e trabalhava como vendedor em uma loja de peças de motos. Prestativo com todos. Não havia nada de ruim que pudessem falar sobre ele. “Aquele ali é um anjo, que já está lá, nos braços de Nossa Senhora”, afirmou. Ela acredita que a morte tenha sido fruto de uma busca dos assaltantes por dinheiro. Ana Maria costumava alertá-lo para não reagir a assaltos. Por isso, crê que o filho tenha seguido seu conselho.
Na delegacia do Centro, após ouvirem o depoimento do adolescente suspeito, policiais civis e militares se organizaram em uma busca pela cidade, com o objetivo de encontrar os outros envolvidos. Os agentes levam o menor, que percorre o pátio, na parte de trás da unidade, enrolado em um lençol do Hospital Ferreira Machado. Tenta esconder o rosto dos flashes do fotógrafo. Ao perceber a impossibilidade, encara-o, franzindo o rosto que, outrora, estampara o sorriso despreocupado com o fato de que, naquele mesmo momento, parentes e amigos se preparavam para a despedida de um rapaz morto por suas mãos.
Em meio à consternação de familares e amigos, o universitário foi sepultado na quarta (30), no Cemitério do Caju (Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)
Por um debate sério sobre segurança pública em Campos dos Goytacazes
Por Luciane Silva
Ao iniciar este texto, dirijo meus sentimentos aos familiares de nosso aluno, Fernando Soares Araújo, especialmente à sua mãe, Ana Maria da Silva Soares. Não é possível medir a dor de uma perda como esta. Acompanhei durante todo o dia as manifestações públicas em relação ao latrocínio cometido na Avenida 28 de Março, na noite de 29 de agosto. Lamentável o aumento das estatísticas de criminalidade ligadas ao roubo de celulares na cidade. Pesquiso segurança pública desde 1994 e creio que algumas questões muito objetivas devem ser trazidas para o debate, evitando os discursos de ódio e ao mesmo tempo evitando a imobilidade na qual nos encontramos quando o assunto é política pública de segurança. No ano passado concluímos uma pesquisa sobre ação policial em cidades do Norte Fluminense e creio que este é o momento oportuno para dividir algumas reflexões com os leitores.
O primeiro apontamento importante refere-se ao número de viaturas existentes em Campos para cobrir a extensão territorial da cidade, considerando escolas, comércio, avenidas pouco iluminadas, horários de circulação, regiões de confronto aberto. Cada um destes cenários implica em um tipo de ação com avaliação contínua dos índices de roubo, furto, emprego de violência e tipo de arma utilizada. Ou seja, o policiamento só pode obter êxito se um conhecimento topográfico do território for levado em conta no momento de decidir como dispor das formas distintas de patrulhamento. Se policiais caminhando, se viaturas, por quanto tempo, cobrindo qual perímetro, em quais horários. Para os policiais isto é óbvio, mas nem sempre quem conhece a realidade do local é quem decide sobre o que fazer. Um dos problemas da hierarquia militar pois tudo isso exige planejamento. E troca de experiências entre quem está na ponta, ou seja, na rua. Aos meus entrevistados, minha gratidão e reconhecimento. Realizei ótimas entrevistas com o ex-comandante do 8º Batalhão, Marcelo Freiman, e sua equipe. Esta avaliação das necessidades de uma cidade de mais de 400 mil habitantes é diária, exige uma atenção constante aos focos, ao aumento ou diminuição de roubos e mesmo de tentativas. Ou seja, estamos aqui, no coração do trabalho policial.
O segundo ponto de minha reflexão questiona a circulação de armas. Em pesquisas que realizei no Rio de Janeiro, observei que homens com menos de 18 anos, adolescentes, portanto, não têm acesso fácil a armas de fogo. Como toda arma tem um histórico, é fundamental saber como estão circulando, se existe um aumento na entrada destas armas na cidade, quem está vendendo e como estes indivíduos as conseguiram. Esta é uma pergunta a ser feita. Um estudo sobre armas de fogo em Campos é urgente. Além de um debate mais amplo com a população, é claro.
O terceiro ponto (e este envolve a sociedade de forma mais ampla) é o comércio de compra de celulares roubados. Em abril deste ano a Policia Militar desarticulou um esquema de venda de celulares. Foram apreendidos mais de 50 aparelhos em uma área de comércio da cidade. Ou seja, existe um mercado e existem consumidores que têm pago por objetos roubados. E aí temos uma questão bem mais complicada que condenar os assaltantes à pena de prisão. Estes roubos não são realizados para obtenção de mercadoria, mas para venda. É como em Copacabana: o assalto às senhoras com jóias e ao lado as placas de “compro ouro, Ed. Copa, número 123”. Ou seja, no mesmo bairro o circuito se completa entre roubo e recepção.
Por último, em minha avaliação, mesmo sabendo dos poucos recursos da PM dentro desta crise seletiva pela qual passa o Rio de Janeiro, seria necessária uma cabine da polícia na Avenida Artur Bernardes. Como esta via tem ganhado importância nos últimos anos, aqueles que a utilizam todos os dias percebem que, além de muito extensa e com muitas ruas transversais, ela articula áreas de comércio com terrenos ainda vazios e prédios de classe média. É uma via que deve ser iluminada e merece atenção contínua. Mas sempre é complicado tomar essas decisões, pois, diante da insuficiência de recursos, estamos falando de escolhas de zonas de policiamento. A decisão mais sensata só pode ser tomada com uso da inteligência policial quanto às áreas com maior “mancha criminal”.
Considero que independente das posições políticas de cada leitor (entre os que jogam peso na punição e os que acreditam que o problema é social), meus argumentos são válidos para irmos além dos discursos rasos. Objetivamente o aumento da população carcerária em Campos não produzirá nem de longe o aumento da segurança. O mesmo vale para qualquer outro tipo de ação punitiva. Li muitos comentários pedindo a morte dos assaltantes, bradando contra os direitos humanos, separando a sociedade em cidadão de bem e escória. Este é o discurso da impotência (que já caracteriza bem nossa experiência urbana). Compreendo que momentaneamente funcione como uma forma de gritar ao mundo o quão é absurdo que jovens matem uns aos outros por mercadorias: tênis, motos, celulares ou óculos escuros. Sim, é preciso gritar, chorar, sentir. Pois é mesmo parte de nossa ruína como civilização testemunharmos em 2017 a morte de um estudante de 21 anos por motivo tão fútil. É igualmente parte de nossa ruína (pois estamos todos implicados nisto) desejar a morte como forma de vingança ou resolução de conflitos.
Esta semana realizamos nossa oficina de extensão sobre música popular brasileira no colégio Thiers Cardoso. E vimos como os professores disputam a cada dia os alunos. Para que não abandonem a escola. Para que compreendam as possibilidades a partir do estudo. Enquanto o Estado fecha escolas e não investe em educação transformadora, milhares de adolescentes serão vitimados pela violência. Dos dois lados.