Em um engarrafamento no Centro de Campos, três pessoas conversam sobre os rumos políticos do país em um momento no qual os cidadãos buscam soluções rápidas. No cenário nacional, debates e divergências — em sua maioria, dominados por muitas vozes e poucos ouvidos, devido à incapacidade de escutar o próximo — aceleram o descrédito em relação ao futuro. Redes sociais afogam-se em brigas ideológicas infrutíferas. De um lado, quem acredita na violência como solução para a violência. Do outro, quem continuar a crer a despeito dos anos de desgaste.
Ao volante, o homem, firme em suas posições, aponta que não há outra solução a não ser Jair Bolsonaro na presidência. Ele, sim, em sua concepção, pode consertar o Brasil. Os argumentos vão da conhecida violência até o crescimento da discussão sobre a questão de gênero:
— Criança é criança. Não pode ser assim. Querem colocar até em livros didáticos. Eu nunca vi o país desse jeito. É muita bagunça. Mas é minha opinião.
Mas a opinião dele era partilhada por, em média, 30% dos brasileiros, entre 16 e 33 anos, que, de acordo com pesquisas recentes, votariam em Bolsonaro em situações simuladas durante a coleta dos dados. No entanto, não só essas gerações se posicionaram a favor do militar. Acima dos 40, é possível encontrar outros eleitores do candidato. Entre eles, está um comerciante de Campos.
Em setembro, o homem foi vítima de uma tentativa de assalto dentro de seu estabelecimento comercial. Outros homens chegaram e pediram que ele passasse seu cordão. Enquanto fingia tirá-lo de seu pescoço, ele caminhou até seu carro, abriu a porta e afirmou estar armado para afastar os bandidos, que atiraram e quase atingiram uma pessoa que estava no local.
No momento em que narrava o caso, sendo atentamente ouvido por clientes apavorados com a crescente violência, no caixa da padaria, o homem fez elogios ao período ditatorial:
— Na ditadura, a gente podia andar tranquilamente pelas ruas a qualquer hora. Não tinha esse perigo, não. Não houve nada disso de que falam. Eu vivi esse período. E sou eleitor de Bolsonaro.
Apesar da crise política pela qual passa o Brasil, com somente 3% da população aprovando o governo de Michel Temer — que escapou de investigações sobre evidenciados atos de corrupção e se mantém no poder por meio de conchavos com deputados e senadores —, é necessária uma retrospectiva para compreender melhor os ideais do segundo principal candidato à presidência da República. Marcado por tentativas de vandalismo em quartéis e outros pontos do Rio de Janeiro, Bolsonaro também é lembrado por celebrar torturadores do período ditatorial e por sua comemoração solitária dos 51 anos do golpe militar.
No dia 31 de março de 2015, em frente à Esplanada dos Ministérios, em Brasília, o deputado estendeu uma faixa em que parabenizava os militares, agradecendo-lhes por terem impedido o Brasil de se tornar Cuba. Na ocasião, ele soltou rojões e usou o artifício para chamar atenção para si, visto que, até se destacar por polêmicas, sua atuação era pouco conhecida por grande parte da sociedade.
Pouco mais de um ano depois, em 18 de abril de 2016, durante a votação do processo de Dilma, que resultou em seu impeachment, o deputado federal dedicou seu discurso aos militares de 1964 e seu voto favorável à retirada da presidente “à memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (único militar brasileiro reconhecido pela Justiça como torturador), o pavor de Dilma Rousseff”. Em outro episódio recente, ocorrido em dezembro de 2014, Bolsonaro afirmou que não estupraria a deputada Maria do Rosário porque ela não merecia e por achá-la feia.
Atualmente mais contido em seus posicionamentos, visando à corrida eleitoral de 2018, Jair Bolsonaro busca a consolidação de uma imagem diferente da já conhecida pelos brasileiros. Mas, para que os eleitores não sejam novamente trapaceados, é necessário sempre se recordar da trajetória do candidato. No artigo “No 40º triste aniversário do triste evento de 1964: o golpismo contra a História”, o historiador e cientista brasileiro Jacob Gorender alertou a sociedade sobre a fragilidade do nosso sistema de governo: “Há muita criminalidade, o país está longe de ser um paraíso, mas é uma democracia. Trata-se, contudo, de uma democracia que veio à luz num parto difícil, cuja sobrevivência e consolidação exigem vigilância constante e esforço político incansável”.
Luiz Ruffato é conhecido por ser um dos maiores prosistas brasileiros da atualidade. Mineiro de Cataguases, filho de um pipoqueiro e uma lavadeira, se formou pelo Senai como torneiro mecânico, ofício que exerceu antes de se graduar em Comunicação. Trabalhou na imprensa de Minas e São Paulo até abandonar o jornalismo em 2003. Em caso raro no Brasil, passou a se dedicar integralmente à literatura.
Atualmente, Ruffato só mantém sua atuação na imprensa como articulista. Em texto publicado hoje (01), no jornal El País, o escritor analisou a corrida pela eleição presidencial de 2018. Após as pesquisas Datafolha e Ibope sobre a disputa, ele identificou uma polarização entre a corrupção à esquerda e a ameaça do autoritarismo, à direita.
Muitas da conclusões a que o escritor chegou em seu artigo de hoje, caminham juntas com análises publicadas neste “Opiniões”, e na Folha da Manhã. Mesmo na curta envergadura de um blog e um jornal de interior, é gratificante constatar que a análise política nacional se assemelha à visão de quem abandonou o jornalismo para se consolidar como um dos maiores escritores brasileiros.
Para ler ou reler as advertências publicadas neste blog, basta conferir aqui, aqui, aqui e aqui. Já para se ter acesso à visão muito parecida de Ruffato, basta conferir aqui ou na reprodução abaixo:
Palácio do Planalto (Foto de Valter Campanato – Agência Brasil)
Escritor Luiz Ruffato
O Brasil, entre a corrupção e o autoritarismo
Por Luiz Ruffato
A pesquisa do Ibope, divulgada no domingo, 29, confirma a tendência, já apontada pelo Datafolha, de fortalecimento da candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro, de extrema-direita. Segundo dados daquele instituto, Bolsonaro, com 13% das intenções de voto, disputaria o segundo turno com o petista Luiz Inácio Lula da Silva, que continua estacionado em 35%. A candidatura de Bolsonaro vem se alimentando das incertezas provocadas pela derrocada dos partidos tradicionais, envolvidos em escândalos de corrupção.
Condenado a nove anos e seis meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o PT sequer sabe se Lula poderá ou não ser candidato – e, pior, o partido não tem alternativa ao personalismo de seu líder. Sem Lula, seu possível substituto, Fernando Haddad, contaria, segundo o Ibope, com 1% das intenções de voto – é bom lembrar que Haddad, candidato à reeleição na Prefeitura de São Paulo em 2016, perdeu, ainda no primeiro turno, para o tucano João Dória, que teve três vezes mais votos que o petista.
Dória, aliás, que ensaiou ser uma opção para as eleições presidenciais de 2018, pelo PSDB ou qualquer outra sigla, já é carta fora do baralho. A avaliação de seu desempenho à frente da Prefeitura despencou, segundo pesquisa Datafolha, de 41% de ótimo/bom para 32%, em apenas quatro meses. Mas, o mais importante: 58% dos eleitores paulistanos disseram que preferem sua permanência à frente da Prefeitura e 55% revelaram que não apoiariam de jeito nenhum sua possível candidatura ao Palácio do Planalto.
O problema, para o PSDB, que mantém uma relação incestuosa com a corrupção deslavada do governo do presidente não eleito, Michel Temer, é que a candidatura do insípido governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que tem em seu currículo uma derrota para Lula dez anos atrás, não consegue decolar. O tucano aparece, na pesquisa Ibope, com 5% das intenções de voto num cenário com Lula candidato, percentual que praticamente não muda num cenário sem Lula, 7%.
Sem Lula, quem cresce é a candidatura da omissa Marina Silva (Rede). Se no cenário com o petista candidato, Marina obtém apenas 8% das intenções de voto, no cenário sem Lula ela dobra o percentual para 15%, empatando, nesse caso, com Jair Bolsonaro, indo os dois para a disputa do segundo turno. Duas vezes candidata à Presidência da República, em 2010, pelo PV, e em 2014, pelo PSB, em ambas terminou em terceiro lugar, com uma média de 20% do total dos votos válidos.
A menos de um ano das eleições presidenciais, essa indefinição acaba colaborando para o surgimento de candidaturas messiânicas. O primeiro balão de ensaio, o prefeito João Dória, resultou murchar muito rápido, pressionado internamente pelos tucanos alinhados com Alckmin, e externamente pela opinião pública paulistana, insatisfeita com seu prefeito viajante. Agora, a aposta é na força do nome do apresentador da Rede Globo, Luciano Huck.
Huck, que oficialmente nem pré-candidato é, mas que não esconde sua pretensão de “participar deste processo de renovação política no Brasil”, como escreveu em artigo na Folha de S. Paulo do dia 18 de outubro, aparece, na pesquisa Ibope, com 5% das intenções de voto, mesmo percentual de Geraldo Alckmin, e mais que os 3% dados a Ciro Gomes (PDT). Já num cenário sem Lula, Huck surge em terceiro lugar com 8%, logo após Bolsonaro e Marina, com 15%, e acima de Alckmin e Ciro, com 7%.
Assim, pouco a pouco, o pensamento reacionário vai ocupando mais e mais espaço no ambiente político. Na votação que livrou Temer da segunda denúncia da Procuradoria Geral da República, por obstrução da justiça e organização criminosa, ocorrida no dia 25, o deputado Cabo Daciolo, filiado a um partido chamado Avante, pediu literalmente intervenção militar no país! Cabo Daciolo, bombeiro e evangélico, pré-candidato ao governo do estado do Rio, foi eleito com quase 50 mil votos … pelo PSOL! Num ambiente confuso e polarizado como o atual, a candidatura de Bolsonaro deveria preocupar mais as forças pensantes deste país.
Assembleia francesa em 1789 — liberais girondinos à direita, extremistas jacobinos à esquerda
Sempre foi muito confortável se autodeclarar ‘de esquerda’. Até pouco tempo atrás, havia quase unanimidade no entendimento de que aquele que era de esquerda estava do lado ‘do bem’, em contraposição àqueles que eram apontados como ‘de direita’, que, logicamente, estavam do lado ‘do mal’.
Resumindo grosseiramente, ser de esquerda é ser a favor de que todo mundo tenha, aqui e agora, aquilo que necessita. E que seja o Estado o principal responsável de satisfazê-lo. Essa descrição pode parecer um tanto exagerada, mas é bom lembrar que esse voluntarismo aparece na própria Constituição Brasileira, a mais alta e prolixa expressão normativa das boas intenções da nação. Até 2003, por exemplo, a Carta Magna determinava que a taxa de juros não devia ultrapassar de 12 por cento ao ano – limitação que nenhuma instituição financeira, nem mesmo o governo, respeitou jamais, até ser finalmente revogada.
Dado que todo mundo se coloca do lado ‘do bem’ e ninguém se autopercebe malvado ou egoísta, acontecia que quando alguém manifestava que a manta era muito curta e não dava para cobrir o corpo todo, era chamado de direitista. Uma categoria determinada por exclusão. Daí que praticamente não existam partidos políticos que se reconheçam de direita.
Quem é de direita é (ou deveria) ser a favor do capitalismo. E o capitalismo goza de muita má-fama. É bem curioso, porque foi esse sistema econômico, e não o socialismo, que tirou da pobreza extrema 90% da população mundial nos últimos 200 anos. Mas com o anti-capitalismo acontece coisa similar ao que acontece com a religião. A maioria diz acreditar em Deus, mas no dia-a-dia se comportam como se não existisse. Por sua vez, todo mundo quer ser ‘de esquerda’ — e todos somos burgueses, assalariados e consumidores.
Como disse, isso era assim até pouco tempo atrás. Hoje em dia as coisas se equilibraram um pouco. Já existem vários grupos que se atrevem a autodenominar ‘de direita’. Tem sentido: treze anos de governo do PT, que acabaram numa crise institucional e econômica, animou a muitos a saírem do armário ideológico.
No entanto, ser de direita ainda é uma categoria muito grande, que junta nacionalistas, liberais, fascistas, conservadores ou simples odiadores do PT. As subcategorias são tão distintas entre si como as que existem entre um socialdemocrata e um trotskista.
É lamentável, contudo, que hoje o máximo representante da direita seja Bolsonaro. Um sujeito que, entre outras barbaridades, reivindica a tortura e a ditadura. Apesar disso, penso que há, na maioria de seus simpatizantes, mais oportunismo do que afinidade ideológica, pois Bolsonaro atende àquela crescente parcela da população que associam a corrupção à falta de resposta às demandas da sociedade, principalmente no que diz respeito à segurança. Um sujeito como esse só sobressai quando as pessoas ficam fartas, e infelizmente há de se reconhecer que há motivos para tanto: o aumento da criminalidade é um fato inconteste. Parafraseando um poema de Borges, o que une aos Bolsonaristas não é o amor, mas o espanto.
Como liberal, ainda aguardo a aparição de um líder que me represente. Alguém que reconheça sem medo que o capitalismo é o sistema que efetivamente melhora a vida das pessoas, mas que esse capitalismo precisa garantir a livre concorrência e assegurar igual oportunidades para todos. Quero um político que tenha a coragem de se declarar contra a punibilidade do aborto e a favor da legalização das drogas, pois acredita que o individuo tem direito a fazer o que bem entende consigo mesmo, desde que não prejudique terceiros. Um condutor que entenda que o governo não é uma finalidade em si mesma, e que a sociedade não tem condições de bancar suas mordomias e excessos, e menos ainda sua ineficiência e corrupção. Que acredite na capacidade das pessoas de se virarem para melhorar suas vidas, garantindo a elas o essencial para poder decidir seus destinos: uma excelente educação básica, um prato na mesa, saúde e paz, e a certeza de que vivem num país onde ser ‘do bem’ compensa, sejam de esquerda ou de direita.
Charge do José Renato publicada hoje (01) na Folha
Acabou a farra das lotadas
Acabou a farra! Após atuarem livremente nos oito anos de governo Rosinha Garotinho (PR), o transporte clandestino que infesta as ruas da cidade começou a ser, de fato, combatido. Com a aprovação de novo Código Tributário de Campos, na seção referente às taxas de fiscalização de transporte de passageiros, ficou definido que “a exploração de transporte de passageiros sem prévia autorização, permissão ou concessão (…) sujeitará o infrator à apreensão de veículos e multa de 300% sobre o valor atualizado da taxa devida pelo período efetivo ou estimado de funcionamento por cada veículo irregular, além dos acréscimos moratórios exigíveis”.
PM acaba com a festa
Desde que as mudanças foram publicadas em Diário Oficial (DO), em 29 de setembro a fiscalização que antes se restringia a coibir problemas com a documentação das lotadas e vans, passou a ser feito sobre a própria atividade do transporte irregular. A reação veio ontem, quando motoristas de lotadas fecharam algumas das principais ruas de Campos pela sexta vez neste ano de 2017. E o que é mais relevante no enfrentamento à atividade clandestina: a Polícia Militar (PM), que nas cinco manifestações anteriores (aqui, aqui, aqui, aqui, e aqui) se limitou a observar o impedimento do direito de ir e vir dos campistas, na tarde de ontem interveio fisicamente para acabar com a festa.
Protesto e vandalismo
O protesto dos motoristas de lotadas começou por volta das 9h30, com o bloqueio das duas faixas da avenida XV de Novembro, no Centro, e da saída dos ônibus do terminal Luís Carlos Prestes. Um ônibus da empresa São João chegou a ser pichado com a frase “lotada não é crime”. Um pouco mais tarde, a Beira-Valão também foi fechada próximo ao acesso à ponte Leonel Brizola. No final da tarde, os motoristas de lotadas voltaram a fechar a XV de Novembro com sacos de lixo, chegando a quebrar uma lixeira pública. A Guarda Municipal desviou o trânsito, enquanto a PM interveio para pôr fim ao vandalismo e liberar a via.
Ilegalidade x inteligência
Ilegalidade se vence mais com inteligência do que com força. Foi o que o poder público municipal fez com o Código Tributário, que fez doer o bolso de quem se dedica ao transporte clandestino na cidade. O mesmo se deu na articulação entre o Instituto Municipal de Trânsito e Transporte (IMTT), Guarda Civil, PM e, sobretudo, o Departamento de Transportes Rodoviários do Estado do Rio de Janeiro (Detro/RJ), tão temido pelos motoristas de lotadas. Num vídeo feito no protesto e divulgado nas redes sociais, eles choraram suas mágoas, concluindo com o coro “Queremos trabalhar!”. Pode ser a deixa para buscar emprego.
Refis
O prazo do Refis, que oficialmente terminou ontem, pode ser prorrogado em Campos até 31 de dezembro. O pleito foi apresentado ontem pelos vereadores ao secretário da Transparência e Controle, Felipe Quintanilha, que esteve na Câmara apresentando relatório das contas da Prefeitura. Quintanilha disse que hoje haverá uma reunião com o prefeito Rafael Diniz para tratar do assunto. O pleito faz sentido: Se a ideia é arrecadar um dinheiro que praticamente estava perdido ou demoraria anos para ser recuperado, nada melhor que esperar até o final do ano, época do 13º, para que o contribuinte pague ou parcele suas dívidas, respirando mais aliviado.
Articulação
Para buscar meios de sanar a grave crise que tem enfrentado, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) reuniu seu conselho universitário, ontem, para buscar medidas mais eficazes de chamar a atenção das instâncias do Governo do Estado. A intenção é fazer com que uma carta aberta chegue até as mãos das autoridades, reforçando a atual situação de calamidade pública da Uenf e exigindo a imediata aprovação da PEC 47, que prevê o repasse mensal dos duodécimos do orçamento às universidades estaduais. No encontro, o reitor Luís Passoni informou que a universidade está preparando nova licitação para contratar uma empresa de segurança. A Uenf está sem esse serviço desde o final do ano passado e, por conta disso, a instituição vem sendo alvo de ações de vandalismo e roubos.
Foi infeliz
Difícil entender as declarações do ministro da Justiça, Torquato Jardim, que acusou comandantes de batalhões da PM do Rio de serem “sócios do crime organizado” e de acertos com deputados. Se ele, como ministro, sabe e tem provas dessas graves acusações, por que não levou à Justiça? Repercutiu e muito mal. Além das reações do governador Pezão e do presidente da Alerj, Jorge Picciani, oficiais da PM querem uma ação mais firme do governo. A Comissão de Segurança Pública da Alerj enviou representação oficial à União.
“É a primeira vez que sou impedido de cantar no período democrático”
(Caetano Veloso, 30/10/17)
“Aqui está o povo sem medo, sem medo de lutar”
(MTST, 30/10/17)
(Foto: Google Imagens)
Caetano Veloso foi impedido de cantar em evento do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), ontem, segunda-feira, em São Bernardo do Campo. Além dos manifestantes e jornalistas, estiveram presentes, no local, outros artistas, entre eles Criolo, Sônia Braga, Letícia Sabatella e Aline Moraes.
O show, que aconteceria em apoio ao movimento, foi vetado pela juíza Ida Inês Del Cid, da 2ª Vara da Fazenda Pública de São Bernardo do Campo, que alegou falta de segurança e de infraestrutura. A prefeitura da cidade solicitou apoio da Polícia Militar e tomou medidas para o cumprimento da ordem judicial.
Em meio a todos os retrocessos conservadores que temos vivido, estão as investidas contra a arte: veto à exposição de artes plásticas Queer Museu, performance artística em museu é taxada de criminosa por conter nudez, show de MPB vetado pelo Ministério Público.
Apesar de ser razoável o argumento de que o evento do MTST não oferecia condições para um show do Caetano, a recorrência de vetos e censuras à arte neste momento pós-golpe é no mínino, um sintoma.
Ano passado, não por acaso, Artes, Filosofia e Sociologia estiveram na mira do poder público, e por pouco não tiveram sua obrigatoriedade banida pelo MEC. Trata-se de disciplinas que alimentam o senso crítico, fomentam questionamentos, tiram da zona de conforto, fazem pensar.
A arte, especificamente, além de fazer pensar, incita movimentação. Imagina se os grandes artistas, como Caetano, se juntassem e se manifestassem publicamente a favor de causas que são “uma pedra no sapato” de elites? Imagina a força que movimentos como o MTST ganhariam. A adesão dos artistas incita a adesão do público. E a classe artística, por seu carisma e identificação das massas, é a única capaz de competir com o carisma dos coléricos discursos dos radicais de direita, que ganham cada vez mais adeptos, inclusive de jovens, “Bolsominions”.
Impossível não lembrar dos microfones desligados em “Cálice”… Das canções e shows e poesias e tantas obras de arte censuradas pela ditadura… Eu nasci no ano em que a ditadura acabou no país, mas meço palavras com receio das represálias, que são, em sua maior parte, sutis. Às vezes seria mais digno uma porrada, do que ficar medindo palavras, acuada pelo desemprego no país. Que tempos são esses que estamos vivendo? O que é isso? Nos está sendo tirado, sorrateiramente, por puro medo, o direito de termos alguma posição, nas artes, na cultura, nas escolas e universidades. Nos espaços no pensamento. Até que nos tornemos robôs esvaziados de motivação. Apertando parafusos nos palcos que deveriam ser da Educação.
(Que fique aqui registrado, em caixa alta, antes que não me permitam mais dizer: FORA TEMER! FORA TEMER! FORA TEMER! FORA TEMER! FORA TEMER!)
Após liderarem a corrida presiddencial pelo Datafolha, Lula e Bolsonaro também estão na frente pelo Ibope (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Por Aluysio Abreu Barbosa
Divulgada no último domingo, na coluna do jornalista Lauro Jardim, em O Globo, a pesquisa Ibope à corrida presidencial de 2018 revelou (aqui) que se a eleição fosse hoje, teríamos um segundo turno entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (de saída do PSC ao PEN, que vai se chamar Patriota). Na consulta estimulada, o primeiro surge com boa vantagem: 35% das intenções de voto, mais de duas vezes o dobro do segundo, que aparece com 13%.
Entre 18 e 22 de outubro, ouvindo 2.002 pessoas em todos os Estados brasileiros, o Ibope colheu números muito parecidos com a pesquisa nacional anterior, feita (aqui) pelo Datafolha entre 27 e 28 de setembro, que também apontou um clássico confronto entre esquerda e direita no segundo turno presidencial, com Lula e Bolsonaro. Pelo Ibope, abaixo dos dois viriam Marina Silva (Rede), com 8%; o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), e o apresentador de televisão Luciano Huck (sem partido), ambos com 5%; e o prefeito paulistano, João Doria (PSDB), com 4%. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) tem 3% das intenções de voto.
Como Lula foi condenado (aqui) na Lava Jato pelo juiz Sérgio Moro, em julho, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, seu recurso tem previsão de ser julgado (aqui) até agosto pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4). Em caso de confirmação da condenação, o ex-presidente seria impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa. Neste cenário, a liderança na pesquisa Ibope é dividida por Bolsonaro e Marina, ambos com 15% das intenções de voto. Eles vêm seguidos por Huck (8%), Ciro e Alckmin (cada um com 7%), e Doria (5%). Candidato petista alternativo, o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad não foi além do 1%.
Rafael Crespo, presidente municipal do PT
Os números foram analisados por líderes locais, à exceção da pré-candidatura de Bolsonaro, cuja prevista mudança de partido impediu posicionamentos públicos. Presidente do diretório do PT em Campos, o petroleiro Rafael Crespo defendeu a pré-candidatura de Lula, mas falou sobre alternativas, em caso de impedimento jurídico:
— O partido trabalha 100% com Lula a presidente. Discutimos não só o Executivo, como as pré-candidaturas do Legislativo federal. Não dá para governar sem base parlamentar, ou no balcão de negócios no qual se transformou o Congresso Nacional. A migração de votos de Lula a Marina, em caso de impossibilidade jurídica, é fruto da imagem dela ainda estar ligada ao PT, muito embora ela tenha apoiado Aécio (Neves, PSDB) no segundo turno de 2014. No caso de Lula não poder, acho pessoalmente que Haddad seria uma opção melhor do que apoiar Ciro.
Marcão Gomes (Rede), presidente da Câmara de Campos
Presidente da Câmara de Campos, o vereador Marcão Gomes (Rede) falou das chances da sua pré-candidata Marina Silva, que a pesquisa indica aumentarem sem Lula:
— Acredito que se o Lula for candidato deverá haver uma forte polarização entre esquerda e direita. Sem Lula no páreo, acredito que a Marina seja a candidata que mais se beneficie. Por outro lado, Alckmin e Doria estão travando uma guerra interna no PSDB. Enquanto isso Bolsonaro, que também tem uma rejeição elevada, tenta se consolidar como candidatura viável ao segundo turno. A principal pergunta a ser respondida é: Lula será ou não candidato? Isso muda totalmente o tabuleiro do jogo — disse.
Robson Colla, ex-presidente do PSDB em Campos
Empresário e ex-presidente municipal do PSDB, Robson Colla ainda acha que é muito cedo para se avaliar as pesquisas. Ele acredita que Lula será impedido pela Justiça de ser candidato:
— Estamos ainda a mais de 11 meses da eleição. Lula já bateu no teto, mas não será candidato. Além da decisão do TRF 4, pesarão outras condenações em primeira instância que ele deve ter até lá (é réu em mais cinco ações penais). Os nomes do PSDB pagam o preço do partido estar nessa aliança contra a Lava Jato, com o envolvimento de Aécio, que deveria ter saído da presidência do partido. Bolsonaro está com uma adesão espantosa nas redes sociais, mas, como as pesquisas registram com Lula, também enfrentará muita rejeição. É muito cedo.
Marcos Bacellar, vereador do PDT
Experiente vereador do PDT, Marcos Bacellar aposta no crescimento daré-candidatura de Ciro Gomes:
— Se Lula for impugnado, apoiará Ciro. Essa pesquisa foi feita depois da propaganda dele na TV, no tempo do PDT, na última quinta (26), onde foi muito bem. O desgaste do PT é enorme. Só Lula suplanta isso. Ciro é o melhor para o Brasil, o mais preparado, tem pulso, tem palavra. Bolsonaro, infelizmente, está bem na juventude. Mas o pessoal mais esclarecido, de meia idade, sabe bem o que foi o governo militar no Brasil. Tinha a mesma corrupção, só que não podia falar, se não a pessoa era presa, torturada, ou fechava o jornal — relatou.
Bem cotado na primeira pesquisa com seu nome (no Datafolha não foi colocado na disputa), o apresentador de TV Luciano Huck mantém conversas com o DEM. Mas segundo afirmou o jornalista Lauro Jardim, primeiro a divulgar os números do Ibope, se decidir ser candidato a presidente, será pelo PPS:
Nildo Cardoso, presidente do DEM em Campos
— Há um mês, o DEM estava conversando com Doria e com Huck. Precisamos também definir a questão do Rio, que terá o Rodrigo Maia (presidente da Câmara Federal), ou seu pai, César Maia (ex-prefeito do Rio), um a governador, outro ao Senado. Lula está bem, mas tem uma rejeição enorme (54% dos brasileiros, segundo o Datafolha, o querem preso), semelhante à que fez Garotinho perder a governador, em 2014, e depois a Prefeitura de Campos, em 2016. A decisão da candidatura a presidente será nacional, mas eu prefiro o senador Ronaldo Caiado — disse Nildo Cardoso, presidente municipal do DEM e secretário de Agricultura de Campos.
Sérgio Mendes, ex-presidente municipal do PPS
— Estou sabendo da possibilidade de Huck vir pelo PPS agora. O partido até então vinha trabalhando entre lançar a pré-candidatura a presidente do senador Cristóvam Buarque, ou apoiar o PSDB, com fez nas últimas eleições. Nosso congresso estadual será em 2 de dezembro. O nacional deve ser em janeiro de 2018. Acho que o Huck é uma pessoa de bem, bem sucedido na carreira dele, não tenho objeções. Mas minha opinião pessoal é apostar na candidatura de Cristóvam, um homem sério, comprometido com a educação — revelou o ex-prefeito Sérgio Mendes, ex-presidente do PPS em Campos.
Analisada por lideranças locais de cada partido dos principais nomes à corrida presidencial de 2018, a pesquisa Ibope (aqui), feita entre 18 e 22 de outubro, mostrou resultados parecidos com a consulta nacional anterior, realizada pelo Datafolha (aqui) entre 27 e 28 de setembro. Em ambas, se a eleição fosse hoje, iriam ao segundo turno os pré-candidatos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC, de mudança ao PEN, que vai mudar o nome para Patriota). Entre as pesquisas, a vantagem de Lula sobre Bolsonaro, que já era grande no Datafolha (36% a 16%, 20 pontos percentuais), aumentou no Ibope (35% a 13%, 22 pontos).
Jovens à direita
A ascensão de Bolsonaro nas redes sociais (aqui) impressiona qualquer observador. Mas ela é fruto também da pouca idade da base do seu eleitorado. Se o Datafolha a tinha revelado (aqui) na faixa entre 16 a 33 anos, o Ibope mostrou lâmina mais afiada no corte dessa fatia: a maioria dos eleitores do ex-capitão do Exército tem (aqui) entre 16 e 24 anos. A guinada à direita é um fenômeno mundial. Foi registrado em países referência ao Ocidente, como os EUA de Donald Trump e mesmo a Alemanha, cujo parlamento voltou (aqui) a ecoar o discurso de xenofobia nacionalista pela primeira vez em 72 anos, desde o final da II Guerra Mundial (1939/45).
A assertiva
Um dos entrevistados pela Folha, o experiente vereador Marcos Bacellar (PDT) lamentou o perfil dessa nova direita: “Bolsonaro, infelizmente, está bem na juventude”. Mas isto se deve também a razões pragmáticas, como a desidratação da pré-candidatura de João Doria (PSDB). Depois que o prefeito paulistano cometeu a estupidez de associar (aqui) sua imagem à de Michel Temer (PMDB), presidente com apenas 3% de aprovação popular, seus eleitores e grupos de apoio, como o Movimento Brasil Livre (MBL), migraram ainda mais à direita. Esses jovens, que só viveram sob governos lulopetistas, parecem firmes na sua assertiva: “nunca mais!”.
Pragmatismo
Lula, por sua vez, demosntra ter considerável parte do eleitorado (cerca de 35%) imune a qualquer denúncia ou condenação da Lava Jato. Em sua maioria, são pessoas de meia idade, de menor renda e educação escolar (aqui), que relativizam a corrupção. Mas se mostram mais pragmáticos, do que ideológicos, na opção de tentar retomar os tempos de prosperidade econômica dos dois governos do líder petista. Antes de eleger Dilma Rousseff sua sucessora, o ex-presidente entregou o Brasil em 2010 com uma taxa de crescimento (aqui) do Produto Interno Bruto (PIB) de 7,5%, maior em 24 anos. Para se ter uma ideia, em 2016, o PIB da China cresceu 6,9%.
Nó górdio
Pragmaticamente, ninguém parece discutir a pergunta e a resposta de outro vereador de Campos, o presidente da Câmara e ex-petista Marcão Gomes (Rede): “Lula será ou não candidato? Isso muda totalmente o tabuleiro do jogo”. Condenado (aqui) pelo juiz federal Sérgio Moro, em julho, a nove anos e meio de prisão pelos crimes corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o ex-presidente espera o julgamento do seu recurso no Tribunal Federal Regional da 4ª Região (TRF-4), que deu previsão de fazê-lo (aqui) até agosto. Presidente do TRF-4, o desembargador Carlos Eduardo Thompson já declarou (aqui), no entanto, que a sentença de Moro “é tecnicamente irrepreensível”.
Desafio (I)
Se puder ser candidato, Lula terá outro desafio: mais conhecido do que qualquer outro pré-candidato é ou será, será capaz ir além dos 35% de intenções de voto, na margem de erro das pesquisas? Para isso, sobretudo na migração ao segundo turno, é considerada fundamental a análise da rejeição. O quesito não foi divulgado na consulta Ibope. Mas na Datafolha, um percentual salta aos olhos (aqui): 54% dos brasileiros acham que o ex-presidente merece ser preso. Como lembrou o secretário de Agricultura Nildo Cardoso (DEM): “é rejeição semelhante à que fez Garotinho perder a governador, em 2014, e depois a Prefeitura de Campos, em 2016”.
Desafio (II)
Se Lula não puder ser candidato, numa decisão colegiada do TRF-4 que impeça sua candidatura pela Lei do Ficha Limpa, o desafio pode ser ainda mais difícil: cumprida a previsão da decisão em agosto, uma alternativa petista se tornará conhecida nacionalmente em pouco mais de um mês de campanha, até as urnas de 7 de outubro? Como lembrou o presidente do PT em Campos, Rafael Crespo, mesmo se seu líder puder concorrer, o partido pretende se desdobrar também na eleição ao Congresso Nacional. Se Lula saísse do páreo presidencial a um mês do pleito legislativo, a catástrofe para a legenda seria muito maior.
Direita, volver? Não, direita, retroceder! É assim que eu entendo essa volta ao passado de atraso, vivido em nosso país, a partir de algumas medidas adotadas por esse presidente da República — que o compositor Aldir Blanc apelidou de temeroso — e seu congresso de deputados e senadores canastrões. Está ficando bastante claro, para todos entenderem, o propósito do golpe que derrubou Dilma Rousseff. São essas ações — esse conjunto de ações — a melhor justificativa para a denúncia de golpe
Foi golpe, sim. Golpe na instituição denominada eleição livre e democrática. Eu sei, muitos não gostaram do resultado das urnas. Às favas, porque os votos dos eleitores têm que ser respeitados. Ou não vivemos mais a tão propalada democracia? Responda quem for capaz. Penso que a ideia do golpe é parar o crescimento do país que, há cerca de seis anos, era tido como potência em desenvolvimento ao lado de Rússia, Índia, China e África do Sul, países que formam o quinteto intitulado Brics.
Mas, sem perder a ternura, jamais, voltemos ao assunto retrocesso. Sim, é esse o nome que se dá às medidas em pauta desde que Michel Temer assumiu o poder sem legitimidade. Claro que não são todos, mas a maior parte dos deputados e senadores está de prontidão para votar contra os interesses do povo. A impressão que fica é de que o capital internacional é o verdadeiro comandante do país. Se não houver uma firme tomada de posição das forças progressistas, ele nos leva de volta à Casa Grande e ao regime feudal. Lembro-me de 1961, quando Jânio Quadros culpou as forças ocultas pela sua renúncia. Sem certeza de nada, imagino a pressão do grande capital nas decisões dos governantes.
A pauta de Temer e seus comparsas é travar direitos trabalhistas e avanços sociais conquistados através de décadas. A destruição de programas sociais como Ciência sem Fronteiras e Minha Casa Minha Vida; a aprovação pelo Congresso Nacional, da PEC 55, que congela gastos sociais por 20 anos; a reforma do ensino médio, feita sem que a sociedade fosse ouvida; a alteração nos procedimentos para a demarcação das terras indígenas e a entrega do comando da Funai a um ruralista — por analogia, é como entregar o comando de loja de louças a macaco —; a reforma trabalhista, que acaba com a proteção ao trabalhador; a reforma da Previdência, recebida com muita insatisfação pelos trabalhadores brasileiros; o enfraquecimento dos bancos públicos com fechamento de várias agências do Banco do Brasil e da CEF e a consequente demissão de milhares de funcionários; devem ser considerados como estratégia para obstar o progresso do Brasil.
Relacionados acima estão apenas alguns itens que demonstram o retrocesso proporcionado por medidas impopulares do atual governo. Mas o pior dessa história é perceber que o presidente usa o nosso dinheiro para se livrar dos diversos processos que contra ele move a própria Procuradoria da República. Assim como Temer, vários ministros de seu estafe também estão envolvidos em processos, seja por corrupção ou assuntos semelhantes. Se esses personagens que comandam o país serão condenados, só o tempo dirá. Mas a nação interessada, que é a maioria da população, aguarda o desfecho com ansiedade.
Após liderarem a corrida presiddencial pelo Datafolha, Lula e Bolsonaro também aparecem na frente em consulta do Ibope (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Se a eleição presidencial de 2018 fosse hoje, o segundo turno seria disputado entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), aponta pesquisa realizada pelo Ibope. Na pesquisa estimulada, em que os nomes dos candidatos são apresentados aos eleitores, o petista teria 35% das intenções de voto contra 13% do parlamentar.
Feita entre 18 e 22 de outubro, a pesquisa ouviu 2.002 pessoas em todos os Estados, com margem de erro de dois pontos percentuais. Esse foi o primeiro levantamento feito pelo Ibope tendo em vista a disputa pelo Planalto no ano que vem. O Ibope ainda não divulgou a íntegra da pesquisa, que também não aparece registrada no site do TSE.
Atrás de Lula e Bolsonaro, aparecem a ex-senadora Marina Silva (Rede), com 8%, o governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB), e o apresentador de televisão Luciano Huck (sem partido), com 5%, e o prefeito paulistano, João Doria, com 4%. O ex-ministro Ciro Gomes (PDT) tem 3% das intenções de voto.
Nesse cenário, brancos e nulos somam 18%. Não sabem em quem votar ou não responderam são 5% dos eleitores consultados.
O resultado apontado pela pesquisa é semelhante ao do último levantamento (aqui) do Datafolha, feito em setembro. Nele, Lula teria 36% contra 16% de Bolsonaro em uma simulação que traz Alckmin como candidato tucano. Já quando Doria é o postulante do PSDB, o ex-presidente fica com 35% e o parlamentar, com 17%.
A diferença fica por conta da performance de Marina, que tem 14% quando Alckmin está na disputa, e 13% quando Doria é o concorrente.
Já em uma eleição sem Lula, a liderança seria dividida por Bolsonaro e Marina, de acordo com pesquisa estimulada do Ibope. O deputado e a ex-senadora atingiriam 15% das intenções de voto.
Eles são seguidos por Huck (8%), Ciro e Alckmin (cada um com 7%), e Doria (5%). O ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que substituiria o ex-presidente na disputa como candidato do PT, ficaria com 1%.
Na semana retrasada, liguei ao jornalista Guilherme Belido para perguntar do que ele trataria na sua conceituda página domical na Folha, assinada com seu nome. Mais especificamente, indaguei se trataria da última pesquisa presidencial Datafolha (aqui).
Feita entre 27 e 28 de setembro, com 2.772 pessoas, em 194 cidades do país, a consulta do insitituto apontou a liderança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seguido do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC). Como iria escrever sobre ela numa reportagem de análise no penúltimo domingo (22), queria evitar a redudância temática na mesma edição.
Belido me disse que ainda não havia definido seu assunto. Mas me disse, gentilmente, que iria evitar aquele que já fora definido por mim. Pois hoje, já no segundo domingo após aquele, o jornalista ligou para avisar que tinha me enviado por e-mail sua própria análise sobre a minha matéria.
Com a devida licença dele, publico abaixo suas apreciações, por certo generosas. Quem quiser conferir ou reler a matéria, pode fazê-lo aqui.
Jornalista Guilherme Belido
Advertência e isenção
Por Guilherme Belido
Matéria longa, mas que li sem ver o passar dos minutos, me entusiasmou. Fechado o exemplar, pensei em arranjar um tempinho numa semana ‘apertada’ e enviar ao autor simplórias observações, mais de cumprimento, pela densa, abrangente e didática matéria intitulada ‘Brasil entre Lula e Bolsonaro?”, do jornalista Aluysio Abreu Barbosa.
De imediato, a primeira impressão que tive foi a de que se o referido texto fosse publicado na Folha de S. Paulo, ou em O Globo, ou no Estadão, não traria estranheza alguma ao mais exigente leitor de quaisquer daqueles jornais, que figuram na seleta lista de melhores órgãos de imprensa da América Latina.
No âmago da matéria, a advertência sobre o fenômeno Donald Trump, que está conseguindo desmoralizar a verdade, mas que se elegeu presidente do maior país do mundo atraindo o voto dos ressentidos.
Aqui, também, temos ressentidos.
Aluysio fez um apanhado geral acerca daqueles que ora se apresentam como pré-candidatos a presidente da República no pleito de 2018 — pesquisa árdua e abrangente; difícil e trabalhosa. Sobre cada qual teceu ponderações isentas, sem deixar de fornecer ao leitor, contudo, um perfil resumido de suas respectivas características. Indo ainda mais longe, conectou-os aos números de pesquisa do DataFolha.
Sobre as conversas do apresentador Luciano Huck com o DEM, crítica com pitadas de humor: “…Custa crer que a política nacional tenha regredido ao ponto de ter uma metáfora do Brasil como ‘Lata Velha’ na próxima campanha presidencial”.
Entre as análises, a pertinente observação, com traços de advertência, do avanço de Bolsonaro nas redes sociais e do erro de tratá-lo como bufão. E aqui, neste particular, reside a maior contribuição do excelente texto: do momento político em que vive o Brasil e de que o caminho para as eleições não podem ser de atalhos ou escuros, mas iluminados.
Estamos num País livre [digo eu] onde qualquer um vota em quem quiser. Se o eleitor de Bolsonaro, vota Bolsonaro, por entender que vale a pena conviver com retrocessos sociais, recuo dos direitos humanos e recrudescimento em troca, talvez, do combate mais ostensivo à corrupção e contando, quem sabe, em obter algum resgate de moralidade… tudo bem. Trata-se de opção consciente na esteira do voto soberano e livre de cada um.
Mas que entenda e não se iluda — como aponta Aluysio em seu luminoso texto — que, ao contrário do que diz Bolsonaro, no Brasil a ditadura militar existiu sim, quer ele admita ou não.
Com 1,5 milhão de pessoas, passeata e comício das “Diretas Já”, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, em 16 de abril de 1984, foi a maior manifestação de rua do Brasil nos 31 anos seguintes, até 2015
Por Aluysio Abreu Barbosa
Na última quarta-feira (25), o Congresso impediu por 251 votos a 233 que o presidente Michel Temer (PMDB) e dois de seus ministros fossem investigados por organização criminosa e obstrução da Justiça. Foi menos de três meses depois dos deputados federais terem barrado outra denúncia da Procuradoria Geral da República (PGR) contra o presidente, por corrupção passiva. E mesmo com 81% da população brasileira favoráveis às investigações de Temer, segundo pesquisa Ibope de julho, as ruas do país que definiram em 2015 o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), simplesmente silenciaram.
Aristides Soffiati, historiador
— Dilma caiu, a corrupção continuou com Temer, até mostrando aspectos mais agudos. No entanto, o movimento de rua de 2015, o maior do Brasil, se calou. Creio que o cansaço venceu — observou o historiador Aristides Soffiati, professor da UFF-Campos.
Antes desse aparente “cansaço”, qual é a história dessas ruas, contraditórias na expressão popular da relativamente recente democracia brasileira? Com o país ainda na Ditadura Militar (1964/85), uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) foi lançada em 1983 pelo deputado federal do PMDB do Mato Grosso Dante Oliveira (1952/2006). Tinha por objetivo restaurar a eleição direta à presidência da República, marcada para 1985. Até então, o último presidente brasileiro eleito por voto popular fora Jânio Quadros (1917/1992), em 1960.
Antes de passar à história como “Diretas Já”, seu começo foi tímido, com população, políticos de oposição e imprensa ainda testando os limites da censura de uma Ditadura já nos seus estertores. Em 31 de março de 1983, o primeiro ato público do movimento foi no pequeno município pernambucano de Abreu Lima, na zona metropolitana do Recife. Se teve apenas 100 participantes, seu grande feito foi ter sido noticiado pela imprensa de Pernambuco.
Comício histórico das “Diretas Já” na Candelária, em 10 de abril de 1984, colocou 1 milhão de pessoas nas ruas
Enquanto parecia abrandar a censura, o governo militar conduzia o país a fechar 1983 com uma inflação de 283%. Com o medo gradualmente perdido e o bolso doído, a adesão popular maciça se daria no ano seguinte, por cidades de todas as regiões do país. No Comício da Candelária, em 10 de abril de 1984, 1 milhão de pessoas tomaram o Centro do Rio pelo direito de votar a presidente. Na última manifestação das “Diretas Já”, em 16 de abril, a passeata entre a Praça da Sé e o Vale do Anhangabaú registrou 1,5 milhão de participantes em São Paulo. Seria a maior manifestação popular do Brasil pelos 31 anos seguintes, até 2015.
Último general presidente, João Batista Figueiredo (1918/99) chamou as manifestações de “subversivas”. Do lado oposto, estavam lideranças civis de vários matizes ideológicos, que marcaram a história política nacional: Tancredo Neves (1910/85), Ulysses Guimarães (1916/92), Leonel Brizola (1922/2004), Luís Carlos Prestes (1898/1990), Miguel Arraes (1916/2005), Franco Montoro (1916/99), Mário Covas (1930/2001), Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.
Na realidade, quem subverteu a vontade popular foram os militares, que manobraram politicamente para esvaziar o Congresso Nacional. Em 25 de abril de 1984, a emenda das eleições diretas teve 298 votos a favor, 65 contra e três abstenções. Os 112 deputados ausentes impediram o número mínimo de votos à aprovação.
Sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho
— As “Diretas” foram um movimento de massa cujo interesse era reinstituir a normalidade democrática. Considero equivocado considerá-lo de esquerda, embora atores tradicionais deste espectro político, sindicatos, partidos e movimentos sociais, tenham dado suporte ao que vimos no Brasil na década de 1980. Os atores tradicionais auxiliaram na fisionomia do movimento de massas, inclusive pelo acúmulo de expertise em se manterem organizados, a despeito de terem atuado durante boa parte do século XX na ilegalidade ou semilegalidade. Forneceram um discurso expresso em palavras de ordem, onde a crítica da situação econômica era absolutamente oportuna — analisa o sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho, da UFF-Campos.
Com a abstenção do PT, mas os votos de quatro de seus deputados que o partido expulsaria, Tancredo foi eleito de maneira indireta à presidência, ainda sob a égide da Constituição de 1967. Era 15 de janeiro de 1985, mas ele morreria antes de tomar posse. A Constituição Cidadã foi promulgada em 5 de outubro de 1988, por um Ulysses que bradava fazê-lo com “ódio e nojo da Ditadura”. Todavia, a reboque de ambos, o governo José Sarney entregaria o Brasil com a hiperinflação recorde de 84,23% ao mês (março de 1990) e 4.853% ao ano (12 meses anteriores), após a esperada eleição direta a presidente de 1989. Ainda assim, as ruas brasileiras não voltariam a assumir papel protagonista na chamada “década perdida”.
Ao promulgar a nova Consituição, em 5 de outubro de 1988, Ulysses Guimarães dizia fazê-lo com “ódio e nojo da Ditadura”
Após bater Lula no segundo turno (novidade da nova Constituição), Fernando Collor de Mello assumiu a presidência dizendo que a inflação era um tigre contra o qual teria apenas uma bala em sua arma. E, mesmo com o confisco da poupança da população, disparou não só um, mas três planos econômicos longe do alvo.
Ao insucesso na economia, se somaram as denúncias feitas por Pedro Collor de Mello, de corrupção e tráfico de influência contra seu irmão presidente, evidenciada com documentos à revista Veja, em maio de 1992. Aproveitando o que hoje chama de “denuncismo” da grande mídia brasileira, assim como o espaço vazio no campo majoritário da esquerda pelo apoio dado por Brizola a Collor, o PT cristalizaria a partir dali seu domínio sobre as manifestações de rua do país, que manteria nos 21 anos seguintes, até 2013
Sociólogo José Luis Vianna da Cruz
— No Brasil, as ruas foram fundamentais para a conquista da redemocratização do país na década de 1980. Foram fundamentais para a conquista das grandes reformas inscritas na Constituição de 1988, como a reforma urbana, a reforma agrária, os direitos sociais, a defesa ambiental, dentre outros. O PT cresceu nos sindicatos e nas ruas — explica o sociólogo José Luis Vianna da Cruz, professor da Cândido Mendes e da UFF-Campos.
Sobretudo através da União Nacional dos Estudantes (UNE), presidida pelo então jovem Lindberg Farias (então filiado ao PC do B e hoje senador petista), a geração dos “caras-pintadas” foi fundamental ao impeachment de Collor. Previamente mobilizados na conquista do passe livre no transporte público e da meia-entrada nos cinemas, na reforma das leis orgânicas dos municípios a partir da Constituição de 1988, esses estudantes foram confessamente inspirados pela popular minissérie “Anos Rebeldes”, sobre a resistência dos jovens da década de 1960 à Ditadura Militar, exibida pela Rede Globo naquele ano de 1992.
Em 1º de junho foi instalada uma CPI para investigar as denúncias contra Collor. Com seu andamento e as primeiras manifestações, o presidente fez um pronunciamento em rede nacional de TV em 13 de agosto. Nele pediu que seus defensores fossem às ruas no domingo seguinte (16), usando as cores verde e amarelo. No dia marcado, os jovens que saíram às ruas das capitais brasileiras vestiram preto e pintaram o rosto da mesma cor, sinalizando luto pela corrupção do governo. No Rio, 30 mil gritaram: “Ai, ai, ai, ai, se empurrar o Collor cai”.
“Cars pintadas” saem às ruas do Rio em 16 de agosto e 1992
O movimento popular foi crescendo passo a passo com a CPI, num Congresso que, como seria depois com Dilma, se ressentia da arrogância do presidente. Em São Paulo, 750 mil jovens com o rosto pintado de verde e amarelo protestaram em 18 de setembro. Onze dias depois, com as ruas brasileiras tomadas por milhões, a Câmara Federal aprovou o primeiro impeachment de um presidente na América Latina, com 448 votos a favor, 38 contra, uma abstenção e 23 ausências.
Cerca de 750 mil jovens saem às ruas de São Paulo, em 18 de setembro de 1992
Antroplógo José Colaço
— O “Fora Collor” mantém alguns dos aspectos das “Diretas Já”: transcende a crítica de uma contra-elite minoritária e encontra apoio e reverberação da mídia oligopolista. É dotado de uma fisionomia de esquerda pelo protagonismo de certos atores tradicionais, embora que o consenso naquele momento quanto ao impeachment tenha abarcado diversos grupos sociais para além do espectro político mencionado — explica George Coutinho.
— Experimentamos um “retorno” à democracia, em meados dos anos de 1980, no qual a ocupação das ruas foi marcada, sobretudo nas grandes cidades, por comícios e manifestações balizadas por partidos políticos, organizações e movimentos sociais de base. Este período, somado com as manifestações do início dos anos 90 tinham em comum estas marcas — compara o antropólogo José Colaço, também professor da UFF-Campos.
O avanço da Direita não é um fenômeno que se restringe às fronteiras brasileiras. Todo o mundo parece estar vivenciando o crescimento do apelo do discurso propagado por grupos de direita e extrema-direita, inclusive a Alemanha, que há apenas algumas décadas atrás abrigava o nazismo hitlerista, responsável por um dos episódios mais tenebrosos da história da humanidade.
No Brasil, tenho acompanhado com temor e preocupação as investidas de grupos organizados de direita contra exposições de arte e aulas em universidades. Ontem mesmo um grupo de direitistas interrompeu uma aula especial sobre os 100 anos da Revolução Russa que acontecia na Uerj. Durante a fala da professora de história Teresa Toríbio, um dos homens acusou: “A senhora é uma comunista!”. Os integrantes do grupo ostentavam símbolos militares e portavam câmeras de celular apontadas para os alunos e para os professores que ministravam a aula. Um vídeo que está circulando nas redes registra o momento em que um dos homens defende energicamente: “O que precisamos é de uma intervenção militar!”. Estaríamos nós retrocedendo aos tempos em que os professores temiam ser interditados por agentes da ditadura em plena sala de aula?
Desde a última quinta, o Sesc Pompeia, um dos principais centros culturais de São Paulo, vem sofrendo agressivos ataques nas redes por receber para um seminário a filósofa estadunidense Judith Butler. A página do Sesc no Facebook vem ganhando, desde então, inúmeras avaliações negativas — mesma tática usada por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL) no caso da exposição “QueerMuseu”, então sediada pelo Santander Cultural, em Porto Alegre. Ao visitar a página do Sesc, para escrever este artigo, encontrei este comentário, seguido de uma avaliação negativa: “Ridículo Sesc, a hora de vocês que são contra a constituição mais bela que Deus criou está chegando!”. Como esse, tantos outros comentários que seguem esta linha de raciocínio estão dispostos na página da instituição. “Judith Butler não é bem-vinda ao Brasil”, afirma o texto da petição dirigida ao Sesc Pompeia, que já reúne mais de 100 mil assinaturas.
Ainda nessa semana, às portas do Enem, a Justiça Federal acolheu o pedido do movimento Escola Sem Partido e suspendeu a regra do exame que prevê a anulação de redações que violem os direitos humanos. Na última edição, quando o tema da redação havia sido “intolerância religiosa”, as redações que continham incitações à violência e à perseguição de seguidores de determinadas religiões, bem como a destruição de símbolos religiosos, foram anuladas. Este caso é um exemplo de como grupos da “nova direita” defendem discursos de ódio e preconceito sob o guarda chuva da defesa da liberdade de expressão.
No mercado editorial, cada vez mais vende-se livros de expoentes do pensamento da “nova direita” no Brasil: Olavo de Carvalho, Luiz Felipe Pondé, Guilherme Fiuza, Marco Antônio Villa, dentre outros. Estes intelectuais possuem em comum uma retórica inflamada e a obstinação de tentar desconstruir alguns consensos que teriam sido inventados pelos “esquerdopatas” (termo cunhado por Reinaldo Azevedo e que equipara a adesão a valores de esquerda a uma doença mental).
Para muitos dos expoentes desse pensamento, a esquerda ocuparia a quase totalidade dos postos de poder não apenas no Brasil, mas no mundo, onde é evidente, segundo Olavo de Carvalho, a “hegemonia esquerdista”. Para muitos de seus seguidores, a possibilidade de uma “revolução comunista” no Brasil é até mesmo iminente. Seguindo essa linha de raciocínio, o PSDB, partido conhecido por abarcar políticos defensores da ideologia neoliberal, é franco representante da esquerda, tal como grande parte do quadro partidário brasileiro; como afirma Rodrigo Constantino, Obama é um comunista e Luciano Huck pertence ao grupo da “esquerda caviar”.
Institutos e “think tanks” de direita, como o Instituto Liberal, o Instituto Millenium e o Instituto Ludwig Von Misses reúnem empresários, economistas, juristas, e outros intelectuais e possuem como objetivo alavancar pautas liberais e conservadoras no debate público, bem como aprovar Projetos de Lei que coadunem com seus interesses. O Instituto Millenium, por exemplo, possui parcerias com relevantes grupos empresariais, tais como a Editora Abril, a Gerdau, o Bank of America Merry Lynch, o Grupo Suzano, o Grupo Estadão, dentre outros. A criação do “Partido Novo”, bem como a criação dos movimentos “Revoltados Online”, “Brasil Livre” e “Vem Pra Rua”, que possuem grande capilaridade nas redes sociais e surfam na descrença nas instituições políticas — que é uma grande marca do cenário brasileiro e mundial — também são expressões do incremento das forças da chamada “nova direita”.
No Estados Unidos, temos um homem como Donald Trump presidindo a potência mundial. No Brasil, Bolsonaro aparece muito bem cotado nas pesquisas de intenção de voto à presidência do país. Nesse cenário, o medo do que está por vir não é só justificável; é necessário.
Pessoalmente, sou orientada por valores de esquerda: gostaria de ver os brasileiros tendo acesso à educação e saúde públicas de qualidade. Gostaria de viver num mundo em que as diferenças fossem respeitadas, em que ninguém morresse por conta da religião que professa, por conta da orientação sexual ou pelo gênero que assume. Gostaria de viver num país em que a desigualdade de renda não fosse tão aviltante e que não fôssemos tão assolados pela ausência de segurança pública. Contudo, não deixo de reconhecer que existem também em movimentos que se intitulam de esquerda, manifestações equivocadas e que pecam pelo exagero e pela falta de bom senso.
Precisamos conversar mais e adotar uma atitude questionadora diante da vida. Que ouçamos mais os argumentos dos nossos interlocutores e que realmente estejamos abertos a mudar de opinião caso sejamos confrontados com alguma assertiva que pareça ser mais razoável. Precisamos dialogar mais, escutar mais, ler com profundidade sobre temas relevantes para o debate público e não apenas nos informarmos pelos textos superficiais que são despejados a todo o momento, de todos os cantos e lados, nas redes sociais que nos atolam de informes e notícias. Urge que nos manifestemos agora contra todas as expressões de ódio e intolerância, antes que seja tarde demais.