Paula Vigneron — Quase vida

 

Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pista de corrida do Estádio Olímpico do Engenhão, Rio, noite de 16/08/16 (Foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

A primeira pontada foi naquela manhã. Era o sinal de que seu menino, que já demonstrava ser bagunceiro, estava prestes a chegar. Lembrava-se da recomendação médica: “você pode me ligar quando começarem as contrações. A qualquer dia e hora”. Mas ela queria sentir mais um pouco a dor de ser quase mãe. Quase. Ansiava pelo momento de se dizer mãe. Palavra curta e forte. Desde que soubera que estava grávida, pensava muito no verdadeiro sentido da maternidade. Relativamente jovem, sabia que ainda não conhecia o significado da fase em que iria entrar.

Segunda pontada minutos depois. Não sabia exatamente o tempo entre uma e outra. “Ela vai ficando cada vez mais forte. Não hesite em me procurar”, recomendava o médico. “Eu sei, doutor. Pode ficar tranquilo. Eu sei como agir”, dizia, consciente de que não havia verdade em sua frase. Ela não sabia como agir. Para lidar com a gravidez, antes de contar à família, passou uns dias isolada. Precisava ficar em silêncio para aceitar que deixaria de ser filha para se tornar mãe. Responsável por um frágil ser, cuja única forma de contato com ela seria o choro. Ou o riso. Gritos. Sem verbalização de sentimentos, dores e emoções. Sem vozes. Só reações facilmente confundíveis.

“E agora?”, perguntou a si mesma nos dias de afastamento da realidade. Não havia respostas. Era hora de encarar-se como adulta.

Terceira pontada. Mas acostumou-se à ideia de ter um pequeno ser ao seu redor, com lágrimas, risos, cólicas e amor puro. Na verdade, estava ansiosa para conhecer o rosto do menino que habitava sua barriga há nove meses. Queria ver gestos, traços, expressões. Queria, acima de tudo, ver seu reflexo nele. Quarta pontada. O intervalo entre as contrações diminuía. Era hora de telefonar. Quinta pontada. O médico a recomendou que corresse ao hospital. Honesta, a mulher contou que demorara a entrar em contato por desejar sentir um pouco mais as dores de ser quase mãe. Quase. Faltava pouco.

Sexta pontada. Telefonou para o marido. Rapidamente, o homem chegou ao apartamento, organizou as malas da esposa e do filho e desceu. A tensão era grande. Ele sentia o corpo tremer. “Pai de primeira viagem, hein?”, ouvia dos amigos. E morria de medo da responsabilidade que se materializaria em breve. Ainda bem que tinha a companheira. Sétima pontada. Um líquido começou a escorrer pelas pernas da mulher. Era a tal bolsa estourada. Sim. O processo estava próximo ao fim. Sentia-se feliz e plena. Agora, seria mãe. O confronto com a maturidade. Ida para um tempo sempre temido. Ainda assim, prevalecia a alegria.

A intensidade do incômodo crescia. Deitada na maca, era encaminhada com rapidez para a sala de parto. Optara pela cesariana. Não queria sofrer mais do que o necessário. A família concordou. A expressão do médico era de preocupação. Ela não entendia. “Deve ser normal”, pensou. “Não é possível estar angustiado diante de um momento de tanta felicidade”. A conclusão a que chegou parecia ser diferente da dos demais. Havia urgência em todos os olhos que pousavam sobre ela.

Anestesia. Seu corpo adormecia vagarosamente. O tato perdia-se. Os pés já não balançavam. Ficaria acordada. Os primeiros cortes. Sentia um leve ardume na barriga. A dor de ser quase-quase mãe. Cada vez mais perto de seu menino. Seu garoto. Seu guri.

“Corra. Não temos muito tempo”, disse a enfermeira. A quem foi dirigido o alerta, ela não sabia. Todas as palavras tocavam seus ouvidos com certo atraso. Não conseguia compreender o significado do que era dito. A movimentação aumentava em seu entorno. Mãos, braços, dedos e instrumentos cirúrgicos confundiam-se diante dela. O decorrer dos minutos trazia afastamento da realidade. Longe, escutou os primeiros ruídos do que parecia um choro. Uma agulha foi enfiada em sua veia. “Ai”. Exclamação quase inaudível.

“Quase. Quase a perdemos”, comentou o médico, trêmulo. Havia um quê de alegria por tê-la trazido de volta.

A seu lado, havia um pequeno embrulho. Depois da injeção, ela o enxergava bem. Era tão pequeno. Tão indefeso. Tão amado.

“Meu menino. Meu querido. Meu curumim”, disse. Lágrimas embaçavam um pouco a visão da mulher.

Novamente, o corpo adormecido. Sentia incômodo, mas não sabia de onde vinha a sensação. Tentava chamar os médicos com as mãos, mas elas não respeitavam a sua vontade. O mal estar aumentava. Não conseguia pedir ajuda. Seus olhos estavam presos à criança recém-nascida. Queria dizer que logo estariam em casa, mas as palavras escorriam pela boca junto à saliva. O descontrole tomava conta da mulher. Tudo estava denso. Pesado. Respiração lenta.

O menino estava distante. Fugia de seus toques. Logo, seria homem. Antes, quase-quase homem. E bonito. Grande e forte, era assim que tentava imaginá-lo. E seria pai. Primeiro, um quase pai. Depois, seria avô. Seria pleno. Seria o reflexo dela em todos os rostos. Sua fiel representação e protetor de sua memória. Seria o que quisesse. Seria o que ela quase foi. Curumim.

“Fique em paz, meu filho. Cuide-se. Por ti. Cuide-se por mim.”

 

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O homem e o mar — Atafona de dentro do Atlântico

Nadinho 1
Sobre as águas azuis do oceano, o “Paleta de Ouro” recebe visita (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Atafona vista do Atlântico (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona vista do mar barrento já próximo da foz (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

O pescador se chamava Nadinho. Alto, ombros largos, alourado, pele clara curtida de sol, era um muxuango descrito por Alberto Lamego em “O homem e a restinga”. Levava os genes de corsários holandeses e ingleses que, em passado remoto, teriam encalhado próximos à foz do rio Paraíba do Sul.

No vingar desse sangue europeu setentrional pelas gerações, mesmo misturado ao de portugueses, negros e índios, a Ilha da Convivência passaria a ser também conhecida como “Ilha dos Olhos Azuis”. Foi nela que Nadinho nasceu e aos 10 anos aprendeu a pescar com o pai, Arnaldo — que lhe deu nome, repetido depois no neto, e ofício.

Às 4 da manhã, na escuridão do inverno antes do sábado nascer, o pescador levava passageiro ao navegar mais uma vez pela foz do Paraíba rumo ao Atlântico, na lida à qual se acostumou com menos companhia:

— Só eu e Deus! E quem está com Deus, não está sozinho!

Nadinho conduzia com segurança a roda do leme do “Paleta de Ouro”, dentro da cabine do barco de madeira de 11,2 metros, homônimo a um barco antigo do pai — como o filho era deste. O passageiro, atrás da cabine, olhava sobre esta e a proa para o oceano enegrecido de noite. Sentia na face o vento frio e úmido, enquanto aferia a linha do horizonte pelas luzes dos barcos saídos antes.

Com mar muito mexido a partir da pororoca — gerúndio em tupi do verbo estrondar — na boca da foz, as ondas grandes eram literalmente surfadas, uma a uma, com habilidade, pelo condutor do barco. Com um passado de intimidade com Iemanjá, o passageiro foi salgado no presente pela onda que lhe molhou a face e a máquina fotográfica pendurada ao pescoço.

Sentou-se na entrada da cabine e abriu o casaco impermeável para expor a malha de algodão da blusa. Enquanto limpava com ela a câmera, seus olhos agora voltados à popa fotografavam as aparições do dorso negro das grandes ondas deixadas para trás. Eram desveladas por instantes no contraste com as luzes do continente, que se distanciavam lentamente no mesmo sentido.

Após uma hora e 10 minutos surfando ondas, chegaram num ponto para pesca de peroá (Balistes capriscus) conhecido de Nadinho, como se fosse qualquer outro lugar de terra em Atafona. Jogou a âncora de 20 kg, cuja corda revelou a profundidade de 10 metros.

Antes do dia nascer, lançadas da popa, já estavam nas águas ainda escuras três linhas de nylon 0,100 mm, cada uma com doze anzóis, seis de cada lado. Espetados neles eram intercalados metades de siris, como engodo para atrair os peroás, e camarões, aos quais os peixes morderiam para iniciar uma luta de vida e morte contra a fisga trespassada à própria boca.

Nos dois cantos extremos da popa, iam linhas cujas boias de garrafa pet, pela forma e função, lembravam os barris arpoados ao aterrorizante grande peixe do filme “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg. Do lado direito do “Paleta de Ouro”, na altura da porta traseira da sua cabine, ia mais uma linha de fundo.

Quando o sol nasceu, parido pelo mesmo horizonte em que pescador e seu passageiro balançavam como crianças impotentes no berço, se deram a ver, algumas centenas de metros adiante, dois grandes cargueiros dos mares do mundo. Ancorados, esperavam a vez para se abastecerem de minério de ferro no Porto do Açu.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Algumas centenas de metros adiante, após as aves marinhas, os cargueiros do mundo (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Com o dia, vieram os primeiros peroás negros, embora apresentem cor cinza. O pescador explica que, embora ele próprio goste mais do sabor da carne destes, não são tão valorizados quanto os azuis e geralmente mais graúdos peroás do leste.

A maioria dos peixes era puxada do mar pela linha com boia da esquerda:

— Nunca que vou entender isso. Como pode com a linha do lado da outra, uma pegar tanto peixe e a outra não? — questionou Nadinho.

— Vai ver os peroás gostam mais de guaraná Tobi do que de Coca-Cola! — brincou o passageiro, em referência ao rótulo que ainda sobrevivia na garrafa pet verde da sortuda linha canhota, em contraste com a similar de plástico transparente e tampa vermelha, sinalizando como boia o azar da direita.

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Linha sortuda da esquerda com cinco peroás fisgados de vez (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

Enquanto os peroás eram fisgados, às vezes cinco na mesma linha, o passageiro não pôde deixar de notar o constrangedor contraste entre sua própria movimentação dentro do barco e a do pescador. Enquanto o primeiro só conseguia caminhar, ao balanço das ondas, se apoiando com as mãos, Nadinho o fazia com tanta naturalidade dos passos, equilíbrio do tronco e liberdade dos punhos, que lembrava um pugilista de maturidade técnica dentro do ringue.

Embora os peróas compusessem a grande maioria do pescado que foi enchendo as caixas de frigorífico, dois baiacus arara (Lagocephalus laevigatus) também foram capturados. Um deles após cortar a tal linha esquerda e arrancar com suas poderosas mandíbulas o lombo de um xarelete (Caranx hippos) fisgado ao anzol.

Após limpar o baiacu arara, separando sua parte comestível da cabeça e vísceras, Nadinho exibe na mão esquerda a glândula venenosa de cor verde que, se cortada, envenena a carne do peixe (Foto : Aluysio Abreu Barbosa)

Por experiência própria, o passageiro já sabia que aquela espécie de baiacu era não só comestível, desde que corretamente limpo, como delicioso. Conhecimento que Nadinho acresceu da malandragem de pescador:

— Tem dono de peixaria que compra baiacu e vende em posta, dizendo ser garoupa (Epinephelus marginatus), porque têm a mesma carne branca. A nós, não conseguem enganar. Mas para quem não conhece direito…

Entre um peroá e outro, sobrou espaço para o pescador falar sobre sua experiência com outro tipo de vida marinha. Do peixe mais temido do mar, disse que nunca cruzou com um tubarão branco (Carcharodon carcharias), personagem do filme de Spielberg.

Mas, com malhão (rede de malha larga, para prender peixes maiores), já pescou outras espécies de tubarão bastante agressivas, como o cabeça chata (Carcharhinus leucas), responsável pelo maior número de ataques a seres humanos no litoral brasileiro, e o tigre ou tintureira (Galeocerdo cuvier).

Da última espécie, lembra já ter pescado um tubarão tigre que deu 198 kg depois de limpo:

— Mas foi até difícil de vender, porque o tintureira não tem a carne boa — ressalvou, ao esclarecer que a maior parte do cação vendido em Atafona vem daquele que ele e os demais pescadores chamam de “torce torce” (pelo hábito de rodar sobre seu eixo quando capturado, como todo tubarão), também conhecido como caçonete (Mustelus norrisi).

Nadinho cabine
Com a mão na roda do leme e o corpo para fora da cabine, Nadinho conduz o “Paleta de Ouro” na reentrada pela foz do Paraíba (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Uma história violenta com tubarões foi vivida não por Nadinho, mas por um primo que é seu vizinho no Pontal de Atafona, para onde se mudou ao sair da Convivência, há quase 30 anos:

— Uns 10 anos depois, meu primo, o Genilto estava recolhendo uma rede mijuada (ancorada). Um cação marimbondo (Lamna nasus, conhecido como marracho), que eles já tinham recolhido, estava no chão do barco. Quando ele cruzou na frente, o cação deu o bote e arrancou a barriga da perna dele. Quando abriram o bicho, acharam o pedaço da perna dentro do seu bucho. E Genilto ficou com aquela roda pra dentro da perna.

Já com o maior de todos os peixes, o encontro foi pacífico. Apesar de atingir até 20 metros e 13 toneladas, o dócil tubarão baleia (Rhincodon typus) se alimenta só de plâncton (microorganismos) e outros invertebrados, que filtra na água com sua boca imensa, enquanto nada lentamente:

Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Nadinho limpa alguns dos peroás maiores ainda dentro do barco (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

— Estava no “Paleta de Ouro”, mais dois companheiros, pescando de caída (rede para peixes que fica flutuando ao sabor da corrente marinha), no mar de Quissamã. Ele era um pouco maior que o barco (11,2 m). Devia ter uns 12 metros. Nadava devagar, com as costas todas pintadas de branco (característica do dorso do animal). Um amigo encostou nele com o bicheiro (haste com um anzol grande na ponta, usado para ajudar a trazer os peixes ao barcos) e ele afundou.

Foi também no seu próprio barco que Nadinho encontrou os maiores seres do mar, as baleias de verdade, mamíferos, não peixes, que costumam aparecer no litoral de Atafona nos meses invernais de junho e julho. Um desses encontros, poderia ser narrado nas páginas de “Moby Dick” (1851), clássico romance de Herman Melville (1819/91):

— Estava com mais dois companheiros, pescando de malhão. De repente uma baleia se embolou na rede e começou a puxá-la, arrastando o “Paleta de Ouro” com se fosse um barco de papel. Durou cinco minutos, mas foi muita tensão. Acho que elas nem sabem a força que têm. Aí, quando íamos cortar a corda da rede, para nos soltar, a baleia pocou ela.

Entre histórias do mar, seus homens e outros seres, três caixas de frigorífico foram cheias, cada uma com 25 kg de pescado. Vendida por R$ 3 o quilo para os frigoríficos, chegam ao consumidor final, nas peixarias de Atafona, a R$ 9; ou R$ 10, no Mercado de Campos. R$ 225 pelas três caixas de peixe, menos R$ 100 do diesel e das iscas, dão um lucro líquido como o mar — mas bem menor — de R$ 125.

 

Cara-ventos de Gargaú nascem na parte direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)
Cara-ventos de Gargaú florescem entre céu e mar, à direita da proa (Foto; Aluysio Abreu Barbosa)

 

Foi o que deu, até por volta das 14h, quando os peroás pararam de bater, mesmo na linha sortuda da esquerda, da boia verde de guaraná Tobi. Após Nadinho recolher linhas e âncora, com mar bem mais calmo, o retorno durou 40 minutos. Cada segundo deles na proa, a ver nascerem e crescerem lentamente no horizonte os cata-ventos da usina eólica de Gargaú, à direita, e Atafona, à esquerda, com suas ruínas e casuarinas.

Num cenário tão íntimo ao pescador, o passageiro viu pela primeira vez a foz do Paraíba e seu litoral de dentro do Atlântico. Era fisgada para desaguar a vida inteira.

 

Nadinho Atafona 1
No caminho de volta, Atafona nasce à esquerda do horizonte (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Página 5 da edição de hoje (14) da Folha
Página 5 da edição de hoje (14) da Folha

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Paula Vigneron — O escritor e a ficção

 

Ruínas de Atafona, 06/01/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 06/01/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O escritor brinca de Deus a cada palavra escrita, a cada frase formada, a cada texto acabado. Em prosas inacabadas. Em páginas perdidas. E isso tem a ver com a sua impotência diante de seu próprio destino. A incapacidade de, em certos momentos, traçar os caminhos. Suas vontades, por vezes frustradas, são refletidas nas ações e reações dos personagens. Os sonhos esquecidos, deixados para um depois que nunca chega, são realizados na ficção. É uma maneira de alcançar a sensação de plenitude. Irreal, sim, mas trazida para a vida como se dela fizesse parte.

O autor se transfigura e figura como Destino. Com “dê” maiúsculo. Personagem que ninguém vê ou ouve, mas que também está ali, presente nas narrativas. E, nesse momento, o escritor se torna parte de sua invenção. Escolhe os caminhos a partir do que gostaria de viver. Deixa as palavras fluírem por seus dedos, enquanto a emoção e a razão, cansadas da monotonia, se unem e constroem uma história que, por vezes, o autor gostaria que fosse a sua.

Quantos personagens largaram suas vidas em busca de algo que julgaram que lhes fosse dar prazer? Quantos finais de possíveis tragédias deram lugar à felicidade, nunca imaginada por aqueles que acompanharam a obra? Quanta coragem carrega um ser humano na ficção? Faz-se isso, afinal, para anestesiar o cansaço; os momentos de luta por causas vãs; o arrependimento de deixar para depois e perder; o não poder escolher livremente o caminho e se livrar de amarras invisíveis. Para trazer paz às mentes fragilizadas pelo cotidiano.

O escritor não escreve para o público. Ele escreve para si. Para acalmar seus conflitos. Cria universos, pessoas, histórias, sentimentos e vidas para dar vazão aos mais complexos sentimentos. Desliza os dedos sobre os teclados para não se descontrolar e perder a razão em nome da emoção. Inventa para alimentar a sua alma, carente de novidades e prazeres. Abre mão da racionalidade e se entrega à sensibilidade por meio de um mergulho na ficção para suprir o vazio causado pela não-ficção. Dá aos personagens rumos que não podem ser os de sua realidade.

O autor, ao final de mais uma história, é forçado a retomar as demais atividades a que se dedica, deixando de lado o exercício de criação. Contudo, outras narrativas invadem a sua cabeça para lembrar-lhe que a vida no mundo real continua, mas a ficção estará ao seu lado, pronta para entrar em cena quando o cotidiano se tornar denso e mecânico. Quando a sensibilidade estiver prestes a escapar. A ficção diz, com cumplicidade característica, que estará pronta a abraçá-lo e oferecer-lhe outras vidas para refazer seus próprios caminhos.

 

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Paula Vigneron — Azul turquesa

Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Pôr do sol de Campos, em 12/07/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

 

Dez horas da manhã. O relógio apitou duas vezes antes de Estela abrir os olhos. Na juventude, era chamada de Estelinha pelos amigos e parentes. Hoje, poucos usavam o apelido que tanto lhe era caro há anos. A prova de que o tempo passou. Os cabelos esbranquiçados e as rugas de expressão contrastavam com a jovialidade presente no olhar. “Tens a curiosidade em ti, menina”, dizia o avô quando ela era criança. Costumava observar todos os passos, casos e vidas que se desenrolavam ao seu redor.

Novamente, o despertador se dedicava a acordar Estela. Desativou-o. Sempre fazia o mesmo gesto quando o terceiro apito soava, quinze minutos depois da hora programada. Levantou-se. Estava sol. Caminhou até a janela, que oferecia a chance de olhar o jardim antes de sair de casa. Estava bonito. Verde, limpo e bem cuidado. Josias havia preparado-o com carinho no dia anterior. As poucas nuvens combinavam com a nobreza da área externa.

Naquela área, Estela viveu parte da infância e adolescência. Voltou à casa de seus pais somente depois da morte do casal. Era a herança que os dois deixaram para a filha única. Todas as paredes guardavam histórias da menina, que lhes confidenciara amores e maturidade. Elas, silenciosas, escutavam os detalhes narrados sob lágrimas. Outros, entre risos. Sentia-se sozinha. Os pais trabalhavam fora e pouco tempo tinham para dedicar a ela. A mãe, quando podia, ouvia a menina, mas os compromissos levaram-na a se afastar mais de Estela durante a adolescência. E ela tinha necessidade de compartilhar suas vivências.

Seus retratos se mesclavam à tinta encardida da construção. Os recantos da casa escondiam seus segredos, agora desimportantes. Ninguém quer saber. Nem ela. Todas as primeiras vezes registradas: o beijo no quarto, durante os estudos. A transa na casa ao lado, com o vizinho por quem se apaixonara perdidamente. O amor adolescente que parecia ter se desfeito tão rápido quanto surgiu. “Um chato”, contou a uma amiga. Ela concordou. Em pouco tempo, os dois namoravam. O relacionamento magoou Estela, que percebeu a não simplicidade do amor.

“Por que as pessoas nos enganam, mãe?”, perguntou, em um dia de sol como aquele que se apresentava agora. As duas conversaram no jardim, sentada em uma canga sobre a grama, enquanto faziam um piquenique. Era período de férias de Marta, que aproveitava os dias com filha de 15 anos.

“Porque as pessoas nunca vão agir como você espera, minha criança. Nem você agirá de acordo com o que elas querem. E, assim, a vida se torna uma sucessão de erros e decepções.”

A certeza com que a frase fora pronunciada fez com que as palavras nunca saíssem da cabeça de Estela. Mais de 40 anos se passaram, e aquela tarde continuava pintada na paisagem da janela. O sol inundava o quarto quando a mulher se afastou e seguiu em direção ao guarda-roupa. Ele também era parte de seu passado. Ela vestia uma camisola branca. Abriu a porta e pegou o roupão da mesma cor. Dentro do armário, junto aos perfumes, duas fotografias: uma registrava a formatura simbólica da quarta série; a outra mostrava a adolescente sorrindo entre os pais, em seu aniversário de 15 anos. “Tudo parece ter acontecido nessa idade”, pensou. As principais histórias de sua vida. Depois, tudo seguiu o inacreditável marasmo a que estava adaptada: casa, trabalho, afazeres diários e direitos adquiridos.

O único momento diferente ao que estava acostumada aconteceu quando se apaixonou por Orlando. Era alguns anos mais velho do que ela. A amizade se transformou em interesse dos dois lados. Primeiro, o envolvimento sexual. Depois, os sentimentos vieram à tona. Namoraram e se casaram. Do matrimônio, restaram apenas os conflitos.

“Maldita seja a hora em que te conheci”, gritou o então marido, alternando gritos e mãos na arrumação das malas.

“Maldita seja a hora em que aceitei essa merda de casamento.”

“Maldita seja a hora em que subi àquele altar e concordei com o desperdício dos meus melhores anos.”

Orlando segurou a mala em uma mão e abriu a porta com a outra, proferindo palavras misturadas ao rancor. Nunca mais o viu. Soube, poucos dias depois, que ele retornou para a cidade de origem. Estela não chorou. Nem na despedida e nem ao saber da partida. Nesses anos, não se emocionara com o que a vida mostrava a ela. Era considerada fria pelos poucos com quem convivia. Mas, no íntimo, sabia que sentia de forma diferente. Sem sofrimento e ressentimento. Só saudade. Cada canto de sua alma era um resquício das ausências. E a mulher se sentia grata por todas as experiências.

Desistiu do roupão e da camisola. Trocou-os por um vestido azul turquesa que se estendia até a coxa. “Sim. Estou bonita”, e sorriu. A roupa se assemelhava a uma que ganhara em seu décimo quinto aniversário. A diferença estava no comprimento. Usou-o em diversas ocasiões até que ficasse desbotado. Desde então, manteve-o guardado em uma caixa na parte superior do guarda-roupa. Ele era parte de sua história, de seu contato com o passado. Não poderia jogá-lo fora.

Olhou-se novamente no espelho. Os cabelos estavam bagunçados; o rosto; envelhecido; o sorriso, amarelado. Ao lado de Estela, posicionou-se uma jovem. Usava o vestido azul turquesa. Ambas, mulher e menina, sorriam. Os gestos ensaiados. Encararam-se. Deram-se as mãos e rodopiaram no centro do quarto, sobre o tapete marfim. Dançavam. Os passos levavam-nas da esquerda para a direita. Seguiam o ritmo da canção que ecoava entre quatro paredes. Da direita para a esquerda.

Mulher e menina. Olhos nos olhos. Os traços jovens e velhos em perfeita harmonia. Os vestidos balançavam juntos. Rodopiaram outras vezes até pararem. Estela caminhou para frente do espelho. Era menina. Era adolescente. Era mulher. Um misto de todas as Estelas. Da menina curiosa. Da adolescente inexperiente. Da mulher vivida. Das lágrimas vertidas. Do riso frouxo. Contida em certos momentos. Em outros, alvoroço pela casa agora silenciosa.

“E como está a sua vida?”, perguntou a moça.

“Está tranquila. Sempre aqui, sempre à espera.”

“Sei. Conheço seus passos e caminhos. Do passado ao futuro, ando por eles.”

“Sim, querida. Por essas trilhas, já caminhei.”

Abraçaram-se. Estela abriu novamente o armário. Despiu-se. Escolheu o roupão branco. Vestiu-o e retornou à cama. À menina, sorriu em despedida. Mas ela continuaria pelos cantos, no quarto, com seu vestido azul turquesa a clarear os dias.

 

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Virá impávido que nem George Steiner

Sujeito que conheci pessolmente há muito pouco tempo, mas que não dá para deixar de causar (boa) impressão pelo brilho da carreira acadêmica e envergadura do raciocínio, mesmo quando diametralmente oposto ao nosso, o sociólogo Brand Arenari, estreou hoje como colaborador da Folha. A partir desses contatos, ele me enviou pela democracia irrefreável das redes sociais uma entrevista com George Steiner, feita pelo jornalista Borja Hermoso e publicada em El Pais.

Escritor, filósofo e professor das universidade de Cambridge e Genebra, judeu francês de 87 anos, criança refugiada da expansão no nazismo (1933/45) pela Europa, Steiner não perdeu o humor, tratando grandes gênios da história como referências cotidianas, para falar de questões muito sérias. Daquilo que Sigmund Freud (1856/1939) não previu na sexualidade humana, à gangrena do dinheiro no caráter do homem antevista por Karl Marx (1818/83), sem perdoar os grandes erros da espécie contra si no nazifascismo e no comunismo, ele centrou fogo na péssima formação cultural que o atual sistema de ensino impõe universalmente aos nossos filhos e netos.

Por motivos pessoais, de memória afetiva, mas também da razão, por endossar um raciocínio próprio sobre o qual cheguei a escrever (aqui) antes de lê-lo nas palavras do mestre, segue abaixo um pequeno trecho — na intersecção entre as ditas “baixa” e “alta” culturas — da entrevista que merece ser lida na íntegra aqui:

 

George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos - El Pais)
George Steiner em sua casa em Cambridge (foto de Antonio Olmos – El Pais)

 

P. O senhor diferencia a “alta” cultura e a “baixa” cultura, como fazem alguns intelectuais de renome, visivelmente incomodados com formas da cultura popular como os quadrinhos, a arte urbana, o pop ou o rock, para as quais se chegou a criar o rótulo de “civilização do espetáculo”?

R. Vou lhe dizer uma coisa: Shakespeare teria adorado a televisão. Ele escreveria para a televisão. E não, eu não faço esse tipo de distinção. O que realmente me entristece é que as pequenas livrarias, os teatros de bairro e as lojas de discos estejam fechando. Por outro lado, os museus estão cada vez mais cheios, as multidões lotam as grandes exposições, as salas de concerto estão cheias… Portanto, cuidado, porque esses processos são muito complexos e diversificados para se querer fazer julgamentos generalizantes. O senhor Muhammad Ali era também um fenômeno estético. Como um deus grego. Homero teria entendido perfeitamente Muhammad Ali.

 

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Paula Vigneron — Marionetes

Terraço do Museo Casa Estudio Diego Rivera y Frida Kahlo, na Cidade do México (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Terraço do Museo Casa Estudio Diego Rivera y Frida Kahlo, na Cidade do México (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

O barulho da chuva confundiu-se com o do batente. A porta acabara de ser fechada. Em seguida, passos foram escutados por Anna, que mantinha os olhos cerrados. O corpo, retesado sob as colchas, precisava demonstrar a serenidade inexistente. Raios clarearam o quarto azul da mulher. Optara pela cor porque, desde a infância, ouvia que ela acalmava. A despeito da crença, crescia sua tensão. Pés firmes se aproximaram da porta do quarto. O coração desassossegou-se. Sentia em seus lábios o gosto da despedida.

Luciano repetiu o gesto anterior: tocou a maçaneta com as mãos suadas e frias. Os dedos trêmulos, ansiosos por retrocessos e recomeços, obedeceram, com dificuldade, ao comando do cérebro. Seguraram o objeto e o puxaram para baixo. Os olhos do homem perderam-se sobre a cama alva. A luta interior dominava seu corpo. Acelerado, o coração poderia ser ouvido de longe, junto aos compassos dos batimentos de Anna. Não sabiam, mas estavam em total comunhão.

Caminhou vagarosamente em direção à mulher adormecida. Ela, por sua vez, se entregou à escuridão ao fechar as pálpebras trêmulas. Sabia que ele perceberia o disfarce. Luciano continuou observando-a. Por crer que não a conhecia, ficou em dúvida sobre a veracidade de seu sono. A respiração descompassada, paradoxalmente, tirou a tensão do homem. Por breves e fugidios segundos, a vida pareceu estar normalizada: a casa escura, o quarto azul, a cama branca, a mulher quase despida e o desejo latente. Um suspiro, e a paz se desfez diante de seus olhos.

“Eu me cansei de estar sempre aqui, mas não ter você aí. Eu estou farta da ausência preenchida por filmes, livros e músicas cuspidas por um aparelho envelhecido e enferrujado que se assemelha ao retrato de nós dois. As poesias jogadas pela casa. A esperança de você enxergá-las. E, por meio delas, me encontrar. E você sempre ocupado com seu mundo. Horários, ritmos, corridas. Almoços, jantares. Nestas idas e vindas, Luciano, você se esqueceu de compartilhar histórias com quem está ao seu lado.”

O discurso, gritado naquela manhã, continuava a ecoar em sua cabeça. Não tivera força para admitir, mas reconhecia os erros acumulados e repetidos que se transformaram em muros sobre a cama. Era humano. E, como tal, falho. Talvez tenha se esquecido de ver-se como homem. Esperava que as situações ruins fossem se ajeitar sem que ele precisasse intervir ou tomar decisões. No fundo, pensava que Anna, depois de dizer todas as sinceras barbaridades, pudesse voltar atrás e oferecer o colo como abrigo. Mas não. Desta vez, ela fora firme e inatingível. As palavras batiam nele com todas as forças da esposa.

Ouvindo o silêncio, ela tentava descobrir o que Luciano fazia parado e sentado à beira do colchão. Não podia se mover. Se houvesse movimento, ele se certificaria da péssima atriz que era a mulher. Parada, imaginava dar mais veracidade à grotesca cena. Os pensamentos difusos deixavam Anna ainda mais angustiada. Não saber o que se passava ao seu redor era estranho para quem sempre manteve o controle sobre todas as situações. Vagarosamente, sentiu uma mão tocar seus cabelos. O corpo tremeu. O marido, então, notou que Anna estava acordada. Teve vontade de gritar ao perceber. Era hábito fugir de uma discussão criando outras. Mas, pela primeira vez, agiria de maneira diferente.

“Temos que conversar”, disse Luciano, mantendo a voz firme e serena. Ela estranhou.

“Desde quando conversar faz parte do nosso cotidiano? É sobre o quê? Alguma conquista que ainda não partilhou com quem não costuma te escutar?”

“Anna, não complique a situação. Tenho pessoas que me ouvem e que não me ouvem. E você, que julga estar entre as primeiras, faz parte das segundas.”

Os olhares se cruzaram. A mulher carregava mágoas. O homem, medos. Sentimentos e sensações veladas conduziam o casal a um caminho ainda oculto. Ela teve ânsia de gritar por todos os anos que considerava perdidos. Calou-se com lágrimas escorrendo involuntariamente. Ele desejou abraçar a mulher. Abaixou a cabeça em respeito ao inesperado choro. Estrondos de trovão embalavam a cena.

“Nunca sei para onde poderemos seguir. Desde o começo, nossas vidas foram construídas por impulsos impensados. Acho que desaprendi a usar a razão em relação a você”, disse Luciano, observando os olhos marejados de Anna. Ela balançou a cabeça em concordância. Pela primeira vez, ambos se enxergaram. A olhos e almas nus, não souberam decifrar pensamentos, vontades, sonhos, intenções e desejos. Despiram-se das capas ilusórias com as quais costumavam se apresentar para o outro. O impacto dos rostos crus deixou-os sem reação.

“Creio que nunca tenhamos sido sinceros conosco, Luciano. Fiz de você o que ambicionei, o que desejei. Enquanto, na verdade, deveria ter te deixado ser o que és, sem intromissões ou pedidos exagerados. Eu te moldei a mim, e você, em sua fraqueza, permitiu. Agora, desconheço-o.” Havia sinceridade e verdade nunca antes demonstradas na palavra da mulher, cuja expressão de indiferença tomou lugar da suposta fragilidade pela qual o marido tinha se enternecido anos antes. Ela era uma estranha deitada em sua cama. Ele era o passado extinguindo-se diante de seus olhos.

“Todas as suas reclamações, então, foram vãs? Não sentia o que afirmou te incomodar?” Dentro dele, pulsava incredulidade. A mulher que acabara de se revelar era completamente diferente daquela com quem dividia os espaços do pequeno apartamento. O menino assustado transparecia nos traços masculinos.

“Não sei responder. No fundo, o meu maior desejo era sentir e me angustiar com as bobagens que gritava para você. Mas não fazia muita diferença. Nunca fez.” As palavras cortantes vazavam pelos lábios da mulher com naturalidade. Agora, ele estava começando a conhecê-la. A frieza do olhar ainda deixava-o sem ação, mas Luciano se adaptaria à nova realidade. Sempre se moldava.

“Vamos dormir, querida. Amanhã será um longo dia. Quando amanhecer, revelarei os planos para o próximo final de semana. Tenha uma ótima noite.” Tal como ocorria cotidianamente, ambos trocaram beijos, carinhos e gestos mecanicamente repetidos. Com as mãos entrelaçadas e olhares longínquos, acomodaram-se na cama. Mais um dia. “Boa noite, querido.”

 

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Paula Vigneron — Via Crucis

Atafona, 04/08/14 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 04/08/14 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Às sete horas da noite, Ana transita pelas ruas do Centro da cidade. Caminha rapidamente. Tenta acostumar o ritmo das pernas à urgência dos minutos. Enquanto alterna os pés, se cuidando para não tropeçar e perder tempo até se restabelecer, sua cabeça é tomada pelo retrato do dia estampado nas capas de jornais. Crimes. Abusos. Limites ultrapassados. Desrespeito ao ser humano.

Ana acelera.

As últimas semanas têm sido trágicas. Mulheres violadas com suas histórias devassadas nos noticiários. De quem é a culpa? Dela? Não. A culpa é de quem a olha, mas não a enxerga. Ser humano. Aqui e ali, vozes se unem em gritos de alerta para mostrar à sociedade os atos monstruosos a que ela está sendo submetida.

A rua está escura. Falta um trecho longo para chegar ao ponto de ônibus. Atrás, passos seguem o caminho pisado por ela. Escutando a respiração ofegante que vinha de alguém, as linhas dos textos jornalísticos berram, em seus pensamentos, as mensagens anunciadas:

Uma estrangeira de 22 anos é estuprada, no Catar, e presa por fazer sexo fora do casamento.

Uma estudante é violentada a caminho da escola, em uma manhã aparentemente tão comum quanto as outras.

Na rua dela, uma menina gritou, à noite, e ela não soube o motivo.

Em uma cidade próxima, uma jovem de 16 anos foi abusada por 33 homens.

Os passos atrás ficam mais rápidos.

Ana segura a bolsa.

“Meu Deus, que seja só um assalto. Que levem bolsa, dinheiro e celular, mas deixem a minha dignidade”.

Ana afrouxa a bolsa.

Noites passadas, conversara sobre os medos de ser mulher. E, enquanto falava, seus temores tomavam proporções cada vez maiores. Andar na rua sem saber se conseguirá voltar para casa. Olhar para os lados até se certificar de não estar sendo seguida. Atravessar a rua quando homens estranhos sem aproximam e ignorar palavras imundas que saem de suas bocas quando ela passa.

Ana respira fundo para controlar os tremores.

A poucos metros, a rua mais escura, avista o ônibus. Parado no ponto. Mais uma vez, roga a Deus. “Que ele não saia até a minha chegada. Que ele espere para que eu não fique sozinha”. Posiciona-se para atravessar a rua. Tinha certeza de que os passos continuavam ali. Vagarosamente, para não chamar a atenção, virou o pescoço. Não havia homem. Nem mulher. Expirou, aliviada, e entrou no ônibus seguida por seus medos.

 

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Das lágrimas, versos ao campeão

Ocinei Trindade
Ocinei Trindade

Quando Muhammad Ali morreu, na noite de 3 de junho, alguma coisa em mim se quebrou. Talvez porque Ali fosse a maior referência ainda viva do meu pai sobre mim. Não por outro motivo, escrevi sobre ele (aqui), no artigo do domingo seguinte. E depois aqui, na terça sequente, para anunciar a exibição e debate do documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, sobre a disputa de título entre Ali e George Foreman, em Kinshasa, capital do Zaire, hoje República Demorática do Congo, pulsando no coração da África e no Cineclube Goitacá.

Após o filme, na última quarta (aqui), em meio ao debate, confesso que o mais comovente, para mim, foi perceber o poeta e jornalista Ocinei Trindade em meio às lágrimas, pelo que acabara de assistir. Longe de um entusiasta, como eu, do mundo das lutas, o pranto alheio (e comum) confirmou aquilo que o comediante judeu Billy Crystal disse (para quem entende inglês, aqui) no belo discurso funerário sobre o mitológico campeão de boxe, seu “big brother” muçulmano: “Ele tinha a capacidade de extrair, sempre, o melhor de todos nós”.

Lembro que, no correr do debate, Ocinei comentou que o título do filme era equivocado: “Com B. B. King, James Brown, George Foreman e Muhammad Ali, o nome desse filme não deveria ser ‘Quando éramos reis’, mas ‘Quando éramos deuses’”. Como entre os antigos gregos que criaram o pugilato e uma tal Civilização Ocidental, aqueles deuses descidos em 1974, na África que pariu o homem, eram mais divinos, justamente por humanos.

Nos versos escritos hoje (aqui) pelo poeta, a intersecção que há entre homens e deuses:

 

 

 

 

Quando Muhammad Ali me fez chorar

 

Não era só um filme, era uma vida.

Não era uma despedida, era um encontro.

Não era só uma luta, era missão.

Não era só uns milhões de dólares, era tudo.

Não era só um espetáculo, eram ossos e músculos.

 

Havia sangue e suor escorrendo pelo meu corpo.

Existe ainda alguém desafiando deuses e heróis?

Senti um aperto no peito, desses que corrói.

Destruir gigantes no Olimpo não é fácil.

Imagina só o Titã que sabe na alma onde dói.

 

Toda a beleza que sua realeza invoca.

Não sei bem o que provoca aqui dentro.

Só sei que estou dentro de um ringue de lutas.

É uma estranheza assim meio filha da puta

que não quer me parir, não quer sair, nem partir.

 

Desconfio que Muhammad Ali é um puro pretexto.

Serve para me levar aos lugares sombrios onde nunca vou.

Ajuda-me a imaginar o rei ou o homem que eu sempre sou:

Vencido, desiludido, impedido, sentido.

Amargurado, angustiado, atribulado, atrelado ao show.

 

Quando o outro importa mais que eu, onde me ponho?

Um mundo cercado de mediocridade e casebres medonhos.

Não sei bem onde se esconderam aqueles antigos e alegres sonhos.

É uma multidão a repetir palavras, frases e sons enfadonhos

Um homem tristonho e vazio não merece muito além de rima feia.

 

Chicoteia a minha pele que não para de ressecar e murchar.

Será que a velhice não passa de uma outra combatida ilusão?

Percebo mais perto a morte rondando o jardim sem flores.

Pressinto, decerto, a vida mais ávida por idiotices e dissabores.

É a melancolia, sim, instalada entre o umbigo e a garganta.

 

Não sei se adianta muito eu chorar ou lágrimas disfarçar.

Só sei que ali diante de Ali, eu me senti ainda mais diminuído.

Fui engolido por todos os fanáticos estúpidos maometanos.

Fui devorado por todos os cristãos imbecis e profanos.

Fui esmagado por judeus intolerantes, gananciosos e insanos.

 

Antes de estar ali com Ali, encontrei Jesus no templo.

Não muito tempo ali permaneci, mas sei que o vi e ele a mim.

Estava disfarçado em mortalha e capuz escondido atrás da palavra.

Pediu para que eu orasse e não me comportasse como hipócritas exibidos.

Obedeci, mas depois, talvez, percebi que não o atendi tão bem assim, remido.

 

Eu menti para os meus seguidores e seus fingidores.

Omiti a verdade de mim mesmo provavelmente,  receio.

Clamei ao Tempo uma pausa, uma outra ilusão, mas ela não veio.

Talvez precisasse de uma mão sem luvas para me esbofetear.

O soco de Ali para me nocautear além do Oceano e eu afogar certeiro.

 

Creio que todo aquele gozo foi deveras insuficiente para toda a gente.

Deveria eu ter sido bem mais pecador e, quem sabe, ainda mais indecente.

Poderia me desnudar inteiro, sóbrio ou ébrio, pelas ruas de Kinshasa.

Não fiz tudo, nem tudo chorei, nem toquei Maomé, nem Jesus, nem Ali.

Voltei sozinho e tocado por eles para a casa onde moram palavras cheias de si.

 

Campos, 17.06.2016

 

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“Quando éramos reis”, nesta quarta, no Cineclube Goitacá

Ali x Foreman

 

 

Num ano de perdas, algumas irreparáveis, o que nos resta é manter vivo o legado. Neste sentido, nessa quarta (15/06), na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio, o Cineclube Goitacá vai exibir e debater o filme “Quando éramos reis”, de Leon Gast. Oscar de melhor documentário em 1997, narra em detalhes um evento de 23 anos antes. “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), foi o título promocional dado à disputa do título profissional peso pesado de boxe, na África, entre o jovem campeão George Foreman e seu desafiante, Muhammad Ali, considerado antes e depois o maior pugilista de todos os tempos — morto (aqui), aos 74 anos, na noite do último dia 3 de junho.

Caetano Veloso admitiu não gostar de boxe, mas escreveu “virá impávido que nem Muhammad Ali”, na música “Um índio”. E “Quando éramos reis” é uma oportunidade documental única para constatar o encontro da cultura black em sua explosão nos EUA dos anos 1970, sendo levada de avião ao coração da África, às margens do legendário rio Congo, em Kinshasa, capital do então Zaire, hoje República Democrática do Congo. Emblematicamente, era a primeira vez que dois campeões negros de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, decidiriam o cinturão de todos os pesos na África.

Ao velho continente que pariu a espécie humana, voltavam como reis os descendentes daqueles que séculos antes saíram acorrentados como escravos. Neste sentido pascal de retorno, foram promovidos shows com estrelas negras da black music dos EUA, como o mestre do blues B. B. King (aqui) e o rei do soul James Brown. No estádio de futebol de Kinshasa, onde seria realizada a luta, os músicos negros estadunidenses se apresentaram para dezenas de milhares de africanos, dançando e cantando juntos como a mesma tribo.

Mesmo de pele mais clara do que Foreman, Ali era adorado pelos africanos muito antes de lá disputar um título de boxe. Na África e no planeta, sua fama já havia conquistado fãs, sobretudo nos países do terceiro mundo, não só pela técnica exuberante do pugilista, mas por conta da sua luta pelos direitos civis dos negros nos EUA, da sua conversão ao islamismo, quando trocou o nome de Cassius Clay para Muhammad Ali, e da sua recusa em lutar na Guerra do Vietnã (1955/75), quando teve seu título de campeão revogado pelo governo dos EUA, quase acabou preso e foi impedido de boxear por três anos e meio. Roubaram aquele que seria o período áureo da carreira de qualquer atleta.

Foi dessa empatia com o povo africano que Ali se valeu, extraindo do coro “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”) a força para fazer o impossível, chocando mesmo jornalistas experientes como Norman Mailer e George Plimpton, que dão seus depoimentos no documentário, assim como o cineasta e ativista do movimento negro Spike Lee. Como este diz em determinado momento do filme, independente do tempo em que se viva, é muito difícil se ter a oportunidade de poder conviver com heróis de verdade.

É que quando Ali lutava, dentro ou fora dos ringues, todos éramos reis.

 

Confira nos vídeos abaixo a música de Caetano e o trailer do filme de Leon Gast:

 

 

 

 

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Paula Vigneron — Em cena

Espaço Diego y Frida do Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México, 14/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Espaço Diego y Frida do Museu Dolores Olmedo, na Cidade do México, 14/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A terceira campainha soara. Matheus havia chegado atrasado ao teatro e não conseguia enxergar os rostos que o acompanhariam nas próximas horas de espetáculo. A sinopse da peça chamara a sua atenção: um monólogo no qual um homem falava de suas dores e amores. Sabia que, durante as cenas, viveria momentos de catarse que tornariam mais leve o seu interior. Caminhou vagarosamente entre as cadeiras do espaço. Contou seis pessoas. Sentou-se na segunda fileira, sozinho.

Por cinco minutos, nenhum movimento no palco. Apenas uma cadeira de madeira, pintada de branco, no centro, com uma luz da mesma cor sobre ela. Olhou para trás. Estava aflito. As sombras permaneciam imóveis. Um arrepio percorreu o seu corpo. O vazio do teatro deixava-o ansioso e triste. Virou-se para frente. A cadeira, agora, era ocupada por um homem vestido de preto, com a cabeça baixa e cabelos castanhos caídos no rosto. Matheus se ajeitou e se concentrou. O espetáculo estava prestes a começar.

As respirações dos homens trancados no teatro seguiam o mesmo ritmo. Inspiravam, expiravam, inspiravam e expiravam em conjunto. Os movimentos pareciam premeditados e perfeitamente ensaiados. As luzes se tornaram mais escuras, não sendo possível distinguir as expressões dos rostos ali presentes. Ele se mexia em sua cadeira enquanto observava o ator no palco, que se acomodava melhor. Ambos se olharam por breves minutos. Matheus olhou, também, para os outros. Todos o encaravam. Subitamente, levantou-se. Sua vontade era correr em direção à saída de emergência. A estranheza do espetáculo o apavorou. A propaganda havia sido tão boa, e, de repente, as cenas pareciam grotescas. Passos alternados seguiam os seus. Virou-se para trás. As sombras faziam o mesmo percurso. Somente o ator observava o grupo que andava em busca de uma saída inexistente.

Vencido pela tensão, Matheus se sentou novamente. Todos se acomodaram na mesma fileira. Ele ofegava e transpirava. Não se lembrava de ter vivido momentos tão intensos de angústia. A iluminação do palco clareou o ator, que o olhava atentamente. O rapaz gritou ao enxergar a feição do artista. Era ele. Simultaneamente, as luzes da plateia se acenderam. Olhou ao redor. Os demais não possuíam rostos. Os olhos castanhos percorriam os cantos do teatro. Ansiava por explicações, mas sua voz parecia ter se perdido em um caminho sem volta.

A cadeira branca foi arrastada. O ator escorregou pela madeira e se sentou no chão. A luz estava concentrada nele, que alisava o tablado em um gesto incompreensível. Contrarregras surgiram e modificara m o cenário. Um sofá bege, cujo estofado se assemelhava a veludo, ocupava o lado direito do palco. No centro, um divã azul escuro. Matheus reconheceu o lugar. Levantou-se. Suas pernas tremiam. Temia o que iria encarar. Paradoxalmente, não conseguia desviar o olhar. O homem em cena deitou-se e observou o teto.

Antônia, sua psicanalista, conservava o mesmo aspecto sombrio. Os óculos, sempre tortos, postos sobre a ponta do nariz. O bloco branco e a caneta preta posicionadas para anotar os primeiros devaneios que seriam ditos por Matheus. Ela aguardava as palavras, que ainda se ordenavam dentro do ator. Os pés do homem se chocavam levemente, característica marcante do início das consultas. Inspirou profundamente.

— Conseguiu pensar sobre o que falamos na última consulta? — o ator continuava a encarar o teto enquanto Matheus se preparava para responder. Foi interrompido por um sussurro. “Cabe a ti o silêncio, meu caro.” Não havia ninguém a seu lado. O coração tamborilava com violência.

— Pensei, Antônia. Não concluí nada. Não há definições. Definitivamente, sou a perda de tempo que tanto lastimei em minha vida.

Como o ator poderia falar aquilo tão abertamente? Matheus se sentiu desnudado diante dos olhos da plateia e da psicanalista. Eram seus pensamentos mais profundos. Nunca teria coragem de expô-los em voz alta.

— Você é o que enxerga. Você é o que quer, Matheus. Tantas coisas para fazer, e você, homem, permanece apático e insignificante — ralhou Antônia. “Como ela tem coragem de me falar isso?”, questionou-se o homem, que continuava de pé em frente ao palco, apavorado com a grosseria sincera com que era tratado.

— De que adianta ir à luta? Abandonado por uma mulher adúltera a quem continuo amando. Ela, agora, está deitada na cama de outro. Há três anos, amargo essa derrota. O fracasso de não saber lidar com as novidades que a vida me apresenta. Desaprendi a me relacionar. Perdi a capacidade de recomeçar, refazer e recriar. Mesmo com o dia claro, não passo de um notívago. Sobre mim, a sombra de uma nuvem escura prestes a descarregar — a dor de Matheus acabara de ser, pela primeira vez, verbalizada. Desta vez, não entre quatro paredes. Os conflitos foram revelados a outros.

Teve o ímpeto de avançar sobre o ator, que falava sobre suas falhas. “Nem sequer posso deixar herdeiros. Nasci oco. Sou oco. E morrerei oco”, dizia o cruel artista a Antônia, que anotava os relatos. Os movimentos em direção ao palco foram esquecidos quando Matheus olhou ao redor. As sombras estavam coladas ao seu corpo.

— Quem são vocês? O que é isso que acontece à minha revelia? — a voz embargada preencheu o espaço.  Desvencilhou-se do invisível e alcançou o homem do divã. Suas mãos pousaram sobre o pescoço do ator, apertando-o. Ansiava pela morte do outro Matheus. À medida que apertava, perdia o ar. Os rostos ficaram vermelhos. As sombras e a psicanalista sumiram. Ele era obrigado a se encarar. Folgou os dedos e se sentou no chão. Homem e ator. Realidade e personagem. Morte e vida. Os dois se olharam por incontáveis minutos.

— Eu sou o que você não tem coragem de assumir. Eu sou a coragem presa a um corpo inerte e fracassado. Uma construção de sua mente. Confronte-se. Procure e encontre, sozinho, o que está perdido — as luzes rarearam. Apenas o divã e Matheus continuavam sob o holofote.

Diante do homem, um espelho havia sido colocado. Ele se encarou. Envelhecido, deitou-se no divã à espera de Antônia para mais um dia de consulta.

 

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Artigo do domingo — Nos versos do campeão

 

“Muhammad Ali chocou o mundo. E o mundo é melhor por causa disso. Nós somos melhores por isso”.

(Barack Obama)

 

 

Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.
Ali: “Impossível é apenas uma grande palavra usada por gente fraca, que prefere viver no mundo como ele está, em vez de usar o poder que tem para mudá-lo, melhorá-lo. Impossível não é um fato. É uma opinião. Impossível não é uma declaração. É um desafio. Impossível é hipotético. Impossível é temporário. O impossível não existe”.

 

 

Na sexta, o editor de esportes da Folha, Antunis Clayton, me disse que Muhammad Ali havia sido internado em Phoenix, no Arizona, onde residia, por conta de problemas respiratórios. No sábado, acordei tarde com o registro de várias ligações do meu filho, Ícaro, perdidas no celular. Retornei a ele para saber que a perda era pessoal: ainda na noite anterior, Muhammad Ali havia morrido, aos 74 anos.

Ex-campeão olímpico (meio pesado, em Roma-1960) e profissional (peso pesado em 1964, 74 e 78) de boxe, era considerado o maior pugilista de todos os tempos. Com seu jeito todo próprio de lutar, sua onipotência técnica só seria depois reeditada dentro do boxe pelo campeão peso médio Sugar Ray Leonard e, no MMA, pelo campeão brasileiro Anderson Silva. Mas Ali teve um cartel respeitável também como ativista político. Lutou pelos direitos civis dos negros e minorias nos conturbados anos 1960/70 — sobretudo depois que teve seu cinturão roubado pelo governo dos EUA e quase acabar preso. Recusou-se a lutar na Guerra do Vietnã (1955/75).

Na dimensão trágica dada à palavra pelos antigos gregos, que também inventaram o pugilato, Ali foi um herói. Apesar da geração distinta, foi também o meu, legado por outro, meu pai. Desde criança, ele me contava, com o entusiasmo de devoto de tempo presente, cada gesto ousado das suas muitas lutas, dentro e fora dos ringues. Bonito, inteligente, articulado, audaz, divertido, defensor do seu povo, amante de lindas mulheres, viril e feminino, Ali foi o maior lutador de todos os tempos. E, nesta condição, derrotou o maior poder de todos os tempos — seu próprio país — quando se recusou a lutar.

Vários de seus combates têm lugar cativo na antologia do boxe. A vitória por nocaute técnico sobre Cleveland Williams (aqui), em 14 de novembro de 1966, considerada tecnicamente como a mais perfeita da história, porque não errou ou levou um soco sequer em seus três assaltos de duração. A vitória por pontos na luta seguinte, em 6 de fevereiro de 1967, contra Ernie Terrell (aqui), a quem surrou da maneira mais cruel, com dolo de ferir sem derrubar, enquanto perguntava “Wat’s my name?” (“Qual é meu nome?”), depois que o adversário o chamou de Cassius Clay, seu nome cristão de batismo, trocado por Muhammad Ali na conversão ao islamismo. A derrota (aqui) para Ken Norton, em 31 de março de 1973, por decisão médica, considerada fenômeno de resistência, por ter lutado 12 assaltos mesmo após ter o maxilar quebrado no primeiro.

E o que dizer das três lutas titânicas contra o também campeão Joe Frazier (em 1971, 74 e 75, aqui, aqui e aqui), seu maior adversário (relembre aqui), nas quais Ali perdeu a primeira e venceu as duas outras, numa trilogia violentíssima da qual ambos levariam consequências neurológicas para o resto das suas vidas? Como o Parkinson contra o qual Muhammad lutou por três décadas e que acabou por derrotá-lo na noite de sexta.

Mas se Ali tivesse que ser lembrado por uma única luta, talvez seja “The rumble in the jungle” (“A luta na selva”), realizada (aqui) em 30 de outubro de 1974. O título promocional fazia referência ao local da peleja, em Kinshasa, capital do então Zaire, atual República Democrática do Congo. Magistralmente registrado no documentário “Quando éramos reis”, de Leon Gast, o evento foi emblemático: primeiro título mundial peso pesado de boxe, esporte majoritariamente dominado por atletas negros, a ser disputado no coração da África, em plena selva equatorial.

Já aos 32 anos, Ali não era o campeão, mas desafiante do dono do cinturão de 25, sete anos mais novo. Não fosse apenas isso, George Foreman, dono do direto de direita mais devastador da história do boxe, havia antes massacrado Joe Frazier, a quem nocauteou cinco vezes ao lhe roubar o título, e Ken Norton. E Frazier e Norton haviam derrotado Ali, muito embora este tivesse vencido a ambos nas revanches.

Pelo retrospecto, a verdade é que ninguém, nem mesmo entre os segundos de Ali, achava que ele tivesse chance contra Foreman. Muitos temiam inclusive que, pelo seu destemor, ele acabasse morto no ringue pelo jovem e hercúleo campeão. Julgava-se que sua única alternativa seria tentar dançar em torno do adversário, sua arte (aqui), evitando o combate franco.

Soado o gongo inicial, Ali surpreendeu a todos e partiu para dentro do “monstro”. Na franqueza de uma briga de rua, se valeu da sua técnica exuberante para acertar 12 diretos de direita na cara do campeão. Uma dúzia exata e certeira do soco mais forte que um pugilista destro é capaz de desferir. E Foreman só virou o rosto após cada um deles, como se nada tivesse acontecido.

Certo de que, na briga, não teria chance, aquele intervalo entre o primeiro e segundo assaltos é a única vez na carreira de Ali que se pôde ver o medo estampado em sua face. Temor pior do que o de quem apanhou: a paúra de quem bateu com tudo que tinha e viu que não fazia qualquer diferença. Depois, quem temeu disse ter olhado o objeto do seu medo, no canto oposto do ringue, e mentalizado:

— Você é mais jovem do que eu, maior, mais forte, mais rápido. Mas você está disposto a quebrar costelas, seios da face, dentes, maxilar? Está disposto a morrer aqui, dentro deste ringue? Porque eu estou! E, se não estiver, você vai perder!

Após ter refeito sua convicção em si, o desafiante se virou para os 100 mil africanos que torciam declaradamente por ele e regeu o coro: “Ali, buma ye! Ali, buma ye!” (“Ali, mata ele!”).

Se tinha espantado a todos ao partir para o combate franco no primeiro assalto, Ali voltou a surpreender do segundo ao quinto, quando foi para as cordas, fechou-se na guarda e aceitou passivamente ser o saco de pancadas para o pugilista mais forte que já existiu. Isso, enquanto provocava o tempo inteiro, no combate psicológico que sempre impunha aos adversários:

— Ei, George, me disseram que você batia forte! Assim você me decepciona! Você não quebra nem amendoim assim, George! Cadê sua força, garoto?

Qualquer um que já tenha lutado, sabe que bater cansa muito mais do que apanhar. Tanto mais na umidade do clima de uma selva equatorial. Confiante no seu encaixe — no jargão do pugilismo, a capacidade de absorver golpes —, Ali foi minando as reservas do gigante, esvaído em golpes fortíssimos, como faz o mar com as construções humanas em Atafona. A partir do quinto round, o desafiante voltou também a agredir, até que numa sequência certeira de golpes no oitavo, um Foreman exausto e cambaleante desabou em câmara lenta, como um prédio.

Feito o impossível, diante do mundo que deixou mais uma vez atônito, Ali subiu nas cordas e ergueu os dois punhos à multidão reunida onde a espécie humana nasceu. E, naquele exato segundo de epifania coletiva entre o campeão e seu povo, como numa cena bíblica do Velho Testamento, desabaram as monções africanas.

Ali era disléxico. Por isso, fez uso da rima e da métrica, como um precursor dos rappers, para se tornar um grande aforista. Seu lema era: “float like a butterfly sting like a bee” (“voar como borboleta e picar como abelha”).

Certa vez, na universidade de Harvard, quando passou a viver de palestras, após ter sido impedido de boxear por três anos e meio por conta da recusa em lutar na Guerra do Vietnã, os estudantes lhe pediram em coro:“Give us a poem!” (“Dê-nos um poema”).

Após pensar um segundo, o campeão disse: “Me, we” (“Eu, nós”).

Com a humanidade a reboque, difícil pensar numa vida tão bem resumida em verso. E, como meu pai me ensinou, eu o amei por isso.

 

 

“virá impávido que nem muhammad ali

virá que eu vi”

(caetano veloso)

 

 

paixão a palo seco

 

o punho esquerdo vivo, arauto ativo

da direita dissimulada em guarda baixa,

guardada ao avessar da face que o encara

pendularmente, lado a lado, pela cartilha,

não para frente e trás, como seria

recuar nos trilhos do trem que avança,

só não alcança quando lá está ali,

feminino nos gestos de um felino.

 

a delicadeza florescida em oposição,

por oposto o soco ao giro da ponta do pé,

na lona plantado à picada da abelha,

mas de raiz aérea, de vôo de borboleta

— belo ao reinventar o mundo que abalou,

ao derrubar homens e se arrogar rei,

negou ser soldado de matar alguém,

para afirmar sua raça: homens também;

eu, nós, nos versos do campeão.

 

campos, 22/03/07

 

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Paula Vigneron — Quinze minutos

Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Ruínas de Atafona, 29/08/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

A manhã estava estranha. Maria não podia definir o motivo de senti-la diferente das demais. O vento balançava as árvores plantadas perto do ponto final. As ruas, pouco movimentadas, contribuíam para a sensação que a dominava. Olhou as horas. Nove e quarenta e cinco. O calendário indicava que trinta anos tinham passado desde a última vez em que estivera ali. Na época, optou por um vestido azul marinho. Mais curto do que os habituais. Queria despedir-se dele com uma aparência leve para não pesar o seu caminho. Se deveria partir, que partisse sem dores ou receios. Desejava, mesmo com os nervos à flor da pele, não demonstrar os medos que pulsavam em seu coração. Como seria a distância de Marcos?

Nove e cinquenta. Cinco minutos mergulhada em recordações. Trinta anos sem esquecer passos, palavras, gestos, sorrisos lacrimejados e o olhar do menino que estava prestes a se tornar um homem. Pronto para crescer longe dela.

Maria havia conhecido o rapaz em uma festa. Adolescentes, encantaram-se imediatamente. A atenção dele foi despertada pela beleza da garota. E a dela, pela sua inteligência ao se posicionar sobre diversos assuntos e uma perceptível sensibilidade para lidar com o próximo. “Quantos garotos são assim?”, questionou a si mesma.

O ônibus dele partiria às dez. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Agora, seu relógio marcava nove e cinquenta e três. Sete minutos de despedida que se eternizaram por trinta anos. Todos os dias, a mulher se lembrava da partida dele. Como estaria hoje agora? “Marcos, você ainda é capaz de me reconhecer?”, perguntou, em voz alta, às memórias que ecoavam em sua cabeça. Acendeu um cigarro. O vício cresceu à medida que os dois se distanciavam. Ela precisava calar a ansiedade.

“Pode ter certeza de que não me esquecerei de você, minha pequena.”

Embora eles tivessem a mesma idade, ele a tratava como uma criança. Perdia noites de sono para acalmá-la, por telefone, quando seus planos desandavam. Escolhia delicadamente as palavras que poderiam confortar Maria. Quando feliz, por quaisquer razões, ambos comemoravam juntos. Mantiveram-se assim por anos. A rotina foi modificada pela mudança. Marcos havia sido convidado para morar em outra cidade, na casa de seus tios. Conseguira seu primeiro e importante emprego. Não poderia recusar a oportunidade.

“Você me entende, Maria?”

“Entendo, Marcos. E acho que a sua escolha está certa. Não é sempre que temos uma chance como essa.”

“Eu vou, mas eu volto assim que tiver tempo. Em breve, em um ônibus igual a este, chegarei de malas prontas e ficarei definitivamente. Aguarde um pouco. Só um pouco.”

Ela esperaria o tempo que fosse necessário. Ele acreditava, embora temesse que a namorada mudasse de ideia. Todos os receios e anseios foram silenciados. Não poderia haver empecilhos.

Nove e cinquenta e cinco. Dois minutos que pareceram dias. Como era relativo o tempo.

“Eu também não me esquecerei de você, menino. Jamais. Estarei aqui, à sua espera, quando o seu ônibus estacionar.” Em troca, ele lhe entregou uma rosa vermelha, que ela guarda dentro de um livro da adolescência.

Nos primeiros meses, a troca de cartas era constante. Saudades, sentimentos e histórias. Nomes antes desconhecidos por ambos eram citados nos relatos cotidianos. “Mas queria mesmo que você estivesse aqui”, escreviam sempre. Era o desejo do casal. Um desejo calado pelo tempo. Afastaram-se. Afazeres. Trabalhos, escola. Provas, leituras, novas companhias. Dois anos se passaram até que a última mensagem de Marcos chegasse a Maria.

“Não é justo. Não posso te manter presa a mim. Minha vida mudou completamente. Não me vejo retornando à rotina até então conhecida por nós dois. Sinto que ficarei por aqui, Maria. E torço, acima de tudo, por sua felicidade. Grande beijo. Marcos.”

Uma mancha ainda é visível no canto direito da carta, abaixo da assinatura. A primeira reação de Maria ficara registrada com as letras de Marcos. Limpou os olhos. Seus sentimentos variaram entre tristeza, leveza e revolta. “Como ele pode determinar o que é melhor para mim? Ninguém pode escolher pelo outro. Pode ser que haja outra pessoa.” A resposta, ela nunca soubera.

Nove e cinquenta e nove. Um ônibus, que lembrava o de Marcos, estava no sinal. Faltavam alguns segundos para chegar ao ponto onde ela esperava sentada. Trinta anos. O cigarro queimava entre seus dedos. A pele amarelada estava acostumada. O coração de menina novamente pulsava em seu peito.

Dez horas. Em ponto. Sem atrasos, desculpas ou desistências. Levantou-se. Pelas janelas, avistou os passageiros. Apenas cinco ocupavam as cadeiras. Dois homens, uma mulher e um casal de idosos, que conversava animadamente. Trinta anos de espera. Esperança vã.

“Aguarde um pouco. Só um pouco.”

A voz do seu menino continuaria a ecoar em sua cabeça por outros anos. Talvez mais trinta. Ou dez. Por dias. Até o último minuto.

“Falta pouco”, pensou. “Só um pouco.”

 

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