Na gravidade de Atafona, a casa de Bolsonaro entortou

Ao contrário do juízo da maioria, não é o avanço do mar que derruba casas em Atafona. Progressivamente mais alta nos períodos da lua cheia, a preamar escava os alicerces das construções. Entortado seu ângulo, é a gravidade que acaba por soçobrá-las ao chão. Raul Seixas ecoa ao marulho das ondas castanhas: “José Newton já dizia/ Se subiu tem que descer”.
A casa caiu! É o que ecoa sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) desde o depoimento de Walter Delgatti na CPMI dos Atos Golpistas, na manhã de quinta. Conhecido como “hacker de Araraquara”, ganhou fama em 2019 com a Vaza Jato. Que evidenciou a promiscuidade ilegal do ex-juiz federal Sergio Moro com os procuradores da Lava Jato, que prendeu Lula em 2018.
Na CPMI, Moro chamou Delgatti de “estelionatário”. O que de fato é. E, ainda assim, foi recebido pelo então presidente Bolsonaro no Palácio Alvorada. Que lhe franqueou acesso ao ministério da Defesa para comandar teorias da conspiração contra a urna eletrônica e o TSE. E, em troca de indulto presidencial, assumir um suposto grampo ilegal de Alexandre de Moraes, ministro do STF.
Em resposta, Delgatti lembrou a Moro que leu suas conversas privadas, quando era o símbolo nacional da Lava Jato. E, com base nesse conhecimento, chamou o hoje senador do Paraná de “criminoso contumaz”. Mas a parte mais contundente do depoimento veio com as respostas do hacker de Araraquara ao deputado federal Pastor Henrique Vieira (Psol/RJ):
— Quem pediu para o senhor tentar fraudar esse sistema (das urnas eletrônicas)?
— Carla Zambelli (deputada federal bolsonarista do PL/SP), por ordem do presidente Bolsonaro, do ex-presidente Bolsonaro!
— Quem pediu para o senhor assumir a autoria de um suposto grampo contra o ministro Alexandre de Moraes?
— O presidente Bolsonaro!
— Quem te convidou para fazer propaganda eleitoral para sugerir ao povo uma suposta fraude no sistema eleitoral?
— O marqueteiro (de Bolsonaro) Duda (Lima) e também o presidente Bolsonaro!
— Quem te encaminhou ao ministério da Defesa para elaborar questionamentos ao TSE sobre o sistema de votação?
— O presidente Jair Bolsonaro!
— Quem te disse que se o senhor cometesse um ilícito, receberia um indulto?
— O presidente Bolsonaro!
— Quem te deu carta branca para agir mesmo na ilegalidade?
— O presidente Bolsonaro!
Na noite da mesma quinta, advogado do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Cezar Bittencourt disse à Veja que seu cliente preso vendeu nos EUA, para o ex-presidente do Brasil, as famosas joias sauditas. Que são patrimônio público do povo brasileiro. Embora, ontem, o jurisconsulto tenha redito que se referiu a apenas uma joia: um relógio Rolex. Em seguida, a Veja liberou as gravações da entrevista em que o entrevistado falou claramente no plural, no dia anterior: “as joias”.
Brilha como ouro saudita o jogo de morde e assopra do experiente criminalista. O mesmo que, à época da prisão de Lula, declarou publicamente que o líder em todas as pesquisas a presidente de 2018, até ter sua candidatura indeferida pelo TSE, foi condenado por Moro sem provas. Para depois servir ao vencedor daquele pleito como ministro da… Justiça.
Ainda na noite de quinta, Alexandre de Moraes atendeu ao pedido da Polícia Federal e decretou a quebra dos sigilos bancários e fiscal de Bolsonaro e da ex-primeira-dama Michelle, no Brasil e no exterior. Assim como o de Mauro Cid e seu pai, o general da reserva Mauro César Lorena Cid. Que recebeu a PF em sua casa no dia 11. Quando teve apreendida e divulgada uma selfie com seu reflexo na caixa das joias sauditas.
Personagem coadjuvante dos quatro Trapalhões, o Sargento Pincel parece ter sido promovido a general de quatro estrelas. Para a vergonha cada vez maior das Forças Armadas Brasileiras.
Com alicerces desnudos pela maré alta dos fatos, o ângulo da casa bolsonarista se inclinou ainda mais na manhã de ontem. Quando a PF e a Procuradoria-Geral da República — até tu, Aras? — prenderam cinco coronéis, um major e um tenente da cúpula da PM de Brasília.
Com imagens a provar, os sete militares facilitaram dolosamente o acesso dos vândalos travestidos de “patriotas” que invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes na capital da República, em 8 de janeiro. Por isso, os sete oficiais bolsonaristas são acusados de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, dano qualificado, deterioração de patrimônio tombado e por infringir a Lei Orgânica e o Regimento Interno da PM.
Na vanguarda aberta por vários de seus colaboradores, em veredas variadas, se pavimenta o caminho para Bolsonaro também ser denunciado, julgado, condenado e preso. Não será amanhã. Não servirá para pacificar o país. Mas ninguém pode dizer que, se ocorrer, será surpresa.
Se de fato acontecer, como foi na prisão de Lula, será um dia triste na história da República. Como será qualquer dia em que um seu ex-presidente for preso. Mas, ainda assim, talvez seja necessário à democracia. Contra a qual Bolsonaro foi longe demais, deixou rastros demais, foi desqualificado, desinteligente, inconsequente e arrogante demais.
O capitão não chegou lá sozinho. Só o fez por conta de gente que fingia não ver ou passava pano em suas reincidentes estultices. Enquanto erigia a própria em nome do antipetismo. Com motivos justos de críticas ao PT no poder, sobretudo ao catastrófico governo Dilma Rousseff, quem optou por curar a dor de cabeça cortando a cabeça que a costure no lugar.
Daqui em diante, é só a gravidade. Como o mar com as construções humanas em Atafona.
Publicado hoje na Folha da Mnhã.


















