De Campos ao Acre, Lula e Bolsonaro nas pesquisas do Brasil

 

Lula da Silva e Jair Bolsonaro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Bolsonaro de Campos ao Acre

Campos deu a Jair Bolsonaro (hoje, PL) 64,87% dos seus votos válidos no segundo turno presidencial de 2018. Foi quase 10 pontos a mais do que os 55,13% da votação nacional do capitão. Não há pesquisa confiável para dizer se a maioria do eleitorado campista continua bolsonarista, ou não. Mas é fato que o município contribuiu menos à eleição do presidente do que o Acre, estado mais bolsonarista do país em 2018. Que deu 77,22% no turno final ao vencedor — 12 pontos a mais que Campos. E, ainda que no empate técnico, o ex-presidente Lula (PT) já ultrapassou Bolsonaro nas pesquisas presidenciais de 2022 até no Acre.

 

Lula no primeiro turno?

Encomendada pela Federação das Indústrias do Acre (Fieac), a pesquisa Perfil deu a Lula 34,5% das intenções de voto daquele estado, contra 33,2% de Bolsonaro. É diferença bem mais apertada do que no resto do Brasil. Nas duas últimas semanas, cinco pesquisas nacionais — Quaest, Ipec, Datafolha, MDA e Ipespe — registraram que, se a disputa fosse hoje, Lula a venceria no primeiro turno. Mas o fato é que Lula sempre precisou de dois turnos para se eleger presidente: em 2002 e 2006. Desde que o segundo turno foi instituído em 1989, só Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se elegeu presidente em turno único: em 1994 e 1998.

 

A impossibilidade da rejeição

Com o segundo lugar nas intenções de voto em todas as pesquisas, Bolsonaro ultrapassa os 50% de rejeição em todas elas — na Datafolha bateu 60%, 62% na Ipespe. O que torna sua reeleição aritmeticamente impossível em um eventual segundo turno. Que só existe para que um candidato atinja o mínimo de 50% mais um dos votos válidos. Mais do que aumentar suas intenções de voto dos 20% a 25% em todas as pesquisas, contra um Lula entre 42% e 49% — números maiores se contados só os votos válidos —, o capitão precisa diminuir a rejeição. No que conta com seu Auxílio Brasil, que pagará R$ 400,00 mensais a 14,5 milhões de famílias.

 

Moro e a toalha jogada por Olavo

Terceiro colocado na corrida, isolado em algumas pesquisas, em empate técnico com Ciro Gomes (PDT) em outras, o ex-juiz federal Sergio Moro (Podemos) está cerca de 15 pontos distante do segundo. Seu desafio foi melhor definido pelo jornalista Lauro Jardim: não é Moro x Bolsonaro, mas Moro x o erário. Ainda assim, ciente das grandes dificuldades do capitão em se reeleger, o astrólogo Olavo de Carvalho, considerado “guru do bolsonarismo”, ontem jogou a toalha: “Não venham com esperanças tolas, porque a briga já está perdida”. Traduzindo, goste-se ou não, o fato é que Lula termina 2021 como franco favorito a outubro de 2022.

 

PL no RJ com Bolsonaros e Castro

As articulações presidenciais movimentam também as eleições legislativas no estado do Rio e em Campos. A migração de Bolsonaro e seu clã ao PL, assim como do governador Cláudio Castro, gera expectativa de crescimento das suas bancadas em 2022. O senador Flávio Bolsonaro se reuniu na segunda (20) com o presidente estadual da legenda, deputado federal Altineu Côrtes. A expectativa é eleger de 12 a 16 deputados federais e de 10 a 14 estaduais. Primeiro suplente à Câmara Federal do PL no estado, Marcão Gomes confirmou sua nova pré-candidatura ao cargo em outubro. Mas lembrou que pode voltar a ocupá-lo antes.

 

Marcão aposta

“A chegada do governador Cláudio Castro e do presidente Bolsonaro ao PL irá sacudir o tabuleiro eleitoral do RJ. Tenho conversado semanalmente com nosso presidente Altineu. E há negociações avançadas para a chegada de deputados federais à nossa bancada. O PL pode saltar de partido de força mediana para a condição de maior do estado às vésperas da eleição. Nossa pré-candidatura a deputado federal está consolidada. E há ainda a possibilidade de assumir o mandato em 2022, caso a deputada Soraya Santos ganhe a vaga de ministra do TCU, eleição no primeiro trimestre do próximo ano”, disse Marcão à coluna.

 

Ironias da política ao futebol

A saudação à chegada de Bolsonaro ao PL por Marcão tem dupla ironia. Vereador de Campos por dois mandatos, chegou ao primeiro pelo PT. E só não se elegeu deputado federal em 2018 pela onda bolsonarista. Ironia por ironia, ele devolveu a feita pelo prefeito Wladimir Garotinho (PSD) no Folha no Ar na última sexta (17), sobre quem seria o pé frio na derrota do Flamengo na final da Libertadores em Montevidéu, à qual ambos foram: “Que ele não seja um prefeito pé frio e resolva os problemas do município. E que, na próxima final do Mengão, Wladimir não vá para testar se o pé frio é ele, como disseram os internautas (risos)”, provocou Marcão.

 

“Esquerdas” nas Américas

Além das dificuldades em todas as pesquisas nacionais, Bolsonaro enfrenta conjuntura internacional adversa à sua reeleição. Começou com a eleição presidencial de Alberto Fernández na Argentina em 2019, passou por Joe Biden nos EUA de 2020 e, no último domingo (19), chegou mais perto com Gabriel Boric no Chile. Fernández é peronista e só pode ser considerado de esquerda por quem não conhece nada do peronismo. Biden sempre foi um moderado. Boric, sim, aos 35 anos, representa a esquerda. Mas uma inserida no século 21, que não parou no tempo da Guerra Fria que matou o ex-presidente chileno Salvador Allende em 1973.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

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Municípios da Bacia de Campos no ranking do PIB

 

Municípios no processo de metropolização da região fluminense da Bacia de Campos

 

William Passos, geógrafo co especialização em estatística e desenvolvimento regional

Campos, Niterói e Maricá entre os maiores PIBs do Brasil

Por William Passos

 

O município de São Paulo concentrou, sozinho, 10,3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em 2019, totalizando uma produção econômica de R$ 763,8 bilhões. Os pualistanos tiveram ganho de participação na soma de todos os bens e serviços finais produzidos pelo país na comparação com o ano de 2018. A maior metrópole da América Latina, porém, foi seguida por Maricá e Saquarema, que, somadas, adicionaram mais de R$ 47,6 bilhões à produção econômica do país em 2019, evidenciando a força da economia do petróleo da Bacia de Santos. Já Campos dos Goytacazes, que liderou em 2019 a produção da Bacia de Campos, e já foi, em 2012, a 6ª maior economia municipal do Brasil, encerrou o ano de 2019 na 33ª colocação. Das 25 maiores economias municipais do país, 11 são capitais. Os dados são do PIB dos Municípios Brasileiros 2019, divulgado na sexta-feira (17) pelo IBGE,

Com isso, entre os maiores produtores de petróleo do Brasil, o último ano antes do choque econômico pandêmico internacional da Covid-19 fechou com Niterói se posicionando como o 18º maior PIB do país, totalizando uma produção econômica de R$ 46,6 bilhões, graças à produção do petróleo da Bacia de Santos. Maricá, por sua vez, também limítrofe à Bacia de Santos, assumiu a 22ª colocação, totalizando R$ 37,5 bilhões de produção econômica. E Campos, que liderou em 2019 a produção da Bacia de Campos e encerrou 2019 na 33ª colocação, registrou um PIB de R$ 29,1 bilhões.

A produção da Bacia de Campos foi responsável ainda pelo desempenho de Cabo Frio (o 97º maior PIB do país em 2019, com produção de R$ 11,5 bilhões) e de Rio das Ostras (o 153º maior PIB brasileiro, com o total de R$ 7,7 bilhões).

A grande novidade, no caso da Região da Bacia de Campos, foi a economia de Macaé, que posicionou-se como a 71ª maior economia municipal brasileira impulsionada muito mais pela contribuição do setor de serviços e da Administração Pública do que propriamente pela produção da Bacia de Campos. Dentro do total de R$ 15,1 bilhões produzidos pelo município em 2019, a produção extrativa foi apenas a terceira atividade com o maior valor adicionado bruto, o que pode indicar uma tendência de terciarização da economia macaense e de maior amadurecimento do perfil econômico da sede da Petrobras, após mais de 4 décadas do início da produção comercial de petróleo no litoral Norte Fluminense.

Ainda na Região, mas sem grandes surpresas, São João da Barra posicionou-se como a 150ª maior economia do país, com uma produção de R$ 8,0 bilhões, impulsionada pelo Porto do Açu, o 2º maior porto em movimentação de cargas do país, atrás apenas do Porto de Santos.

 

PIB per capita

A economia do petróleo também foi responsável por posicionar os municípios da Região entre as maiores economias relativas do país. Entre os maiores PIB per capita municipais do Brasil em 2019, estão o líder Presidente Kennedy, que totalizou R$ 464.883,49 de produção econômica por habitante, graças ao fato de confrontar seu território aos blocos de exploração de petróleo do Parque das Baleias, situado na porção capixaba da Bacia de Campos.

Maricá, por sua vez, na 16º colocação nacional, liderou o PIB per capital municipal do estado do Rio de Janeiro em 2019, totalizando R$ 232.761,15 de produção econômica por habitante.

Na sequência, entre os municípios fluminenses, surgiram ainda São João da Barra, o 18º PIB per capita nacional, com R$ 220.707,37, e Quissamã, que já foi o 3º maior PIB per capita do Brasil em 2012, mas que fechou 2019 na 33ª colocação nacional, com R$ 154.726,99 produzidos, sobretudo, graças à produção de petróleo da Bacia de Campos.

Entre os municípios produtores de petróleo, no ranking dos 100 maiores PIBs per capita nacionais em 2019, figuraram ainda dois municípios produtores da Bacia de Santos: Saquarema, na 58ª colocação, com R$ 120.175,92 de PIB per capita, e Niterói, na 97ª posição, com R$ 90.643,80 de produção econômica por habitante.

 

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Com Bolsonaro de cabo eleitoral, Lula tem desafio maior que a urna

 

Lula da Silva e Jair Bolsonaro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Instituída no Brasil pela Constituição de 1988, nas disputas a presidente, governador e prefeito de municípios com mais de 200 mil eleitores, o segundo turno visa eleger o chefe do Executivo pelo mínimo de 50% mais um dos votos válidos. O que, nas pesquisas Ipec (antigo Ibope), Datafolha e CNT/MDA divulgadas esta semana, torna a reeleição do presidente Jair Bolsonaro (PL) aritmeticamente impossível, no eventual segundo turno de 2022. O capitão teve 55% de rejeição na Ipec, 60% na Datafolha e 59,2% na CNT/MDA. Descontada a margem de erro dos três institutos, o resultado é o mesmo: o número de brasileiros que não votariam de maneira nenhuma em Bolsonaro hoje é maior do que o máximo de eleitores que ele poderia ter.

Se o que define no primeiro turno são as intenções de voto dos candidatos, no segundo entre os dois mais votados, o vencedor final é definido pela rejeição, que fixa o teto de crescimento de cada um. Hoje, o único que aparece com chance real de fechar a fatura no primeiro turno é o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Líder isolado da corrida, ele apareceu com 48% de intenções de voto na Ipec, 47% no Datafolha e 42,8% na CNT/MDA. Pelas três, descontados os votos brancos, nulos e ainda indecisos, Lula seria eleito presidente em turno único. No segundo lugar, também isolado, Bolsonaro bateu 21% de intenções de voto na Ipec e Datafolha, com 25,6% na CNT/MDA. A semelhança entre todos os números atesta seu retrato presente da realidade.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

As três novas pesquisas da semana colocaram freio no crescimento rápido do ex-juiz federal e ex-ministro da Justiça de Bolsonaro, Sergio Moro (Podemos). Que passou a ocupar o terceiro lugar isolado em quase todas as pesquisas anteriores, tão logo entrou na corrida no final de outubro. A Genial/Quaest, feita entre 2 e 5 de dezembro, ouvindo 2.037 eleitores, deu Lula com 46%, Bolsonaro com 23%, Moro com 10% e Ciro Gomes (PDT) com 5%. A Exame/Ideia Big Data, feita entre 6 e 9 de dezembro, ouvindo 1.200 eleitores, deu Lula com 37%, Bolsonaro com 27%, Moro com 10% e Ciro com 6%. Ambas foram divulgadas na semana passada.

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Divulgadas nesta semana, a Ipec foi feita entre 9 e 13 de dezembro, ouvindo 2.002 eleitores. E deu Moro com 6%, em empate técnico com Ciro, que teve 5%. A Datafolha foi feita entre 13 e 16 de dezembro, ouvindo 3.666 eleitores. E deu Moro com 9%, em empate técnico com Ciro, que teve 7%. Por sua vez, a CNT/MDA foi feita entre 9 e 11 de dezembro, ouvindo 2.002 eleitores. E deu Moro com 8,9%, e Ciro com 4,9%. Ainda que nesta o ex-juiz tenha ficado fora do empate técnico com o ex-governador do Ceará, registrado apenas na Ipec e Datafolha, nas três o ícone da Lava Jato ficou abaixo do simbolismo “mágico” dos dois dígitos nas intenções de voto.

Apesar da impossibilidade matemática de se reeleger, Bolsonaro surge claramente como o eixo da eleição de 2022. Que tende a ser um plebiscito do seu governo, como foi do governo Donald Trump a eleição presidencial dos EUA em 2020. Para terem uma chance, as opções de terceira via no Brasil têm que focar suas baterias contra Bolsonaro, esquecendo de um Lula que tudo indica já estar no segundo turno. O último tiro do atual presidente para tentar reverter sua rejeição é o Auxílio Brasil de R$ 400,00, aprovado por um Congresso comprado com os R$ 17 bilhões do Orçamento Secreto. Entre agosto e dezembro de 2020, enquanto era pago o Auxílio Emergencial de R$ 600,00, foi o único período em que a aprovação popular de Bolsonaro superou a reprovação.

 

Em 7 de narço de 2020, em Mar-a-Lago, na Flórida, Jair Bolsonaro e o então presidente dos EUA, Donald Trump (Foto: Alan Santos/PR)

 

A partir das pesquisas de março de 2022, após o Carnaval, talvez já se tenha ideia se o Auxílio Brasil conseguirá diminuir a rejeição hoje impeditiva de Bolsonaro. É preciso ter dúvidas. Afinal, R$ 600,00 não são R$ 400,00, cujo valor real na comparação direta será, na verdade, R$ 280,00, descontados os 20% da inflação acumulada nos dois últimos anos. São fruto da grave crise econômica que, segundo todos os economistas, vai piorar ainda mais no próximo ano. Consequência do calote nos precatórios — dívidas transitadas em julgado de pessoas físicas e jurídicas a receber da União —, furo do teto de gastos e irresponsabilidade fiscal para bancar um programa populista e eleitoreiro. De um governo que se elegeu em 2018 como “liberal” na economia.

Tampouco ajuda a diminuir a rejeição de Bolsonaro sua guerra particular às vacinas contra a Covid. Não bastassem as centenas de milhares de compatriotas adultos que matou ao atrasar dolosamente a compra de imunizantes, o presidente agora quer colocar em risco a vida das nossas crianças de 5 a 11 anos. Parece ignorar que sua “guerra” a favor da pandemia está perdida, graças à cultura vacinal do povo brasileiro. Não fosse o orgulho boçal por não ter lido nenhum livro nos últimos três anos, poderia descobrir que a Revolta da Vacina já foi lutada e vencida no Brasil, pelo médico sanitarista Oswaldo Cruz, desde 1904. Que contou à época com o apoio de militares comprometidos com o país, como é o contra-almirante e médico Antonio Barra Torres, presidente da Anvisa.

 

Charge da época de Leonidas Freitas retrata o sanitarista Oswaldo Cruz no enfrentamento à Revolta da Vacina, na cidade do Rio de Janeiro, então capital da República, em 1904

 

Bolsonaro age para tentar cristalizar sua base fanatizada, entre 20% e 25% dos brasileiros, com medo de perder a vaga no segundo turno. Mas, ao fazê-lo, cristaliza também a rejeição que torna impossível para ele se reeleger.

Com inteligência política ainda muito acima dos potenciais adversários de outubro, ou dos que creem ser ele a “a alma viva mais honesta neste país”, Lula nunca teve um cabo eleitoral tão poderoso quanto Bolsonaro. Se hoje cata décimos de voto como arroz para tentar vencer no primeiro turno de 2022, e finalmente se igualar a Fernando Henrique Cardoso (PSDB) em 1994 e 1998, o petista os soma sabiamente. Sejam da centro-direita, numa possível chapa com o ex-tucano Geraldo Alckmin; sejam da centro-esquerda, na solidariedade pública a Ciro, após este ter sido alvo de operação no mínimo estranha de uma Polícia Federal aparelhada politicamente pelo bolsonarismo.

 

Ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula firmaram pacto pela democracia no Brasil, em almoço na casa do ex-ministro de ambos e do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, em 12 de maio deste ano (Foto: Divulgação)

 

Se confirmar seu favoritismo nas pesquisas, Lula sabe que o mais difícil será governar um Brasil dividido desde as suas famílias. Que não se unirá com sua eventual volta ao poder. Para tentar superar uma crise econômica agravada pela incompetência de Bolsonaro e Paulo Guedes, mas aberta pelos petistas Dilma Rousseff e Guido Mantega. Sem poder surfar mais uma vez as “vacas gordas” das commodities internacionais, teria que provar que tipo de presidente pode ser nas “vacas magras”. Com parte das Forças Armadas disposta a exercer o papel inconstitucional de “Poder Moderador”. E que não estaria disposta a aceitar passivamente um novo assalto “companheiro” à Petrobras.

 

Publicado na Folha da Manhã de hoje.

 

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Wladimir: HGG, novo Restaurante, Ponte, Porto, buracos e eleições

 

Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

Nota entre 7,5 a 8 ao primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD). Foi a nota que o próprio prefeito de Campos se deu durante o Folha no Ar, na Folha FM 98,3, no início da manhã de ontem. Ele falou de sorte e azar no futebol, de Influenza e Covid, da volta às aulas com exigência de vacina, de Réveillon sem shows e verão com eventos, das obras no Hospital Geral de Guarus (HGG), do adiamento do Restaurante Popular de Guarus para 2022, do que falta à conclusão da Ponte da Integração, da polêmica do bônus ao servidor, dos problemas urgentes do Transporte Público, de um novo acesso rodoviário ao Porto do Açu fora da cidade de Campos, da promessa de R$ 78 milhões para tapar os muitos buracos das ruas, de recuperação da infraestrutura rural, do racha na base governista e da relação entre Executivo e Legislativo, da força do setor produtivo ao barrar sua proposta do Código Tributário, do alerta pela folha da Prefeitura superar a sua arrecadação própria, das candidaturas do seu grupo político a deputado federal e estadual, da possibilidade da sua esposa Tassiana ser uma delas, do seu apoio eleitoral ao governador Cláudio Castro (PL), da sua indefinição a presidente entre Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL), do início de um parque ecológico até o fim do seu mandato, da possibilidade de reajuste ao servidor só em 2023, da avaliação da sua administração até aqui, e da ferrovia que pode fazer de Campos, São João da Barra e região “a porta de entrada e saída do mundo”.

 

(Foto: Folha da Manhã)

 

Pé frio na derrota do Flamengo na final da Libertadores? – Primeiro, dizer que eu estava em Lima na vitória contra o River Plate (na final da Libertadores de 2019). Então, eu não sou pé frio. Mas, tinha muito campista lá (em Montevidéu), eu encontrei um monte. Eu até postei na minha rede social que o verdadeiro pé frio é o ex-vereador, candidato a deputado Marcão Gomes (PL), que estava lá e que não estava em Lima (risos). Então, acho que o pé frio foi ele.

Vacinação contra Influenza – Ontem, inclusive, vi uma postagem do governador Cláudio Castro agradecendo ao governador de Minas Gerais (Romeu Zema, Novo) por ter mandado doses da vacina para o estado do Rio de Janeiro, e que elas agora serão repassadas aos municípios. Nós estamos com problema de falta de vacina. Assim como tivemos também, durante um período, a falta da vacina da Covid, nós estamos com a falta da vacina da Influenza. Há bem pouco tempo, chegaram 2.500 doses da vacina, mas isso acaba em três, quatro dias, no máximo, porque a procura está muito grande. Realmente existe um surto no estado do Rio de Janeiro inteiro. Em Campos não é diferente, até porque nós somos uma metrópole. Muita gente aqui viaja para o Rio, está nesse fluxo diário. Eu sigo sempre as orientações da minha equipe de saúde: o doutor Charbell (Kury) junto com o doutor Rodrigo Carneiro, na nossa Atenção Básica. São profissionais muito competentes, muito dedicados, e a estratégia que eles definirem é que nós vamos seguir. A gente anunciou também uma repescagem, com pontos de vacinação para a H1N1 e para gripe. A gente não pode colocar em muitos pontos espalhados, até porque tem pouca vacina. Quanto mais vacina chegar, mais pontos a gente pode abrir.

Volta às aulas irreversível com vacina com exigência de vacinação contra a Covid – Ratifico as duas coisas (que Charbell anunciou no Folha no Ar de quinta): tanto que é um caminho sem volta quanto que vai ser cobrado, sim, o comprovante de vacinação. As pessoas precisam se vacinar, já existe a liberação da Anvisa, inclusive, para a vacinação em crianças. A minha filha, por exemplo, de 12 anos, já tomou as duas doses. Meu filho ainda não tomou, ele tem 9 anos, mas a liberação da Anvisa começou agora. Então, meu filho também vai tomar a vacina. E a gente vai, sim, exigir isso. Não é, como alguns ainda tentam colocar, uma ditadura, uma imposição. Muito pelo muito pelo contrário, isso é questão de Saúde Pública. A gente vê o que acontece em vários países quando a vacinação é baixa. Inclusive, a nova variante é derivada da África, que tem pouca cobertura vacinal. Então, a gente vai exigir, sim. É importante que as pessoas entendam isso. E a gente vai voltar às aulas no início de fevereiro.

Sem shows no Réveillon, mas com eventos no verão – Diferente do Rio de Janeiro, capital, onde a queima de fogos é a principal atração, não é o caso aqui de Campos, não é o caso na praia do Farol e nem Lagoa de Cima. Geralmente, o que leva o público são os eventos, são os shows nacionais que a Prefeitura sempre promove. Nós vamos fazer, sim, uma queima de fogos simbólica. Não vamos ter evento algum no Réveillon, para evitar aglomeração. Mas, nós estamos numa fase em que é impossível a gente controlar totalmente as pessoas, e nem queremos isso mais. Campos ainda tem cerca de 33 ou 34 mil pessoas que não se vacinaram nem com a primeira dose. Eu faço aqui um apelo, mais uma vez, para que essas pessoas se vacinem, busquem o posto de vacinação mais próximo. Hoje, não temos mais fila alguma, é só chegar ao posto que vai ser vacinado. Então, quanto ao Réveillon, Campos foi a primeira cidade da região a adotar essa postura. Quanta à programação de verão, nós teremos, sim, com artistas locais, porque eu pedi isso ao Sesc, inclusive. Ao invés de trazer nomes nacionais, vamos priorizar a cultura local, os artistas locais, que sofreram tanto por não poderem trabalhar durante a pandemia. Eles (do Sesc) têm lá uma curadoria que avalia as bandas, os ritmos. E vamos fazer muita força nos eventos esportivos. Vai ter muito evento esportivo: futevôlei, capoeira, beach tennis, durante o verão inteiro. Também eventos culturais, através da tenda cultural. Acho que a programação vai ser boa e vai ser a contento para todos os veranistas do Farol de São Tomé e também de Lagoa de Cima.

Nova ala do HGG até abril – As obras do HGG estão em ritmo aceleradíssimo. Quando você chega de manhã, à noite já é uma realidade completamente diferente. As equipes estão trabalhando até as 22h. Eles me pediram autorização para instalar refletores para trabalho noturno. Eu, obviamente, autorizei. O dinheiro para as obras já está em caixa na Prefeitura, o Estado já repassou. Então, não tem por que pedir que a empresa não acelere as obras. Eu fico, pessoalmente, muito feliz com isso. É uma realidade antiga daquele hospital, que desabava na cabeça das pessoas, que chove dentro, até hoje. Mas, nós temos etapas daquela obra. A primeira etapa é a parte da frente, aquela antiga estrutura metálica, que começou ainda no governo Rosinha e que já está toda concretada, já está com mais da metade do telhado, a parte hidráulica de piso já foi toda feita, e já está começando a levantar parede. Isso em 20 e poucos dias de obra. Então, a nossa previsão é de que, no máximo até abril, a gente entregue 100% concluída a primeira etapa. Aí, a gente vai transferir os pacientes que estão no prédio antigo para essa ala nova. E aí entrar na nova etapa da obra, que é a restauração. Na verdade, é a reforma completa do prédio antigo. São duas etapas de obra. A gente só liberou, por enquanto, a primeira parte, porque não teria condição de fechar o atendimento.

R$ 1 bilhão do Governo do Estado a Campos – O governador Cláudio Castro veio aqui em Campos e anunciou R$ 500 milhões de investimento para a cidade. Eu já posso antecipar que serão mais de R$ 500 milhões, bem mais, até podendo dobrar, podendo chegar a R$ 1 bilhão de investimento aqui no município. Quando eu apresentei os projetos a ele, eu falei que o HGG era prioridade das prioridades: “Cláudio, não adianta a gente fazer nada na cidade se tiver um hospital que é referência para a região inteira caindo do jeito que está”. Não estava na agenda oficial dele a visita ao hospital, mas eu agarrei-lhe pelo braço e falei: “O senhor tem que parar comigo aqui no hospital para ver a realidade do povo e me ajudar a dar uma solução para isso”. Porque, naquele momento, eu não tinha nenhuma perspectiva de ter recurso para fazer aquela obra. Ele, ao entrar no hospital, ficou sensibilizado. Eu corri aqui, junto com a Prefeitura, para fazer o projeto em tempo recorde. Comecei a obra na confiança de que o governador iria repassar o dinheiro, porque, quando a gente começou, o dinheiro não estava nem no caixa da Prefeitura ainda. A gente vai acelerar, sempre que possível, dependendo aí das condições climáticas. Quando chove, é difícil você fazer obra. Mas, por isso até, a gente avançou no telhado, para poder continuar fazendo a obra civil interna nessa primeira etapa do hospital. Estou muito contente.

Restaurante Popular em Guarus prometido para novembro adiado para 2022 – Eu fiz essa pergunta ao secretário estadual de Assistência, o Matheus Quintal. Ele disse que houve um atraso na licitação. Como todos sabem, é uma parceria. O Estado entra fornecendo a alimentação, e a Prefeitura entra com o pessoal de apoio e também, se possível, com o local. Já arrumei o local, é um galpão ali na rua da delegacia em Guarus, a Prefeitura vai reformar. É coisa pequena que precisa fazer lá: pintura e parte elétrica. Mas, eu dependo da licitação por parte do Governo do Estado para o fornecimento da alimentação. O que o secretário me disse é que vai ser licitado ainda dentro do mês de dezembro, para poder começar no próximo ano. Tanto o Restaurante Popular de Guarus quanto o Café do Trabalhador, que vai ser na rodoviária Roberto Silveira, no quiosque da Prefeitura também. O Estado vai fornecer, se eu não estiver enganado, 500 cafés da manhã para o trabalhador na Rodoviária (Roberto Silveira). Até porque, eu disse ao secretário Matheus Quintal que se, por acaso, der algum problema no Café do Trabalhador, a Prefeitura vai assumir por completo, porque é um custo barato. A gente está falando em torno de R$ 40 mil por mês para servir ali 500 cafés da manhã por dia para os trabalhadores na Rodoviária. Como disse, eu confio na parceria com o governador. Eu entendo, até porque sofro com isso também aqui: a burocracia, às vezes, do serviço público na questão de licitação. Você tem edital, às vezes tem impugnação de edital, prazo de recurso.

Ponte da Integração – Estive no Tribunal de Contas (do Estado, TCE) há pouco tempo, numa agenda para tratar de assuntos da Prefeitura de Campos, e perguntei se alguém tinha alguma informação que pudesse me dar a respeito da Ponte da Integração. A gente tem que tomar muito cuidado com o que é ventilado, porque ainda existe pendência no Tribunal. Eu ouvi isso de uma pessoa de dentro do Tribunal, também já tinha ouvido isso do secretário das Cidades, o Uruan Cintra: “Olha, o Estado já tem o dinheiro separado para terminar a ponte, que é pouca coisa, e também já tem os projetos para fazer os acessos. Mas, dependemos de uma pequena autorização do Tribunal de Contas, que disse, naquela época, que não tinha pendência nenhuma. Mas, tem. Tem uma pendência do corpo instrutivo ainda, relacionada àquela obra”. Eu também disse ao governador Cláudio Castro que talvez fosse a obra mais marcante dele para a região. Mas, eu disse isso antes de ver os outros projetos, principalmente no que diz respeito ao acesso ao Porto do Açu, que vai gerar muito desenvolvimento para toda a nossa região. Então, posso afirmar que tem um conjunto de obras, entre elas a Ponte da Integração. Não posso dar prazo, até porque não estou acompanhando de perto esse assunto, mas é uma obra que interessa ao governador, interessa a todos nós, e ele vai estar batalhando para poder resolver. Mas existe ainda uma pendência do corpo instrutivo do Tribunal em relação ao que já foi gasto para fazer a ponte. O que o corpo instrutivo alega é que o valor que já foi gasto para fazer a ponte é muito superior ao contratado, e que a ponte não foi terminada. O caminho que está se tomando no Tribunal é que, se for o caso de se comprovar que já houve um valor muito acima efetivamente pago e a ponte não esteja pronta, que se puna a empresa que está fazendo, não se puna a obra, para que a obra não continue paralisada do jeito que está. Não existe nada que impeça a obra, mas existe impossibilidade de o Estado pagar a empresa. O corpo instrutivo está preparando como vai dar uma saída ao Estado para continuar a obra.

Polêmica do abono ao servidor – O auxílio tecnológico tem dado uma certa polêmica, desnecessária no meu ponto de vista. O abono não é possível ser pago aos aposentados, por uma questão legal. A Previcampos não pode pagar gratificações, auxílios e abonos, a Previcampos só pode pagar salário. É bom explicar que eu anunciei um auxílio tecnológico de R$ 2 mil para toda a rede de Educação. Isso foi, na época, muito comemorado, mas também houve muito pedido e muito questionamento a respeito da nota fiscal que seria exigida pelo auxílio tecnológico. Por que a nota fiscal? Como o dinheiro é federal, é verba do Fundeb, eu preciso prestar conta disso, eu preciso justificar o gasto. Então, dentro de cada processo, porque em cada auxílio eu abro um processo individual do profissional, eu preciso anexar a nota fiscal, para depois prestar contas ao MEC. Mas houve um pedido pessoal, no evento no Trianon, de toda a rede, inclusive o vereador Maicon Cruz (PSC), que é presidente da Comissão de Educação (da Câmara Municipal). Ele fez esse pedido no microfone, em nome de toda a rede, de que não se cobrasse a nota fiscal, porque o salário está defasado. E é verdade. E eu disse, naquela oportunidade, que a Prefeitura estava estudando uma maneira de que não fosse cobrada a nota fiscal. Qual foi a maneira encontrada? A gente só mudou a fonte de recurso para recurso próprio. Nós não estamos dividindo o Fundeb, como alguns estão tentando dizer, para todos os da Prefeitura. Pelo Fundeb teria que apresentar a nota fiscal, a gente preferiu não pagar com o Fundeb e pagar com recurso próprio. E aí, como não tinha a necessidade da apresentação da nota fiscal, a gente estendeu para toda a rede, porque a gente tinha folga de caixa, temos folga de caixa hoje para poder pagar a todos os funcionários da rede. Então, na verdade, houve uma ampliação daquilo que seria o auxílio tecnológico. Seria apenas para a Educação. Hoje, é para todos os funcionários ativos da Prefeitura. Depois, criaram uma história de rateio do Fundeb. Gente, isso não tem previsão legal. Eu lamento que alguns tenham tentado polemizar uma coisa que é boa para todo mundo: eles vão ganhar os R$ 2 mil, como estava prometido. Só mudou o apelido de auxílio tecnológico para um bônus extraordinário, e todos os outros profissionais da ativa também vão receber.

Transporte público – O maior desafio atual de Campos é o transporte público, que também é o maior desafio futuro. Hoje nós amanhecemos com um grande problema, porque ontem teve uma decisão judicial do doutor Eron (Simas, pela 4ª Vara Cível) determinando que as vans deixem de circular (a decisão foi para não circularem nas linhas exclusivas dos ônibus). Inclusive, está gerando desde ontem uma sede de ruídos, hoje pela manhã já está tendo a paralisação. A paralisação foi determinada a partir de segunda-feira, mas já tem van parando hoje, com certeza teremos barulho na cidade, manifestações, enfim. Por outro lado, as empresas de ônibus de Campos estão com a sua frota bastante sucateada, com muito pouco ônibus na rua. Eles alegam, obviamente, passagem defasada, o diesel esse ano subiu mais de 50%. Então, é uma realidade que não tem fácil solução, porque Campos tem 4 mil km², é o quinto maior município em extensão territorial do Brasil. Não é uma equação fácil da gente da gente fechar. Na campanha, eu dizia é que precisava haver o entendimento e que todas as pessoas envolvidas no setor de transporte buscassem uma solução para o transporte de Campos. E eu tentei isso ao longo desse primeiro ano. Eu tive reuniões tanto individuais quanto coletivas com permissionários de van, com empresários de ônibus, mas a conversa não avança, porque não existe compatibilidade de interesses entre os dois modais. É uma situação bem difícil de se resolver. Eu, inclusive, estou, a partir do próximo ano, lançando oficialmente o conselho da cidade, um conselho consultivo, onde a gente vai, com a sociedade civil e com especialistas, debater vários assuntos da nossa cidade. O primeiro tema desse conselho da cidade que eu vou levar é exatamente sobre o transporte público, porque é uma situação urgente, que está latente todos os dias para aquelas pessoas que precisam pegar o transporte para trabalhar, visitar alguma pessoa, e estão com muita dificuldade.

Acesso ao Porto do Açu fora da cidade de Campos – Sobre a questão da mobilidade, com o advento do Porto do Açu bem aqui do nosso lado, eu tenho um estudo da Firjan e do Dnit, do próprio Porto, que, a partir de 2023, nós teremos um fluxo de mais de 1.500 caminhões por dia em direção ao Açu. Você imagina isso tudo passando dentro do município de Campos? É um caos completo, é um caos absoluto. Para nossa sorte, digamos assim, dentro dos projetos do governador que nós estamos discutindo, existe uma rota de acesso ao Porto do Açu ali pela Estrada dos Ceramistas, pegando na rotatória ali do BPRV e seguindo em frente ali por dentro da Baixada Campista, o que não vai atrapalhar o trânsito da BR 356 para quem vai a São João da Barra, e vai tirar o tráfego de caminhões de dentro da cidade de Campos. A obra já está, inclusive, no portal de investimentos do Governo do Estado, que é o chamado Pacto RJ, o portal onde informa as obras que já foram aprovadas e que estão com orçamento empenhado. Essa é uma delas. É uma obra que, segundo o Governo do Estado, vai custar em torno de R$ 400 milhões. O projeto foi feito pelo próprio Porto do Açu, como uma rota alternativa de carga para poder chegar no porto.

R$ 78 milhões para tapar buracos – A Prefeitura de Campos, hoje, tem 10 equipes na rua tapando buraco todos os dias. Só que, infelizmente, é muito buraco. O pavimento da cidade é um pavimento antigo, Rafael (Diniz, Cidadania) não fez nenhum recapeamento em quatro anos. Então, o asfalto se deteriorou e existe uma condição ainda muito ruim do município de Campos em relação a isso. Mas, repito, nós tapamos buracos todos os dias. Eu, inclusive, ouvi de um amigo empresário, que mora aqui na região do Parque Tamandaré, que ele, pelo menos, hoje vê a Prefeitura tapando buraco. A gente sabe que tem muito mesmo. É uma coisa que me incomoda pessoalmente, inclusive. Mas, que pelo menos ele vê a Prefeitura tapando. Desde ontem (quinta) nós estamos tapando os buracos da estrada de Santa Cruz a Lagoa de Cima, que é um pedido antigo. A estrada tem 16 ou 17 km, toda a extensão da estrada estava completamente esburacada. É um trabalho contínuo, não vai resolver rápido, mas a boa é que, dentre os projetos que foram mandados, já aprovados e apresentados, nós temos lá com o secretário de Infraestrutura do Estado, Max Lemos, um grande projeto de recapeamento, principalmente de toda a área central do município de Campos. A princípio, seriam R$ 50 milhões, mas já aumentou, já tem R$ 70 milhões, nós conseguimos um pouco mais através do deputado Bruno Dauaire (PSC), que teve uma cota que ele conseguiu, de R$ 20 milhões de reais, e ele acrescentou aos R$ 50 milhões que eu já tinha conseguido com o governador Cláudio Castro. O processo já está lá, está em fase de instrução processual, de montagem de edital para poder licitar. Então, a gente vai ter o recapeamento de praticamente de todas as ruas da área central de Campos no próximo ano, nessa parceria entre a Prefeitura e o Governo do Estado do Rio de Janeiro. Meu WhatsApp tocou aqui e estão me lembrando que, além desse recurso de asfalto que o governador vai fazer aqui através do secretário Max, em dezembro de 2020, eu já tinha ganhado a eleição de prefeito, mas não tinha tomado posse, o senador Carlos Portinho (PL) destinou uma emenda de R$ 8 milhões a Campos para asfalto. Depois de muita burocracia junto à Caixa Econômica Federal, conseguimos destravar o projeto e a licitação foi marcada para o dia 18 de janeiro.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Receita própria não paga folha de servidor – A gente tem que fazer um ponto de reflexão de que o nosso acordo com o Tribunal vai até o final de 2024. A partir de 2025, não se pode mais usar nenhum recurso dos royalties para pagamento de pessoal, e a cidade precisa ter receita própria. Então, em algum momento, isso vai ter que voltar à pauta. Não é uma questão do Wladimir. Eu posso nem estar mais prefeito, em algum momento isso vai voltar à pauta. Os investimentos que nós faremos no município, tanto individuais quanto em parceria com o governador, são para aquecer a economia, para gerar outras fontes de riqueza, para que a Prefeitura possa ter mais arrecadação. Mas, se fosse hoje, o que a Prefeitura de Campos arrecada hoje de recurso próprio não paga a folha. Então, se eu não tivesse conseguido o acordo com o Tribunal, hoje o funcionário estaria sem salário, isso é uma realidade. Então, que o setor produtivo, a sociedade, os vereadores entendam que, em algum momento, pode ser com o Wladimir prefeito ou não, essa pauta de ajustes no Código Tributário terá que voltar à pauta em algum momento. E é bom que ninguém diga que foi pego de surpresa.

“Grupo terá em Campos dois candidatos a deputado estadual e dois a federal” – O que nós teremos em Campos, do nosso grupo político? Dois candidatos a estadual e dois candidatos a federal. Fora disso, quem quiser ser candidato, quiser disputar a eleição, eu não vou atrapalhar. Mas, eu não tenho compromisso de que a Prefeitura ou que o governo vá também ajudar da maneira. Vamos fazer força política para eleger aqueles com quem nós temos o compromisso assumido.

Garotinho e Marcelo Mérida a federal, Clarissa e Bruno Dauaire a estadual? – A gente está discutindo isso internamente no grupo. A gente não tem essa decisão tomada ainda. Nós vamos toma-la já no início do próximo ano, vamos decidir quem vai representar o grupo nas próximas eleições. Os nomes citados (Garotinho, Clarissa, Mérida e Bruno Dauaire) já são nomes postos, mas, dependendo do cenário, ainda tem uma vaga em aberto. A gente está discutindo internamente para decidir qual vai ser esse nome. Por que eu acho que não tem espaço para três candidaturas a deputado estadual em Campos? Aí é um ponto de discordância minha com o meu pai (em entrevista ao Folha no Ar em 15 de outubro, Garotinho cogitou que seu grupo lançasse dois candidatos a deputado federal e três a estadual): porque nós estamos numa região onde tem deputado. Por exemplo, o deputado Jair Bittencourt (PP) é de Itaperuna, mas ele é meu amigo pessoal e me ajudou muito a construir a minha candidatura a prefeito em Campos. Eu tenho um compromisso também com o deputado Jair de dar um espaço a ele aqui no município de Campos, para que ele possa fazer uma boa votação aqui e garantir a sua reeleição. E também é importante, porque fortalece a nossa região. Sou municipalista, mas também sou a favor da nossa região. Nós temos 22 municípios no Norte e Noroeste que precisam de representação, que precisam agir de maneira conjunta pelo desenvolvimento. Tem o Davi Loureiro (PRP) também, que é ex-prefeito de São Fidélis, um grande amigo da nossa família, que tem desejo de ser candidato a deputado estadual e é daqui da nossa região. Então, eu acho que não tem espaço para três candidaturas de Campos; tem espaço para duas, mas dando algum espaço também para as candidaturas da região. Os nomes estão postos, falta aí, dependendo do cenário de o Garotinho poder reunir condições jurídicas, definir mais um nome. A gente está, internamente, conversando sobre isso. Não há essa definição ainda, mas teremos, sim, já no início do próximo ano.

Apoio a Cláudio Castro para governador – Com certeza, estarei com o Cláudio Castro. Além de estar ajudando o município de Campos do ponto de vista institucional, é uma pessoa por quem eu aprendi a ter carinho, respeito muito grande. Uma pessoa muito habilidosa, muito sensível. Então, eu estarei com Cláudio Castro em qualquer situação, porque a gente tem que ter gratidão pelas pessoas que nos ajudam. Gratidão não prescreve, e ele tem sido muito correto com o município de Campos e tem nos ajudado muito.

Uma certeza a presidente: “não apoiaria Moro” – Eu não tenho posição formada sobre quem eu vou apoiar, mas tenho sobre quem não vou apoiar. Em hipótese alguma eu apoiaria Sérgio Moro, não existe essa possibilidade. Entendo e acompanho pesquisa, que é um retrato do momento, pode mudar. Hoje, a eleição está muito mais pró-Lula pelas pesquisas que eu tenho visto, mas não acho que a eleição esteja definida. Eu discordo do Lula em alguns pontos, concordo em outros, assim como também de Bolsonaro eu discordo em muitos pontos e até concordo em outros, do ponto de vista conservador de princípios. Mas discordo, por exemplo, de muitas coisas no governo Bolsonaro em relação à economia, discordo muito. Então, eu não tenho posição formada ainda em relação a presidente.

Tassiana só será candidata “se acontecer uma coisa muito inusitada” – Sobre a minha esposa ser candidata, há uma pressão popular da rua por isso, onde eu ando, onde ela anda. Mas, eu sou filho e fui, durante um período, de duas figuras públicas ao mesmo tempo: meu pai, governador; minha mãe, depois, governadora, e meu pai, secretário dela e depois candidato a presidente. Enfim, como filho adolescente que era na época, eu sofri muito com a ausência dos meus pais em casa. Não só eu sofri muito, como meus irmãos sofreram muito com isso. Essa é uma decisão pessoal e familiar. Minha esposa não será candidata porque eu acho que os meus filhos, um de 9 anos e uma de 12, precisam neste momento da atenção da mãe na criação e na formação pessoal deles. O pai, que sou eu, tenho pouco tempo. Tento aproveitar o máximo do tempo que posso com eles, mas é uma realidade: o nosso trabalho nos consome muito tempo. Eu não posso tirar a figura materna neste momento do meu filho e da minha filha. “Ah, mas ela não é candidata de jeito nenhum?”. Não, neste momento, ela não é candidata. Só se acontecer alguma coisa muito inusitada. Mas, esse não é o nosso desejo. Só se acontecer alguma coisa muito improvável, que eu não acredito que vá acontecer. Ela seria uma candidata forte, porque é a esposa do prefeito, o governo está medianamente bem avaliado, acho que até bem avaliado, bem acima da média nesse momento; ela é carismática, bonita, eu acho que ela é uma candidata muito forte naturalmente.

Votaria em Clarissa ou Bruno a estadual? – Pergunta maldosa (risos)! Sobre a Clarissa e o Bruno, eu torço para que um seja (candidato) a estadual e o outro, a federal, para eu poder votar nos dois.

Início do parque ecológico até o fim do mandato – O parque ecológico, inclusive, foi pauta de uma reunião minha ontem (quinta), quando recebi a cúpula do Santander no município de Campos para tratar sobre vários assuntos. Eu também já tive uma conversa com o pessoal do Porto do Açu, porque já existe um projeto de parque ecológico conceitual, que é ali na Arthur Bernardes, logo na entrada da cidade, numa área de 320 mil m² que foi desapropriada por Arnaldo (Vianna, PDT) num TAC (Termo de Ajustamento de Conduta). Ele fez um com o Ministério Público, desapropriou uma área que obrigatoriamente tem que ser destinada a um parque público, e, dentro desses 320 mil m² de área, 100 mil m² têm que ser de mata atlântica. Não é uma coisa que se constrói rápido, mas a nossa ideia é, dentro do nosso governo, dentro desses quatro anos, construir o pórtico de entrada, construir pistas de e caminhada e de acesso ao parque e plantar a mata atlântica. E aí depois buscar outras maneiras de melhorar o parque. Mas, é do nosso desejo, já estamos conversando com várias pessoas sobre isso e, se Deus quiser, teremos um parque ecológico dentro do nosso governo, para felicidade geral da nação e para o bem do meio ambiente. A gente vai ter um pulmão verde bem na área central de Campos e bem na entrada de Campos, logo ali no início da Arthur Bernardes.

Possível reajuste a servidor, só em 2023 – É uma equação que precisa ser discutida e debatida com responsabilidade e com verdade. Realmente, a inflação está muito alta, está corroendo o salário. Mas, a folha vai ser, a partir de 2025, 100% paga com recurso próprio. E, hoje, a arrecadação municipal não paga a folha. Então, até como reconhecimento do momento que o servidor vive e o reconhecimento do ano difícil que todos nós tivemos, eu estou dando esse bônus de final de ano. Inclusive, eu queria aqui deixar um o recado para os RPAs que estão me questionando de não receberem o bônus: o RPA é um funcionário autônomo, eu não tenho como dar bônus. Se eu pudesse, eu daria. Mas é uma equação difícil. É justo o pedido do servidor, mas a gente tem que ter responsabilidade, para que a Prefeitura de Campos não tenha problema de caixa e fiscal. Porque, se tiver, o que vai acontecer é salário de funcionário atrasar de novo, é chegar ao limite absurdo, mas que a legislação determina: quando você ultrapassa o limite de responsabilidade, você tem que demitir servidor. Ninguém quer isso. Nem o servidor quer, nem o Executivo quer, e acho que nem a sociedade quer, porque os salários em dia, pagos regularmente, por mais que não se possa dar reajuste, movimentam a economia da nossa cidade. Então, com responsabilidade, nós vamos fazer as projeções, fazer os estudos, torcer para que a economia da cidade reaqueça, que a gente possa tentar conversar com o servidor para o ano de 2023. Eu já disse ao sindicato, já disse aos servidores que para 2022 não é possível. Não tenho arrecadação própria para isso.

Nota de 7,5 a 8 ao primeiro ano de governo – Eu trabalho muito, me cobro muito, me dedico muito, e talvez essa dedicação exacerbada faça o meu olhar ser muito mais crítico também, porque eu vejo problema em tudo. Isso é da minha natureza: querer resolver, ver problema e querer resolver. Mas, pela situação que encontramos e onde conseguimos chegar hoje… A gente tinha um déficit no orçamento previsto de R$ 250 milhões entre receita e despesa, só previsto para frente, fora o que a gente herdou de dívidas reconhecidas e folhas de pagamento em atraso. E a gente não vai ter déficit este ano. A gente vai ter superávit este ano. E o gasto efetivamente, o que vai ser pago, que vai ser colocado na rua entre fornecedor, funcionário, vai ser na casa de R$ 1 bilhão e 800 milhões, que é mais ou menos o orçamento previsto deste ano, que foi de R$ 1 bilhão e 750 milhões, o orçamento que Rafael projetou para este ano. Nós vamos ter de execução, de fato, R$ 1 bilhão e 800 milhões, com melhora dos serviços. Não é ainda da maneira que gostaríamos em algumas áreas, mas a gente vai ter uma execução financeira parecida com o orçamento que foi projetado e com a qualidade de alguns serviços muito melhor do que nós tínhamos. Isso significa que nós temos sobra de caixa hoje, pelos novos recursos que entraram que não estavam previstos, pelo aumento da receita de royalties que teve também esse ano. Mas, é bom se frisar, porque as pessoas muitas vezes comparam a arrecadação de royalties deste ano com a do ano passado somente, mas 2020 não é parâmetro de comparação para nada; 2020 foi um ano em que a economia esfarelou, por conta da pandemia. Se você pegar, por exemplo, a arrecadação de royalties de 2018, que foi o segundo ano do governo Rafael, ele arrecadou mais de R$ 200 milhões a mais do que eu vou arrecadar este ano. Então, o royalty está recuperando em relação ao ano passado, mas ainda é muito menor do que já foi, tanto no governo Rosinha quanto em alguns momentos do governo Rafael. Tivemos recursos novos, que eu consegui, tanto em Brasília quanto no Estado. Nós vamos ter superávit orçamentário e uma sobra de caixa esse ano, o que vai nos permitir, no próximo ano, fazer novos investimentos para poder aquecer a economia da cidade. Então, baseado no que nós encontramos e na dificuldade demonstrada em vários painéis da Folha (sobre a crise financeira do município, publicados entre julho a setembro de 2020), dizendo da dificuldade que o próximo prefeito teria de equilibrar o orçamento do município diante de tantas dificuldades. E nós conseguimos fazer isso em menos de um ano. E, além de ter conseguido equilibrar o orçamento, a gente conseguiu coisas históricas e importantes em tão pouco tempo: não tem paciente em corredor no Ferreira Machado, no HGG. Nunca se viu isso, nem nos tempos áureos da Saúde de Campos (nos governos dos médicos Arnaldo Vianna e Alexandre Mocaiber, nas “vacas gordas” dos royalties). Eu convido quem quiser a ir no hospital ver que não tem gente no corredor, amontoada, como tinha antes. Então, a gente já avançou demais. Indo direto agora à nota, eu me daria de 7,5 a 8. Eu acho que pode melhorar, mas acho que nós fizemos um bom trabalho diante da complexidade que o momento exigiu. Eu estou muito animado e otimista para os próximos anos, mas eu acho que este ano 2021 a gente está fechando muito bem, até acima de algumas expectativas. Queria agradecer publicamente a toda a minha equipe, ao meu vice-prefeito, Frederico Paes, aos vereadores que contribuíram para os projetos importantes que nós mandamos para a Câmara. Para mim, Wladimir, valeu a pena. Eu acho que a gente pode avançar, acho que a gente vai avançar, a população vai perceber os serviços melhorando sempre. O mais importante é você acreditar na sua cidade. Campos tem um potencial gigantesco.

Ferrovia ao Porto do Açu – Eu vou dar uma notícia aqui em primeira mão, que eu recebi do secretário estadual de Desenvolvimento, Vinícius Farah: vai ser anunciada em breve uma parceria com o ministro Tarcísio (Freitas, de Infraestrutura) a liberação para início das obras da ferrovia, da EF 118, que vai ligar o Porto do Açu. Já está, foi aprovado no Congresso Nacional, agora recentemente, o novo marco para as ferrovias. Talvez algumas pessoas não tenham ideia da dimensão do que é isso. Campos, São João da Barra e a nossa região vão ser a porta de entrada e saída do mundo através do Porto do Açu. Nós vamos ser, por exemplo, o Centro de Fertilizantes do mundo, que vai ser instalado no Porto do Açu. Nós temos muitas possibilidades a médio prazo, não é nem a longo prazo, é a médio prazo. Então, acreditem na cidade. Eu tenho uma equipe motivada, uma equipe que trabalha muito. É papel dos secretários tocar o dia a dia e o varejo da Prefeitura: a troca de lâmpada, limpeza, tapar o buraco. Esse é o dia a dia, que quem toca é o secretariado. O prefeito não tem como estar 100% no dia a dia, os secretários estão ali para poderem fazer isso. Mas vocês têm um prefeito que trabalha muito, que é muito articulado e que precisa que vocês acreditem que a cidade de vocês tem um potencial gigantesco e teremos dias muito melhores daqui à frente.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira abaixo, em três bloco, a íntegra em vídeo da entrevista do prefeito Wladimir Garotinho na manhã de ontem ao Folha no Ar, da Folha FM 98,3:

 

 

 

 

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Wladimir e balanço de 1 ano de governo no Folha no Ar

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta sexta (17), quem fecha a semana do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (PSD). No balanço do primeiro ano do seu governo, ele falará sobre o combate à pandemia da Covid-19 e Saúde Pública, retorno às aulas e ensino fundamental no município. Falará também da retomada da secular vocação agropecuária de Campos, de infraestrutura rural e urbana, além de Transporte Público.

Por fim, Wladimir falará sobre a relação do seu governo com a Câmara Municipal e tentará projetar 2022, inclusive nas urnas de outubro. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Pandemia 2021/2022 em Campos no Folha no Ar desta 5ª

 

(Arte: Elaibe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quinta, o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Charbell Kury, médico epidemiologista e subsecretário de Atenção Básica e Vigilância Sanitária. Ele fará uma retrospectiva deste ano de 2021 no combate à pandemia da Covid-19 em Campos, que comandou. Falará também sobre a chegada da nova variante Ômicron ao Brasil e tentará projetar o que esperar da doença no município, no país e no mundo em 2022.

Por fim, Charbell analisará o 1º ano do governo Wladimir Garotinho (PSD), ao qual pertence, e falará das suas expectativas para as urnas de outubro do próximo ano. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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OAB eleita avalia 1º ano de Wladimir e eleições de 2022

 

Filipe Estefan, Carlos Alexandre de Azevedo Campos, Wladimir Garotinho, Cláudio Castro, Lula, Jair Bolsonaro e Sergio Moro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

OAB eleita avalia 1º ano de Wladimir

Fruto de dois processos eleitorais recentes que movimentaram a cidade, em novembro de 2020 e de 2021, como o governo Wladimir Garotinho (PSD) tem seu primeiro ano avaliado pela nova presidência da OAB-Campos? “Daria uma nota entre 7 e 8, talvez um 7. Ele chegou no meio da pandemia, entrou com uma equipe enxuta, avançou bem na Saúde Pública”, analisou Filipe Estefan, presidente eleito da OAB. “Daria um 7,5. Há empenho para melhorar a estrutura de Saúde da cidade”, endossou Carlos Alexandre de Azevedo Campos, vice eleito da OAB. Os dois foram entrevistados da manhã de ontem (13) no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3.

 

Nota 7

Para Estefan, o governo Wladimir avançou na Saúde, “não só no controle da pandemia, nos mutirões, mas na parceria com os (hospitais conveniados) filantrópicos. Eu fui advogado e diretor jurídico da Fundação Benedito Pereira Nunes (mantenedora da Faculdade de Medicina de Campos e do Hospital Escola Álvaro Alvim). Vejo avanço na recuperação de estradas vicinais, de escolas, de UBS, na limpeza pública. O Caged aponta um saldo positivo na geração de empregos. Colocou em dia o pagamento do servidor, o que é importante para a economia do município. Por isso dou nota 7 ao primeiro ano, mas tem muitos desafios pela frente”.

 

Nota 7,5

“A boa relação com os hospitais contratualizados é fundamental, como foi no enfretamento da pandemia, com decretos bem articulados, uma leitura técnica boa do fluxo de internações. E só não dou uma nota mais alta por conta de três pontos. Nas ruas da cidade, tem que haver uma melhora na questão dos buracos. Também acho que deveria haver uma ação social mais ativa nos moradores de rua. E o ponto mais negativo é o modo pouco democrático em que governo e presidência da Câmara têm atuado para calar a oposição. A tentativa de mudança à fórceps do Código Tributário é um pouco isso”, ressalvou Carlos Alexandre.

 

“Projeção muito boa a Castro”

Eleitos no pleito de uma categoria bastante politizada, na projeção das urnas ao Palácio Guanabara em 2022, os dois advogados apostaram na manutenção do seu atual ocupante. “O cenário seria o Cláudio Castro (PL), o (Marcelo) Freixo (PSB), talvez o (Hamilton) Mourão (PRTB), mas acho que ainda tem que haver algumas composições, que devem começar com força após o carnaval. Vejo uma projeção muito boa para o Cláudio Castro. Tem feito uma gestão bem serena, bem segura; soube organizar, soube compor, soube dialogar.  Acho que ele sai com uma vantagem, com a máquina, inclusive, e está sabendo usar”, avaliou Estefan.

 

“Tendência é Castro crescer”

“Acho que, na reta final para governador, a tendência é o Cláudio Castro crescer. A máquina do governo está funcionando, são muitos municípios sendo abastecidos com recursos estaduais. O plano de recuperação fiscal do estado ajuda isso, o Cláudio Castro é um aliado de Bolsonaro e a União não vai retroceder. O governador vai continuar com orçamento disponível para fazer a política dele e, com isso, adquirir apoio das prefeituras. E, consequentemente, com a devida propaganda, a gente fica sabendo nos nossos municípios o quanto que o governo estadual tem feito”, lembrou Carlos Alexandre.

 

Sem favorito a presidente?

O presidente e o vice eleitos da OAB também opinaram sobre a eleição a presidente da República. Nenhum deles questionou o fato das pesquisas registrarem o ex-presidente Lula na liderança isolada, seguido do presidente Jair Bolsonaro (PL) e do seu ex-ministro da Justiça Sergio Moro (Podemos) também isolados, respectivamente, na segunda e terceira posições. “Ainda é cedo, em que pese a maioria dos institutos indicarem o Lula, alguns até em primeiro turno. Não duvido de pesquisas, mas política é igual a nuvem, tem mudanças. Havendo um segundo turno, será uma disputa interessante. E aí não aponto favoritos”, frisou Filipe.

 

Lula x Bolsonaro x Moro

“É meu desejo que, se houver segundo turno, será Lula e Moro. E não descarto o crescimento do Moro a ponto de tirar Bolsonaro do segundo turno. Principalmente se os bolsonaristas mais fanáticos, que são muito antiLula, são muito antiPT, perceberem que Bolsonaro não tem a mínima condição de ganhar de Lula no segundo turno, mas que Moro tem condição, e mudarem o voto. Não consigo imaginar que essas pesquisas estejam mentindo, tamanha a diferença. Em 2018, nunca vi uma pesquisa sequer dando a vitória de (Fernando) Haddad (PT). É uma realidade: a reação ao péssimo governo de Bolsonaro”, interpretou Carlos Alexandre.

 

Prerrogativa do advogado

Além de analisarem um ex-juiz como Moro na disputa presidencial, os dirigentes da OAB assumiram como principal compromisso a defesa da prerrogativa dos advogados na relação com os juízes, além de serventuários e delegados. “Nós enfrentamos no passado essa questão com muito êxito. Quando um profissional é desrespeitado, magoa, ofende, limita a profissão, e não é justo. O primeiro passo sempre será o diálogo”, pontuou Estefan. “A gente não tem como prometer e alcançar volume zero de violação de prerrogativa. O que não se pode suportar são violações sistêmicas; isso é intolerável”, sentenciou Carlos Alexandre.

 

Publicado hoje da Folha da Manhã.

 

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Pandemia e planos de saúde no Folha no Ar desta 4ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta quarta (15), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é Leonardo Ferraz, médico cardiologista e presidente da Unimed-Campos. Ele falará sobre a pandemia da Covid-19 no município com o surgimento da nova variante Ômicron. Ele analisará também a situação dos planos de saúde no Brasil sendo alvos de grandes grupos, alguns internacionais, e da grave crise econômica do país.

Por fim, Leonardo falará sobre as perspectivas da Unimed com a expansão em torno do Porto do Açu. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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OAB-Campos, Wladimir e 2022 no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

A partir das 7h da manhã desta terça (14), os convidados do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, são os advogados Filipe Estefan e Carlos Alexandre de Azevedo Campos, respectivamente, presidente e vice eleitos da OAB-Campos. Eles falarão da eleição em novembro e das duas propostas para a nova gestão da OAB na comarca. Também falarão da aprovação de André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal (STF) e dos conflitos de Poderes do Judiciário com o Executivo e o Legislativo.

Por fim, Filipe e Carlos Alexandre analisarão o primeiro ano do governo Wladimir Garotinho (PSD) em Campos, e tentarão projetar as urnas estaduais e federais de 2022. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.

 

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Bolsonaro: inimigo nº1 da liberdade de imprensa

 

Fotógrafo Dida Sampaio, do Estadão, agredido por bolsonaristas em manifestação de apoio ao presidente em Brasília (Foto: Ueslei Marcelino/Reuters)

 

Ricardo Noblat, jornalista

Bolsonaro, o inimigo número um da liberdade de imprensa no Brasil

Por Ricardo Noblat

 

Direto ao ponto: embora parte da imprensa não reconheça por medo, cumplicidade ou em troca de favores milionários, o presidente Jair Bolsonaro é hoje seu maior inimigo. Quer dizer: o maior inimigo da liberdade de imprensa no Brasil.

No final de outubro, em Roma, para o encontro dos chefes de Estado das 20 maiores economias, agentes de segurança de Bolsonaro agrediram jornalistas e ele disse depois nada ter a ver com isso. Pior: negou ter presenciado o que aconteceu à sua frente.

 

 

Desta vez não tem como negar porque há filmes. Uma equipe da TV Bahia, afiliada da TV Globo, foi agredida, ontem (12), por seguranças e apoiadores de Bolsonaro durante a visita que ele fez às cidades atingidas pelos temporais no extremo sul da Bahia.

A repórter Camila Marinho foi agarrada pelo pescoço por um segurança, como num golpe de “mata-leão”. Outro tentou impedir que os jornalistas apontassem os microfones em direção a Bolsonaro. Ao ser tocado pelos microfones, o segurança ameaçou:

— Se bater de novo vou enfiar a mão na tua cara. Não bata em mim.

Bolsonaro limitou-se a afagar o ombro do segurança agressor na esperança de acalmá-lo. Na hora, não o repreendeu com a severidade merecida. Em seguida deu às costas para os jornalistas quando um deles foi atacado por um dos seus apoiadores.

 

 

A campanha eleitoral de 2022 sequer começou oficialmente e as coisas já estão assim por culpa exclusiva do presidente da República que não cansa de mandar os jornalistas calarem a boca, e que já ameaçou “encher de porrada” a boca de um deles.

 

 

Bolsonaro quer uma imprensa subserviente que só lhe pergunte o que ele aprecia responder. Uma fatia da imprensa brasileira comporta-se ao seu gosto, mas a maior parte dela, não. O que ele deseja é o que todos os que o antecederam no cargo desejaram.

Mas há uma escandalosa diferença: desde a redemocratização do país em 1985, somente Bolsonaro expressou sua fúria contra os jornalistas e as empresas que os empregam. Somente ele estimulou a violência contra os que se restringem a cumprir seu papel.

Presidentes em apuros tentam confundir-se com o Estado na esperança de ser poupados de críticas. De fato, sua honra é distinta da honra nacional. Eles passam, o país fica. E muitos acabam sendo reduzidos pela História a simples notas de pé de página.

Não será o caso de Bolsonaro. Nunca um presidente eleito diretamente pelo povo fez tanto mal ao Brasil como ele – e isso deve ser estudado em profundidade para que jamais se repita. Acertos não ensinam. Infelizmente, só aprende-se errando.

 

Publicado no Metrópoles.

 

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As lacunas e as contradições de Sergio Moro

 

Moro e Bolsonaro (Foto: Carolina Antunes/PR)

 

Miriam Leitão, jornalista

As contradições e as lacunas de Moro

Por Miram Leitão

 

A senadora Simone Tebet, pré-candidata do MDB à presidência, disse que o investidor não precisa ter dúvidas sobre o posicionamento dela na economia e acrescentou: “Minha história fala por mim”. Esse é o problema com o candidato Sergio Moro, do Podemos, ele não tem história em alguns temas decisivos do país. Em outros, acumula controvérsias. No mercado financeiro já se ouve o farfalhar dos apoios incondicionais à pessoa sem conteúdo definido, como houve em 2018. O autoengano recomeçou.

O problema em torno de Sergio Moro é o quase nada que se sabe sobre suas ideias em várias áreas. Nos 16 meses que ficou no ministério da Justiça, Moro barrou demarcações de terras indígenas, mandou o fracassado pacote anticrime para o Congresso, embutindo nele o excludente de ilicitude, apoiou indiretamente um motim de policiais no Ceará e abonou os sinais de desvios éticos no governo Bolsonaro, quando começaram a surgir.

Para contextualizar os ditos no parágrafo anterior. Havia 17 processos de demarcação de terras indígenas prontos para serem assinados pelo ministro da Justiça. Moro devolveu tudo para a Funai e nunca demonstrou ter qualquer interesse pelo tema indígena. O apoio ao excludente de ilicitude é agressão ao Direito. Ninguém que aposte no devido processo legal pode achar natural essa licença para matar que é bandeira de Jair Bolsonaro.

Na questão da corrupção, que o levou a ser conhecido no país, Moro disse que tinha “confiança pessoal” em Onyx Lorenzoni, quando se descobriu o caixa dois do então coordenador da transição do governo Bolsonaro. Em 9 de janeiro de 2019, diante do relatório do Coaf mostrando as movimentações suspeitas de Fabrício Queiroz, ele disse que o presidente já havia esclarecido o caso do ex-assessor do filho. Até hoje o caso permanece não esclarecido.

Houve um evento assustador na sua gestão no ministério. Greve de policial é proibida, porque é motim de pessoas armadas. E que foram armadas pela sociedade com o fim exclusivo de protegê-la. Policiais militares se amotinaram no Ceará, desafiando o governador Camilo Santana e levando medo à população. Moro enviou o coronel Aginaldo Oliveira para resolver o conflito. Lá, o coronel definiu os amotinados como corajosos e gigantes. “É muita coragem fazer o que vocês estão fazendo. Os covardes nunca tentam, os fracos ficam pelo meio do caminho.” Imagine o perigo se todas as PMs do Brasil seguissem a orientação do enviado do ministério da Justiça ao Ceará. Moro foi padrinho do casamento de Aginaldo com a deputada Carla Zambelli e nunca o repreendeu por essa atitude temerária.

Esses são os fatos. Moro não pode ser idealizado. Ele precisa, na campanha, definir suas ideias e propostas. Ter escolhido como conselheiro um bom economista como Affonso Celso Pastore é bom, mas está longe de ser suficiente. Ele, em muitas áreas, é uma página em branco e precisa preenchê-la. Para o bem ou para o mal, os outros candidatos são pessoas com ideias conhecidas.

O ex-presidente Lula está na vida política do país há mais 40 anos e governou o Brasil por dois mandatos. Bolsonaro teve longa vida parlamentar, na qual defendeu atentados à liberdade e aos direitos humanos. Esse tétrico prontuário foi desconsiderado por muitas cabeças pensantes do país. Deu no que deu. O governador João Doria tem um histórico que não é longo, mas testado na administração da maior cidade e do maior estado do país. Ciro Gomes foi prefeito, governador e ministro. A senadora Simone Tebet foi deputada estadual, prefeita, vice-governadora e, no Senado, presidiu a comissão de Constituição e Justiça. Todos podem dizer “minha história fala por mim”. Moro teve curta experiência administrativa e deixou lacunas e contradições.

Há muitos temas que precisarão de respostas em 2022 e não apenas a economia. O ataque de Bolsonaro à democracia exige uma defesa intransigente do pacto democrático de 1988. As ofensas aos negros, as ameaças aos indígenas, o desprezo às mulheres, o preconceito contra a comunidade LGBTQ no governo Bolsonaro aumentaram a urgência da questão da diversidade. É mais do que um debate sobre minorias, é trincheira de defesa da civilização. Os atentados à Amazônia tornaram emergencial um amplo plano de proteção do meio ambiente. A ambiguidade não será aceitável em 2022. O país vive momento dramático e decisivo.

 

Publicado em O Globo.

 

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Maldição da polarização entre mitos de Lula e Bolsonaro

 

Com Arnaldo Neto, Cláudio Nogueira e Matheus Berriel

 

Jair Bolsonaro (PL) faz “o pior governo da história brasileira”. Mas “não houve um complô” para elegê-lo em 2018, quando Lula (PT) foi preso por corrupção. E saiu para recuperar seus direitos políticos sem “um atestado de inocência”. As afirmações foram feitas na manhã de ontem ao Folha no Ar, na Folha FM 98,3, pelo historiador Alberto Aggio, professor da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) e especialista em História da América Latina. A aparente contradição na visão crítica sobre os dois nomes que lideram todas as pesquisas presidenciais de 2022 se dá em oposição àquilo que o historiador definiu como maior “maldição” da democracia no país: a polarização política, o “nós contra eles”.

Candidatos a tentar furar essa bipolaridade em outubro, João Doria (PSDB), Ciro Gomes (PDT) e Sergio Moro (Podemos) também receberam críticas por suas respectivas “maldições”. Ainda que Aggio as tenha feito após ressaltar: Doria e Moro não são iguais a Bolsonaro. Ele também questionou as “cabeças de paralelepípedo” da esquerda brasileira que, integradas à democracia sem abandonar o “paradigma da revolução”, ainda relativizam ditaduras latino-americanas como Cuba, Venezuela e Nicarágua. Usou exemplos do Chile, disse não acreditar que Lula vença no Brasil em primeiro turno, lembrou que Bolsonaro aprovou o Auxílio Brasil e, citando também a presidenciável Simone Tebet (MDB), pontuou que “Moro é a novidade na conjuntura”.

 

Alberto Aggio, historiador, professor da Universidade Estadual de São Paulo e especialista em História da América Latina (Foto: Divulgação)

 

 

“Governo Bolsonaro como um dos piores governos da nossa história” – Desde que venceu as eleições e assumiu o governo, a expectativa em relação ao Bolsonaro não era das melhores. Numa entrevista já em 2019, no início do governo, eu lembrava o general (Eurico Gaspar) Dutra, logo depois do Estado Novo (1937/1945), que considerado por muitos estudiosos da história contemporânea brasileira como o pior presidente até então. Era a época da Guerra Fria (1947/1991), logo depois da II Guerra (1939/1945). Mas o general Dutra, efetivamente, não conseguiu colocar nada de grande expectativa. Logo depois, na eleição seguinte, o Getúlio Vargas é eleito. Então, no início do governo Bolsonaro, eu criei a hipótese de que talvez o Bolsonaro ultrapassasse o Dutra. O governo Bolsonaro seria marcado como um dos piores governos da nossa história republicana. E acho que, infelizmente, acertei, porque do governo Bolsonaro há mais coisas ruins para a sociedade e dificuldades cada vez maiores. Em termos sintéticos, é um governo que tinha um discurso, uma retórica de mudanças liberais na economia, na relação Estado e sociedade, e nenhuma dessas propostas vingou. O que foi aprovado no governo Bolsonaro era aquilo que já vinha sendo discutido, especialmente no Congresso, como a reforma da Previdência, por exemplo.

Ameaça de golpe e “desastre” na pandemia – A tentativa do Bolsonaro foi retroagir. Mais do que retroagir, foi destruir instituições que vinham sendo construídas na sociedade brasileira, no Estado brasileiro, desde o momento da redemocratização (1985). O começo do governo foi tenso, cheio de ameaças. Ficou-se até imaginando se os militares iam aderir ao perigo de um golpe. Quer dizer, coisa que nós já tínhamos ultrapassado há algum tempo. Nos governos do Fernando Henrique, do Lula, não se imaginava poder ter um golpe no Brasil novamente. Então, essas ameaças foram muito ruins, de desagregação do país. Imagina a ameaça de um golpe, voltar aos tempos da ditadura (1964/1985). Depois disso, o governo Bolsonaro tenta militarizar integralmente as instituições a partir dos ministérios. E aí vem a pandemia, e aí vem o desastre da gestão do governo Bolsonaro com a pandemia, ceifando mais de 600 mil vidas. Isso não é pouco num país em que a população segue as orientações (de Saúde Pública). O SUS é uma grande marca da Constituição de 1988. Então, o desastre do ponto de vista sanitário é enorme. O ministério da Saúde sequer formou uma força-tarefa para informar à população. Foram necessários grupos de comunicação, que se articularam para informar à população de como é que estavam andando os casos, os hospitais. Então, a mínima noção republicana de informar a população, o ministério da Saúde não fez. E, pior, enveredou para o caminho da cloroquina na gestão Pazuello.

Vacinação veio “de pressão” – Claro que a vacinação avançou. Por conta do governo Bolsonaro? Não, porque veio em termos de pressão. O governador aqui (em São Paulo), João Dória (que passou a produzir a primeira vacina utilizada no Brasil, a Coronavac). Isso fez com que o Governo Federal se mexesse, fosse atrás, comprasse vacina do exterior, e aqui, do Butantan, como deveria ser. Deveria ser de maneira tranquila, com capacidade de gestão. Então, Bolsonaro se colocou contra tudo isso. Nós temos aí um processo eleitoral, mas esse primeiro período, espero que seja o único período do governo Bolsonaro, é muito ruim para o Brasil.

“O pior governo da história brasileira” – Citei só duas coisas: as ameaças à democracia e o desastre em termos de gestão por conta da epidemia. E agora, por fim, a economia. Por fim, entramos numa viela em que é difícil ver a saída, com os juros Selic batendo já nos 10%, com a inflação ultrapassando esses 10%, as dificuldades salariais e de emprego. Nada disso tem mostrado que o país melhorou, muito pelo contrário, ele piorou. Eu acho que vai ganhar do Dutra, é o pior governo da história brasileira.

“A antipolítica não serve de nada” – A eleição do Bolsonaro é, efetivamente, a eleição de um personagem da antipolítica. Ele não é um outsider, mas se fez de outsider. Ele representa a antipolítica, porque ele assumiu um discurso de que tudo aquilo que era político era negativo. Tudo: partidos, Parlamento, lideranças, etc. E, até agora, se vê claramente que era um discurso oportunista, instrumental e negativo. Se a gente for pensar do ponto de vista da democracia, não há democracia sem política, seja qualquer política de convivência, de discussão, de debate e de diferenciação entre os atores políticos. Esse movimento do 7 de setembro, que era o auge da estratégia que eu chamei de movimento, que o Bolsonaro levava no seu governo (de tentativa de golpe). Não chegou ao 7 de setembro como algo que imaginávamos, que os militares iam junto com o Bolsonaro para dar o golpe no dia seguinte. Isso, depois, com a presença do Temer (MDB) para jogar panos quentes na situação, mostrou que aquele discurso lá do Bolsonaro era farsesco. Eu espero que se tire essa lição. A antipolítica não serve de nada. Não serve para coisa alguma na democracia imaginar que algum líder, algum setor apareça fora do espaço da política, da sociedade política, tentando moralizar, tentando sanar os males da política. E não há democracia no mundo que não tenha os seus próprios males. A democracia americana é cheia de problemas; a democracia nos países escandinavos também tem inúmeros problemas. Não há democracia com essa imagem e ilusão da pureza, de que todos os atores são santificados, de que a democracia é um espaço de santos. Essa é uma visão absolutamente equivocada, que ganha força em países com uma cultura política democrática reduzida, como o Brasil, de compreender a democracia. Então, o Bolsonaro vem nesse momento. Ele aciona esses canais da chamada antipolítica.

“A antipolítica não é uma invenção de Bolsonaro” – Veja que essa antipolítica não está só no Bolsonaro, só no Doria, por exemplo, que assumiu aquela coisa de que “eu sou um gestor, eu não sou político”. Quando o PT surgiu, lá no final dos anos 1970, início dos anos 1980, também levava essa ideia de que todos eram corruptos. Eu me lembro da Erundina sendo eleita aqui, na capital de São Paulo, e ela dizia assim: “Todos são iguais”. Aqueles que vinham do regime ditatorial e aqueles que vinham do processo de democratização, todos eram iguais, o PT era o único ator que iria resolver todos os problemas. Então, o discurso da antipolítica não é uma invenção do Bolsonaro. É, até mesmo, uma expectativa que existe na sociedade brasileira, que está entranhada, de que a política não serve para nada, que a política é só um jogo de ladrões. E nós sabemos que não. Nós sabemos que existiram momentos no Brasil bastante virtuosos, como um momento de construção da nossa Constituição de 1988.

“Não houve complô do Judiciário” – Os setores do Estado brasileiro, como o Judiciário, também não são infalíveis. Há erros que se cometem, que se cometeram, e eu queria enfatizar esse último aspecto: não houve nenhum grande complô. Quer dizer, quando o Lula é julgado, quando o Lula é preso, afastado, não há um complô de que tudo isso estava sendo feito para o eleger o Bolsonaro, porque o Bolsonaro não era absolutamente nada nesse contexto. Então, não há um complô. O que há são ações de atores políticos, num determinado contexto de crise, de perda de referências. E alguns atores conseguem se sair bem, porque conseguem se apropriar de certas imagens, de certas demandas da sociedade, e eles dão respostas retóricas para isso, demagógicas, que acabam vencendo. Então, nós vimos claramente que o petismo, o lulismo começa a entrar em declínio na crise do governo Dilma (PT), e é aí que o Bolsonaro vai aparecer. Ninguém acreditava muito nisso. Alguns dizem até que, antes da facada, era uma coisa, e depois da facada, passou a ser outra do ponto de vista da crença da sociedade.

Sem “atestado de inocência do Lula” – Assim como o petismo estava em declínio, agora nós estamos vendo que o retorno da figura do Lula, essa soltura do Lula, que também é polêmica. Acreditar que o Lula saiu da cadeia, garantindo seus direitos políticos, é um atestado de inocência em tudo o que aconteceu isso também, convenhamos, é uma linguagem para aqueles que acreditam no Lula efetivamente. Não dá para imaginar que tudo se resolveu. Não se resolveu do ponto substantivo, da superação dos crimes em que o Lula esteve envolvido. Se resolveu por outras questões processuais, e agora, como se diz na linguagem jurídica, o processo caducou. Não há mais processo em relação ao tríplex do Guarujá, por exemplo. Então, não se trata disso. Existem movimentos na política, atores na política, que vão gerando uma determinada movimentação. Alguns são mais bem-sucedidos, outros, malsucedidos.

“Doria e Moro não são iguais a Bolsonaro” – Não há essa história, digamos, de um complô entre Bolsonaro, Moro, Doria: “Todos eles estão juntos, todos eles são uma coisa só, eles são racistas”. Esse tipo de leitura é um tipo de leitura simplista, um tipo de leitura que eu acho, do meu ponto de vista, que não faz nada bem para a inteligência. É necessário pensar de maneira mais refinada. Dizer, por exemplo, que o Doria é igual ao Bolsonaro; não é! Dizer que o Moro é igual ao Bolsonaro; não é! É a mesma coisa, por exemplo: o Lula se aproximando do Alckmin, aí você vai dizer que eles sempre se deram bem. Não, não se deram.

Lula e Maluf – É só lembrar lá do Lula nos jardins na casa do Paulo Maluf (PP), na época da campanha do Haddad (PT) para prefeito de São Paulo. Todo mundo sabe, naquele momento, o que significava Maluf. Hoje, já não significa mais nada, mas naquele momento significava muita coisa. Paulo Maluf significava a antidemocracia, e o Lula se aliou ao que significava a antidemocracia. Eu vou dizer que tudo isso é um complô do Lula para implantar o comunismo no Brasil? Não sejamos insensatos a ponto de pensarmos esse tipo de coisa. A política prega essas surpresas.

Fracasso econômico de Dilma e Bolsonaro – Eu acho que relativizar o governo Dilma é uma estratégia meramente eleitoral que o PT, especialmente o Lula, tem adotado. Se nós formos olhar as razões pelas quais a inflação chegou onde chegou no período Dilma, eu acho que há um ponto de comparação com Bolsonaro, que são estratégias de política econômica equivocadas. De um lado, se esticou a corda nos campeões nacionais, naquela estratégia de retorno ao desenvolvimentismo, o controle do Estado sobre a economia no período Dilma. De outro lado, essa estratégia do Paulo Guedes, que é uma estratégia, digamos, ortodoxa do ponto de vista liberal, de que o mercado funciona por si mesmo, que não há nada a se fazer. E, ao contrário, se faz. Se faz negativamente: perdeu-se o controle da moeda. Nós, hoje, temos uma moeda ultra desvalorizada do ponto de vista mundial. Isso gera uma inflação direta e inercial, sem nenhum plano de recuperação. Não há, na estratégia do Guedes, qualquer possibilidade de recuperação, ainda mais no tempo de governo que o Bolsonaro tem. Para sair disso, vai demorar um pouco. É muito ruim, muito doloroso.

“Cabeça de paralelepípedo” nas ditaduras de esquerda na América Latina – Cuba é uma ditadura efetivamente, e aí com razões específicas, mais a Venezuela, Nicarágua, etc. Na esquerda, existe um paradigma fundante, que é a ideia de revolução. As pessoas que guardam essa crença, divulgam e vivem por ela, acabam entendendo que são portadoras de uma verdade, quase que como um ato de purificação da humanidade em torno da luta de classes, da eliminação da exploração, da eliminação da opressão. Logo depois que as estratégias insurrecionais de luta armada faliram, essas pessoas dessa esquerda entram na democracia. O problema é elas carregarem esse paradigma para a convivência democrática. E, no interior da democracia, elas imaginam que os outros atores políticos são atores permanentemente nefastos, e elas são atores única e exclusivamente do bem. Então, aí esse modo de pensar é um modo de pensar meio que de uma cabeça de paralelepípedo: não tem possibilidade, não tem maleabilidade, não tem leitura da realidade. O que tem é só ideologia. Então, a pessoa vive uma situação democrática no Brasil em que ela não confia, em que ela efetivamente não acredita. Ela não tem como dizer que líderes políticos de outros países, que comungam a mesma ideologia que ela, devam ser criticadas. Então, por que é que a esquerda aqui no Brasil, que participa de eleições, fala de democracia, fala de cidadania, fala da Constituição, apoia um candidato à presidência como o Ortega, na Nicarágua, que prendeu sete outros opositores para ganhar a eleição? Como é que ela admite uma coisa dessa? Ela só pode admitir porque está na cabeça dela uma cultura que tem como paradigma a ideia de revolução, de que há um lado bom, um lado santificado, que “somos nós, somos aqueles justos honestos, bons e etc”. E o outro lado, seja ele qual for, não é o “nós”, é o “eles”.

 

Página 2 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Lula, o PT e o paradigma da revolução – Em relação ao PT, a grande liderança é o Lula. Que é capaz de fazer a ligação entre esses setores mais revolucionários com os setores sindicais, com setores religiosos. Então, a religião da revolução também se conecta com a religião da teologia da libertação (católica). É nesse sentido que, numa entrevista ao “Estadão”, eu recuperei essa ideia do paradigma da revolução, para explicar porque esquerdas como a brasileira, ao invés de criticar processos, atores políticos que são claramente tendenciosos ao regime autoritário, a práticas ditatoriais, elas não podem fazer isso, ficam com dificuldade. Nesse sentido, se vê claramente o problema da permanência de uma cultura que não é efetivamente democrática, que é a cultura da revolução, e que é necessário ultrapassar esse paradigma. Eu não estou querendo dizer que todo o PT, todo petista é autoritário, ditatorial. Não, não é. Mas, existem aqueles que dirigem o partido, que comungam dessas ideias, e aqueles que, embora não sejam, porque eu não vejo o Lula dessa maneira. Ele não é como José Dirceu, ele não é como outros dirigentes do PT, o Lula é um camaleão. O Lula é capaz de fazer uma costura do que for, do que tiver para ser. Na verdade, do ponto de vista democrático, o Lula aprisiona o PT, e o PT se sente muito confortável, porque tem uma liderança capaz de articular os diferentes onde cabe esse paradigma revolucionalista.

“Na lógica de Lula, democracia é eleição, ponto” – O Lula é um especialista em participar de eleições, o seu protagonismo. Ele tem uma crença bastante forte e até exitosa. Depois de perder tantas eleições, o Lula foi um grande ganhador de eleições. Então, o Lula tem uma lógica na cabeça, de que a democracia é eleição, ponto. E ele trabalha dentro dessa lógica. Nós sabemos que a democracia não é só as eleições, mas as eleições ocupam um protagonismo muito grande. Então, o Lula identifica a sua liderança, o seu protagonismo com eleições. Foi essa a maneira com que o Lula assimilou o processo de democratização do Brasil.

“Lula só pode estar na cabeça” – Então, por exemplo, o Lula não gosta muito de consensos. O Lula não gosta muito de acordo entre diferentes. Ele é um hegemonista nesse sentido. Ele só pode estar na cabeça, ele não pode compor, a não ser que ele dê a direção, o comando, que ele comande o processo. Ele vê dessa maneira. Em termos de teoria política, o Lula nunca foi uma pessoa orientada para isso, para se definir nesses termos, e o PT também não. O PT é, em parte, socialdemocrata, mas ele não assume essa identidade. Então, por exemplo, o Haddad é um socialdemocrata? Ao que tudo indica, sim, mas ele não pode assumir essa identidade, porque existem outras identidades parciais dentro do PT que se recusam à rotulação de socialdemocrata, ou melhor, até ao programa socialdemocrata.

“O consumo é central, não a democracia” – De onde vem tudo isso? Vem de uma predominância do sindicalismo lulista, petista, que vem lá do ABC, e tem como paradigma a ideia de consumo, de que o consumo é central, não que a democracia é o central. É democrático um líder que dá possibilidades de renda para o trabalhador consumir. Então, tudo o que o Lula fala, a ênfase que o Lula dá, como agora, recentemente, é de que o pobre tem direito a comer camarão. É inegável que o pobre tem direito a comer camarão. Agora, a questão é: como se resolve isso? Qual é a política, qual é a estratégia econômica para o pobre comer camarão? “Ah, o pobre tem direito a andar de avião”. Isso posto, quem vai negar isso? Então, a questão toda é como resolver isso. E o Lula constrói um discurso sempre esperançoso, mas não diz muito bem como é que isso vai ser.

Das vacas gordas às vacas magras? – O governo de Lula, nós sabemos que tinha muitos recursos por causa do êxito das commodities da China, principalmente. Era um dinheiro farto que entrava no país. Em situações de dificuldade, vai ser um problema realizar essa proposta: “O pobre tem direito de comer camarão”. Quer dizer, isso não é não é assim pela eternidade. Na política, a realidade é muito mais móvel, vive cheia de percalços. Então há essa de ideia de: por um lado o paradigma da revolução, por outro, o paradigma do consumo. O paradigma da revolução entra, mas ele não pode ocupar tudo, ele tem que ele tem que azeitar a militância, azeitar a crença. Mas, a revolução diz que você tem que fazer sacrifício agora pra se beneficiar mais à frente. E, não, o benefício tem que ser já. Então, entra essa coisa do sindicalismo. De maneira que o Lula não pode ser socialdemocrata, mas ele pode dizer que apoia certas medidas. Ele não pode ser um revolucionário, mas ele não tem como descartar os revolucionalistas que estão dentro do PT. Ele crê na redenção de massas dos pobres, dos excluídos, e isso é o seu discurso esperançoso permanentemente.

“Rumo foi dado pelo Fernando Henrique” – Determinadas fatias, desde a criação do PT, da Igreja Católica e de outras igrejas, dão sustentação a esse Lula. Então, o Lula é esse tipo de personagem. É um tipo de personagem que carrega com ele tudo isso e vai ter uma liderança num determinado contexto; um contexto em que a economia brasileira tinha que encontrar o seu rumo. Esse rumo foi dado pelo Fernando Henrique, o que é a inserção do Brasil na globalização, determinadas reformas internas. Então, o Lula seguiu até um determinado ponto, depois bloqueou isso daí e se colocou como o antagonista ao que o Fernando Henrique fez.

Herança maldita? – Se o Lula imaginou que a herança fernandista era uma herança maldita, e se ele ganhar as próximas eleições depois do Bolsonaro, aí ele vai ver o que é uma herança maldita. Ou seja, aquilo de o Lula dizer que o PSDB foi uma herança maldita, que o período Cardoso foi uma herança maldita, foi um extraordinário erro político e muito nefasto à história do país nos últimos anos. Então, esse Lula, esse personagem dessa esquerda mais protagonista no Brasil, ele é isso, ele é esse amálgama, ele é esse mosaico que, em determinado momento, predomina uma coisa; em outro momento, predomina outra, indefinidamente.

“Lula aprisiona a esquerda brasileira” – Lula, por um lado resolve o problema do PT e de algumas esquerdas que podem se coligar; agora já estão falando de uma grande federação: o PT, PSB, PV, Psol. Quer dizer, o Lula é uma essa a grande referência e resolve o problema eleitoral de todo mundo, porque você faz a campanha junto com o Lula e recebe voto, elege deputado, elege senador, elege governador e assim por diante. A renovação da esquerda brasileira é muito difícil, especialmente a partir do PT, porque o Lula aprisiona todo mundo. Algum projeto vai avançar? Tudo vai depender de que articulação se fizer com o Lula. E é o Lula, não é uma corrente, não é uma ideia, não é um projeto, não é nada disso. Então, essa é feição peronista do lulismo. Não que o lulismo seja um peronismo, é uma feição que, do ponto de vista político, é muito negativa para que a esquerda brasileira discuta problemas profundos e ajude a educar a sociedade brasileira no contexto dessa discussão.

Aprisionamento ruim à complexidade da democracia – Nós sabemos que a sociedade brasileira é uma sociedade, digamos, que rejeita a política, que não é afeita a fazer essas discussões. Isso é muito negativo. Então, o aprisionamento que o Lula faz ao PT e à esquerda resolve o problema eleitoral, mas posterga, de maneira infeliz, a possibilidade de a sociedade brasileira avançar do ponto de vista da democracia, da cultura política democrática, da ideia de que a democracia não se resolve com medidas simples. A democracia é uma coisa complicada, é complexa, e as pessoas muitas vezes não entendem esse tempo e essa complexidade da democracia, preferem sempre: “Ah, nós queremos alguém que decida, alguém que defina, alguém que resolva”. Isso é negativo para a democracia.

“Maldição da polarização” – A eleição do Chile (segundo turno a presidente, no próximo dia 19) está polarizada. Na verdade, a eleição do Chile tem duas propostas e duas lideranças (os candidatos Gabriel Boric, de centro-esquerda, e José Antonio Kast, de extrema-direita). Se a gente chama o Brasil do antibolsonarismo e do antilulismo como polarização, isso se dá através de que são dois mitos, duas coisas etéreas, duas coisas que se fazem por si mesmo. No Chile, essa polarização não se dá. Alguns setores da esquerda querem chamar o Kast de fascista, “é o fascismo que está voltando”. É um equívoco. Outros setores querem Boric, porque “o Boric vai ser um novo Allende”. É um outro equívoco, não é nada disso. Então, eu não chamaria de polarizada, é uma situação à chilena. Não tem dúvida, aqui no Brasil a gente tem isso. O que nós temos, na verdade, eu chamaria de uma maldição. É a maldição da polarização aqui no Brasil, e essa maldição começa com o “nós contra eles” desde o PT, o surgimento do PT, “vocês são todos iguais, nós somos a redenção, nós somos a salvação”. Depois, vêm os governos do PT e vem a corrupção. E daí emerge esse negócio dos outsiders, contra o sistema, contra o PT, contra a democracia, contra a política, contra tudo. Então, essa maldição está se configurando agora: Lula, Bolsonaro.

“Maldições” de Doria, Ciro e Moro – Os outros possíveis candidatos carregam outras maldições. Se você olhar, por exemplo, para o governador Doria, aqui de São Paulo, só um bolsonarista acredita que o Doria foi negativo. Só um bolsonarista de “a coisa da vacina, a coisa disso e coisa daquilo”. No entanto, o Doria monta uma equipe extraordinária do ponto de vista econômico, social, de inovação. Muitas vezes, as pessoas admitem isso. Mas, parece que o Doria carrega uma maldição que precisa ser explicada. O Ciro Gomes tem outra maldição: a maldição do passado. Parece que ele quer voltar aos tempos do Brizola, do Getúlio, que é aquela coisa de um nacionalismo entranhado, de um nacionalismo quase que visceral. Se você for falar no Moro, o Moro tem a maldição de que foi o juiz que condenou, que não sei o quê.

“Maldição” e “sina” da democracia brasileira – Então, você não discute muito a ideia do sujeito: “Ah, ele foi tal coisa”. Não se discute substantivamente. Então, essa polarização, eu acho que gerou essa maldição de nós não podermos abrir e dizer: “Olha, eu estou mais de acordo com isso, menos de acordo com aquilo e tal. Vamos conversar sobre isso, o que é que será do futuro?”. Então, é assim: quem é contra Lula é taxado de bolsonarista. Quem é contra o Bolsonaro, os bolsonaristas dizem que quer a volta da do roubo, da corrupção. Quer dizer, isso tudo é uma maldição para a democracia brasileira. E a gente vai ter que encontrar ali, talvez, na cultura do futebol, quem tira esse burro enterrado na trave para que a gente possa vencer o jogo. Superar essa maldição, parece que está sendo uma sina da democracia brasileira.

“Governar sem o Centrão é impossível” – Ganhar a eleição sem o Centrão é possível, porque o Centrão é, por natureza, inorgânico e, do ponto de vista eleitoral, muito dispersivo. Ele é muito localista, regionalista. Agora, governar sem o Centrão é impossível. Por quê? Porque o sistema brasileiro permite essa expressão da sociedade que são os políticos que vêm do Centrão. São políticos pragmáticos, não ideológicos, muito distantes da ideia de um programa de governo, muito fisiológicos, patrimonialistas. Quer dizer, todos os males da sociedade brasileira emergem e estão presentes no Centrão, mas não só no Centrão, até nos setores renovadores. Então, aí há uma combinação sinistra entre renovação e conservação.

Fernando Henrique e Lula: “conservação sem renovação” – Um cientista político e sociólogo aí do Rio de Janeiro, Luiz Werneck Vianna, já analisou muito bem essa situação brasileira, que é essa dinâmica entre renovação e conservação. É necessário introduzir um processo no qual a renovação supere a conservação, e isso vai ser através de um processo político longo. Não vai ser uma revolução, vai ser um processo político com muito vagar, muito gradativo. E os atores desta renovação precisam ter muita sabedoria para fazer isso. Em algum momento, por capacidade técnica, científica, e até política, o Fernando Henrique foi capaz de fazer isso. Em outros momentos, Lula foi capaz de fazer isso. Mas, nos dois nós percebemos foram poucos os momentos em que a renovação se sobrepôs à conservação, e não deixaram raízes substanciais na sociedade. Então, eu acho que esse processo é um processo muito difícil na sociedade brasileira. É a nossa sina. Eu não chamaria de maldição no sentido que eu usei, mas é uma sina.

Latifúndio e escravidão – Como disse também o Werneck Vianna, nós nos modernizamos mantendo o latifúndio. O latifúndio se modernizou. Não houve o espraiamento da reforma agrária no Brasil. Isso gerou consequências estruturais muito pesadas para a sociedade brasileira: de segregação, de desigualdade, de apartação das pessoas. E a outra questão é a questão da escravidão. O fim da escravidão foi um processo também sinistro, um processo que não ajudou a integração, a homogeneização da sociedade com a ideia republicana de que todos são iguais, todo mundo tem direitos. A abolição vem junto com a República, e a República carrega os males da escravidão por muito tempo. Então, esses dois pilares foram encontrando soluções diferenciadas. O latifúndio virou uma grande empresa agrária. A integração dos negros tem momentos significativos na nossa história, antes das cotas, tem momentos significativos que fizeram isso avançar. Nós temos que seguir nessa trilha, isso vai renovar a sociedade brasileira. Agora, a política precisa estar sensível a isso.

Lula no primeiro turno? Bolsonaro? – É difícil dizer isso agora. O Lula nunca ganhou no primeiro turno no auge da popularidade. Pode ser que ganhe agora? Eu tenho muitas dúvidas. Eu acho que não, acho que não ganha no primeiro turno. Imagina-se, pelas pesquisas e pela situação, que o Bolsonaro vai decair. É possível, mas ele é o presidente. Ele acaba de conseguir aprovar uma política pública muito favorável a ele, que é o Auxílio Brasil, e isso vai jogar politicamente para ele.

Terceira via? – Acho que o Moro é a novidade na conjuntura. É possível que ele agregue setores, ultrapasse essa situação e chegue a destronar Bolsonaro da segunda posição nas pesquisas, mas a campanha está começando lentamente. Nem mesmo o Lula disse que ele é candidato. E assim por diante. Mas, nós sabemos que essas coisas se se põem dessa maneira mesmo.

Brasil entre momentos plebiscitário e o de “quem eu quero para sair dessa maré?” – Do meu ponto de vista pessoal, a eleição tem um primeiro momento, que é um momento plebiscitário, de avaliação, de dizer “sim” ou “não” ao governo Bolsonaro. O outro momento é: “Quem é que eu quero no futuro para gente sair dessa dessa maré?”, como sempre lembra o Fernando Gabeira. Como sair dessa maré bolsonarista, desse negacionismo, desse governo muito ruim que foi o governo do Bolsonaro? Então, eu tenho a impressão de que, a partir dessa premissa, tudo está aberto, e nem mesmo a liderança nas pesquisas do Lula está garantida. Pode ser que apareça um candidato ou uma candidata, já que a Tebet também se lançou, que consiga gerar uma expectativa agregadora da sociedade, de maneira que, dependendo do resultado, a gente vai ver se nosso futuro é benfazejo ou não. É, no máximo, o que se pode dizer. Uma coisa é certa: nós temos que ultrapassar um governo que foi ruim. Eu acho que esse é o primeiro ponto. O segundo ponto, eu acho que está bem aberto. E eu acho que ninguém pode fazer esse jogo dessa maneira. Tem que, talvez, jogar que nem o Grêmio ontem (na quinta): começou e parecia arrasador. Mas, infelizmente, a coisa não deu (ganhou de 4 a 3 do campeão Atlético Mineiro, mas não evitou o rebaixamento à série B), porque jogou mal o campeonato inteiro.

Lula aqui e Lula lá – O Lula precisa conseguir convencer de que ele é capaz de responder positivamente para nós aqui, brasileiros. Porque ir para a Europa e fazer aqueles discursos que o europeu gosta de ouvir, especialmente a esquerda europeia, isso aí é muito fácil, muito tranquilo. Na hora em que ele foi para uma entrevista mais complicada, com as duas jornalistas (Pepa Bueno e Lucía Abellán) lá do “El Pais”, a coisa começou a ficar difícil. E é mais ou menos o que ele vai enfrentar na campanha. Ele não vai enfrentar aquele Parlamento que vai de pé e bate palma.

Exemplos da França e do Chile ao Brasil de 2022 – A prefeita de Paris (Anne Hidalgo) do Partido Socialista que homenageou o Lula, está na maior dificuldade para se tornar candidata a presidente. Ontem (quinta) mesmo, lançou um apelo a todos os candidatos de esquerda para formar uma frente única, porque senão não vai conseguir tirar a eleição presidencial francesa (em abril de 2022) da disputa entre Macron e a extrema-direita francesa. A política é muito complexa. No Chile, na época do Salvador Allende (presidente de esquerda deposto e morto no golpe militar de 1973), existia um grupo de extrema-direita chamado Patria y Libertad, que fez vários atentados contra o governo. O maior deles foi em junho de 1973: um levante de tanques, morreram mais de 60 pessoas em Santiago. Embora o golpe não tenha dado certo, antes do golpe final de setembro. Tinha um líder do Patria y Libertad que declarou apoio hoje (ontem), ao Gabriel Boric, candidato da esquerda chilena, contra o candidato da direita. Então, a política tem dessas coisas de mudanças profundas, onde as pessoas argumentam e defendem certos pontos de vista que o sistema democrático possibilita que aqueles que convençam a sociedade levem adiante. Quanto mais cultura democrática, pluralismo, audição, debate sincero, mais a democracia pode avançar. Espero que isso aconteça nesse processo eleitoral no Brasil de 2022.

 

Página 3 da edição de hoje da Folha da Manhã

 

Confira, nos três blocos abaixo, a íntegra em vídeo da entrevista do historiador Alberto Aggio ao Folha no Ar de ontem:

 

 

 

 

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