Após desconto de faltas, médicos pedem abono, negociações avançam e política se acirra

 

Charge do José Renato publicada hoje (13) na Folha

 

Médicos: greve x faltas

A greve dos médicos da Saúde Pública de Campos continua. Pelo menos até hoje, quando nova reunião ocorrerá entre o prefeito Rafael Diniz (Cidadania), seu secretário de Saúde, Abdu Neme (PR), e o presidente do Sindicato dos Médicos de Campos (Simec), José Roberto Crespo. Na que eles tiveram até às 21h de ontem (12), as negociações avançaram (aqui). Mas dados técnicos ficaram de ser levantados para hoje. Entre eles o do pleito de abono das faltas de quem aderiu à greve deflagrada (aqui) no dia 7. O endurecimento do prefeito, que anunciou o desconto das faltas em entrevista à Folha (aqui) no domingo (11), parece ter surtido efeito no dia seguinte.

 

Lutas de classe e política

Após a reunião de ontem na Prefeitura, José Roberto foi à Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC). Levou o que foi discutido ontem e o que será hoje. E a decisão da categoria foi manter a greve. Presente em qualquer disputa de patrão e empregado, a luta de classes faz seu jogo de espera. Mas a luta política se acirra. Líder governista, o vereador Genásio (PSC) anunciou ontem (aqui) que Abdu vai à Câmara debater Saúde com a oposição, em audiência pública ainda sem data marcada. E o edil garotista Álvaro Oliveira (SD) entrou (aqui) com denúncia no Ministério Público Federal (MPF), contra o que classificou de “descaso” com a Saúde.

 

O bolso e o paciente

A coluna advertiu (aqui) no sábado (10): “Como todo médico sabe, a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem”. Com justiça contrariados pela suspensão das gratificações e bloqueio das substituições, mas sem nenhuma razão contrariados com a biometria, os médicos talvez tenham se excedido ao postar nas redes sociais flagrantes de precariedade das unidades de Saúde. Não porque não existam, mas porque “não vêm de hoje”, como José Roberto admitiu (aqui) em entrevista ao Folha no Ar, da Folha Fm 98,3. Ou porque só foram lembradas quando o sintoma se deu sobre o bolso, não quem deveria interessar: o paciente que não pode pagar saúde privada.

 

O bolso, o voto e a corda

Acuado, o governo partiu para dentro com o corte das faltas dos grevistas. Estrategista de campanha do ex-presidente dos EUA Bill Clinton, Jim Carville imortalizou a sentença entre bolso e voto: “É a economia, estúpido!”. Pode ter valido agora para os médicos. A certeza talvez se tenha ainda hoje, ou nos próximos dias. Mas também pode ter consequências mais adiante, no pleito de 2020. Influentes em todos os setores sociais, os médicos geralmente compõem a chamada “pedra”, eleitorado original de Rafael. Na lei universal da ação e reação, a hora talvez seja de baixar a corda. Antes que ela arrebente (mais) sobre a população.

 

No PSC

Está marcada (aqui) para hoje, às 15h, a filiação do presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Estado do Rio de Janeiro (FCDL), Marcelo Mérida, no PSC do governador Wilson Witzel, com a presença do presidente nacional da legenda, Pastor Everaldo. Candidato a deputado federal pelo PSD em 2018, Mérida não se elegeu e busca protagonismo em uma agremiação fortalecida com a eleição de Witzel. O lojista ensaia uma candidatura própria a prefeito, mas vai para o partido do deputado Bruno Dauaire, que já declarou apoio a outro pré-candidato, o amigo Wladimir Garotinho (PSD).

 

Destaque

O Festival de Petiscos de Farol de São Thomé, em Campos, pode se tornar patrimônio cultural imaterial do Estado. Pelo menos, esse foi o projeto de lei que o deputado estadual Gil Vianna (PSL) apresentou na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O evento é organizado pela Associação de Comerciantes, Hotéis e Similares do Farol e acontece anualmente desde 2013, atraindo milhares de turistas para o litoral campista, aquecendo a economia local. O parlamentar tem boa expectativa para que o texto seja aprovado.

 

Comemoração

O XIV Aniversário do Jeep Clube de São João da Barra promete atrair um grande público no próximo fim de semana – 17 e 18 de agosto –, das 8h às 17h, na estrada da Restinga, nos fundos do Balneário de Atafona. Na programação passeio off-road, exposição de jipe, atrações musicais, campanhas ambientais e provas de obstáculo e arrancadão. A programação será aberta com o Desafio Espartano, com os competidores correndo a pé na pista de obstáculo dos jipes. O evento atrai jipeiros não só da região, mas também de outros estados.

 

Com Aldir Sales e Mário Sérgio

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Médicos e Prefeitura: negociações avançam e reiniciam na terça, mas greve continua

 

Acabou há poucos minutos a reunião entre os representantes dos profisionais da Saude Pública e o governo Rafael Diniz (Cidadania), com presença do prefeito e seu secretário de Saúde, Abdu Neme (PR). As negociações avançaram e seguem nesta terça, após levantamento de informações relativas à possibilidade de abono das faltas dos grevistas e outros pontos, como férias. Mas nada ficou definido. Deflagrada no último dia 7, a greve dos médicos continua. Após a reunião na Prefeitura, foi o que a categoria deliberou agora no auditório da Sociedade Fluminense de Medicina e Cirurgia (SFMC).

 

Rafael Diniz e José Roberto Crespo (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Abaixo, as notas geradas pelo superintendência de Comunicação (Supcom) e a assessoria do Sindicato dos Médicos de Campos (Simec):

“O prefeito Rafael Diniz, acompanhado pelo secretário de Saúde, Abdu Neme; recebeu nesta segunda-feira (12) uma comissão de médicos e o presidente do sindicato da categoria, José Roberto Crespo. O encontro segue na terça-feira (13), quando serão apresentados dados técnicos e informações adicionais para melhores esclarecimentos. A reunião foi ‘produtiva, responsável e respeitosa, como é a minha relação com a categoria’, disse o prefeito”.

 

Após se reunir na Prefeitura, José Roberto (de costas) deliberou com os colegas médicos que a greve contnua. Pelo menos, até esta terça (Foto: Marcus Pinheiro)

 

“A reunião foi boa, mas nada de efetivo foi definido. Eles possuem os seus argumentos, e nós (médicos) os nossos. De concreto temos apenas o compromisso do prefeito Rafael em nos reunirmos novamente amanhã”, disse o presidente do Simec, José Roberto Crespo.

Ao blog, o prefeito Rafael acrescentou, além da nota oficial:

— Como tenho dito, acima da Prefeitura, do prefeito e dos médicos está a população. Campos vive uma nova realidade financeira para os próximos anos, como aponta a própria ANP na questão dos royalties e Particpações Especiais (PEs) do petróleo. Precisamos nos adaptar a isso. Decidimos continuar com a reunião nesta terça, inclusive para termos alguns detalhes e informações técnicas necessárias para avançarmos.

 

Leia mais sobre a Saúde Pública de Campos aqui.

 

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Abdu vai à Câmara debater Saúde de Campos. Oposição entra com denúncia no MPF

 

Genásio e Abdu (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Álvaro Oliveira

Licenciado do mandato de vereador desde março deste ano, quando assumiu (aqui) como secretário de Saúde do governo Rafael Diniz (Cidadania), Abdu Neme (PR) deve voltar à Câmara Municipal. Mas para debater a Saúde Pública de Campos com a oposição, que motivada pela greve dos médicos deflagrada (aqui) no dia 7, já fala abertamente em CPI sobre o tema. No início da noite, o vereador garotista Álvaro Oliveira (SD) divulgou nas redes sociais (aqui) que entrou com uma denúncia crime  no Ministério Público Federal (MPF) contra a situação que classificou como “descaso” na Saúde de Campos. Antes dele, quem anunciou hoje a ida de Abdu à Câmara foi o líder do governo, vereador Genásio (PSC). Ainda sem data marcada, o debate se dará em uma audiência pública. Nela, além de Abdu e sua equipe, poderá participar ainda o procurador-geral do município, José Paes Neto.

— Se na gestão Rosinha existia uma caixa preta e não havia debate nem diálogo, agora é diferente. A oposição poderá fazer seus questionamentos olho no olho. Um debate técnico, sem palanque político. Estamos vendo nas redes sociais um jogo pesado, com acusações e ataques. É hora de mostrar com transparência quais são os problemas e que medidas estão sendo tomadas, evitando citar nomes. Será uma grande prestação de contas e sua equipe poderão responder sobre todos os temas que envolvem a pasta.

Ainda de acordo com Genásio, a prestação de contas irá além da audiência na Câmara:

— O gabinete do secretário de Saúde está aberto. O prefeito Rafael Diniz tem destacado que medidas difíceis tiveram que ser tomadas. Mas também podemos citar grandes avanços na Saúde. Foram inauguradas as UPHs São José e de Travessão e estão sendo reformadas, em fase final, 10 UBSs. Com emendas parlamentares serão realizadas obras nos hospitais Ferreira Machado e Geral de Guarus. O governo está licitando a compra de 40 novas ambulâncias. Em 2018, foram investidos R$ 640 milhões na Saúde. Desse total, mais da metade foi para o pagamento de pessoal. Problemas existem e a arrecadação caiu, mas não falta trabalho.

Sobre o movimento da oposição para tentar criar uma CPI, Genásio bateu duro:

— Cúmplices do caos, que defendem chefe de quadrilha querem criar palanque político. Mas vamos ver no debate franco quais serão os questionamentos deles. A população quer respostas, não campanha antecipada.

 

Rafael Diniz e José Roberto Crespo (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Na edição da Folha do último domingo (11), o prefeito e o presidente do Sindicato dos Médicos de Campos (Simec), José Roberto Crespo, responderam às mesmas perguntas sobre a greve no setor e a situação da Saúde Pública. Rafael disse (aqui) estar aberto ao diálogo com a categoria, cuja paralisação atribuiu à implantação do ponto biométrico, e garantiu que as faltas serão descontadas dos grevistas.

Por sua vez, José Roberto negou (aqui) preocupação dos médicos com a biometria, ainda que tenha proposto alternativas a ela, e alegou que as causas da greve são a suspensão do pagamento dos gratificações e o bloqueio das substituições. Falou também em “caos na Saúde”, embora na sexta anterior (09), no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, tenha admitido (aqui) que os problemas no setor “não vêm de hoje”.

Após as duas entrevistas à Folha no domingo, José Roberto conseguiu marcar no fim da tarde de hoje uma reunião com Rafael, para tentar negociar o fim da greve.

 

Atualizado às 18h30 para incluir a denúncia da oposição no MPF

 

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Arthur Soffiati — Fogo do inferno em meio ao paraíso de São Francisco de Itabapoana

 

Ecohistoriador Athur Soffiati

Fogo

Por Arthur Soffiati

 

Evoco um depoimento: “Uma trilha, vinda da costa, cedo nos conduziu, através de espessos bosques, a uma grande floresta. Cavalgava adiante da tropa, observando as belas plantas, e pensando nos tapuias, que algumas vezes infestam essas paragens, quando, para meu pequeno espanto, vi de súbito, em frente de mim, dois homens escuros e nus. Tomei-os por selvagens no primeiro momento, e preparava a espingarda de dois canos para me defender de qualquer ataque, quando percebi que eram caçadores de lagartos. Os colonos, que vivem esparsos nessas solidões, gostam muito da carne da grande espécie de lagarto denominado teiú na língua geral dos índios da costa. Por isso, partem muitas vezes, entre matagais e florestas, em busca desses animais, levando um par de cães treinados para esse fim. Quando os cães se aproximam do lagarto, este se lança com a rapidez de uma flecha para a toca subterrânea, que lhe serve de morada, donde é arrancado e morto pelos caçadores. Sendo grande o calor, esses homens, cuja pele do corpo inteira fica tão tisnada pelo sol que podem passar por tapuias, desnudam-se completamente. Carregavam machados e dois lagartos de mais ou menos quatro pés de comprimento, inclusive a longa cauda. Esses caçadores, que conheciam bem a região, asseguraram-nos que estaríamos, em menos de uma hora, na fazenda de Muribeca, onde pretendíamos passar a noite. Com efeito, em breve passávamos a cerca que lhe servia de limite”.

Não era uma única pessoa, mas uma expedição, que caminhava por trilha em meio a espessa floresta, encontrando dois caçadores de teiú que pareciam indígenas. E o escritor prossegue: “Na escura e imponente mata virgem achamos bonitas plantas, e o soberbo ‘Convolvulus’ de flores azul-celeste enlaçava-se nos arbustos, até grande altura. O pio forte e grave do ‘juó’, em três ou quatro notas, é ouvido, nessas matas imensas, em todas horas do dia e mesmo à meia noite. Em todas as direções, divisamos um quadro encantador da majestosa solidão, às margens do Itabapoana, que, como fita de prata, vai coleando entre as selvas umbrosas, e corta uma planície verdejante, em cujo meio se localiza a grande fazenda de Muribeca, cercada de vastas plantações. Em todo o redor, florestas imensas limitam o horizonte”.

 

Teiú desenhado pelo viajante

 

 

O escritor manifesta encantamento pela floresta e sua fauna. Mas, pouco tempo depois, um segundo depoimento parece confirmar o primeiro: “A vegetação que limita essa praia (Manguinhos) era uma trama impenetrável de cactos, de monocotiledôneas espinhosas, arbustos em parte dessecados que se elevam a uma altura uniforme e entre os quais se nota um grande número de aroeiras, pitangueiras e feijões da praia. Findamos por distanciarmos da praia e penetramos em uma floresta. Durante todo o dia apenas encontramos água doce em um pequeno lago pantanoso. Durante muito tempo continuei a atravessar a floresta e, de repente, deparei um lugar descoberto, no meio de vasta plantação onde trabalhavam numerosos negros. Logo me aproximei da fazenda Muribeca, que eu havia visto de longe, ao sair da floresta. É construída ao pé de algumas colinas que, a sudoeste, limitam uma planície estreita e muito comprida, cercada de matas virgens. Essa risonha planície forma uma espécie de oásis no meio de sombrias florestas. O céu apresenta um azul dos mais brilhantes, e a calma profunda que reinava na natureza junta mais encanto à paisagem”.

Céu esplendoroso, rio de águas cristalinas, floresta majestosa. Passando considerável tempo depois da expedição dos dois primeiros, alguém cruzou o mesmo local e se perguntou: “Não será este o Paraíso perdido, ocultado debaixo destes frondosos e sombrios bosques?”. Mas entre os dois primeiros e o terceiro, alguém registrou o fogo do inferno no meio desse paraíso e o registrou no desenho abaixo.

 

Fogo para obter terreno para plantio e pasto

 

O primeiro depoimento foi deixado pelo príncipe alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, em 1815. O segundo vem do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, datado de 1818. O terceiro foi deixado pelo médico naturalista brasileiro Manoel Basílio Furtado em 1873. Finalmente, o desenho da queimada foi feito pelo naturalista e diplomata suíço Jacob Tschudi, em meados do século XIX. Todos os quatro se referem ao território hoje correspondente a São Francisco de Itabapoana. Pelo relato dos dois primeiros, podemos depreender que o paraíso vislumbrado pelo terceiro já estava sendo destruído, mas conservava ainda extensas e exuberantes florestas habitadas por diversa fauna nativa. O claro rio Itabapoana ainda contava com grande variedade de peixes.

Jacob Tschudi, que passou pelo antigo sertão de São João da Barra, hoje São Francisco do Itabapoana, proveniente da província do Espírito Santo, legou-nos um desenho que tem muito a ver com a realidade atual do município: o fogo, as queimadas. Depois de marchar quatro horas por uma trilha na mata virgem, ele assinala que ela não era mais tão virgem como no tempo de seus antecessores. Cá e lá, encontra-se uma que outra fazenda. Ele pousou na de São Pedro, do traficante português de escravos André Gonçalves da Graça, e observou as marcas externas de seu enriquecimento com o tráfico já considerado ilegal àquela época. Chamou a atenção para o intenso extrativismo vegetal, salientando que o comércio madeireiro parecia render fabulosos lucros, além das facilidades de transporte, pois que as florestas não ficavam muito distantes da costa, onde eram embarcadas as madeiras para exportação. Mas lamentou que a síndrome do desperdício eliminasse madeiras nobres junto com as comuns usando o fogo para abrir espaço destinado à lavoura e à criação de animais.

A reportagem com título “Queimadas constantes em SFI”, publicada na “Folha da Manhã” de 4 de agosto do corrente, motivou-me a desarquivar questões relacionadas ao emprego de fogo, já que o jornal, nesse dia, dedicou-se à queimada de vegetação e de corpos humanos numa usina de Campos, estes durante a ditadura militar que o governo atual insiste em negar.

Foz barrada do Córrego de Barrinha com exemplar jovem de mangue branco

São Francisco de Itabapoana compreende, na sua maior parte, terrenos de restinga, do rio Paraíba do Sul até Guaxindiba, e de tabuleiros, do rio Guaxindiba ao Itabapoana. No primeiro, a vegetação típica era herbácea e arbustiva, crescendo sobre terreno arenoso. O segundo era revestido pela Mata Atlântica na sua variação estacional semidecidual. Trata-se de um tipo de mata vigorosa que perde de 20% a 50% de suas folhas na estação seca. Daí estacional. E, por não perder suas folhas por completo, é semidecidual. Depois de um desmatamento secular e descomunal, restou dela a Mata do Carvão. Trata-se de um nome sintomático, pois, da mata, eram retiradas árvores para a fabricação de carvão. Ela hoje está protegida pela Estação Ecológica Estadual de Guaxindiba, depois de uma luta árdua contra proprietários rurais com espírito colonial e contra desmatadores contumazes.

Além desse fragmento de mata, restaram poucos vestígios da antiga floresta. No meio da imensa mata original, deslizavam nove pujantes córregos, dos quais a maioria dos cidadãos do município e da região desconhece seus nomes por terem sido eles desfigurados pelo desmatamento, agricultura, pecuária e mineração praticada pela antiga Nuclemon, depois Indústrias Nucleares do Brasil (INB). Os córregos Salgado, Doce, Guriri, Tatagiba Grande, Tatagiba Pequeno, Buena, Barrinha, Manguinhos e Guaxindiba perderam suas matas ciliares, foram barrados em vários pontos, tiveram seus cursos modificados e quase todos perderam suas desembocaduras no mar. Foram assoreados, eutrofizados e embrejados.

O individualismo da economia de mercado foi violento nos países de fraca cidadania. O Brasil se inclui entre eles. A região norte-noroeste fluminense parece não ter saído do período colonial brasileiro. O individualismo exacerbado e retrógrado leva o proprietário rural a destruir, em nome da economia e do magro lucro, exatamente o que lhe propicia ganhos. Ele não tem limites. Ele trabalha sob orientação de um capitalismo atrasado. O capitalismo moderno, conhecido como desenvolvimento sustentável, não chegou à região. O pouco dele que chegou ao Brasil parece enfrentar um processo de extradição com o novo governo federal.

O resultado é que São Francisco de Itabapoana se tornou ressecado ao extremo. As raras chuvas que caem não são retidas como antes, pois não existem mais as imensas florestas e os córregos. Com o ressecamento da vegetação rasteira, qualquer guimba de cigarro deflagra um incêndio que dizima a flora e fauna, ameaçando também moradores. Eis aí o efeito bumerangue. As poucas pessoas que desejam reverter minimamente as péssimas condições ambientais enfrentam forte oposição de interesses insustentáveis nos dias atuais.

Aqueles que lutam por um mundo mais justo pelo prisma socioambiental sofrem ao conhecer São Francisco de Itabapoana, munícipio em cujas terras começou a história do Rio de Janeiro e que conta com um potencial turístico em decomposição.

 

Livros citados

Auguste de Saint-Hilaire. Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp,1974.

J. Tschudi. Viagem às Províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Belo Horizonte: Itatiaia, São Paulo: Edusp, 1980.

Manoel Basílio Furtado. Itinerário da Freguesia do Senhor Bom Jesus do Itabapoana à Gruta das Minas do Castelo. Campos dos Goytacazes: Essentia, 2016.

WIED-NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1989.

 

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Saúde — Noticiário, opinião e redes sociais em conflito entre patrão e empregado

 

 

Saúde, noticiário e opinião

Na edição de ontem da Folha, em seu espaço semanal, o colunista Murillo Dieguez dedicou cinco notas à sua visão crítica da greve dos médicos da Saúde Pública de Campos, deflagrada na última quarta (07). E mexeu em um vespeiro, gerando ferroadas em enxame nas redes sociais. Não se espera que médicos saibam sobre jornalismo mais do que jornalistas sabem sobre medicina. A Folha, como qualquer outro jornal do mundo, se divide em duas partes: noticiário e opinião. O primeiro busca a isenção pela narração impessoal dos fatos. O segundo, como o próprio nome diz, se trata de opinião, portanto parcial, sobre estes mesmos fatos.

 

José Roberto Crespo (Foto: Isaias Fernandes – Folha da Manhã)

 

Contraditório

Na parcialidade inerente à opinião, a mídia deve buscar o equilíbrio pelo contraditório. Muito anterior ao jornalismo, é o princípio da ágora grega, onde pontos de vista diferentes dos cidadãos eram ecoados, que inventou a democracia meio milênio antes de Cristo. Na busca do equilíbrio entre as opiniões, mesmo sem saber o que Murillo escreveria, já havia sido marcada uma entrevista (aqui) do presidente do Sindicato dos Médicos, José Roberto Crespo, no programa Folha no Ar da manhã de ontem, da Folha FM 98,3. Já no noticiário, ele e outros líderes da classe, foram ouvidos em todas — todas! — as matérias da Folha sobre o movimento.

 

Opiniões e opiniões

São várias as confusões sobre a divisão de papeis no jornalismo. Hoje secretário de Governo, quando repórter da Folha, Alexandre Bastos chegou a ser responsabilizado na tribuna da Câmara Municipal por uma charge publicada no jornal. É mais ou menos o que faz quem “acusa” Murillo de expressar a opinião da Folha. Esta se dá apenas neste Ponto Final, não nos vários colunistas e articulistas que ecoamos. São as opiniões deles, não do jornal. É opinião do jornal, por exemplo, que o governo errou ao implantar o ponto biométrico, ao mesmo tempo em que suspende as gratificações e substuituições dos médicos. E que o erro que pode custar caro em 2020.

 

Opinião comum

Há coisas que excedem a opinião do jornal, de um colunista ou articulista. Trata-se da opinião comum. É o caso do oportunismo de uma categoria que só lembra da precariedade das condições de serviço, que se arrasta na Saúde há mais de uma década, quando é submetida à biometria e tem suspensas as gratificações. Como também é opinião comum a injustiça de se reduzir pela metade o rendimento mensal de um médico plantonista que fez despesas contando com R$ 4 mil de salário, mais R$ 4 mil de gratificação. Foi o que José Roberto Crespo observou ontem no Folha no Ar. E vale para todos os profissionais da Saúde.

 

E a população?

Nos tempos de polarização em que vivemos, causados pelas redes sociais que tinham como objetivo integrar as pessoas, mas as dividiram em fenômeno inédito na história da humanidade, há contradições. Nelas, quem acusa parcialidade contrária, geralmente o faz enquanto pleiteia parcialidade a favor. Como todo médico sabe, a diferença entre o remédio e o veneno é a dosagem. A briga dos profissionais da Saúde Pública com a Prefeitura é um típico conflito de classes entre patrão e empregado. Só quem não pode pagar o pato é a população. Sobretudo em algo que tem o poder de determinar entre sua vida e sua morte.

 

Reforço

Eleito com discurso de forte apelo pela segurança pública, o governador Wilson Witzel (PSC) convocou mais de 500 aprovados em concurso para policial militar desde o início do ano. Líder do PSC na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), o deputado Bruno Dauaire disse, em entrevista a uma rádio no Rio de Janeiro, que Witzel o prometeu que após a formação dos agentes, os novos PMs com origens no interior vão retornar à região para recompor os efetivos dos respectivos batalhões.

 

Água

Com o objetivo de investigar possíveis irregularidades na medição de água em todo o Estado, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). O deputado estadual Gil Vianna (PSL), membro da CPI, participou de reunião em que parlamentares defenderam a revisão legal na Tarifa Social, que não acontece há 25 anos. Gil também é autor do projeto na Casa que obriga as concessionárias fornecedoras de água a instalar bloqueadores de ar nos hidrômetros, mediante solicitação do usuário.

 

Com Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

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Doutor usa anúncio publicitário para tentar influenciar a linha editorial da Folha

 

O mais didático dos momentos de polarização social é a revelação que ela é capaz de fazer da índole das pessoas, algumas com as quais convivemos há anos, sem nunca ter percebido, de fato, de quem se tratavam. Identificar, por exemplo, quem é capaz de passar pano em milícias, nepotismo, invasão de terras indígenas, desmatamento da Amazônia, defesa de tortura, assassinato e ocultação de cadáver, para tentar defender o seu “político de estimação”, serve para saber com que tipo de gente estamos lidando. E que seguirá sendo o que é quando passarem os governos.

Sobre a greve dos médicos da Saúde Pública de Campos, deflagrada na quarta (07), o médico Jóber Brito, que conheço pessoalmente há anos, já havia entrado em contato comigo, via WhatsApp, desde o sábado anterior (03). O fez para contestar uma nota da coluna Ponto Final (aqui), na edição da Folha daquele dia, especificamente falando sobre a implantação do ponto biométrico em todo o serviço público, incluindo os médicos:

Sem nenhuma edição, vamos à integra da conversa:

 

 

O contato foi amistoso. E serviu para que o presidente do Sindicato dos Médicos, José Roberto Crespo, fosse o convidado da manhã de hoje do programa Folha no Ar, mais ouvido de Campos e região, na Folha FM 98,3. Para quem não viu ou quiser rever, confira abaixo:

 

 

Pois Jóber voltou hoje a fazer contato via WhatsApp. Por conta de cinco notas da coluna de Murillo Dieguez, publicada sempre às sextas, que traziam uma visão crítica da greve dos médicos, Jóber acusou a Folha de parcialidade. Mesmo que o contraditório fundamental ao jornalismo tenha sido oferecido no mesmo dia, com a entrevista de José Roberto Crespo.

Ainda assim, franqueei mais uma vez o espaço para que Jóber se manifestasse, garantindo democraticamente a publicação. Mas no particular da acusação de parcialidade crítica que não se sustenta diante dos fatos, a não ser que se busque a parcialidade favorável, pedi a Jóber, na intimidade do conhecimento de anos: “não encha o saco”.

Daí, o que se deu foi a atitude mais coronelesca possível. Por ter veiculado um anúncio publicitário na Folha e feito o “favor” de pagar por ele, Jóber sugeriu que isso deveria ser levado em conta na condução da linha editorial do jornal. Chegou, pasme-se, a enviar cópia da fatura paga, na pretensão de tranformá-la em cobrança. Não sei com que tipo de mídia o doutor está acostumado a lidar, mas na Folha da Manhã ele foi posto em seu devido lugar.

Até pelo sigilo que protege a relação repórter/fonte, resguardada nos artigos 5º e 220 da Constituição Federal, os mesmos que hoje se põem nacionalmente em questão por quem pretende subverter o estado democrático de direito, não tinha a intenção de revelar nada disso. Nunca o fiz, ou voltarei a fazê-lo, desde que a relação de confiança não seja rompida e adulterada pela fonte. Foi o que constatei ao ser alertado que, para fazer média com seus colegas e posar de defensor da categoria, o doutor publicou em grupos de WhatsApp uma parte editada da conversa.

Na versão do doutor, editada dolosamente para favorecê-lo, ela teria ocorrido apenas assim:

 

 

Na versão integral dessa segunda (e última) conversa, com a tentativa patética do doutor de chantagear com anúncio publicitário a linha editorial de um jornal, ela ocorreu na verdade assim:

 

 

Peço desculpas ao leitor do blog, por divulgar um assunto tão menor e mesquinho. Mas, em nome da verdade, nenhuma edição deve ser admitida para que cada um, doutor ou não, possa fazer seu diagnóstico por conta própria.

 

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Oncologia de Campos: Wladimir libera R$ 2,4 milhões e extra de R$ 1,5 milhão/mês

 

 

Em 26 de junho, a Folha anunciou aqui que o deputado federal Wladimir Garotinho (PSD) conseguiu liberar R$ 2 milhões, junto à secretaria estadual de Saúde, acumulados desde novembro de 2018 no atendimento oncológico extrateto prestado pelo Hospital Álvaro Alvim. Hoje o parlamentar procurou o blog para informar que o valor na verdade é de R$ 2,4 milhões. E anunciou que conseguiu também liberar R$ 500 mil/mês de extrateto para os serviços oncológicos que venham a ser prestados pelas Unidades de Assistência de Alta Complexidade em Oncologia (Unacons) do Álvaro Alvim, da Beneficência Portuguesa e do Hospital Dr. Beda.

A articulação do deputado se deu com o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, com base na Resolução SES 1748, datada de 16 de outubro de 2018. Todo o serviço oncológico de saúde pública credenciado junto ao Governo do Estado têm tetos pré-fixado para atendimento. O que há havia sido prestado além deste limite pelo Álvaro Alvim, Wladimir conseguiu liberar os R$ 2,4 milhões represados desde novembro. E agilizou o credenciamento da Beneficência e do Beda. A partir de agora, as três Unacons de Campos terão no total R$ 1,5 milhão mensais para atender além do teto.

 

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Mérida assume PSC de Witzel na terça com Pastor Everaldo e mira Prefeitura em 2020

 

Marcelo Mérida e Pastor Everaldo, presidente nacional do PSC (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Líder lojista, Marcelo Mérida (PSD) vai se mudar oficialmente ao PSC do governador Wilson Witzel na próxima terça (13), às 15h, no auditório da Acic. A Folha já havia revelado a movimentação aqui, no último dia 24, que foi confirmada aqui, no dia 26, pelo blog. Para dar peso à filiação, o presidente nacional do PSC, Pastor Everaldo, virá a Campos participar do evento.  Mérida deve assumir a presidência municipal da legenda no lugar do Pastor Marcos Elias. E se cacifa para ser pré-candidato do PSC a prefeito de Campos em 2020, ou para compor a chapa do também pré-candidato Wladimir Garotinho (PSD, do qual Mérida está saindo).

Ao blog, Mérida relembrou que já havia conversado duas vezes com o governador Witzel sobre sua ia ao PSC. Quanto ao pleito majoritário de 2020 em Campos, disse ser ainda cedo. E que seu objetivo é fortalecer o partido no município e na região. No entanto, adiantou que a disussão da eleição a prefeito de Campos tem que se dar em cima de projetos, não de nomes. Lembrado que este é o mesmo discurso de Wladimir, o lojista e ex-secretário municipal de Rosinha Garotinho (hoje, Patri) respondeu: “Não tenho initimidade com ele. Mas que bom que outras pessoas também estejam mais preocupadas com propostas para a cidade, do que com a dicussão de nomes”.

Outro dado que reforça a costura entre Mérida e Wladimir é o papel importante que o principal aliado político deste, o deputado estadual Bruno Dauaire (PSC), desempenhou para levar o empresário à sua legenda. Por trás disso também podem estar as críticas que o presidente da CDL/Campos, Orlando Portugal, outro ex-secretário de Rosinha e companheiro do grupo lojista de Mérida, fez recentemente ao governo Rafael Diniz (Cidadania).

Na oportunidade, Orlando colheu reação forte (aqui) do secretário municipal de Governo Alexandre Bastos: “Ao criticar (aqui) a nota do presidente da CDL, afirmei que não era manifestação técnica, mas política(…) Agora vejo que um grupo pretende migrar a uma legenda e se posicionar politicamente. Este é o melhor caminho para quem deseja um debate político. O PSC é um partido. A CDL, não”.

Também integrante do grupo lojista de Mérida e Orlando, o empresário Joilson Barcelos chegou a também se lançar pré-candidato a prefeito, em entrevista publicada (aqui) na Folha, no último dia 28. Nela, além de elogiar os Garotinho, Joilson fez severas críticas ao governo Rafael. E recebeu a resposta também dura do prefeito (aqui) no dia seguinte (29). No dia 1ª, o empresário anunciou (aqui) no programa Folha no Ar, da Folha FM 98,3, que não se lançaria mais à Prefeitura de Campos, pelo menos não em 2020.

 

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Secretário de Educação de Campos na banca de pós-graduação do governador

 

Brand e Witzel (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Todos sabem que o ex-juiz federal Wilzon Witzel (PSC) é governador do Estado do Rio. E, pelo menos em Campos, todos sabem que o sociólogo Brand Arenari é o secretário de Educação do governo Rafael Diniz (Cidadania).

O que pouca gente sabe é Brand fará parte da banca examinadora na pós-graduação de Witzel em Ciências Sociais, no dia 15 deste mês, pela Univesidade Federal Fluminense (UFF). A tese do governador, que vai passar pelo exame de qualificação do secretário de Campos, é “Dimensão Política da Jurisdição”.

 

 

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MPF responde sobre caso Cambaíba, herdeiros negam e Bolsonaro ironiza Garotinho

 

 

Jair Bolsonaro trouxe os antigos fornos de Cambaíba, hoje destruídos, ao noticário nacional (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr)

 

MPF fala sobre Cambaíba

Na última quinta (1º) a Folha gerou três perguntas ao Ministério Público Federal (MPF) de Campos. Que naquele mesmo dia divulgou (aqui) inquérito apontando que os corpos de 12 presos políticos da ditadura militar foram queimados nos fornos da usina Cambaíba, entre 1973 e 1974. As denúncias iniciais foram do ex-delegado do Dops Cláudio Guerra, no livro “Memórias de Uma Guerra Suja”, de 2012. O caso voltou ao noticiário nacional no dia 29, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) disse que um dos 12 presos, o ex-militante de esquerda Fernando Santa Cruz, citado por Guerra, teria sido morto pelos próprios companheiros.

 

MPE já tinha falado

A intenção inicial da Folha era ter, via assessoria do MPF, as respostas do procurador da República de Campos, Guilherme Virgílio, até o sábado (03), para publicá-las no domingo (04) junto a outra entrevista, com o promotor do Ministério Público Estadual (MPE) Marcelo Lessa.  Ainda em 2012, ele arquivou investigação sobre as denúncias de Guerra, concluindo: “desses supostos assassinatos ou ocultação de cadáver, não há o menor indício sério e idôneo de quem possam ter ocorrido em território campista”. Marcelo recebeu as perguntas na sexta, um dia depois do MPF. Ainda assim, enviou suas respostas a tempo da publicação (aqui) no domingo.

 

Respostas do MPF (I e II)

Via WhastApp, a Folha tinha tentado contato diretamente com o procurador Guilherme desde o dia 30. Mas não teve retorno. Ontem (07) o MPF de Campos enviou, via assessoria, suas respostas às perguntas do jornal: 1) Quantos depoimentos e de quem, caso seja possível revelar, além do Cláudio Guerra, foram utilizados para embasar a denúncia? MPF: “Foram realizadas mais de 25 oitivas, mas a identidade física das testemunhas segue em sigilo, para protegê-las”. 2) Quais foram os documentos e quantos foram analisados também para chegar a essa conclusão? MPF: “Foram centenas de documentos”.

 

Respostas do MPF (III)

Por fim: 3) Houve relatos de alguém além do Cláudio Guerra que corroborou sua versão? De quem e de quais funções? MPF: “Sim, vários depoimentos corroboraram os fatos narrados, mas, como já dito, a identidade das testemunhas permanece em sigilo”. Pelas respostas curtas e genéricas dadas pelo procurador da República, cujos sigilo e cautela se entendem, não dá para saber muito mais sobre o polêmico caso. Ontem, no link da postagem da entrevista de Marcelo Lessa à Folha no Facebook, quem levantou argumentos (aqui) para contestar a conclusão do MPF foi o policial civil José Bainha, representante da família herdeira do espólio de Cambaíba.

 

Resposta de Cambaíba

“A data das alegadas incinerações de oito dos 12 corpos, antes do início da moagem, torna essa versão absurda. Os fornos de uma usina não são como fornos domésticos ou de padaria, que podem ser ligados a qualquer momento. Na moagem não existe ‘calada da noite’, o funcionamento é 24h em turnos de 12h/12h, cada um com 20 funcionários, fora os caminhões de cana que avançam a madrugada. Além do mais, os fornos ficavam diante de uma via pública e um vilarejo com 200 casas. Sou neto de Heli Ribeiro Gomes (falecido proprietário da usina) e digo como família que vamos rebater essa narrativa infundada”, garantiu Bainha.

 

Bolsonaro mentiu

Após investigação, a Comissão Nacional da Verdade concluiu que Fernando Santa Cruz foi preso, torturado e morto pelas forças de repressão da ditadura. Mas deu duas alternativas ao destino do corpo: teria sido incinerado em Cambaíba, como dizem Guerra e o MPF de Campos, ou enterrado em vala comum no Cemitério dos Perus, em São Paulo. Na dúvida, uma certeza: Bolsonaro mentiu quando disse que o pai do presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, teria sido morto pelos próprios companheiros. O relatório secreto RPB 655, do Comando da Aeronáutica, prova que Fernando Santa Cruz foi preso pela ditadura em 22 de fevereiro de 1974.

 

Relatório secreto RPB 655, do Comando Costeiro da Aeronáutica atesta que Fernando Santa Cruz foi preso pela ditadura e desmente Bolsonaro

 

E ironizou Garotinho

Bolsonaro voltaria a colocar Campos na pauta. Na segunda (05), em entrevista à jornalista Leda Nagle, ele ironizou o ex-governador Anthony Garotinho (sem partido). Sobre a violência do Estado do Rio, a repórter lembrou que houve quem já tenha prometida acabar com o problema em seis meses. Ao que o presidente respondeu rindo: “Mas ele era Garotinho”. E, sem parar de rir, emendou: “Fez até um livro, né?”. O presidente se referiu a “Violência e Criminalidade — Diagnóstico e Propostas para uma Política Democrática de Segurança Pública”, publicado por Garotinho em 1998, quando se elegeu governador. E deu no que deu.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

 

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Soffiari: “A esfericidade da Terra e o evolucionismo são mitos para destruir a religião”

 

(Charge de Marco Antônio Rodrigues)

No link do meu artigo de domingo no Facebook, o professor e historiador Arthur Soffiati fez um comentário (aqui) sobre o obscurantismo da neodireita que avança no mundo. Disposta a passar o pano sobre o indefensável, quando se trata de defender os pés de barro do seu “mito”, foi definida (aqui) no Brasil pelo conservador Delfim Netto: “direita incultural”. Para começar bem a semana, como a define Soffiati:

— Há limites para a esquerda e a direita. A realidade se impõem para qualquer interpretação. Existe um tendência política que avança no mundo com viés claramente obscurantista. Conheço pensadores conservadores fundamentados e sérios. O grupo que governa o Brasil atualmente é obscurantista. Atribui tudo a uma conspiração da esquerda. O mundo não está criticando Bolsonaro por conta própria. É o PT que está fazendo a cabeça da imprensa internacional. As mudanças climáticas são uma invenção de ONGs de esquerda. Há brasileiros que passam mal, mas não passam fome. A esfericidade da Terra e o evolucionismo são mitos espalhados pela petralha para destruir a religião. O homem não chegou à Lua. Tudo isso é coisa de comunista. Isso sim é ideologizar a realidade.

 

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Artigo do domingo — Presidente da República, Bolsonaro reduz a verdade a cinzas

 

Bolsonaro reduz verdade a cinzas

 

Tarde quente de dezembro de 2002. O sol malhava como bigorna no solo de cascalho. A vegetação retorcida, raquítica e agressiva dava significado ao nome caatinga. Em tupi: ka’a, mato + tinga, branca. Por branca, entenda-se oposição ao verde, que só aparece quando chove. A não ser o juazeiro. Mas, sem vento, chove só uma vez ao ano naquele trato de sertão baiano.

Era o centenário da publicação de “Os Sertões”. Euclides da Cunha o escreveu com base em seu trabalho de campo, como correspondente da Guerra de Canudos (1896/1897) para o Estado de São Paulo — Província de São Paulo nos tempos do Império pelo qual os sertanejos ainda guardavam devoção. Império que caiu no nosso primeiro golpe militar, de 1889.

A República ainda engatinhava. Pressionado pelos militares que a fundaram, nosso primeiro presidente civil, Prudente de Moraes, teve que convocar reservistas para lutar contra brasileiros excluídos socialmente, mas unidos pela fé cristã, no sertão da Bahia. Com 25 mil almas arrebanhadas na liderança do místico Antônio Conselheiro, Canudos era então a segunda maior cidade daquele estado, atrás apenas da capital Salvador.

Com base nas prédicas de Conselheiro, os códigos civil e penal de Canudos eram Mateus, Marcos, Lucas e João. Mesmo com o dinheiro abolido dentro do arraial, foi um sucesso econômico, que atraía a mão de obra antes barata e farta de todo o sertão do Nordeste. Reunidos pela fé, os antigos servos romperam com o feudalismo dos coronéis. Por incrível que pareça, deu certo. E incomodou. Foi por isso alvo de quatro expedições do Exército Brasileiro. Às quais resistiu com tenacidade desconhecida até dos veteranos da Guerra do Paraguai (1864/1870).

Euclides da Cunha

Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”, abre Euclides, natural da nossa vizinha Cantagalo, a sua obra. E segue ao epílogo: “Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5 (de outubro de 1897), ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”.

Depois de um dia colhendo histórias dos parentes de conselheiristas em Bendegó, batizada pelo meteoro que caiu ali e depois resistiu ao incêndio que destruiu o Museu Nacional, o destino era o sítio histórico de Canudos. Lá, o repórter e o fotógrafo pegaram como guia o menino Paullo. Conhecido do encontro ao acaso no dia anterior, tinha sido rebatizado Pablo, na confusão entre sotaques da mesma língua. Mas também em homenagem ao parceiro de João de Santo Cristo, na música “Faroeste Caboclo”, hino de brasilidade a quem foi adolescente e jovem nos anos 1980.

Menino Paullo Pablo em 2002, sobre o solo seco do sertão (Foto: Diomarcelo Pessanha – Folha da Manhã)

O menino Pablo levou os dois jornalistas sulistas ao Vale da Morte, onde foram ateados querosene e fogo sobre os mortos do maior genocídio que o Brasil pode fazer com o Brasil. Vinte e cinco mil corpos, incluindo mulheres e crianças, mais dos soldados que os mataram, mas morreram, não comportavam enterro individual em caixão. Com 70 kg em média de osso, carne e sangue coagulado por cada um dos mortos, todos queimados no mesmo lugar, imagina-se a quantidade de cinzas. Mesmo mais de 100 anos depois, sem vento e com pouca chuva, essas cinzas ainda estão lá, em meio ao cascalho do chão.

Caetano e Gil cantaram: “O Haiti é aqui”. No sertão do Brasil, Auschwitz também.

O repórter vê aquela quantidade imensa de cinzas, ajoelha-se sobre elas, toma-as com a mão direita, entre o cascalho. Ergue-se, tonto por tê-lo feito rápido, pelo calor e o que está ali, diante de seus olhos. Que fixa na grande umburana. Destaca-se por ser a única árvore de talo largo da caatinga. E pelo fato de, destituída das folhas que só brotam quando chove, fazer sua fotossíntese pela resina esverdeada escorrida do tronco. O que lhe dá aspecto de grande confeito, guloseima plantada ao solo pela bruxa da história infantil de João e Maria.

 

Tom Jobim

 

Vagarosamente caminhando a ela, o repórter lembra: “Jobim dizia que era bom abraçar árvore”. E, com o tronco da umburana entre seus braços, desaba e umedece o sertão em crise convulsiva de choro. O fotógrafo, que já conhecia a pessoa do repórter, não intervém na catarse, em meio às cinzas dos tantos mortos que batizam o vale. Por sua vez, o menino Pablo observa aparentemente impassível.

Noite daquele dia cheio de dezembro, bebiam cerveja em boteco da Nova Canudos, arquitetada em típico quadrado de povoamento português. Era outro quadrado à mesa: o repórter, o fotógrafo, mais outro companheiro de expedição, já curado da ressaca do forró da véspera, e o poeta local José Américo. Falavam das venturas e desventuras do dia. Até que alguém toca no ombro do repórter.

Era o menino Pablo. Na escuridão da noite, tinha caminhado a pé os oito quilômetros que separam a Nova Canudos do sítio histórico de Canudos, às margens do açude do Cocorobó, onde mora. Trazia um galho na mão, entregou-o ao repórter e revelou: “É uma muda daquela umburana que você abraçou”. E mais não disse. Deixou a muda e emudecida a mesa de bar. Virou-se e caminhou até sumir na escuridão, para vencer os oito quilômetros de volta.

Difícil descrever em palavras o que o repórter sentiu, quando abraçou a árvore e chorou de poça no Vale dos Mortos. A impotência diante do que homens puderam fazer com homens naquele sertão da Bahia, foi muito próxima do sentido ao ouvir um presidente de origem militar, 122 anos depois do nosso primeiro presidente civil, dizer de uma OAB que cumpriu sua função institucional (e constitucional) de defender um advogado:

“Por que a OAB impediu que a Polícia Federal entrasse no telefone de um dos caríssimos advogados (do Adélio Bispo, autor da famosa facada)? Qual a intenção da OAB? Quem é essa OAB?”, indagou Bolsonaro a jornalistas na manhã da última segunda (29). E revelou na sequência, com o prazer sádico do riso, quem é a pessoa do presidente da República: “Um dia se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, eu conto para ele. Ele não vai querer ouvir a verdade”.

 

Presidente nacional da OAB, Felipe Santa Cruz, e seu pai, Fernando, cujo corpo o MPF diz ter sido incinerado  na usina Cambaíba (Montagem)

 

O pai de Felipe foi Fernando Santa Cruz, estudante de Direito, servidor público e militante do grupo Ação Popular Marxista-Leninista (APML). Ele desapareceu em 22 de fevereiro de 1974, aos 25 anos, deixou para trás um filho de apenas 2, e nunca mais foi visto. Nos 45 anos seguintes, sua mãe, dona Elzita Santa Cruz, jamais deixou de buscar o corpo do filho. O fez incansavelmente até falecer em junho deste ano, 105º da sua vida.

Depois da reação nacional às declarações de Bolsonaro, este gravou uma live na tarde daquela mesma segunda. Enquanto cortava o cabelo, afirmou que Fernando Santa Cruz teria sido morto por integrantes da própria APML. Só que o relatório secreto RPB 655, do Comando Costeiro da Aeronáutica, atesta que Fernando Santa Cruz foi preso pela ditadura em 22 de fevereiro de 1974. Em bom português: o presidente da República mentiu!

 

Relatório secreto RPB 655, do Comando Costeiro da Aeronáutica, atesta que Fernando Santa Cruz foi preso pela ditadura

 

O mesmo repórter passou a correr atrás da história, após ser alertado por outros dois jornalistas, um de Itaperuna, outro radicado na Califórnia, que o destino de Fernando Santa Cruz teria sido a incineração nos fornos da usina Cambaíba, em Campos dos Goytacazes. Quem contou isso com riqueza de detalhes foi o ex-delegado do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) Cláudio Guerra, no livro “Memórias de uma Guerra Suja”, de 2012. Com base em seus relatos o Ministério Público Federal (MPF) de Campos concluiu, desde o último dia 26, que os corpos de Fernando e outros 11 presos políticos da ditadura teriam sido queimados nos fornos da usina de Campos. Para que se torne fato histórico, demanda o julgamento da Justiça Federal.

 

Promotor estadual Marcelo Lessa (Foto: Folha da Manhã)

 

Bem verdade que, ainda em 2012, logo após o lançamento do livro, o Ministério Público Estadual (MPE) de Campos pediu o arquivamento da investigação “desses supostos assassinatos ou ocultação de cadáver, não há o menor indício sério e idôneo de quem possam ter ocorrido em território campista”. E o fez sem ouvir Cláudio Guerra, base para o inquérito do MPF. Sobre seus motivos, fala sete anos depois (aqui) o promotor Marcelo Lessa, na página 2 desta edição.

Para a Comissão Nacional da Verdade, que também se debruçou sobre o caso, não há dúvida de que Fernando foi preso, torturado e executado pela ditadura. Mas, sobre o destino do corpo, aponta duas opções: ou foi enterrado numa vala comum no Cemitério dos Perus, em São Paulo; ou, como Guerra conta, foi assassinado na Casa da Morte em Petrópolis, e de lá levado para ser incinerado em Cambaíba. Pelos 45 anos que nos separam dos fatos, é praticamente impossível ter certeza. Só uma sobrevive documentada: diferente do que disse Bolsonaro, o pai do presidente da OAB foi preso, torturado e morto pelo Estado.

Conhecer os pormenores da história trágica de Fernando, como a dos outros 11 presos políticos que também teriam sido incinerados nos fornos de Cambaíba, é um experimento doloroso para a alma. No vale dessas cinzas do passado mal resolvido do país, revisitado por um presidente sem escrúpulos de moral para queimar, não há árvore para abraçar enquanto se chora.

 

Diante das ruínas da Canudos de Conselheiro, que só aparecem quando o açude do Cocorobó baixa o nível das suas águas, Paullo Pablo ao centro, hoje homem, pai e guia do Parque Estadual de Canudos (Foto: Facebook)

 

Lenitivo foi ganhar aquela muda de umburana em Canudos, hoje árvore de três metros de altura, frondosa e cheia de folhas no clima mais úmido de Atafona. Como se tornou homem o menino Paullo. Adotou o nome Pablo e vive de contar as histórias de brasileiros que reduzimos a cinzas.

 

Publicado hoje (04) na Folha da Manhã

 

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