Pichações na Uenf acendem o debate entre protesto e vandalismo

 

 

 

Capa da Folha da Manhã de hoje (16)

 

Pichações na Uenf

Desde o assassinato a tiros da vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março, a Folha foi um dos tantos veículos de mídia do Estado, do Brasil e do mundo a cobrar a elucidação do crime bárbaro. Assim como tem noticiado todas as denúncias de corrupção do governo Michel Temer (MDB). Por isso mesmo tem independência para ecoar em seu noticiário (aqui) e nesta coluna de opinião os questionamentos feitos às pichações que amanheceram espalhadas ontem (15) nos prédios da Uenf, com palavras de ordem a favor da vereadora executada e contra o presidente em exercício.

 

Manifesto x integridade

Depois de brigar por sua implantação nos anos 1990, a Folha tem acompanhado atentamente a vida da instituição mais importante de ensino de Campos e região. A partir do fechamento (aqui) da Casa de Cultura Villa Maria, em 18 de abril do ano passado, este jornal cobrou da comunidade e do poder público (aqui, aqui e aqui) a reação devida à maior crise enfrentada pela Uenf em seus 27 anos, que se arrasta até os dias de hoje. Reitor da universidade neste momento de penúria financeira do Estado, Luis Passoni disse ontem sobre as pichações: “Embora compreenda a necessidade da juventude se manifestar, a gente tem que preservar a integridade do campus”.

 

Opiniões uenfianas

A fala do reitor da Uenf foi ecoada pelo professor de ciência política Hamilton Garcia: “Poderiam ter usado cartazes porque não danifica o patrimônio. É o espírito da época que entende que pichar não é um problema, mas é um equívoco”. Entre o corpo discente, houve divisão. Membro do Diretório Central dos Estudantes (DCE), Gilberto Gomes disse: “Não houve depredação, mas tiveram o intuito de sujar. É uma forma de manifestação pacífica”. Outro universitário, Gabriel Marques ponderou: “Alguns dizem que é uma forma de se expressar, mas eu acho totalmente errado. Devemos agir com cautela e respeitar nosso patrimônio”.

 

Vida e morte

Todos os entrevistados ressaltaram o clima de Fla x Flu político vivido no país, do qual as pichações foram frutos. O “Marielle vive” merece ser ecoado. Sobretudo enquanto sua execução covarde não for devidamente solucionada, como o deputado federal Chico Alencar (Psol) cobrou (aqui) em entrevista exclusiva à Folha. Mas não sem o equilíbrio de uma parlamentar de esquerda, negra, lésbica e feminista, que também dava assistência às famílias dos PMs mortos da cidade do Rio. Já o “Fora Temer”, pichado em vários outros prédios de Campos, se refere a um governo talvez já morto e que só espera 1º de janeiro de 2019 para ser sepultado.

 

Sem clima?

Mesmo com a Copa do Mundo sendo na Rússia, a expectativa de faturamento em solos tupiniquins é grande. A estimativa é que 33% das micro e pequenas empresas esperam faturar com a torcida pela Seleção Brasileira. O comércio está pronto, só esperando os clientes. Nas ruas é que a empolgação anda devagar. Em tempos bicudos, com desemprego batendo a casa dos 13 milhões, está difícil encontrar em Campos, por exemplo, ruas enfeitadas já no clima para torcer. Até mesmo para se vestir para a Copa, com a sonhada camisa oficial, está puxado.

 

Negociações suspensas

A Coreia do Norte suspendeu as negociações com a Coreia do Sul e expõe como motivo os eventuais exercícios militares entre sul-coreanos e estadunidenses. Paralelamente, o ditador da Coreia do Norte, Kim Jong-un, informou que pode cancelar a reunião de cúpula com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada para o dia 12, em Cingapura.

 

Com os jornalistas Dora Paula Paes e Arnaldo Neto

 

Publicado hoje (16) na Folha da Manhã

 

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Bolsonaro lidera sem Lula, PT queima navios e Ciro navega à direita

 

 

 

Lula e Bolsonaro lideram

Divulgada ontem, a pesquisa CNT/MDA confirmou duas tendências relevadas nas consultas anteriores: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda é o político mais popular do Brasil, com 32,4% das intenções de voto ao Palácio do Planalto. Mas preso pela Lava Jato e provavelmente fora da eleição pela Lei da Ficha Limpa, sem Lula o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) lidera a corrida presidencial. Com 18,3%, ele foi seguido fora da margem de erro pela ex-senadora Marina Silva (Rede), com 11,2%; pelo ex-ministro Ciro Gomes (PDT), com 9%; e pelo ex-governador paulistano Gerado Alckmin (PSDB), com 5,3%.

 

Sem Lula, Bolsonaro

Feita entre 9 e 12 de maio, com 2.002 pessoas de 137 cidades brasileiras e margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou menos, a pesquisa CNT foi a primeira já sem o nome do ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa (PSB), que anunciou no dia 8 sua decisão de não concorrer em outubro. A liderança de Bolsonaro fora da margem já havia sido constatada na consulta anterior, feita pelo instituto Paraná entre 27 de abril e 2 de maio. Nela, a vantagem do presidenciável de extrema direita foi ainda maior: 20,5% das intenções de voto, enquanto Marina ficou com 12% — 8,5 pontos, contra os 7,1 da CNT.

 

Capitão bateu teto?

Apesar da liderança, a série da CNT indica que Bolsonaro já pode ter batido seu teto. Na pesquisa anterior do mesmo instituto, realizada entre 28 de fevereiro e 3 de março, ele liderou entre 20% a 20,9% nos três cenários sem Lula. Mesmo dentro da margem de erro, o ex-capitão do Exército registrou queda de cerca de dois pontos na comparação com a consulta divulgada ontem. O fato é que, pela CNT, ele não cresceu suas intenções de voto nos últimos dois meses. Mesmo com sua prisão neste período, Lula também caiu pouco: dos 33,4% do início de março aos 32,4% de agora.

 

Prisão justa para 51%

Apesar de, dentro da margem de erro, ter mantido seu percentual de intenções de voto nas duas consultas CNT, a última registrou um dado preocupante ao líder petista: sua prisão em 7 de abril, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, foi justa para 51% da população. Outros 38,6% a consideraram injusta, enquanto 10,4% não souberam ou quiseram responder. Diante de uma pergunta diferente, 49,9% dos entrevistados disseram não acreditar que Lula disputará o pleito presidencial de outubro. Mas 40,8% ainda apostam na possibilidade, enquanto 9,3% não souberam ou quiseram responder.

 

PT queima navios

Desde 6 de fevereiro, ao tomar posse da presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ministro Luiz Fux garantiu que a “Justiça será irredutível na aplicação da Lei da Ficha Limpa”. Foi apenas 12 dias após o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) ter condenado Lula a 12 anos e um mês de prisão, em decisão unânime, no caso do triplex do Guarujá. Preso há cinco semanas, o ex-presidente teria dado a ordem para o PT descartar a aliança com a vice na chapa de Ciro. Ex-porta-voz do governo Lula, André Singer escreveu na Folha de São Paulo do dia último12: “Ciro começou a carreira no PDS (ex-Arena) e militou por muito tempo no PSDB”.

 

Ciro à direita

Descartado pelo PT numa união das esquerdas, Ciro já se declarou favorável à prisão após condenação em segunda instância e agora busca um vice ligado ao centro-direita político e ao grande capital nacional. Após ter sondado o presidente da Coteminas, Josué de Alencar (filho de José de Alencar, falecido ex-vice-presidente de Lula), o presidenciável do PDT agora flerta com Benjamin Steinbruch para compor a sua chapa. Filiado ao PP, ele é banqueiro, presidente do consórcio privado que controla a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e um dos homes mais ricos do país.

 

Esquerda mal

Contradições ideológicas à parte, Ciro pode não estar pragmaticamente equivocado. Apesar de líder na pesquisa CNT, Lula ainda não parece ser capaz de transferir seu imenso capital eleitoral ao petista mais provável para substitui-lo: o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad não foi além dos 2,3%. Presidenciáveis mais à esquerda foram ainda pior: a deputada estadual Manuela D’Ávila (PCdoB) cravou 0,9%, enquanto o líder do MTST Guilherme Boulos (Psol) anotou 0,6%. Mas como os indecisos, brancos e nulos chegaram a 45,7%, 2,5 vezes mais que as intenções de voto em Bolsonaro, tudo pode estar ainda em aberto.

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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Alexandre Buchaul — Cavalo Paraguaio

 

 

 

À medida que transcorre o tempo nesse ano eleitoral, postulantes a cargos políticos vão surgindo e lançando suas pré-candidaturas, algumas com maior estardalhaço, outras sem repercutir mesmo entre os familiares dos próprios pré-candidatos. Candidaturas como a do ex-ministro Joaquim Barbosa, detentora de bom percentual de intenções de voto não são comumente abandonadas, entretanto, já havia os que apostavam nisso, fazendo um paralelo com a aposentadoria do então ministro ainda durante o julgamento do mensalão.

Muitos lançam suas pré-candidaturas apenas para, no jargão do meio, por um termômetro, medir o tamanho da própria envergadura política, para em seguida abrir mão da disputa em favor de outrem, não raras vezes por motivos nada republicanos. Sejam cadeiras do executivo, sejam do legislativo a prática é recorrente e alguns aspirantes a políticos acabam por ficar mesmo marcados pelo hábito de o fazerem.

Com a última pesquisa publicada sobre as intenções de voto para o governo do Estado do Rio de Janeiro ficou evidente a vantagem do ex-jogador de futebol e atualmente senador Romário sobre os demais pré-candidatos. No entanto, a notícia de investigações do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre movimentações financeiras suspeitas envolvendo a família do senador, nos conduz a lembrar do episódio em que Romário, se colocando como postulante à disputa da Prefeitura do Rio de Janeiro, fora atingido por suspeitas envolvendo movimentações financeiras em bancos suíços e desistira da candidatura.

A eventual desistência de Romário na disputa deixaria o ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes, em situação bastante confortável e desenharia um possível segundo turno entre ele e Índio da Costa, já que o campeão de rejeição, Garotinho, provavelmente morreria na praia mais uma vez. Com esse cenário a aposta na vitória de Eduardo Paes, só agora decisão que o permite eleger-se, parece barbada e o baixinho, campeão dos gramados, assim como o Bernadinho, precisam abrir os olhos para não acabarem com a alcunha de cavalos paraguaios.

 

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Jornalismo ruim, mortes de Geisel e “tapa” de Bolsonaro

 

 

 

Lições do jornalista

Fundador desta coluna, o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa (1936/2012) era crítico ao desdém dos repórteres dos grandes centros com a imprensa do interior. Ele sabia bem do que estava falando, pois trabalhou na redação do Jornal do Brasil dos anos 1970, considerada uma das grandes escolas de jornalismo do país, antes de voltar a Campos, fundar a Folha e continuar trabalhando como correspondente do diário carioca — à época, o maior do Estado. Seu trabalho como repórter no “furo” internacional da descoberta de petróleo na Bacia de Campos está no livro “Jornal do Brasil — História e Memória”, da jornalista Belisa Ribeiro.

 

Jornalismo ruim

Episódios recentes demonstraram como — por incompetência ou, pior, dolo — é ruim a cobertura jornalística dos grandes centros sobre os fatos de Campos. Foi o caso da série de três reportagens do SBT Rio sobre as denúncias da delegada federal Carla de Mello Dolinski contra a operação Chequinho, veiculadas entre 30 de abril e 2 de maio. Foi o caso também da nota publicada na última sexta (11) pela jornalista Berenice Seara no jornal carioca Extra,  sobre o processo de infidelidade partidária movido pelo Rede contra o vereador Marcão Gomes (PR), presidente da Câmara de Campos.

 

Indução a erro

Logo em sua primeira matéria, o SBT Rio chegou a induzir a pensar que as operações Chequinho e a Caixa d’Água fossem a mesma coisa. Na verdade, a primeira nasceu da troca de Cheque-Cidadão por voto na eleição municipal de 2016, denunciada por assistentes sociais da própria Prefeitura. Já a Caixa d’Água foi derivada das delações do empresário Ricardo Saud à Lava Jato, confirmadas pelo empresário local André Luiz da Silva Rodrigues, o “Deca”, relativas ao repasse de R$ 3 milhões não declarados à campanha de Anthony Garotinho a governador, em 2014. Em comum, as operações só tiveram o fato de terem gerado a prisão de Garotinho.

 

105 dias depois…

Mas a pauta das três reportagens do SBT Rio girou mesmo em torno de requentar as denúncias da delegada federal Carla Dolinski contra a Chequinho. Graves, elas já haviam sido investigadas pela Polícia Federal (PF) e Tribunal Regional Eleitoral (TRE), antes de serem arquivadas pelo desembargador Carlos Santos de Oliveira, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), em 15 de janeiro. Foram exatos 105 dias antes do SBT-Rio levar ao ar sua primeira matéria, cujo arquivamento só foi informado, bem de passagem, na segunda reportagem, após a verdade ser devidamente estabelecida nesta coluna.

 

Nove dias depois…

Na sexta foi a vez de Berenice Seara noticiar no Extra sobre o processo de infidelidade partidária contra Marcão. Ela chegou a especular que “vereadores já falam no retorno de Marcos Bacellar (PDT) ao cargo de presidente”. Mas não se deu ao trabalho jornalístico básico de confirmar a informação com Bacellar, que afirmou a esta coluna: “Não passa de especulação”. A jornalista também não informou que o pedido liminar pelo mandato de Marcão foi negado no TRE pelo desembargador Antônio Aurélio Abi Rami desde 2 de maio. Comparado ao SBT, o gap entre o fato e sua sonegação até que foi menor: “apenas” nove dias.

 

Abertura e assassinatos

Por ter preparado o processo de reabertura política do país com sua “distensão lenta, gradual e segura”, Ernesto Geisel (1907/96) era o general-presidente da nossa última ditadura militar (1964/85) visto com mais complacência. Mas sua memória ficou irremediavelmente maculada com a revelação de um memorando da CIA dando conta que, 15 dias após sua posse na presidência, ele soube da execução de 104 opositores políticos e autorizou que a prática continuasse. A CIA descreveu uma reunião da cúpula militar do governo Geisel em 30 de março de 1974. Depois dela, pelo menos outras 89 pessoas foram executadas pelo Estado.

 

Bom jornalismo

Num bom trabalho jornalístico da grande mídia, ontem O Globo publicou uma entrevista com o pesquisador brasileiro Matias Spektor, que encontrou o documento do serviço de espionagem dos EUA. Professor de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, ele disse: “Eu acho que ilustra, com a nova evidência, aquilo que o (jornalista) Elio Gaspari já mostrou: que o Geisel, apesar de ser o presidente da abertura, também reprimia”. Em seu livro “A Ditadura Escancarada”, Gaspari lembrou a justificativa dada pelo general aos historiadores Maria Celina d’Araujo e Celso Castro, que publicaram o livro “Ernesto Geisel” em 1997.

 

Geisel e Bolsonaro

Enquanto ainda era vivo para tentar se defender por suas mortes, Geisel disse: “Era essencial reprimir. Não posso discutir o método de repressão, se foi adequado, se foi o melhor que se podia adotar. O fato é que a subversão acabou”. A quem sobreviveu ou não viveu a história agora recontada, a lição do passado pode ser válida quando um presidenciável líder nas pesquisas exibe orgulhoso em seu gabinete os retratos de todos os generais-presidentes. Na sexta (11), sobre Geisel, Jair Bolsonaro (PSL) disse: “Errar, até na sua casa, todo mundo erra. Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece”.

 

Publicado hoje (13) na Folha da Manhã

 

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Hamilton Garcia — A democratização do Estado

 

 

 

 

A democracia representativa no Brasil é uma experiência historicamente recente, cuja inauguração pode ser associada ao fim da monarquia-escravista (1888-89) e ao processo de urbanização e diversificação econômico-social que a partir daí se encorpou. Se comparada à da Inglaterra, bem mais antiga, é também bastante mais irresoluta. Os ingleses, depois de um longo período de disputas religiosas (1547-58), conflitos políticos agudos e guerras civis (1640-89) — com um Rei decapitado (1649) e uma República autoritária (Cromwell, 1653-58) —, encontraram seu modelo numa Igreja reformada (1559) e numa Monarquia Constitucional governada por um Parlamento representativo sob a égide da Declaração de Direitos (1689), que afirmava a liberdade dos indivíduos como base inalienável das formas de governo.

No nosso caso, nem a Igreja foi reformada, nem o poder absoluto do Estado foi decapitado; tudo se deu, como reza nossa tradição, de maneira segura e sincrética, mantendo-se os indivíduos subjugados ao poder oligárquico, fonte primeira do poder de Estado. Depois de derrubada a Monarquia por uma conjuração militar-civil (1889), no qual o povo assumiu o papel de expectador — tanto ativo, como passivo —, inaugurou-se um período (Primeira República) onde as oligarquias agrárias ganharam autonomia (federalismo) e as burguesias voz ativa no cenário político das mais importantes cidades (liberalismo) sem, contudo, ameaçar o poder estabelecido sobre o vasto território — inclusive os currais eleitorais, beneficiados pela vigência do voto aberto e a ausência de autoridade corregedora isenta — e as mentalidades (Igreja Católica).

Não obstante o conservadorismo do pacto elitista inaugural da República — com a fracassada pretensão reformista de certos segmentos militares (positivistas) —, as novas classes sociais urbanas manifestariam seu descontentamento político, mesmo tendo contra elas o liberalismo de fachada instituído pela Constituição de 1891 e a dura repressão das forças policiais. Medidas como o fim do voto censitário, dos privilégios nobiliárquicos e da dominância eclesiástica sobre as localidades e a educação — entre outras iniciativas legais modernizadoras —, mesmo descasadas de reformas econômico-sociais progressistas (agrária, urbana, tributária, financeira, etc.), foram suficientes para, pelo menos, inaugurar um período de aspirações democráticas, que acabaria por desnudar o descompasso entre a superestrutura jurídico-política e as mudanças econômico-sociais, de sentido democratizante, provocadas pelo avanço do capitalismo — descompasso este que, não obstante os avanços percebidos desde 1985 (Nova República), está na base da instabilidade política dos nossos dias.

As curtas experiências liberal-democráticas vividas após as intervenções civis-militares de 1930 e 1945 — logo descontinuadas por intervenções análogas de polaridade invertida e sentido diverso, em 1937 e 1964 —, demonstraram a fragilidade (e força) de nossa tradição republicana. Nelas, podemos enxergar as marcas profundas do nosso modo de ser contemporâneo, radicado na formação social polarizada por quatro séculos de latifúndio, onde tanto a sociedade civil se forjou comprimida pelo esmagador peso do agrarismo colonial, como a sociedade política (Estado) se amalgamou ao compromisso neopatrimonial, mesmo quando sob a liderança de seus segmentos dissidentes (populismo).

Enquanto 1930 e 1945 nos revelaram uma sociedade civil trabalhadora frágil, incapaz de conter os arroubos jacobinos de suas lideranças — rupturismo que propiciou o retrocesso autoritário após a aventura “revolucionária” de 1935, e, depois, em sentido inverso, levou os comunistas a apoiar o ditador que antes queriam derrubar, precipitando a intervenção militar redemocratizadora —, 1937 e 1964 mostraram a inapetência da sociedade civil burguesa em lidar com as pressões legítimas (e ilegítimas) pela democratização vindas de baixo, cedendo ou estimulando o protagonismo conservador de caserna ao invés de pactuar a reforma das instituições republicanas da qual participavam — dentre elas o Parlamento e o Judiciário —, de modo a reverter seu embotamento histórico (patrimonialismo).

A semelhança com a crise de hoje não é mera coincidência: a sociedade civil trabalhadora continua presa fácil de lideranças retrovisoras (bolivarianistas) e de um populismo que, embora descido às fábricas, ainda veste o manto sagrado dos pais dos pobres, enquanto as principais instituições republicanas (redemocratizadas) claudicam pela insuficiência das reformas até aqui efetuadas, abrindo amplo espaço para o conservadorismo de caserna, agora autonomizado pela fórmula político-eleitoral do bolsonarismo.

De auspicioso, apenas a emergência de uma nova sociedade civil burguesa disposta a renovar as lideranças políticas do liberalismo, contra a vontade de seus partidos tradicionais; um novo ativismo do Ministério Público e do Judiciário, que — dentro de seus limites funcionais e ainda adstritos à esfera federal — permitem o avanço das reformas institucionais que Executivo e Legislativo tentam barrar; e uma liderança militar (Alto Comando) até aqui inclinada a apoiar ambas as novidades e agir, se necessário, apenas na condição de última instância.

Tal conjunção, que tem constituído até aqui a verdadeira âncora de nossa ainda frágil liberal-democracia — diga-se de passagem, contra a vontade de boa parte das esquerdas, inclusive a desconfiança de certos segmentos seus de viés liberal —, carece, é verdade, de uma concertação política mais ampla do que a permitida pelos parâmetros corporativos dos operadores do direito; mas isto parece estar sendo superado, não obstante sua mais nítida expressão eleitoral, Joaquim Barbosa, ter desistido da postulação por conta de uma aparente falta de vocação.

O que é importante nisso tudo, é que a sociedade civil, por meio da política bem pensada e articulada, pode vencer a pesada herança semirrepublicana que resiste no Estado, nas corporações e nas mentes de todos os quadrantes ideológicos, mas para isso vai ter que se livrar dos mitos e das concepções ideológicas anacrônicas e pseudorrealistas que impedem-na de enxergar o cenário em toda a sua inteireza e complexidade, inclusive contemplando os remédios contra a pior de todas as heranças: a marginalização social por meio da pauperização econômica e da alienação laboral-educacional, que exigem a reinvenção do liberalismo (liberalismo-social) e do progressismo-nacional (neodesenvolvimentismo).

 

Atualizado às 16h16 de 13/05 para edição de imagem.

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TRE indeferiu liminar do Rede contra vereador Marcão

 

 

 

Negada liminar contra Marcão

Ontem (11), a jornalista Berenice Seara noticiou (aqui) no jornal carioca Extra o processo por infidelidade partidária contra o vereador Marcão Gomes. Presidente da Câmara Municipal de Campos e pré-candidato a deputado federal, ele foi para o PR, deixando o Rede, cujo diretório estadual agora busca o mandato de vereador no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) para o suplente Tiago Miquilito. O que o jornal carioca não informou é que o relator do processo no TRE, desembargador Antônio Aurélio Abi Rami Duarte já negou o pedido de liminar da Rede e Miquilito. Estranho, pois isso foi desde 2 de maio, 9 dias antes da nota de ontem.

 

 

 

Decisão liminar do desembargador do TRE Antônio Aurélio Abi Rami Duarte, favorável a Marcão, desde 2 de maio

 

Antagonista do “Chucky”

Apesar do que não noticiou sobre o caso, que aguarda o julgamento do mérito no TRE, Berenice especulou que na Câmara de Campos “vereadores já falam no retorno de Marco Bacellar (PDT) ao cargo de presidente”. Vereador experiente e combativo, Bacellar é um dos mais ferrenhos opositores na política goitacá ao ex-governador Anthony Garotinho (PRP), a quem apelidou de “Chucky” no passado, em referência ao personagem malévolo da franquia de filmes de terror “O Brinquedo Assassino”.

 

“Não passa de especulação”

Indagado pela coluna, Bacellar desmentiu ontem a especulação sobre seu retorno à presidência do Legislativo goitacá, a partir do processo de infidelidade partidária contra Marcão: “Isso não existe dentro da Câmara. Nunca me pronunciei sobre isso. E nem soube que nenhum vereador tenha dito uma palavra sobre o caso. A eleição da mesa diretora é em dezembro. Não há nenhum motivo para que essa discussão seja adiantada agora. Não passa de especulação”.

 

Prioridade dos Bacellar

Especulações (e seus insondáveis motivos) à parte, Bacellar tem se dedicado na vida real a ajudar na pré-candidatura do seu filho, o advogado Rodrigo Bacellar (SD), a deputado estadual. Jovem bastante articulado, não só em Campos e região, mas na cidade do Rio, Rodrigo tem atraído ao seu grupo nomes respeitados, como o ex-tucano Alexandre Buchaul. Nos limites impostos pela legislação eleitoral, ele tem trabalhado na organização do partido para as eleições de outubro, em mais de 30 municípios, entre Norte, Noroeste e Sul Fluminense, Regiões Serrana e dos Lagos, além do grande colégio eleitoral da Baixada Fluminense.

 

Articulação

Se confirmar sua candidatura a deputado estadual, o grande parceiro de Rodrigo Bacellar, sobretudo na Baixada Fluminense, tende a ser o deputado federal Áureo (SD), de Duque de Caxias, que pretende concorrer à reeleição. Outra possibilidade de aliança é com o deputado federal Alexandre Valle (PR), de Itaguaí, que também deve tentar renovar seu mandato. Em endosso das boas relações políticas dos Bacellar com Marcão, caso este confirme sua candidatura à Câmara Federal, há ainda a chance da dobrada deste com Rodrigo no município de São João da Barra.

 

Gregos e troianos

Marcão também tem ampliado o conhecimento do seu nome pela região. Na quinta (10), ele recebeu o título de cidadão de Itaperuna, na comemoração dos 129 anos de emancipação do município polo do Noroeste Fluminense. O vereador de campos agradeceu à presidente do Legislativo, Amanda Corrêa Braga Pacheco (PDT), e ao vereador Sinei dos Santos Menezes (PTN) pela indicação, que também homenageou a ex-prefeita Rosinha Garotinho (Patriota), natural de Itaperuna. Nos aplausos da plateia, o filho Wladimir Garotinho (PRP), o vereador Thiago Ferrugem (PR) e seus colegas afastados Linda Mara e Thiago Virgílio (ambos do PTC).

 

Desculpas devidas      

Reza o dito popular que perguntar não ofende. Isto posto, será que os arautos do Facebook que se prestaram rapidamente a especular que a vereadora carioca Marielle Franco (Psol) e o motorista Anderson Silva teriam sido executados a tiros por traficantes, vão agora pedir desculpas publicamente em suas linhas do tempo? Ou vão guardar o devido ato de contrição para quando PMs, ex-PMs e milicianos responsáveis pelo crime covarde forem finalmente presos?

 

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

 

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Garotinho na Justiça e na pesquisa, Marielle e Lilico

 

 

Charge do José Renato Publicada hoje (11) na Folha

 

 

Garotinho ensina a Lula e Cabral

Em sua edição de ontem (10), esta coluna observou (aqui) que diferente de vários líderes políticos presos por corrupção, como Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Sérgio Cabral (MDB), o ex-governador Anthony Garotinho (PRP) tem colhido êxitos jurídicos no enfrentamento contra operações que já o levaram a três prisões, como a Chequinho e Caixa d’Água. Nesta última, o político da Lapa conseguiu na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) com que o juiz da 98ª Zona Eleitoral (ZE) de Campos, Ralph Manhães, seja obrigado a ouvir testemunhas de defesa no processo. Na quarta (09), o magistrado já marcou até a data: 16 de maio.

 

Do “Éden” a Campos

Ralph havia se negado a ouvir as testemunhas de Garotinho, alegando se tratar de iniciativa “protelatória”. Mas foi obrigado a rever sua posição, por determinação da Segunda Turma do STF — conhecida como “Jardim do Éden” por suas decisões favoráveis a políticos, empresários e operadores envolvidos em esquema de corrupção. Um dos seus integrantes, Ricardo Lewandowski estará em Campos no próximo dia 18, para participar do debate “Judicialização da Saúde”, no teatro Trianon. Antes, em decisão monocrática, ele suspendeu o julgamento de Garotinho pela Chequinho do Tribunal Regional Eleitoral (TRE).

 

Combinou com os russos?

Suspender um julgamento de um condenado em primeira instância é uma decisão, no mínimo, estranha. A coisa só fica fácil de ser entendida quando constatado que, sem uma condenação colegiada, Garotinho se livra da Lei da Ficha Limpa e pode concorrer às eleições de outubro. Mas, beneficiado duas vezes por alguns dos ministros publicamente mais questionados do STF — na Segunda Turma, além de Lewandowski, estão Gilmar Mendes e Dias Toffoli —, quem conferiu a pesquisa Paraná à corrida pelo Palácio Guanabara, publicada ontem (10) pelo Jornal do Brasil, pode ter ressalvado ao político da Lapa: “só faltou combinar com os russos”.

 

“Mas, seu Feola…”

A expressão teve origem na Copa do Mundo de 1958, na Suécia, quando o técnico brasileiro Vicente Feola (1909/75) explanou aos seus jogadores uma jogada infalível ao jogo do Brasil com a seleção da extinta União Soviética, cuja principal república era a Rússia. Considerado intelectualmente limitado, mas de grande sabedoria popular, o gênio do futebol Mané Garrincha (1933/83) perguntou ao treinador: “Mas, seu Feola, o senhor combinou com os russos?”. Após Garrincha desmontar o esquema defensivo russo no improviso “implanejável” dos seus dribles, o Brasil venceria aquele jogo e os demais, até conquistar a Copa, nossa primeira.

 

“Russos” do Rio

Os “russos”, no jogo eleitoral da eleição a governador do Rio, são os eleitores. Feita entre 4 e 9 de maio, com 1.850 pessoas em todo o Estado e margem de erro de 2,5 pontos percentuais, a pesquisa Paraná mostrou outro ex-gênio do futebol liderando: o senador Romário (Podemos), com 26,9%. Ele veio seguido do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes (DEM), com 14,1%; de Garotinho, com 11,6%; e dos deputados federais Indio da Costa (PSD) e Miro Teixeira (Rede), respectivamente com 8,8% e 6,2%. Terceiro colocado nas intenções de voto, o político da Lapa só é insuperável na rejeição: 71,9% do eleitorado fluminense não votam nele de jeito nenhum.

 

Impossibilidade matemática

Para se ter uma ideia do que essa imensa rejeição de hoje representa, em 2014, quando naufragou ainda no primeiro turno na sua obsessão em voltar a ser governador, a rejeição de Garotinho era de 48%. O índice negativo foi registrado em pesquisa Datafolha feita de 1 a 2 de outubro daquele ano, enquanto o pleito se deu no dia 5. Eleitores são ganhos e perdidos na paixão. Já as eleições são vencidas e perdidas pela matemática. Até porque, não há paixão — ou ministro do STF — capaz de fazer quem já perdeu com 48% de rejeição ser capaz de ganhar, quatro anos depois, quando a repulsa popular à sua figura chegou a 71,9%.

 

Marielle e Siciliano

Ontem, o ministro da Segurança Raul Jungmann oficializou o que O Globo havia relevado dois dias antes: o vereador carioca Marcello Siciliano (PHS) e o miliciano Orlando de Curicica são investigados como mandantes da execução a tiros da vereadora Marielle Franco (Psol) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março. A causa seria a expansão de programas sociais de Marielle em áreas controladas por Siciliano. Ao campista com mais de 35 anos, o crime e seus supostos motivos lembraram outro fato bárbaro: no início de 1997, o vereador Lilico (PMN) apareceu morto a golpes de martelo na cabeça, ao lado da estrada de Travessão.

 

Lilico e Zezinho

Como o assassinato de Lilico não foi obra de “profissionais” como o PM e o ex-PM suspeitos de atirarem contra Marielle e Anderson, o autor foi logo identificado: seu suplente, Zezinho de Travessão, também do PMN. Ele estaria pessoalmente endividado e precisava assumir a vaga na Câmara para pagar seus credores, não necessariamente pelos ganhos republicanos de um vereador em Campos. Segundo revelou à Polícia, Zezinho ficou ainda mais irritado com Lilico, após saber pelo então prefeito Garotinho que este havia oferecido uma vaga na secretaria de Transportes ao vereador. Estimuladas, algumas paixões têm fim trágico.

 

Publicado hoje (11) na Folha da Manhã

 

Atualização às 18h31 para correção de data

 

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Guilherme Carvalhal — Marisa e o tigre

 

 

 

Marisa assistiu o tigre entrar em depressão no mesmo dia em que assinou uma petição no Avaaz exigindo que Jó libertasse seus escravos: o bicho sofria de doença celíaca e o glúten das tigelas de trigo andava causando maus humores no intestino. Assim, precisou ir contra as recomendações do veterinário com MBA em desmafagafamento que dizia que o mesmo não precisava de carne.

Ademais, a essa hora pouco lhe importava, tais infortúnios, pois lamentava a batida do Ibama que multou dona Chica por maus tratos de animais:

— Ainda bem que não é vitiligo — comentou uma vizinha acerca do estado do pobre felino. — Pedro anda com marcas esquisitas no peito do pé — lamentou pelo rapaz.

Pela janela pensou: que fazer para o pobre tigre? As batatinhas esparramadas pelo chão seriam um substituto à altura? Desconfiou, pois as mesmas eram transgênicas. O açougue anunciou promoção de carne do boi da cara preta, mas um grupo de vegetarianos protestou. Os soldados da cabeça de papel interviram a mando do governo e a violência instaurou no recinto. Melhor não, pensou Marisa.

O tigre continuava com seus melindres, coitado:

— O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou — postou em trejeitos melodramáticos no Facebook para que todos conhecessem como funcionava a comunicação entre eles, de onde um comentarista citou esse como um caso claro de relação abusiva. Chegou ao extremo de ameaçar beber leite com manga e uma associação de pedagogos o criticou, pois estimularia negativamente as crianças.

Marisa deixou de lado tais melindres e saiu de casa em busca de se livrar de tamanha pressão animal. Prestou atenção nos carregadoras da transportadora empurrando uma mala sem alça cor de burro quando foge e se espantou com um moleques vândalos que cuspiam e escarravam na estátua em carrara do irmão gêmeo do João Sem Braço:

— Essa juventude — protestou junto à velhinha que conduzia uma cabra cega pela coleira.

A velhinha sentou-se ao seu lado. Comentou do curupira que fazia fisioterapia para consertar a postura dos pés após ter sofrido bullying na escola. Marisa riu e em contrapartida contou do caso do tigre:

— Dê a ele umas boa colheradas de Biotônico Fontoura. Um matuto deu pros porcos, pras galinhas, e todos eles revigoraram. Canja de galinha não faz mal pra ninguém. Banana é vitamina, engorda e faz crescer. Com jeitinho você coloca ele na linha — explicou a senhora torcendo pequenos pepinos.

Marisa se vislumbrou com a sabedoria da senhora. Falava com aquele tom de vovó que tem resposta para tudo, como se herdasse tradições de pajés, de feiticeiras africanas, de benzedeiras das zonas rurais:

— Como a senhora ficou sabendo de tudo isso?

A senhora deu um risinho:

— Pelo Whatsapp.

 

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José Luís Vianna da Cruz — O ovo da serpente sai do armário

 

Há algumas décadas travei contato pela primeira vez com o sociólogo José Luís Vianna da Cruz. Se a primeira impressão é a que fica, a minha foi das melhores logo de cara. Com o passar dos anos, passei a nutrir grande admiração por ele — nas concordâncias e, sobretudo, no respeito das dicordâncias. Como intelectual ou homem, o Zé serve nesta planície cortada pelo Paraíba do Sul como referência de pensamento público, para mim e muita gente melhor.

Hoje ele me mandou um artigo em que externa sua visão sobre a grave crise em todos os níveis que se abate sobre o Brasil. Coincidentemente, ontem (08) o jornalista Ricardo André Vasconcelos havia avisado que não poderia enviar sua colaboração quinzenal desta quarta ao blog. Assim, numa coincidência dessas que não há, publico abaixo o texto do Zé, com a ilustração de um clássico do mestre sueco Ingmar Bergman (1918/2007):

 

 

O ovo da serpente sai do armário

Por José Luís Vianna da Cruz(*)

 

Capa do filme “O Ovo da Serpente” (1977), de Ingmar Bergman

Fiquei bastante tempo sem publicar artigo na imprensa. Passei esse tempo lendo o que outros escreveram, na mídia local, nacional e internacional. Conversei com pessoas cujas reflexões eu respeito. Tirei esse tempo para lidar com a minha perplexidade, frustração e apreensão quanto aos rumos do país.

Não suporto assistir ao aprofundamento da exclusão e do abandono do acesso a direitos, recursos e meios para os trabalhadores pobres, a ponto de me provocar reações negativas físicas, somáticas, fisiológicas. Não dá para digerir a devastação dos direitos, bens e recursos que o golpe de 2016 desencadeou. Trata-se de um momento extremo, em que a grande mídia, os setores dominantes do Judiciário, do Ministério Público, da Polícia Federal, do Congresso, do Executivo e dos militares estão intimamente afinados em papéis rasteiros contra a democracia, os direitos, a justiça e a equidade sociais.

Reli “Agosto”, de Rubem Fonseca, para me transportar a um outro momento em que algo semelhante ocorreu, para que eu retomasse a compreensão de que estamos diante de algo amplamente decantado pelos grandes intérpretes do Brasil, cuja expressão mais recente é o livro “Elites do Atraso”, de Jessé Souza. Estamos vivendo uma atualização da nossa história de escravidão, arbítrio, preconceito, discriminação e violência contra os pobres, os negros, as mulheres e aqueles que fazem livres escolhas comportamentais, realizada pelas elites brasileiras, reconhecidas internacionalmente como das mais cruéis do planeta.

Foi então que percebi que a serpente do facismo brasileiro pôs muitos ovos, e que, de quando em quando, um deles choca e nasce um novo filhote. Quando renasce a serpente, a direita violenta sai do armário e mostra sua cara. A democracia necessita de que todos saiam do armário. Isso inclui também a maioria que tem medo do arbítrio, dos militares, da polícia, do Judiciário, que estão revoltados com as injustiças e a destruição que as instituições ditas democráticas estão promovendo na política, nos valores e na economia — uma maioria que permanece nas suas zonas de conforto, nos seus níveis de consumo medianos, nos seus discursos restritos às redes sociais. E que, quando é chamada às ruas para defender direitos e enfrentar o arbítrio dominante, se intimida.

Nós, os democratas, os do bem, os da justiça, da democracia, dos direitos, da igualdade, da solidariedade, somos maioria.

Há um poema do Brecht que trata das consequências da omissão das pessoas comuns frente ao avanço da onda facista, feita de preconceito e autoritarismo conduzidos com violência ativa. Todos os que se omitem acabam sendo vítimas. A omissão agrava o problema.

Precisamos sair do armário, tomar posição, para enfrentar a onda conservadora, retrógrada, violenta, dos inimigos dos direitos, como única forma de consolidar a democracia. A imprensa tem que estimular o confronto de ideias, cobrir igualmente todos os lados do debate, para evitar que o caminho seja a violência.

Saiam do armário, companheiros e companheiras!

 

(*)Sociólogo e professor da UFF-Campos

 

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“Memórias do Cárcere” nesta quarta no Cineclube Goitacá

 

 

 

Hoje o Cineclube Goitacá exibe “Memórias do Cárecere” (1984), em homenagem ao seu diretor, o mestre do cinema brasileiro Nelson Pereira dos Santos, morto aos 89 anos no último dia 21 de abril. A sessão começa às 19h, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento das ruas Conselheiro Otaviano e 13 de Maio.

O filme é homônimo ao livro de outro grande mestre, o escritor alagoano Graciliano Ramos (1892/1953), considerado o maior nome da prosa no modernismo do país, ao lado do mineiro Guimarães Rosa (1908/67). Publicado postumamente, “Memórias do Cárcere” é o romance mais biográfico de Graciliano, militante marxista. Trata da prisão do professor e escritor em 1936 após a Intentona Comunista do ano anterior, reprimida com rigor e supressão de garantias individuais pela ditadura do Estado Novo comandada por Getúlio Vargas (1882/1954).

Graciliano nunca chegou a ser acusado formalmente num processo. Assim mesmo amargou quase um ano de prisão, sendo 10 meses no isolamento da Colônia Penal de Ilha Grande, na Baía de Angra, que só seria desativada e implodida em 1994,  no governo estadual do Rio de Leonel Brizola (1922/2004). No filme, quem vive o romancista é o ator Carlos Vereza, naquela que talvez seja a maior interpretação da sua carreira — e entre as grandes do cinema brasileiro.

O filme recebeu prêmios nos Festivais de Cannes e Havana, em 1984, além dos troféus de melhor ator (Vereza) e longa, em 1985, pela Associação Paulista dos Críticos de Arte. Em novembro de 2015, entrou na lista feita da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Acraccine) como um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos.

“Memórias do Cárcere” não foi a primeira obra de Graciliano a ser adaptada ao cinema por Nelson Pereira dos Santos. Em 1963, ele já havia levado às telas “Vidas Secas”, considerada a obra prima do escritor, que descreve com notável realismo a vida de uma família de retirantes nordestinos. E, pelas mãos do diretor, se tornou um dos marcos do Cinema Novo, junto com “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha (1939/81).

Ao final do filme, o Cineclube realizará um debate, que terei a responsabilidade de mediar. A entrada e participação, como sempre, são gratuitas.

 

Confira aqui a matéria do jornalista Jhonattan Reis publicada hoje (09) na Folha da manhã e, abaixo, o trailer do filme:

 

 

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Corrida presidencial sem Barbosa e com dúvidas a 5 meses da urna

 

 

 

 

 

Barbosa pula fora

Com a desistência de Joaquim Barbosa (PSB) de disputar a presidência da República em outubro, o quadro se simplifica e complica ao mesmo tempo. A decisão do pré-candidato socialista foi anunciada ontem ao melhor estilo Donald Trump: numa nota de Twitter. Nela, alegou ser “decisão estritamente pessoal”. Ao público, os motivos reais permanecerão tão misteriosos quanto os que o levaram a pedir precocemente sua aposentadoria do Supremo Tribunal Federal (STF), do qual foi presidente e figura de proa no julgamento do Mensalão, que levou gente graúda da política nacional à cadeia, como o ex-deputado federal José Dirceu (PT).

 

Nem tão igual a 1989

Pela pulverização, há quem compare a eleição presidencial de 2018 à de 1989. Em termos, pois em maio de 1989 já tínhamos três candidatos destacados nas pesquisas: os então ex-governador de Alagoas Fernando Collor de Mello, ex-governador do Rio Leonel Brizola (1922/2004) e ex-deputado constituinte Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Sem este no páreo de 29 anos depois, barrado pela Lei da Ficha Limpa, o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) apareceu liderando, com 17%, em empate técnico com a ex-senadora Marina Silva (Rede), que teve 15%. Foi na pesquisa Datafolha, feita entre 11 e 13 de abril, já após a prisão de Lula no dia 7.

 

Juntos e misturados

No pelotão logo atrás de Bolsonaro e Marina, o embolo foi ainda maior. Nos três cenários Datafolha com o ex-prefeito paulista Fernando Haddad (PT) no lugar de Lula, Barbosa ficaria entre 9 e 10%, ao lado do ex-ministro Ciro Gomes (PDT), com 9%; seguido de perto pelo ex-governador paulistano Geraldo Alckmin (PSDB), de 7% a 8%; e do senador paranaense Álvaro Dias (Podemos), entre 4% e 5%. Na margem de erro da pesquisa de dois pontos percentuais para mais ou menos, a tradução é: apesar da leve vantagem de Bolsonaro e Marina, outros quatro presidenciáveis os seguem em empate técnico e com aparentes chances na disputa.

 

Duas tendências

Aí veio o instituto Paraná, em pesquisa de 27 de abril a 2 de maio, e apontou no contraste o que parecem duas tendências. A primeira? Já detectada na queda de seis pontos pelo Datafolha, entre janeiro e abril, a sangria de Lula pode ainda não ter estancado: no Paraná, sua liderança foi de 27,6% — cerca de 10 pontos abaixo do seu teto. Pelo último instituto, sem Lula, Bolsonaro surgiu com 20,5%. Ou seja: pode ainda não ter batido teto. Mesmo semelhantes, são números, datas e metodologias diferentes. Mas se a próxima Datafolha vier com nova queda de Lula e nova ascensão de Bolsonaro, estarão cristalizadas as tendências.

 

Debate, capitão?

Na consulta Paraná sem Lula, Bolsonaro veio seguido de Marina (12%), Barbosa (11%), Ciro (9,7%) e Alckmin (8,1%). Todos tecnicamente empatados na mesma margem de erro de dois pontos para mais ou menos. Atrás deles, outra “coincidência” com o Datafolha: Álvaro Dias teve 5,9%. Se Bolsonaro confirmar os 20% das intenções de voto, é provável que concretize sua intenção de fugir dos debates no primeiro turno. Neles, ninguém mais do que Ciro parece disposto a enfrentar o ex-capitão do Exército. Também de temperamento assertivo, Barbosa seria outra interessante opção no confronto com o polemista de extrema direita.

 

Esperanças?

Ciro esperava contar com o upgrade de Haddad (e a transferência de votos de Lula) como seu vice. Mas a delação feita ontem à Lava Jato, pelo casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura, relativa a R$ 20 milhões de caixa dois à campanha petista à Prefeitura de São Paulo, em 2012, deve causar danos à opção até então mais viável a uma chapa PDT/PT. Já Alckmin, por enquanto livre da Lava Jato paulista numa manobra da Procuradoria Geral da República (PGR) e do Superior Tribunal de Justiça (STJ), sonha em ter Álvaro Dias (e seus 5%) como vice e trabalha pelo apoio velado do governo Michel Temer (MDB), mais impopular da história.

 

Questões

Sem Barbosa, o papel de “outsider” da fragilizada política brasileira tende a ser disputado por Bolsonaro e Marina. Ainda que o primeiro tenha sido um irrelevante batedor de tambor por sete mandatos na Câmara Federal, enquanto a segunda já foi vereadora, deputada estadual, senadora, ministra e candidata a presidente. O fato é que a grande pergunta da corrida presidencial era: quem vai herdar os votos de Lula? Depois do tuíte de desistência de ontem, cercado do mesmo mistério de quem saiu antes da hora também do STF, a questão agora é: quem vai herdar os votos de Barbosa? É muita dúvida para menos de cinco meses das urnas.

 

Publicado hoje (09) na Folha da Manhã

 

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Orávio de Campos — Fando, Liz, Artur, Lena e Strasberg

 

 

 

A preclara professora Beth Araújo, pessoa por quem temos uma admiração difícil de explicar, num belo comentário (aqui) sobre a atriz Maria Helena Gomes, uma das pessoas mais ternas e generosas já produzidas pela criação, com quem tive o privilégio de conviver durante anos de experiências, emoções inesquecíveis e produções no campo da arte de Thalma, fez-nos retornar, saudoso, aos anos 90 quando, num momento de crise emocional, montamos “Fando e Liz”, peça do imortal Fernando Arrabal.

Lee Strasberg (1901/82)

Tínhamos terminado, com real interesse — e plenificado de outros conhecimentos necessários à nossa (r)evolução no teatro planiciano) — a leitura do livro “Um Sonho de Paixão”, de Lee Strasberg (1901-1982), um predestinado húngaro, naturalizado americano, em 1936, criador do método descritivo do teatro de Constantin Stanislavski, de modo a se interpretar, didaticamente, personagens na dimensão do ritmo diferente do que Hollywood fazia com seus filmes de ação.

Ele, praticamente, descaracterizou a idéia, até hoje assumida por quem nunca ouviu falar do “Method acting”, de que bastaria o ensaio para que se produzir bons espetáculos. Ao experimentar o novo ciclo da re-apresentação da dramaturgia, acabou formando uma  legião de grandes atores (entre outros Marlon Brando e Marilyn Monroe…) durante sua vida útil como emérito professor do Acto’s Studio, pois adicionou na formação do ator a importância do talento, vocação e sensibilidade.

Havíamos, naquele tempo, descoberto Arrabal e Jean Genet, através do teatro de Ruth Escobar. Durante os anos de chumbo eram, junto com Samuel Beckett (1906-1989), autores do chamado “teatro do Absurdo” — muito usado para ludibriar a ignorância dos censores do regime de exceção. A leitura de “Fando…” criou-nos uma expectativa inusitada. Afinal, olhando o elenco disponível no Teatro Escola, tínhamos que, à luz do pensamento de Lee, escolher os melhores intérpretes.

Dentre as atrizes, destacamos a sensibilidade de Maria Helena e, também, o seu estado físico: pequena, parecendo frágil e olhar significativo, como se fosse uma teleobjetiva fixando imagens e cenários. Faltava o ator. À noite, chega Artur Gomes, com aquela cabeleira própria dos movimentos hippies. Diante da descoberta, fizemos a proposta, aceita imediatamente. Mas queria um Fando careca luzidia e pleno de olhar de poesia, rebeldia e instâncias de um loucura um tanto ou quanto santa. Dia seguinte, eis que chega o Artur caraterizado como imaginamos.

Durante a temporada, no Teatro do Sesc, em certa noite, casa lotada, Liz, na cena final, seria enforcada por Fando. Na convenção de Stanislavski, havia (no jogo do faz de conta) o sistema que permitia passar a ideia real no plano da ficção, mas o protetor se rompeu e a atriz ficou pendurada pelo pescoço, por minutos, até que as luzes se apagassem em sinal do fim do ato derradeiro. Lena, sufocada, suportou e foi atendida nos bastidores com inúmeras preocupações. Nascia ali uma grande atriz…

No simbolismo mágico do trabalho, em que todos os atores tinham sobrenome Gomes, destacamos a participação de Sergio, Nilson e Wellington (Os homens do guarda-chuva). Nunca dirigimos, dentre às nossas mais de 150 produções, uma peça tão afinada, tão violenta e, ao mesmo tempo envolvida com lances de poesia e de um amor gritando pela eternidade. Não poderíamos deixar de fora o simbolismo do girassol e do cachorro significando os rasgos de infinitude e da fidelidade.

A filosofia de Aristóteles se nos revela que “o segredo para mover paixões nos outros é movê-las antes em nós mesmos e que o ator é capaz de fazer isso trazendo ‘visões’ sensoriais de experiências passadas”. À sua maneira, o autor dos “Quatro Discursos” estabeleceu o princípio do papel criativo da memória afetiva na imaginação do ator como fundamento do experiência na atuação. Artur e Lena, ambos Gomes, nesse sentido passam à história do teatro como grandes atores de um momento de insanidade do diretor que, antes deles, pensou as cenas no imaginário de sua loucura.

Somos imensamente gratos aos artistas daquele elenco, simples mas comprometido, enfatizando a figura da atriz Maria Helena Gomes, pelo tempo de criação dos sentidos verdadeiros e pela vida que se estabeleceu de nossas relações. Bem como agradecemos, agora, a Beth Araújo pela oportunidade de rever cenas, reais e imaginárias de um teatro que se faz eterno na sensibilidade de todos nós. Como na cena final, repetimos a fala: “Liz, quando você morrer, vou visita-la no cemitério. E Levarei para você uma flor e um cachorro…”.

 

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