Vanessa Henriques — Nem uma a menos

No último 14 de junho os movimentos feministas da América Latina conquistaram uma significativa vitória: um projeto de lei que despenaliza o aborto até a 14ª semana de gestação foi aprovado pela maioria na Câmara de Deputados da Argentina. Foram 129 votos a favor e 125 contra em uma vitória apertada que fez vibrar a multidão que ostentava lenços verdes ao lado de fora do Parlamento, em vigília desde a noite anterior, a despeito do frio de quase 0 grau. O projeto agora segue para o Senado, de composição mais conservadora, mas que não estará imune à pressão das milhares de mulheres, sobretudo jovens, que abraçaram fervorosamente a luta pelo direito de abortar na Argentina. Dezenas de colégios foram ocupados por meninas secundaristas que se manifestaram a favor do aborto e que se recusaram a desocupar as salas de aula até que obtivessem a aprovação do projeto.
O atual ministro da Saúde argentino, Adolfo Rubinstein, foi um dos defensores da aprovação do projeto de lei, afirmando que “47 mil mulheres deram entrada nos hospitais públicos do país, em 2014, após a realização do aborto em clínicas clandestinas” e que “em 2016 foram registradas 43 mortes maternas por aborto”.
Defender o direito à interrupção da gravidez até cerca de três meses de gestação não significa que se é “contra a vida”, como grupos conservadores querem fazer crer à população, de forma apelativa. Não se trata de matar crianças, de não gostar de crianças ou mesmo de gostar de abortar. Trata-se de defender um direito de interromper uma gravidez não desejada em um período da gestação em que o feto não possui atividade cerebral, critério esse que teve significativa importância na decisão do Supremo Tribunal Federal de descriminalizar o aborto de fetos anencéfalos no Brasil, em 2012. Na ocasião, de acordo com o entendimento firmado, “o feto sem cérebro, mesmo que biologicamente vivo, é juridicamente morto, não gozando de proteção jurídica e, principalmente, de proteção jurídico-penal”. Vale salientar que este também é o entendimento adotado na maior parte dos países considerados desenvolvidos.
A Pesquisa Nacional de Aborto, realizada em 2016, que é um inquérito domiciliar cuja amostra probabilística representa a população feminina de 18 a 39 anos alfabetizada no Brasil, aponta que uma em cada cinco mulheres já realizou um aborto no país. Metade dessas mulheres abortou usando medicamentos e cerca de metade dessas mulheres precisou ser internada para finalizar o aborto (48%). As taxas de aborto são maiores entre mulheres nas regiões Norte, Centro Oeste e Nordeste, em capitais do que em áreas não metropolitanas, em mulheres com escolaridade até o quinto ano do que com nível superior frequentado, entre negras e pardas do que em brancas, entre as mulheres que já tinham filhos do que entre as que nunca tiveram. Por fim, a pesquisa estima que no ano de 2015 ocorreram cerca de meio milhão de abortos no Brasil.
Estes dados nos permitem afirmar que o aborto é um fenômeno comum no Brasil. Mulheres abortam todos os dias por inúmeros motivos. Porque não se sentem preparadas para serem mães, porque não tem um relacionamento afetivo estável, porque não possuem boa condição financeira, porque se julgam jovens demais, porque não querem atrapalhar os estudos e/ou a vida profissional, porque não desejam ter filhos em nenhum momento da vida, porque não desejam ter mais um filho, porque sabem que terão que criar um filho sem a ajuda do pai, ou porque simplesmente não querem. Por qualquer motivo que seja, não querem. É sabido que nenhum método contraceptivo é 100% eficaz. E que atire a primeira pedra aquele que nunca cometeu alguma irresponsabilidade com relação à proteção na hora do sexo.
Cá no Brasil, para agosto está convocada uma audiência pública no STF para discutir a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. Em 2016, uma decisão do mesmo STF firmou o entendimento de que o aborto até a 12ª semana é um direito constitucional das mulheres. A decisão não é vinculatória, mas estabelece um precedente importante. O debate promete avançar com a discussão pública sobre tema tão caro às mulheres de todo o país.
Encerro com o bordão entoado pelas argentinas: “Educação sexual para decidir, métodos contraceptivos para não abortar, aborto legal para não morrer”.

























Alemanha — Atual campeão mundial (2014, no Brasil) e da Copa das Confederações(2017) está invicta em jogos oficiais desde a semifinal da Eurocopa de 2016. Após uma classificação impecável na Eliminatória Europeia à Rússia, não tem colhido resultados favoráveis nos últimos amistosos: foram três empates (0x0 com a Inglaterra, 2×2 com a França, 1×1 com a Espanha), duas derrotas (0x1 para o Brasil e 1×2 contra a Áustria) e um vitória magra de 2×1 contra a Arábia Saudita. Mas tem um time forte em seus três setores, comandado dentro de campo por um melhores meias do mundo, Toni Kross, cérebro também do Real Madrid. Pesa sobre a Alemanha um fato histórico: apenas a Itália de Giuseppe Meazza, em 1934 e 38; e o Brasil de Didi, Garrincha e Pelé, em 1958 e 62, conseguiram ser bicampeões do mundo. Ademais, como já provocou o presidente russo, Vladimir Putin, em referência à II Guerra Mundial (1939/45), a Alemanha não costuma se dar bem na Rússia.
Brasil — Conseguiu superar a maior humilhação da sua história, a derrota de 7×1 para a Aleamanha, na semifinal da Copa 2014, dentro do Brasil, aparentemente sem maiores traumas. Vinha capengando nas Eliminatórias, até passar ao comando do técnico Tite, com o qual fez 12 jogos, com 10 vitórias e dois empates. Em amistosos, teve apenas uma derrota, de 0x1 para a Argentina, em 9 de junho de 2017. De lá para cá, foram mais sete amistosos, com seis vitórias e apenas um empate (0x0 diante da Inglaterra). Chega à Copa embalado, após vencer os quatro amistosos de 2018. Sua grande estrela é o atacante Neymar, do Paris Saint-Germain (PSG). Como este costuma jogar pela esquerda, faixa também do lateral Marcelo, do Real Madrid e considerado o melhor do mundo na posição, O Brasil passou a ser um time canhoto na saída de bola. A característica se acentuou após o corte por contusão do lateral direito Daniel Alves, também do PSG.
Espanha — Ficou marcada pela demissão do treinador Julen Lopetegui, ontem (13), na véspera do início da Copa da Rússia. Sua contratação pelo Real Madrid gerou bastante polêmica, sobretudo num país já dividido entre o centralismo da capital espanhola e a cada vez mais forte disposição separatista da Catalunha, província economicamente mais desenvolvida do país, cuja capital é Barcelona — cidade do grande rival dos madrilhenos no futebol. Quem assumiu como treinador foi ex-zagueiro Fernando Hierro, que já integrava a comissão técnica da Espanha como diretor esportivo. Foi uma solução rápida, bem vista pela torcida e pode ser eficaz no sentido de unir ainda mais um elenco já comprometido por disputar a última Copa de Andrés Iniesta, um dos maiores meias na história do futebol mundial, que recentemente trocou o Barcelona pelo japonês Vissel Kobe.
França — Outra equipe que fez uma boa campanha nas Eliminatórias Europeias, classificando-se em primeiro lugar em seu grupo, com sete vitórias, dois empates e apenas uma derrota. Tem a terceira seleção mais jovem da Copa, com média de idade de 25,6 anos. E, por isso pode oscilar em suas atuações, apesar da qualidade técnica dos seus jogadores. Entre eles, destaque para o meia Paul Pogba, do Manchester United, cuja elegância e visão de jogo lembram o ex-craque Zinédine Zidane. Nos amistosos, a França impresionou ao bater por 3×1 a Itália, sempre forte, mesmo fora da Copa. Todavia, os franceses decepcionaram ao empatarem em 1×1 seu último amistoso, contra os EUA. A irregularidade fez com que o ex-jogador e treinador Didier Deschamps tenha relativizado o favoritismo de sua equipe: “É um time forte, mas inexperiente. Apenas seis jogadores da atual seleção estiveram no Brasil”.
Argentina — Tem um equipe irregular. Famosa no passado pela qualidade dos seus goleiros e zagueiros, como respectivamente Ubaldo Filliol e Daniel Passarella, campões na Copa de 1978, a seleção argentina há algum tempo não inspira confiança em sua defesa. Oscilou muito na campanha das Eliminatórias da América do Sul, com sete vitórias, sete empates e quatro derrotas, classificando-se em terceiro lugar, atrás dos seus tradicionais rivais no continente: Brasil (1º) e Uruguai. Nos amistosos, também se meteu em polêmicas, como no cancelamento do jogo contra Israel, após protestos dos palestinos e do mundo árabe. Mas tem o melhor jogador do mundo desde a aposentadoria de Zidane dos campos, em 2006: Lionel Messi, grande estrela do Barcelona, jogará provavelmente sua última Copa. E isso não pode ser desprezado, sobretudo se coadjuvantes como o meia-atacante Ángel Di María, outro do PSG, também cumprirem seu papel.
