Sérgio Moro agradece, mas evita responder críticas de Lula

 

Ontem, mantive contato por telefone, com a jornalista Christianne Machiavelli, prestativa assessora de imprensa da 13ª Vara Federal de Curitiba. Apresentei-me como autor da entrevista feita (aqui e aqui) no último dia 6 com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que gerou repercussão nacional (aqui, aqui, aqui e aqui) e na qual o juiz titular daquela Vara, Sérgio Moro, foi alvo de críticas.

Pelo princípio ético da busca do contraditório, conceito caro e comum ao jornalismo e ao Direito, tentei agendar uma entrevista também com o juiz federal Sérgio Moro, pessoalmente ou por e-mail. Conhecido pelo estilo reservado e por conceder poucas entrevistas, hoje sua assessora me respondeu declinando do convite, com uma mensagem do magistrado, que registro abaixo:

 

Juiz titular da 13ª Vara Federal de Curitiba, Sérgio Fernando Moro

 

“Agradeço o gentil  convite para a entrevista, mas infelizmente tenho por política não responder publicamente às críticas do Sr. ex-Presidente ou de sua Defesa, já que essas questões devem ser enfrentadas nos autos. Além disso, o momento, com trabalho intenso, dificulta entrevistas. Cordiais saudações, SFM”.

 

0

Paula Vigneron lança “Entre Outros” às 20h de hoje no Boulevard

 

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Para te contar um pouco sobre as histórias. Tantas. Os detalhes perdidos de uma vida”. É a abertura do último texto do livro “Entre Outros”, da jovem escritora e jornalista Paula Vigneron, que talvez melhor resuma o que há de comum em seus 33 contos. Transformados pela editora Mucufo em livro, ele será lançado hoje (15), às 20h. A noite de autógrafos será na livraria Leitura, no Boulevard Shopping.

Aos 24 anos, há três como jornalista da Folha da Manhã, Paula já está em seu segundo livro. O primeiro, “Sete balas ao luar”, foi lançado em setembro de 2015. Aquela obra foi produto de uma autora em formação, com textos escritos dos seus 15 aos 22 anos. E já dava algumas pistas valiosas sobre a autora e sua obra.

Na matéria desta mesma Folha Dois que anunciou seu primeiro livro, foi registrado: “escritora em semeadura precoce, Paula apresenta muitas influências em seus contos; e não só literárias. Do cinema, por exemplo, a jovem escritora assumidamente ecoa do sueco Ingmar Bergman (1918/2007) e do estadunidense Woody Allen — o diretor de drama, não o comediante — alguns questionamentos existenciais primários da humanidade: Quem sou? De onde vim? Para onde vou? Quanto tempo tenho? Que diabos estou fazendo aqui?

De lá para cá, 33 contos e dois anos se passaram. Até que, ao eco claustrofóbico de “A canção silenciosa”, um dos textos escritos entre os 22 e 24 anos na composição do novo livro:

— A casa, tão sua em outros tempos, parecia prestes a devorá-la. Sem mastigar. Engolir de uma só vez a mulher solitária.

Com a leitura de “Entre Outros” contraposta à de “Sete balas ao luar”, algumas coisas se assemelham. Em boa parte das histórias dos dois livros, um passado geralmente mais feliz é contraposto ao presente de desencanto, causado por alguma perda ou traição, algum tipo de tragédia humana quase sempre fadada a gerar outra, tão grave ou mais, ao final. E, única certeza da vida, a morte parece estar à espreita nas esquinas dos parágrafos.

Como diferença talvez mais relevante, é perceptível em “Entre Outros” o exercício de carpintaria no estilo, desenvolvida sobre a sintaxe e em frases mais curtas. O cinzel entalha a prosa sem maneirismos, na busca com aparência de encontro: voz própria. Conto de exceção, “Manchete” estofa a literatura com a experiência da repórter, em transição que não faria feio a nenhum Ernest Hemingway (1899/1961). E lança as indagações:

— De onde vieram estas pessoas? Eu não as notei. Por que estão todas concentradas em torno de uma história que não é sua?

A resposta, leitor, cabe a você.

Na bola rolada pela escritora:

— “Entre outros” traz 33 histórias, com personagens de diferentes perfis, vivências, idades e expectativas. Eles vivem e revivem, por meio de memórias, suas trajetórias. São homens e mulheres com os quais podemos nos identificar. São histórias que refletem o cotidiano, com seus caminhos de altos e baixos.

 

Capa de hoje (15) da Folha Dois

 

Publicado hoje (15) na Folha Dois

 

0

Guiomar Valdez — Em tempos de intolerância e desmedidos, é possível pensar também a realidade através da relação psicanálise e política?

 

 

 

Fiz esta pergunta a mim, a partir do conhecimento das ideias, de alguns poucos artigos e de um livro, do psicanalista brasileiro Christian Ingo Lenz Dunker**. Portanto, ainda é muito embrionário o meu aprendizado (sempre aberto ao diálogo e ao debate, é claro!). Para mim, que assumo, por livre opção, a análise do mundo, preferencialmente, a partir do campo da teoria social crítica, em especial, o materialismo histórico-dialético, foi estimulante conhecer esta relação, que parecia algo impossível, até, então.

Encontrei neste aprendizado uma articulação e sintonia com o tema ‘Crise’, que vem me ocupando há algum tempo, e, que cheguei a apresentar por aqui alguns apontamentos. Ou seja, os campos da Psicanálise, da Política e a Crise (pessoal e/ou social que estamos imersos), se relacionam, em busca de respostas para os desafios contemporâneos, em especial, para as Dores, para os Sofrimentos, e, por que não, para a Felicidade.

Aprendi que entre a Psicanálise e a Política, existem conexões e similaridades orientadas para a transformação social, não somente individual, a partir de alguns conceitos e/ou categorias comuns aos dois campos do conhecimento, como a ‘Palavra’, o ‘Conflito’, a ‘Associação livre’, a ‘Liberdade’, a Resistência’ e a ‘Censura’, por exemplo.

Segundo Dunker, esta aproximação se deu de maneira mais sistematizada e de alcance Político, a partir do desafio de pensar ‘a psicanálise de massa do fascismo’, considerado o primeiro momento desta relação, especialmente sobre o tema ‘passividade’ no contexto deste fenômeno histórico. O segundo ‘capítulo’ desta conexão, se desenvolve na riquíssima ‘Escola de Frankfurt’, que contribui, dentre outros aspectos, no repensar, no reteorizar as ideias de ‘Dominação’, de ‘Corpo’, de ‘Consciência’, de ‘Alienação Cultural’. O ‘Maio de 1968’ ou o ‘Marxismo francês’, é considerado o terceiro momento, especialmente quando se dá a aproximação do psicanalista francês, Jacques-Marie Émile Lacan com algumas ideias de Marx, em especial, sobre a ‘Alienação’, articulando-a com os ‘Estranhamentos de nossos desejos’, como desafio pensante, bem como, o tema ‘Fetichismo da mercadoria’.

Pois é, reconheci, então, que esta relação já faz parte consistente da História do Pensamento ocidental, que, esta, não é linear, nem harmônica, mas de uma livre e rica ‘tensão positiva’, de ‘conflito transformador’!

Aproximando Psicanálise e Política (Brasileira), com todo o ‘pacote de maldades de todo tipo’, que desesperança, e, se, isso for verdadeiro, alimenta o fenômeno do ‘desespero’, solo fértil para as relações de intolerância, de violência, de inconsistência, de desumanidade, e, paradoxalmente, em atitudes de ‘passividade’, tudo isso, ricamente exemplificados, nas diversas ‘redes’ sociais e na vida não virtual, aquele, do ‘olho a olho’.

Duas questões compartilho com vocês, a luz dos estudos do psicanalista Dunker, sobre o nosso Brasil de hoje. Vamos lá! Primeira:  Como explicar a passividade das pessoas, diante de todas as medidas altamente rejeitadas pela população, como mostram as pesquisas, e vindas de um governo, segundo os mesmos levantamentos, tido como o mais impopular da história?

Segundo ele, se dá por causa da VERGONHA, e que isso vale tanto para a direita como para esquerda.

A gente tem vergonha de ser enganado. De ter entrado em uma “conversinha” e depois perceber que em nome da redução da corrupção, um princípio do qual ninguém diverge, fomos levados a decisões altamente contrárias ao que as pessoas comuns pensam. O que acontece quando a gente é enganado? A gente sente vergonha. E a vergonha é um afeto extremamente transformativo, potente, muito mais potente que a culpa porque a culpa você faz a penitência e pode pecar de novo. A vergonha paralisa. Inibe. Diz assim: “não vou voltar mais lá, não quero saber desse assunto, não quero opinar sobre esse ponto, não quero mais saber de política”… É o que está acontecendo. Você entrega a coisa para a barbárie. Há um sentimento – e a gente escuta isso no divã, na cultura – de uma coisa impronunciável. O que a pessoa vai dizer? Vestiu a camisa da seleção, bateu panelas… E não são idiotas. Não são pessoas de má-fé, mas estavam acreditando no que estavam fazendo e no momento seguinte percebem que seu tio perdeu o emprego, sua filha não tem mais educação, que não vai mais se aposentar, e o que a pessoa vai dizer? “Ah, fui enganado, estou com vergonha disso.” Muito difícil, especialmente no Brasil praticar este ato simbólico. A gente passa anos para tentar fazer uma pessoa aprender isso, que é voltar atrás. “Olha, eu pensava de um jeito e agora penso de outro, e sim, me deixei levar”. Você não é um idiota porque volta atrás, porque pede desculpas, mas no Brasil inventamos esse jeito e a vergonha, em vez de me reposicionar, fazer com que me reinvente, produz inibição, silenciamento, passividade, faz com que as pessoas se retirem da conversa e não que permaneçam com outra posição. (***)

Quanto à esquerda ele afirma que, “durante anos boa parte dela olhava para o que estava acontecendo e dizia que não estava, mas vamos apoiar. Essa vergonha acumulada implica em descrença, dificuldade de implicação.” Daí chego à segunda questão a compartilhar: Como explicar a sua crise política a partir de 2015, que chegou ao impeachment? De acordo com Dunker, é pelo fato de não se ter feito o LUTO PELA DERROTA.

A esquerda tem que fazer o luto. O luto de não ter se posicionado, ter corroborado com certas coisas, estamos unidos por uma espécie de perda dos dois lados que no fundo é a perda do Brasil, do que tínhamos em mente, seja de um lado, seja de outro. Freud descrevia o luto em três tempos. Primeiro, você tem que admitir que perdeu. Segundo, é preciso pesquisar o que se foi com a perda, o que foi embora com essa pessoa que me deixou, quais os traços, experiências, memória. Depois desse trabalho, você vai comprimindo, reduzindo a coisa, até que um pedacinho daquilo que foi perdido se integra dentro de você. E então segue a vida com aquela lembrança daquilo que você deixou para trás.

O que acontece quando a gente, primeiro, não admite que perdeu, não se dá ao trabalho ao que chamamos na teoria social do trabalho da crítica? Perdi porque não amei o suficiente, porque o outro não me amou, perdi e vivo isso como culpa ou como vergonha. Quando não fazemos isso, surgem respostas maníacas. “Opa, agora posso pular esse processo doloroso e vou para o último capítulo, inventar um estado total de felicidade, um início do zero, glorioso, eufórico.” Esse é o perigo representado pelo populismo de direita, conservador. Parece que a nossa tolerância com o Temer imaginariamente tem a ver com isso. Mais um motivo para entender nossa vergonha, era uma euforia com um negócio que era péssimo. Mas quando não fazemos um luto, vem a mania. Esse é um quadro em que venceria alguém que conseguisse capitalizar melhor a mania, mas acho que não vai vir. Não teremos uma eleição maníaca, é mais possível que tenhamos uma eleição depressiva, que é a segunda patologia do luto. Se você não faz o luto pode cair na melancolia, na depressão, na indiferença, no “eu não quero mais saber”. (***)

Estas foram algumas aproximações de minha aprendizagem embrionária sobre a relação Psicanálise e Política, na busca de compreender o tempo em que vivemos. Meu objetivo, não sei se alcancei, seria de contribuir na reflexão de que as perguntas que fazemos e as respostas que buscamos não estão apenas circunscritas numa área do conhecimento, muito pelo contrário! Mas estão nas relações, nos diálogos, nas conexões, na interdependência. Nada mais próximo das características de uma natureza humana livre e de uma humanidade emancipada.

Gostei muito desse aprendizado! Estou mais esperançosa em pensar o mundo, com mais fôlego, apesar do domínio no presente das patologias sociais do ‘maníaco’ e da ‘depressão’. Farei de tudo para não esquecer a nossa História, triste ou alegre, não importa, poderemos fazer novas sínteses com as desilusões e ruínas do presente.

 

(**) é psicanalista, professor Livre-Docente do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Analista Membro de Escola (A.M.E.) do Fórum do Campo Lacaniano e fundador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP. Desde 2008 coordena, junto com Vladimir Safatle e Nelson da Silva Junior, o projeto de pesquisa Patologias do Social: crítica da razão diagnóstica em psicanálise.

(***) trechos retirados da Entrevista à Revista ‘Caros Amigos’, em 11/12/2017 : “O neoliberalismo não só reduz proteções como cria sofrimento para aumentar a produtividade.” (https://www.carosamigos.com.br)

Sugestões de leituras (livros desse autor): a) Mal-estar, sofrimento e sintoma: Uma psicopatologia do Brasil entre muros.  (Boitempo – 2015); b) Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano. (Boitempo – 2017).

 

0

Paula Vigneron lança livro de contos nesta sexta no Shopping Boulevard

 

“Um meio-dia à beira-mar, entre lembranças; a entrada em um apartamento recentemente abandonado; a cena de um espetáculo teatral desnudando sua vida; vozes, jeitos, odores que desaparecem lentamente; o desencanto de outros corpos sobre o dela contra a sua vontade. Encontros e desencontros marcam as 33 narrativas de Entre outros. Personagens de diferentes perfis, vivências, idades e expectativas contam e revivem, por meio da memória, suas trajetórias, erros e acertos, confrontando-se com a própria essência e solidão.”

Na noite desta sexta-feira (15), acontecerá o lançamento de “Entre outros”. “Epitáfio” é um dos textos do livro, escrito entre 2015 e 2017. Convido você, leitor do blog Opiniões, a conhecer um pouco da obra e participar do evento, que será às 20h, na livraria Leitura, no Boulevard Shopping.

 

 

 

 

Epitáfio

 

No dia em que eu partir, não chore. Sorria! Permitirei apenas lágrimas vertidas entre risadas pelas lembranças inventadas de um dia de sol que não vivemos. Aquelas histórias, contadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias, vãs memórias, das horas passadas em lugares distantes. Perdidos entre árvores, músicas e beijos.

Não chore! Recorde-se das horas que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Que permaneceram em sonhos contados às três da manhã, em uma noite fria de um domingo de maio. Se vier a angústia, apague-a com as palavras imaginadas. E, também, com as ditas. Creia-me. Não menti em nenhuma ocasião. Exceto quando neguei um sentimento. Ou uma verdade. Duas ou três mentiras entre tantas frases claras.

O som da voz. Por ora, ligue-se a ela. Em breve, meus tons sumirão no meio de outros que surgirão em seu caminho. Mas não deixe que eu parta com eles por toda a estranha eternidade. Não imediatamente. Não. Mantenha meu jeito de falar, o mexer dos lábios, em sua mente enquanto ainda me despeço dia a dia. É nossa fonte de união.

Quando vier a dor da ausência, sinta-me ao seu lado. Na cama. No travesseiro. Nas roupas jogadas no chão. Naquela toalha de banho velha que deixei sobre a cama. Toque meus livros e sinta os meus toques nos seus. Os dedos cansados que folhearam tantas páginas da vida. Há resquícios de minha fisionomia perdidos em seu rosto sombrio.

Não deixe que o tic-tac dos relógios te torne exausto. Ele será o barulho do meu silêncio. Você se lembra do quanto eu gostava de acompanhar os ponteiros? Olhe-os. Ali, estarei. Siga os meus passos em todos os cômodos. Em cada canto de nossos cantos, encontrará meu sorriso. Se procurar pela casa, restam os bilhetes que deixei naquela noite. E os que não deixei. Nem tudo precisa ser claramente dito. Você também me achará na escuridão.

Na solidão.

No apagar das luzes da cidade.

Das nossas luzes.

Das suas luzes.

E, quando elas sumirem vagarosamente, estarei ali, do outro lado, para te contar sobre um dia de sol que não vivemos. Para lembrar aquelas histórias, inventadas por outros, sobre os momentos em que dividimos cervejas e memórias das horas passadas em lugares distantes. Detalhar o tempo que não passei falando sobre nós. Os abraços nunca dados. Os beijos perdidos entre árvores e músicas. E revertê-los em vidas quase vividas.

 

0

Gustavo Alejandro Oviedo — The Room

 

 

 

IT’S NOT ART UNLESS IT HAS THE POTENTIAL TO BE A DISASTER. NÃO É ARTE A MENOS QUE POSSA SER UM DESASTRE. A frase que rola pela internet há alguns anos é uma fantástica e precisa definição, pois indica que a audácia e o risco são parte essencial do artista. Audácia e risco para defender sua obra, ainda que ela possa ser incompreendida ou até rechaçada.

Exemplos de artistas corajosos – ou apenas artistas – foram Van Gogh e Picasso, por exemplo. Ambos decidiram romper com as escolas pictóricas dos seus respectivos momentos abraçando novos estilos – Van Gogh com o expressionismo, Picasso com o cubismo. Os dois decidiram, em algum momento de suas vidas, queimar as naves da tradição. Um se deu muito mal, e morreu na miséria; o outro obteve reconhecimento e fortuna desde cedo.

Então, se não é arte a menos que possa ser um desastre, o que acontece quando a obra é efetivamente um desastre? A pergunta me veio à cabeça ao saber que nos Estados Unidos foi lançado, semana passada, o filme The Disaster Artist (Artista do Desastre), de James Franco. O filme conta a historia da realização de outro filme, The Room (2003), que é considerado o ‘Cidadão Kane’ dos filmes ruins, desbancando do pódio o lendário “Plan 9 do Espaço Sideral” de Ed Wood.

‘The Room’ é tão ruim que inevitavelmente fascina. Atuações risíveis, edição tosca, roteiro simplório que conta o melodrama de um triangulo amoroso com pretensões literárias alla Tenessee Williams. Subtramas paralelas à historia principal que são iniciadas, mas nunca tem desfecho. Diálogos impossíveis (após um dos personagens dizer que foi ao hospital visitar uma amiga que foi severamente machucada pelo namorado, o protagonista ri e responde “Oh, what a story, Mark!”).  Não há uma única situação onde os comportamentos dos personagens não contrariem a lógica. É como se o filme tivesse sido criado por um alienígena que acha que sabe como são os humanos – mas não sabe.

O diretor de ‘The Room’ é um sujeito muito singular chamado Tommy Wiseau, que também produz, escreve e protagoniza o filme. Wiseau, cujo sotaque parece indicar que é um imigrante da Europa Oriental, não tinha experiência alguma na indústria do cinema, mas ainda assim cismou em filmar um roteiro derivado de um romance de 500 páginas que ele mesmo tinha escrito. Gastou na realização entre 5 e 6 milhões de dólares, já que fez questão de gravar com duas unidades de filmagem, em 35 mm, e recriar todos os ambientes internos em estúdio, quando podia ter filmado tranquilamente numa casa de verdade, a um custo muitíssimo menor. À época da estreia, Wiseau fez colocar um cartaz do filme num dos outdoors mais caros de Los Angeles (foto acima) a um custo de 5.000 dólares por mês, e o manteve durante 5 anos! The Room arrecadou oficialmente US$ 1.800.

O filme foi massacrado pela crítica. No entanto, Nick Shrager, do site The Daily Beast, resume: “É o ‘ne plus ultra’ do lixo. Uma obra prima do trash”.

Shrager acertou na mosca: uma obra prima do trash. Com o passar de uns poucos anos, The Room se transformou em objeto de apreciação irônica. Virou Cult. Celebridades de Hollywood como Judd Apatow, Paul Rudd, e Kristen Bell promoveram sessões especiais, as quais vem acontecendo às meias noites em muitos cinemas dos Estados Unidos, e onde milhares de fãs criaram a estranha costume de arremessar colheres de plástico para a tela durante os créditos iniciais, para depois rir de cada um dos diálogos daquilo que pretendia ser um drama existencial.

Tommy Wiseau passou a ser uma celebridade. Nas ultimas semanas, apareceu em varias entrevistas junto com James Franco, por ocasião da estreia de ‘The Disaster Artist’. Suas declarações são tão estranhas quando os diálogos do seu filme. Está convencido de The Room é magnífico, e aproveita as ocasiões para promover o seu site (https://www.tommywiseau.com/) onde vende cuecas boxer com o seu nome impresso.

Voltando ao questionamento inicial, pode ser considerado Wiseau um artista, apesar do desastre de sua obra, e do involuntário sucesso posterior? Bem, por minha parte, não tenho dúvidas de que ele o é, da mesma forma de que foram Van Gogh, Ed Wood, Picasso, Andy Warhol ou John Kennedy Toole (o autor da ‘Confraria de Tolos’ que se suicidou depois de não achar editor para seu romance). Para mim, artista é aquele que dá um passo à frente, sem saber se lá adiante há um precipício ou uma estrada.

Um engraçadíssimo trailer/crítica de The Room, legendado, pode ser assistido neste link. Enjoy.

 

0

Carol Poesia — O óbvio sobre o natal

 

Negro.

Branco.

Trans.

 

Homo.

Hetero.

Trans.

 

Pobre.

Rico.

Trans.

 

Empregado.

Desempregado.

Trans.

 

Ando pensando em religião. É tanto protesto que me cansei das redes sociais. Os protestos são todos necessários, finalmente as minorias têm voz! Mas é que eu me identifico com todos eles, e sofro cada vez mais. Ouvir os gritos e gritar junto é minha obrigação. Mas, confesso, estou cansada.

O tempo todo, todos os dias, leio sobre racismo, homofobia, corrupção… Não preciso buscar os textos/vídeos, eles chegam, e arrebatam. Sem pedir licença, alteram minha respiração. Eu concordo, compartilho e fico extremamente angustiada por não fazer mais. Parece que é minha culpa a pobreza, a corrupção, a homofobia, o racismo e todos os absurdos que a humanidade não conseguiu resolver, desde sempre.

“Você nunca vai entender, porque você não é negra.”

“Você nunca vai entender, porque você não é gay.”

“Você nunca vai entender, porque você não é pobre.”

As pessoas não percebem que a energia que essas falas carregam é uma energia de exclusão, de segregação. É como se elas dissessem “Não vem querer comprar essa briga não, porque essa briga é minha”. Então qual é o sentido da divulgação? Não seria sensibilizar as pessoas, “contaminá-las” para que levantem bandeira contra esses males?

E as mesmas pessoas que falam assim (Não são poucas não!), compartilham:

 

 

Eu já disse uma vez aqui que o maior desafio da humanidade, atualmente, não é acabar com o racismo, com a fome, com a homofobia, nem com o machismo; o maior desafio da humanidade, atualmente, é ser coerente. [Diga-se de passagem, se eu não sou pobre sou o quê? Rica? Sou empregada, assalariada. Isso é um fato, os rótulos são uma necessidade do outro.]

Por falar em rótulos, tenho pensado em religião. Tenho pensado no que as religiões têm em comum. E reparei que todas elas defendem a existência do espírito. O espírito, em tese, não é rico nem pobre, não é branco nem negro, não é homossexual nem heterossexual, não é patrão nem empregado. O espírito, inclusive, não tem religião. Jesus, este de que tanto falamos nesta época do ano, modelo para os cristãos e exemplo a ser seguido, olhava as pessoas e via seres humanos. Jesus não segmentava as pessoas nessas caixas, nesses rótulos chatíssimos, rasos e dicotômicos. Jesus via o espírito.

[Pasmem! Jesus não estava nem aí para o fato do coleguinha ser ativo ou passivo.]

Ontem eu estava lendo o livro do Lázaro Ramos – Na minha pele –, estou gostando muito por sinal. Em uma determinada passagem, ele conta que quando foi capa de revista pela primeira vez (Revista VIP), implicou com o fato de ter sido explorado, na matéria, como “ator negro” e não como “ator”. Ele conta que chegou a enviar uma carta para a revista, chateado principalmente com o que eles escreveram na placa segurada por ele na foto – “Não vai comprar por que ele é negro?”. Lázaro esclarece que sua chateação veio do fato de perceber que a cor da sua pele foi mais explorada na entrevista do que o seu trabalho como ator, e chegou a reclamar com a jornalista que o entrevistara, dizendo não comentaria mais nada que não fosse o seu trabalho cênico, afinal esse era, em tese, o objetivo da entrevista.

É mais ou menos por aí. O olhar está equivocado, para todos, e com todos – um olhar materialista, que fica na matéria, que permanece na superfície. De fato, o mundo seria mais humano se tivéssemos o olhar de Jesus (Não temo ser piegas, o rótulo é uma necessidade sua, leitor, não minha). Seríamos mais humanos se víssemos o espírito (Olha que contradição linda!). Sem contar que a humanidade seria menos chata, sem essa necessidade megalomaníaca de encaixotar todo mundo em algum segmento.

Para todos os efeitos, sou trans. E tenho certeza de que Jesus me entenderia.

 

0

Pausa parcial do blogueiro para outros projetos

 

 

 

Por conta de muitos projetos especiais visando o final de ano e o aniversário de 40 anos da Folha, em 8 de janeiro de 2018, até lá serão poucas as postagens deste editor do “Opiniões”. O blog, no entanto, continuará sendo abastecido nesse intervalo por seus colaboradores quizenais. Até lá, leitor, mesmo que mais esporadicamente, a gente se vê.

 

0

Repercussão nacional — Entrevista de Lula da esquerda à direita

 

Por ter dado ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a chance de apresentar sua versão dos fatos, a entrevista concedida por ele ao Grupo Folha (aqui e aqui), na última quarta (06), em sua visita a Campos, foi bem avaliada pela esquerda.

Entretanto, sua rápida repercussão na mídia nacional serviu também à direita. Identificada com este espectro político, o site O Antagonista também reproduziu o vídeo de parte da entrevista, especificamente a fala de Lula sobre a Previdência Social.

Quem ainda não viu, pode confirir aqui, ou na reprodução abaixo:

 

 

 

 

Confira mais sobre a repercussão nacional da entrevista aqui, aqui e aqui.

 

0

Alexandre Buchaul — Fins públicos

 

 

 

Há algumas semanas lancei nas redes sociais uma pergunta sobre a possibilidade de empresas privadas atingirem fins públicos. Como fora o intento, isso levantou uma discussão que filtrada conduz a duas principais posições: Fins públicos não poderiam ser atingidos por empresas privadas, já que estas visam o lucro e fins públicos podem ser alcançados por empresas privadas desde que haja regulação adequada.

Também nas redes sociais circula há dias uma comparação entre os serviços de telefonia, que longe de serem excelentes, atendem a nossa população com razoável qualidade e acesso a praticamente todos os cidadãos, algo inimaginável para quem vivenciou o período de nossa história em que linhas telefônicas custavam tão caro quanto um carro e tinham na sua locação uma modalidade de negócios, aqui mesmo na Folha, se buscado em seu arquivo, encontraremos anúncios de aluguel de linhas por valores que giravam em torno de um salário mínimo e os serviços de saneamento básico, notadamente água potável e tratamento de esgoto, serviços essenciais e que atendem, no caso da coleta e tratamento de efluentes, algo que supera em pouco a metade de nossa população.  A comparação é acompanhada do questionamento sobre qual dos serviços é prestado pelo Estado.

Quando mantemos firmes em nossa mente que os serviços públicos tem como finalidade atender à população e levamos a discussão além da questão do establishment estatal, fica impossível não compreender que a iniciativa privada se mostrou e mostra mais capaz de atingir resultados e de conservá-los ao longo do tempo, mesmo que ainda esteja buscando incessantemente o lucro em suas operações. Claro que se tratam, telefonia e saneamento, de serviços diferentes e, no caso do saneamento, ficamos impedidos de estabelecer concorrência, como fora feito no caso da telefonia. Aí, as agências reguladoras e a legislação se tornam deveras importantes.  Então, tratemos apenas de saneamento e, para nos ser mais próximo, apenas do Estado do Rio de Janeiro.

Alguns municípios fluminenses tiveram seus serviços de água e esgoto privatizados há alguns anos, em que pese a necessidade de fiscalização dos contratos e vigilância permanente sobre seus termos, dois desses munícipios ocupam o topo do ranking de qualidade e acesso a serviços de saneamento no Estado do Rio de Janeiro, Niterói (100% de fornecimento de água potável e quase isso de esgoto tratado) e Campos dos Goytacazes (com índices não tão bons e ocupando o segundo lugar). Condições incomparavelmente melhores que as dos munícipios assistidos pela Cedae, que, para se ter apenas uma ideia, perde cerca de 40% de todo o volume de água captado.

Dependemos para que essas discussões sejam levadas a sério e tendo seus fins públicos como metas a serem atingidas, de políticos à altura dos desafios que nossa sociedade precisa superar, precisamos de partidos políticos que sejam capazes de travar em seu seio essas discussões, não dá para crer que agremiações que não passam de feudos a serviço dos coronéis do momento sejam capazes de levar o interesse de seus representados, o interesse público, à tribuna. Não dá para entender, a não ser pela subserviência fisiológica, que quem levou a telefonia à privatização, vote pela manutenção da Cedae estatal.

 

 

0

Um jogador diferente — Os bastidores da entrevista com Lula

 

(Foto: Ricardo Stuckert)

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Feita na manhã da última quarta-feira (aqui) e transmitida ao vivo na Rádio Continental e, em vídeo, pelo Folha 1 e pelo perfil oficial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Facebook, a entrevista (aqui) com o ex-presidente foi viralizada rapidamente (aqui, aqui e aqui) por grande parte da mídia nacional. E, por óbvio, gerou grande repercussão também em Campos, onde recebi pessoal e virtualmente muitos elogios e também algumas críticas. Mas, manifesta ou não, percebi em quase todos a curiosidade de saber sobre a gênese e os bastidores da matéria.

A importância da entrevista ao Grupo Folha foi óbvia. O maior grupo de comunicação de Campos e da região foi capaz de colher em sua envergadura um popularíssimo ex-presidente da República, por dois mandatos, e primeiro presidenciável de 2018, líder em todas as pesquisas, a visitar o município em pré-campanha.

Quanto a Lula, talvez não seja ilógico supor que foi uma chance para ele também falar com um repórter e um grupo de comunicação não chapa branca. Mas sem que se confudisse entrevista jornalística com inquisição, como talvez desejassem fazer alguns dos veículos nacionais que se limitaram a repercutir o que ele disse à Folha.

Se tivesse que apontar a origem da entrevista, diria que ela nasceu de um debate (aqui) que mantive nas redes sociais, entre os dias 9 e 10 de outubro, com os professores Aristides Soffiati e José Luis Vianna da Cruz, amigos de longa data e entre os intelectuais que mais respeito em Campos. A discussão vinha a reboque também da pesquisa Datafolha feita entre 27 e 28 de setembro, que apontou a aparente polarização entre Lula e o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC, de mudança ao PEN, que se chamará Patriota) na corrida presidencial.

Ao final daquele despretensioso debate virtual, José Luis confessou: “não tenho resposta”. Admissão que ecoei. Mas como tenho por princípio não me bastar em ausência de respostas, enquanto não entender esgotada a capacidade de buscá-las, mergulhei de maneira profunda naquela pesquisa Datafolha. E dela emergi com a publicação em 22 de outubro, na Folha, da matéria “Brasil entre Lula e Bolsonaro?”.

Certo de que pesquisa é um retrato do momento e “o futuro é algo que veremos amanhã” — como diria o ex-presidente estadunidense George W. Bush, num raro momento de sabedoria —, me voltei ao nosso passado recente. Montei uma linha do tempo para falar sobre a história das manifestações de rua do Brasil no período da Nova República, do final da Ditadura Militar (1964/85) até os nossos dias.

Tomadas como ponto de partida 1) as “Diretas Já”, ainda em 1984 — das quais os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula são os únicos líderes vivos —,  estabeleci uma estrutura de análise que tivesse também como referências: 2) os “caras pintadas” que definiram o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello (hoje, PTB), em 1992; 3) os protestos isolados capitaneados pelo PT durante os dois governos FHC, de 1995 a 2002; 4) a “Primavera Árabe”, entre 2010 e 2012, influenciando diretamente o novo modus operandi que ditou, no Brasil, as “Jornadas de Junho” de 2013; e 5) os protestos de rua de 2015 e 2016 que definiram a deposição de Dilma.

Conversei sobre o que pretendia, além de Soffiati e Zé Luis, com o sociólogo e cientista político George Gomes Coutinho, o antropólogo José Colaço, a historiadora Guiomar Valdez e o cientista político Hamilton Garcia de Lima. E, com base nas análises de cada um deles, como em muito estudo e pesquisa, escrevi em partes a série “Ruas do Brasil”. Em quatro edições dominicais da Folha, ela foi publicada em 29 de outubro (aqui) e 5 (aqui), 12 (aqui) e 19 de novembro (aqui).

No meio dessa trabalhosa, mas necessária análise sobre o relativamente curto retorno do Brasil à democracia, o presente voltou a bater ponto com suas projeções de futuro. No dia 29 de outubro saiu (aqui) uma nova pesquisa presidencial, dessa vez do Ibope, feita entre 18 e 22 daquele mês. E ela confirmou a liderança folgada de Lula, seguido por Bolsonaro.

Do Planalto Central à Planície Goitacá, ouvi líderes locais dos partidos dos presidenciáveis listados na nova pesquisa, para a matéria “Corrida ao Palácio do Planalto Central pelo Ibope vista da Planície”, publicada na Folha em 31 de outubro. Foi na apuração desta reportagem que travei contato pela primeira vez com o presidente do PT em Campos, o petroleiro Rafael Crespo, que demonstrou suas convicções sem embotamento da boa capacidade de análise crítica.

Posteriormente, soube em novembro da vinda de Lula a Campos, para um comício no dia 5 e visita ao Instituto Federal Fluminense (IFF), no dia 6. E retomei o contato com Rafael, para tentar agendar uma entrevista, que já era tentada paralelamente pelo gerente da Continental, o radialista Cláudio Nogueira. Unidos os esforços do mesmo grupo de comunicação, reforçaria depois o contato com o senador Lindbergh Farias (PT), ex-líder daqueles “caras pintadas” de 1992, a quem já tivera a oportunidade de entrevistar.

Senti muita apreensão da equipe de Lula com a possibilidade de qualquer geração de constrangimento. Mas, sem negociar pauta, apresentei meu currículo com entrevistas feitas com líderes políticos como FHC e Leonel Brizola (1922/2004), além de todos os seis governadores do Rio depois dele, soltos e presos. Ainda assim, a previsão inicial da entrevista com Lula era de apenas 25 minutos.

Na noite de terça (05), fui ao comício na praça do Liceu, para ouvir o que o ex-presidente falaria e acrescentar na pauta da entrevista da manhã seguinte. Vi ele ser recebido com entusiasmo por cerca de 1,5 mil simpatizantes, enquanto do outro lado da praça, depois do cordão de isolamento da PM, nas escadarias da Câmara Municipal, cerca de 150 militantes de Bolsonaro protestavam. O campista e ex-presidente Nilo Peçanha (1867/1924), cuja estátua observava tudo impassível, foi lembrado por Lula como fundador em 1909 da Escola de Aprendizes Artífices, hoje mais conhecida como IFF.

Cheguei ao hotel Ramada às 7h30 de quarta (06), onde não me foi permitido subir à sala da entrevista com toda a equipe, limitação que causou problemas no início da transmissão pela rádio. Antes dela, numa rápida conversa informal com Lula e seus dois acompanhantes na mesa, Lindbergh e o pré-candidato petista a deputado federal José Maria Rangel, contabilizamos minha grande desvantagem na composição: eram três vascaínos e um flamenguista.

Sem deixar de fazer a pergunta mais difícil a Lula, relativa ao julgamento do recurso da sua condenação pelo juiz federal Sérgio Moro no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), previsto até abril, que pode impedir sua candidatura pela Lei da Ficha Limpa, a entrevista foi crescendo naturalmente. E, dos 25 minutos previamente acordados, chegou a quase 41.

Sei que não deveria ter rido após o entrevistado dizer “Eu acho que o Moro é surdo”, ou “Quem sabe a Globo conseguisse fazer (…) o William Waack ministro da Igualdade Racial?”. Mas, admito, é quase impossível resistir às tiradas de Lula. Como escrevi (aqui) logo após a entrevista: “Em termos de carisma, no cara a cara, só o compararia a Brizola”.

À parte o que a grande mídia brasileira optou por repercutir, sobre a “surdez” de Moro ou a Previdência Social, para mim, o mais importante que Lula disse sobre o Brasil de hoje foi:

— Como você vai encontrar paz se você está estimulando o ódio, se você está estimulando a disseminação do preconceito? (…) Eu sonho, na verdade, que a gente possa restabelecer a paz neste país. As pessoas têm que aprender que a gente pode ter divergência, que a gente pode não concordar, (mas) que o vascaíno possa ver o jogo sentado ao lado do flamenguista (…) e ir para a casa e tomar uma cerveja juntos, sabe? Sem precisar brigar! (…) A quem interessa essa briga?

Encerrado o trabalho, desligadas as gravações de áudio e vídeo, conversamos um pouco mais. Foi tempo suficiente para que eu lembrasse a Lula de outra entrevista sua, onde ele disse que, quando jovem, gostava de jogar futebol com a camisa 8, por causa do ex-craque campista Didi (1928/2001), gênio da Folha Seca. O meia direita foi o maior jogador da Copa de 1958, primeiro Mundial do Brasil, e bicampeão em 62. Por clubes, jogou no Fluminense e no Botafogo, não no Flamengo ou Vasco.

Como testemunhava meu pai, o ex-presidente assegurou: “Didi era um jogador diferente. Ele se mexia no campo de maneira diferente”.

Em outros gramados, não veria melhor maneira de definir Lula.

 

Publicado hoje (10) na Folha da Manhã

 

0

Vanessa Henriques — O fenômeno Lula

 

 

 

No texto de hoje, não poderia escapar da obrigação de escrever sobre o grande evento que foi a vinda da Caravana do ex-presidente Lula a Campos, mesmo que não seja esta uma tarefa das mais simples. Escrever sobre uma das figuras mais significativas da história política do Brasil requer grande responsabilidade além de, evidentemente, conhecimentos sobre política, história, economia e sociologia. A grandeza do “fenômeno Lula” não poderia ser apreendida em toda a sua complexidade num artigo de poucas linhas. Ciente disto, caro leitor, busco resumir aqui as minhas principais impressões sobre a breve passagem do ex-metalúrgico pela cidade.

Foi a primeira vez que vi o Lula a poucos metros de distância. Apesar de seus dois mandatos terem transcorrido no período em que eu ainda transitava da infância à adolescência — época na qual as questões políticas não me despertavam tanta curiosidade —, desde que tomei consciência da importância capital desta figura para a política do país, nutro o desejo de poder vê-lo sem a mediação das telas.

Senti-me eufórica quando o vi chegar ao Jardim do Liceu na última quarta. Contagiada pela efervescência daquela aglomeração de pessoas, senti que fazia parte de um momento histórico importante para nossa cidade, que naquela noite tornava-se palco de um acontecimento de relevância nacional. Além disso, como cientista social, poder testemunhar a olhos nus o “carisma weberiano” encarnado naquele homem, quase que produzindo uma “aura”, algo como um brilho que emanava de seu corpo, produziu em mim uma satisfação intelectual muito peculiar. Ao final do evento, contudo, a euforia se esvaziara como um balão e, ao chegar à casa, fui me deitar sentindo cansaço e tristeza.

Por que tristeza?”, você pode se perguntar. Eu explico.

Lula afirmou que, se eleito, fará muitas coisas que considero que sejam positivas para o Brasil, sobretudo para as camadas menos abastadas da população. Disse que dará continuidade a um projeto político de país que em oito anos logrou fazer com que a desigualdade de renda chegasse ao menor índice já calculado (1). Afirmou que vai tentar reverter a situação em que se encontra o Estado do Rio, inclusive o desmantelamento de nossas universidades públicas, bens tão caros à população. Falou em redistribuir terras e se opôs ao discurso odioso de Bolsonaro que propõe distribuir fuzis contra a atuação do movimento dos Sem Terra. Criticou Temer e a privatização de setores estratégicos do Brasil. Falou de referendos revogatórios para consultar a população sobre importantes mudanças que foram realizadas neste breve período de mandato do presidente golpista. Defendeu a democratização dos meios de comunicação, tema que cabeceou para Dilma ao final do seu segundo mandato. Tratou gastos públicos em políticas sociais como investimentos imprescindíveis; criticou o desmonte de empresas como conseqüência nefasta de investigações de vestígios de corrupção.

Todas essas pautas me interessam e me parecem justas. Mas, fico com a sensação de que esse momento histórico não é inédito. Soa como um déjà vu de 2002 e o ponto é que não estamos mais em 2002, época na qual o entusiasmo diante dessas palavras talvez fosse ainda mais genuíno. Tanta coisa aconteceu de lá pra cá, tantos foram os acertos e os erros do PT… será possível recomeçar novamente e aprender com os erros? Será que Lula será condenado em segunda instância? Como dar continuidade ao projeto iniciado em 2003, num contexto onde expressões de ódio contra pobres, negros, mulheres, homossexuais e outras minorias são explicitadas com ainda menos constrangimento do que há alguns anos atrás?

É verdadeiro que um quantitativo expressivo de apoiadores de Bolsonaro se reuniu em frente à Câmara dos Vereadores para gritar palavras de ordem contra o ex-presidente Lula e o campo da esquerda, em geral. É triste ver tantas pessoas defendendo um candidato francamente apoiador da ditadura, da tortura e de discursos outros que violam os direitos humanos. Foi triste ver o cordão de policiais militares separando as “torcidas”, que se enfrentavam com palavras, gestos e olhares carregados de raiva. Dentre os cartazes levantados pelos manifestantes, um defendia a volta do CCC, o Comando de Caça Comunista, organização paramilitar que se reuniu durante o período ditatorial brasileiro para perseguir e matar pessoas consideradas “comunistas”.

Um empresário da cidade, em sua página do facebook, comentou jocosamente que a noite de Campos seria tranqüila naquela quarta, pois se encontravam reunidos no Jardim do Liceu todos os ladrões do nosso município. A princípio, este comentário me pareceu apenas ridículo. No entanto, logo em seguida comecei a pensar no perverso processo de construção da imagem do PT, de Lula e de seus apoiadores como os símbolos máximos da corrupção brasileira, mesmo que essa relação determinista careça de comprovação empírica. É curioso notar como anos de um discurso midiático quase uníssono e politicamente orientado puderam construir tantas noções que não se sustentam ao serem confrontadas com a realidade. O brasileiro já possui provas de que a corrupção perpassa todo o nosso sistema político, sendo uma característica estrutural da política e não peculiaridade de um partido ou de um grupo de políticos. Mesmo assim, o PT é enxergado por muitos como o mal em forma de organização e Lula como o próprio diabo. Um novo mandato de Lula, portanto, seria uma “maldição”. Do outro lado dessa moeda, aparece o poder judiciário, personificado na figura do juiz Sérgio Moro, como símbolo máximo da moralidade da nação.

As paixões despertadas pela política muitas vezes impedem que possamos analisar friamente um fenômeno, levando em consideração toda a sua complexidade, seus pontos positivos e negativos, o que acaba por nos conduzir à adoção de narrativas reducionistas e, portanto, equivocadas. Para muitos que enfatizam os casos de corrupção atrelados aos governos do PT em seus discursos, as virtudes desse período político parecem questões irrelevantes. O fato de milhares de pessoas terem experimentado um estilo de vida mais confortável e mais digno aparece — quando aparece — como coisinha pequena, um mero detalhe no discurso de muitos indivíduos. E, para tantos outros, a promoção da ascensão social de grande parte da população brasileira nem sequer pode ser considerada um ponto positivo da política conduzida pelo PT, mesmo que muitas vezes não se possa assumir esta idéia de maneira explicita.

O cientista político André Singer inicia seu paradigmático livro “Os sentidos do Lulismo” sentenciando que “o lulismo existe sob o signo da contradição”, reunindo em seu seio “conservação e mudança”, “reprodução e superação”, “decepção e esperança”. O filósofo Marcos Nobre fala sobre a “peemedebização do lulismo”, sobretudo no segundo mandato do ex-presidente. O cientista social Luiz Werneck Viana analisa que o PT não quis ousar assumir os riscos de sua vitória, em 2003, adotando na prática muito do conteúdo programático do PSDB contra o qual construiu seu discurso de campanha, contra o qual construiu sua identidade mesma. Singer, tal como todos os outros intelectuais supracitados, reconhece a necessidade de construir alianças e coalizões para se governar um país, mas observa que existiu para o PT a possibilidade de escolher, em diversos momentos, se deveria ou não fortalecer o seu “reformismo fraco”. Não ter logrado avançar na mobilização e conscientização política de suas bases foi um dos maiores equívocos do partido, segundo o cientista político.

Penso que seja possível avançar com o projeto político iniciado por Lula, sobretudo no que tange à diminuição da desigualdade brasileira. Para lograr avançar um projeto progressista, o apoio dos parlamentares e de diversos setores da sociedade civil é peça fundamental. Se Lula for a opção mais viável para darmos continuidade a esse projeto e tentarmos reverter os estragos empreendidos pelo governo Temer, então é dele o meu voto em 2018.

 

(1) http://www.cps.fgv.br/cps/bd/clippings/nc0568.pdf

 

0

Repercussão da entrevista de Lula à Folha também em Minas Gerais

 

Ex-editor geral da Folha, antes de voltar para sua Minas Gerais natal, o jornalista Sebastião Carlos Freitas me informa que também por lá repercutiu a entrevista dada (aqui e aqui) na última quarta-feira (06), ao Grupo Folha, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Confira aqui ou no print abaixo do jornal mineiro O Tempo:

 

(Reprodução)

 

 

Confira aqui e aqui mais sobre a repercussão da entrevista na mídia nacional

 

0