Morre poeta Pedro Lyra e Rio das Ostras cancela Festival de Jazz & Blues

 

 

 

Pedro Lyra (Foto: Kleber A. Gonçalves)

 

 

Morre Pedro Lyra

Morto na última segunda-feira (23), em Campos, aos 72 anos, o poeta cearense Pedro Lyra teve seu corpo velado ontem na cidade, antes de seguir ao Rio de Janeiro, onde foi cremado. Poeta consagrado nacionalmente, era pós-doutor em tradução poética pela Universidade de Sorbonne, na França. E há anos lecionava Centro de Ciências do Homem (CCH) da Uenf. Ele estava internado em Campos desde que sofreu um infarto, na madrugada do último dia 9. Suas cinzas serão levadas para Fortaleza, onde será celebrada sua missa de sétimo dia.

 

“Só isto, a vida”

“Estamos muito abalados com sua partida. Meu pai viveu para a poesia. Ele tinha 72 anos, deixa cinco filhos, três netos e muitos versos”, disse ontem Wladimir Lyra, filho do poeta. Além da Uenf, ele também foi professor da Universidade de Fortaleza (Unifor) e da Universidade Federal do Ceará (UFC). No poema “Um diálogo com Deus”, ele definiu em versos: “Só isto, a vida/ — ou nisto resumida./ Só isto, a vida humana:/ um breve rastejar, entre o Big Bang e o Apocalipse”.

 

Crise desafina (I)

Um dos festivais mais aguardados entre os amantes da música negra dos EUA, o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival teve seu cancelamento anunciado oficialmente no início da semana. O motivo alegado pela organização do poder público daquele município foi a crise econômica. Marcada para ocorrer entre os próximos dias 18 e 20 de novembro, seria 15ª edição anual do festival, que se consolidou ao longo dos anos no calendário oficial dos apreciadores do estilo musical na região, no Estado e no país.

 

Crise desafina (II)

O Festival era organizado anualmente, sempre com entrada franca. Há mais de uma década, tinha virado encontro obrigatório dos amantes do blues e jazz, de várias faixas etárias e lugares, que se reuniam para conferir atrações musicais nacionais e internacionais. Movimentava o setor de serviços não só de Rio das Ostras, como de Macaé. Segundo a organização, a não obtenção de recursos junto à iniciativa privada causou o cancelamento. A promessa é de que volte em 2018, no feriado de Corpus Christi, entre 31 de maio e 3 de junho.

 

Comédia pastelão

Em comentário na edição de ontem desta coluna (aqui) nas redes sociais, um leitor comentou que a longa entrevista do ex-governador Anthony Garotinho (PR), com o jornalista Roberto Cabrini, exibida na noite de domingo (22) pelo SBT, foi “uma comédia”. É a opinião predominante entre os campistas que perderam quase uma hora para assistir às encenações em rede nacional de Garotinho e Rosinha, conhecidas na planície desde que ambos eram atores amadores no Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira, nas décadas de 70 e 80 do século passado.

 

Filme de gângster

No dia seguinte, na segunda (23), o espetáculo foi de outo ex-governador: Sérgio Cabral (PMDB), ex-aliado de quem Garotinho pretender ser agora o grande antagonista. O depoimento em que Cabral confrontou quem de fato encara com seu rival, o juiz federal do Rio Rodrigo Bretas, também foi exibido em rede nacional. Se a participação do casal da Lapa, diante de Cabrini, foi considerada uma comédia pastelão, a de Cabral, diante de Bretas, lembra outro gênero: filme de gângster. Como indagou o leitor: a que nível desceram os três ex-governadores do Rio?

 

Publicado hoje (25) na Folha da Manhã

 

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Crise econômica cancela Rio das Ostras Jazz & Blues Festival

 

No eco do bordão do blogueiro Christiano Abreu Barbosa: É grave a crise! Consolidado há mais de uma década como o melhor evento de blues e jazz do interior do Estado do Rio, e um dos mais conceituados no Brasil, a 15º edição do Jazz & Blues Festival de Rio das Ostras teve seu cancelamento anunciado. O motivo alegado pela organização do poder público municipal foi a crise econômica.

O Festival era organizado anualmente, com entrada franca, há uma década e meia. Neste tempo, virou calendário quase obrigatório para os amantes dos estilos musicais na região e no Estado do Rio, atraindo gente também de outras partes do país. Movimentava o setor de serviços não só de Rio das Ostras, como de Macaé e Búzios. A edição deste ano estava marcada para ocorrer entre 18 e 20 de novembro.

Confira abaixo o comunicado do cancelamento na democracia irrefreável das redes sociais:

 

 

 

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Academia de Campos analisa voto “Bolsolula” ou “Lulanaro”

 

Ontem, quatro representantes da academia local foram ouvidos por mim e o jornalista Aldir Sales. A pauta foi repercutir um dado interessante (aqui) da pesquisa Datafolha, feita entre 27 e 28 de novembro, à corrida presidencial de 2018: 6% dos que manifestaram intenção de voto no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disseram que, se ele fosse impedido de concorrer pela Justiça, votariam no deputado federal Jair Bolsonaro (PSC); enquanto 13% dos que declararam voto neste a presidente, disseram que votariam em Lula, caso Bolsonaro saísse do páreo.

Em Campos ideológicos aparentemente opostos, Lula e Bolsonaro lideram a corrida, segundo a consulta Datafolha. E a comunhão de parte do eleitorado por ambos, numa aparente contradição, foi analisada pelo cientista político Hamilton Garcia de Lima, da Uenf; pelo sociólogo George Gomes Coutinho, da UFF; além dos historiadores Aristides Soffiati, também da UFF, e Guiomar Valdez, do IFF.

Quem quiser ler a versão da matéria publicada hoje na Folha, pode conferir aqui. Mas como, por questão de espaço, os depoimentos dos quatro professores tiveram que ser editados, para ter acesso à integra das suas análises sobre o fenômeno chamado de “Bolsolula” ou “Lulanaro”, é só conferir abaixo:

 

 

 

Hamilton Garcia de Lima, cientista político — O eleitorado está em busca de soluções para os problemas que se tornaram agudos depois de mais de uma década de omissão do poder público, em meio à euforia do último ciclo de expansão comercial, e da crise ético-político-econômica que vieram em sua esteira. Os candidatos com propostas claras e diretas, em torno dos temas objeto de preocupação do eleitorado, tendem a prevalecer num cenário de desolação e indignação com partidos desacreditados e lideranças titubeantes ou desmoralizadas. No caso de Lula, embora seja um político profissional com vários processos e uma condenação judicial por corrupção, ele se comporta como o lutador de uma causa que consiste em levar prosperidade ao lares dos brasileiros mais humildes. O que, num país com os dados alarmantes de desigualdade, tem um enorme apelo eleitoral, até porque esse tipo de eleitor se fixa na pessoa do candidato e não em grupamentos políticos e, para eles, a crise está associada à Dilma, não a Lula. Não é por outro motivo que o petista começa a atacar a gestão da colega fracassada, embora jogando a culpa da crise atual no Governo Temer. É desse modo que ele se torna atraente até mesmo para eleitores do seu arquirrival ideológico: Bolsonaro.O eleitorado está em busca de soluções para os problemas que se tornaram agudos depois de mais de uma década de omissão do poder público, em meio à euforia do último ciclo de expansão comercial, e da crise ético-político-econômica que vieram em sua esteira. Os candidatos com propostas claras e diretas, em torno dos temas objeto de preocupação do eleitorado, tendem a prevalecer num cenário de desolação e indignação com partidos desacreditados e lideranças titubeantes ou desmoralizadas. No caso de Lula, embora seja um político profissional com vários processos e uma condenação judicial por corrupção, ele se comporta como o lutador de uma causa que consiste em levar prosperidade ao lares dos brasileiros mais humildes, o que, num país com os dados alarmantes de desigualdade, tem um enorme apelo eleitoral, até porque esse tipo de eleitor se fixa na pessoa do candidato e não em grupamentos políticos e, para eles, a crise está associada à Dilma, não a Lula. Não é por outro motivo que o petista começa a atacar a gestão da colega fracassada, embora jogando a culpa da crise atual no Governo Temer. É desse modo que ele se torna atraente até mesmo para eleitores do seu arquirrival ideológico: Bolsonaro.

 

George Gomes Coutinho, sociólogo — O fenômeno migratório de votos Lula/Bolsonaro ou Bolsonaro/Lula deve ser compreendido utilizando o background de nossa conjuntura social contemporânea. De outra maneira torna-se simplesmente “irracional” para o analista. O que eu compreendo é que há uma profunda e ainda dispersa insatisfação na nossa sociedade contemporânea com perspectivas “mercadocêntricas”. Há um mal-estar inegável como o nosso atual status quo. Estas perspectivas pró-mercado são as defendidas pelos agentes de mercado e seus porta-vozes e obviamente não representam a totalidade dos anseios políticos dos brasileiros. Neste sentido, tanto Lula quanto Bolsonaro, por estranho que possa soar, são historicamente críticos de um laissez faire mais radical e ambos são identificados com uma postura mais intervencionista estatal. Mesmo que ambos, Lula e Bolsonaro, tenham feito vários acenos generosos ao mercado em diversas ocasiões, sendo este movimento realizado por Bolsonaro de forma mais recente. O que importa na fotografia proposta pela última pesquisa do Datafolha é a “memória” do eleitor, como ele identifica e interpreta determinada figura pública. Arrisco dizer que para parte do eleitorado ambos os presidenciáveis representam a negação ao status quo, a despeito de suas inegáveis e profundas diferenças nas posturas, adesões e proposições políticas. Por isso a migração da intenção de votos entre um e outro é viável para parte de seus eleitores.

 

 

 

Aristides Soffiati, historiador — O quadro que a pesquisa Datafolha mostra, nessa migração de elitores entre Lula e Bolsonaro, revela a despolitização das pessoas. A definição desses votos, sobretudo nas classes mais baixas, não passa pela questão ideológica. Essa coisa de ideologia é mais para os intelectuais. A população é pragmática. Não acho que isso seja bom, mas não sei como alterar. Os índios, antes da chegada do europeu à América, não tinham leis, mas obedeciam a uma maneira de se comportar. Nós nos dizemos uma democracia, uma república, mas precisamos de leis, desobedecidas principalmente pelas camadas mais altas da sociedade. Quanto mais leis, e nós temos muitas, cada vez mais o comportamento real parece se afastar delas.

 

 

 

 

Guiomar Valdez, historiadora — O fenômeno “Bolsolula” ou “Lulanaro” identificado na pesquisa Datafolha, de fato, desafia as análises políticas. Penso que seja um quadro resultante da profunda despolitização e abafamento dos movimentos sociais e no esgarçamento de suas lideranças ao longo dos últimos 15 anos em regime democrático e aprofundada pela crise econômica-social. Um possível desdobramento é o pragmatismo de parte razoável de eleitores, ou seja, o candidato que inspirar resolver problemas que assolam o seu dia-a-dia na mesa e na mente, apontar uma saída plausível, terá o seu voto. É o improvável que se apresenta possível por esta pesquisa. Aguardemos!

 

 

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Orávio de Campos — Para aclarar a memória

 

 

 

Ao chegar em sua principal colônia, em 1808, fugindo da saga militar de Napoleão Bonaparte que, no afã de dominar a Europa, decretara o famoso bloqueio continental, D. João VI, trazendo a bordo todos os burocratas da corte lusitana, encontrou por aqui, de formação insipiente, um grupamento militar, criado, ainda, nos tempos das conquistas do Rei D. José I, na segunda metade do Século XVIII, para dar proteção ao Vice-Reinado instalado no Rio de Janeiro.

Historicamente, o regente português, que trouxera na bagagem sua genitora, a Rainha D. Maria I, a Louca — aquela megera que sentenciou Tiradentes à forca e ao  esquartejamento — aproveitou a estrutura hieráquica da Cavalaria de Guarda, transformando-a em Regimento, nos mesmos moldes dos denominados “dragões” do Rio Grande do Sul, cuja missão era a de dar segurança à presença do governo imperial no cenário nada saudoso do Brasil Colônia.

Contudo, apesar de controvérsias históricas, há registros salientando que “as forças militares se reuniam sempre que o poder necessitava abafar qualquer tipo de agressão às nossas fronteiras”, isso desde o inicio da colonização, no Século XVI, mas a data oficial da implantação do Exército é o dia 19 de abril de 1648, como referência à Batalha de Guararapes — o primeiro grande embate em favor da restauração do poder português em confronto com holandeses, em Recife.

Muitos revisitadores, no entanto, defendem que o Exército brasileiro tem origem no ato simbólico da Independência, às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo, quando a guarda do Imperador Pedro I consolida o desejo do monarca em separar o Brasil de Portugal, por não concordar com o retorno do Pacto Colonial proposto pela Revolução do Porto, em 1820, até porque naquela ocasião o Rio de Janeiro já tinha os ares de uma cidade européia digna de abrigar uma corte independente.

A missão constitucional do Exército e, por extensão, das Forças Armadas — incluindo a Marinha e a Aeronáutica — é a de consubstanciar a Carta Magna e lutar em defesa da pátria (?) e, também, de cuidar de seus interesses no âmbito internacional, tanto que participamos das duas grandes guerras mundiais — 1914-1918 e 1939-1945 —, além de outras missões expressivas, como o conflito no Canal de Suez e as atividades humanitárias do Haiti, isso para reconhecer sua importância histórica.

Não se sabe se por questões teosóficas, que indicavam que os reis são/eram nomeações inspiradas por Deus, nos 67 anos dos dois reinados brasileiros não ocorreram problemas com os militares, pois cumpriram à risca o que estabelecia a Constituição de 1824, somente até a conspiração ardilosa pela queda do Imperador Pedro II, redundando na proclamação da República. Sem propor qualquer debate sobre a monarquia brasileira, (e não é nosso objetivo) pelo ponto de vista das (des) humanidades, foi a primeira covardia do Exercito e contra um monarca nascido no Brasil e que, expulso, dois anos depois, falecera de saudade, aos 66 anos, num hotelzinho em Paris.

Depois veio a Revolução de 30, com a ascensão de Vargas ao poder como presidente provisório, o que se transformaria numa ditadura até 1945. O Exército também atuou na decretação do fim da Era Vargas e conseguiu, com apoio das forças politicas de então, eleger presidente o General Eurico de Gaspar Dutra. Muito recente, ainda, o denominado Golpe de 1964, que derrubou João Goulart, instaurando uma ditadura sangrenta, que permaneceu na cena politica até 1985.

Pode-se lembrar, também, como exemplos, as ações belicosas (e selvagens) do Exército em lutas contra revoltas populares/nativistas (e foram muitas), ilustrando aqui a desenvolvida contra Canudos, no serttão da Bahia, em 1897, onde uma comunidade messiânica, comandada pelo beato Antonio Conselheiro, fora completamente dizimada. Homens, mulheres, idosos, crianças e animais mortos e decapitados, com requinte de barbaridade, e a contabilidade da ação desastrosa dos militares, assumida pelo presidente Prudente de Morais, registrou mais de 25 mil pessoas assassinadas.

No livro “Os Sertões” — que deveria ser lido por todos os brasileiros e em todas as escolas de jornalismo — o escritor Euclides da Cunha descreve os horrores de uma guerra desnecessária, produzida por uma república recém-instalada e que não tinha, ainda, se livrado dos ranços absolutistas da monarquia. O massacre de Belo Monte fica como uma das mais terríveis ações do Exército Brasileiro. Rachel de Queiroz, em “A Beata Maria do Egito”, também narra um conflito entre uma seguidora do Padre Cicero Romão, que sofrera a ação desalmada de um militar do Exército.

Na descrição da realidade e (ou) da ficção, levando em conta que os períodos golpistas não supriram o país de suas necessidades, o melhor para todos e para o estado democrático de direito é, (apesar das mazelas, da corrupção, do analfabetismo anacrônico de parte de nossa gente, da falta de educação, saúde e segurança…), a democracia, com todos os seus defeitos. Para quem passou, como jornalista atuante, pelas agruras produzidas pelos militares nos famigerados capítulos do golpe de 1964, é pesaroso se pensar em novo golpe. O juventude brasileira foi infeliz durante um quarto de século.

Aos militares, com seus uniformes pomposos, principalmente os dos Dragões da Impendência, deve ser mantida a obediência aos mandamentos da democracia, por pior que ela possa parecer. Ditadura, Civil ou Militar, Nunca Mais.

 

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TB no SBT para ocultar bastidores de uma pré-candidatura vazia

 

 

 

TB no SBT

Quem assistiu à longa entrevista do ex-governador Anthony Garotinho (PR) exibida na noite de domingo, pelo SBT, com o jornalista Roberto Cabrini, deve ter reconhecido o estilo teatral. A intervenção de Rosinha para impedir que o marido revelasse uma “denúncia bombástica”, por receio de supostas represálias, lembrou os tempos em que o casal da Lapa era mais conhecido como atores amadores do Teatro de Bolso (TB) Procópio Ferreira. Independente dos seus reais motivos, a entrevista serviu para Garotinho tentar não só se colocar em rede nacional como antagonista do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), como causador da sua prisão.

 

Cabral x Bretas

Bem verdade que a determinação ontem da transferência de Cabral, de Benfica para um presídio federal fora do Estado, ainda a ser definido, beneficia Garotinho, por ter se dado no dia seguinte à entrevista. Mas a decisão e seu motivo revelam quem Cabral considera, de fato, seu algoz: o titular da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, juiz Marcelo Bretas. Em audiência ontem sobre a compra de joias para lavagem de dinheiro, o ex-governador respondeu ao magistrado: “Não se lava dinheiro comprando joias. Vossa excelência tem um relativo conhecimento sobre o assunto, porque sua família mexe com bijuterias”.

 

https://www.youtube.com/watch?v=4DZZ8ENfOVE

 

Calvários

Bretas não gostou e questionou se não se trataria de uma ameaça velada de Cabral, que estaria tendo acesso a informações, mesmo preso desde 17 de novembro do ano passado. Por isso acatou o pedido do Ministério Público Federal (MPF) pela transferência do ex-governador. Antes, este chegou a dizer ao juiz: “Eu estou sendo injustiçado. O senhor está encontrando em mim uma possibilidade de gerar uma projeção pessoal, e me fazendo um calvário”. Curiosamente, lembra aquilo que Garotinho também acusa o juiz eleitoral de Campos Ralph Manhães, que o condenou a 9 anos e 11 meses de cadeia, na Chequinho.

 

Bastidor da peça

Antes de tentar pegar carona no “calvário” que o próprio Cabral atribuí a Bretas, Garotinho teve na última quinta (19) uma mostra do que lhe espera, caso tente outra vez retornar ao Palácio Guanabara. Ao lançar sua pré-candidatura a governador pelo PR, no Rio, ele não contou com a presença de nenhum dos sete deputados federais do partido no Estado. Dos três deputados estaduais do PR, só Bruno Dauaire apareceu. E, dos sete prefeitos fluminenses da legenda, Amarildo do Hospital, de São Fidélis, foi o único presente. O vazio não foi exibido em rede nacional pelo SBT, mas é o bastidor que definirá o elenco e o texto da peça em 2018.

 

Alerta na rede

O caso do pedófilo preso em flagrante em Campos aliciando uma menina de apenas 10 anos pela internet traz à luz uma discussão que não pode ficar à sombra da evolução tecnológica da comunicação. Os avanços e os benefícios são inegáveis, porém, o caso lembra do alerta permanente que os pais devem ter com os filhos menores de idade que possuem contato direto com as redes sociais. Muitos criminosos se escondem em perfis fakes para atrair a atenção das crianças e adolescente e o anonimato da rede, aliado com a falta de aparato de fiscalização do Estado, tornam a internet um prato cheio para esses criminosos, o que redobra a responsabilidade e cuidados que os pais precisam ter.

 

Preservação

A superintendência de Igualdade Racial de Campos promoveu ontem uma reunião com representantes de diversas secretarias e superintendências municipais para debater propostas de ações integradas em benefício das comunidades remanescentes de quilombolas. A proposta é definir projetos que colaborem para a melhoria da qualidade de vida dos descendentes de escravos, promovendo a preservação de sua cultura. Segundo a superintendente Lucia Talabi, estão sendo definidos ações para levar ações de resgate e preservação de identidade cultural dessas comunidades.

 

Perdas

Músicos de Campos, como o maestro Ethmar Filho e o professor Hélio Coelho externaram pesar pela morte do trombonista Roberto Marques, campista que alcançou projeção nacional, tendo participado de espetáculos antológicos, como “Tom, Vinicius, Toquinho e Miúcha”, “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque , além de ter atuado com Roberto Carlos, Bethânia, Roberto Carlos, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Ney Matogrosso, Simone, Alcione, Martinho da Vila, Nelson Gonçalves. Outro que partiu foi o narrador esportivo Diney Monteiro que atuou em rádios de Campos, São Paulo, Minas, Bahia e Paraná.

 

Com os jornalistas Aldir Sales e Paulo Renato Porto

 

Publicado hoje (24) na Folha da Manhã

 

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Igor Franco — A nova direita é revolucionária

 

 

 

Todos aquele que não vivem em Marte já perceberam que há algo de muito diferente no debate cultural brasileiro. Da quase censura informal a um atual estágio de domínio nas redes sociais, o discurso de direita renasceu no Brasil com força total nos últimos anos. Nas mais diversas áreas como literatura, teatro, televisão, cinema e internet, dezenas de personalidades que adotam abertamente posições conservadoras e liberais já lideram as curtidas e repercussões nas redes sociais. A incapacidade da esquerda em entender o sucesso da nova direita é, ela mesma, a própria natureza do problema.

Como é comum a todo regime autoritário de supressão de liberdades, a ditadura imposta pelos militares ao país a partir de 1964 elegeu a cultura e a academia como válvulas de escape da tensão social. Com a oposição política reduzida a meros ruídos, o discurso de esquerda encontrou nas universidades e nos ambientes artísticos terreno fértil para prosperar. Terminado o regime militar, décadas de hegemonia de pensamento formaram batalhões de profissionais e personalidades ávidas para pôr em prática suas ideias. Daí para o aparelhamento de órgãos de representação, entidades estatais e paraestatais, redações, curadorias etc foi um pulo.

Em posse das correias de transmissão do conhecimento e dos instrumentos de poder que colocam em prática as políticas públicas, as ideais esquerdistas pautaram o debate político nos últimos 30 anos. Qualquer dissidência ao novo status quo era rapidamente classificada como reacionária e lançada fora da arena de debate ou obrigada a se retratar. A deformação ideológica sofrida no Brasil foi tão grande que chegamos ao ponto de tratar como direita os tucanos da social-democracia, que, em sua origem europeia, fora uma tentativa desesperada de sobrevivência dos ideais socialistas pós-queda do muro de Berlim. Como foi possível, então, uma ascensão tão rápida e silenciosa da nova direita?

Entra em cena a chave do recente sucesso do discurso conservador e liberal: o povo. Não aquela massa indefinida em nome da qual a esquerda pensa representar e em nome de quem pretensamente fala. Mas o povo enquanto reunião de milhões de indivíduos de carne e osso, cada um com suas próprias contingências. Indivíduos preocupados com a possibilidade real de levar um tiro durante um assalto e que nada aconteça ao seu algoz. Indivíduos que não suportam o custo de sustentar um Estado incapaz de fornecer algo próximo do básico de serviços essenciais e que não atrapalhe suas vidas. Pessoas que cansaram das promessas de redenção através da política porque sabem que, invariavelmente, pagarão em dobro pelo fracasso. Pessoas que, cansadas dos problemas reais, assistem “especialistas” de telejornal despejarem soluções ineficazes originárias de debates acadêmicos em que todos concordam. Pessoas que foram censuradas e a quem foi dito que há coisas que não podemos falar porque é ofensivo ferir a sensibilidade alheia. Pessoas que, com seus vícios e virtudes, cansaram-se da acusação de que seu modo de vida e seus valores representam o atraso e deu origem ao que há de mais reprovável no mundo.

O povo, tão bajulado no discurso e nos livros, há muito tempo foi relegado ao papel de justificador de toda solução fracassada da esquerda. Ao observar a total desconexão entre o que era dito em seu nome e o que ocorria em suas vidas, o povo encontrou novamente um discurso para chamar de seu.

A nova direita faz sucesso porque exige que a lei seja aplicada de forma dura e indistinguível. Porque afirma que os políticos e o estado, quando muito, podem atrapalhar pouco a vida do cidadão comum; porque reconhece que o modo de vida de cada um não objeto de discussão conquanto não agrida outras pessoas; porque reconhece a contribuição para a liberdade e prosperidade legadas pelos valores que definem a maior parte do povo brasileiro. A nova direita faz sucesso porque ousa dizer o que deixou de ser dito, faz sucesso porque ridiculariza os novos consensos e relativiza os novos tabus.

O caricato reacionário saudoso da ditadura só existe no espantalho criado pelo discurso esquerdista para disparar as velhas armas retóricas. Em vão. Ser de direita, no Brasil, é a nova revolução.

 

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“Brasil entre Lula e Bolsonaro” da Folha da Manhã a Globo e Folha de SP

 

Num Brasil de debate político bipolar, a 11 meses da eleição presidencial de 7 de outubro de 2018, tentar enxergar as áeras cinzentas entre os supostos preto e branco é um esforço necessário. E, às vezes, mesmo na curta evergadura de um blog e um jornal do interior, é trabalho recompensado. Sobretudo quando se constata que a tentativa de análise do quadro nacional, feita de Campos, caminha lado a lado, ao mesmo tempo, com alguns dos principais jornais e jornalistas do Brasil.

Nesse sentido, algumas observações feitas na matéria de análise intitulada “Brasil entre Lula e Bolsonaro?”, publicada na postagem abaixo do blog e na edição dominical da Folha da Manhã de hoje (22), tiveram abordagem muito parecida pela Folha de São Paulo e O Globo, no mesmo dia. E algumas vezes partindo da mesma fonte, como o diretor do Datafolha Mauro Paulino.

Feita pelo insitituto de pesquisa, entre 27 e 28 de setembro, com 2.772 pessoas, em 194 cidades do país, a consulta Datafolha à corrida presidencial de 2018 resgitrou a liderança do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC).

Quem não leu a matéria da Folha (da Manhã) pode fazê-lo aqui. E quem quiser confirmar alguns dos seus principais pontos a partir de O Globo (aqui e aqui) e da Folha de São Paulo (aqui) pode conferir nas suas repoduções abaixo:

 

Sobre João Doria:

 

Sobre os eleitores de Lula e Bolsonaro:

 

 

Por Gabriel Cariello e Marco Grillo

Uma combinação ideologicamente improvável foi identificada pelo Datafolha, que divulgou no início do mês mais uma pesquisa de intenção de voto para a eleição presidencial de 2018: o voto “Lulanaro” ou “BolsoLula” — o eleitor de Lula que votaria em Bolsonaro e vice-versa.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera em todos os cenários apresentados pela pesquisa, com até 36%. Nas simulações em que ele não aparece, 6% dos seus apoiadores afirmam que escolheriam o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). No sentido contrário, a migração é maior: até 13% dos eleitores que votariam no parlamentar (sem Lula na disputa) responderam que apoiariam o petista caso ele estivesse no páreo.

— Existem eleitores que, diante do cenário de muita corrupção, crise econômica, se tornam mais pragmáticos. Vão olhar aquele que vai resolver a situação de forma como ele entende mais rápida e eficiente, independentemente da corrente política — analisa o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino.

De modo geral, os perfis dos eleitores médios de cada um são opostos. Lula tem mais apoio entre os menos escolarizados e com renda mais baixa; já Bolsonaro tem seu melhor desempenho nas faixas de renda mais altas e entre os mais escolarizados. Para Paulino, a busca por uma solução imediata faz com que determinada parcela do eleitorado tenha escolhas que, numa análise ideológica, seriam inconciliáveis:

— Acho que isso hoje é preponderante. O eleitor não está preocupado se (o candidato) é de direita ou esquerda, se defende pena de morte ou não, mas preocupado em ter de volta as conquistas que perdeu. No caso dos eleitores do Lula, têm saudade do tempo em que as coisas andavam melhor e eram associadas ao governo dele. Mas, se ele (Lula) não puder ser candidato, podem até votar no Bolsonaro, desde que se convençam de que o Bolsonaro pode resolver os problemas, como a violência, por exemplo.

O sociólogo Paulo Baía, professor da UFRJ, afirma que existe um recorte do eleitorado que escolhe seu candidato mais por razões emocionais.

— Assim, em muitos casos, as razões pelas quais se vota no Lula, no Bolsonaro, na Marina (Silva), no (João) Doria, no Ciro (Gomes) podem ser as mesmas razões. É um eleitorado não ideológico, em que a politização é emocional, e o voto é dado até com uma certa irritação.

A maior parte do eleitorado de Lula, no entanto, segue um caminho mais tradicional e escolhe candidatos mais alinhados quando o ex-presidente não aparece como uma opção: Marina Silva (25%) e Ciro Gomes (14%) — ambos foram ministros durante o governo do petista. Outros 29% dos eleitores de Lula declaram que pretendem anular ou votar em branco se ele não estiver na disputa. Nessa hipótese, apenas 4% dos eleitorado de Lula escolheriam outro possível candidato do PT, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, que ocupou o Ministério da Educação na gestão do PT. Para Paulino, a explicação está na baixa taxa de conhecimento de Haddad pelo eleitorado e no fato de Lula não ter deixado claro que o ex-prefeito será seu candidato caso ele não possa concorrer.

— Não há ainda apoio explícito do Lula ao Haddad, que é pouco conhecido. E 26% dos eleitores responderam que votariam com certeza no candidato indicado pelo Lula. Entre os que nós testamos, é o que tem maior potencial de transferência de votos. Por isso que ele é a figura central da eleição.

Para Paulo Baía, além do desconhecimento, o resultado ruim de Haddad no ano passado — tentou se reeleger e perdeu a eleição no primeiro turno para Doria — levou o petista para um patamar inferior.

— Ele se saiu muito mal e perdeu densidade eleitoral. Acredito que, se o Lula não for candidato, o PT poderá escolher o Jaques Wagner (ex-governador da Bahia), que vem de um estado importante e onde o partido ainda tem relevância — disse Baía, em referência ao fato de o estado ser governado pelo petista Rui Costa.

 

Sobre o outsider Luciano Huck:

 

 

 

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Brasil entre Lula e Bolsonaro?

 

(Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Jornalista Ryan Lizza, da revista New Yorker: “imprensa americana subestimou Trump”

“É interessante que os jornalistas americanos tenham subestimado Donald Trump. O que me perguntam frequentemente é se o público ou a mídia deveriam levar a sério candidatos bizarros como ele. Minha resposta é: sim, nós temos que levar essas pessoas a sério”. Foi o que advertiu (aqui) o jornalista Ryan Lizza, correspondente em Washington da conceituada revista New Yorker, que esteve durante a semana no Rio para uma palestra.

Levada a sério a última pesquisa DataFolha sobre a disputa à presidência do Brasil em 2018, feita entre 27 e 28 de setembro, com 2.772 pessoas, em 194 cidades do país, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é apresentado (aqui) como candidato em três situações de primeiro turno. E, vence em todas, chegando ao máximo de 36% das intenções de voto.

A vitória de Lula seria confirmada nas quatro simulações de segundo turno com seu nome. Nestas, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou menos, o líder petista só ficaria em empate técnico (44% a 42%) contra o juiz federal Sérgio Moro, que não é filiado a nenhum partido e já disse reiteradas vezes (aqui) que não participará da eleição.

Moro não será candidato, mas empataria com Lula no 2º turno de 2018

O fato do nome de Moro estar na consulta, deixa dúvida da intenção. Outra dúvida, muito mais importante, é matemática. Segundo o Datafolha, 54% dos brasileiros acham (aqui) que Lula merece ser preso pelos crimes pelos quais já foi condenado, em julho, pelo próprio Moro, ou por aqueles em que é réu em outras cinco ações penais. Da aritmética dos processos à da pesquisa, a contraposição dos seus números sugere uma questão surreal: 15% dos brasileiros pretendem que seu próximo presidente governe da cadeia?

Rejeição de Garotinho em 2014 lembra a de Lula para 2018

Caso contrário, os 54% do eleitorado que querem Lula preso parecem remeter aos 44% (10 pontos percentuais a menos) da rejeição (aqui) de Anthony Garotinho (PR), quando este tentou retornar ao Palácio Guanabara em 2014. Foram estes números que, no voto, barraram o ex-governador do segundo turno, dando início à sua derrocada política e (aqui) financeira de Campos.

Entre prós e contras eleitorais, a primeira ameaça à pré-candidatura de Lula é jurídica. Ele foi sentenciado por Moro (aqui) a nove anos e meio de prisão, pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, no caso do triplex no Guarujá. Como a Lei do Ficha Limpa exige condenação colegiada, a elegibilidade (ou não) do ex-presidente será definida pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF 4), que deu previsão (aqui) de julgar o caso até agosto.

Presidente do TRF 4, desembargador Carlos Eduardo Thompson, considera a condenação de Moro a Lula “tecnicamente irrepreensível”

Presidente do TRF 4, o desembargador Carlos Eduardo Thompson Flores Lenz já declarou (aqui) que a sentença de Moro “é tecnicamente irrepreensível, fez exame minucioso e irretocável da prova dos autos e vai entrar para a história do Brasil”. Por mais que ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Marco Aurélio Mello sejam conhecidos pela capacidade de surpreender, a situação jurídica do ex-presidente parece difícil.

Para Ciro, Lula “insulta a intelgiência do povo brasileiro com a narrativa de perseguição política”

Ciente da gravidade da situação, o presidenciável alternativo da esquerda Ciro Gomes (PDT), ministro de Lula entre 2003 e 2006, desde o mês passado já não se furtava em atacar publicamente (aqui) o ex-presidente e a versão petista dos fatos:

— Não é possível insultar a inteligência do povo brasileiro e manter essa narrativa (de perseguição política). Nós estamos ferindo de morte a narrativa central de que ainda dava a nós alguma respeitabilidade na opinião pública progressista brasileira, que é a ideia de que o Brasil está sob um golpe de estado. Como é que eu posso então assistir o Lula abraçado com Renan Calheiros (PMDB/AL), que era senador e votou pelo impeachment?

O prefeito paulistano João Doria desidratou sua pré-candidatura a presidente após ter se aproximado de Temer

De volta à pesquisa Datafolha, ela apontou também a desidratação da pré-candidatura presidencial do prefeito paulistano João Doria (por enquanto, PSDB). Ele já sofre críticas administrativas, não apenas da esquerda, pelos 10 primeiros meses de governo. Sua volatilidade ao sabor das redes sociais e, sobretudo, sua aproximação com o presidente Michel Temer (PMDB) — que tem 3% de aprovação popular, segundo (aqui) pesquisa Ibope/CNI de setembro —, igualaram Doria ao ex-padrinho e governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB).

Geraldo Alckmin patina com Doria nos 8% de intenções de voto, mas pode ser de novo o candidato a presidente do PSDB

Nos cenários da consulta Datafolha contra Lula, os dois tucanos não passam dos 8% das intenções de voto no primeiro turno.

Melhor, a ambientalista Marina Silva (Rede) apareceu em terceiro nas duas simulações Datafolha com Lula. Sem ele, ela chegou a liderar no cenário com a opção petista mais provável (aqui): o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad.

Marina está bem colocada nas pesquisas para 2018, mas pode ter perdido sua melhor chance em 2014

Mas Marina pode ter perdido sua melhor chance no primeiro turno da eleição presidencial de 2014, quando chegou a pontear a corrida. E confirmou sua criticada fragilidade após ser imprensada na cerca pelos dois candidatos que romperam na reta do segundo turno: a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e o senador Aécio Neves (PSDB).

Que político de centro no Brasil poderia ser o que Emmanuel Macron foi na eleição a presidente da França?

Diante à incerteza jurídica da candidatura de Lula, à ausência de Marina nos principais debates nacionais, aos rompantes de desequilíbrio (aqui) de Ciro, ao PSDB e PMDB reduzidos a fiadores da aliança (aqui) entre Aécio e Temer para fugir da Lava Jato, o centro busca um nome. Quem poderia ser o Emmanuel Macron, presidente francês eleito em maio último, em versão tupiniquim? A 11 meses das urnas brasileiras de 7 de outubro de 2018, só terá chance quem já for conhecido nacionalmente. Isto, somado ao desgaste do establishment político, faz com que se cogite nomes como Joaquim Barbosa e até Luciano Huck.

Protagonista no julgamento do Mensalão, Joaquim Barbosa admite e nega vir candidato em 2018

Figura de proa no julgamento do Mensalão — que Moro admitiu (aqui) ter inspirado a Lava Jato e toda a magistratura brasileira —, depois dele Barbosa saiu do STF por motivos ainda misteriosos. Sobre 2018, já abriu (aqui) e negou (aqui) a possibilidade. Ele seria o candidato a vice dos sonhos de Marina, que busca alguém do Judiciário para compor sua chapa. E teve o nome aventado até no PT, do qual já foi considerado algoz.

Falta de nomes conhecidos nacionalmente fez o DEM manter conversas com o apresentador Luciano Huck

Já Luciano Huck tem mantido (aqui) conversas com o DEM. Entretanto, por mais popular que seja o apresentador de TV, custa crer que a política nacional tenha regredido ao ponto de ter uma metáfora do Brasil como “Lata Velha” na próxima campanha presidencial.

Enquanto a esquerda e o centro se dividem em dúvidas, a direita acena com as assertivas do polêmico deputado federal Jair Bolsonaro (PSC). A direção sinaliza ao mundo na placa da eleição do empresário Donald Trump à presidência dos EUA, em novembro de 2016. E, mesmo na Alemanha, o partido de extrema direita AfD ficou (aqui) em terceiro nas eleições legislativas de setembro deste ano, com 12,9% do eleitorado.

 

Líderes do partido Altenativa para Alemanha (AfD), Alexander Gauland e Alice Weidel, comemoram o resultado das eleições parlamentares de setembro. No país que lidera economicamente a Europa, a extrema direita terá quase 90 dos 631 representantes do Bundestag (Foto: Martin Meissner/AP)

 

É a primeira vez que o discurso de xenofobia nacionalista ocupa cadeiras no Parlamento alemão, desde a derrocada do nazismo em 1945, ao final da II Guerra Mundial.

Falando em Boston a emigrantes brasileiros, Bolsonaro disse que Donald Trump é exemplo para ele

A cartilha anti-imigração de Trump e do alemão AfD já é pregada no Brasil (aqui) por Bolsonaro, cujos pais eram de ascendência italiana. Em visita recente aos EUA, ele reconheceu (aqui) em Boston, a emigrantes brasileiros: “O Trump serve de exemplo para mim”. Na verdade, segundo seus aliados, a viagem foi (aqui) uma tentativa de desfazer junto aos investidores internacionais sua imagem de estatista, associada à Ditadura Militar (1964/85) brasileira, que o ex-capitão do Exército defende e nega ter existido.

Pela privatizações do seu governo, Fernando Henrique teve a “pena de fuzilamento” pedida por Bolsonaro, que falou em Nova York em privatizar a Petrobras

No esforço de se vender economicamente liberal ao capital internacional, durante entrevista à agência Bloomberg, em Nova York, Bolsonaro admitiu (aqui) privatizar a Petrobras — “menos para a China”, principal parceiro comercial (aqui) do Brasil. Novo defensor do estado mínimo, o pré-candidato quer deixar para trás aquele jovem deputado federal de 44 anos que, em 28 de dezembro de 1999, declarou (aqui) a militares que o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) merecia “pena de fuzilamento” pelas privatizações do seu governo.

Ex-prefeito de São Paulo, Fernando Haddad é a opção presidenciável mais provável do PT, se Lula não puder concorrer

Antes do tour pelos EUA, na pesquisa Datafolha do final de setembro, Bolsonaro só ficou atrás de Lula, embora em empate técnico com Marina. Quando Haddad é colocado como candidato petista, o ex-capitão é ultrapassado pela líder ambientalista na liderança, mas também no empate dentro na margem de erro.

Prevalência das redes sociais sobre a TV, que marcou a primeira eleição de Obama a presidente dos EUA, promete se repetir pela primeira vez numa eleição presidencial do Brasil

Marco da vitória de Barack Obama à presidência dos EUA, em 2008, a prevalência das redes sociais (aqui) sobre a TV ameaça acontecer pela primeira vez, uma década depois, numa eleição presidencial do Brasil. E esta tem sido, até aqui, a grande vantagem de Bolsonaro sobre os demais postulantes ao Palácio do Planalto: o uso massivo e competente (aqui) das redes sociais.

“Cruzando Jesus com a deusa Shiva”, uma das obras que geraram mais polêmica da mostra “Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira”

Quem duvida da sua força para outubro de 2018, teve uma prévia em setembro deste ano, com o cancelamento (aqui) da exposição do “Queermuseu” pelo Santander, em Porto Alegre, após pressão popular. A polêmica seguiu com os protestos (aqui) diante ao Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo, após uma mãe deixar a filha de 5 anos tocar um homem adulto nu, numa performance artística.

Viralizada nas redes sociais por grupos como MBL e seguidores do filósofo Olavo de Carvalho, a discussão não se ateve à necessidade de observância do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). E avançou para (aqui) a condenação moral e religiosa das questões de gênero, além da própria conceituação de arte por gente pouco capacitada a fazê-lo, numa cruzada virtual contra a classe artística brasileira.

É uma agenda que nenhum presidenciável, além de Bolsonaro, teria coragem de assumir.

Diretor do Datafolha, Mauro Paulino ressaltou que 60% do eleitorado de Bolsonaro têm entre 16 e 33 anos

A vantagem nesse novo flanco virtual, mas de importância real na estratégia da campanha de 2018, é reflexo do eleitorado. Diretor do Datafolha, Mauro Paulino destacou (aqui) ao jornal El País que 60% dos que declaram intenção de voto em Bolsonaro têm entre 16 e 33 anos.

Nascidos após a Ditadura, esses jovens não viveram a hiperinflação legada por ela, nem a estabilização econômica por FHC, mas lembram da corrupção sistêmica dos governos lulopetistas, eviscerada pela Lava Jato. Tanto na idade inferior, como no nível de escolaridade e renda familiar mais altos, são opostos ao eleitor padrão de Lula. Mas enquanto este tem seu reduto nas regiões Nordeste e Norte, que relativiza a corrupção e é saudoso da prosperidade do primeiro governo do ex-retirante, os simpatizantes do pré-candidato da direita são pulverizados pelo país.

Político mais popular do Brasil, Getúlio Vargas tem o herdeiro do seu título de “Pai dos Pobres” hoje ameaçado por Bolsonaro

Enquanto o centro não apresenta seu nome, ou comete a estupidez eleitoral de multiplicá-lo, o “nós contra eles” que passou a dividir o Brasil, nos 13 anos do PT no poder, parece ter encontrado gente disposta a jogar o mesmo jogo — dentro de regras de devoção acrítica e maniqueísmo semelhantes por oposição. E foi tratar Bolsonaro como bufão que o promoveu, de rival do deputado federal Jean Wyllys (Psol), para surgir hoje como sério opositor do político mais popular do Brasil, desde Getúlio Vargas (1882/1954).

Quem não seguir o conselho da imprensa dos EUA, nem que seja a revelação do segredo do cadeado após a porta arrombada por Trump, corre o mesmo risco.

 

 

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

A partir desta segunda (23/10), até 04/11, os colaboradores deste “Opiniões” vão trazer suas visões sobre o tema eleito pela maioria: o avanço da direita no Brasil

 

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Alexandre Bastos — Cegueira nossa de cada dia

 

 

 

Em uma de suas músicas Nando Reis reflete: “o mundo está ao contrário e ninguém reparou”. Hoje, com as redes sociais, convivemos com especialistas sobre todos os assuntos e, em alguns casos, chega a ser assustador descobrir o que algumas pessoas pensam sobre temas polêmicos. Racistas, homofóbicos e extremistas avançam e encontram seus pares. Na política, a busca insana pelo poder revela criaturas capazes de tudo. Recentemente, em Campos, um político megalomaníaco usou o assassinato de uma mulher, baleada pelas costas diante da filha menor de idade, para atacar um adversário.

Esse surto coletivo me fez revisitar “Ensaio sobre a cegueira”, livro de José Saramago. A obra começa com um homem que fica cego enquanto estava parado no semáforo. A partir de então, a cegueira contagiosa se alastra rapidamente até que as autoridades decidem isolar as pessoas “contaminadas” em um manicômio abandonado. Neste ambiente, eles devem se organizar para viver pacificamente. Mas o número vai crescendo até que começam a ocorrer disparidades e conflitos por comida. Quando conseguem sair do local, encaram uma cidade em estado de colapso, onde os instintos estão aflorados.

O livro possui diversos trechos que revelam a intenção metafórica da obra, como “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam” ou quando uma moça sugere que eles sempre estiveram cegos, mas nunca perceberam. Saramago demonstra que a maldade não vem de fora, mas se trata de algo bem particular. Faz parte da nossa natureza e aflora de acordo com a forma que a alimentamos. Há um personagem que se transforma em um brutal explorador, usando seu poder de distribuir comida para fazer com que os outros cumpram sua vontade.

Trata-se de uma investigação corajosa da natureza e de sentimentos humanos como egoísmo, oportunismo e indiferença. O livro nos convida a refletir sobre o ser humano e seus instintos mais primitivos. Saramago lança perguntas do tipo: Como falar de olhos a um mundo cego? E quais são os caminhos para curar essa “cegueira” da humanidade?

Na história, muitos seres humanos já demonstraram cinismo e passividade diante de crueldades. Um exemplo foi a forma como alguns internautas comentaram, recentemente, a morte de crianças em uma creche incendiada por um vigia em Minas Gerais e agora com o menino que matou dois colegas em uma escola de Goiânia. Algo tão insuportável quanto os abutres que se aproveitaram dos episódios para ganhar acessos. Mas afinal, existe cura para a cegueira moral? O primeiro passo é “sair da ilha”, como ensinava Saramago: “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”.

 

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Guiomar Valdez — Educadores(as): decifra-me!

 

Dedico este artigo as admiráveis companheiras educadoras de nossa cidade — Campos dos Goytacazes, que, numa triste coincidência, faleceram neste mês de outubro, mês do(a) Professor(a) – REGINA SARDINHA (03), MARIA THEREZA VENÂNCIO (14) e LÚCIA BASTOS L. BARRETO (16): perdas incalculáveis!

 

 

 

 

Estamos finalizando uma semana, que teve no seu início as “comemorações”(?) do ‘DIA DO(A) PROFESSOR(A). É unânime nos discursos e nas pautas políticas a importância da EDUCAÇÃO, a relevância da ESCOLA na formação das pessoas, das comunidades, das sociedades. Observando atentamente a História da Educação Brasileira esta pauta como Política Pública é nova, ela não se deu no século XVI – nos primórdios de nossa formação ocidentalizada. Inicia-se lentamente, muito lentamente, no século XX. Ela está estreitamente vinculada a transição de uma economia primário-exportadora para uma economia urbano-industrial, que se consolida fragilmente nos anos da Ditadura Civil-Militar, e, que, hoje, sofre uma inflexão socioeconômica desindustrializante, primário-exportadora, financeirizada-especulativa.

Há de se lembrar que este processo de modernização da economia e da sociedade brasileira, caracterizou-se pela dependência externa, por um lugar subalterno na Divisão Internacional do Trabalho. Há que se destacar, que não existiu e nem existe a ‘belíndia’ por aqui. Não há no Brasil uma dicotomia ou contradição entre os binômios, ‘atraso-moderno’, ‘campo-cidade’, ‘periferia-centro’, ‘pobre-rico’, é uma maneira muito superficial para explicar nossa condição. Esses ‘binômios’ representam o ‘jeito construído’ da nossa modernização, onde, articulados e interdependentes, todos eles, realizaram o que se denomina ‘modernização conservadora’. Aqui, um, não é a negação do outro. Eles se complementam, eles se auto reproduzem. Da mesma forma ocorre com as diversas frações do empresariado. O ‘novo’ é continuamente ressignificado, traduzido, à luz dessa secular estrutura histórica escravista, patriarcal, provinciana, dependente, subalterna, infelizmente não superada até 2017.

Por isso, ao avaliarmos o âmbito da Educação Brasileira não podemos desconsiderar criticamente este ‘pano de fundo’. Por estar umbilicalmente ligada à estrutura sócio-econômico-cultural, e, se, esta é DESIGUAL, a Educação será predominantemente marcada pela DESIGUALDADE E DUALIDADE em suas diversas expressões ao longo do tempo. A modernização urbano-industrial necessitou colocar o ‘povo’ na Escola. Não há dúvidas sobre isso. Daí o início dos exercícios de Políticas Públicas e de Legislações mais estruturadas e ampliadas. Entretanto, o que vem marcando a ‘forma’ nos conteúdos, pautas e discursos políticos é o que Paolo Nosella denomina de ‘Populismo Educacional’ – abre-se a porta da Escola para o povo, escancara-se o acesso, mas, a permanência e a qualidade socialmente referenciada, saem na mesma proporção por outras portas e janelas!

Assim, explicitamente ou não, teremos ao longo do tempo ‘duas escolas’ interdependentes, articuladas e consolidadas nos aspectos legais e de legitimidade, refletindo a desigualdade-dualidade. Esta ‘dualidade interdependente’ se explicita o tempo todo em Legislações ‘truncadas’, para atender as demandas do setor produtivo e aos atores dirigentes das Instituições, Sistemas e Redes educacionais de qualquer nível e modalidade de Ensino, a saber – Público-Estatal, Confessional e Privado. No atendimento a atores tão diversos, e, na maioria das vezes, tão incompatíveis em suas ‘missões’ e necessidades, observamos a hegemonia da lógica privada no pensar, no formular e no executar o Ensino, mais uma vez, em todos os seus níveis e suas modalidades.

É o que se denomina – ‘mercantilização da Educação’. Não apenas observando o número de matrículas e de estabelecimentos, e, nem, quem ocupa os cargos dos diversos Conselhos Educacionais e suas representatividades. É muito mais que isso! Estou falando de lógica, de pensamento, de projeto de vida, de valores, de ética, de convencimento, que perpassam o público-estatal, o confessional e o particular. O que é ‘estudar para o mercado de trabalho’? O que é ‘estudar para ser competitivo’? O que é ‘estudar para ser vitorioso’? O que é ‘estudar para o empreendedorismo individual’?

Não é à toa que o Banco Mundial se tornou o ‘pedagogo do capital’ a partir da década de 1990 até hoje, inspirador das mudanças educacionais para os países subalternos; não é à toa o fenômeno atual dos Sistemas educacionais privados, articulados a grandes investidores externos, abrirem seus capitais ao jogo especulativo, portanto, estéril para a maioria da sociedade, nas Bolsas de Valores. Na disputa pela Educação, presente, especialmente, nos debates duros das formulações legais, a hegemonia, a vitória, é a da lógica do mercado.

Podemos, e, devemos até replicar. Não é bem assim! Afinal, tivemos e temos espaços para inclusão de novas teorias e metodologias educacionais/pedagógicas nas Escolas, inclusive, inspirados em pensadores críticos da Educação, da Psicologia, da Psicopedagogia, da Neurociência, etc, etc. É verdade! Mas esta inclusão é feita ‘remendo novo em pano velho’; são adaptações e ressignificações necessárias frente a desigualdade-dualidade estrutural, lembram-se? Na maioria das vezes são verdadeiros ‘monstros didático-pedagógicos’, ‘vendidos’ como algo novo e libertador; ‘vendidos’ como modernidade criadora; ‘vendidos’ como panaceia para solucionar os problemas da Educação Brasileira. Não há começo, meio e fim, de forma coerente!

E assim o ‘Populismo Educacional’ avança, desmedidamente, agora assumindo o discurso da busca da qualidade socialmente referenciada, sobreposto ao Direito de acesso diferenciado, e, aos problemas não resolvidos da permanência, e muito mais! Incorporando e importando teses, ideias, conceitos, autores, inclusive, tidos como do campo progressista. Quanta interpretação equivocada, quanta ressignificação oportunista, etc, etc!

E nós Educadores neste contexto apresentado da Educação Brasileira? Considero-os o principal MEDIADOR do conhecimento técnico-científico-humanista, bem como, o principal mediador da visão de mundo hegemônica. O seu PODER é imenso, como é imenso o poder da apropriação e da produção do conhecimento técnico-científico-humanista. Por isso, e, não por outra razão, ele é exaltado. Entretanto, exatamente a partir da ‘abertura das portas das escolas para o povo’, verificamos ao longo do tempo alguns processos em suas vidas, aparentemente contraditórios – a profissionalização e organização reconhecidas, convivendo passo-a-passo com um tripé em ‘3 Ds’ – a desvalorização, a desqualificação e a desmoralização! Isso não é natural, é histórico! É desta forma, não sendo a única razão, que nós servimos a reprodução e a perpetuação do status-quo.

Jamais serei romântica ou corporativa com a minha categoria docente, exatamente porque sei objetivamente do nosso papel na sociedade e porque fui privilegiada em poder escolher livremente esta profissão, no lugar da medicina que já iniciara! Gosto demais de ser professora, por isso ‘cuido’ e dou atenção a tudo que envolve o seu mundo do trabalho. Somos um POTENCIAL imenso de mudança para a construção de uma contrahegemonia que realize a Educação Pública, de Qualidade socialmente referenciada e Emancipadora! Até agora, só potencial!

Alguns elementos podem explicar esta condição perpetuadora do trabalho docente, esta ‘esquizofrenia’ que oscila entre a exaltação/consideração e a realidade concreta dos ‘3Ds’. Para começar destaco a nossa FORMAÇÃO – ela é também carimbada com a ‘dualidade interdependente’. Quantas e quantas vezes, encontramos professores que detestam assuntos que envolvem a Educação! Para eles o que importa é o conteúdo específico de sua formação ‘técnica’ – matemática, história, física, geografia, eletricidade, língua portuguesa, mecatrônica, literatura, educação física, etc! É a versão da divisão social do trabalho docente – uns pensam a área em sua totalidade, e, outros, executam o conhecimento de forma fragmentada. Pior ainda, quando, enquanto professor de determinada disciplina, rejeitamos e fazemos pouco dessa aprendizagem! E quando são hierarquizadas as disciplinas e/ou os cursos? Uns são mais importantes que outros, etc, etc!

Ah, se soubéssemos que essa condição é reveladora da reprodução e da produção minimalista e subalterna do conhecimento, portanto, da Educação!

Outro aspecto que destaco no caráter perpetuador da profissão docente, é a sua CONDIÇÃO E SEU LUGAR DE CLASSE. Estudos apontam que os professores, em sua maioria, pertencem a frações da classe média. Trazendo dentro de si e para fora, algumas caraterísticas desse meio, marcadas pela insegurança de seu ‘lugar no mundo’ (o horror do rebaixamento econômico-social!); pela tendência a se identificar com a visão de mundo das elites dominantes, já que não existe uma visão de mundo própria enquanto fração de classe média; portanto, é forte a sua tendência ao conservadorismo, e, às vezes, ao reacionarismo, devido ao ‘entre-dois’ de sua condição de classe. Somos uma ‘metamorfose ambulante’, somos ‘gelatinosos’, somos a ‘contradição social em ação’, somos ‘ventríloquos’!

Assim, quando trabalhamos com a camada popular, nas Escolas Públicas das periferias ou não, carregamos diversos preconceitos que se concretizam em atitudes, ora assistencialistas, ora descuidadas, ora fortemente marcadas pelo pedantismo e arrogância. Comportamento diverso quando atuamos nas Escolas Privadas e/ou Confessionais – parece que a gente se encontra nesse ambiente, nos tornamos ‘cordeiros’ convivendo com os ‘leões’ do Ensino. Um exemplo incontestável desse ‘entre-dois’, é quando grande parte de nós, ao não confiarmos no trabalho desenvolvido nos espaços públicos, onde a maioria de nós trabalhamos, colocamos nossos filhos nas Escolas Privadas e/ou Confessionais, especialmente na Educação Básica! No Ensino Superior, há uma tendência a inversão, não é mesmo? Por que?

É claro que existem exceções, brilhantes e heroicas exceções, mas são ‘pontos fora da curva’! Reafirmam a nossa condição descrita.

Ah, se soubéssemos que a precariedade, a privação, as fragmentações didático-pedagógicas e o desmonte de nossas Instituições Públicas de Educação articulados aos ‘3Ds” da condição dos educadores, fazem parte do utilitarismo burguês associado-dependente, é seu projeto de Educação! Que nossa estrutura socioeconômica, como é medíocre e subalterna dentro da ordem do capital, não exige qualidade de formação para a maioria, mesmo em tempos de reestruturação ‘fina’ do sistema produtivo. Nosso lugar no mundo ainda é periférico e interdependente. Por isso tudo em Educação, de todos os níveis e todas as modalidades, é tratado sem seriedade e de forma populista!

Ah, se soubéssemos que essa condição é reveladora da reprodução e da produção minimalista e subalterna do conhecimento, portanto da Educação!

Numa autocrítica rigorosa e generosa, encontraríamos em nós, um ‘tesouro’ explicativo – o individualismo de tipo ‘meritocrático’, que deveria ser extirpado de nossas consciências, pois, este, aparentemente inofensivo, nos faz compreender que a Desigualdade é fruto das diferenças de capacidade, de esforço, de oportunidade, de dedicação individual, em resumo, de dons e méritos. Se assim continuarmos, pouco avançaremos em nossa valorização, em nossa qualificação e no respeito e na dignidade que temos direito. As lutas no nível econômico, por salários, devem continuar, mas não podemos resumir nossas reivindicações a um ‘prato de lentilhas’!

Portanto, nesta semana de outubro que vai se encerrando, a minha celebração enquanto professora-educadora, é a celebração do conhecimento ‘decifrado’ e contrahegemônico, da autocrítica generosa e do potencial mobilizador e emancipador dos educadores e educadoras, alimentador da Esperança equilibrista de quem pode revelar um ‘coração’ solidário e competente para as justas transformações urgentes em nosso mundo, em nosso país, em nosso município!

Sigamos em frente!!

 

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Paula Vigneron — Ser

 

(Foto: Aluysio Abreu Barbosa)

Há tanto tempo, não sou feliz. Nem me lembro o gosto, o gozo, o jeito da felicidade. Sinto que, em determinadas ocasiões, passa ao meu lado. Corta árvores. Transpõe paredes. Invade casas, quartos, camas, casais. Deita-se ao lado destes. Entrelaça os amantes em seus leitos. Transita por mãos, braços, pés, rostos, sexos. Corações. Por vezes, esbarra na minha porta. “Desculpe. Era engano”, grita quando avista meus olhos.

Engano. Sempre engano.

Ainda me lembro de quando era possível senti-la plenamente. Acredito que esteve comigo na casa em que cresci. Enquanto eu corria pelo quintal. Até nas vezes em que machuquei os dedos dos pés ao chutar o chão, em tentativas de jogar futebol com meus irmãos. O sangue era a felicidade, mesmo acompanhada por lágrimas e dor. Mas era. Ah, como lamento não ter compreendido na época. Perdi tempo com sisudez. Ficava facilmente emburrada. E era feliz. Eu era.

Posso me recordar de outros bons e breves momentos em que ela, a felicidade, passeou de mãos dadas comigo por parques e praças. A cada olhar lançado àquele menino bonito que paquerei na escola. Nunca soube seu nome. Nunca contei às minhas amigas. Nunca confiei nas pessoas para me abrir desta forma tão íntima. Só de observá-lo, eu me considerava feliz. E era.

As manhãs de sol de domingo — em minha memória, todas eram ensolaradas; às vezes, deliciosas; outras, incômodas — vividas dentro e fora de casa, com comidas, doces e refrigerantes. O gosto da minha infância. À tarde, as corridas pelo quintal para saber quem seria a mulher do padre. Meus irmãos, mais velhos e fortes, sempre me ganhavam. Saíam em disparada antes do apito de mamãe. Riam enquanto me observavam chegar com esforço ao ponto final. Eu, novamente emburrada, gritava com eles. Dizia que eram os preferidos de nossa mãe.

— É injusto! — e cruzava os braços em um gesto de indignação sem fim.

— Mãe não tem filho preferido. Todos são iguais — dizia ela, rindo, com meus irmãos, de minha fúria. — Isso é amor, filha. É ser feliz.

— Não é! — eu respondia de forma malcriada. Mas era.

Com o tempo, o quintal ficou para trás. Preferíamos assistir a filmes e conversar sobre eles depois. Íamos aos bailes de carnaval organizados pela vizinhança. Brincávamos. Eu, talentosa para a dança, rodava entre meninos e meninas, sorrindo com os aplausos. No olhar de meus pais, via certo orgulho. E era feliz. Imensamente feliz com a saia branca, uniforme em festas, envolvendo meu corpo no meio do salão. Com o tempo, eles, todos eles, ficaram para trás.

Sentada em frente à porta, consigo, ainda, avistar o quintal de cimento em que costumávamos correr, brincar, rir e chorar. Deu lugar a um jardim que floresceu por tempos e era regado por mim. Sob o teto de meus pais e meus irmãos, vivo. Uma mulher estranha à criança criada entre aquelas paredes. Ela era feliz.

Hoje, sou como a grama. O que restou do jardim.

Vazio-queimado-seco-frio.

Sou.

 

09/10/17

 

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Mais um retorno ao blog — Paula Vigneron quinta sim, quinta não

 

Num blog alimentado quase diariamente por seus colaboradores, nas últimas semanas alguns deles saíram, outros entraram, enquanto outros retornaram. Exemplo do último caso, a jornalista e escritora campista Paula Vigneron retoma amanhã sua colaboração neste “Opiniões”, onde se revezará quinzenalmente com outro jornalista e escritor: o itaperunense Guilherme Carvalhal.

Abaixo, em palavras próprias, o que você, leitor, pode esperar do regresso da Paula, que mantém seu próprio blog, “Vigneron”, hospedado aqui, no Folha 1:

 

(Foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

Sou formada em jornalismo pelo Centro Universitário Fluminense (Uniflu). Atualmente, curso pós-graduação em Língua Portuguesa pela Universidade Candido Mendes (Ucam) e trabalho como repórter da Folha da Manhã. Pela editora Autografia, publiquei, em 2015, o livro “Sete balas ao luar”, que reúne 32 contos. Após meses de ausência do “Opiniões” — e acompanhando de perto os colegas colaboradores e as notícias veiculadas —, tive a oportunidade de retornar ao blog, a convite do poeta e jornalista Aluysio Abreu Barbosa (a quem muito agradeço), para mostrar, em contos e crônicas, um pouco do que observo, escuto e aprendo no dia a dia.

 

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