Carol Poesia — Sobre meninos e bonecas

 

 

 

Há um ano conheci uma mulher muito interessante, nós começamos a trabalhar juntas e viramos amigas. Logo eu conheci toda a família – marido, filho e filha adultos. Eu fiquei muito impressionada com a gentileza, educação, cuidado e delicadeza do rapaz. Era notável que tivera uma educação diferenciada. Então perguntei a minha amiga “Como você fez?”, ela me respondeu “Coloquei pra brincar de boneca, repreendi quando queria mandar na irmã, foram as mesmas regras para ele e para ela”.

A filha é espetacular, um luxo! Mas homens sensíveis, seguros e extremamente respeitosos são mais incomuns do que mulheres assim, por isso a minha surpresa com Ele. A partir desse encontro, passei a prestar atenção na relação entre homens educados e a infância que tiveram. É claro que esse interesse não se constitui em nenhuma pesquisa científica, e embora haja muito material teórico que fundamente a associação entre homens respeitadores e meninos que tiveram uma educação menos machista, essa conclusão se torna evidente com uma simples observação cotidiana persistente.

Em outro momento, defendi, na sala dos professores, o benefício de meninos brincarem de boneca, para que no futuro não se tornem machistas e para que não usem a agressividade como resposta, ou seja, para que não usem a agressividade como recurso para a falta de argumento. A reação dos meus colegas foi previsível – risadas e piadas que se resumem ao medo do filho “virar gay”.

Não obstante essa fixação generalizada (e cafona!) com o tema “ser ou não ser gay”, fiquei pensando em por que as pessoas associam menino brincando de boneca à sexualidade e não à paternidade. Quando uma menina brinca de boneca ninguém pensa “olha lá, vai ser hétero”, é apenas uma menina brincando com um bebê de borracha, é apenas uma menina brincando de ser mãe. Por que os meninos não podem brincar de serem pais? Por que isso induziria a algum desejo de ordem sexual? Por que uma menina pode ter panelinhas, utensílios domésticos como brinquedos e o menino não? Por que aos meninos cabem os robôs e carrinhos e dragões e às meninas cabem as princesas?

Para além da paranoia paterna e materna a respeito do desejo sexual que o filho desenvolverá, há um equívoco primário nessas associações. Esse equívoco diz respeito às restrições do que se entende, no senso comum, como universo feminino e universo masculino. Ora! Do que estamos falando afinal? Que senso comum é esse? Hoje, mães se orgulham de filhas engenheiras, chefes de segurança no trabalho e pais se orgulham de filhos chefes de cozinha. Então por que esses mesmos pais insistem em repetir a fórmula “rosa dela X azul dele”?

Os brinquedos e brincadeiras infantis desenvolvem habilidades cognitivas e motoras, assim como podem favorecer a criatividade e a sensibilidade. Os brinquedos de armas e carros podem sugerir movimento, velocidade, ímpeto, coragem, ação. Os brinquedos de bonecas e panelas podem sugerir cuidado, organização, limpeza, responsabilidade.

Sabemos que na vida adulta, seja homem ou mulher, precisamos todos ser guerreiros em algum momento, e vencer batalhas para as quais precisamos de coragem, força, ímpeto, entre outros atributos. Assim como há momentos em que a falta de organização nos impede o avanço, ou a falta de cuidado mina oportunidades, tanto no âmbito pessoal quanto no âmbito profissional.

Com maturidade e um pouquinho de sabedoria, possível àqueles que superam os medos infundados, percebemos os benefícios de força e delicadeza caminharem lado a lado na mesma pessoa. Saber se posicionar com firmeza e ao mesmo tempo com elegância abre muitas portas, até o senso comum reconhece isso.

Então vamos rever as cores do enxoval e repensar essas restrições de brinquedo, brincadeiras e afins. Afinal já está óbvio que o sujeito bacana, o ser humano respeitável e respeitador é aquele que carrega em si tanto o soldadinho de chumbo quanto a bailarina cor de rosa, independente do sexo.

 

 

 

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Fernando Leite — Minha casa

 

“Cozinha caipira”, óleo sobre tela de Almeida Junior

 

 

Minha casa

 

Salto dentro da tarde,

como quem cai na correnteza do rio temporal.

Vou sem volta.

Pássaros batem em retirada de mim.

 

É incomum que levantem vôo

quando a noite se alonga.

A noite é casa de andarilhos,

poleiro de avoantes.

 

Quintal sem cercas é o claro dia.

 

Aves de arribação vêem o movimento das estações,

os sinais de velhice no dorso de minhas mãos.

Eu inverno.

 

Minha linhagem é assim: começa a entardecer pelas mãos.

Esse assalto do tempo é lenta agonia,

mas assombra.

faz levantar andorinhas, papa-capins e os cantadores.

 

Se pudesse escolheria não morrer comum.

queria a nona sinfonia abrindo as portas do mistério.

Mas agora o que quero é minha casa

tal e qual era:

as janelas maciças, feridas de sol

naquela tarde suburbana

tão longe.

 

Quero minha casa de volta.

A noite miúda dentro do quarto,

o cortinado armado,

meus irmãos nos beliches

e a madrugada lá na bica d’água vazando,

vazando,

vazando.

 

Quero minha casa onde era:

na descida do morrinho,

bem em frente a vivenda de dona Tinola.

Antiga, com a moenda triturando o milho e a tarde,

a galinha de pinto no terreiro

e o lençol transparente do dia desfraldado

no varal.

Atrás da figueira,

o canto do canário belga

— uma flecha de porcelana atirada.

 

Quero minha casa e minha mãe,

mãe medieval, tronco e braços,

músculos na bacia, avental, fogão de lenha

e flor quando havia tempo.

 

Minha mãe na igreja, nave mística,

ancorada entre a praça e a linha do trem.

os santos barrocos de sorriso que não combinava

com a manhã nos vitrais.

O pecado grudado no meu pescoço

e eu com pavor da fúria de Deus.

 

Quero minha mãe, viuva sublimada, senhora soberana.

 

Quero minha casa

as mangueiras, laranjeiras, goiabeiras,

esteios do reino de minha memória.

O céu bem acima das copas

e as pipas revoltas, suicidas, desgarradas

vento afora.

 

Não quero nada além das fronteiras

do campo de meu afeto —

mares, montanhas brancas, falésias,

geografia do meu desconhecimento

terras que só ouvia falar,

territórios do sonho.

 

Quero só minha casa na avenida governador Roberto Silveira de volta,

minha infância, seus domínios e seus cheiros,

a broa de milho, os eucaliptos do seu Nico Figueira

vergados nos temporais,

Maria Tabajara e sua alegria atávica,

o olhar crepuscular daquela menina

que perdeu-se nas esquinas do futuro.

 

Preciso de minha casa e sua geografia mítica,

porto onde o mundo começa e termina.

 

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Artigo do domingo — Quando o lulopetismo gera Bolsonaro como resposta

 

 

 

Pizza mexicana

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Começo de março de 2016. Um mês antes de Dilma ter seu impeachment aprovado na Câmara, cinco antes do tiro de misericórdia no Senado, Lula acabara de ter sua condução coercitiva para prestar depoimento na operação Lava Jato.

Era a noite daquele dia. O casal fora buscar o irmão dela, para que este saísse um pouco da casa dos pais. Servidor federal lotado em outro município, Fernando se refugiara junto aos genitores para se curar de uma doença física, enquanto delirava politicamente, na demonstração prática da teoria freudiana da negação.

Quando Fernando entrou no carro, seu cunhado, André, falava sobre o noticiário da política nacional com outra pessoa ao celular, enquanto esperava estacionado com a namorada, Poliana, diante da casa. Percebida a deixa do acaso, o segundo não acusou o encerramento da ligação. Manteve boca e ouvido ao aparelho, e emendou em voz alta:

— Lula foi preso de novo? Mas você tem certeza? Foi direto para Curitiba? E já desembarcou?

Enquanto a luz interna do carro se apagava com o bater da porta traseira do carro, a face de Fernando desabava, como criança mimada prestes a chorar, na velocidade em que desaparecia nas sombras. Lembrou a cara de pânico de Fred, centroavante brasileiro na Copa de 2014, com o beicinho inferior em convulsões, após o quinto dos sete gols feitos pela Alemanha.

Diante das gargalhadas desavexadas de André e mal contidas de Poliana, a revelarem a pegadinha, a cara de Fernando foi resgatada das suas trevas particulares. De súbito, passou a expressar um misto de alívio, tentativa de resgatar as aparências e a raiva do coelho Pernalonga — comediante contumaz tendo os outros como alvo, que revela sua pele de ovo quando se descobre de nariz vermelho e calças arriadas, no centro do picadeiro.

Depois que chegaram à pizzaria, a discussão política só foi retomada por Fernando quando apareceram Maria Luiza e Velasco. Poliana e André os haviam convidado anteriormente. Com plateia, o servidor federal se animou, impostou a voz e alongou a inflexão para servir fatias retóricas de sabores tão raros quanto mussarela e calabresa:

— Porque eu sou um educador. E o que o Brasil vive hoje é um conflito de classes…

Da brincadeira à pretensão de falar sério, foi interrompido por André, há algum tempo a fim de chutar o pau da barraca daquele maniqueísmo recorrente:

— Olha, em primeiro lugar, você não é educador, mas professor. Educador são mãe e pai. Em segundo lugar, se for para querer entender a realidade brasileira do séc. XXI por uma visão europeia do séc. XIX, como a de Marx, então por que não poderíamos estar vivendo hoje um conflito de espécies, como disse Darwin; ou entre raças, como disse Gumplovicz; ou para fazer do homem o super-homem, como disse Nietzsche; ou simplesmente movido pela punção sexual, como disse Freud?

Sovado no pedantismo do próprio jogo, Fernando não se deu por vencido. Mais com fome de claque do que de pizza, buscou apoio no único público disponível:

— E o que vocês acham? — perguntou a Maria Luiza e Velasco.

Diante da expectativa de Fernando, Poliana e André, que só então notaram não ter conhecimento prévio do posicionamento político do casal convidado, composto por dois jovens amantes de poesia e Chico Buarque, estes fizeram uma pausa e se olharam, antes de responderem à questão lulopetista:

— Bem, nós votamos em Bolsonaro para deputado federal na última eleição! — revelou Velasco.

— E não nos arrependemos do voto! — completou, convicta, Maria Luiza.

No silêncio surpreso dos demais integrantes da mesa, o garçom começou a servir as fatias da pizza mexicana pedida.

 

Publicado hoje (05) na Folha da Manhã

 

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Vanessa Henriques — 8 de Março, Dia Internacional da Mulher

 

 

 

 

No dia 8 de março, “comemora-se” o Dia Internacional da Mulher, data que foi originalmente proposta pela deputada comunista alemã Clara Zetkin, em 1910, durante o II Congresso Internacional de Mulheres Socialistas[1]. Usualmente, costuma-se atribuir a origem desta data comemorativa a um incêndio ocorrido em uma fábrica estadunidense, a Triangle Shirtwaist Company, em 25 de março de 1911, no qual 125 mulheres operárias perderam a vida.  No entanto, a data foi oficialmente ratificada pela ONU apenas em 1977, como consequência de uma longa trajetória protagonizada por movimentos de mulheres de todo o mundo que reivindicaram, ao longo da primeira metade do século XX, equiparação de direitos e melhorias nas condições de trabalho. Neste artigo, pretendo apresentar um breve panorama sobre a violência contra a mulher no nosso país, expondo alguns dados que justificam claramente a necessidade da existência de movimentos que apresentem resistência a esta espécie de violação de direitos.

No Brasil, apesar de todos os avanços logrados no âmbito jurídico nos últimos anos, como a criação da Lei Maria da Penha em 2006, e a Lei do Feminicídio em 2015, ainda são diversos os casos de homicídios de mulheres que são influenciados pela condição de gênero. Segundo o Mapa da Violência[2], publicado no ano de 2015 pela Flasco (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), nosso país ocupa a 5ª colocação num ranking de homicídio de mulheres (por 100 mil habitantes) formado por 83 países. Ainda segundo o Mapa, 50,3% do total de homicídios de mulheres ocorridos no ano de 2013 foram perpetrados por um familiar direto da vítima. E através do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), é possível verificar que foram atendidas pelo SUS, em 2014, um total de 85,9 mil meninas e mulheres vítimas de violência exercida por pais, parceiros e ex-parceiros, filhos, irmãos: agressões de tal intensidade que demandaram atendimento médico.

Ao final do carnaval, mais uma estatística demonstrou o quanto a violência contra as mulheres está enraizada na nossa cultura: durante os quatro dias de folia, a Central de Atendimento à Mulher, o Disque 180, realizou 2.132 atendimentos a nível nacional, a maior parte deles referindo-se a casos de violência física[3]. Os atendimentos relativos a relatos de violência sexual tiveram um aumento de 87,93%, quando comparados com os do carnaval de 2016. Já na cidade do Rio de Janeiro, os dados da Polícia Militar informam que uma mulher foi agredida a cada quatro minutos durante o carnaval[4].

Todos esses números são assustadores e reforçam a necessidade de implementação de políticas, em todos os níveis da gestão pública, que se proponham a conscientizar a população. Pois, mais importante que combater esses crimes quando se concretizam, seria conseguir evitá-los antes que aconteçam.

Portanto, que neste dia 8 de março possamos lembrar de todas as mulheres que, ao longo da história, se levantaram contra as forças que as oprimiam, muitas tendo perdido a vida na luta por um mundo menos hostil e mais igualitário. Que tenhamos também as energias redobradas para seguirmos no enfrentamento ao machismo, tanto nas suas formas mais brutais, quanto nos seus contornos mais sutis.

 

 

[1] http://www.scielo.br/pdf/ref/v9n2/8643

[2] http://www.mapadaviolencia.org.br/pdf2015/MapaViolencia_2015_mulheres.pdf

[3] http://www.spm.gov.br/noticias/relatos-de-violencia-sexual-aumentam-cerca-de-90-no-carnaval-de-2017

[4] http://odia.ig.com.br/rio-de-janeiro/2017-03-02/uma-mulher-foi-agredida-a-cada-quatro-minutos-durante-o-carnaval.html

 

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Rogério Siqueira — As dimensões da Igualdade Racial

 

 

 

Campos dos Goytacazes, por toda sua história, deveria estar na vanguarda das políticas públicas de promoção da Igualdade Racial. Uma capitania, vila e cidade que influenciou a própria história econômica, social e cultural do Brasil, não poderia deixar de avançar nas discussões que visam integrar com plenitude o estrato social que se estabeleceu em Terra Brasilis por meio da privação sumária de liberdade.

Chegamos a 2017 com desafios que foram tema central do Movimento Negro em Campos há algumas décadas. Aqui, uma das cidades que mais recebeu escravos em toda história do Brasil, que por 400 anos sustentou este tipo de regime, vimos um caso escandaloso dentre tantos escândalos que permearam gestões anteriores.

Uma das maiores vitórias do Movimento Negro em Campos, sem dúvida, foi a obtenção de um espaço de poder para promoção de políticas públicas na seara da Igualdade Racial, que se dava através da Fundação Municipal Zumbi dos Palmares. Tal fato não foi, e não é uma vitória de Governo qualquer, mas da força e obstinação dos militantes da causa dos negros em toda sua amplitude e complexidade.  Longe de adentrar no solo pantanosos que é avaliar politicamente as gestões da Fundação Zumbi, o fato de termos um espaço para, minimamente discutir nossas demandas, foi um avanço.

Não fosse a política o espaço que não aceita coincidências, não precisaria aqui salientar que a Lei (8344) que extinguiu a então Fundação Zumbi dos Palmares no município, redigida pela então prefeita, data de 13 de Maio de 2013.

Já seria escandaloso o torpe desmonte do setor com a supressão de quase toda sua autonomia administrativa e a integralidade de seus recursos financeiros, não fosse o um detalhe que escapou (ou foi negligenciado) aos olhos de muitos: A Fundação Zumbi dos Palmares foi extinta na data histórica da assinatura da Lei Áurea em seu aniversário de 125 anos. Fica a provocação: quais os impactos da extinção de um setor que busca promover políticas públicas para emancipação plena do povo negro em toda amplitude de suas demandas na data de aniversário do fato histórico e inegável que foi a assinatura da Lei Áurea (que nos libertou mas não nos emancipou enquanto cidadãos em pleno gozo de suas cidadania)?

Noves fora os fatos anteriormente narrados, os ataques a este importante setor não pararam naquele fatídico 13 de maio. Em 2015 a então governo edita o decreto de nº 80 que, dentre outras coisas, enxerta na estrutura da FCJOL, a recém-criada superintendência de Igualdade Racial. Tornamo-nos assim um setor tão somente de assessoramento dentro da estrutura administrativa da cultura.

É como se os governantes à época expusessem à carne sua real visão acerca das políticas de promoção da igualdade racial, reduzindo a natureza complexa e as infindas demandas do setor ao perímetro de sua visão política, como se Igualdade Racial fosse aquilo que intelectualmente demonstraram ser os que propuseram tal coisa: obtusos. Ou aquilo que politicamente são: cínicos.

O desafio nesta gestão será garantir que o município assista aos grupos prioritários inseridos no bojo da Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial, bem como  avançar nas discussões para que a Igualdade Racial seja vista como um setor de estratégia de governo, tendo a necessidade de permear toda a membrana governamental, a fim de incluir o negro e esclarecer àqueles que estão sob o jugo da ignorância.

Neste direção é nítido que o fato da Igualdade Racial estar entregue nas mãos de Lucia Talabi, professora e atriz, experiência de mais de 30 anos de sala de aula, já causa grande impacto. Lucia, até onde me consta, é a primeira mulher a assumir a pasta no município, o que por si só é um um grande avanço no modus operandi político. Para além disso construiu um equipe de saberes múltiplos no intento de fazer jus a sofisticação intelectual que a causa exige.

Lucia não tem vícios da política, é uma idealista de pés nos chão. Sonha, mas é pragmática quanto a execução. Não gosta da ideia de culto a imagem de político qualquer, embora a própria figura de Lucia seja caixa de ressonância de nossas lutas em diversos aspectos. Enxerga na educação a mola-mestra que irá impulsionar os verdadeiros anseios de transformação aos quais aspiramos por tanto tempo.

Dentre os desafios que se impõe a um gestor de uma pasta com tamanha complexidade, há o compromisso de trabalhar incansavelmente junto as diversas representações do movimento negro para formatar e aprovar o Plano Municipal para Promoção da Igualdade Racial (Plamupir). Um grande desafio, para uma grande mulher.

 

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Manuela Cordeiro — De Macunaíma

 

 

 

 

De Macunaíma

 

Como a chuva que ameaça

E os raios que a incendeiam e a cumprem

Penso que dessas passagens

O medo e o deslumbre me assumem

 

Como o igarapé que a alma alivia

E os perigos da mata que o sol inibia

Penso que nesse mundo ainda não sabia

Que o canaimé e o cruviana estão em harmonia

 

Como a água corrente do tepequem que não se pode deter

E o salto maior que o receio de perder

Penso que pode ser o seu guia

Do próprio tombo, do novo sonho e da luta que te desafia

 

Como uma jandaia que anuncia o cessar da chuva

E a trégua do tempo das águas na terra de Macunaíma

Penso que possivelmente o maior erro mundano

É acreditar em suas próprias calmarias.

 

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Ricardo André Vasconcelos — O Tambor da Quarta-Feira de Cinzas

 

David Bennet no filme “O Tambor”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 1980. O pequeno Oskar decide parar de crescer ao descobrir uma relação extraconjugal da mãe. Com seu tambor inseparável, acompanha e interage com a ascensão do nazismo (Reprodução)

 

 

Era uma Quarta-Feira de Cinzas como hoje num ano qualquer do século passado. A vida em Campos ainda girava em torno do Centro, onde ficava o ponto final dos ônibus que se dirigiam aos bairros. Foi ali, vindo da Rua Alberto Torres, que avistei uma figura suada, cabelos encaracolados bem rentes ao couro cabeludo, trajando alguns restos de pouca fantasia e batendo um solitário tambor como se recusasse a aceitar que a festa da inversão acabara e mundo já tinha voltado à mesmice. Só anos depois conheci Oskar Matzerath — personagem de Günter Grass (1927-2015) —, um menino que decidiu parar de crescer, e seu inseparável tambor de lata. Ali, perto do Chafariz belga na Praça das Quatro Jornadas, quem roubou minha atenção adolescente não foi o menino de “O Tambor”, e sim o jovem ator Kapi, que mais tarde descobri Antônio Roberto de Góis Cavalcanti, de quem me tornei meio-amigo e admirador por inteiro.

Kapi era movido a um inconformismo produtivo que fez dele pioneiro. Um desbravador tão desvairado quanto genial. Antes de vê-lo com o tambor espichando o Carnaval, já tinha apreciado uma rara participação dele como ator. Foi em “O Pagador de Promessas”, de Dias Gomes e direção de Orávio de Campos. Kapi fazia o papel do repórter que cobria a saga de Zé do Burro (Gildo Henrique) tentando entrar, com sua cruz de madeira, na igreja de Santa Bárbara para pagar promessa pelo restabelecimento da saúde do seu burro.

Foi Kapi quem inaugurou o anfiteatro do Parque Alberto Sampaio, concebendo e dirigindo o espetáculo “Arena Canta Zumbi”, no governo Zezé Barbosa. É dele a direção do memorável espetáculo “No Natal a Gente Vem te Buscar”, de Naum Alves de Souza, que inaugurou, também, o Lapa Cine Show,  um espaço misto de teatro e shows localizado ao lado do Corpo de Bombeiros, em parte do terreno onde hoje está a sede da Igreja Universal. Foi um dos retumbantes fracassos de Kapi, que como outro mestre genial, Darcy Ribeiro, sempre preferiu ficar ao lado dos vencidos. Kapi sonhava grande e muito, porque sonhar pequeno é para os medíocres. De óbvio e ordinário o mundo transborda.

Burocrata, nunca foi. No primeiro governo Garotinho (1989-1992) foi diretor de Turismo e, a despeito da pouca atenção que demos ao setor, inclusive na minha gestão à frente da Secretaria, (que era de Comunicação Social e Turismo), sempre trazia seus projetos e ideias. O que foi feito na época, como a criação do city tour, renovação dos cartões postais da cidade e o aproveitamento da estrutura turística que existia na Lagoa de Cima, é mérito dele, sem falar nas primeiras iniciativas do setor na praia do Farol de São Thomé. Na transição do governo Garotinho para o de Sergio Mendes (1992-1996), sugeri a transferência do Turismo para a Companhia de Desenvolvimento, cujo presidente, Murillo Dieguez, era e é tão criativo e operacionalmente eficiente quanto Kapi. A parceria da dupla deu bons resultados, principalmente a instalação de um curso superior de tecnólogo de turismo na cidade. É mérito seu, também, o resgate dos Desfiles das Escolas, Blocos e Bois Pintadinhos a partir do Carnaval de 1990, quando o impossível aconteceu: regendo aquela bagunça histórica, Kapi conseguiu que as agremiações cumprissem o horário. Montado na garupa da motocicleta de um guarda-costas às avessas, percorria a pista como um general passando a tropa em vistoria. Inesquecível!

Como diretor de teatro chegava a ser irascível. Talvez por sentir-se enquadrado demais num palco italiano, sempre procurou a forma de arena (o público em volta do palco) e espaços alternativos, como a antiga mansão dos Aquino, na Beira-Valão, onde montou e dirigiu a peça Constantine, com um elenco de socialites. Com o grupo da Faculdade de Direito, montou “O Inspetor Geral”, do dramaturgo russo Nicolai Gogol, para o Festival Universitário de 1986. O grupo de alunos, de onde sairia um juiz e dois promotores de justiça, era indisciplinado e o diretor, ao desistir de ver decorado o texto de linguagem rebuscada, radicalizou: optou por uma linha caipira e transformou o palco do Teatro de Bolso num imenso galinheiro e para isso retirou várias fileiras de cadeiras transformando a plateia numa impensável arena. Depois do festival o TB teve que ser reformado.

Outra ousadia foi a encenação do ”Romanceiro da Inconfidência”, de Cecília Meirelles, a céu aberto, na inauguração do Memorial de Tiradentes, em frente ao antigo Hotel Flávio, num 21 de abril dos anos 90. O espetáculo também era apresentado no Convento da Lapa. Levar sua arte a espaços inusitados era o desafio de Kapi. E o desafio não era apenas técnico, tinha uma mensagem política clara, seja para os dirigentes ou para a sociedade conformada.  Foi assim que num dos últimos festivais universitários de teatro que a municipalidade promoveu, creio em 1995 ou 1996, resolveu chamar atenção da cidade para as obras de construção do novo Trianon, que andavam lentamente ao sabor dos parcos recursos, e levou seu grupo da Faculdade de Odontologia para encenar, sob o céu de estrelas de um teatro sem teto e assentos de concreto o clássico “Gota d’Água”, de Chico Buarque e Paulo Pontes.  Com cenário de andaimes em três planos, atores afiadíssimos, texto e música geniais arrebatou a maioria dos prêmios.

Entre peças teatrais, festivais, incursões empresariais frustradas — foi dono do tradicional Bar Vermelho, que levou à falência ao travesti-lo de Clean — Kapi produziu poemas de forte conteúdo social. O meu preferido é o que diz “Usina é usura…/ um gosto (doce-amargo)/ de uns caldos escorrendo,/ ora nas moendas ora nos moídos…”. Como filho da assistente social de usina, Severina Cavalcanti, conhecia de perto aquele “remedar de vida” e, de quando em vez, realizava algum projeto voltado para os trabalhadores do corte de cana.

Para marcar o Dia Mundial de Combate à AIDS, primeiro de dezembro, chamei Kapi com uma ideia que só ele poderia comprar, se apaixonar por ela e executar com eficiência. Anos antes, tinha visto pela TV, que vestiram um preservativo gigante no famoso obelisco de Buenos Aires, para chamar atenção das pessoas para a epidemia já alertada na década anterior. Como temos um semelhante na Avenida XV de Novembro, erigido para marcar as obras de saneamento executadas na cidade na primeira década do século passado, porque fazer dele um falo monumental e cobri-lo com uma camisinha gigante?

— Sensacional. Festejou Kapi, já pensando no tipo de tecido, cores e logística. Sugeriu pedir apoio do Corpo de Bombeiros e a adesão da incansável Fátima Castro, fundadora e presidente da Casa Irmãos da Solidariedade e batizamos o projeto internamente de “operação pinto desconhecido”. Na madrugada de primeiro de dezembro, um caminhão-escada magirus do Corpo de Bombeiros parou o trânsito nas duas pistas e, em menos de uma hora, um preservativo bege de 22 metros por 3 metros de diâmetro cobria o obelisco. A cidade careta acordou com um pinto gigante e protegido bem no Centro da cidade.

Nem nas horas mais difíceis, de dívidas, falta de dinheiro, de teto e depois, com a saúde debilitada pela doença, nunca, nunca Kapi deixou de ter projetos culturais em mente ou em curso. Nunca deixou de sonhar acordado. Mesmo entre as internações para tratar das doenças oportunistas causadas pelo HIV, falava com entusiasmo incomum de peças que queria montar. Num de nossos últimos encontros discorreu em detalhes o musical que estava escrevendo sobre “O Coronel e o Lobisomem”, baseado no livro de José Cândido de Carvalho, Zombeteiro, dizia que o médico o havia proibido até de pensar nisso. “E eu vou respeitar?”

— Claro que não. Se não eu não seria Kapi.

Como o Oskar, vivido no cinema por David Bennet (1979 – direção de Volker Schlöndorff), que recusou a crescer a partir dos três anos de idade, Kapi nunca se resignou com as coisas como se elas fossem do jeito que são ou aparentam ser. Ele sempre quis, fez e foi mais. E hoje, nesta Quarta-Feira de Cinzas, deve estar batendo seu tambor em algum lugar, porque para ele, o Carnaval não acabou ontem. Não vai acabar nunca.

 

Kapi, comemorando aniversário na quadra da sua escola do coração, a Mocidade Louca (Foto: Ricardo André Vasconcelos)

 

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Ocinei Trindade — Rosa é a cor mais violenta

 

(Reprodução)

 

 

De repente, um tiro. E outro. Pânico e ensurdecer. Confusão mental. Difícil explicar que em poucos segundos a vida muda e a morte vem. E vem em forma de cabeça estourada, miolos espalhados pelo automóvel conversível. Quem atirou? Por que atirou? O buraco aberto no crânio faz sangue e massa encefálica jorrarem. Alma arrebentada. O homem atingido é John. Ao seu lado, a esposa, Jacqueline, vestida de rosa e respingada de sangue,ela o ampara. Tenta estancar o sangue com as próprias mãos. Quem sabe, ele escapa. Não deu. Choro. Vazio e incerteza. Golpe do destino. Assassino.

Parece cena de filme. E é. Parece ficção. Não é. A morte ao vivo diante das câmeras de modo espetacular repercute mais de cinquenta anos depois. Por que rememoramos coisas tristes? Por que o roteiro traçado por nós teima em não ser cumprido pela vida autônoma? A vida às vezes parece tão injusta, embora já saibamos que a ironia seja uma de suas predileções. Uma mulher bela e elegante, rainha sem ser monarca, esposa de um líder democrata jovem e bonito, envolvidos em uma trama de conspiração e comoção. Kennedy ressuscita e morre há mais de cinco décadas. Morre para sempre, revive na memória coletiva até morrer outra vez a cada revisita ao passado. E em torno da cena macabra, uma mulher vestida de rosa.

John Fitzgerald Kennedy nunca foi santo (e qual presidente americano seria?). Nenhum governante do mundo nunca foi ou será santo. Nem o Papa. Mas, mesmo assim, os santificamos, os bendizemos, os beatificamos, os sagramos, os reverenciamos, os entronizamos quando queremos. É o jeitinho brasileiro ou o jeitinho internacional de reinventar o messias ou o mártir, aquele que se sacrificou e morreu por nós. E se não morreu por nós, que pelo menos fique registrado pelas câmeras, pela história e pela imprensa o quão injustiçado pode ser um político. Será mesmo possível isto ou não passa de mais um mito que teimamos crer, criar e recriar?

No dia em que Anthony Garotinho veio a Campos para ser ouvido pelo juiz Ralph Manhães sobre o processo que acusa o ex-governador do Rio de Janeiro de chefiar um esquema criminoso de compra de votos na cidade, eu estava no cinema assistindo ao filme Jackie (2016), estrelado pela sempre magnífica Natalie Portman e dirigido pelo chileno Pablo Larrain. Não me interessei tanto pelo depoimento do ex-governador, embora me informei do fato.

Vi as fotos e alguns vídeos na webda família Garotinho apoiando o patriarca neste momento no mínimo midiático, mas constrangedor (ou vice-versa). A ex-governadora e ex-prefeita Rosinha, linda como sempre, não estava vestida de rosa, mas usava óculos escuros à la Jackie O. Vale lembrar que esse “O” é de Onassis, sobrenome que Jacqueline Kennedy herdou do segundo marido, o armador grego e milionário Aristóleles Onassis. A família Garotinho e os amigos fizeram questão de um círculo de oração no Fórum, disseram. O mundo inteiro carece de reza e oração mesmo, pois o mundo jaz no maligno.

Voltemos à cena do crime em Dallas, depois sigamos voando para Washington para os preparativos do funeral suntuoso de John Kennedy, inspirado no mesmo roteiro do funeral de Abraham Lincoln, presidente que também morreu assassinado um século antes. Jackie quis que seu marido tivesse a mesma reverência, honraria e tratamento que Lincoln, considerado por especialistas em política americana, o maior presidente dos Estados Unidos de todos os tempos. Os dias se arrastam. É um momento de muita tristeza, mas também de muita beleza assistir aos dois espetáculos: o funeral de Kennedy em imagens de arquivo e a encenação do funeral na película. A personagem de Natalie Portman conta esse episódio da História com um olhar muito particular e sofrido, de uma viúva jovem que viveu uma espécie de conto de fadas enquanto esteve na Casa Branca.

A história narrada por Jackie não acrescenta muito além do que já sabemos. Porém, quando uma mulher resolve narrar sua versão dos fatos, isto sempre será relevante, atraente e comovente. O olhar feminino quase sempre é mais abrangente, embora nem sempre mulheres confessem suas crueldades e equívocos nas decisões que tomam junto aos maridos. Jackie Kennedy e Rosinha Garotinho são mocinhas ou vilãs diante de suas trajetórias e escolhas? Depende de quem as vê ou as julga.

O filme está aí para ser avaliado. As ações políticas da ex-prefeita também. Sem falar na biografia do nosso ex-prefeito e ex-governador Anthony Garotinho marcado pela cor rosa de sua casa na Lapa, na cadeira rosa que sua esposa ocupou na Prefeitura, no carro rosa que eles usavam, no microfone rosa por ela utilizado em comícios, nas roupas rosas que marcaram eventos, solenidades e campanhas eleitorais. Rosinha sempre atraiu votos para o marido e vice-versa. Mas, como sabemos, nem tudo é um mar de pétalas de rosas na vida deles, muito menosnas nossas vidas com o Brasil cada vez mais desmoralizado, afundado por políticos e por uma sociedade corrompida que temos.

A roupa que Jacqueline Kennedy usou naquele fatídico dia em Dallas, o emblemático tailleurrosa com botões e detalhes pretos, ficou ainda mais significativo com o sangue de seu marido espalhado pelo tecido. A violência pode não combinar absolutamente nada com a cor rosa, mas em algumas ocasiões fica difícil não prestar atenção nas cores do sofrimento, da vergonha, do medo, da injustiça e de uma tragédia que vira e mexe estamos vivendo e revivendo.

 

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Marcelo Amoy — “Não me leve mal, hoje é carnaval!”

 

 

 

Como qualquer feriadão, o reinado de Momo é efêmero – especialmente nesses nossos tempos velozes –, mas tem peculiaridades que fazem toda a diferença. Enquanto os outros feriadões dependem dos caprichos do calendário pra sabermos se teremos mais ou menos dias de folga, o carnaval tem número de dias fixo: são sempre quatro (e se incluirmos o muito comum recesso da quarta-feira de cinzas, cinco). Sua mobilidade ano a ano lhe acrescenta tempero: conforme cair num determinado ano, o verão será mais longo ou mais curto – o que faz muitos corações suspirarem em expectativa. Tirando o Natal e o Ano Novo, é o principal feriadão temático que temos: em todos os demais, cada um aproveita sua folga do jeito que preferir; mas, no carnaval, as pessoas são meio que direcionadas aos tipos específicos de eventos e ocupações que conhecemos tão bem. Para completar, é uma festa de origem religiosa – por menos que pareça ou as pessoas se lembrem disso.

Os dias de carnaval são marcados em função do calendário lunar – eis porque variam tanto de ano a ano – e em decorrência da Páscoa. O domingo de Páscoa é sempre o primeiro domingo de lua cheia depois do equinócio de primavera no hemisfério norte (nosso equinócio de outono). Com o estabelecimento do domingo de Páscoa, regride-se uma semana até o domingo de ramos e, daí, contam-se regressivamente mais 40 dias para o estabelecimento da terça-feira de carnaval e a delimitação de todo o período da quaresma. Originalmente, só a terça era feriado – mas dada a nossa natureza festiva, fomos dando um jeitinho de oficializar uma folga geral desde o sábado anterior, rsrsrs.

Assim, ninguém deve estranhar que muitos escolham passar o carnaval em retiros de oração: há motivos para isso além da preferência pessoal por calma e tranquilidade. Aliás, conheço muita gente que troca a folia por dias numa fazenda ou numa praia calma, sem badalações; ou que curta mesmo só ficar em casa lendo, vendo TV, descansando ou colocando tarefas em dia. Essa tendência costuma aumentar com a idade, mas o carnaval não tem idade e todos podem curti-lo se quiserem – até porque é possível aproveitar os dias de folia pra encontrar amigos na praia, brindar num churrasco, ver os blocos passarem e os desfiles pela TV sem ter que se jogar na folia sem hora pra voltar, como se o mundo fosse acabar amanhã, rsrsrs.

Por muitos anos, eu passei meus carnavais no clube de Atafona; depois no Rio de Janeiro, em blocos de rua. Enquanto vejo feliz o crescimento da folia urbana, de um carnaval de rua cada vez mais concorrido, lamento o fim dos carnavais de clube. Até mesmo aquelas filas enormes e a bagunça embolada de todo mundo se apertando no pequeno hall do Atafona Praia Clube pra comprar os “convites” para os sete bailes – momento esperado o verão inteiro com ansiedade insuportável para mim, rsrsrs – são hoje motivo de saudade. O próprio clube nem existe mais: minhas memórias jazem hoje num terreno baldio. Mesmo assim, ainda sinto o cheiro e o gosto do churrasquinho e do salsichão com farofa do Baiano, devorados ao som da orquestra lá dentro; lembro das paqueras e brincadeiras no salão; dos encontros com todo mundo o tempo todo – sensação de estar em casa; de ver o sol nascer na praia, ao final de cada baile; e das meninas fantasiadas de odaliscas, negas malucas, havaianas e os meninos de piratas, índios, sheiks. Tudo ao som dos melhores sambas-enredo e das mais tradicionais marchinhas.

“Quanto riso, ah… quanta alegria!!!”: isso era o carnaval – além de um punhado de amores feitos e/ou desfeitos; algumas ressacas e vexames; e algumas infelizes e eventuais brigas entre alguns exaltados (geralmente depois de muitos copos vazios). Mas ninguém se aborrecia quando chamado a olhar “a cabeleira do Zezé”, nem perguntando “será que ele é?”. Brigas de namorados se desfaziam ao som de “Bandeira branca, amor; não posso mais… pela saudade que me invade, eu peço paz!” e poucos corações resistiam a um “Tu não tens pena de mim, que vivo tonto com o teu olhar?” cantado com aquele olhar comprido e sem vergonha…

“Allah-lá-ô, ô ô ô ô ô ô; mas que calor, ô ô ô ô ô ô!” era, então, quem sabe, só um desabafo pela falta de ar condicionado; nunca uma ameaça de morte. Aliás… ninguém problematizava letra de marchinha: o carnaval era só folia, tão despido dessas elocubrações quanto o possível nas roupas. A liberdade só possível no carnaval – a catarse esperada o ano todo pra desopilar a existência – nunca foi berço de preconceitos. Ninguém estava nem aí se alguém “De dia, era Maria; De noite, era João”, nem cantava “O teu cabelo não nega, mulata; Porque és mulata na cor” para discriminar ninguém. Por mais que os versos seguintes – “Mas como a cor não pega, mulata; Mulata, eu quero o teu amor” – sejam horríveis à luz de uma mínima sensibilidade: ninguém aprendia, com eles, mais preconceito do que talvez já tivesse. Todo mundo só estava ali pela folia. Só pela folia. Ponto.

Hoje, “O Arlequim está chorando” (mas não é, só) “pelo amor da Colombina”: é também pela censura que se quer impor à espontaneidade que é a alma do carnaval. A alegada internalização do preconceito, usada como pretexto pra censurar marchinhas que todos cantam – e (não) lamento dizer: vão continuar cantando! – não terá força como argumento enquanto o próprio idioma usar expressões como “a coisa tá preta” para designar algo ruim. Mas pra quem já desejou censurar Monteiro Lobato e reescrever Machado de Assis… o que é uma marchinha de carnaval, não? É tão pouco que nem bastou: querem censurar as fantasias também. Eis aí o que li um dia desses em um site que se pretende (???) sério: “Nesse Carnaval, que tal abrir mão de turbantes, bindis, quimonos, cocares e hijabs e usar um pouco mais a imaginação? Nenhuma cultura é exótica ou engraçada para virar fantasia nas mãos de quem não entende suas lutas e tradições. Para todo mundo um lindo Carnaval, cheio de alegria e sem apropriação cultural!!!”. Só faltou explicar porque não conseguem enxergar as fantasias como demonstração de admiração ou homenagem.

Falta do que fazer no bloco do sanatório geral. Nas palavras de Cora Ronai: “Como essa gente fazia pra passar vergonha antes da internet?” Não sei a resposta, Cora. Vai ver é coisa recente… Talvez queiram mesmo é deixar de lado a parte do riso e da alegria para ficar só com a dos “Mais de mil palhaços”. Se é que são tantos assim.

 

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De bandeja, os bastidores de 10 prefeitos de Campos

 

Seu Zé e Rafael Diniz (Foto: Rafael Peixoto)

 

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Nos últimos 30 anos, 10 foram os prefeitos que serviram a Campos. Ou foram eleitos para fazê-lo. Zezé Barbosa (1982/88), Anthony Garotinho (1988/92 e 1996/98), Sérgio Mendes (1992/96), Arnaldo Vianna (1998/2000 e 2000/04), Carlos Alberto Campista (quatro primeiros meses de 2005), Alexandre Mocaiber (2005/08), Roberto Henriques (março a abril de 2008), Rosinha Garotinho (2008/16), Nelson Nahim (julho a dezembro de 2010) e Rafael Diniz (2017). E uma mesma pessoa serviu a todos: José da Conceição Pereira Viana, o Seu Zé, hoje com 75 anos e ainda em plena atividade, famoso pelo café cremoso que prepara e serve sempre quente, com açúcar, adoçante ou amargo, à escolha dos ocupantes e visitantes da Prefeitura de Campos, ao longo de mais de três décadas.

Seu Zé entrou na Prefeitura em 1986. Na época, era garçom do hoje extinto Café Ouvidor, na rua Marechal Floriano. O então prefeito Zezé Barbosa entrou no estabelecimento, acompanhado do deputado federal Alair Ferreira e o fiscal de renda J. Costa:

— Quando fui anotar o pedido, Zezé falou que precisava almoçar em 10 minutos. E perguntou se eu era capaz de providenciar. Fui à cozinha e trouxe voando um frango desossado grelhado com creme de espinafre. Foi tão rápido que o próprio Zezé se espantou: “Já está pronto?”. Na saída, fiquei com vergonha de fazer o pedido. Mas ele voltou, eu tomei coragem e perguntei: “O senhor não arruma um emprego pra mim na Prefeitura?”. Ele me disse: “O que o senhor quer?”. Eu respondi: “O que o senhor estiver para mim, está bom”.

No dia seguinte, uma quarta-feira, Seu Zé foi ao antigo Matadouro, onde Zezé costumava despachar. Mas lá foi informado que o chefe do Executivo não estava atendendo. Ao voltar na quinta, conseguiu falar com o prefeito, que o mandou procurar José Almeida, chefe de gabinete, na sexta na Villa Maria. Feito isso, já na segunda começou a trabalhar na Prefeitura como garçom, função na qual impressionara Zezé pela presteza e agilidade.

Do que lhe abriu as portas ao serviço público, Seu Zé revela o segredo pelo qual se manteve tanto tempo, numa função tão íntima dos bastidores do poder goitacá, passando por 10 prefeitos — 11, se contado Geraldo Pudim, que chegou a ser prefeito por apenas um dia, em 2004: “A gente tem que pegar o jeito do prefeito. Isso costuma levar uma semana”

Mas o tempo pode ser menor. Neto de Zezé, a quem Seu Zé já impressionara pela rapidez com que tirou um almoço, Rafael foi surpreendido já em seu segundo dia de mandato, quando além do café e água habituais, o veterano garçom lhe trouxe cajá cortado em fatias, fruta da predileção do novo prefeito:

— Logo no primeiro dia eu conversei com assessores mais próximos de Rafael, que me disseram que ele era louco por cajá. Aí arrumei as frutas, descasquei, cortei e temperei com um pouco de sal. Tira a acidez e o cajá fica docinho. Ele tomou um susto, mas adorou.

Nestas mais de três décadas servindo diariamente os líderes políticos mais importantes da cidade, além de se adaptar aos seus gostos, Seu Zé também registrou diferenças de estilo:

— Zezé tinha muita personalidade. O que ele falava com os secretários tinha que ser ali, na hora. Não tinha essa história de deixar para depois, não. Os secretários tinham muito respeito por ele. Nas audiências com gente de fora, sempre mandava servir caldo de cana com biscoitos de champanhe. Foi um ótimo prefeito!

Se Zezé costumava dizer que prefeito em fim de mandato, quando pede um café, só vem meia hora depois e frio, Seu Zé garante que é só parte do folclore do líder político que, em seu auge, chegou a ser chamado pela imprensa carioca de “Rei no Norte”. De quem o substituiu, o garçom também revela os gostos e estilo:

— Garotinho tinha pressão alta. Então eu sempre fazia para ele suco de carambola. Gostava do café bem quente e forte. E adorava comer quibe cru. Quando ele almoçava e jantava na Prefeitura, eu ia de carro até o Kantão, trazia e servia comida libanesa. Também era firme com os secretários. Dizia: “Eu mandei você fazer isso. Por que você não fez?”

A mesma personalidade, segundo Seu Zé, não se repetiria no prefeito seguinte:

— Com Sérgio Mendes o governo saiu da Villa Maria e foi para a antiga Casa Rosada (na av. Alberto Torres, diante ao Cartório do 1º Ofício). Só tomava água e café. Não queria comer nada, não ligava para nada. Pouco conversava com ele. Como prefeito, não tinha a mesma força dos outros.

Embora considere entre os melhores prefeitos que Campos teve, era pelo jeito brincalhão, e o apetite, que Arnaldo Vianna se destacava dos demais:

— Era o mais guloso. O que levasse, ele comia. Quibe, pão, salgadinho, tudo. Também era firme com os secretários. Aí, não brincava. Mas teve uma vez que ele estava reunido com os vereadores. Eu cheguei com a bandeja e ele disse: “Bota essa bandeja aí na mesa e fale aqui no celular, que tem alguém procurando você”. Eu não entendi nada, mas atendi. Do outro lado da linha, um homem começou a me xingar, perguntando o que eu estava querendo com a mulher dele. Fiquei todo sem jeito, enquanto Arnaldo e os vereadores morriam de rir.

Apesar dos pouco mais de quatro meses no poder, Seu Zé é de opinião que, se conseguisse completar o mandato, Carlos Alberto Campista iria acertar:

— Era firme também, sério, não brincava. Chegava cedinho. Eu levava água e café. E às vezes ele dizia: “Senta aqui, Seu Zé, vamos conversar”. E falava sobre a Prefeitura, como estava botando as coisas no lugar. Dizia: “Estou começando agora, mas depois de alguns meses, vai tudo estar como a gente quer”.  Acho que ele iria fazer um bom governo. Tinha atitude.

Segundo Seu Zé, atitude foi justamente o que faltou ao prefeito seguinte:

— Mocaiber só bebia café e água. Não queria comer nada. Era educado, mas de pouco conversar. Não era tão firme como os outros no trato com os secretários. Ele era mais devagar. Acho que isso atrapalhou muito o governo dele. A gente achava que os secretários tinham mais força que ele.

Prefeito por pouco mais de um mês entre março e abril de 2008, Roberto Henriques se marcou por uma personalidade oposta:

— Tomava muito café. Chegava e logo pedia: “Seu Zé, meu cafezinho e minha água”. Não ligava para comer. Foi o mais rigoroso de todos com os secretários, os vereadores, com todo mundo. Decidia fazer uma coisa e fazia mesmo. Com ele não tinha tempo ruim. Todo mundo respeitava ele.

Sobre a sucessora de Mocaiber, o veterano garçom desmente as versões de que Rosinha fosse uma prefeita ausente:

— Todo dia ela estava lá. Tinha dia que ela chegava mais alegre. Em outros, chegava aborrecida, triste. Mas assim mesmo tratava a todos bem. Era muito educada com os secretários. Garotinho era mais duro. Gostava do cafezinho bem quente e tomava um copo d’água com meio limão espremido, duas ou três vezes ao dia. Também gostava de salada de fruta, que eu mesmo fazia. Adorava cantar. Às vezes se reunia na Prefeitura com as mulheres da igreja. Aí cantava “Noites Traiçoeiras” e outras músicas. Cantava direitinho.

Segundo Seu Zé, quando estava de bom humor, Rosinha também era brincalhona:

— Num final de ano, teve um amigo oculto do auditório. Aí, a menina que me tirou começou falando que o amigo oculto dela gostava de chamar as mulheres de “coisa linda”. Todo mundo sabia que era eu. Aí, Rosinha disse: “Seu Zé, estou muito aborrecida com o senhor. Chama todas as meninas de ‘coisa linda’, mas a mim, não”. Aí eu cheguei para ela, segurei sua mão e disse: “Coisa linda!”. Todo mundo riu.

Embora considere que Rosinha foi uma boa prefeita, Seu Zé diz não entender o montante das dívidas deixadas por seu governo na Prefeitura:

— Tem esse problema de dívida, aí. Essa coisa “braba”, esse negócio de dívida é que não dá para entender. Tiveram tanto dinheiro!

Prefeito durante seis meses em 2010, Nelson Nahim foi outro prefeito servido por Seu Zé:

— Gostava de cafezinho com açúcar e água. À tarde servia torrada, ou uma banana caturra assada no forno, com canela por cima. Era mais calmo que o irmão. Foi um prefeito muito bom. Era muito educado, muito paciente, tinha muita calma para falar com as pessoas. Quando tinha muita gente agitada, eu fazia um suco de maracujá e saía todo mundo calminho.

Muitos anos antes de Rafael assumir a Prefeitura no início do ano, já era um velho conhecido de Seu Zé:

— Quando era criança, ele ficava no gabinete do avô, com a mãe (Beatriz), fazendo bagunça. Corria pra lá e pra cá. E sempre rindo. E isso é uma coisa que ele mantém até hoje: o mesmo riso. É um prefeito amigo de todo mundo. Trata todos da mesma maneira, abraçando e cumprimentando todos por onde vai. É muito carinhoso e simples. Vai na cozinha ver se tem um café, pegar um copo d’água e brinca com a gente, sempre com uma palavra de carinho. Ele puxou o avô: gosta de tudo certinho. E também é firme quando tem que ser. É muito católico, vai à missa todo domingo, no Convento, que eu também frequento. Sem Deus a gente não vive.

Sobre os desafios da criança que cresceu para governar a cidade, Seu Zé serve convicção, na fervura do seu famoso café:

— Ele vai dar conta. Deus vai dar sabedoria para ele governar Campos e resolver o problema das dívidas. Pior, não pode ficar, tem que melhorar. E ele está fazendo tudo para isso.

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Dona d’um coração surrealista

 

Sugestão para escutar enquanto lê: ArvoPärt–Silentium

 

https://www.youtube.com/watch?v=FK-KC2aQpcI

 

 

Ao me sentar para escrever o texto de hoje vi, logo ao meu lado, um dos contos que havia escrito para o blog bem no início da minha colaboração, em maio de 2016. Embevecido pelas obras surrealistas que acompanhava à época – movimento pelo qual sempre tive predileção – e pelo prazer de ter conhecido um paraíso chamado Imbé, d’onde desfrutei de suas cachoeiras. Do meu peito saíram essas palavras que almejaram ser a poesia para alguém que não sabia ler. Aos que começaram a acompanhar os meus textos após esse período, creio que vale conhecer, para os que acompanham desde o início, vale rever:

 

 

Dona d’um Coração Surrealista

 

Está escuro, aqui, no alto do Imbé.

Lá embaixo um pedaço do rio é iluminado pela lua.

Com o peito nu abro os braços para a imensa escuridão…

Consegue sentir?

O sussurro dos ventos nos meus ouvidos, os poros se arrepiarem de dor, o peito se abrir em flor?

Com a pele dilacerada veja meu pulmão deixar o meu corpo, bem à minha frente, iluminado pela lua, cai n’água de forma brusca.

Não consigo respirar, corro para a beira do abismo enquanto a poeira se levanta com o batuque dos meus pés, pulo, mergulho, soturno, para dentro de mim, perfuro a gota do oceano diluída na multidão de uma pessoa só.

¡Nado, nado, nado a braços largos, meu pulmão iluminado pela lua do fundo do oceano se afasta cada vez mais de mim, se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo morrerei asfixiado. Chego até a areia do fundo e quase consigo pegá-lo, mas logo se enfiou entre os grãos se batendo como meu coração. Cavei até sair em um campo com gramas verdes e úmidas, ao longe, meu pulmão voa, corro, mas minhas pernas já estão cansadas pela falta de oxigênio.

Me apoio ofegante numa grande árvore colorida, lá em cima ele está parado, brilhando com a luz do sol, se enchendo e esvaziando. Subo a árvore e ao sair do amontoado denso de folhas percebo que o verde se transformou em branco das nuvens, além do céu meu pulmão voa enquanto pulo de nuvem em nuvem tentando alcançá-lo, mas ao pisar forte em uma grande e carregada nuvem de chuva, afundo, fundo, caio sem paraquedas com a cidade inteira abaixo de mim, meus cabelos arrepiados, minhas bochechas querendo deixar o corpo de tanto vento, vejo meu pulmão ao lado, mas o vento me impede de chegar até ele.

Corto o ar com braçadas fortes, como se estivesse nadando, mas já não há tempo, estou caindo e o chão é próximo. Bato tão forte na terra que paro no meio da Terra, em meio as lavas procuro meu pulmão, mas não consigo enxergar nada, dentro de um vulcão em erupção sou expelido para fora como um jato de lava e ao me pôr em pé na superfície do planeta, vejo que já não caibo mais nele, se tornou do tamanho de uma bola de futebol, me equilibrando com apenas um pé, olho para cima e vejo meu pulmão já perto de plutão, pego impulso e pulo em sua direção. Já se passou um minuto e meio e estou roxo, talvez não aguente chegar até o final do sistema solar, até o final do sistema solar… Pedras, meteoros me impedem de chegar, me seguro em Júpiter, tentando alcançar, meu pulmão, o final do sistema solar… mas já não há mais tempo, não consigo mais segurar, continuo tentando alcançar…

Tentando alcançar

Tentandoalcan

Tentan

Tent

Te

 

 

A

Até

Até mim

Até mim ele

Até mim ele veio

Até mim ele veio, entrou em meu peito e consegui novamente respirar.

…::…                …::…                …::…                …::…                …::…                …::…

Abismo alto, aqui, escuro está

Lua iluminando o rio d’um pedaço lá embaixo.

Escuridão imensa, braços abro nu peito

Sentir, consegue?

Flor abrir-se em meu peito, de dor arrepiarem-se os poros, ouvidos meus nos ventos dos sussurros?

Brusca forma no rio cai…

Uma pessoa só de multidão, diluída na gota de um oceano, perfura soturna, mergulha, pula pés de batuque enquanto levanta a poeira na beira do abismo corre respirar, mas falta oxigênio pelas cansadas pernas, corre, voa pulmão longe nas úmidas e verdes gramas em um campo meu coração batendo como os grãos no fundo da areiaasfixiado se não conseguir alcançá-lo em pouco tempo, de mim afasta-se cada vez mais oceano, fundo de lua iluminando meu pulmão de largos braços dona, dona, dona!

 

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Vestiu sua blusa amarela e saiu por aí

 

Após dia e noite longos de trabalho no jornal, cheguei neste início de madrugada a Atafona, minha Pasárgada, mesmo neste agito de folia. Daqui até o próximo dia 6 de março, não estarei postando nada no blog, à exceção dos textos dos seus colaboradores e da minha produção dominical como jornalista na Folha.

Depois do reinado de Momo, a vida real recomeça — queiramos ou não. Até lá, deixo você, leitor, com os “versos alegres” do bardo russo Vladímir Maiakóvski (1893/1930), “agudos e necessários como um estilete pros dentes”, que sempre me ocorrem quando penso em poesia e carnaval.

Inté!

 

 

Na foto em preto e branco, o jovem Maiakóvski e sua blusa amarela

 

 

A blusa amarela

 

Do veludo de minha voz

Umas calças pretas mandarei fazer.

Farei uma blusa amarela

De três metros de entardecer.

E numa Nevsky mundial com passo pachola

Todo dia irei flanar qual D. Juan frajola.

 

Deixai a Terra gritar amolengada de sono:

“Vais violar as primaveras verdejantes!”

Rio-me, petulante, e desafio o Sol!

“Gosto de me pavonear pelo asfalto brilhante!”

 

Talvez porque o céu está tão celestial

E a Terra engalanada tornou-se minha amante

Que lhes ofereço versos alegres como um carnaval

Agudos e necessários como um estilete pros dentes.

 

Mulheres que amais minha carcaça gigante

E tu, que fraternalmente me olhas, donzela.

Atirai vossos sorrisos ao poeta

Que, como flores, eu os coserei

À minha blusa amarela.

 

(1913)

 

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