Avaliação popular do governo Rosinha por líderes na pesquisa

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Fruto da conjuntura nacional, desgaste particular ou ambos? Qual é a causa do aumento da desaprovação popular do governo Rosinha Garotinho (PR) e da não confiança do campista na sua prefeita? Como a Folha mostrou (aqui) na edição do último domingo (26), quando comparadas as duas últimas pesquisas do instituto Pro4, de outubro de 2015 e deste junho (entre os dias 8 e 10) de 2016, a desaprovação do governo subiu de 55,7% para 62,4% da população, enquanto os que não confiam em Rosinha cresceram de 60,3% para 70,2% dos campistas.

A queda foi registrada já após a terceira “venda do futuro” do município, consumada (aqui) em 11 de maio num empréstimo de R$ 367 milhões com a Caixa Econômica Federal, a ser pago até 2026. Veja o que pensam sobre a avaliação popular do governo Rosinha os quatro pré-candidatos que, segundo a mesma pesquisa Pro4, lideram (aqui) em empate técnico a corrida para suceder a prefeita:

 

 

Caio, Tadeu, Rafael e Chicão (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Caio, Tadeu, Rafael e Chicão (montagem de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Caio Vianna (PDT) — O momento é atual é de erosão de alguns governos, que sofrem grande descrédito com a população, principalmente em Campos. Alguns governantes se prepararam melhor para o momento. O fato é que a população, de maneira geral, está descrente. Recentemente, li uma matéria dizendo que 30% dos prefeitos de todo o Brasil, que podem concorrer à reeleição, estão na dúvida se virão. A crise econômica afeta o Brasil inteiro, embora mais a Campos, devido à insatisfação com sua atual administração. A população enxerga a necessidade de renovação da classe política em todo o país. E Campos, longe de ser exceção, é um dos municípios brasileiros onde isso ocorre de maneira mais acentuada.

 

Tadeu Tô Contigo (PRB), vereador — Os índices de desconfiança e desaprovação andam de mãos dadas. A população agora está ficando mais atenta em sua análise do que foi e do que está sendo, não só dos últimos três anos e meio, mas dos últimos sete anos e meio. E se conclui que não teve um bom governo neste período, não tem porque ter confiança na governante ou aprovar seu método de governar. A forma como esses recursos foram conseguidos é que gerou a desconfiança e a consequente desaprovação. Diante da terceira “venda do futuro” seguida, uma para pagar a outra, qualquer cidadão campista com um pouco de lucidez vai concluir que esse governo colocou a cidade na atual situação porque gastou além das suas possibilidades.

 

Rafael Diniz (PPS), vereador — Os índices da pesquisa são o reflexo direto daquilo que vemos nas ruas todos os dias, daquilo que temos alertado e cobrado nas sessões da Câmara: Campos hoje vive o caos na saúde, na educação e no transporte públicos, fruto da total falta de responsabilidade administrativa do seu governo. Lá atrás já dizíamos que o grande problema de Campos não é dinheiro. Se fosse, o atual governo, que mais teve dinheiro na história do município, teria feito uma administração exemplar, não o caos vivenciado diariamente pelo campista que busca os serviços públicos municipais. Repito: o problema de Campos não é falta de dinheiro; é falta de gestão.

 

Dr. Chicão (PR), vice-prefeito — Estamos num momento conturbado para qualquer político. A falta de credibilidade é nacional. Isso faz com as pessoas não tenham a avaliação mais coerente. Tudo cai em cima do governo mais próximo: o municipal. Mas a rejeição é à classe política, não a um governante. Em qualquer outro município brasileiro, o problema se repete. Em Campos, quem compara como era antes e como é agora, vê os avanços em vários segmentos. A partir das convenções, com a definição das chapas, os candidatos vão também ser pessoalmente avaliados, em questões como capacidade, idoneidade. E, em relação ao governo, se você somar o ótimo (2,6%), o bom (20,5%) e o regular (32,3%), temos uma provação de mais de 50% (55,4%).

 

 

Página 3 da edição de hoje (28) da Folha
Página 3 da edição de hoje (28) da Folha

 

 

Publicado hoje (28) na Folha da Manhã

 

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Carol Poesia — Marina não se sentia gente

Sentada no trono, a Deusa-Mãe de Çatal Huyuk, entre os primeiros assentamentos humanos, há cerca de 9 mil anos, na atual Turquia, hoje exposta no Museu Arqueológico de Ancara (foto: reprodução)
Sentada no trono, a Deusa-Mãe de Çatal Huyuk (6,7 mil a. C.), hoje no Museu Arqueológico de Ankara (foto: reprodução)

 

 

Foi num piscar de olhos que Marina cansou-se de todos. Perdeu a paciência com a vida em sociedade. Não aguentava mais casamentos, sentia fadiga só de pensar nos cumprimentos. Com as amigas de infância não tinha mais assunto. Sorria, calada, ao ouvir que abriram mais uma loja. Ela não tinha interesse. Esforçava-se, mas não sentia nada. Nenhuma empolgação. Foi da noite pro dia que Marina queria porque queria não ser mais gente. Era muito cansativo sorrir e conversar sobre as coisas de gente — marido, filhos, emprego, casamento. “Por que não nasci árvore, meu Deus? Ficar quietinha, só me alimentando de sol.”

Nos inevitáveis encontros com outros humanos — aniversários, matrimônios, confraternizações — Marina não reparava nas roupas, não estava nem aí para os sapatos. A comida ela apreciava bem, e quando comia, mergulhava em seus pensamentos e se distanciava daquelas conversas de mesa, aquelas conversas de gente. Tinha uma desculpa para apresentar-se calada, estava mastigando.

Assim como aos quinze foi aquela enxurrada de aniversários das debutantes, agora aos trinta aquela sequência de casamentos para os quais ela não tinha vontade de pose. Mas ainda ia. Para fazer vontade, não ser mal educada, não se sabe. Acho que Marina sentia culpa por preferir não estar ali, por detestar aquela papagaiada, por desejar estar internada só para não poder ir, então ia, para amenizar a culpa.

No último casório, festa de luxo, houve aquelas mesas grandonas que sempre te obrigam a sentar com quem não se tem intimidade. Pois bem. Marina cumprimentou, equilibrou-se no salto, sorriu para todos e sentou. Girava a cabeça suavemente para a direita e para a esquerda, querendo dar a entender que estava acompanhando a conversa. Em um momento, distraiu-se de seu objetivo e pensou em Kafka. Lembrou-se daquele inseto gigante de A Metamorfose e sentiu inveja de sua monstruosidade.

Ela olhava o requinte nas louças, guardanapos de algodão, taças de cristal e flores altas, ao passo que pensava em Gregor Samsa. O que aconteceria se ela, ela mesma sofresse uma metamorfose ali na festa? Se de repente, ali na mesa, sua pele se tornasse crespa e escura e endurecida como a casca de uma barata? Se seus dedos de manicure virassem patinhas e todos os talheres lhe escapassem? E se a sua cabeça fosse ovalando até achatar-se por completo na frente de todos? Ela imaginou-se inseto, à mesa, com os outros. Esse pensamento causou-lhe uma risada tão alta que os demais pararam de conversar e olharam surpresos. Ela percebeu e recolheu-se — “desculpa, é que eu lembrei de um negócio aqui”.

Recuperou-se do riso e continuou a comer. Não sentiu nenhum nojo de sua imaginação. O que a obrigou a interromper-se foi uma cólica repentina que a deixou sem posição. Era muito forte. Ajeitou-se na cadeira. Não havia modo. Uma dor incontrolável no ventre. Ela afastou um pouco a cadeira, ficou menos ereta, e curvou-se o menos possível, receosa de que alguém percebesse que por dentro ela se contorcia. Ao afastar-se da mesa percebeu seus pés escurecidos, inchados e com a textura alterada. Estavam deformados. Ela pensou “está acontecendo…”. Sentiu um misto de satisfação e medo.

Levantou-se com dificuldade e foi até o banheiro. Estava lotado. Ela pensou “Vai acontecer aqui, na frente delas.” e continuou o misto de satisfação e medo. A dor era tão forte que Marina, na fila, escorou-se na parede esperando sua vez para adentrar a cabine. Tudo doía. Uma dor que partia do ventre, mas chegava aos pés, explodindo na sandália, pernas e cabeça. Vagou uma cabine, entrou. Forrou o vaso, como de costume — com três papéis formando um “u”, levantou a saia do vestido, abaixou a meia calça e depois a calcinha alta, dessas que imprensam a barriga e sentou. Fez xixi, enquanto suava frio. Nesse momento tão íntimo retomou a imagem da barata. Como seria se ela saísse dali metamorfoseada? As amigas ao espelho a reconheceriam? Sairiam correndo assim que ela abrisse a portinha com as antenas? Jogariam nela o que tivessem à mão, como batom, bolsa e sapatos?

Sentada no vaso, afrouxou as tiras das sandálias, depois as tirou por completo. Sentiu um alívio imediato. Com o vestido suspenso e a cinta arreada nos joelhos, lembrou de uma liberdade rara, no cubículo, solitária. Queria ficar ali até a festa acabar. Deitou o corpo pra trás, esqueceu que não forrara a parte detrás do vaso, ela sempre fazia um “u” com o papel e não um quadrado, mas continuou recostada. De que adiantaria tanto asseio se ela realmente virasse uma barata?

Com pernas abertas e pés plantados no chão frio, a circulação melhorou, livres daqueles saltos e tiras. O peito do pé foi recuperando a cor, mas os dedinhos ainda estavam roxos. Ficou mais um tempo sentindo o ventre livre e aquele prazer de ter a si como única companhia. Depois se limpou e viu que ficara menstruada.

“Cacete!”. Enrolou um maço de papel higiênico e meteu na calça, a cinta era grossa, daria tempo de ir embora sem sujar nada. Deu descarga e recuperou todas as amarras. Finalmente tinha um motivo concreto para ir embora. E foi.

No caminho para o carro questionou-se por que teria saído da festa com a mesma aparência com a qual entrou… Concluiu que não era tão especial para merecer um desfecho tão fantástico quanto o de Kafka. Deduziu que a sua monstruosidade era banal.

E correu pra não manchar o vestido alugado.

 

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Mesmo após “venda do futuro”, governo Rosinha continua em queda

(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
(Infográfico de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Mais de seis entre cada 10 eleitores campistas desaprova a maneira como a prefeita Rosinha Garotinho (PR) vem administrando o município de Campos. E mais de sete, dentro de cada mesmo grupo de 10 votantes da planície goitacá, não confia na prefeita. Atualmente, o governo municipal é considerado péssimo por 29,9% da população; ruim por 14,2%, regular por 32,3%, bom por 20,5%, e ótimo por 2,6% — enquanto 1,1% não souberam ou quiseram opinar. Os dados foram colhidos pela pesquisa do instituto Pro4, feita sob encomenda da Folha da Manhã e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob o número 00696/2016. Nela, entre os dias 8 e 10 de junho, foram ouvidas 620 pessoas, nas sete zonas eleitorais do município, com margem de erro de 3,9 pontos percentuais para mais ou menos.

Na verdade, essa avaliação negativa da administração Rosinha, acompanhada do desejo de mudança, já havia sido registrada em outra consulta estimulada da mesma pesquisa, divulgada (aqui) na edição do último domingo da Folha. Nela, 70,8% dos campistas acham melhor votar em um candidato de oposição para fazer as mudanças que o município precisa, enquanto apenas 24,8% consideram ser melhor votar no candidato apoiado por Rosinha para dar continuidade ao seu trabalho.

A cerca de 100 dias do pleito de outubro, todos apostam nos bastidores que a esperança dos Garotinho é tentar reverter essa situação a partir da terceira “venda do futuro” (aqui) do município, empréstimo de R$ 367 milhões com a Caixa Econômica Federal (CEF) a ser pago até 2026, pelos três próximos governos. Contudo, como a operação financeira foi consumada desde 11 de maio, o dinheiro não parece ter feito grande diferença, um mês depois, na avaliação popular sobre um governo que aposta tudo para tentar fazer seu sucessor.

Comparado com a última pesquisa Pro4, de outubro de 2015, se a aprovação do governo subiu de 29,8% para 33,9% (4,1 pontos percentuais), a desaprovação cresceu mais, de 55,7% para 62,4% (6,7). E caiu, sobretudo, a confiança do campista em sua prefeita. Se, em outubro de 2015, 26,7% dos eleitores acreditavam nela, hoje só 23,5% o fazem (queda de 3,2). Mas o crescimento mais substancial entre os eleitores se deu entre quem declaradamente não confia em Rosinha: de 60,3% para 73,2% — em oito meses, impressionantes 12,9 pontos percentuais.

Confirmada por fontes rosáceas, uma pesquisa do antigo instituto Precisão, considerado ligado aos Garotinho, foi feita no mesmo período da consulta do Pro4. Mas não chegou a ser registrada ou divulgada porque seus números seriam ainda piores ao governo. Diferente do modus operandi do garotismo, não houve questionamento a nenhum dado desfavorável da pesquisa Pro4.

 

Página 3 da edição de hoje (26) da Folha
Página 3 da edição de hoje (26) da Folha

 

Publicado hoje (26) na Folha da Manhã

 

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Fabio Bottrel — Um conto em três atos (parte dois)

 

Sugestão para escutar enquanto lê: AntonínDvořák–Requiem

 

 

 

 

(Ilustração de Sebastian Eriksson)
(Ilustração de Sebastian Eriksson)

 

 

Primeiro Ato

 

Nas palavras está o meu sangue, e dele você há de beber

Vermelho

Verme

Ver

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O ar estava morto quando Vicente abriu a grande porta emperrada da igreja, sentia pelo cheiro de mofo e poeira, nenhuma vida pisara ali durante muito tempo. As sombras varrendo o chão cinzento lentamente deram lugar a luz vindo de fora, esquentando o frio do ambiente. Logo o silêncio gelado voltou quando ele fechou a porta novamente, ficando só, naquele pequeno espaço de arquitetura pobre com algumas tentativas barrocas, mas sem requinte. Respirou fundo, ouvia seu coração bater forte e o olhar umedecer.

A escuridão camuflou-se com o alaranjado das velas acendidas por Vicente a cada passo dado até chegar ao altar. Atrás da mesa havia uma espécie de banheira com água benta, d’onde recolhiam pequenos baldes para benzerem todo o entorno da prisão. As velas eram maiores nas bordas do tanque e ele acendeu cada uma. Conseguia enxergar o fundo onde pequenos reflexos dourados davam a ideia de moedas no fundo do poço. Acima da banheira, pendurado na escura parede com contornos de madeira, jazia o pesado cálice dourado recheado de vinho dito sangue de Cristo. Ao lado, um quadro com o símbolo imponente da penitenciária e suas palavras de ordem sustentadas por cordas grossas pendentes de ganchos pouco acima. Puxou uma das cordas e ao desatarraxá-la da moldura o quadro caiu tilintando todo o vidro que se quebrou ao encontrar o chão. Olhou para o cálice numa posição ainda mais alta e pensou em como alcançá-lo. Observou todo o espaço e encontrou uma cadeira, arrastou até a frente da banheira, subiu.

O cálice era muito pesado, feito de ferro fundido com pedras ao seu pé. Nem mesmo se mexeu enquanto Vicente amarrava a corda dando dois nós apertados para não se soltar. Desceu da cadeira e a empurrou para o lado. Puxou a corda com força, mas o cálice ainda não se mexia. Com dificuldade, pois a corda não era muito grande, amarrou-a em volta do pescoço e puxou com esmero para se certificar de que não soltaria. Pôs as duas mãos na corda, à frente de seu pescoço, e puxou com toda a força que possuía, o cálice deu um ligeiro movimento à frente. Mais uma vez e de novo, o cálice andava alguns centímetros sobre o suporte de madeira cada vez que ele arrancava com a corda. Já estava ofegante e perdendo as forças quando o percebeu na beirada do suporte, prestes a cair, precisava apenas de mais um puxão. Respirou forte pela última vez e puxou a morte para si. O cálice caiu direto na banheira, puxando consigo o pescoço de Vicente água abaixo. O sangue de Cristo coloriu toda a água de vermelho e ajudou a sufocar sua respiração. Em seu pescoço rapidamente apareceram traços de hematomas, o sangue se prendia na corda enquanto a apneia o torturava. Não aguentou muito tempo, já estava cansado e ofegante. Logo o vermelho se tornou escuridão e o líquido santo lhe coloriu o pulmão com agonia, medo e dor.

Com a cabeça banhada em água segura pelo cálice e metade de seu corpo dentro do tanque, suspirou pela última vez dentro das borbulhas preenchidas de pavor, deixando a escuridão o abraçar e a morte levar.

 

***

 

 

Dois dias atrás…

 

Um agudo e estrondoso ruído decepa o sono de Vicente enquanto cochilava tranquilamente em sua pequena cama feita de concreto velho e pedras pontiagudas, as quais sempre espetavam suas costas sobre o fino colchão. A parede estava úmida de mofo decorrente de um vazamento no cano que ligava o vaso sem tampa à parte externa da cela. Espreguiçando, virou a cabeça para o lado, seus olhos mal conseguiam discernir imagens em meio a tantas cores e traços inerentes a rostos, roupas e objetos nos pôsteres e fotos de família do seu companheiro. A cama ao lado estava vazia, ainda desarrumada, fazia uma semana que João, seu amigo de cela, estava fora, cumprindo castigo em uma solitária por ter esfaqueado um homem no pátio, sofrendo com a dor de ser um condenado.

A estada de Vicente ali não era antiga, mas o suficiente para perceber: três dias numa solitária, nas condições tortuosas, impostas, colocava abaixo qualquer estrutura psicológica. Imaginava como o seu companheiro retornaria, um sorriso vazio com a pele tremendo de estresse ao adentrar a cela. Geralmente os detentos voltavam apáticos, mal conseguiam enxergar a luz do sol por um tempo e não tinham vontade de vida nem gosto pelos pequenos prazeres oferecidos, tais como comer, ler e banhar-se. Às vezes lhes permitiam assistir um filme, mas tal recreação fora proibida após a tentativa de assassinato de um guarda logo depois das luzes se apagarem. A comida também não era muito boa, mas quando se vive com o resquício do nada, se aprende a encontrar beleza onde não tinha.

A prisão tem algumas regras e Vicente já havia se inteirado delas. Sabia quem eram os intocáveis – protegidos pelos guardas e diretor – sabia qual era o lugar errado, na hora errada para estar, aprendeu com sangue os lugares arriscados, quais eram os perigosos, as gangues e os corruptos. Aprendeu a se defender com diplomacia e política. Não era um rapaz franzino, mas tinha ciência que a força física de um homem só, por maior que fosse, não seria páreo para o conjunto de homens representados por qualquer gangue dentro daquela prisão. Andava sempre alerta, o mundo inteiro aparentava estar à sua cola, esperando um passo em falso para matá-lo.

Logo após escutar o ruído agudo e incômodo emitidopelo sinal de onze horas da manhã, as grades de todas as celas se abriram, provocando um barulho ainda mais irritante com a ferrugem raspando sobre os trilhos sem óleo no chão. Ruídos do tempo, de vida sem tino, sentido sem vida.

Era a hora do almoço. Como no refeitório não havia espaço para a superlotação de presidiários, uma fila ia para o pátio banhar-se de sol enquanto outra fila se dirigia para o refeitório, onde comeria e logo após daria espaço para os outros condenados comerem, ocupando seus lugares ao sol no pátio.

Vicente pôs-se de pé, ajeitou seu uniforme constituído de uma camiseta folgada mesmo seus braços sendo musculosos e uma calça cinza desbotada. Do seu ombro partiam linhas pretas e vermelhas cingindo frases pelos seus braços e costas.

“Morro de pé, mas não vivo de joelhos”

Era uma das frases que desciam pelo seu tríceps.

Colocou o pé fora da cela e entrou na enorme fila de presos caminhando pelo lado direito indo ao encontro do exterior do complexo de celas enquanto do lado esquerdo, rente à fila em que estava, outra enorme fila caminhava em direção oposta, ao encontro do centro do complexo, onde se localizava o refeitório. Podia sentir o odor fétido de alguns detentos impossibilitados de fazer sua higiene adequadamente devido à falta de estrutura e superlotação das celas. Enxergava nos traços de seus rostos o ódio pelas circunstâncias que se encontravam. Era difícil de caminhar com tanta gente imprensada, uma pessoa empurrada lá na frente refletia em esbarrões e apertos na parte de trás. Quando o calor é grande, o local se torna abafado e tantos homens imprensados em um estreito corredor causa agonia e excitação dos ânimos em alguns presidiários, resultando em brigas e confusões só acalmadas quando um dos expoentes era derrubado, desmaiado ou morto.

Enquanto andava Vicente sentiu uma dolorosa picada no braço, logo percebeu o sangue derramando pelo seu cotovelo e antebraço. Tomou cuidado ao apalpar o local, havia um prego bem fino enfiado na sua carne, segurando um bilhete, e podia machucá-lo ainda mais caso ele tocasse de mau jeito. Retirou o bilhete marcado com o próprio sangue e o abriu.

“Suicide-se em 48horas ou sua esposa morrerá. ”

 

***

 

Vicente não tinha dúvidas de onde partira aquela mensagem. Dentro de dois dias testemunhará sobre o maior esquema de corrupção já visto em Campos dos Goytacazes, sua cabeça vale ouro nesse momento. Em menos de duas semanas da sua chegada à prisão já tinha sofrido três tentativas de homicídio. Pelas estatísticas, era o jurado de morte mais desejado de todos os tempos da Prisão de Bangu, no Rio de Janeiro. As autoridades se apressaram a oferecê-lo anistia e proteção em troca de informação e testemunho no caso ao qual estava atrelado. O novo presidiário aceitou de imediato, sabia, não tinha muito tempo de vida ali caso os agentes penitenciários não lhe dessem cobertura. Firmado o acordo, tornou-se um dos intocáveis. Havia outros dentro da penitenciária, peças-chave em casos de grande nome. A maioria era morta logo após, por vingança ou queima de arquivo. Não seria diferente com ele, por isso exigiu uma passagemcom a companhia da sua esposa para fora do país, e uma segurança financeira para começar a vida em local desconhecido.

Era vigiado o tempo inteiro e todos que tentavam se aproximar eram abordados e reprimidos pelos guardas. Tornara-se a peça principal do quebra-cabeça, quem tinha o poder de decidir sobre um dos maiores escândalos de corrupção do país, não permitiriam que nada o afetasse. Assim sendo, as gangues contratadas para matá-lo se tornaram ineficazes, nada dentro daquela prisão poderia atingi-lo, a não ser ele mesmo. A única solução encontrada foi forçá-lo ao suicídio.

Quando Vicente saiu do corredor e entrou no pátio, foi direto a um canto onde ficava um tipo de arquibancada para os detentos sentarem e conversarem, mas era raro encontrar alguém ali. Sentou no último andar e desatarraxou um parafuso suavemente, para ninguém, nem mesmo os guardas fazendo a ronda, perceber. Foi até uma pequena placa na parede, tapando um buraco, um tipo de bueiro. O parafuso era a medida certa para desatarraxaras duas peças principais que colavam a placa ao muro. Feito isso, enfiou o braço pelo buraco escuro e tirou lá de dentro um celular sujo e velho. Ligou, a luz acendeu e a bateria estava prestes a acabar, não daria para falar muito, concentrou todo o seu desejo para do outro lado da linha atenderem sua ligação. Sentiu o odor do esgoto tapando a tela do telefone e banhando a sua mão trêmula, uma gota de suor frio escorreu no canto da testa enrugada de tensão. Na agenda do celular só havia um contato sem nome. Apertou sobre ele e discou.

O telefone

tocou

uma,

duas,

três

vezes.

Sentiu mais uma gota de suor escorrer pela sua testa, o vento frio fazia seu corpo tremular.

Na quinta vez,

alguém atende.

Vicente sentiu seus nervos se extasiarem, sua mente experimentava um turbilhão caótico de pensamentos dos mais variados tipos. Sua pressão baixou e um ligeiro adormecer dos sentidos percorreu sua pele.

Houve silêncio, mas a voz do outro lado da linha não se pronunciou.

Após ouvir Vicente gaguejar, a tensão na voz do homem do outro lado ao dizer as próximas palavras era perceptível:

– Sua esposa foi sequestrada.

 

***

 

Cada hora que passava levava junto consigo as esperanças de Vicente, a calma e a sanidade. Passara um dia bolando planos para reverter a situação sem a necessidade do suicídio, mas nenhum deles surtiu resultados. Os bandidos haviam encontrado seu contato no outro lado da prisão, quem cuidaria de sua família e negócios caso houvesse algum problema como esse. Procurou os investigadores, os quais fez o acordo, pressionou-os chantageando, mas não adiantou. Eles próprios não podiam fazer nada, ninguém sabia onde ela estava, muito menos quem era o grupo articulando as mensagens do sequestro e ordenando o suicídio de Vicente dentro da prisão. Não havia outra saída, nem mesmo a certeza que sua morte salvaria a vida de Luísa, mas no momento era a única esperança.

Enquanto Vicente se martirizava pensando no que fazer, olhava para João, que voltou à cela naquele dia, apático como imaginara. Viu os ombros curvos por carregar o peso de uma vida que nada valia e o olhar sem brilho para a foto da esposa, Amanda, com o filho, colada em frente à escrivaninha. Às vezes dormia e quando acordava João ainda estava olhando para a foto, como uma estátua humana, sua posição aparentava não mudar. João era um homem impressionante aos olhos de Vicente, não entendia como fora parar ali, ao seu lado. Nas poucas conversas que tiveram sentia um ar de honestidade, mas por mais que ele dissesse ser inocente Vicente não acreditava. Ali, raramente algum dos presidiários diziam algo diferente. Olhava as mãos estufadas de João, calejadas pelo tempo e também não entendia como ele fora um grande executivo enquanto Vicente havia sido apenas laranja de político corrupto. João era convincente quando afirmava ter sido incriminado injustamente, era um homem com cacife para criar projetos a levar cultura à população e com ela diminuir a desigualdade e concentração de renda. Logo os outros empresários sentiam dificuldades em explorar, a vender algo que ele doava. Homem bom não tem lugar nessa sociedade, dizia ele. Arrumaram uma maneira de colocar todos os seus projetos buraco abaixo, acabaram com a sua empresa e o levaram à cadeia plantando provas de irregularidades fiscais. Vicente continuou a analisar a postura derrotada pela vida do amigo na escrivaninha e teve uma grande ideia.

– João, posso te tirar daqui.

 

***

 

Vicente ouviu o barulho estrondoso do sinal das onze horas martelar no seu ouvido enquanto dirigia o último olhar ao companheiro de cela com um pequeno balançar de cabeça, que firmaria o acordado já com uma despedida. Logo em seguida o ruir enferrujado das celas se abrindo permeou a sua pele e arrepiou seus pelos por gastura. Pôs o pé afora a cela e caminhou em direção ao pátio pelo corredor apertado, amontoado de presidiários e vozes incógnitas ecoando e se esvaindo pela ferrugem das janelas de vidro quebradoperto do teto.

Sentiu algo na nuca, como um tapa.

Olhou para trás, mas não podia saber quem era o autor do imprevisto, havia inúmeras pessoas empurrando umas às outras ao lado. Pôs a mão sobre as costas e percebeu um pedaço de papel por baixo da camisa, pegou e leu:

“Faltam dez minutos para o prazo terminar. Cortaremos a cabeça da sua esposa.”

Naquele dia à noite começaria o julgamento do caso e Vicente estava prestes a depor, colocando abaixo um império de bilionários horrorizando o país com suas informações.

Sentiu o sangue percorrer com força todas as suas veias, seu coração acelerou. Tinha medo de que não desse tempo de sair da fila. Por sorte, chegou ao pátio faltando quatro minutos. Dirigiu-se rapidamente para a frente da pequena igreja e gritou para todos, mas somente quem lhe enviou o recado entenderia:

– Eu cumprirei!!!

Dito isso, empurrou a porta principal.

… O ar estava morto quando Vicente abriu a grande porta emperrada da igreja. O cheiro de mofo e poeira dava a sensação de que nenhuma vida pisara ali durante muito tempo…

 

 

Segundo Ato

 

 

Uma semana depois…

 

João sentia a gota de suor frio escorrer na pele tensa, amarrado ao corpo estava todo o material escrito e alguns documentos importantes escondidos por Vicente. Havia acordado em ser a testemunha que seu amigo não pôde ser e certificar-se de que Luísa tivesse uma vida pela frente, em troca Vicente negociou com os guardas e a diretoria da prisão todos os recursos que não levaria para o além, e ajeitou a fuga de João para uma semana após sua morte, tempo que não poderia pagar para ver.

À meia-noite, João ouviu passos no corredor, esparsos, lentos, se juntavam ao silêncio de tão discretos. Estava escuro e não conseguiu olhar para o rosto do guarda abrindo a sua cela, não prestava atenção em mais nada além da sua fuga. Com uma capa preta, camuflando-se na escuridão, correu pelo corredor tropeçando com tremedeira nos pés enquanto sentia seus lábios dando tremeliques, pensou que enfartaria, nunca havia sentido tanta pressão no peito antes. Chegou até o final do corredor bloqueado por um portão, abriu com as chaves entregues pelo guarda e passou pela guarita vazia. Ao sair no pátio, havia uma escada para subir o enorme muro dividindo a penitenciária da cidade afora, subiu e teve uma vertigem quando em cima do muro manobrou para colocar o primeiro pé na outra escada, esperando do lado de fora.

O pé escorregou.

João ficou pendurado.

Seu corpo estava pesado.

Sentia que ia cair.

Suportou até o último momento, com os pés conseguiu puxar a escada para si novamente, enquanto uma das mãos estava segura no muro, ajeitou seu corpo na escada de madeira e desceu.

Estava livre.

Fora da prisão.

Correu, correu, correu no meio da mata em frente, olhou para trás e viu todo o seu pesadelo desaparecer aos poucos. Sentia o rosto quente e inchado dos mosquitos que o assolavam, coçava, coçava, até sangrar. Estava tudo muito escuro e não enxergava onde pisava, se machucou nos pequenos gravetos das árvores cortando a sua pele, teve medo de não achar o caminho. Quando cansou já estava perto da rua deserta, um carro o aguardava com a chave dentro, rente onde terminava a mata. Ao entrar no veículo e fechar a porta, saboreou o silêncio, o vapor da respiração no vidro, curvou sua cabeça para trás do banco e gemeu de alivio. Sentiu o coração na garganta, o peito bater forte como se pudesse escutar todo o seu interior. Desamarrou do corpo os papéis e documentos, junto havia um envelope com uma quantia suficiente para que ele conseguisse cumprir o objetivo e uma foto de Amanda com o filho no colo. Colocou a foto no painel, acendeu a luz do carro e folheou os papéis. Com letras do próprio punho, Vicente destrinchou todo o esquema de corrupção com alguns documentos como comprovação. Atuava em uma das empresas que serviram como laranja numa imensa obra em Campos dos Goytacazes, roubando bilhões dos campistas, enquanto o povo morria na fila do hospital sem recursos e as mentes se petrificavam na extinção da cultura. Tanta injustiça não poderia passar em branco, conseguiram abrir uma CPI para investigação, mas eram muito poucos, os bandidos haviam comprado a maior parte dos vereadores, manobraram e conseguiram empurrar a investigação para o final da fila, com perspectiva de nunca ser aberta. Com o povo alienado, nem mesmo entenderiam que estavam sendo roubados e enganados, os eventos levando quase meio milhão de reais para bandas que cantam asneiras, deixando assim as mentes vazias tais como os eventos culturais, eram uma benção para qualquer político corrupto. João dobrou os papéis e escondeu debaixo do banco do carona, ligou os faróis e acelerou cortando a neblina noite adentro em direção a Campos dos Goytacazes.

 

***

 

João viu flores numa grande floricultura à beira da estrada enquanto viajava, flores de espinhos vivos, parou o carro e foi encontrar as flores que perfuram a pele dos que se entregam à sua beleza. Flores vermelhas brilhando sem luz, pegou flores sob a luz que a aquecia e viu a cor da flor se ofuscar ao chegar perto da escuridão do balcão, onde a pagou. Embrulhou num papel cor de rosa e guardou na parte de trás do carro com tanto carinho como se colocasse uma criança na cama. As flores, que logo morreriam por enfeitar a casa de uma pessoa desejosa de sua beleza, acompanharam-no pela viagem afora. Ainda faltava muito para voltar à casa e encontrar sua esposa. Caminho árduo pela distância da pessoa amada.

Viajou pelas estradas e pensamentos adentro, conseguiu chegar com o resquício doce da escuridão. Eram três horas da manhã quando João bateu à porta de Amanda com as flores em seu colo, o céu estava estrelado, uma noite de nuvens brandas, saudades e desejos. Noite de lágrimas, boca, lábios, dente e língua.

À medida que a porta se abria os olhos se emocionavam, e por ele a alma transbordava através das pálpebras, cílios e íris. Os ouvidos sedentos pelos gritos de saudade transmitidos pelo silêncio, tornavam-se surdos d’aurícula, orelha ao tímpano. Os lábios respiravam o desejo de serem preenchidos. Os olhos se beijaram em perfeita escuridão enquanto as bocas se abraçavam. Escuridão de diamante negro, de nuvens carregadas, de terra molhada. Como um dançarino de tango, João deixou seu braço caminhar pelas costas nuas de sua amada até tomá-la por completo. E ao tomar, apertou com força, peito contra peito, rosto contra rosto, amor contra dor. Como coreografia, fechou a porta com a ponta dos pés e com passos próximos a levou até a cama.

João a penetrou com todo o amor que existia em si. A pele beijou os pequenos mamilos se enrijecendo enquanto sentia a respiração ofegante de Amanda lhe arrepiar o pescoço. Os gemidos dos espíritos se abraçando com os corpos se conectando ecoaram pelos órgãos. Prazer, supremo, Amanda, contorcia, cabeça, peso, João, corpo,colante. Os movimentos rítmicos como as ondas do mar em calmaria subiam e desciam estouravam como as espumas do mar o mesmo som das conchas o mesmo sabor salgado amor, dor, or, r, donos do mundo. Enquanto a flor jogada no chão perdia sua pétala, João a amou como nunca houvera amado, beijou como nunca houvera beijado, desejou, como nunca houvera.

Instantes depois, escuta-se batidas firmes na porta. A pétala se perdeu, a vida emudeceu, amanheceu, a realidade, com ela, o dia. João não precisava abrir a porta para saber o que se encontrava do outro lado. Deu um beijo firme em Amanda e se vestiu. Foi o tempo de ouvir um grande barulho. A porta foi arrombada e policiais lhe apontavam armas enquanto gritavam para ele se deitar. A reação apática de sua esposa surpreendeu-o. Amanda sabia, ele não cumprira seu tempo de pena. Com o coração apertado, ela lhe disse enquanto era levado algemado:

“Volte para casa, meu bem.”

 

***

 

João entrou na parte de trás da viatura enquanto observava uma lágrima escorrer do rosto de sua esposa na porta de casa, aos poucos viu toda a imagem se esvair enquanto o carro se distanciava em direção a delegacia onde prestaria os depoimentos e cumpriria sua parte no acordo. Enquanto Amanda olhava os documentos e orientações deixado pelo seu esposo debaixo da cama ligava insistentemente para Rafael, que se escondia na casa de uma amiga, mas ninguém atendia e o desespero ocupou todo o espaço dentro de si. Não imaginava o mundo sem o filho, suas vidas corriam perigo desde agora e tinham de chegar o quanto antes ao aeroporto para partir com as passagens já deixadas por João no envelope com as orientações.

Mal se arrumou e correu para a garagem onde tirou o carro às pressas, o celular já marcava 16 ligações e ninguém atendia. Amanda tremia, as lágrimas simplesmente desciam sem perceber e banhavam os cortes nos lábios mordidos enquanto continuava tentando falar com seu filho.

Chegou à casa da amiga no bairro Flamboyant, estava toda escura, as luzes apagadas como se não houvesse ninguém. Saiu de um impulso do carro, largou aberto e ligado, correu, correu, correu, empurrou a porta da entrada com o ombro e entrou. Chamava por Rafael, mas ninguém atendia e quando estava prestes a perder a cabeça, sua amiga Letícia apareceu, escondendo parte do seu corpo na quina da cozinha. As duas se abraçaram, Letícia estava amedrontada e Rafael escondido na despensa, o celular não havia funcionado e não recebeu nenhuma ligação, como era comum pela área ruim daquela região. Sua amiga já estava pronta para partir também, mas não queria deixar a cidade, já tinha destino para ir naquele momento mesmo.

Amanda deu um abraço forte em Rafael e juntos correram até o automóvel, percebeu um farol no final da rua e teve medo de talvez já ser tarde demais. Teve dificuldade para dar a partida com as mãos trêmulas, acelerou o máximo que pôde sem sentir a força pela perna adormecida. Olhou no retrovisor, o carro continuava atrás mesmo com toda a velocidade e teve certeza de estar sendo perseguida. Dois minutos depois o celular toca com uma ligação de João.

– Não vá para o aeroporto! Estão esperando vocês lá!

Mas não havia solução, já estavam sendo perseguidos e a única maneira de se salvarem era no aeroporto, onde pegariam o voo para longe. Não sentia mais seu corpo enquanto acelerava, estava todo dormente e o rosto banhado em lágrimas. Pensou rápido, talvez já fosse tarde demais para se salvar, mas poderia salvar Rafael.

 

Terceiro Ato

 

Estavam próximos do aeroporto, e ao dobrar em uma rua escura gritou para Rafael saltar e se esconder num grande buraco de bueiro, onde o garoto ficou agachado esperando o tempo combinado. Amanda acelerou o máximo que pôde, numa rua movimentada atravessou o sinal e jogou o carro contra outro que passava. Parecia câmera lenta quando percebeu estar sem o cinto, seu corpo levitou, olhou, seu rosto rachou o vidro e se rasgou. Formou-se um corte até o nariz e o sangue tapou sua vista.Logo toda a rua se encheu, policiais e bombeiros.

Amanda saiu do carro todo quebrado do acidente, conseguiu perceber, de longe os seus caçadores observavam. Ajoelhou com a porta aberta, sentiu as pedrinhas do asfalto alfinetarem sua carne e começou a chorar pela morte de seu filho, mas não havia ninguém no carro. Algumas pessoas no entorno diziam, deus o levou antes do acidente, enquanto outras diziam ser um delírio, que já não havia ninguém mesmo. Mas Amanda sabia exatamente o que fazia. Com os bandidos observando a mãe chorando a morte do filho, acionaram para que todos os outros saíssem do aeroporto e se dirigissem para aquela região, onde estava Amanda.

Rafael, quando observou o movimento suspeito dos homens deixando o aeroporto rapidamente, não perdeu tempo e correu, correu, correu, com todas as forças do mundo, chegou ao aeroporto e pediu abrigo em uma sala até o seu voo estar preparado para partir.

João na porta da delegacia, enquanto se preocupava com o destino da sua família e o testemunho sobre Vicente, nem mesmo adentrou o espaço. Um atirador em um prédio distante acertou em cheio a sua nuca, espalhando sangue por toda a parede da entrada. Campos dos Goytacazes permaneceria sem conhecer seus maiores usurpadores.

Amanda estava feliz, deitada na ambulância, acabara de receber uma mensagem de Rafael dentro do avião, mas sabia, sua ambulância não chegaria ao hospital. Não demorou para ouvir uma freada brusca no meio da estrada e a porta de trás do carro se abrir.

Mas estava feliz, a sua melhor parte viveria.

 

FIM

 

***

 

Quando Daniel digitou a última palavra “FIM” e suas mãos pararam de se movimentar, sentiu o vazio de novo lhe preencher. Não escutava mais as vozes de João e Amanda. Havia matado mais dois amigos como tantos outros, sentia-se morrer a cada obra, mas estava orgulhoso de seu trabalho. Sentia-se feliz, pois a cada texto concluído era como se aproximasse mais de seu sonho. Mesmo as críticas sem fundamento o animavam, como se sentisse vivo para ir cada vez mais longe. Acendeu um cigarro e quando olhou para o relógio assustou-se, já eram quatro horas da madrugada, Balzac dormia ao seu lado, e Daniel já sonhava com os próximos amigos.

 

FIM

 

***

 

Continuo esse texto, na esperança de não perder Daniel, mas assim como as pessoas na vida, os personagens têm seu tempo de existência. Mas é dolorosa a partida, o pior é não ter despedida, simplesmente se vão, junto com a história. É muda uma vida feita de encontros e desencontros tão breves. Não aguento mais escrever contos pequenos e vivê-los tão pouco tempo.

Continuo escrevendo na esperança de não o deixar partir, mas como todos na vida, ele tem de ir…

É difícil escrever essa última palavra…

 

FIM

 

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Paula Vigneron — Via Crucis

Atafona, 04/08/14 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, 04/08/14 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Às sete horas da noite, Ana transita pelas ruas do Centro da cidade. Caminha rapidamente. Tenta acostumar o ritmo das pernas à urgência dos minutos. Enquanto alterna os pés, se cuidando para não tropeçar e perder tempo até se restabelecer, sua cabeça é tomada pelo retrato do dia estampado nas capas de jornais. Crimes. Abusos. Limites ultrapassados. Desrespeito ao ser humano.

Ana acelera.

As últimas semanas têm sido trágicas. Mulheres violadas com suas histórias devassadas nos noticiários. De quem é a culpa? Dela? Não. A culpa é de quem a olha, mas não a enxerga. Ser humano. Aqui e ali, vozes se unem em gritos de alerta para mostrar à sociedade os atos monstruosos a que ela está sendo submetida.

A rua está escura. Falta um trecho longo para chegar ao ponto de ônibus. Atrás, passos seguem o caminho pisado por ela. Escutando a respiração ofegante que vinha de alguém, as linhas dos textos jornalísticos berram, em seus pensamentos, as mensagens anunciadas:

Uma estrangeira de 22 anos é estuprada, no Catar, e presa por fazer sexo fora do casamento.

Uma estudante é violentada a caminho da escola, em uma manhã aparentemente tão comum quanto as outras.

Na rua dela, uma menina gritou, à noite, e ela não soube o motivo.

Em uma cidade próxima, uma jovem de 16 anos foi abusada por 33 homens.

Os passos atrás ficam mais rápidos.

Ana segura a bolsa.

“Meu Deus, que seja só um assalto. Que levem bolsa, dinheiro e celular, mas deixem a minha dignidade”.

Ana afrouxa a bolsa.

Noites passadas, conversara sobre os medos de ser mulher. E, enquanto falava, seus temores tomavam proporções cada vez maiores. Andar na rua sem saber se conseguirá voltar para casa. Olhar para os lados até se certificar de não estar sendo seguida. Atravessar a rua quando homens estranhos sem aproximam e ignorar palavras imundas que saem de suas bocas quando ela passa.

Ana respira fundo para controlar os tremores.

A poucos metros, a rua mais escura, avista o ônibus. Parado no ponto. Mais uma vez, roga a Deus. “Que ele não saia até a minha chegada. Que ele espere para que eu não fique sozinha”. Posiciona-se para atravessar a rua. Tinha certeza de que os passos continuavam ali. Vagarosamente, para não chamar a atenção, virou o pescoço. Não havia homem. Nem mulher. Expirou, aliviada, e entrou no ônibus seguida por seus medos.

 

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Oposição rola a bola para Garotinho chutar

Bola nas costas 1

 

 

Ontem não foi só o dia em que o pré-candidato da situação Dr. Chicão (PR) surfou (aqui) em pautas positivas do governo, ao lado da prefeita Rosinha (PR) e depois do secretário de Governo Anthony Garotinho (PR), enquanto o vereador Rafael Diniz (PPS) e Caio Vianna (PDT) se esforçavam para apagar incêndios (aqui) mutuamente ateados por suas pré-campanhas de oposição.

Ontem também foi o dia em que Gil Vianna (PSB), outro pré-candidato de oposição e vereador, disse aqui na sessão da Câmara:

—  Pegaram três empréstimos e vão jogar a conta para a população. Na visão deles, o povo é trouxa e tem que pagar.

Tirada de contexto, a afirmação “o povo é trouxa” foi rapidamente massificado nas redes sociais pelo exército virtual dos 1,4 mil DAS e 2,5 mil RPAs do governo rosáceo, pagos com dinheiro público real. Como reais foram as consequências que fizeram Gil, na sessão de hoje da Câmara, tentar aqui consertar o estrago:

— Falei ontem. Sou bastante homem para assumir. A cidade está sendo enterrada. Represento milhares de votos por meu perfil direto e transparente. E algumas pessoas tentam me desqualificar. Trouxa é um termo informal para classificar uma pessoa que é facilmente enganada, boba, vamos dizer assim. O Hospital São José, obra começou em 2013 e até hoje nada.

Na emenda talvez pior que o soneto, em ambos os casos do governo se aproveitando dos erros da oposição, a certeza da advertência feita desde março (aqui) pelo advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos:

— Nesse jogo todo, só há um político profissional de verdade, e ele não está na oposição.

 

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Rafael e Caio aparam arestas, enquanto Rosinha e Garotinho posam com Chicão

Se os pré-candidatos a prefeito Caio Vianna (PDT) e Rafael Diniz (PPS) tiveram que intervir (aqui) para conter as provocações públicas entre alguns de seus principais correligionários, a atitude parece ser oposta no seio do garotismo. No paralelo estabelecido aqui pelo “Ponto final”, coluna de opinião da Folha, ontem, mesmo dia que o estranhamento se dava entre duas das principais pré-candidaturas de oposição, tanto a prefeita Rosinha Garotinho (PR), quanto seu secretário de Governo e marido, Anthony Garotinho (PR) posavam com fotos com quem, como foi antecipado aqui, caminha a passos largos para ser o candidato governista a prefeito: o atual vice Dr. Chicão (PR).

Na dúvida, confira abaixo as fotos de Chicão feitas ontem com Rosinha, quando esta anunciou (aqui) o início do agendamento na Prefeitura para legalização de imóveis, e com Garotinho, poucas horas depois, na inauguração (aqui) da primeira etapa do Bairro Legal Jóquei II:

 

 

Chicão e Rosinha ontem no projeto “Lote Legal” (foto: Secom)
Chicão e Rosinha ontem no projeto “Lote Legal” (foto: Secom)

 

 

Chicão e Garotinho, ontem, no projeto “Bairro Legal” (Secom)
Chicão e Garotinho, ontem, no projeto “Bairro Legal” (Secom)

 

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Guerra e paz: Caio e Rafael pacificam provocações entre Bacellar e Sérgio

Rafael e Caio quando selaram em fevereiro um pacto de não agressão para as eleições de outubro (foto: divulgação)
Rafael e Caio quando selaram em fevereiro um pacto de não agressão para as eleições de outubro (foto: divulgação)

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Desde o início, tenho dito que todos os pré-candidatos têm que ser respeitados. Vou continuar me pautando nisso e assim caminharei até o fim, como estamos fazendo nessa pré-campanha”, assegurou o vereador e pré-candidato a prefeito Rafael Diniz (PPS). “No Facebook se fala muita coisa. Sérgio (Mendes) é só mais um. Ele responde por Rafael? Acho que ele (Rafael) não compactua com esse tipo de ação. Estamos agora preocupados em montar uma boa plataforma de governo, não na disputa eleitoral. Campos precisa ser pacificada”, pregou Caio Vianna (PDT), também pré-candidato a prefeito.

O discurso pacificador dos dois jovens políticos endossa o acordo de não agressão na disputa eleitoral de outubro, selado (aqui) no começo de fevereiro. No encontro há quatro meses, ambos posaram para fotos e ensaiaram o discurso comum:

— A maturidade tem que prevalecer. Campos é maior do que desejos pessoais.

Mas se maturidade é sinônimo de união, sobretudo na oposição comum a um grupo que está no poder do município há 27 anos, os aliados mais experientes de Rafael e Caio parecem querer caminhar em sentido contrário. E o palco dessa disputa tem sido as redes sociais. Foi nelas que o ex-prefeito Sérgio Mendes, presidente municipal do PPS de Rafael, aproveitou a última segunda (20) para desejar (aqui) uma boa semana e, mesmo sem nomes, fazer a clara provocação:

— Marido mandando na prefeitura no lugar da mulher: basta! Mulher mandando no lugar do ex ou do rebento: nem pensar! Penso que carecemos de alguém com vôo próprio, ética, coragem, competência, determinação, sobretudo independência, para uma efetiva mudança. Boa semana amigos!

Conhecido por seu estilo combativo e direto, o ex-vereador Marcos Bacellar (PDT), aliado de Caio, esperou um dia para reagir duramente, também em seu perfil de Facebook. Nele, escreveu (aqui) ontem:

— O ex-prefeito Sérgio Mendes, um político local que foi varrido para a tumba em 1996, é um dos zumbis a desfilar pela rede social escrevendo asneiras. Agora mesmo está agredindo gratuitamente pré-candidatos de oposição. Tenta agir em nome do vereador Rafael Diniz. Resta saber se tem procuração para essa empreitada suja. Saiu da Prefeitura pela porta dos fundos. Dois anos depois teve menos de quatro mil votos ao postular um mandato na Alerj. Não conseguiu eleger a esposa como vereadora e, mais recentemente, no governo Mocaiber (quem diria!), foi parar na Codemca para cuidar dos cemitérios da cidade.

Depois do contravapor de Bacellar, Mendes ontem tentou (aqui) baixar a corda:

— Campos precisa de serenidade, bom senso e um projeto alternativo para seu desenvolvimento sem a dependência dos royalties. No mais, no que me cabe, não quero, nem vou transformar esse pleito em uma luta de UFC.

Resta saber se esse “combate” pré-campanha foi mesmo de UFC, ou do seu antecessor telecatch, onde as lutas são coreografadas.

 

Página 3 da edição de hoje (22) da Folha
Página 3 da edição de hoje (22) da Folha

 

Publicado hoje (22) na Folha da Manhã

 

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Ocinei Trindade — Entre a morte e o perdão

Ocinei 21-06-16

 

 

— Estava em Orlando me divertindo, na terra da magia e da fantasia. De repente, eu e um grupo de amigos, além de muitos desconhecidos amigáveis, decidimos entrar na Boate Pulse. Lugar daqueles que a gente vai para ser igual a todo mundo e ver se há alguém diferente para dividir os dias, pois sabe como é, né? Todos nós queremos alguém para viver uma eternidade, nem que seja por umas horas, uma noite, uma semana. Ah, tá bom, eu quero alguém sim pra chamar de meu. E se o amor da minha vida estiver na boate? Bem, caso não esteja, pelo menos a gente desfila e pega geral. Vai que dá certo? Fico enlouquecido quando toca Lady Gaga. Não sei o que me dá. No último dia 12, tinha um cara bem gato na boate. Não sei se era latino ou grego. Depois disseram que era do Afeganistão. Aí, lembrei daquele lugar cheio de gente doida, do Talibã, e daquelas mulheres vestidas de burca. Muito louco, né. Só sei que gostei do afegão, baby. Achei que ele também gostou de mim, mas assim, do nada, o cara surgiu com uma bazuca na mão (e que bazuca, honey). Depois o bofe-escândalo desatou a atirar. Gritei feito bicha histérica e corri. Tive que fugir, mas não sabia pra onde. Me deu uma tristeza, um vazio, uma solidão. Lembrei da minha família e dos meus amigos. Eu quis estar com eles — disse o jovem de vinte e dois anos.

— Nossa, eu tinha muita coisa para estudar, mas estava de saco cheio e meio deprimida. Faz um mês que terminei meu namoro com um guri. Pensei que a gente fosse voltar, mas que nada. Soube até que ele está ficando com uma talzinha aí. Me disseram que é bonita. Eu disse que não estava nem aí mais para aquele imbecil. Pior que eu menti. Se ele quisesse voltar, eu acho que não resistiria mentir por muito tempo. Então, voltando à conversa anterior, eu tinha prova de geometria supercomplicada no dia seguinte, mas optei dar um tempo e me fazer feliz por algumas horinhas. Minhas amigas me convidaram para ir na boate Kiss de Santa Maria, tinha uma banda que adoro, a Gurizada Fandangueira, e sei que meu ex também adora. Vai que eu encontrasse ele lá? Me produzi toda e fui mais linda possível, pois se ele estivesse com a periguete, eu não podia estar de baixo, veja só. Era janeiro de 2013. Lá pelas tantas, uma gritaria, uma confusão com fogo e fumaça na boate. Não entendi nada. — comentou a linda morena de vinte anos apenas.

— Já eu adoro o rock do Callejeros. O quê? Você não conhece a banda argentina? Hombre, tienes que conocir. Outro dia, nem faz tanto tempo assim, foi em 2005, fui assistir a Callejeros na boate República Cromagnon. Não sabe onde fica? Carajo, pelo visto você nunca esteve em Buenos Aires, não é? Melhor lugar da América do Sul, quiçá, de toda a América. Vivo na melhor cidade do mundo. Tierra de gente inteligente y guapa.  Buenos Aires é grandiosa. Temos os melhores vinhos, as melhores carnes, o melhor futebol, temos um deus que se chama Diego Maradona e agora um Papa. Hombre, Jorge Bergoglio é tudo de bueno, Temos a música mais envolvente, a dança mais apaixonante que é o tango, além do tango eletrônico, lógico. Somos evoluídos, o casamento gay é normal, plantar maconha em casa e fumar marihuana na rua é normal. Bem, só para lembrar que eu estava naquele exato dia na Cromagnon e algo estranho aconteceu. Também acho que sinais de fogo apareceram. Fue mucho loco — lembrou o portenho passional de dezenove anos.

— Eu tenho dezoito anos. Acho que já faz seis anos, se eu não me engano, era junho de 2008. Fui a ao aniversário de um amigo na Baronetti, em Ipanema, boate supermaneira, mermão. Pô, brother, tava cheio de gatinha naquela noite. Zuamo tudo, tá ligado? Pegamu xeral. Foi bem irado, alto astral. Me amarrei de montão. Aí, por volta das cinco horas da madruga, decidimos sair. Cara, pintou uma confusão de repente do outro lado da rua. Quando dei por mim, eu estava caído no chão apanhando. Levei muita porrada. De repente, o segurança da boate que era policial militar mas não estava de serviço, deu dois ou três disparos para apartar a galera. Cara, não vou te negar não, parada sinistra aquela. Demorei um pouco pra perceber que um dos tiros pegou em mim, mermão. Muito over aquela parada, um tiro bem no meio do meu peito — lamentou o jovem lindo e louro.

— Vocês são todos velhos. Eu tenho seis anos apenas, mas sou uma menina muito inteligente. Sei tudo o que gente grande fala em faz. Eu presto atenção em tudo. Nasci em Aurora, no Colorado. Onde fica? Well, well, let me say: United States of America, of course. Yes, I am American. Bem, eu gosto de fazer muita coisa. Gosto de brincar com minhas bonecas, jogar videogame com meu pai e adoro quando ganho dele. Sei que ele finge perder pra mim às vezes, mas é que ele não gosta de me ver triste. Como eu vim parar aqui? Isso eu não sei direito. Minha cabeça às vezes mistura fantasia e realidade. Sabe coisas da Disney, da Pixar, da Marvel? Então, é meio assim. Só sei que eu estava no cinema para ver Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge. Adoro o Homem-Morcego. Eu queria morar em Gotham City. Naquele dia, em julho de 2012, lembro bem o ano, um homem muito estranho entrou no cinema e atirou na direção de todo mundo. Eu contei direitinho: os tiros atravessaram doze pessoas. Saiu muito sangue e elas ficaram caídas no chão — contou a garotinha.

— Eu sou pedreiro. Nasci no Rio de janeiro. Não sei ler, nem escrever. Não sei ao certo minha idade. Meus pais tiveram doze filhos. Sou o sétimo. Nasci e cresci na Rocinha. Sou casado e tenho seis filhos. No dia 13 ou 14 de julho de 2013, mais de trezentos policiais fizeram operação na favela. Era pra prender bandido e suspeito de bandidagem. O tráfico de drogas come solto nos morros. Fizeram uma tal de UPP. Chamam de Polícia Pacificadora. Naquele dia me confundiram com traficante. Sabe como é. preto e favelado já não têm muito cartaz com a sociedade. E o pessoal da polícia parece ter mais raiva ainda de preto e favelado. Prenderam um bocado de gente, mas nem sei no que deu. A polícia prende, mas tem advogado pra soltar, aí já viu. A polícia no Brasil tem fama de violenta e corrupta. Mas como eu posso subornar policial se nem tenho onde cair morto? Só sei que eu desapareci. Não voltei mais pra Rocinha, nunca mais vi meus filhos e minha mulher. Eu sumi. É só o que me lembro. Eu sumi — relatou o perturbado pedreiro.

—  Voilá!  Très bien! Acho que sou o mais velho dentre todos aqui. Tenho 42 anos e sou francês. Nasci e sempre vivi em Paris. Trabalhava no prédio do jornal Charlie Hebdo. Não, eu não sou chargista, nem cartunista, nem jornalista. Eu cuidava da zeladoria do prédio onde funciona o jornal. Era tenso trabalhar ali. Havia muitas críticas às publicações. Religiosos de todo gênero torciam o nariz com as piadas que faziam. Ah, judeus, cristãos em geral, mas sobretudo os muçulmanos que não gostavam que criticassem o profeta Maomé.  Acho meio esquisito não poder fazer piada de um profeta, já que fazemos piada direto sobre Jesus Cristo, Santa Maria e do próprio Deus. Entretanto, não dá para saber o que passa na cabeça das pessoas. Havia um grupo extremista do Estado Islâmico que estava bastante furioso com o pessoal do jornal e fizeram ameaças. Nós franceses estamos mais que acostumados com a liberdade de expressão, mas tem árabes que não sabem o que é democracia, por exemplo. Só sei que no dia 7 de janeiro de 2015, bem recente, Paris ficou em choque. Terroristas entraram na sede do jornal e atiraram pra todo lado. A França e a Europa entraram em alerta. Disseram que mataram doze e feriram muitos — comentou o funcionário do edifício alvejado.

— Eu sou Ocinei Trindade. Tenho 46 anos, sou jornalista, estou fazendo pós-graduação para dar aulas futuramente na universidade, e tentar sobreviver no Brasil que está um caos política e economicamente. Estudar é preciso. Pensar e refletir idem. Estou sem trabalho fixo. Milhões de brasileiros também estão.  Eu escrevo para meu blogue quando estou inspirado e estou colaborando com a coluna Opiniões do jornal Folha da Manhã por uma temporadaEu converso com mortos. Sim, com mortos. Converso com Freud, Shakespeare, Machado de Assis, Clarice Lispector, Schopenhauer, Marx, Sócrates, Aristóteles, Platão e companhia. Converso até com meus pais, avós e amigos mortos. Eu penso muito. Sofro muito por pensar muito, mas sofro também quando a mente está vazia e não há inspiração para escrever. Bem, minha memória não cabe tudo e nem me lembro de tudo. Eu queria dizer a vocês sete que estão aqui nestes relatos, que eu não sei o nome de vocês com certeza, mas poderia dar um nome qualquer para que não ficassem no anonimato. Sei que de fato, vocês existem na frágil e falível história humana. Eu recorri à Internet para recriar alguns fatos marcantes dos últimos tempos, como incêndios em boates, atentados frequentes nos Estados Unidos, crimes bárbaros no Brasil, ataques terroristas na Europa e no mundo. Não deu pra falar de todas as atrocidades na Venezuela, Síria, África, América Latina. O mundo está bastante complicado, apesar dos avanços tecnológicos. Bem, quero dizer aos sete que, além de eu falar com mortos, eu invento e reinvento mortos. Vocês sete, por exemplo, não sobreviveram a essas tragédias. Vocês e outros tantos morreram, não existem mais. Vocês são mortos, por isso converso com vocês também. Mas há resquícios de memórias. Vocês deixaram famílias e amigos de luto. Alguns ainda choram a ausência de vocês.  A vida é muito curta e passa muito rapidamente. Quero dizer que a maioria da Humanidade não soube da existência, nem da morte de vocês. Milhões e milhões, bilhões e bilhões de pessoas morreram também, antes de vocês. Morreram por coisas mais estúpidas, como por exemplo, guerras e governos corruptos, organizações criminosas como tráfico de drogas, de mulheres e crianças. Morreram por doenças banais, fome, desnutrição, falta de comida, moradia e assistência médica. O pior é que em pleno século XXI, com todo o avanço e conquistas, milhões de pessoas continuam morrendo por esses mesmos motivos e por qualquer tipo de violência (sexual, inclusive) e imbecilidade. Ainda há gente sendo escravizada. Há intolerância e desrespeito de todo tipo. As pessoas continuam morrendo por falta de amor, respeito e compaixão. Holocaustos não cessam. Acho que a humanidade é um projeto que não tem dado certo há milênios, desde que aprendemos a escrever e a registrar a História. Pensando bem, eu não sei quem está em melhor situação. Se vocês que estão mortos, ou se nós que pensamos estarmos vivos. Tenho a sensação de que nós já morremos também, mas ainda podemos inventar histórias e sonhar com final feliz. Não sei bem a quem pedir perdão e a quem perdoar. Viver e morrer são coisas confusas e doloridas. Só sei que todos nós temos que seguir sobrevivendo. Até o fim.

 

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Caio e Rafael botam panos quentes na polarização Sérgio/Bacellar

Rafael e Caio quando selaram em fevereiro um pacto de não agressão para as eleições de outubro (foto: divulgação)
Rafael e Caio quando selaram em fevereiro um pacto de não agressão para as eleições de outubro (foto: divulgação)

 

Os pré-candidatos a prefeito Rafael Diniz (PPS) e Caio Vianna (PDT) se posicionaram sobre a troca de farpas entre o ex-prefeito Sérgio Mendes (PPS) e o ex-vereador Marcos Bacellar (PDT), tratada aqui e aqui, nas postagens abaixo, com relação às eleições municipais de outubro:

— No Facebook se fala muita coisa. Sérgio é só mais um. Campos precisa ser pacificada — pontuou Caio.

— Desde o início, tenho dito que todos os pré-candidatos têm que ser respeitados — lembrou Rafael.

 

Leia amanhã a íntegra da matéria na edição impressa da Folha

 

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