Aos motivos já expostos aqui para anunciar a estreia do escritor capixaba Fabio Bottrel, pouco ou nada resta a acrescentar a este anúncio do escritor e jornalista itaperunense Guilherme Carvalhal como novo colaborador do blog. Amanhã (07/04), ele inicia sua participação quinzenal neste “Opiniões” — quinta sim, quinta não. Em quarta de véspera, fiquemos com o prólogo da sua carta de intenções:
Escritor e jornalista Guilherme Carvalhal
Após sete anos afastado da Folha da Manhã, recebo o convite do Aluysio Abreu Barbosa para colaborar quinzenalmente em seu blog. No período em que atuei no jornal, passei pelas editoriais de Cultura e Geral (Folha Dois), mas essa nova colaboração se dá em um gênero diferente de texto, através da ficção.
Do trabalho jornalístico iniciado pouco após minha graduação (formei-me em Jornalismo na cidade de Itaperuna em dezembro de 2006 e comecei a trabalhar no referido jornal em novembro de 2007), aos poucos comecei a enveredar pelo ramo que me levou a optar pela opção dessa carreira, que é trabalhar com ficção. Nesse ínterim, foram cinco romances publicados, sendo o quinto — Conversa de Pedra — o trabalho mais atual e no qual estou envolvido na divulgação.
O passar dos tempos leva por caminhos diferenciados. Se em 2007 ingressei para iniciar minha carreira no jornalismo, em 2009 saí e retornei a Itaperuna com planos para tentar mestrado. Da tentativa não sucedida vieram outras oportunidades de trabalho, como na área de comunicação empresarial. Soma-se a isso uma segunda graduação, dessa vez em Administração, e uma tentativa mais positiva de conseguir ingressar no mestrado, abortada pelo agravamento de um problema de saúde (já devidamente controlado).
Trabalhar com ficção iniciou-se em 2011, por autopublicação. A travessia até se conseguir uma voz própria é demorada e complexa. Esse trabalho atual, Conversa de Pedra, é o mais sólido e maduro até agora, fruto de muito tempo de esforço e dedicação.
Para esse espaço, estarei apresentando contos de ficção, fruto de vivências e da tentativa por buscar uma voz própria. Explicar a proposta é algo contraproducente por natureza, tendo em vista que o objetivo da literatura é ser sua própria voz, independente de explicação. Então, deixo meu agradecimento pelo convite e a expectativa de agradar aos leitores.
Depois de cinco mandatos de deputado estadual, os três últimos consecutivos, João Peixoto (PSDC) disse ter sido cobrado pelos eleitores para se lançar à Prefeitura de Campos. Pela trajetória, diz não poder ser vice na chapa de ninguém, a não ser do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PEN), que mais uma vez se vê diante da impossibilidade jurídica. Peixoto criticou a desunião de uma oposição fatiada em muitas pré-candidaturas: “inclusive a minha”.
Deputado estadual e pré-candidato a prefeito João Peixoto (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
Pré-candidatura – Já tive todos esses mandatos de deputado estadual (1994, 98, 2006, 2010 e 2014). Aí, meus eleitores me cobram por que eu não venho candidato a prefeito de Campos. Resolvi, então, me lançar. Tem gente que fala que eu digo que vou ser candidato e depois desisto, mas nunca me lancei pré-candidato a prefeito. Pode ver nos arquivos dos jornais e das rádios. Agora, eu tenho um incentivo muito grande do ex-governador Sérgio Cabral (PMDB), que me falou que seria a minha vez.
Oposição – Vejo hoje a oposição muito desunida, com muitas pré-candidaturas, inclusive a minha. Agora, eu sou pré-candidato pela minha trajetória, não porque quero ser candidato. Eu nunca tive a oportunidade de ser candidato, e a oportunidade é esta.Se houver uma união da oposição, essa Prefeitura cairá em seu colo. Mas se permanecer desunida, vejo muito dificuldade para a oposição pegar essa Prefeitura. As pesquisas apontam que só três, em cada 10 campistas, votam no governo. Mas se saírem, por exemplo, sete candidatos, pode ser que cada um fique com 1%. E um não ganha de três.
Fogueira das vaidades – Vejo que existe. Para mim, é vaidade, sim: cada um querendo ser candidato. E não é a hora de vaidades. Em mim, não existe vaidade, existe realidade. Não posso, com todos esses mandatos (cinco para deputado estadual) ser vice de outro candidato. A não ser de Arnaldo Vianna (PEN). A oposição tem que calçar as sandálias da humildade. Estou aí, para sentar com qualquer um que estiver em busca de diálogo. Quem sabe se, com diálogo, a gente não chega a um denominador comum? Ainda há tempo.
Governo Rosinha – Vejo muita reclamação do governo nas ruas. A arrecadação diminuiu muito, as pessoas não entendem e são inúmeras as reclamações. Além disso o governo se abriu muito, em muitas frentes de obra. Aí, na hora da perda, da dificuldade, o que se vê são esse bando de obras inacabadas e o povo cobrando por mudanças. É por isso que eu me lancei como alternativa.
Dicção – Vou aos debates normalmente. Se fosse para debater coisas jurídicas, eu poderia até debater, mas não é o meu forte, porque não sou advogado. Mas é uma certeza que, sobre cada assunto do município, eu vou me calçar com as pessoas que entendem. Não vejo problema nenhum nisso, muito ao contrário. Quando eu fui assumir a secretaria (municipal) de Agricultura (no governo Arnaldo, em 2003), eu substituí um engenheiro agrônomo. E me lembro que num comício de (Carlos Alberto) Campista a prefeito, ele chegou a dizer num comício que eu fui o melhor secretário de Agricultura da história de Campos. Tanto que fiquei no cargo nos governos seguintes, tanto de Campista, quanto de (Alexandre) Mocaiber. Um bom gestor não é necessariamente o melhor numa área, mas aquele que sabe se cercar dos melhores.
Vice – Eu e Rogério (Matoso) não chegamos a formalizar um acordo, tivemos apenas uma conversa. E foi quando ele ainda estava no PMB. Aí, eu peguei o Pros, Albertinho (vereador, ex-Pros) pegou o PMB e Rogério foi para o PPL de Henriques, que ninguém sabe se está no governo ou voltou mais uma vez à oposição.
Nominata – Nossa nominata é muito boa. Acredito que nós, do PSDC e Pros, vamos fazer cinco vereadores. Dois com mandato, nós já temos: José Carlos e Dayvison. Temos também ex-vereadores, como Alciones Rio Preto, Marcos Alexandre e Dr. Admardo. Também temos o presidente do Pros, o Robinho Pitangueira, que é suplente de deputado estadual. E temos outros que ainda não foram testados e vão surpreender.
Página 3 da edição de hoje (05/04) da Folha da Manhã
Deputado estadual e pré-candidato a prefeito João Peixoto (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)
“Vejo hoje a oposição muito desunida, com muitas pré-candidaturas, inclusive a minha”
“Não posso, com tantos mandatos (cinco para deputado estadual) ser vice de outro candidato. A não ser de Arnaldo Vianna (PEN)”.
“Nossa nominata é muito boa. Acredito que nós, do PSDC e Pros, vamos fazer cinco vereadores”
Estas foram algumas das coisas que pontou hoje o deputado estadual João Peixoto, pré-candidato a prefeito pelo PSDC. Confira a íntegra da sua entrevista amanhã (05/04) na Folha da Manhã.
A partir de uma entrevista com o senador Delcídio do Amaral (sem partido/MS), ex-líder do governo federal no Senado, que foi preso e fez delação premiada na operação Lava Jato, o New York Times dedicou grande parte das suas edições virtual de ontem e impressa, aos escândalos de corrupção no Brasil e à ameaça de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Na capa de hoje do mais importante jorna dos EUA, estão estampadas as fotos de Dilma, Delcídio, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do juiz federal Sérgio Moro, além do protesto de rua do último 13 de março, maior da história do país.
As matérias originais, em inglês, podem ser conferidas aqui e aqui. Suas repercussões na mídia nacional podem ser lidas aqui e aqui.
Dilma, Lula, Delcídio e Sérgio Moro na capa de hoje do New York Times
Sou contra o argumento jurídico do pedido de impeachment, pois a reprovação das contas do governo da presidente pelo TCU consiste no atraso do repasse de recursos do governo a bancos públicos, e isso não configura crime de responsabilidade. Vários juristas afirmam ainda que a presidente não pode ser responsabilizada por fatos ocorridos no primeiro mandato. Nesse cenário, não há possibilidade de impeachment do presidente da República por ato praticado em mandato anterior. Em relação aos crimes apurados na operação Lava Jato sou a favor de que sejam todos responsabilizados na forma da lei.
Marcão Gomes, vereador (Rede) e servidor público federal
Faço parte dos 68% de brasileiros que são a favor do impeachment e que foram as ruas no dia 13 de março. Fiquei triste, pois fui o único vereador a participar das manifestações em nosso município. Hoje como todo brasileiro venho sofrendo com tanta irresponsabilidade do governo federal. E como empresário fico ainda mais triste, pois só em 2015 foram fechadas quase 100 mil lojas no Brasil, com o aumento de impostos e o alto desemprego. Como ser contra o impeachment considerando que o assalto aos recursos da Petrobras, durante oito anos, de bilhões de reais, sem que a presidente da República soubesse, constitui omissão, negligência e imperícia, confirmando improbidade administrativa, portanto havendo provas para um processo de impeachment de acordo com a lei nº 8.429 de 2 de Junho de 1992?
Atafona, aurora de 26/02/16 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Beque de roça tecnológico, pedi a Antunis Clayton que levasse um gravador e me emprestasse para a entrevista. Ao contrário do hábito, não preparei pauta, nem estudei vida e carreira do entrevistado. Julgava ser capaz de fazê-la bem, só batendo de prima da memória.
“Entre as curvas da estrada e do rio” encarnado verso em “epifania”, ouvíamos a guitarra de blues do inglês Matt Scofield e subíamos o Paraíba do Sul. Já escrevi (aqui) que a RJ 158, entre Campos e São Fidélis, está entre as mais lindas que conheço, junto da Turmalina/Diamantina, trecho da BR 367 no norte de Minas Gerais; da Esparta/Olímpia, no Peloponeso (GRE); e todos os caminhos das Highlands (“Terras Altas”) da Escócia e do sul da Toscana (ITA), que chegam e saem de Siena — linda cidade que batiza um carro feio.
Chegados ao sítio do deputado federal Paulo Feijó (PR), Antunis saca da sua mochila o gravador. Eu me espanto e Tércio Teixeira, o repórter fotográfico, ri, ao perceber que se trata de um daqueles antigos “tijolões” de fita cassete. Completava o anacronismo o elástico improvisado no lugar da tampa, para as pilhas não caírem.
Após pensar, constatei que o tempo do qual falaríamos era o mesmo da tecnologia que nos gravaria o som. E por isso ri também, num alívio curioso e involuntário. Entramos e caminhamos ao longo da antiga linha de trem e do rio, até avistar homens de meia idade brincando como crianças dentro e ao redor da quadra de futevôlei, enquanto crianças de verdade corriam alheias ao entorno.
A primeira entrevista, no deck da piscina ao lado da quadra de areia, foi com o ex-atacante Cláudio Adão. Meu pai me dizia que, quando ele surgiu, ainda garoto, no Santos dos anos 1970, era apontado como o sucessor de Pelé, que ainda jogava, já perto de encerrar a carreira. Ademais, me lembro com vista própria de Adão jogando no Flamengo de Zico, entre o final dos anos 70 e início dos 80, no qual se notabilizaria outro centro-avante de menos técnica, mas decisivo: Nunes.
Lançado também no Flamengo, ainda com Zico, Leandro e Andrade, na segunda metade dos anos 1980, meu objetivo se mostrou à primeira vista esquivo e tímido, como sempre me pareceu ser nos tempos de jogador. A impressão foi reforçada quando começamos a entrevista, onde aos poucos, ao perceber o conhecimento de pormenores das suas jogadas e carreira, foi se soltando o ex-zagueiro Aldair, do Flamengo, Benfica (POR), Roma (ITA) e Seleção Brasileira, Tetracampeão do Mundo na Copa de 1994, na qual foi um dos destaques.
Acabamos a entrevista (aqui), apertei sua mão e disse: “Você foi o maior zagueiro que vi jogar!”. Despedimos-nos dele e dos demais, e saímos logo depois. Como estávamos já no início de tarde de sábado, sabia que a entrevista só daria para ser degravada e editada no correr da semana seguinte.
São engraçadas as impressões de uma entrevista que fizemos. Geralmente temos uma opinião sobre ela quando a acabamos, outra depois que a tiramos do gravador e uma terceira após a lermos impressa. Com Aldair, me valeu como segurança o que disse o Tércio logo depois da entrevista, que acompanhou com olhos atentos na câmera e ouvidos ao papo: “Vocês foram ficando visivelmente emocionados, principalmente quando começou a relembrar nas suas perguntas os detalhes dos lances dele no campo”.
Com a semana seguinte cheia de trabalho laico, apesar de santa, aproveitei o feriado da Páscoa para ir a Atafona, com meu filho e seu cão, um buldogue francês tigrado chamado Zidane, desde a noite da Quinta-Feira da Ceia. Na Sexta da Paixão, dediquei manhã e início da tarde à pauta de outra entrevista (aqui), mais técnica, mas também mais prática, porque por e-mail, sobre o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT), com o advogado tributarista Carlos Alexandre de Azevedo Campos, ex-assessor do Supremo Tribunal Federal.
No resto da tarde de sexta, noite e início da madrugada, tirei do gravador, editei e fiz a abertura da entrevista com Aldair. Irônico, mas de crença difícil, foi o fato que, no mesmo quarto onde meu filho já dormia, ao final da degravação, exatamente quando Aldair falava da falha da marcação coletiva na final da Copa de 98 (França 3 a 0 Brasil), na qual a Seleção Brasileira sofreu dois gols de cabeça do craque Zidane, em cobranças de escanteio, o cachorro Zidane passou a me lamber.
Acabei a entrevista, desci à área externa e fui tomar sozinho, já na madrugada do Sábado de Aleluia, a primeira cerveja daquela semana santa. Cercado por muitos ídolos dos campos citados por outro, todos revisitados no encanto de quem passeia entre os heróis homéricos da sua juventude, o primeiro casco vazio de cerveja ganhou companhia na celebração do trabalho.
Até a “aurora de dedos róseos” anunciar o sol.
Aldair dos Santos Nascimento e Aluysio Abreu Barbosa, em 19/03/16 (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)
Jamegão – Junto com a prefeita Rosinha e Benedicto Júnior, o BJ da Odebrecht, outro executivo da empreiteira, Leandro Andrade Azevedo, assinou a primeira etapa do “Morar Feliz”, que teria mais três aditivos e uma segunda etapa, suspensa no final por falta de pagamento
Por Aluysio Abreu Barbosa
Mas será o Benedito? Se for com um “c” entre o “i” e o “t”, é ele mesmo: Benedicto Barbosa da Silva Júnior, presidente da Odebrecht preso na 23ª fase da operação Lava Jato, batizada de “Acarajé” e realizada pela Polícia Federal (PF) em 22 de fevereiro, por decisão do juiz Sérgio Moro. Foi também na residência de Benedicto, no Rio de Janeiro, que a PF encontrou as já famosas planilhas, vazadas pela imprensa (aqui) só em 23 de março, com as doações da Odebrecht a cerca de 200 políticos de 22 partidos, entre eles (aqui) o secretário de Governo de Campos, Anthony Garotinho (PR), a prefeita Rosinha Garotinho (PR) e a deputada federal Clarissa Garotinho (PR). Coincidentemente, foi também Benedicto quem assinou com Rosinha o contrato da primeira etapa do programa “Morar Feliz”, em 1º de outubro de 2009, para a construção de 5,1 mil casas, no valor total de R$ 357,4 milhões — numa licitação cujo resultado favorável a Odebrecht foi antecipado (aqui) pela coluna “Ponto final”, da Folha da Manhã, em quase quatro meses.
Na assinatura da primeira etapa do “Morar Feliz”, em 1º de outubro de 2010, Leandro Andrade Azevedo, outro executivo da Odebrecht, e a prefeita Rosinha, no contrato que seria também assinado por Benedicto Barbosa da Silva Júnior (foto de Ricardo Avelino – Folha da Manhã)
No inquérito assinado pelo delegado federal Filipe Hille Pace, fica claro (aqui) o papel de Benedicto como elo de ligação do dinheiro que circula entre a Odebrecht e os políticos: “É possível verificar que Benedicto é pessoa acionada por Marcelo (Bahia Odebrecht) para tratar de assuntos referentes ao meio político, inclusive a obtenção de apoio financeiro”. Após fazer companhia ao chefe Marcelo, preso desde 19 de junho de 2015 na carceragem da PF em Curitiba, Benedicto foi solto por Moro em 26 de fevereiro, ao término dos cinco dias da prisão temporária, com a condição de não deixar o país ou mudar de endereço.
Desde 23 de março, quando as planilhas encontradas pela PF na casa de Benedicto vazaram à imprensa, Garotinho usou seu blog primeiro (aqui) para tentar se defender:
— Antes que pessoas inescrupulosas possam fazer qualquer associação entre o meu nome e o esquema da Lava Jato, quero deixar claro que meu nome aparece numa doação oficial, com CNPJ da campanha, e conta registrada no Banco Itaú, informada à Justiça Eleitoral, relativa à campanha de 2010, quando concorri para deputado federal.
Só depois o ex-governador fez também (aqui) a defesa da esposa prefeita e da filha deputada:
— Não me preocupa o fato de meu nome aparecer nessa lista, porque, diferente de outras situações, trata-se de uma constatação normal de doação que está declarada na minha prestação de contas feita ao TRE-RJ, assim como os casos de Rosinha e da minha filha Clarissa.
No caso de Garotinho (aqui), não consta nos registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nenhuma doação feita pela Odebrecht em 2010. Todavia, uma planilha apreendida na casa de Benedicto revelou uma doação de R$ 1 milhão da empreiteira ao político de Campos, em 1º de setembro de 2010. E, no mesmo dia, o TSE registrou duas doações com mesmo valor conjunto (R$ 1 milhão) ao diretório estadual do PR controlado por Garotinho: a Leyroz entrou com R$ 800 mil, cabendo R$ 200 mil a Praiamar. As duas empresas atuam na distribuição de bebidas e vem sendo apontadas na mídia nacional (aqui) como “laranjas” para os repasses da Odebrecht a políticos.
Com o jamegão de Rosinha Garotinho e Benedicto Barbosa da Silva Júnior, só a primeira etapa do “Morar Feliz” rendeu mais de R$ 357 milhões dos cofres púbicos de Campos para a Odebrecht (foto de Antonio Cruz – Folha da Manhã)
No caso de Rosinha (aqui) e Clarissa (aqui), embora nas planilhas achadas na casa de Benedicto não conste o ano do repasse, investigação e defesa trabalham com o ano de 2012, quando a filha perdeu a eleição à Prefeitura do Rio, na qual foi vice da chapa de Rodrigo Maia (DEM), e a mãe se reelegeu prefeita de Campos. Não há em 2012 nenhuma doação direta da Odebrecht às duas, só ao PR e ao DEM, mas com valores diferentes. A revista “Veja” classificou os repasses como “bônus” e afirmou (aqui) que Rosinha recebeu R$ 1 milhão. Como o valor na planilha é registrado em 1.000, baseado na mesma aritmética, Clarissa, que aparece com 500, teria recebido R$ 500 mil.
Ex-secretária da Odebrecht, onde trabalhou de 1979 a 1990, Conceição Andrade deu uma entrevista ao “Fantástico” que foi ao ar no último domingo (27/03). Nela, afirmou sobre os pagamentos da empreiteira a políticos:
— Tudo isso era propina. Tudo que tem dentro, toda essa relação que existe nessa lista foi pagamento de propina, de caixa dois.
Após Benedicto assinar a primeira etapa do “Morar Feliz”, em outubro de 2009, com a prefeita Rosinha e Leandro Andrade Azevedo, outro executivo da empreiteira, somados os três aditivos de pagamento entre janeiro de 2011 e março de 2012, mais a assinatura da segunda etapa do programa, em 28 de fevereiro de 2013, a Odebrecht levou no total R$ 996.434. 912,43 dos cofres públicos de Campos — maior contrato da história do município. Entretanto, a parte final da obra foi abandonada por falta de pagamento.
Apesar das divergências ideológicas que nunca escondi, sempre mantive uma boa relação com os membros do PT Campista, quer seja pela qualidade dos seus quadros, quer seja pela pauta comum que cultivamos acerca das necessárias mudanças de rumo da política campista. Essa boa relação, contudo, não me faz fechar os olhos para a realidade nacional. Como afirmado por expressiva parcela do meio jurídico, inclusive por ministros do STF, há fundamentos jurídicos para o impeachment, instituto previsto no texto constitucional. Não se pode falar, portanto, em golpe. Isso não significa dizer, contudo, que me sinta à vontade com a ascensão do PMDB ao poder. Não é um cenário fácil, mas diante do caos político, social e econômico vivido pelo país, me parece que o afastamento da presidente é inevitável.
José Paes Neto, advogado e blogueiro
O impeachment é um procedimento constitucional que pode e deve ser usado em um Estado de Direito em caso de cometimento de crime de responsabilidade. O pedido de impeachment que tramita atualmente na Câmara se baseia em uma suposta violação à legislação orçamentária por meio de duas práticas: o atraso nos repasses do governo aos bancos públicosque pagam gastos sociais e a abertura de créditos suplementares. Todavia, tais atos, além de serem legais, foram referendados pelo próprio Congresso Nacional e admitidos, até aqui,pelo TCU. Sendo assim, é forçoso reconhecer que o objetivo do impeachment é retirar o mandato de uma presidenta legitimamente eleita e sobre a qual não recai, até o momento, nenhuma denúncia de corrupção, em razão de uma insatisfação, essa sim legítima, em relação ao seu governo. Nesse sentido, o cenário é de um gravíssimo ataque à democracia, que é ainda mais preocupante, justamente, por se valer do insidioso manto da legalidade.
“Pelos olhos o amor chega ao coração, pois os olhos são os guias do coração. Os olhos procuram o que o coração gostaria de possuir, quando estão de pleno acordo, os três em harmonia, nasce o perfeito amor, oriundo do que os olhos tornaram bem-vindos ao coração. Os verdadeiros amantes sabem, o amor é a perfeita bondade, que nasce sem dúvida do coração e dos olhos.”
Logo após escutar essas palavras de Joseph Campbell na célebre entrevista sobre O Poder do Mito concedida ao jornalista Bill Moyers(*1), conheci o Resgate da Memória Sonora de Campos, e não tive dúvidas, pelos ouvidos o amor também chega ao coração. Quando a canção beija os ouvidos, o corpo se emociona e agradece toda a beleza que os olhos não puderam ver. Fez pensar as histórias que ainda hei de conhecer, pelas notas, as paisagens, pelos versos, as lágrimas e os sorrisos dos poetas. Segui a migração das almas, discordei de Jung, aos sussurros das usinas moendo a esperança, escapei do preconceito da condição humana.
Carregado pela brisa, o som preencheu meu corpo de história e melodia, de “verde bonança dos canaviais. Era o caldo espumante, o refrigerante de um tempo demais.”(*2) Como nas Heroides de Ovídio, meu coração suave é presa fácil dos que regam — sem água — a arte plantada nesse solo fértil(*3). Vozes, Goytacazes, levantam-se das terras molhadas de lágrimas, ouro negro usurpado em bolso branco dentro da noite se perdeu e encontrou com o passado, chorou.(*4)
Em tempo de banda com nome inglês, as cores da minha identidade não compõem essa bandeira sem pátria, minha origem está aqui onde os negros deram a vida, aqui onde os índios por muitos foram esquecidos. Não vendo a minha história a preço de banana, a nascente desse rio é minha voz, minha memória. O resgate sonoro de Campos é também o resgate da nossa alma acanhada, perdida há muito, por se sentir tão menosprezada.
Presente do meu grande amigo Helio de Freitas Coelho, cujo tempo dedicado a me apresentar a cidade e aconselhar se transformaram em conhecimento para toda a vida.
O Resgate da Memória Sonora de Campos é uma coletânea fonográfica em tributo ao passado musical da terra goitacá.
Realizado por Orfeão de Santa Cecília.
www.orfeaodesantacecilia.org
(*1) Série de conversas entre Joseph Campbell e Bill Moyers, foram transcritas e transformadas em livro: O Poder do Mito.
(*2) Referência à faixa 01 do primeiro disco: Nossa Cidade. “O Gênio criador de Anoeli Maciel (1940 – 2005), associado à inspiração do poeta Luiz de Gonzaga Balbi, produziu este retrato nostálgico da paisagem campista, a um só tempo singelo e verdadeiro, de tocante beleza melódica. A gravação original tem o mavioso teclado de Anoeli Maciel acompanhando as brilhantes vozes de Magid Abud e Alba Valéria.” Extraído do livreto explicativo Resgate da Memória Sonora de Campos.
(*3) Referência às Heroides de Ovídio, XV, 79-80. “Meu coração suave é fácil presa das flechas ligeiras, e por isso estou sempre amando.”
(*4) Referência à Faixa 08 do segundo disco: Dentro da noite. “A cantora e compositora Neuza Pinto Pessanha foi musicista de muita inspiração, sobretudo quando tratava a temática noturna, recorrente em suas românticas composições, tendo sido este samba-canção, Dentro da noite, uma das peças mais marcantes em sua carreira. A interpretação é da versátil cantora Alba Valéria, sobre o piano de Luiz Reis.” Extraído do livreto explicativo Resgate da Memória Sonora de Campos.
Sou contra o impeachment por várias razões. Primeiro por não confiar nas motivações e intenções de alguns segmentos que o reivindicam. O inconformismo com o resultado das eleições é muito maior do que a vontade de combater a corrupção. As pedaladas fiscais servem de justificativa, mas o que está em jogo é um projeto de governo que, com todas as suas mazelas, não muito diferentes de seus predecessores, conseguiu iniciar um processo de redução de uma desigualdade social abissal que sempre caracterizou o Brasil. Outro motivo é que um impeachment sendo conduzido por réu acusado de corrupção e lavagem de dinheiro e por uma comissão que conta com 34 investigados pelo STF simplesmente não merece a menor credibilidade. É como convocar o comando vermelho pra ajudar a combater o crime organizado. Antes de tirarmos a presidente, precisamos de outro Congresso. Isso só em 2018.
Adriano Moura, poeta, dramaturgo e professor do IFF
Sou a favor, porque ninguém pode estar acima da lei, sobretudo quando se é representante do povo, autoridade pública. Um país pobre, para sair da pobreza, precisa da colaboração entre os cidadãos e, principalmente, do incentivo do Estado para realizar esta colaboração. O Estado não pode sabotar, mas precisa promover esta situação. Foi isto o que se fez nas revoluções democrático-burguesas que varreram a Europa a partir do séc. XVII. A começar pela Inglesa, que se chocou com o Absolutismo monárquico em nome do direito do cidadão controlar o uso que o monarca fazia dos recursos privados que lhes extraía. No Brasil, infelizmente, em pleno séc. XXI, isto ainda é considerado por pessoas que se dizem progressistas como “insuficiente para interromper um mandato popular conquistado nas urnas”.
Hamilton Garcia, cientista político e professor da Uenf