Poema do domingo — Pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!


Quando no aniversário de uma pessoa amiga e dotada de sensibilidade, tenho costume de saudar a data com o poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, heterônimo mais modernista do poeta Fernando Pessoa (1888/1935), por sua vez o maior nome do Modernismo de Portugal. Mas eis que, na última sexta-feira, 11 de dezembro, quando completou 43 anos, o aniversariante inventou de inverter a ordem natural das coisas para ofertar ele o presente. Além de ter compilado a obra de Pessoa (do próprio, além de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, demais heterônimos poetas), para dirigir e produzir o espetáculo “Pessoas”, o professor, escritor e dramaturgo Adriano Moura também atuou nele como ator, ao lado de Tim Carvalho, Renato Arpoador e Matheus Nicolau. E, no dia do seu aniversário, o ponto alto da interpretação de Adriano, “com uma nitidez que cega”, foi justamente o poema “Aniversário”.
Abaixo, seguem o poema e sua declamação referencial por Paulo Autran (1922/2007). E se não é mentira que Adriano nunca foi, como ator, o mesmo que é enquanto autor, a partir desse seu aniversário literário e literal, essa é uma verdade que deve começar a ser revista. A conferida, assim que o espetáculo retornar a cartaz em 2016, é um presente que cada um pode dar a si e depois levar pela vida como “passado roubado na algibeira”.

Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…
Lisboa, 15/10/1929
“Pessoas” em Pessoa tem sessão única hoje à noite no Sesc


Por Aluysio Abreu Barbosa
“Fragmentos da obra do Pessoa são muito conhecidos. O poeta propriamente acredito que não. Muitos já leram ou escutaram os famosos ‘Tudo vale a pena se a alma não é pequena’, ou ‘O poeta é um fingidor’, mas nem todos associam ao poeta. O espetáculo é todo centrado na obra, que deve sempre ser maior que o homem. Acredito que esse tipo de trabalho contribui para a popularização dos poemas”. Esta é a intenção assumida pelo diretor, ator, produtor e compilador da obra do poeta português Fernando Pessoa (1888/1935), o dramaturgo e também poeta Adriano Moura, para o espetáculo “Pessoas”, que tem sessão única hoje, às 20h, no Sesc de Campos, na avenida Alberto Torres nº 397. Além de Adriano, compõem o elenco o ator Tim Carvalho e os músicos Renato Arpoador e Matheus Nicolau, a quem coube musicar alguns poemas do maior nome do Modernismo de Portugal.
Em vida, Pessoa publicou um único livro, “Mensagem”, composto de 44 poemas. A maior parte da sua obra, guardada num mítico baú, foi descoberta pelo grande público só após a morte do autor. E ela até hoje impressiona, não só pela qualidade e quantidade, quanto pelo fenômeno da heteronímia, na qual, além do Fernando Pessoa ortônimo, estão também o modernista Álvaro de Campos, o clássico Ricardo Reis e o naturalista Alberto Caeiro, considerado pelos demais como mestre. Isso só em poesia, sem contar a prosa de Bernardo Soares, outro entre as dezenas de heterônimos catalogados, a maioria não escritores, que se diferem do simples pseudônimo pela vida própria que carregam, com toda uma biografia independente do criador.
Como o espetáculo se atém à criação poética de Pessoa, além dele próprio, também estão presentes Campos, Reis e Caeiro. Ao todo, “Pessoas” traz 21 poemas dos quatro poetas que habitavam em Pessoa, 10 deles musicados. Com apenas 23 anos, Matheus encarou a missão dessa transposição com aparente consciência da responsabilidade:
— A proposta de musicar poemas de Fernando Pessoa é muito ousada. Além de ser um desafio, pode soar como um atrevimento. Minha maior preocupação era criar algo digno, que não ferisse a obra, para que aqueles que apreciam a poesia do Pessoa as encarassem de forma natural. Nesse processo, algumas músicas foram surgindo de modo natural. Depois de extrair a essência do poema e achar uma linha melódica que converse com ele, o próximo passo era só uma questão de adequação métrica, que em alguns casos foi mais difícil.
Para Matheus, que debutará como ator no espetáculo, a musicalização mais difícil foi de “Mar Português”, justamente um dos poemas publicados na “Mensagem”, no qual estão os versos talvez mais conhecidos de Pessoa: “Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena”. Na montagem goitacá, o poema ganhou versão em fado, estilo musical que está para Portugal como o samba, para o Brasil.
E se Adriano lembra que a poesia surgiu com a música, a partir do grego Homero (séc. 8 a.C.), na tradição dos rapsodos, andando de cidade em cidade com suas liras, cantando em versos os feitos passados de sua gente, não deixa de ser curioso lembrar que foi em “Mar Português”, assim como nos outros poemas da “Mensagem”, que Pessoa cantou, no início do séc. 20, as glórias do seu povo nas grandes navegações dos sécs. 15 e 16. Semeado nelas, além do domínio do Ocidente sobre o mundo, nasceu o Brasil.

Após dirigir e produzir o “Sarau de Chico Buarque” no Sinasefe, no início de novembro, num grande sucesso de público, Adriano não largou mão da velha lira homérica nessa sua investida cênica pela obra literária do mestre lusitano: “Acredito no poder da música como veículo de propagação da poesia”. Neste sentido, do fado de “Mar Português”, a universalidade de Pessoa é reafirmada em vários outros ritmos, como no baião para o qual os versos de “Conta a lenda que dormia” parecem ter sido originalmente escritos, no pungente blues de “O cão que veio do abismo”, ou no lamento sertanejo de “Carro de bois”, poema que Matheus confessou ter sido o mais fácil de musicar.
A maioria dos poemas escolhidos, no entanto, não depende de versões musicais, sustentados apenas na interpretação cênica dos quatro atores. Como explica Adriano:
— Queria muito revisitar a obra do Pessoa. Eu e Matheus fizemos encontros para ler os textos, escolher o que seria música e o que seria recitado. Queríamos algo que não se parecesse com um recital, mas que também não se aproximasse de um musical biográfico.
Pessoa poderia estar certo ao versejar pela pena quase sempre debochada de Álvaro de Campos: “Todas as cartas de amor são/ Ridículas”. Talvez não por outro motivo, seja de Ophélia Queiroz, infeliz noiva do poeta, o retrato que funciona como eixo em boa parte das cenas. Apesar de amar Fernando, a homônima portuguesa da noiva de Hamlet não tinha pudor ao afirmar: “Detesto Álvaro de Campos!”. No amor de Adriano, Matheus, Tim e Renato expresso no palco pelas “Pessoas” em Pessoa, ridículo é não comparecer.
Publicado na Folha Dois de hoje (11/12)

Ex-cabo eleitoral de Dilma indicado por ela ao Supremo paralisa processo de impeachment
No final da noite de ontem (08/12), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a instalação da comissão especial formada na Câmara dos deputados que analisará o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Os deputados já elegeram 39 integrantes da comissão oriundos de chapa formada por oposicionistas e dissidentes da base aliada do governo, após tumulto durante votação secreta. Com a eleição, o grupo já daria início aos trabalhos com maioria a favor do impeachment.
Com a decisão e o impedimento dos trabalhos da comissão, o ministro do STF suspendeu todo o andamento do impeachment, incluindo prazos que estiverem correndo, como o da defesa da presidente. A suspensão é mantida até análise do plenário do Supremo Tribunal Federal sobre o caso, que está marcada para ocorrer na próxima quarta-feira, dia 16. Na ocasião, caberá à Corte analisar se os atos que já foram praticados, como a votação da chapa, são ou não válidos. Até então, o que já foi feito continua preservado.
De acordo com o ministro, o objetivo da decisão é evitar que sejam praticados atos sobre impeachment da presidente que posteriormente venham a ser anulados pelo STF:
— Com o objetivo de evitar a prática de atos que eventualmente poderão ser invalidados pelo Supremo Tribunal Federal, obstar aumento de instabilidade jurídica com profusão de medidas judiciais posteriores e pontuais, e apresentar respostas céleres aos questionamentos suscitados, impede promover, de imediato, debate e deliberação pelo Tribunal Pleno, determinando, nesse curto interregno, a suspensão da formação e a não instalação da Comissão Especial, bem como dos eventuais prazos, inclusive aqueles, em tese, em curso, preservando-se, ao menos até a decisão do Supremo Tribunal Federal prevista para 16/12/2015, todos os atos até este momento praticados.
Fachin solicitou ainda que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preste informações no prazo de 24 horas sobre a eleição da comissão especial.
A decisão foi tomada em análise de recurso proposto pelo PCdoB, que foi ao Supremo para tentar barrar a apresentação de chapa avulsa oposicionista na eleição e ainda garantir que a votação fosse aberta. A Câmara, no entanto, realizou a eleição antes de Fachin, relator do caso, decidir a questão.
Na decisão liminar de ontem, o ministro ressaltou ainda que a votação secreta não tem previsão na Constituição e nem no regimento interno da Câmara, portanto, o pedido do PCdoB seria plausível. Fachin tentou se justificar pela importância do caso:
— Diante da magnitude do procedimento em curso, da plausibilidade para o fim de reclamar legítima atuação da Corte Constitucional e da difícil restituição ao estado anterior do caso, prossigam afazeres que, arrostados pelos questionamentos, venham a ser adequados constitucionalmente em moldes diversos.
No Supremo, ministros dizem que pode haver uma discussão sobre o rito do processo de impeachment já que há brecha sobre a Lei 1.079, de 1950, que define os crimes de responsabilidade do presidente da República e sua forma de julgamento.
Ministros do STF ouvidos sob a condição de anonimato avaliaram que, em tese, não há problemas de Cunha acolher o pedido de impeachment, uma vez que esta é uma atribuição do cargo. Os ministros ressaltam, no entanto, que o processo de afastamento tem que preencher os requisitos legais.
De acordo com os integrantes do Supremo, o clima no tribunal é de garantir a “regra do jogo”, ou seja, sem interferência direta, mas agindo para evitar abusos ou que a lei seja desrespeitada. Nesse momento inicial, dizem os ministros, o Supremo não deveria travar o debate no Congresso.

Com informações do Estadão e Folha de São Paulo
Paul Newman jovem em clássico do Cineclube Goitacá nessa quarta
Para um astista, o mais importante é viver para sua arte ou como ele pode viver dela? Em meio à fumaça dos cigarros e à média luz dos salões de bilhar, é este o dilema que vive “Fast” Eddie Felson, jogador de sinuca e trapaceiro interpretado por um jovem Paul Newman (1925/2008), no filme “Desafio à corrupção” (“The Hustler”, 1961), com direção, roteiro e produção de Robert Rossen (1908/66). O clássico do cinema será exibido amanhã, quarta-feira, 9 de dezembro, a partir das 19h, no Cineclube Goitacá, na sala 507 do edifício Medical Center, no cruzamento da rua Conselheiro Otaviano com avenida 13 de Maio. A apresentação e a mediação do debate após a sessão ficarão por minha conta. A entrada e a participação, como sempre, são gratuitas e bem vindas.
Dentro da tela, o objetivo de Eddie Felson é derrotar Fats Minessota, consagrado como maior jogador de sinuca do seu tempo e lendário personagem da vida real, interpretado no filme por Jackie Gleason (1916/87). Sem o talento do corpulento campeão ou seu jovem desafiante, mas controlando a ambos através do dinheiro, quem também tem papel fundamental na trama é o apostador profissional Bert Gordon, numa composição mefistotélica de George C. Scott (1927/99). Na pele da problemática, mas sensível Sara Packard, namorada de Felson, completa o elenco a atriz Piper Laurie, única atualmente viva, veteraníssima com mais de 100 atuações em cinema e TV.
Inegável (e inevitável) a influência do expressionismo alemão na fotografia em preto do alemão Eugen Schüfftan, vencedora do Oscar na categoria. Curiosamente, o filme geraria uma continuação 25 anos depois, com “A cor do dinheiro” (“The color of money”, 1986), dirigido por ninguém menos que Martin Scorsese. Nele, é um envelhecido Eddie Felson que banca o jogo, ao ser capturado pela arte de um jovem talentoso, muito parecido com aquele que ele fora no passado: Vicent Lauria, interpretado por outro astro então em ascensão, um tal de Tom Cruise.
Após concorrer e perder a estatueta de ator principal, como o jovem Eddie Felson de “Desafio à corrupção”, foi com a continuação “A cor do dinheiro” que Paul Newman finalmente ganhou seu primeiro (e único) Oscar de melhor ator. Como ele diz na fala derradeira do segundo filme, ao recuperar sua arte um quarto de século depois: “I’m back!” (“Eu estou de volta!”).
Enquanto a sessão não começa, confira o trailler desse clássico da sétima arte:
A carta de Temer a Dilma: “As palavras voam, os escritos permanecem”
Em seu blog, ainda na noite de ontem, o jornalista Ricardo André Vasconcelos chegou a citar (aqui), mas não publicar a carta enviada também ontem pelo vice-presidente Michel Temer (PMDB) à presidente Dilma Rousseff (PT). Em esfera nacional, o primeiro a fazê-lo (aqui) foi o jornalista Jorge Bastos Moreno, alvo de inúmeros processos judiciais do presidente da Câmara Federal, deputado Eduardo Cunha (PMDB), que aceitou o pedido de impeachment de Dilma e a quem Moreno, não sem motivo, já apelidou no passado de “Coisa Ruim”.
Aberto com o emblemático provérbio latino “Verba volant, scripta manent” (“As palavras voam, os escritores permanecem”), leia abaixo aquilo que, com toda a volatilidade da política, promete ser permanente entre os dois maiores cargos e partidos da República:
São Paulo, 07 de Dezembro de 2.015.
Senhora Presidente,
“Verba volant, scripta manent”.
Por isso lhe escrevo. Muito a propósito do intenso noticiário destes últimos dias e de tudo que me chega aos ouvidos das conversas no Palácio. Esta é uma carta pessoal. É um desabafo que já deveria ter feito há muito tempo.
Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade. Tenho-a revelado ao longo destes cinco anos. Lealdade institucional pautada pelo art. 79 da Constituição Federal. Sei quais são as funções do Vice. À minha natural discrição conectei aquela derivada daquele dispositivo constitucional.
Entretanto, sempre tive ciência da absoluta desconfiança da senhora e do seu entorno em relação a mim e ao PMDB. Desconfiança incompatível com o que fizemos para manter o apoio pessoal e partidário ao seu governo. Basta ressaltar que na última convenção apenas 59,9% votaram pela aliança. E só o fizeram, ouso registrar, por que era eu o candidato à reeleição à Vice.
Tenho mantido a unidade do PMDB apoiando seu governo usando o prestígio político que tenho advindo da credibilidade e do respeito que granjeei no partido.
Isso tudo não gerou confiança em mim, Gera desconfiança e menosprezo do governo. Vamos aos fatos. Exemplifico alguns deles.
- Passei os quatro primeiros anos de governo como vice decorativo. A Senhora sabe disso. Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas.
- Jamais eu ou o PMDB fomos chamados para discutir formulações econômicas ou políticas do país; éramos meros acessórios,
secundários, subsidiários. - A senhora, no segundo mandato, à última hora, não renovou o Ministério da Aviação Civil onde o Moreira Franco fez belíssimo trabalho elogiado durante a Copa do Mundo. Sabia que ele era uma indicação minha. Quis, portanto, desvalorizar-me. Cheguei a
registrar este fato no dia seguinte, ao telefone. - No episódio Eliseu Padilha, mais recente, ele deixou o Ministério em razão de muitas “desfeitas”, culminando com o que o
governo fez a ele, Ministro, retirando sem nenhum aviso prévio, nome com perfil técnico que ele, Ministro da área, indicara para a ANAC. Alardeou-se a) que fora retaliação a mim; b) que ele saiu porque faz parte de uma suposta “conspiração”. - Quando a senhora fez um apelo para que eu assumisse a coordenação política, no momento em que o governo estava muito
desprestigiado, atendi e fizemos, eu e o Padilha, aprovar o ajuste fiscal. Tema difícil porque dizia respeito aos trabalhadores e aos empresários. Não titubeamos. Estava em jogo o país. Quando se aprovou o ajuste, nada mais do que fazíamos tinha sequencia no governo. Os acordos assumidos no Parlamento não foram cumpridos. Realizamos mais de 60 reuniões de lideres e bancadas ao longo do tempo solicitando apoio com a nossa credibilidade. Fomos obrigados a deixar aquela coordenação. - De qualquer forma, sou Presidente do PMDB e a senhora resolveu ignorar-me chamando o líder Picciani e seu pai para fazer um acordo sem nenhuma comunicação ao seu Vice e Presidente do Partido. Os dois ministros, sabe a senhora, foram nomeados por ele. E a senhora não teve a menor preocupação em eliminar do governo o Deputado Edinho Araújo, deputado de São Paulo e a mim ligado.
- Democrata que sou, converso, sim, senhora Presidente, com a oposição. Sempre o fiz, pelos 24 anos que passei no Parlamento.
Aliás, a primeira medida provisória do ajuste foi aprovada graças aos 8 (oito) votos do DEM, 6 (seis) do PSB e 3 do PV, recordando que foi aprovado por apenas 22 votos. Sou criticado por isso, numa visão equivocada do nosso sistema. E não foi sem razão que em duas oportunidades ressaltei que deveríamos reunificar o país. O Palácio resolveu difundir e criticar. - Recordo, ainda, que a senhora, na posse, manteve reunião de duas horas com o Vice Presidente Joe Biden – com quem construí
boa amizade — sem convidar-me o que gerou em seus assessores a pergunta: o que é que houve que numa reunião com o Vice Presidente dos Estados Unidos, o do Brasil não se faz presente? Antes, no episódio da “espionagem” americana, quando as conversar começaram a ser retomadas, a senhora mandava o Ministro da Justiça, para conversar com o Vice Presidente dos Estados Unidos. Tudo isso tem significado absoluta falta de confiança; - Mais recentemente, conversa nossa (das duas maiores autoridades do país) foi divulgada e de maneira inverídica sem nenhuma
conexão com o teor da conversa. - Até o programa “Uma Ponte para o Futuro”, aplaudido pela sociedade, cujas propostas poderiam ser utilizadas para
recuperar a economia e resgatar a confiança foi tido como manobra desleal. - PMDB tem ciência de que o governo busca promover a sua divisão, o que já tentou no passado, sem sucesso. A senhora sabe que, como Presidente do PMDB, devo manter cauteloso silencio com o objetivo de procurar o que sempre fiz: a unidade partidária.
Passados estes momentos críticos, tenho certeza de que o País terá tranquilidade para crescer e consolidar as conquistas sociais. Finalmente, sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã.
Lamento, mas esta é a minha convicção.
Respeitosamente, \ L TEMER
A Sua Excelência a Senhora
Doutora DILMA ROUSSEFF
DO. Presidente da República do Brasil
Palácio do Planalto
Brasília, D.F.
Atualização às 12h57: Com o oportuno título “Até tu, Temer?”, o sempre atento jornalista e poeta Fernando Leite foi o primeiro a publicar aqui, na blogosfera local, a carta do vice-presidente Michel Temer à presidente Dilma Rousseff.
Intolerância política: “O PT é vítima do seu próprio ódio”
Ainda este ano, uma amiga muito querida me apresentou ao Leandro Karnal, a partir de um vídeo no qual o historiador e professor da Unicamp fala sobre “Hamlet”. De fato, com a morte recente da crítica teatral Barbara Heliodora (1923/2015), espantei-me com a profundidade dos conhecimentos de outro brasileiro sobre a vida e a obra do inglês William Shakespeare (1564/1616), particularmente sua maior tragédia, a partir da qual o atormentado príncipe da Dinamarca emergiu como grande personagem da dramaturgia ocidental, no diálogo franco e na superação dos mestres gregos da Antiguidade Ésquilo (525 a.C./456 a.C.), Sófocles (497 a.C./406 a.C.) e Eurípedes (480 a.C/406 a.C.).
Não por outros motivos, o psicanalista e ator Luiz Fernando Sardinha exibiria depois, também neste ano, o mesmo vídeo de Karnal e sua brilhante palestra “Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco”, numa dessas prazenteiras quartas-feiras de Cineclube Goitacá. Em longa, mas oportuna sessão dupla, foi na sequência à exibição de “Hamlet” (1990), com o ator estadunidense de ação Mel Gibson impressionantemente bem no papel título, dirigido no cinema pelo italiano Franco Zeffirelli.
Bem, quem quiser conferir a dimensão devida de Shakespeare, assim como a de Karnal, como seu privilegiado intérprete, aconselha-se a investir um hora e 52 minutos da sua vida no vídeo abaixo:
Já quem quiser saber o que um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade tem a dizer sobre intolerância política, religiosa, de gênero e racial, em entrevista dada neste início de dezembro à jornalista Paula Rocha, da revista “Isto É”, num texto que merece ser conferido na íntegra aqui, este “Opiniões” toma a liberdade de destacar abaixo uma elucidativa resposta de Karnal:
— Houve três momentos de forte polarização política na história do Brasil. Entre 1935, com a Intentona Comunista, e 1938, com a Intentona Integralista; em 1964 com o Golpe Militar e agora. A diferença é que, se antes a política era restrita a partidos ou a alguns movimentos, hoje ela está democratizada no sentido numérico. A polarização política está na internet. E isso possibilita que esse ódio transborde do debate político para o ataque a pessoas identificadas como inimigos políticos. Não há ninguém inocente. No passado, o PT polarizou o ódio, ora contra Sarney, ora contra o PSDB. E, assim como o Dr. Frankenstein sofre o ataque de sua criatura, agora esse sentimento se volta contra o PT. O PT é vítima do seu próprio ódio. Além disso, a política brasileira hoje vive de agendas dependentes. O deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) depende do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), e vice-versa, porque o discurso de um é determinado pelo discurso do outro. E personalidades que pregam o ódio se destacam mais.
Contra o governo Dilma e seu impeachment — Culpa dividida com seus eleitores
Como ser frontalmente contrário ao lulopetismo representado pelo governo Dilma Rousseff e não ser favorável ao impeachment da presidente, sobretudo pela maneira como seu pedido foi aprovado na Câmara Federal presidida por uma figura como Eduardo Cunha, representante em nível patológico do velho fisiologismo do PMDB, arrebanhado desde o primeiro governo Lula como principal parceiro do PT no comando do país? Buscava a maneira de dizer isso, até que li apenas hoje o texto da jornalista Cora Ronai, publicado aqui, dois dias atrás, na democracia irrefreável das redes sociais.
Bem, antes tarde do que nunca, confira porque não preciso procurar mais:

Por Cora Ronai
Num outro post alguém me perguntou se sou contra ou a favor do impeachment.
Sou contra.
Sou contra porque acho que, tendo sido o pedido encaminhado como foi, em ato de represália a uma chantagem que não deu certo, o todo fica comprometido. Eu sei que o pedido não foi feito pelo Cunha, mas foi ele quem deu início ao processo, e nada que ele faça hoje tem mais qualquer legitimidade. Esse homem devia estar na cadeia há tempos. Ou num manicômio.
Sou contra também porque acho que este processo de impeachment foi um presente dado de bandeja ao PT para justificar a sua falência administrativa. Se o impeachment acontecer, o que acho improvável, o governo terá sido a calamidade que está sendo porque a Dilma terá sido cassada; se não acontecer, teremos ido para o fundo do poço por causa da turbulência política provocada pela elite branca de olhos azuis que não se conforma em ver um operário no poder os porteiros viajando de avião os pobres na universidade blá blá blá.
Em suma, o idiota do Cunha deu munição e sobrevida ao PT, que vai chegar revitalizado a 2018: parabéns.
Sou contra, ainda, porque a Dilma foi eleita num processo supostamente democrático, e há dúvidas entre os juristas se as razões expostas no pedido são procedentes. Um pedido de impeachment deveria estar baseado em provas inequívocas.
Digo “supostamente democrático” porque, a meu ver, o uso despudorado da máquina governamental favoreceu enormemente a sua reeleição. Das verbas dobradas das empreiteiras aos deputados comprados nas coligações canalhas, tudo contribuiu para que ela voltasse ao poder. Mas este é o sistema que temos, e ele é a primeira coisa que precisamos corrigir para moralizar a política.
Por outro lado, sou totalmente contra a Dilma.
Não só pela sua óbvia incompetência, mas porque, a essa altura, ela não tem mais condições de ocupar o cargo. Tudo ao seu redor é caos. Nada funciona. Enquanto isso, o seu partido é protagonista do maior escândalo de corrupção jamais descoberto no país. Se os demais partidos também roubavam (e continuam roubando) são outros quinhentos; quem está no poder agora, neste momento, é o PT, que daqui a pouco vai ter mais representantes nas penitenciárias do que no Congresso. Dilma pode não ter participado diretamente da bandalheira, mas foi criminosamente omissa, o que compromete a sua imagem e a legitimidade do seu governo.
Então, #comofaz?
Não sei. Se soubesse eu estava em Brasília, tentando fazer.
Mas o Brasil — que elegeu a Dilma, contra todas as evidências e mentiras da campanha eleitoral — merece a Dilma. A culpa da miséria que estamos vivendo, e que ainda vamos amargar por muito tempo, ela divide com cada um dos seus eleitores.









