De mudança
- Autor do post:Aluysio Abreu Barbosa
- Post publicado:22 de setembro de 2015 - 19:28
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“Li o ‘Eu’ na adolescência e foi como se levasse um soco na cara (…) Ao espanto sucedeu intensa curiosidade. Quis ler mais esse poeta diferente dos clássicos, dos românticos, dos parnasianos, dos simbolistas, de todos os poetas que eu conhecia (…) Augusto dos Anjos continua sendo o grande caso singular da poesia brasileira”.
(Carlos Drummond de Andrade)
Em 2002, quando do centenário de publicação de “Os Sertões”, escrevi num caderno especial publicado na Folha, após uma expedição a Canudos, no sertão da Bahia, que a obra prima de Euclides da Cunha (1866/1909) foi a primeira em nossa literatura a cessar com a importação de modelos da Europa, realinhando para o interior do Brasil as atenções desde o seu descobrimento voltadas às novidades que chegavam pelo litoral. E se a encipoada prosa euclideana plantou em terra seca as sementes do Modernismo, “fazendo brotar (Graciliano) Ramos e (Guimarães) Rosas em meio a (Glauber) Rochas”, caberia não por coincidência a um seu leitor atento e de primeira hora fazer o mesmo em nossa poesia, substituindo a partir dela o interior de um país pelo seu próprio enquanto homem.
Fruto da mesma decadência do senhor de engenho nordestino em choque com os avanços à luz da ciência prometidos pela ainda recém-nascida República positivista, que na virada dos séculos 19 ao 20 apresentara a fatura de 30 mil vidas humanas perdidas na Guerra de Canudos (1896/97), o paraibano Augusto dos Anjos (1884/1914) publicou em vida um único livro, em 1912, não ao acaso intitulado “Eu”. Classificado muitas vezes como simbolista e vivendo num tempo em que o parnasianismo dominava a poesia brasileira, Augusto tem sua condição de precursor do Modernismo defendida com afinco por gente como o poeta contemporâneo Ferreira Gullar:
— Não apenas o nível de complexidade a que Augusto conduz a expressão verbal, como também o rompimento com a concepção literária acadêmica, o situam como precursor da poesia que se fará no Brasil depois do movimento de 22 (…) Pode-se dizer que, ao longo do processo poético brasileiro até Augusto dos Anjos, quase sempre o poeta ocultou o homem. Talvez por isso mesmo, mas não só por isso, é que, na obra do poeta paraibano, o homem aparece de maneira tão escandalosa, a exibir seus intestinos, seu cuspo, sua lepra, seu sexo, sua miséria. A poesia de Augusto dos Anjos é fruto da descoberta dolorosa do mundo real, do encontro com uma realidade que a literatura, a filosofia e a religião já não podiam ocultar. Nasce do seu gênio poético, do seu temperamento especial, mas também de fatores culturais que a determinaram.
Esse pendor do poeta pelo escatológico, esse decantado “mau gosto”, assim como o cientificismo datado e muitas vezes reducionista da sua linguagem, têm contribuído para afastar leitores mais sensíveis à superfície, muito embora sua obra tenha conquistado ao longo dos anos uma popularidade incomum para poetas no Brasil, notadamente em seu Nordeste natal. Pelos mesmos motivos que a mineira Itabira fez de Drummond (1902/87) um poeta da memória, o engenho Pau D’Arco, no atual município paraibano de Sapé, onde Augusto nasceu e se criou, nunca deixaria de bater ponto em seus versos, mesmo depois de vendido em consequência da decadência financeira da família — igual em tempo, espaço e motivo a de tantas outras numa elite nordestina rural, patriarcal e ferida de morte com o avanço do capitalismo sobre o interior do país.
Em sentido contrário, Augusto foi também um homem ilustrado do seu tempo, formado em 1907 na Faculdade de Direito do Recife, onde teve o pensamento moldado na famosa “Escola do Recife”, movimento filosófico baseado no materialismo e no evolucionismo europeus, que alcançou grande força a partir de Tobias Barreto (1839/89). Influenciado pela teoria de evolução de Charles Darwin (1809/82), pela sociologia positivista de Auguste Comte (1798/1857), pelo pessimismo materialista de Arthur Schopenhauer (1788/1860), pelo liberalismo clássico de Herbert Spencer (1820/1903), pela monera primeva de Ernst Haeckel (1834/1919), o poeta passou a encarar a morte como fato material e, toda a existência, como consequência amoral de um simples, mas inexorável processo químico.
Se seu Nordeste não conhecia as conquistas científicas ou os avanços sociais e econômicos dos quais essas filosofias eram frutos, elas foram abraçadas como explicação racional ao desmoronamento do seu mundo pré-industrial. Diante da miséria localizada das famílias tradicionais falidas, dos caboclos e negros famintos pela seca, o niilismo que aprendera nos livros foi aceito como justificativa de uma tragédia universal. Diferente dos modernistas que cantariam a ciência com louvor e esperança, Augusto enxergou nela apenas a aceleração rumo ao Nada.
Diante d’Ele, questionando sua existência de Hamlet-Severino, como nunca ninguém fizera nestas terras de Vera Cruz, o poeta esculpiu paralelepípedo em verso muito antes de Chico Buarque, contou as telhas do teto sob a luz da lua minguante, chorou e bebeu a água do choro:
Tristezas de um quarto minguante
Quarto Minguante! E, embora a lua o aclare,
Este Engenho Pau d’Arco é muito triste…
Nos engenhos da várzea não existe
Talvez um outro que se lhe equipare!
Do observatório em que eu estou situado
A lua magra, quando a noite cresce,
Vista, através do vidro azul, parece
Um paralelepípedo quebrado!
O sono esmaga o encéfalo do povo.
Tenho 300 quilos no epigastro…
Dói-me a cabeça. Agora a cara do astro
Lembra a metade de uma casca de ovo.
Diabo! Não ser mais tempo de milagre!
Para que esta opressão desapareça
Vou amarrar um pano na cabeça,
Molhar a minha fronte com vinagre.
Aumentam-se-me então os grandes medos.
O hemisfério lunar se ergue e se abaixa
Num desenvolvimento de borracha,
Variando à ação mecânica dos dedos!
Vai-me crescendo a aberração do sonho.
Morde-me os nervos o desejo doudo
De dissolver-me, de enterrar-me todo
Naquele semicírculo medonho!
Mas tudo isto é ilusão de minha parte!
Quem sabe se não é porque não saio
Desde que, 6ª feira, 3 de maio,
Eu escrevi os meus Gemidos de Arte?!
A lâmpada a estirar línguas vermelhas
Lambe o ar. No bruto horror que me arrebata,
Como um degenerado psicopata
Eis-me a contar o número das telhas!
— Uma, duas, três, quatro… E aos tombos, tonta
Sinto a cabeça e a conta perco; e, em suma,
A conta recomeço, em ânsias: — Uma…
Mas novamente eis-me a perder a conta!
Sucede a uma tontura outra tontura.
— Estarei morto?! E a esta pergunta estranha
Responde a Vida — aquela grande aranha
Que anda tecendo a minha desventura!
— A luz do quarto diminuindo o brilho
Segue todas as fases de um eclipse…
Começo a ver coisas de Apocalipse
No triângulo escaleno do ladrilho!
Deito-me enfim. Ponho o chapéu num gancho.
Cinco lençóis balançam numa corda,
Mas aquilo mortalhas me recorda,
E o amontoamento dos lençóis desmancho.
Vêm-me à imaginação sonhos dementes.
Acho-me, por exemplo, numa festa…
Tomba uma torre sobre a minha testa,
Caem-me de uma só vez todos os dentes!
Então dois ossos roídos me assombraram…
— “Por ventura haverá quem queira roer-nos?!
Os vermes já não querem mais comer-nos
E os formigueiros já nos desprezaram”.
Figuras espectrais de bocas tronchas
Tornam-me o pesadelo duradouro…
Choro e quero beber a água do choro
Com as mãos dispostas à feição de conchas.
Tal uma planta aquática submersa,
Antegozando as últimas delícias
Mergulho as mãos — vis raízes adventícias —
No algodão quente de um tapete persa.
Por muito tempo rolo no tapete.
Súbito me ergo. A lua é morta. Um frio
Cai sobre o meu estômago vazio
Como se fosse um copo de sorvete!
A alta frialdade me insensibiliza;
O suor me ensopa. Meu tormento é infindo…
Minha família ainda está dormindo
E eu não posso pedir outra camisa!
Abro a janela. Elevam-se fumaças
Do engenho enorme. A luz fulge abundante
E em vez do sepulcral Quarto Minguante
Vi que era o sol batendo nas vidraças.
Pelos respiratórios tênues tubos
Dos poros vegetais, no ato da entrega
Do mato verde, a terra resfolega
Estrumada, feliz, cheia de adubos.
Côncavo, o Céu, radiante e estriado, observa
A universal criação. Broncos e feios,
Vários reptis cortam os campos, cheios
Dos tenros tinhorões e da úmida erva.
Babujada por baixos beiços brutos,
No húmus feraz, hierática, se ostenta
A monarquia da árvore opulenta
Que dá aos homens o óbolo dos frutos.
De mim diverso, rígido e de rastos
Com a solidez do tegumento sujo
Sulca, em diâmetro, o solo um caramujo
Naturalmente pelos mata-pastos.
Entretanto, passei o dia inquieto,
A ouvir, nestes bucólicos retiros,
Toda a salva fatal de 21 tiros
Que festejou os funerais de Hamleto!
Ah! Minha ruína é pior do que a de Tebas!
Quisera ser, numa última cobiça,
A fatia esponjosa de carniça
Que os corvos comem sobre as jurubebas!
Porque, longe do pão com que me nutres
Nesta hora, oh! Vida, em que a sofrer me exortas
Eu estaria como as bestas mortas
Pendurado no bico dos abutres!
Pau d’Arco, maio, 1907

Por Arnaldo Neto
Interferências políticas geram o caos do serviço de saúde pública em Campos. Da afirmativa do diretor da Faculdade de Medicina de Campos, Nélio Artiles, publicada (aqui) no domingo passado, sobre a politização das Unidades Básicas de Saúde (UBSs) à grave denúncia do médico sanitarista e do trabalho Erik Schunk (aqui), sobre medicamentos usados por vereadores como moeda de troca junto à população, na edição de ontem, a série de reportagens da Folha da Manhã, com o objetivo apontar princípios para mudar o atual cenário da cidade, evidenciou que a raiz de todo mal no serviço de saúde pública está em entregar aos aliados, como forma de recompensa ou barganha, a administração de ofícios que deveriam ser técnicos para garantir o acesso pleno à serviços assegurados pela Constituição.
Usar do poder político em pontos administrativos não é algo que costuma terminar bem em lugar nenhum, muito menos no Brasil. Para os de memória curta, a Operação Lava Jato ainda está em curso e sua gênese — vejam só que coincidência — tem relação com os indicados por políticos para ocupar cargos técnicos naquela que já foi a empresa de maior orgulho do país, a Petrobras.
Não se faz omeletes sem quebrar os ovos. É necessário retirar da administração pública esse modelo de “sociedade institucional”, que a população campista aponta na gerência dos serviços de saúde, para que se venha a obter resultados futuros. O atual cenário nacional não é dos melhores, mas a esperança de grande parte dos brasileiros é que passada as turbulências da corrupção institucionalizada evidenciada pela Operação Lava-Jato, o Brasil se aprume no caminho do desenvolvimento e, condenados os culpados, possa se chegar um dia ao utópico “país melhor”.
Da mesma forma deve acontecer em Campos. Não dá para imaginar que a afirmativa do médico sanitarista ao dizer que “é muito comum que em salas de atendimento de vereadores tenham todos os medicamentos que faltam nos postos de saúde” passe despercebido, que não haja investigação. O administrador público tem que apurar a origem de tal denúncia, mostrar ao povo quem usa deste artifício e, no mínimo, limar da vida pública. Os 25 representantes da Casa do Povo, inclusive, devem esclarecer essa questão. Como as denúncias não citam nomes, são postos em igualdade todos aqueles que têm uma cadeira na Câmara de Campos. Ser acusado de reter medicamento para usar como troca para fins eleitoreiros não causa revolta numa Casa que tem três médicos na atual legislatura? O silêncio nesta questão é tão perturbador quanto à sensação que a denúncia pode ser verdadeira.
Seria audácia e egocentrismo sem limites do grupo que se perpetua no poder há quase três décadas creditar toda reclamação do cidadão quanto à qualidade da saúde pública apenas ao intuito de perseguição partidária. Quem precisa de um remédio na farmácia básica, passa a noite em uma fila para conseguir uma consulta no Sistema Único de Saúde (SUS), na maioria das vezes pouco se importa com quem detém o poder. Aliás, muitos ajudaram a eleger quem hoje tem a caneta na mão e acreditaram que teriam serviços melhores.
Além dos princípios, senhores, respostas! Não há perspectiva de melhora enquanto toda informação, inclusive com os erros administrativos, estiverem guardados a sete chaves, envoltos numa “caixa preta” para proteger os seus, em detrimento ao que deveria ser melhor para todos.
Publicado hoje na Folha da Manhã
Ainda não dicionariada, “Pixuleco” é uma gíria utilizada como sinônimo de “propina”, “dinheiro sujo”, ou “dinheiro roubado”. O termo ficou famoso quando a Polícia Federal (PF) descobriu que João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT preso no escândalo do Petrolão, usava a palavra para designar as propinas que cobrava das empreiteiras no cartel de obras da Petrobras.
Não por outro motivo, a PF chamou de Pixuleco a 17ª fase da operação Lava-Jato. Assim como a população brasileira, em protesto nas ruas contra a corrupção no governo Dilma Rousseff e no seu PT, usou o nome para batizar o boneco inflável gigante do ex-presidente Lula, vestindo roupa de presidiário e com os números 13 (do PT) e 171 (referente no Código Penal ao trambiqueiro) estampados no peito.
Pois, de palavra da língua portuguesa pouco conhecida às carnações das ruas brasileiras, Pixuleco agora também virou game. Confira abaixo:
http://www.icongames.com.br/pixuleco/
Papai mandou
Dias atrás, a bancada do PR se reuniu para acabar com traições de deputados em votações do governo. O encontro corria tranquilamente até que Clarissa Garotinho (RJ) abriu o coração. “Política, às vezes, tem disso. Meu pai elegeu seis deputados no Rio, e agora todos se voltam contra ele”, disparou. O deputado Altineu Côrtes (RJ) deu o troco: “Primeiro, ele não é presidente do partido (no Rio). É dele próprio. Segundo, que a primeira a trair o seu pai foi você mesma, que está de malas prontas para o PSDB. Aliás, não sei nem o que você está fazendo aqui”. Clarissa rebateu. “Só estou aqui mesmo porque papai mandou. Por mim, já estava no PSDB”, admitiu, irritada.
Publicado aqui, na coluna “Panorama Político”, do Ilimar Franco

Quem apostava que um arranjo estadual do PPS poderia ter alguma influência sobre a pré-candidatura do vereador Rafael Diniz (PPS) à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), em 2016, vai ter que arrumar mais fichas com quem banca o jogo. Agora há pouco, foi encerrada na cidade do Rio de Janeiro, na sede do partido, um encontro entre Rafael e os presidentes da legenda em Campos e no Estado do Rio, respectivamente o ex-prefeito Sérgio Mendes e o deputado estadual Comte Bittencourt. Este garantiu que a decisão sobre as candidaturas a prefeito, no ano que vem, caberá aos diretórios municipais. A decisão confirma não só a pré-candidatura de Rafael em 2016, como outras também consideradas com chances de vitória, em outros municípios do Estado.
Confira a íntegra da matéria na edição de amanhã da Folha
Não é preciso ir muito longe para se encontrar exemplos, nas duas últimas eleições brasileiras, de candidatos que saíram de índices de intenção de votos irrisórios, muito atrás de outros adversários, para atropelarem na reta final, saindo com a vitória de importantes peitos majoritários. Estão aí o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), e o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), para não deixarem a ressalva mentir.
Ou seja, prenhe de razão está quem advoga que, ainda a 15 meses da eleição, é muito cedo para qualquer pretensão conclusiva na interpretação de pesquisas. Isso vale tanto para a última pesquisa do instituto Pappel (aqui), feita na segunda quinzena de agosto, quanto para a próxima do Pro 4, já programada para outubro. E em relação à primeira, última realizada à sucessão da prefeita Rosinha Garotinho (PR), é correta também outra ressalva, já anotada (aqui) pelo sempre atento jornalista e blogueiro Alexandre Bastos: a oposição, tudo indica, vai mais uma vez se pulverizar em várias candidaturas, enquanto todos os nomes governistas oferecidos pelo Pappel, em sua consulta induzida, terão os índices somados numa candidatura só.
Na oposição, todas as pesquisas indicam que o nome mais popular, com folgada vantagem, ainda é o ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT). E para quem sabe ler para além das pesquisas, isso fica evidenciado pela perseguição sistemática que o grupo de comunicação do secretário de governo Anthony Garotinho (PR) devota ao ex-aliado. De qualquer maneira, se ninguém em sã consciência duvida da popularidade de Arnaldo, tolo seria quem não questionasse suas condições de elegebilidade. Afinal, nas duas últimas eleições das quais participou, em 2010 e 2012, respectivamente para deputado federal e prefeito de Campos, suas votações até hoje sequer foram divulgadas.
Se o corpo jurídico de Arnaldo é tão incompetente quanto parece ainda poderoso o lobby de Garotinho junto à independente e impoluta Justiça Eleitoral do Brasil, a maior novidade que o ex-prefeito poderia apresentar seria lançar seu filho, Caio, como candidato. Mas o prêmio, nesse caso, só seria comparável ao risco.
Noves fora Arnaldo, que nunca poderá ser desprezado, temos ainda os casos particulares dos deputados estaduais Geraldo Pudim (PR, de malas prontas para o PMDB) e João Peixoto (PSDC). Este talvez seja, ao lado de Garotinho, o mais astuto entendedor de eleições vivente em Campos. Por isso mesmo, João dificilmente se embrenharia numa briga de foice sem a mesma certeza majoritária de quem já se elegeu na proporcional cinco vezes deputado.
Já Pudim, como indicado (aqui) na matéria da página anterior desta edição, tem tudo para vencer a queda de braço com seu desgastado ex-patrono. A bem da verdade, hoje ele parece mais propenso a se filiar ao PMDB com a manutenção do seu mandato na Alerj, do que Garotinho em manter o PR fluminense em suas mãos. Mas se deve conseguir superar o obstáculo partidário, tudo indica que Pudim terá sérias dificuldades para transpor outro, mais íngreme, erigido na mente do eleitor campista: como não ser encarado como “Cavalo de Tróia” pelos antigatoristas ou Joaquim Silvério dos Reis, pelos rosáceos?
Temos ainda o caso de Dr. Chicão Oliveira (PP, sem destino certo), vice-prefeito de Rosinha e primo de Garotinho. Apesar da condenação de inelegibilidade, junto com a prefeita, na primeira instância, ele pode concorrer enquanto a decisão não tiver referendo de uma decisão colegiada do TRE. Seu problema maior parece ser estar à frente da Saíde de Campos, calcanhar de Aquiles com tíbia e fíbula expostos diariamente em todas as unidades da rede pública e conveniada do município. Não sem razão, talvez seja justo o raciocínio de que Chicão, homem de bem e médico conceituado, foi posto onde está exatamente para não chegar onde poderia.
Quanto aos demais, ressalvado que Makhoul Moussallem, outro médico brilhante, não será candidato a nada em 2016, quase todos os outros guardam em comum, na oposição e situação, o fato de estarem na Câmara Municipal. Alexandre Tadeu (PRB), Rafael Diniz (PPS), Nildo Cardoso (PSD) Gil Vianna (PR, de mudança ao PSB), Edson Batista (PTB) e Mauro Silva (PT do B) são vereadores e provas de que está certo quem enxerga a força dos parlamentos crescer diante de governos fracos.
Estão aí os de Dilma e Rosinha para não deixarem dúvida.
Publicado hoje na Folha da Manhã

Como externei na orelha do seu primeiro livro, “Liquidifca(dor) — Poesia para vita mina”, de 2007, pela Imprimatur, conheci o Adriano Moura nos FestCampos de Poesia realizados no Palácio da Cultura, ainda nos anos 1990. Antes mesmo de ler, lembro do impacto que foi ouvir os versos de “Os donos do poder”, meu primeiro poema dele, e perceber alguém da mesma idade, vivendo na mesma cidade, fazendo a mesma coisa, mas por caminhos que eu ainda sequer sabia existirem. Naquilo que Cazuza (1958/90) chamou de “inveja criativa” em relação a Renato Russo (1960/96), dois ícones da nossa geração, dividir tempo, espaço e lida com Adriano, fez crescer muito meu fazer poético, levado adiante a partir da leitura e do estudo que vi refletidos nos versos dele. Em Campos, talvez seja o mais destacado exemplo de poeta egresso do magistério em Letras, fenômeno contemporâneo que tem dominado a arte de versejar nas grandes capitais do Brasil.
Independente da origem, assumo não sem orgulho que, entre conterrâneos e contemporâneos, “ninguém outro poeta no mundo” me influenciou tanto — na referência de Manoel de Barros (1916/2014) a Vladímir Maiakóvski (1893/1930). E é força de gravidade ainda presente, engordada pela leitura prévia dos originais de “Todo poema merece um dedo de prosa”, novo livro de poesia que Adriano projeta lançar nos próximos meses, ainda neste ano da Graça de 2015. Aliado ao “lirismo profundamente amargo, mutilante e sem concessões” que a professora Analice Martins tão bem define no prefácio do primeiro livro, o segundo evidencia uma clara influência sintática de Manoel de Barros, como por outro lado revela o uso mais desavexado do humor, quase sempre cáustico e debochado, herdado da prosa de um autor também dramaturgo, e talvez dos poemas-piada de Oswald de Andrade (1890/1954), que tanto marcaram o Modernismo brasileiro.
Entre seus dois livros de poemas, Adriano deu-se a conhecer em prosa:
“Minha produção poética atual permanece bastante diversificada, assim como a que deu origem ao meu primeiro livro ‘Liquidifica(dor)’. Porém acredito que eu esteja amadurecendo e caminhando para uma poética de voz mais definida. Tenho me ocupado mais com o trabalho de elaboração de imagens poéticas e, em alguns poemas, optado por certo rigor formal.
A poesia de autores como Manoel de Barros e do moçambicano José Craveirinha (1922/2003) me tem servido de escola no plano imagem, assim como os clássicos de sempre como Arthur Rimbaud (1854/91) e Fernando Pessoa (1888/1935). A influência é importante. Por meio dos grandes mestres do passado e do presente, atingimos nossa dicção poética pessoal e única.
Os poemas de meu novo livro ‘Todo verso merece um dedo de prosa’ ainda são poemas de um autor em formação. Talvez eu nunca tenha uma voz poética definitiva, já que me vejo sempre buscando novas experimentações.
Minha inspiração, se é que isso existe, tem brotado mais de experimento do que de musas.
Mas o essencial mesmo para mim é o incômodo e o espanto com os fatos da vida, sejam os mais extraordinários ou cotidianos”.
Emblematicamente, no poema “Técnica”, do novo livro, o poeta verseja a confissão: “pra poesia não basta inspiração/ tem de saber olhar as coisas/ pela janela”. Através das muitas abertas pela obra desse irrequieto imagético das letras campistas, foram escolhidos dois poemas, um de cada livro, para ilustrar este domingo nascido tímido e ainda úmido de chuva, entre os segredos do mar e as nuvens do verso:

Com quantas conchas se faz um verso
Apanhar palavras no vento
É como ouvir os segredos do mar
Nas conchas do caramujos,
São notas perdidas no tempo
À espera de composição.
Cato palavras no vento
Que não me lança contra rochedos em dia de fúria
Mas segredos…
Não há como os do mar!
Então eu ouço os segredos de um,
Colho palavras do outro
E conto para o mundo:
Eis a minha infidelidade.
Queria aventurar-me a maiores turbulências
Mas sou poeta de horas vagas e concursos literários,
Subtraído pelos livros de ponto
E prestações de conta.
Deito a tranquilidade das brisas
E guio o leme dos meus versos.
Vez em quando cato uma concha das grandes
E fico sentido saudade do Ulisses que não fui.
O vento sabe da minha preferência pelo mar,
Por isso em dia de fúria
Varre todos os caramujos da minha margem.

Não meta linguagem
Hoje amanheci de poesia
mas não soube dizer,
esperei o verso cair do céu
mas ele quis continuar nuvem,
pensou que mais chuva inundaria meus rios
bueiros
buracos
beiras,
provocaria deslizamentos,
frases orações períodos inteiros
e viraria texto.
Entendo a condição de nuvem do verso:
metamorfose
pode ser planta bicho monstro gente: Deus.
Chuva: apenas gota água lama onda lágrima.
Mas enquanto durar a estiagem,
aprendo a pilotar aviões
e a navegar nuvens.