Crítica de cinema — Uma comédia para ficar triste

De olhos bem abertos

 

 

Divã a 2

 

Mateusinho 1Divã a 2  — “O Divã”, filme de José Alvarenga Jr. lançado em 2009, contava a história de uma mulher de meia idade, aparentemente feliz, que acudia ao psicanalista tentando descobrir a causa de certo desconforto emocional. No processo, a personagem iria descobrir o seu ‘outro lado’, passando a questionar valores aparentemente sagrados como o matrimonio, a fidelidade, a devoção ao lar, etc.

“Divã a 2”, por sua vez, se apresenta como uma seqüência desse primeiro filme, ao utilizar a mesma arte visual no seu título e tratar sobre personagens que contam suas vidas perante um psicólogo. Entretanto, as similitudes param por ai. E não apenas porque sejam atores e situações diferentes, mas principalmente porque suas ‘mensagens’ diferem completamente. Além disso, o primeiro longa funcionava como comédia, enquanto o segundo não apenas  falha estrondosamente na tarefa de provocar sequer um sorriso, como nos apresenta um falso final feliz que na verdade é profundamente desolador.

Eduarda (Vanessa Giácomo) é uma médica ortopedista casada com Marcos (Rafael Infante), produtor de eventos. Embora ambos sejam profissionais bem sucedidos, a relação entre eles não anda muito bem, revelando o desgaste de um casamento prematuro. De comum acordo, o casal decide ‘dar um tempo’ no relacionamento, e assim cada um irá se aventurar na procura de novos parceiros amorosos, enquanto lidam com os problemas derivados da separação, especialmente no que diz respeito ao cuidado do filho de 10 anos.

O segundo ato do filme, assim, se dedica a mostrar os encontros românticos que cada um deles experimenta com terceiros. Enquanto Marcos parece encarar essa nova etapa da sua vida sem nenhum tipo de peso na consciência, a Eduarda se revela reticente em abrir seu coração, mas a sua melhor amiga (Fernanda Paes Leme) dará a ela alguns conselhos sobre como ‘se soltar’ e começar a curtir a sua nova vida de desimpedida.

Até esse ponto, o longa poderia ser qualificado como uma comédia romântica medíocre: as cenas carecem do timing adequado; o desempenho dos atores é bastante desigual (destaque para Giácomo, pela beleza e pelo talento) e as situações são previsíveis e ligeiramente engraçadas. Surpreende, pelo descaro, o ‘merchand’ que é realizado de certos produtos: a câmera passa a focar neles interrompendo a narrativa grosseiramente.

Todavia, o pior está por chegar. O terceiro ato é um desastre na narração, na direção (uma constrangedora cena de Fernanda Paes Leme que destoa de seu aceitável desempenho até esse ponto) e, no pior de tudo, na ‘moral’ da história. Pois, se até o final do segundo ato a ideia que se passava era a importância de Eduarda procurar a felicidade sem se importar com os convencionalismos impostos pela sociedade e pelo machismo, na terceira parte o roteiro força a barra para que uma série de eventos a obriguem a decidir o seu futuro da forma menos voluntária que poderia acontecer.

Um filme, assim como qualquer narração, é um caminho a ser atravessado por um personagem. Quem determina o percurso é o personagem, mas o próprio caminho também faz mudar, em algum aspecto, o indivíduo. Em “Divã a 2” a Eduarda percorrerá um trajeto circular, e a maior angústia que terá o espectador será perceber que nem a personagem, nem os realizadores, se deram conta disso. A imagem congelada da última cena, supostamente feliz, é tão perturbadora quanto o sorriso de Rafael Infante. Nos créditos finais aparecerá o único lance engraçado de “Divã a 2”, mas virá tarde demais.

Tomei o (leve) trabalho de contar, no inicio do filme, as logomarcas das entidades privadas e públicas que cooperaram na realização: foram 15. Para ser um longa que se limita a mostrar pessoas falando frente à câmera, cabe perguntar qual o destino, e o sentido, de tanto apoio, patrocínio e colaboração

 

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Pré-estreia de “A Matrioska” nesta sexta no Sesc

Depois de convencer como dramaturgo num universo do qual é íntimo, entre as desventuras das salas de aula, o professor e poeta Adriano Moura tem ambientado suas últimas peças fora dos muros escolares. Talvez o equilíbrio da comédia dando fluidez à tragédia do sistema educacional (e manicomial) brasileiro, em peças como “Diário de classe” e “Meu querido diário”, não tenha se repetido em “O julgamento de Lúcifer”, entre o céu e o inferno superficiais de um talk show.

Por isso mesmo, importante conferir o novo trabalho desse talentoso e múltiplo artista das letras campistas, cuja nova peça, “A Matrioska ou o jogo da verdade”,  premiada no Festival Nacional de Dramaturgia da Federação de Teatro do Estado do Rio de Janeiro (Faterj), tem pré-estreia marcada para esta sexta  (22/05), às 20h, no Sesc-Campos. No palco, nas palavras de Adriano: “Já imaginou um médico que pensa como Jair Bolsonaro, recebendo em sua casa uma atriz decadente usuária de drogas e um advogado gay e seu namorado, para beber, comer e assistir a um jogo do Brasil enquanto as ruas estão tomadas por pessoas protestando contra a taxa de iluminação? As coisas às vezes são o que não parecem”.

Com direção de Fernando Rossi, o elenco traz Caio Paes de Freitas, Daniel Azeredo, Katiana Rodrigues, Liana Velasco e Mayko Gente Boa. Pelo autor, diretor e atores, naquilo que o segundo definiu como “uma comédia corrosiva”, vale a pena a conferida.

 

(Foto de Valmir Oliveira - Folha da Manhã)
(Foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)

 

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“É a economia, estúpido!” — Correlação entre inflação e popularidade de Dilma e Lula

Em meio do exercício fútil de vaidades, dos “pastores” de auto-ajuda e demais baboseiras que pululam diuturnamente na democracia irrefreável das redes sociais, felizmente existem aqueles que utilizam a valiosa ferramenta com inteligência na taba goitacá. Um deles é o economista e analista político Ranulfo Vidigal, que divulgou aqui uma correlação interessante, colhida junto aos cariocas pelo instituto de pesquisas GPP, entre a percepção da inflação e a erosão na popularidade da presidente Dilma Rousseff (PT) e do seu antecessor (e criador), Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Como sentenciou James Carville, estrategista eleitoral de Bill Clinton, na campanha vitoriosa deste à presidência dos EUA em 1992: “É a economia, estúpido!”. Na dúvida, confira:

 

GPP

 

ranulfo1
Ranulfo Vidigal

Pesquisa GPP na cidade do Rio de Janeiro – 1200 entrevistados entre 9 e 10 de maio.

1. A avaliação geral de Dilma: ótimo+bom 7,6%, e ruim+péssimo 71,6%.

2. Quando é feito o cruzamento com a Percepção da Inflação os resultados mudam. Os que acham que a inflação anual é superior a 10% dão a Dilma 4,8% de ótimo + bom e 78% de ruim+péssimo. Os que acham que a inflação está perto de 10% dão a Dilma 6,5% do ótimo+bom e 72,2% de ruim+péssimo.

3. Porém, os que acham que a inflação está em 5% ou menos dão a Dilma 23% de ótimo+bom e 46% de ruim+péssimo.

4. Ou seja: elas por elas, a inflação no Rio está tirando uns 30 pontos da avaliação de Dilma.

5. De forma geral, o crescimento da inflação tem impactado negativamente em Dilma e Lula. Ou seja, a inflação é um componente significativo da impopularidade de Dilma e Lula.

 

 

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Crítica de cinema — O retorno de Mad Max

Cinematógrafo

 

Mad Max

 

Mateusinho 3Mad Max: estrada da fúria — Depois de três filmes da série “Mad Max” (1979, 1981, 1985), George Miller, aos 70 anos de idade, retorna dirigindo “Mad Max: estrada da fúria”. Sua volta às telas com o personagem que o projetou e a Mel Gibson lhe permitiu se valer de toda a tecnologia que a arte cinematográfica desenvolveu nos últimos 30 anos. O novo “Mad Max” foi filmado em 3D. Nele, as correrias, as perseguições, as lutas são tantas que, confesso, senti falta de um pouco de calma para refletir melhor. É preciso, por um momento, suspender a ação em 3D para pensar mais sobre o roteiro coescrito pelo próprio Miller.

Como os anteriores, “Mad Max” é uma distopia, ou seja, uma concepção pessimista de futuro. Distopia é o oposto de utopia, concepção otimista de futuro. As utopias foram muito frequentes na Europa dos séculos XVI e XVII, mas a tecnologia, que prometeu dias melhores à humanidade, está estimulando distopias, principalmente depois das duas bombas atômicas lançadas pelos Estados Unidos sobre o Japão em 1945, encerrando a Segunda Guerra Mundial. Vários são os motivos para a germinação de distopias, no mundo atual, e uma guerra nuclear não é tanto um deles. A superpopulação do planeta, as pandemias e a crise ambiental são campos mais férteis para elas.

“Mad Max” é uma distopia ambientada num futuro em que a humanidade, ou o que restou dela, vive em situação de extrema escassez de terras férteis, de água, de Estado, de governo, de leis e de tudo aquilo que nós ainda denominamos civilização. “Mad Max” é fruto da destruição da civilização pela civilização, que vem, de fato, provocando a esterilidade do solo  e a escassez de água. A civilização ocidental globalizada fabrica desertos e esgota as águas. “Mad Max” pode advertir o Oriente Médio e a Rússia, onde os desertos se ampliam, ou o Sudeste Brasileiro, onde a água, outrora abundante, torna-se cada vez mais rara.

Em 1981, o escritor brasileiro Ignácio de Loyola Brandão publicou a distopia “Não verás país nenhum” sobre o Brasil do futuro. Na minha opinião, trata-se do melhor romance futurologista que conheço. E, neste terreno infértil, tenho lido quase tudo que sai no Brasil e no exterior. O romance de Brandão é mais detalhista que “Mad Max”. Na minha avaliação, ele só peca por mostrar que este futuro sombrio está restrito ao Brasil. Nos Estados Unidos, ele já teria se convertido em filme.

Embora distopia, “Mad Max” abriga uma utopia chamada Vale Verde. O herói solitário, sem querer, acaba se juntando a um grupo de mulheres liderado pela imperatriz que persegue este paraíso no meio do caos. Contudo, o herói convence as mulheres que o futuro promissor está no passado, no lugar de onde eles partiram. O filme é também um manifesto feminista que não convence muito num mundo dominado por homens rudes minimamente organizados em classes sociais constituídas por pessoas estropiadas, por guerreiros criados como formigas e por uma elite formada por figuras teratológicas e violentas, sob a égide de fanatismo religioso. Invocando as fábulas fabulosas de Millôr Fernandes, num mundo assim, não há lugar para os bons sentimentos. Todos são seres vivos lutando pela sobrevivência. No máximo, são reconhecidos mulher e homem como seres para os quais o sexo é uma necessidade básica. Mas não há cenas de sexo no filme.

 

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Dia do Rock Goytacá oficializado por Rosinha e ignorado por seu gestores de cultura

Aqui, na democracia irrefreável das redes sociais, o professor, poeta e dramaturgo Adriano Moura deu seu testemunho do sucesso do Dia Municipal do Rock Goytacá, em homenagem ao falecido guitarrista Luizz Ribeiro e promovido no último sábado, embaixo da ponte Leonel Brizola (ex-Rosinha), rigorosamente sem nenhum apoio da Prefeitura de Campos, apesar da própria prefeita ter oficializado a data no calendário cultural do município. Um dos organizadores do evento, o Kiko Anderson publicou em comentário a cópia da oficialização do Dia do Rock Goytacá por Rosinha, que na prática não serviu de nada para quem ela mantém à frente da cultura pública do município. Abaixo, o desabafo do Adriano:

 

Dia do Rock Goytacá 16-05-15

 

Tive ontem (16/05) o privilégio de estar no “Dia do rock goytacá” em homenagem ao músico e compositor Luiz Ribeiro, embaixo do viaduto Leonel Brizola. Tive o privilégio de ouvir bandas como Cântarus, Vibrato, Tubarão Martelo, Eixo Nacional; dentre tantas outras de altíssima qualidade. Evento feito, segundo os organizadores, sem patrocínio público ou privado. Que a presidente da Fundação Cultural de Campos e o “secretário de Cultura” dessa cidade aprendam alguma coisa com esses organizadores, que provaram que pra fazer um evento cultural de qualidade não são necessárias fortunas em cachês pagos a artistas que protagonizam programas de televisão. Basta vontade política e consciência do compromisso com o desenvolvimento cultural do município . Desculpa! Esqueci-me de que consciência e compromisso não é bem o forte de quem se diz gestor dessa Campos “formosa”, “intrépida” e que “ama zona”. Parabéns aos organizadores do evento. Vocês têm muito a ensinar.

 

Na política pública da cultura de Campos não vale nem o que está escrito e assinado  pela prefeita
Na política pública da cultura de Campos não vale nem o que está escrito e assinado pela prefeita

 

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Crítica de cinema — “Divã a 2” pega carona para o lugar errado

Colyseu

 

 

Divã a 2

 

Mateusinho 2Divã a 2 — Na última sexta-feira (15/05) participei da III Conferência Municipal de Educação de Campos dos Goytacazes, no Eixo I – garantia do Direito à Educação de qualidade. Debatíamos sobre o cumprimento da lei 13.006/14 que obriga a utilização de, no mínimo, 2h/mês de produção audiovisual nacional, como ferramenta pedagógica nas escolas de educação básica, quando uma participante se manifestou contra e me perguntou se realmente eu teria coragem (?) de exibir filmes nacionais para meus alunos.

Até hoje o cinema nacional é vitima desses preconceitos, apesar de hoje, já não ser mais o mesmo que fora na década de 70, quando apostava no erotismo das pornochanchadas como modo de conseguir público e não tinha técnicos e nem equipamentos de qualidade. Fora que, se a referida moça for campista, sua geração passou infância e juventude com poucas e péssimas opções de salas de exibição e produções  cinematográficas — Cine Capitólio com filmes pornôs e de kung fu e as duas salas minúsculas do Turf Centro com seu lendário porteiro antipático e sem isolamento de som —, contribuindo para a falta de informação e desinteresse pela produção nacional.

Contribuição recente para esse desinteresse dá a Total Entertainment quando lança a comédia dramática “Divã a 2”, dirigido por Paulo Fontenelle — de “Se eu fosse você” (2013) e “Se puder…dirija”(2012) —  que força a barra e tenta pegar carona no sucesso de “Divã” (2009), que com texto original de Martha Medeiros, autora do livro homônimo  e estrelado por Lilia Cabral, levou cerca de 1,8 milhão de espectadores aos cinemas para conferir as desventuras de Mercedes, uma quarentona, com a vida estabilizada, resolve ir ao analista.

Até a identidade visual do cartaz é uma quase cópia do filme original , visando claramente a levar o público ao erro.

No elenco da produção atores globais  como a linda morena Vanessa Giácomo — “Jean Charles” (2009) e “Solidões”(2013) — como Eduarda. Rafael Infante — “Muita calma nesta hora 2”(2013), “Viral” e “Refém”(2014) — é Marcos. Marcelo Serrado — “Crô – O filme”(2013), “Rio eu te amo”(2013), “Gabriela”(2012) — como Léo, Totia Meirelles como Cristina, a mãe protetora, além de Fernanda Paes Leme — “O Homem que Desafiou o Diabo”(2007) — que, em excelente forma, convence como Isabel, ensandecida sexual  e melhor amiga da protagonista. O que falar sobre as participações especiais (?) de Fiuk e Maurício Mattar? Vergonha alheia.

A trama lotada de clichês e,  fórmulas batidas, piadas fracas e situações cômicas mal trabalhadas  fica devendo como comédia. Nem o talento de Vanessa Giácomo consegue salvar o casal de protagonistas, já que Rafael Infante não chega a ter cacoete para drama.

O destaque positivo é a qualidade de imagem e som que confirma a melhora de nossas produções nos últimos anos.

Não é filme para ser lembrado ou indicado. Que a companheira da conferência fique tranquila.

Seguro que não exibiria para nossos alunos.

 

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Artigo do domingo (II) — O esgotamento do modelo dos Garotinho em Campos

esgotado

 

 

Wilson Diniz e Ranulfo Vidigal bonecos
De cima para baixo, os economistas e analistas políticos Wilson Diniz e Ranulfo Vidigal

Por Wilson Diniz e Ranulfo Vidigal

 

As manchetes do jornal Folha da Manhã ilustram uma série de reportagens sobre os desmandos financeiros da Prefeitura de Campos. Prisões na área da Saúde (aqui), perda em aplicações no mercado financeiro de R$ 110 milhões (aqui, aqui, aqui e aqui), queda de popularidade do governo local nas pesquisas (aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e muita retórica, com pouca ação concreta escondendo as verdadeiras justificativas que explicam (aqui) o declínio da receita de R$ 106 milhões no caixa da Prefeitura e que, neste ano, já chega a R$ 268 milhões, decorrente da crise do preço do barril do petróleo.

A titular do mandato eletivo — coadjuvante do seu marido e secretário de Governo Garotinho — deveria ir à imprensa e admitir que durante seu governo, desde 2009, recebeu mais de R$ 17 bilhões de repasses dos royalties do petróleo e aplicou injustificadamente em programas populistas, de baixo grau de resolutividade, ou seja, sem gerar desenvolvimento e emprego formal na indústria e agricultura, além de pouco priorizar a Saúde e a Educação do Ensino Básico no município.

Com jeito dócil e interpretando scripts fragmentados de uma peça estafante escrita por seu marido, disfarça e simula números pouco críveis, que não explicam a incompetência da gestão, em administrar receitas anuais de mais de R$ 2,5 bilhões por ano — uma das 20 dotações mais elevadas entre as 5.550 prefeituras brasileiras.

Sabe ela que prefeituras de cidades com a mesma população têm receitas muito menores, mas apresentam indicadores socioeconômicos muito elevado comparado com o município campista que importou as políticas de Hugo Chaves e de Nicolás Maduro.

Para esclarecer ao grupo desta oligarquia provinciana, que comanda Campos há 30 anos, administrando o caixa da Prefeitura como trampolim para projetos pessoais ambiciosos do secretário de Governo, escolhemos cinco outros municípios para fazermos comparações de como, com receitas muito menores, a cidade poderia ser administrada. Vejamos o rol elencado que optamos para comparações:

 

Info artigo Wilson Diniz e Ranulfo Vidigal 17-05-15

 

O quadro acima serve de lente de aumento para a prefeita e seu marido enxerguem as discrepâncias dos números entre cidades com população, quase semelhantes e com receitas muito menores possuem indicadores da Educação que colocam alguns municípios no ranking entre os melhores do país, enquanto Campos está na posição vergonhosa fotografada na 1.427º colocação.

A cidade de São José do Rio Preto, interior de São Paulo, destaca-se entre as elencadas. Com a receita de R$ 1.1 bilhões — menos da metade de Campos —, gasta 22% de sua receita na pasta da Educação e ocupa no ranking a 50º posição. E aí, prefeita, como se explica que a cidade governada pelo seu marido, com receita de R$ 2,5 bilhões/ano, está entre as piores cidades do país, comparada a dos grotões do Nordeste?

Como se explica que São José dos Campos gasta R$ 494 milhões na Educação, representando 26% da receita e o seu governo, com tanto dinheiro no caixa, investe apenas 14%?

Quando comparamos Campos com Niterói e Santos, o quadro é mais dramático. As duas cidades estão entre dez melhores no ranking do IDH, enquanto Campos, no IDH da Educação, tem a classificação de 0,61, índice considerado baixo até para cidades do interior do Maranhão governada pela família Sarney.

A nossa elite política governista da capital do açúcar e dos royalties tem que dar satisfação ao povo campista sem falsa retórica, para disfarçar e simular números fictícios na tentativa de justificar tantos desmandos.

Nós assinamos este artigo, com a convicção de estamos dando uma pequena contribuição, ao acalorado debate que se instala na cidade onde a sociedade campista aos poucos, desmascara esta peça de teatro de ópera bufa, interpretada por uma brilhante atriz coadjuvante, mas escrita pelo seu marido secretário de governo.

A fotografia da última pesquisa publicada (aqui) pela Folha da Manhã, prova que o atual modelo de governo de Campos se esgotou. A oposição unida pode ser algoz desse reinado.

 

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Artigo do domingo (I) — É possível salvar o Mercado Municipal de Campos?

Quando atuou para salvar o prédio do antigo Cine São José, como mostra a Folha de 1999, Soffiati contou com a ajuda do Ministério Público Estadual de Campos para preservar o patrimônio arquitetônico e cultural do município. O que mudou de lá para cá?
Quando atuou para salvar o prédio do antigo Cine São José, como mostra a Folha de 1999, Soffiati contou com a ajuda do Ministério Público Estadual de Campos para preservar o patrimônio arquitetônico e cultural do município. O que mudou de lá para cá?

 

 

Historiador, professor, escritor, crítico de cinema e ambientalista Arthur Soffiati
Historiador, professor, escritor, crítico de cinema e ambientalista Arthur Soffiati

É possível salvar o Mercado?

Por Artur Soffiati

 

No longínquo ano de 1999, ante o anúncio de demolição do Cine São José, ingressei com representação no Ministério Público Estadual pedindo o cumprimento dos artigos 51 e 52 da Lei Municipal n.º 5.251/91, que instituiu o primeiro Plano Diretor de Campos segundo os ditames da Constituição Federal de 1988. O Plano Diretor não tombou nenhum imóvel, mas arrolou no Artigo 52, para fins de tombamento, vários imóveis, entre eles o prédio do Cine São José.

Foi o quanto bastou para que o Ministério Público Estadual instaurasse um Inquérito Civil que recebeu o número 162/2001, no âmbito da 2ª Promotoria de Justiça da Tutela Coletiva do Núcleo Campos. Graças às diversas audiências públicas promovidas pelo promotor titular, a Prefeitura de Campos criou o Conselho de Preservação do Patrimônio Municipal (Coppam) e tombou os bens imóveis arrolados no atual Plano Diretor, instituído pela Lei nº 7.972, de 31 de março de 2008, além de outros, pela Resolução Nº 005/2013. O imóvel que abriga o Mercado Municipal está incluído na lista promulgada pela Resolução.

A partir de então, as celeumas começaram. A Prefeitura transferiu o camelódromo para o Parque Alberto Sampaio para construir um novo conjunto de boxes. No âmbito do Coppam, os defensores do Mercado propuseram a transferência do Camelódromo para outro local com a revitalização do antigo Mercado e a proteção do seu entorno. A Prefeitura mostrou-se irredutível quanto ao retorno do Camelódromo porque, sempre que contestada, ela entende que está sendo desafiada. Os defensores do Mercado ingressaram com um pedido de tombamento do imóvel pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) e, ao mesmo tempo, com uma Notícia no Ministério Público. O Inepac enviou correspondência à Prefeitura e ao MPE solicitando que a primeira não executasse as obras de reforma do Camelódromo e que o segundo aguardasse e decisão do Inepac.

Enfim, o Ministério Público promoveu o arquivamento do inquérito alegando (aqui) que o Inepac não tombou o prédio do Mercado, que o referido prédio já se encontra empachado, mesmo sem o Camelódromo funcionando no lugar em que funcionava, e que a questão deve ser considerada numa perspectiva macro.

Entendo que o Ministério Público ganhou grande autonomia com a Constituição Republicana de 1988, mas é uma instituição cuja função é fiscalizar o cumprimento das leis. Parece não haver pegada indiscutível para a criação de uma área de tutela no entorno do Mercado, mas há. O dispositivo está no Plano Diretor vigente, que foi invocado pelo ato de tombamento dos bens imóveis, mas não especificado.

No artigo 317, lemos: “São instrumentos básicos para a implementação da política de proteção do patrimônio cultural I- Tombamento e a instituição da Área de Entorno do Bem Tombado”.  O artigo 321 explicita: “Para a proteção da integridade, ambiência e visibilidade dos bens tombados serão estabelecidas Áreas de Entorno do Bem Tombado, quando couber”. Prossegue o artigo 322: “Entende-se por Área de Entorno de Bem Tombado, aquela área, de domínio público ou privado, que integra e compõe a ambiência dos bens imóveis tombados, que estabelece restrições para garantir a visibilidade do bem e para preservar as construções que guardam, com o bem tombado e entre si, afinidade cultural ou urbanística relevantes para a sua valorização. Parágrafo único – Todos os imóveis incluídos numa Área de Entorno de Bem Tombado serão tutelados pelo órgão executivo do Patrimônio Cultural”.

Concluindo para nosso propósito, o artigo 323 estabelece: “No caso de tombamento provisório de bens imóveis fica instituída, automaticamente, a área de influência do bem tombado, correspondente a um imóvel lateral direito, um imóvel lateral esquerdo e um imóvel de fundos, limitada à dimensão da testada do bem tombado, para proteção cautelar do seu entorno”.

Em resumo, cabe a criação de uma área de entorno no prédio do Mercado. Na verdade, Ministério Público e Prefeitura não foram até o final no processo de tombamento. Cabe agora uma segunda etapa, que consiste na definição da área de entorno dos bens tombados sempre que couber.

Quanto à questão social, lembro que o ex-prefeito Arnaldo Vianna contratou os serviços da Sérgio Moreira Dias, Engenharia, Projetos e Consultorias para projetar e executar várias intervenções urbanísticas. Para o camelódromo, a alternativa encontrada pela firma foram os altos do prédio da Rodoviária Roberto da Silveira devidamente reformados e adaptados à atividade comercial. Apenas a Praça do Santíssimo Salvador foi reformada. Mas a empresa recebeu muito dinheiro pelos projetos.

Não sei se estes dispositivos do atual Plano Diretor foram invocados pelos autores da representação ao MPE ou se o promotor titular (aqui) os levou em consideração. Sei apenas que, em face deles, um novo inquérito deve ser instaurado e debates públicos devem ser promovidos em busca de uma solução que possa atender aos defensores do patrimônio cultural e aos comerciantes do Camelódromo. Afinal, o prédio do mercado é tombado e tem espaço para a proteção do entorno ou área de tutela. Além do mais, ele se situa às margens do Canal Campos-Macaé, tombado pelo Inepac mas coberto no trecho entre a rua Formosa e o Rio Paraíba do Sul. Este trecho deveria ser descoberto. Mas aí já é outra questão.

 

Após o promotor Marcelo Lessa desconsiderar o apelo do Inepac, as polêmicas obras no Mercado Municipal foram retomadas pelo   governo Rosinha (foto de Valmir Oliveira - Folha da Manhã)
Após o promotor Marcelo Lessa desconsiderar o apelo do Inepac para aguardar, as polêmicas obras no Mercado Municipal foram imediatamente retomadas pelo governo Rosinha (foto de Valmir Oliveira – Folha da Manhã)

 

 

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Poema do domingo — Escorrido entre as pernas de um rio fêmea

Já tive minhas diferenças, algumas até públicas, com o Fernando Leite. Todavia, isso para mim nunca nublou o fato de se tratar de um grande poeta, dono de capacidade imagética talvez sem par entre os versejadores viventes nesta planície cortada pelo Paraíba do Sul. Sobre o passado conflituoso, à parte a admiração inevitável entre escribas dotados de algum talento, penso que felizmente acabou por prevalecer, para um e o outro também, o juízo dos versos de Lamartine Babo (1904/63) em “Serra da Boa Esperança”, pérola do cancioneiro nacional muito menos conhecida do que merecia: “Sei que Jesus não castiga/ Um poeta que erra”.

Abaixo, a mais nova cria do Fernando, escorrida entre as pernas de um rio fêmea que o poeta fidelense descido a Campos um dia escreveu correr castanho em seus olhos:

 

(Foto de Leonardo Berenger)
(Foto de Leonardo Berenger)

 

 

CURVA DA LAPA

 

O rio Paraíba do Sul é feminino.

Só isso explica

aquele dorso sinuoso,

sensual

da mulher que desperta

do sono preguiçoso

da tarde,

enquanto lava

seus cabelos

na bacia do Pontal

 

 

 

 

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