Petrolão em pesquisa — Oito em cada 10 acham que Dilma sabia. E Lula?

Charge do Amarildo publicada ontem (22/03)
Charge do Amarildo publicada ontem (22/03)

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Brasileiro está deixando de ser bobo. Oito em cada 10 acreditam que Dilma sabia da corrupção na Petrobras

Por Ricardo Noblat

 

Um novo pedaço da pesquisa de opinião pública do Instituto Datafolha, que ouviu na semana passada 2.842 pessoas em 172 municípios do país, confirma o que se esperava: o brasileiro está ficando mais esperto.

Ainda poderá ser enganado como tantos outros povos o são. Mas essa não é uma tarefa assim tão fácil como foi.

De cada dez brasileiros, por exemplo, oito acreditam que a presidente Dilma Rousseff sabia da corrupção que acontecia na Petrobras. Por saber, era cúmplice, pois.

Seis em cada 10 acham que ela “deixou” que ocorressem os crimes. Apenas 2,3 em cada 10 dizem que, apesar de saber, Dilma “não poderia fazer nada” para impedir.

No grupo dos que declararam voto em Dilma no segundo turno da eleição do ano passado, 74% estão convencidos que ela sabia da roubalheira – contra 19% que não acreditam que ela tivesse conhecimento, e 8% que não souberam responder.

Para 51% do total de entrevistados, a Petrobras será prejudicada “por muito tempo”, o que “coloca o futuro da empresa em risco”.

Chega a 88% o percentual daqueles que acreditam, em menor ou maior grau, que a Petrobras foi prejudicada pelo escândalo.

Uma pena que a pesquisa não tenha perguntado se Lula teve ou não alguma coisa a ver com a roubalheira. Se ela começou no governo dele ou não.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

Atualização às 11h53: O primeiro a noticiar a nova pesquisa Datafolha sobre os danos contundentes dos escândalos de corrupção na Petrobras sobre o governo Dilma Rousseff, foi o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos, aqui.

 

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Crítica de cinema — Das divergências e insurgências da juventude

Caixa de luzes

 

Divergente insurgente

 

Mateusinho 2A série Divergente: Insurgente — Franquias adaptadas da literatura (ou dos quadrinhos) ao cinema parecem ter se tornado coqueluche neste início de terceiro milênio cristão. O problema com elas pode ser pegar o bonde andando, ignorando o contexto previamente dominado por quem conferiu o filme anterior da série — ou leu o livro, ou ambos. É o caso de quem for assistir a “A série Divergente: Insurgente”, sem ter visto antes “Divergente” (2014, de Neil Burger), primeiro filme da franquia baseada na recente trilogia “A série Divergente”, escrita por Veronica Roth, que se tornou bestseller mundial.

Gênero bem conhecido no cinema desde o milênio passado, a ficção científica pós-apocalíptica empresta contexto ao filme, num futuro em que a Terra foi devastada, teve as cidades abandonadas, e todos os humanos sobreviventes vivem sob a proteção de uma muralha, dentro da qual se equilibram na divisão em seis facções, reunidas a partir do que se crê ter levado ao colapso da civilização. Os que culparam a agressividade formaram a Amizade. Os que culparam a ignorância se tornaram a Erudição. Os que culparam a falsidade fundaram a Franqueza. Os que culparam o egoísmo geraram a Abnegação. Os que culparam a covardia se juntaram à Audácia. E os que acham que é culpa demais e ninguém está livre dela, se arrebanharam nos Sem Facção.

Os divergentes são aqueles capazes de habitar em todas as facções, mas sem se enquadrar de fato em nenhuma, sendo por isso encarados como ameaça ao sistema, comandado com mão de ferro pela líder da Erudição, Jeanine Matthews, interpretada por Kate Winslet, ainda bela, mas que já esteve mais à vontade em outras personagens. Nessa, ela representa o mundo adulto, a continuidade, a tradição, enquanto comanda uma verdadeira caçada humana na tentativa de reprimir a divergente Beatrice “Tris” Prior (Shailene Woodley), que por sua vez simboliza a juventude, a contestação, a rebeldia.

Tris não está sozinha. Ao seu lado estão outros jovens renegados. Tobias Eaton “Quatro” (Theo James) é o seu namorado apaixonado e protetor. Eclipsado pela força de Tris, quase como cópia em papel carbono, seu irmão é Caleb Prior (Ansel Elgort). E há ainda o sarcástico e surpreendente Peter Hayes (Miles Teller). Shailene, Theo e Miles dão credibilidade aos seus personagens, exceção feita à interpretação apagada de Ansel, capaz de decepcionar quem tinha colhido uma boa impressão do jovem ator, por sua sensível atuação em “Homens, mulheres e filhos” (2014), de Jason Reitman.

Além de Kate Winslet no papel de vilã, outra veterana igualmente ainda bela também bate ponto no filme. E no papel da anti-heroína Evelyn Johnson-Eaton, líder dos Sem Facção e mãe ausente de Tobias Eaton, Naomi Watts está mais convincente do que a colega no papel da sua rival.

A direção de Robert Schwentke também não está ruim, bem dosada entre adrenalina e drama. Todavia, a verdade é que talvez seja papagaiada demais para se falar do choque entre rebeldia juvenil e conservadorismo do mundo adulto. Sobretudo quando se constata que “Clube dos cinco” (1985), de John Hughes, quem diria, completa 30 anos neste 2015. E, na maior naturalidade das suas divergências e insurgências adolescentes, continua novinho em folha.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Bom final de semana na companhia de Alexandre Bastos e Arnaldo Neto

 pausa

 

 

De hoje até segunda, com exceção apenas para postar textos sobre cinema, farei uma pequena pausa na lida blogueira. Quase sempre à frente na cobertura do Petrolão na blogosfera goitacá, mais por inação dogmática alheia do que virtude própria, este “Opiniões” abre o jogo em duas pontas, com dois dos mais talentosos jornalistas e blogueiros da nova geração: Alexandre Bastos e Arnaldo Neto. Na certeza, leitor, que você estará em melhor companhia, aceite meu desejo sincero por um bom final de semana.

 

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Daqui em diante, Dilma viverá numa bolha para se imaginar no mundo que não a rejeite

a bolha

 

 

Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat
Jornalista e blogueiro Ricardo Noblat

Das aflições de uma presidente impopular. É de Dilma que falo

Por Ricardo Noblat

 

Daqui para frente, e só Deus sabe até quando, a presidente Dilma Rousseff viverá dentro de uma bolha para escapar do constrangimento de ser vaiada ou insultada pelos que a rejeitam.

E a se levar em conta a mais recente pesquisa de opinião pública do Datafolha, divulgada há dois dias, 63% dos brasileiros consideram o governo dela péssimo ou ruim. Só Collor teve rejeição maior (68%).

Dilma fez sua primeira aparição dentro da bolha, ontem, em Goiânia, onde esteve para autorizar investimentos do governo federal no BRT Norte-Sul. Viagem de propaganda, apenas.

A repórter Luiza Damé, de O Globo, anotou as principais medidas tomadas para que Dilma se imaginasse em outro mundo, aonde as pessoas só a aplaudem e querem posar ao seu lado para fotos.

Em um raio de dois quilômetros do Paço Municipal, local do evento, foram montados postos de triagem do público. No entorno do local, uma barreira com grades, depois um tapume com placas de ferro e novamente cerca de grades.

A segurança ficou por conta da Guarda Civil Metropolitana, Polícia Militar e Polícia Rodoviária Federal. Fora, naturalmente, os agentes de segurança que acompanham Dilma em viagens.

O objetivo do esquema de segurança era impedir a aproximação dos indesejados — integrantes do movimento Caras Pintadas e Brasil Livre. Por volta das 14h30, 24 deles apareceram.

Portavam três faixas com as inscrições “Fora Dilma”, “Fora PT” e “Impeachment”. Batiam panelas. E gritavam: “Dilma vá embora que o Brasil não quer você, leva com você o Lula e a quadrilha do P””.

A pedido do pessoal de Dilma, o prefeito de Goiânia, Paulo Garcia (PT), havia decretado ponto facultativo para as repartições abrigadas no Paço Municipal.

A ideia era esvaziar o Paço para evitar a infiltração de manifestantes. As cerca de duas mil pessoas que festejaram Dilma foram levadas para o Paço a bordo de ônibus alugados pela prefeitura.

Mesmo assim, a revista foi rigorosa. Até mesmo para jornalistas credenciados pelo Palácio do Planalto. Dilma chegou com uma hora de atraso, acompanhada de Marconi Perillo, governador do Estado.

Perillo foi vaiado pelo público formado por simpatizantes do PT. Reagiu pedindo mais tolerância — não para ele, mas para Dilma. Que agradeceu pedindo tolerância – sem dizer para quem.

Restou provado para os que não toleram Dilma que eles não precisam atrair muita gente para constranger Dilma.

Qualquer meia dúzia de pessoas será suficiente para incomodar Dilma. E inflar a bolha que a protegerá doravante.

 

Publicado aqui, no Blog do Noblat

 

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Crítica de cinema — A história de uma despedida

De olhos bem abertos

 

 

Para sempre Alice

 

 

Mateusinho 3Para sempre Alice — Por que assistimos filmes tristes? Qual o sentido de perder duas horas vendo uma história que nos irá angustiar? Uma possível resposta talvez esteja no poema do uruguaio Mario Benedetti, chamado ‘A Alegria da Tristeza’ onde diz que ‘há uma alegria estranha / desbloqueada / de saber que ainda podemos ficar tristes’.

Para Sempre Alice é um filme triste. Não tem como não ser, pois nos conta a história de uma professora em lingüística, interpretada por Julianne Moore, que aos 50 anos descobre possuir o mal de Alzheimer, numa variante de feroz progressividade. O longa, assim, dedica-se a revelar a maneira em que a doença afetará tanto à professora quanto ao resto da sua família, composta pelo seu marido (um contido Alec Baldwin) e seus três filhos.

Narrar a decadência de uma mente brilhante que fatalmente irá se apagar é sempre uma historia triste. Mas há formas de encarar a tristeza, e isso tem a ver com o efeito que se deseja produzir no espectador: pena, raiva, indignação, lástima, etc. Para Sempre Alice procura, apenas, aquela ‘alegria da tristeza’ de Benedetti. E não é pouco.

Tanto a direção quanto o desempenho de Julianne Moore se destacam por aquilo que é um dos maiores atributos dos grandes artistas: saber o que deixar fora da sua obra. No caso dos diretores Richard GlatzerWash Westmoreland há de se mencionar a decisão de manter durante quase todo o filme um tom livre de comiserações e apelações demagógicas. Nem sempre isto é atingido – há alguma que outra queda no sentimentalismo — mas reconforta saber que as cenas que mais impactam no filme não são aquelas onde vemos a Alice vitima da enfermidade. O que realmente emociona são os momentos onde ela luta e se debate contra o olvido, como, por exemplo, na cena da palestra que realiza na associação que combate a doença.

Faço um parêntese aqui para apontar a contradição entre o título original, Still Alice (Ainda Alice) e o que colocaram os distribuidores locais, Para Sempre Alice. Aquele é uma manifestação de resistência; este, uma inútil expressão de desejo. Parafraseando Rita Lee, aquele é cinema; este é novela.

A interpretação de Julianne Moore demonstra mais uma vez o grande talento que tem para assumir uma personagem sob forte carga emocional, com a sensibilidade e a dignidade que já demonstrara, por exemplo, naquela atriz pornô de espírito maternal de Boogie Nights;  na dona de casa doente de Safe;  na mãe que deve provar a existência de seu filho morto em Os Esquecidos;  na esposa que vê o seu mundo cair em Longe do Paraíso. A atriz ganhou este ano o Oscar por Para Sempre Alice, mas o premio foi também um reconhecimento aos seus trabalhos anteriores. Moore representa, como poucas mulheres, a dualidade entre a força e a fragilidade que toda mulher carrega.

O grande logro de Para Sempre Alice é que evita a tentação da lagrima fácil e dos golpes baixos. Com efeito, o filme escolhe transitar pelo caminho da dignidade, do carinho, e, principalmente, do pudor. Pois há pudor ao não humilhar a personagem; ao ampará-la durante o trajeto ao seu destino inevitável. Isto se manifestará, principalmente, ao se acenderem as luzes do cinema e percebermos até onde foi contada a história de Alice.

Não vou revelar os detalhes do desfecho. Direi, apenas, que os realizadores optam pela respeitosa decisão de finalizar o longa mostrando aquela Alice. A Alice que, apesar de tudo, ainda é. Aquela Alice que, antes de se adentrar nas terras incógnitas do esquecimento permanente, ainda possui uma frestinha de lucidez para dizer, com enorme esforço, sua última palavra no filme e que, talvez, seja a última que dirá para sempre. A palavra mais importante de todas.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme:

 

 

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Quem inventou Dilma? Até quando?

 

Dilma malandra

 

 

 

Nelson Motta
Jornalista, escritor e produtor musical Nelson Motta

Causas e defeitos

Por Nelson Motta

 

Deu até pena ver o ministro Miguel Rossetto, abatido e amarfanhado, na coletiva pós-manifestações, dizendo que as multidões que foram para as ruas não eram de eleitores de Dilma. Perguntar não ofende: os 62% que agora julgam o governo Dilma ruim ou péssimo são eleitores de Aécio? São 125 milhões de golpistas? Ou querem um “terceiro turno”?

Zé Dirceu diz que o lucro mensal de sua empresa, que faturou 29 milhões em oito anos, foi de míseros 65 mil reais, em média, e que 85% do faturamento foram gastos com o “pagamento de despesas operacionais e recolhimento de impostos”. Quanto o guerreiro doou ao PT? Quantos trabalhadores petistas, que lhe deram dinheiro para pagar a sua multa de 971 mil reais no mensalão, ele fez de otários?

Sibá Machado, líder do PT na Câmara, denuncia que a CIA está por trás de tudo de ruim que está acontecendo no país, que há um plano para desestabilizar a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Mas quem tem Maduro, Cristina e Dilma (e Sibá) precisa de algum plano externo para arrasar seus países?

Um eventual impeachment só pioraria as coisas, dividindo ainda mais o Brasil, como Lula queria, quando achava que estava em vantagem. Não quero ver Dilma sangrando, quero que ela coma, se fortaleça e reaja, reconhecendo seus erros e chamando pessoas competentes e honestas, acima de partidos, para ajudá-la a sair da lama e do caos. O problema não é só a corrupção, como provam os estragos do economista marxista Arno Augustin, ícone dilmista da incompetência máxima. De que adianta não roubar, se eles dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

Quantas vezes o Brasil o viu num palanque gritando “é nóis contra eles”? Quem estimulou mais do que ele o clima de confronto e intolerância? Quem dividiu o país entre povo e elites? Quem jurou que o mensalão nunca existiu? Quem era o beneficiário final do esquemão da Petrobras? Quem inventou Dilma?

Triplicar a já colossal verba do fundo partidário é uma bofetada em cada um que contribui com seu trabalho para sustentar partidos e políticos capazes de propor uma coisa dessas, numa hora dessas. Até quando?

 

Publicado aqui, no globo.com

 

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FHC responde a Dilma: “Corrupção (do PT) é uma mocinha, um bebê quase”

Ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso (foto de Robson Fernandjes - Estadão)
Ex-presidente e sociólogo Fernando Henrique Cardoso (foto de Robson Fernandjes – Estadão)

 

 

Por Ana Fernandes

 

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) rebateu a afirmação da presidente Dilma Rousseff (PT) de que a corrupção é uma “senhora idosa” no Brasil. Em entrevista à Globo News, o tucano disse que o escândalo de corrupção na Petrobras traz à tona algo completamente novo em termos de corrupção praticada no País, em que uma organização de pessoas estabeleceu um sistema de sustentação de partidos e ligação a empresas para abastecer os caixas das legendas. “Isso é um fato novo. Essa corrupção não é uma senhora idosa, é uma mocinha, um bebê quase”, disse o tucano.

FHC repetiu a declaração que tinha dado ao longo da semana de que, pela proporção que a corrupção ganhou na Petrobrás, considera impossível que o ex-presidente Lula e Dilma não soubessem, pois algo assim acaba sendo do conhecimento de todos no governo.

A declaração de Dilma foi feita um dia após os protestos contra o governo, no domingo, 15. Na avaliação do Palácio do Planalto, a corrupção foi o principal motivo que levou a multidão às ruas. Ao afirmar que práticas de desvios são antigas no País, Dilma tenta rebater tentativas da oposição de associar a corrupção ao seu governo.

O ex-presidente argumentou que, em seu governo, a indicação política para cargos de diretoria na estatal, feita por partidos da base, era bem mais incomum. Ele se disse lembrar de duas indicações políticas — de José Coutinho Barbosa e do hoje senador petista, mas à época integrante do PMDB, Delcídio Amaral.

 

Impeachment

Apesar de dizer torcer para que Dilma possa terminar seu mandato, FHC voltou a defender que o impeachment, diferentemente dos clamores por golpe militar de alguns grupos, é um instrumento da democracia. E comparou os pedidos para afastamento da petista àqueles que ele viu durante o seu segundo mandato (1999-2002). “Esse ‘Fora Dilma’ é como o ‘Fora FHC’. A Dilma hoje simboliza, é alvo dessa irritação. Mas não creio que seja transcrito em passos exatamente para tirá-la do poder. Vai depender da comprovação de delitos e da opinião pública”, afirmou.

Mas o tucano ponderou ver diferenças entre as crises enfrentas por Dilma e por ele, em seu segundo mandato. “Foi diferente. No meu governo, eu perdi popularidade mas não credibilidade, continuei com apoio do Congresso, de setores econômicos”, afirmou.

Em pouco mais de meia hora de entrevista, FHC foi mais crítico ao governo Dilma, mas não deixou de mencionar o governo Lula. Disse lhe doer pensar que o Brasil não soube aproveitar o boom das commodities da década passada para dar um impulso de desenvolvimento. “Me dói como brasileiro, ver a perda de oportunidades históricas e a responsabilidade é do partido que está no poder, sem dúvida”, afirmou.

Ele também afirmou que, no primeiro momento de crise de falta de apoio ao governo Dilma, havia uma sensação de que o governo Lula tinha sido bom e que ela havia conduzido mal a sucessão. Mas que, agora, a população passa a identificar como um processo somado e não quer “nem um nem outro”.

Sobre os cartazes e manifestações no dia 15, mesmo que minoritários, mas que pediam a volta da ditadura, FHC avaliou que são resultado da falta de coordenação atual entre as forças políticas organizadas. O vácuo, permite, segundo ele, o alastramento de ideias radicais. Mas, Fernando Henrique não acha que há espaço para esse tipo de ideia prosperar. “Eu não me amedronto com isso. Em muitos momentos da história, essa irritação é natural, mas não creio que isso vá prosperar pois a sociedade brasileira está bem organizada”.

 

Impeachment

Apesar de dizer torcer para que Dilma possa terminar seu mandato, FHC voltou a defender que o impeachment, diferentemente dos clamores por golpe militar de alguns grupos, é um instrumento da democracia. E comparou os pedidos para afastamento da petista àqueles que ele viu durante o seu segundo mandato (1999-2002). “Esse ‘Fora Dilma’ é como o ‘Fora FHC’. A Dilma hoje simboliza, é alvo dessa irritação. Mas não creio que seja transcrito em passos exatamente para tirá-la do poder. Vai depender da comprovação de delitos e da opinião pública”, afirmou.

Mas o tucano ponderou ver diferenças entre as crises enfrentas por Dilma e por ele, em seu segundo mandato. “Foi diferente. No meu governo, eu perdi popularidade mas não credibilidade, continuei com apoio do Congresso, de setores econômicos”, afirmou.

Em pouco mais de meia hora de entrevista, FHC foi mais crítico ao governo Dilma, mas não deixou de mencionar o governo Lula. Disse lhe doer pensar que o Brasil não soube aproveitar o boom das commodities da década passada para dar um impulso de desenvolvimento. “Me dói como brasileiro, ver a perda de oportunidades históricas e a responsabilidade é do partido que está no poder, sem dúvida”, afirmou.

Ele também afirmou que, no primeiro momento de crise de falta de apoio ao governo Dilma, havia uma sensação de que o governo Lula tinha sido bom e que ela havia conduzido mal a sucessão. Mas que, agora, a população passa a identificar como um processo somado e não quer “nem um nem outro”.

Sobre os cartazes e manifestações no dia 15, mesmo que minoritários, mas que pediam a volta da ditadura, FHC avaliou que são resultado da falta de coordenação atual entre as forças políticas organizadas. O vácuo, permite, segundo ele, o alastramento de ideias radicais. Mas, Fernando Henrique não acha que há espaço para esse tipo de ideia prosperar. “Eu não me amedronto com isso. Em muitos momentos da história, essa irritação é natural, mas não creio que isso vá prosperar pois a sociedade brasileira está bem organizada”.

 

Publicado aqui, no estadao.com

 

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Crítica de cinema — A graça de ser espião

Quadros por segundo

 

Kingsman

 

Mateusinho 4Kingsman: Serviço secreto — Com 23 episódios lançados desde a estreia de “O Satânico Dr. No” (1962) e um novo em produção, a cinessérie “007”, baseada nos escritos do britânico Ian Fleming, tornou-se uma verdadeira instituição do cinema americano. Sucesso bissexto de crítica e frequente de público, já tendo arrecadado quase US$ 6 bilhões em bilheteria, popularizou as tramas de espionagem e inspirou uma infinidade de iniciativas no cinema e na TV. Franquias de ontem e hoje pagam algum tipo de tributo James Bond e mesmo aqueles que apostam em uma abordagem mais realista, mostrando o trabalho de um espião como um jogo de paranóia e paciência — a exemplo dos excelentes “O Espião que Sabia Demais” (2011), de Tomas Alfredson, e “O Homem Mais Procurado” (2014), de Anton Corbijn — o fazem sob pretexto ou expectativa de quebrar a mítica do agente secreto que derruba megalomaníacos e comunistas entre taças de martini e sexo utilitário.

Tal longevidade e apelo pop, contudo, acabaram aprisionando a cinessérie a um punhado de convenções e fórmulas, e desembocando, por fim, na autoparódia que marcou especialmente a passagem de Roger Moore pela franquia, mas que também não poupou Sean Connery, como deixam claro “007 contra Goldfinger” (1964), com suas mulheres douradas e raios lazer mortais, e “007: Nunca Mais Outra Vez” (1983), bizarro remake não canônico de “007 contra Chantagem Atômica” (1965). Essa vocação para o pastiche não tardou a ser percebida pelo mercado, que começou a explorá-la com comédias como “Agente Secreto Desafia Moscou” (1964) e imitações como “Com Licença para Matar” (1965). Um razoável catálogo de títulos chegou às telas ao longo das décadas seguintes, tornando o chiste quase um subgênero, que volta, agora, aos cinemas com “Kingsman: Serviço Secreto” (2014).

Baseado na história em quadrinhos “The Secret Service”, escrita pelo escocês Mark Millar e desenhada pelo inglês Dave Gibbons, a qual não li, mas que uma rápida pesquisa mostra ter cedido apenas as linhas gerais à versão cinematográfica, “Kingsman” é dirigido pelo também britânico Matthew Vaughn, que escreve o roteiro a quatro mãos com a conterrânea Jane Goldman, sua parceira nos textos desde “Stardust: O Mistério da Estrela” (2007). A história acompanha a agência de espionagem super secreta e independente de governos que empresta nome ao longa-metragem: uma espécie de nova Távola Redonda, que funciona sob a fachada de uma tradicional alfaiataria londrina. Ao contrário do MI-6 de “007”, que numera seus agentes, a Kingsman recorre à mitologia arthuriana e batiza seus operativos com nomes dos cavaleiros de Camelot. Ao invés de espadas e armaduras, porém, estes homens e mulheres de maneiras impecáveis e habilidades mortais envergam guarda-chuvas tecnológicos e ternos à prova de balas feitos sob medida.

A morte de um Kingsman em estágio probatório durante uma ação malsucedida no Oriente Médio dá início ao enredo, que segue um culpado Galahad (Colin Firth) tentando compensar a perda do companheiro ao, anos mais tarde, dar a Eggsy (Taron Egerton), filho deste, a chance de ser alguém na vida entrando para a agência. Criado nos subúrbios de Londres pela mãe, companheira de um violento médio criminoso, Eggsy, todavia, é o oposto do que se espera dos membros da agência, recrutados entre os filhos das mais ricas famílias europeias. Paralelamente, o milionário Richmond Valentine (Samuel L. Jackson) e sua assistente Gazelle (Sofia Boutella) colocam em movimento um plano para acabar com o aquecimento global, mesmo que isto custe milhares de vidas.

A resolução dos problemas propostos é simples e joga com as expectativas que acompanham as paródias dos filmes de espião, abraçando-as quando podem acrescentar humor à história e dispensando-as sem cerimônia para criar surpresa em uma trama que, de outra forma, seria extremamente previsível — o que acaba tornando o plot twist que encerra o segundo ato tão eficiente ao subverter os pressupostos em torno das soluções típicas do gênero, transformando-os em piada e choque. E por falar em riso, “Kingsman” se diferencia de iniciativas recentes, como as franquias “Austin Powers” e “Jhonny English”, por abraçar não o nonsense, o histérico e as gags fáceis, mas a ação estilizada, as metareferências e um texto dinâmico, com piadas bem escritas.

A ideia do filho fracassado, que herda a vida secreta do pai ausente e se torna parte de algo através dela — mote também de “O Procurado” (2008), outra adaptação de quadrinhos de Millar — funciona dentro do contexto, assim como a violência explicita que Vaughn já havia mostrado no superestimado “Kick Ass: Quebrando Tudo” (2010), embora em “Kingsman” surja de forma mais contida, servindo como alerta do quanto um filme protagonizado por um agente com licença para matar pode omitir em nome de uma platéia mais farta, sem perder o ar cartunesco que permeia a produção.

Em tela, Firth é um perfeito gentleman, como era de se esperar. “A conduta define o homem”, diz a certa altura. Admirável é justamente sua escalação como um improvável herói de ação, o que parece cada vez mais comum em blockbusters desde o sucesso de Liam Neeson em Busca Implacável (2008). Egerton, por outro lado, convence mais como o malandro ladrão de carros de sotaque cockney do que como um soldado prodígio sem foco. Mas o terno lhe cai bem e o ator segura sem grandes deslizes o terceiro ato. Michel Caine faz figuração de luxo como Arthur, líder da Kingsman, e Mark Strong assume o papel de Merlin, o encarregado de treinar os agentes.

Do lado dos vilões, Mark Hamill faz uma ponta como um colaborador descartável, que antecipa sua volta aos cinemas e à franquia que o tornou famoso, com “Star Wars: Episódio VII – O Despertar da Força” (2015), enquanto Gazelle é herdeira direta de duas grandes tradições bondianas: os vilões mutilados e treinados no uso de armas exóticas. Julius No possuía mãos robóticas e Odd Job eliminava os desafetos de Auric Goldfinger com seu chapéu cortante. A ela faltam os pés, substituídos por próteses equipadas com lâminas letais. Já Samuel L. Jackson, com suas roupas coloridas e bonés do New York Yankees, acaba como uma versão meio patética do típico industrial com planos mirabolantes, figura abundante nos filmes de 007, fazendo graça mais pela língua presa.

O todo é absurdo, sem dúvida, mas divertido na mesma proporção, com piadas bem encaixadas e ação que jamais se torna confusa, embora apele  a uma edição experimental e à estética em primeira pessoa tão conhecida dos gamers. E quem se dispuser a procurar, achará, entre as mais e menos óbvias, referências não só a Bond, mas a diversos outros ícones da espionagem, como Jason Bourne, Jack Bauer e Agente 86, entre outros. Entretenimento garantido.

 

Mateusinho viu

 

Publicado hoje na Folha Dois

 

Confira o trailer do filme

 

 

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Morre Durval. Rosinha brota no canteiro das lendas

Rosinha (foto de Rodrigo Silveira - Folha da Manhã)
Rosinha (foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Morreu hoje, por volta das 13h30, o vendedor ambulante Durval Alves de Azevedo, de 65 anos. Mais conhecido como “Rosinha”, pelo rouge sempre presente nas maçãs magras do rosto, além do jeito todo próprio de andar, falar e se vestir, popularizou o apelido muito antes do casal Garotinho ficar conhecido na política. Figura viva do folclore campista, habitava o imaginário da cidade tanto quanto os fictícios Ururau da Lapa, mítico jacaré do papo amarelo, e o coronel Ponciano de Azeredo Furtado, personagem do romancista José Cândido de Carvalho.

Na vida real, Durval morreu de pneumonia, na Santa Casa de Misericórdia de Campos. Ao lado de Mundinho, adorável vagabundo da vida real, e de Michel Haddad, outro famoso ambulante da cidade, Rosinha brotou no canteiro das lendas.

 

 

 

 

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Na CPI, homem do PT no Petrolão só quebra silêncio para dizer que não conhece doleiro

O ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque durante depoimento à CPI da Petrobras (foto de Givaldo Barbosa - O Globo)
Ex-diretor de Serviços da Petrobras e apontado pelas investigações como encarregado dos desvios de dinheiro público da estatal ao PT, Renato Duque durante depoimento à CPI da Petrobras (foto de Givaldo Barbosa – O Globo)

 

 

Por Chico de Gois

 

Já certificados pelo próprio ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque de que iria permanecer calado perante a CPI que apura irregularidades na estatal, os deputados que integram a comissão se revezaram nesta quinta-feira em aconselhá-lo a fazer uma delação premiada para contar como funcionava o esquema na empresa e a quem dava dinheiro. Parlamentares apelaram para a família de Duque e lembraram, a toda hora, “o fantasma de Marcos Valério”, que foi condenado a 40 anos de prisão por ser o operador do mensalão petista. Duque quebrou seu monólogo de afirmar que permaneceria calado apenas para responder a três perguntas: sobre se tinha algum parentesco com o ex-ministro José Dirceu, se sua mulher teria procurado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e se ele conhecia o doleiro Alberto Youssef. Ele negou em todas as respostas. (CONFIRA O MINUTO A MINUTO DO DEPOIMENTO)

Pouco antes do fim da sessão, Duque voltou a quebrar o silêncio para defender o filho. A deputada Eliziane Gama (PPS-MA) questionou o ex-diretor sobre a participação no esquema do filho dele que moraria na Europa e trabalharia em uma empresa sócia da UTC Engenharia. Duque retrucou:

— Eu faço questão de responder a essa pergunta. A Technip, empresa que você citou, não tem nada a ver com a UTC. A Technip é muito maior, é uma das maiores empresas da área de petróleo do mundo. O meu filho trabalhou nessa empresa durante um tempo em Houston e um tempo no Brasil. Meu filho é economista formado, foi recrutado por um headhunter e trabalhou nessa empresa. Quando foi recrutado, fiz uma consulta formal no jurídico da Petrobras para saber se teria algum empecilho, e a resposta foi não. Ele retornou ao Brasil após um ano e meio com a família dele. Algum tempo depois, ele se retirou para montar seu próprio negócio.

Depois de quatro horas em que respondeu os questionamentos dos deputados com variações de “nada a declarar”, o ex-diretor de Serviços da Petrobras afirmou, no final de sua participação na CPI, que tem a consciência tranquila e que irá provar sua inocência.

— Não tenho problema nenhum em discutir qualquer um dos assuntos aqui levantados porque tenho a consciência tranquila e tenho como responder a tudo e tenho argumentos para rebater as acusações — afirmou.

— Apenas tenho obrigação de seguir minha orientação legal. Não estou me declarando culpado. Vou me defender, provar que meus bens têm fundo no meu trabalho. Tenho 34 anos de companhia, orgulho de (ter ficado) nove anos na diretoria. Lamento que a companhia esteja nesta situação agora. Tudo ao seu tempo. Vai ter um tempo para calar e um tempo para falar. Estou com a consciência tranquila e vou me defender na hora certa — encerrou.

No início da sessão, o relator da CPI, Luiz Sérgio (PT-RJ), fez várias perguntas a Duque, algumas até simples de responder, como os cargos que ocupou na Petrobras antes de se tornar diretor, mas, em todas as vezes, o depoente variou a resposta entre “vou ficar calado”, “me reservo o direito de não responder”, “por orientação do meu advogado, vou ficar calado”.

Líderes partidários, que têm prerrogativa de falar antes dos membros da CPI, revezaram-se para tentar demovê-lo de sua postura.

— O seu silêncio é cúmplice. Tinha esperança que pudesse falar aqui. O senhor está aqui numa postura de desrespeito a uma comissão do Parlamento brasileiro que tem obrigação de buscar a verdade. Nós deploramos sua postura nesta CPI — disse o líder do PSOL, Chico Alencar (RJ).

O líder do PSDB, Carlos Sampaio (SP), fez questão de dizer que o esquema de corrupção na Petrobras começou a partir do governo do PT.

— Está muito claro para a Polícia Federal e para o Ministério Público Federal que o esquema começou em 2003. Antes tínhamos técnicos que cuidavam da governança, com postura técnica. A partir de 2003, essa governança derivou para questões políticas — atacou.

Depois de lembrar dos vários depoimentos que o incriminavam, Sampaio lembrou de Marcos Valério.

— Relaciono tudo isso para dizer que a postura do Marcos Valério foi de que o PT iria salvá-lo. No começo, ele vinha à CPI (do Mensalão), agia até com cinismo, depois de forma petulante, e, momentos antes de ser preso, tentou denunciar quem estava realmente envolvido. Resultado: 40 anos de prisão.

— Vossa Senhoria tem família, amigos. Faça uma análise se vale a pena esse ônus recair em seus ombros. Os que foram presos do PT ficaram dois anos. Quem fez o esquema para o PT, pegou 40 anos — finalizou.

 

Convocação da mulher

O deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) chegou a propor que Duque fosse dispensado e, em seu lugar, fosse convocada a mulher dele.

— A vinda dela aqui seria muito melhor — afirmou.

Já o deputado Aluizio Mendes (PSDC-MA) apelou para que ele pensasse nos filhos:

— Pense na sua família e nos seus filhos. Depois, na cadeia, só vai sobrar o senhor sozinho.

Valmir Prascidelli (PT-SP) criticou a sugestão de trazer à CPI a mulher de Duque.

— Isso é tortura psicológica.

Ele também contestou as afirmações de membros da oposição de que o esquema beneficiaria o PT.

— Quero rechaçar todas as acusações contra nosso partido. A orientação do PT é que participemos, investiguemos.

E depois, dirigindo-se ao deputado Paulinho da Força (SD-SP), o atacou:

— Eu não vou permitir que o deputado me chame de cara de pau. Cara de pau é ele.

Mas foi quando o deputado Izalci (PSDB-DF) perguntou se ele tinha parentesco com o ex-ministro José Dirceu, que Duque quebrou seu monólogo de afirmar que permaneceria calado. Ele negou.

— Basta ver a árvore genealógica de um e de outro. Não há qualquer parentesco — se limitou a dizer.

Depois, Izalci, lendo uma nota na revista “Veja” em que dizia que a mulher de Duque havia procurado o ex-presidente Lula e o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto, para lhes pedir ajuda, ele também negou.

— Minha esposa nunca esteve com o presidente Lula, com Okamotto e não os conhece.

Estou respondendo esta pergunta porque estou vendo o deputado Onyx (Lorenzoni, DEM-RS) dizer que tem que convocar minha esposa aqui. Estou entendendo isso como uma ameaça.

Diante de perguntas do deputado Ivan Valente (PSOL-SP), Renato Duque fez uma nova, porém breve, quebra de silêncio. “Não conheço Youssef e vou permanecer calado”, diz Duque.

Valente, então, logo perguntou também se ele conhecia João Vaccari (tesoureiro do PT). E o ex-diretor volta a dizer que permaneceria em silêncio.

O clima esquentou durante uma discussão entre o Delegado Waldir (PSDB-GO) e o deputado Valmir Prascidelli (PT-SP). O tucano disse que era preciso comprar óleo de peroba na cara de pau do PT.Por pouco não partiram para as vias de fato.

 

Publicado aqui, no globo.com

 

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Aparelharam a Petrobras com incompetentes para obter vantagens pessoais e aos partidos

 

Por David Friedlander

 

O empresário Cristiano Kok, presidente do conselho de administração da empreiteira Engevix, admite que pagou cerca de R$ 10 milhões em propina para o doleiro Alberto Youssef e diz ter feito isso para receber pelas obras que fazia para a Petrobras.

“Os políticos aparelharam a Petrobras para arrancar dinheiro das empreiteiras. Foi extorsão”, disse Kok, 69, em entrevista à Folha. “Agora, será que alguma empresa poderia ter denunciado que estava sendo extorquida pelo Paulo Roberto [Costa, ex-diretor da Petrobras]? No mundo real não dá para fazer isso.”

Acusada de participar do esquema de corrupção descoberto na Petrobras pela Operação Lava Jato, a Engevix está sendo processada por improbidade administrativa. O Ministério Público pede indenização de R$ 538 milhões pelos supostos delitos.

Entre os executivos processados, está um dos sócios da empreiteira, Gerson Almada, preso há mais de 120 dias. Empresa de tradição no setor, a Engevix hoje corre o risco de quebrar. Com várias empresas do grupo à venda para pagar dívidas, Kok conta que passou a rezar para pedir ajuda divina. A seguir, os principais trechos da entrevista:

 

 

Presidente do conselho administrativo da Engevix, Cristiano Kok (foto de Ernesto Rodrigues - Folhapress)
Presidente do conselho administrativo da Engevix, Cristiano Kok (foto de Ernesto Rodrigues – Folhapress)

 

Folha — Ao todo, quanto vocês pagaram de propina nos contratos da Petrobras?

Cristiano Kok — Foram R$ 6 milhões a R$ 7 milhões num contrato de R$ 700 milhões da refinaria Abreu e Lima, e mais uns R$ 3 milhões na refinaria de Cubatão. Pagamos em prestações mensais para três empresas do Alberto Youssef, como se fosse prestação de serviços.
Quando começou a Lava Jato, ficamos sem dinheiro e paramos tudo. Só que Youssef tinha duplicatas assinadas por nós e as descontou no banco. O banco veio atrás e tivemos que pagar para não ficar com o nome sujo.

Para quem ia o dinheiro?

Não sei. José Janene [ex-deputado do PP] indicou o Youssef e ele dizia: “Paga isso aqui, paga aquilo ali”. Não sei para onde o dinheiro ia e só soube que as empresas eram do Youssef muito depois.

 

O sr. não desconfiava que o dinheiro era para políticos?

Como a indicação do Youssef foi política, evidentemente ele falava em nome do partido [PP]. Mas para quem ele mandou dinheiro eu não sei.

 

A propina era para ganhar contratos na Petrobras?

Era para não ser prejudicado nos pagamentos de aditivos [aos contratos] e das medições da obra. Os contratos a gente ganhou por licitação.
Mas, para receber em dia, e ter as medições aprovadas, tem que pagar comissão, taxa de facilitação, propina, chame do que você quiser.
Você começa a obra, monta equipe, se instala, sua um pouquinho e aí começam a aparecer as dificuldades para receber. Era chantagem mesmo. Extorsão.

 

E as outras empresas, pagavam para ganhar obras?

Não sei dizer a razão delas. Cada caso é um caso.

 

O sr. tem um sócio na cadeia há mais de 120 dias, está com o nome sujo e precisa vender quase tudo para pagar dívidas. O que passa pela sua cabeça?

Minha resposta imediata seria dizer que foi tudo um absurdo, não devia ter participado. Mas era fazer isso ou ficar sem serviço. As empresas cometeram erros e estão pagando um preço altíssimo por um processo de extorsão. Agora, será que alguma empresa poderia ter denunciado que estava sendo extorquida pelo Paulo Roberto [Costa, ex-diretor da Petrobras]? No mundo real não dá para fazer isso. Você sai do mercado, seu contrato é cancelado, vão comer teu fígado.

 

O governo diz que a Petrobras foi vítima de…

Foi vítima de má gestão. Os políticos aparelharam essa máquina com gestores incompetentes, para obter vantagens pessoais ou para seus partidos. A versão que tem sido divulgada é que a Petrobras foi assaltada por um bando de empreiteiras. A verdade é que os políticos aparelharam a Petrobras para arrancar dinheiro das empreiteiras.

 

O Ministério Público afirma que as doações de campanha também são pagamento de propina, só que disfarçado.

Nunca pagamos doação de campanha para ganhar contratos ou fazer obras. Na última semana de campanha, por exemplo, o tesoureiro da Dilma [Edinho Silva] saiu pedindo dinheiro para todos, e contribuímos com R$ 3 milhões. Tudo registrado. Agora, evidentemente, quando você apoia um partido ou um candidato, no futuro eles vão procurar ajudá-lo de alguma forma, não tenha dúvida. É política de boa vizinhança.

 

Segundo as investigações, as empreiteiras superfaturavam os preços das obras.

Não houve superfaturamento. Não dá para dizer isso sem uma perícia.

 

O TCU (Tribunal de Contas da União) fez perícia e constatou superfaturamento na refinaria Abreu e Lima.

Os critérios do TCU estão errados. Pegam os preços de uma pavimentação de asfalto e aplicam na pista do aeroporto. São coisas diferentes.

 

Mas os preços de Abreu e Lima e de outras obras explodiram.

A Petrobras lançava as obras sem projeto e depois ia acrescentando coisas que encareciam tudo. Pediu granito no banheiro, no refeitório, um revestimento caríssimo nos 53 prédios da refinaria. Em Abreu e Lima, nosso contrato era de R$ 700 milhões, mas acabamos gastando R$ 1,1 bilhão por causa das exigências extras da Petrobras. Nos devem R$ 400 milhões. Em Macaé (RJ), fizemos um contrato de R$ 300 milhões e a obra ficou em R$ 450 milhões. Mais prejuízo. Estamos cobrando a Petrobras por isso. Mas eu devo ser muito burro, porque paguei comissão e perdi dinheiro.

 

Mas fazer obras sem projeto não era conveniente para as empreiteiras? Vocês podiam pendurar lá o que quisessem.

Você entra achando que já que o projeto é mal feito vai poder cobrar mais para fazer direito, só que na hora de cobrar eles não te pagam.

 

Vocês combinavam a divisão das obras entre as empresas?

Eu não participei disso. Mas havia, digamos assim, uma certa organização para que uma empresa que já estava trabalhando numa determinada refinaria continuasse lá, porque não tem sentido trocar por outra. A Petrobras poderia fazer isso, mas deixava para o mercado.

 

Isso não é cartel?

Num cartel, um grupo de empresas se organiza para combinar os preços do mercado. No caso da Petrobras, ela é a única compradora, ela estabelece preço e ela escolhe quem participa. Não há a menor chance de entrar numa obra se ela não quiser.

 

O contrato da Engevix com o ex-ministro José Dirceu também era para pagar propina?

Nunca foi propina. Dirceu foi contratado pelo relacionamento que tinha no Peru, em Cuba e na África. Tínhamos interesse nesses mercados, mas não houve resultados. O contrato era em torno de R$ 1 milhão, não sei exatamente. Fizemos outro contrato com o Paulo Roberto Costa depois que ele saiu da Petrobras. Eram R$ 30 mil por mês, para consultoria.

 

Quem é Milton Pascowitch, que seu sócio Gerson Almada citou em depoimento como uma ponte com o PT?

Milton atua conosco há mais de 15 anos. Tem um relacionamento forte com o PT e disse para o Gerson que podia ajudar no relacionamento com o partido. Foram feitos contratos com ele para fazer esse relacionamento. Era uma relação de lobby, nunca para pagamento de propina.

 

O envolvimento no escândalo afetou sua vida pessoal?

Na família tem gente que olha assim meio enviesado, mas até agora não vi ninguém na rua apontando para mim ou coisa parecida. As pessoas que conhecem o setor parecem solidárias, mas ao mesmo tempo estão em busca de oportunidades e vão para cima de você. Nossas empresas perderam valor e tem gente de olho nisso.

 

O que mudou na sua rotina?

Fiquei mais místico. Eu não era voltado para a espiritualidade, agora medito, passei a rezar. Peço ao poder superior uma ajuda. Até agora tive duas sortes que atribuo à proteção divina: não fui preso e não sou réu em processo.

 

A Engevix vai quebrar?

Espero que não. Vendemos nossa empresa de energia e colocamos à venda nossas participações nos aeroportos de Brasília e Natal, e o estaleiro no Sul. Devemos mais de R$ 1,5 bilhão a bancos e fornecedores. Se tudo der certo, vamos encolher, mas continuar vivos. O faturamento do ano passado, que foi de R$ 3 bilhões, cai para R$ 1 bilhão.

 

Como está a negociação do acordo de leniência com a Controladoria-Geral da União?

Assinamos a minuta de um acordo para começar a discussão, mas parou nisso.

 

Conseguirá pagar os R$ 538 milhões cobrados na Justiça?

De jeito nenhum. Se tem alguém que precisa pagar é a Petrobras, que nos deve mais de R$ 500 milhões.

 

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com

 

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