Crítica de cinema — Insurgências convergentes
A série Divergente: Insurgente — Herdeira de “1984”, de George Orwell, e “Admirável mundo novo”, de Aldous Huxley, a norte-americana Veronica Roth lançou, em 2011, o livro “Divergente”, o primeiro da série homônima, que conta também com “Insurgente” e “Convergente”. Duas das obras literárias foram adaptadas para o cinema, entre março de 2014 e março de 2015. Baseada na ideia de distopia, na qual uma sociedade é oprimida por governos ou grupos dominantes, Divergente segue os caminhos abertos recentemente pela trilogia “Jogos Vorazes” (2008), que terá o último longa-metragem, “A esperança – pt.2”, será lançado no final deste ano.
“Insurgente”, dirigido por Robert Schwentke, dá sequência à história de Beatrice/Tris Prior (Shailene Woodley), uma jovem que, após ser descoberta como divergente e ameaçada, é obrigada a abandonar, junto ao namorado Tobias Eaton/Quatro (Theo James), a Audácia, facção da qual fazia parte.
Dividida em cinco facções — Audácia, Erudição, Franqueza, Amizade e Abnegação —, a sociedade apresentada na “Série Divergente” vive em uma Chicago pós-guerra, com 200 anos de afastamento da raça humana. Os homens e mulheres são mantidos distantes do muro que protege a cidade, acreditando ser esta o único reduto em que há formas de vida.
Entre cenas de ação e, ocasionalmente, de romance, o filme mantém o enredo dentro das expectativas do telespectador, sem grandes surpresas, sendo facilmente percebido o caminho que será percorrido pelos protagonistas e antagonistas nas cenas seguintes. Classificado como ficção científica, Insurgente apresenta, em oposição aos filmes do gênero, poucos efeitos especiais. Com cenários predominantes de destruição, alternando com prédios suntuosos e informatizados e, também, com espaços verdes e construções simples, o longa foca mais no enredo adaptado, e não nos efeitos — que são pouco mais explorados no final —, sendo aquele o ponto principal da construção do longa-metragem.
O elenco conta, também, com a veterana Kate Winslet, que vive Jeanine Matthews. O papel, se não fosse relevante para o desenvolvimento da história, poderia ser descartado devido à falta de entrega da atriz à personagem, que permanece com ar insosso do início ao fim. Vencedora do Oscar de Melhor Atriz, em 2009, por “O Leitor”, de Stephen Dry e baseado no livro de Bernhard Schlink,Winslet mostrou um dos mais fracos desempenhos de sua carreira.
Em determinados momentos, é perceptível a semelhança da série com outras sagas de sucesso, como “Harry Potter”, criada pela inglesa J.K Rowling e adaptada para os cinemas entre os anos de 2001 e 2011. Com um enredo que evolui junto ao crescimento dos personagens, os quatro últimos filmes da Warner Bros mostram conflitos, tensões e mortes na maior parte do roteiro. Em “Insurgente”, é possível notar passagens que relembram cenas da franquia inglesa, como a organização de um exército para combater os inimigos e a redenção da protagonista para evitar o extermínio.
No segundo volume da série “Divergente”, a ficção também dialoga com a realidade. O viés político notado no filme equipara-se, em situações pontuais, ao cotidiano. Alianças que visam o benefício individual em nome de um suposto bem comum, combates para tirar o grupo dominante e conquistar o poder e o distanciamento da facção Amizade (que compreende não fazer parte dos confrontos por estes não atingi-los diretamente, assim como grupos da sociedade atual que permanecem afastados do cenário público) são aspectos retratados na história, que, apesar de configurada a partir de um roteiro que foge a questões predominantes no mundo real, pode proporcionar ao público breve reflexão sobre jogos políticos que envolvem as relações humanas.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira o trailer do filme:
Garoto propaganda de Dilma em 2010 é indicado por ela à vaga de Joaquim Barbosa no STF

Por Ricardo Noblat
Depois de oito meses de indefinição, Dilma Rousseff indicou para a vaga do ex-ministro Joaquim Barbosa no Supremo Tribunal Federal (STF) um jurista que já foi garoto propaganda de sua candidatura à presidência da República em 2010.
O nome dele é Luiz Edson Fachin, advogado, catedrático de Direito Civil pela Universidade Federal do Paraná e professor visitante do King’s College, na Inglaterra.
— O advogado Luiz Edson Fachin cumpre todos os requisitos necessários para o exercício do mais elevado cargo da magistratura do país — diz nota da Secretaria de Imprensa da Presidência da República.
Em ato montado para ser filmado e depois inserido nos programas de propaganda de Dilma no rádio e na televisão, Fachin lê um manifesto assinado por juristas onde pede votos para a candidata à sucessão do presidente Lula.
Ele é conhecido por suas estreitas ligações com a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Movimento dos Sem Terra (MST).
Contava com o apoio do PT do Paraná. Seu maior cabo eleitoral, porém, foi Ricardo Lewandowski, presidente do STF.
Lewandowski chegou ao STF por indicação inicial de dona Marisa Letícia, mulher de Lula. Ele é amigo da família dela.
O nome de Fachin será submetido à aprovação do Senado. Ali, senadores paranaenses de partidos da oposição ao governo saíram em defesa dele. Todos se apressaram em louvar sua sabedoria.
Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, prometeu a Dilma trabalhar pela aprovação do nome de Fachin.
Em 2013, Roberto Gurgel, então Procurador Geral da República, denunciou Renan ao STF por peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso.
Renan é acusado de ter comprado notas frias para provar que tinha renda suficiente em 2007 para arcar com a pensão de um filho que teve fora do casamento.
O relator do caso no STF é Lewandowski, que até agora não disse se acolhe a denúncia.
Se tiver seu nome aprovado pelo Senado, caberá a Fachin herdar o caso.
Publicado aqui, no Blog do Noblat
Datafolha: Redução da maioridade penal tem aprovação de 87% dos brasileiros

Por Reynaldo Turollo Jr.
Se houvesse uma consulta nacional à população, 87% dos brasileiros seriam a favor da redução da maioridade penal de 18 para 16 anos, revela pesquisa Datafolha realizada na semana passada.
O percentual é o maior já registrado pelo instituto desde a primeira pesquisa sobre o tema, em 2003. Naquele ano e também em 2006, quando ocorreu um segundo levantamento, 84% disseram ser a favor da redução da idade.
Contrários à mudança são 11% (mesmo índice de 2006), indiferentes, 1%, e não souberam responder, 1%.
O tema, objeto de uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição), está em discussão em uma comissão especial na Câmara, que tem cerca de três meses para analisá-lo.
Em seguida, será votado na Casa e, se for aprovado, seguirá para o Senado.
Segundo o Datafolha, a maior aprovação à proposta de reduzir a maioridade está nas regiões Centro-Oeste (93%) e Norte (91%) do país.
Já a maior rejeição à mudança está entre os mais escolarizados (23%), que têm ensino superior, e entre os mais ricos (25%), com renda familiar mensal superior a dez salários mínimos –a margem de erro da pesquisa é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O percentual dos favoráveis à redução da maioridade para todos os tipos de crime também é o maior já registrado pelo Datafolha: 74%.
Na comissão da Câmara que analisa o tema, 14 dos 27 deputados defendem a mudança somente para jovens de 16 e 17 anos que cometerem crimes hediondos, como homicídio qualificado, latrocínio, estupro e sequestro.
Tempo de internação
Uma outra proposta tem sido encabeçada pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB).
O tucano não quer a redução da maioridade penal, mas propõe a ampliação do tempo máximo de internação para os jovens que praticarem crimes hediondos —dos atuais três para oito anos.
A presidente Dilma Rousseff (PT) também já se manifestou contra a redução da idade penal. Mas, nesta semana, afirmou que o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), de 1990, “sempre pode ser aperfeiçoado”.
À Folha, o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) também disse que o governo federal está “aberto” para discutir “alternativas polêmicas” à redução da maioridade, como a proposta paulista.
O tema tem dividido estudiosos, políticos e entidades da sociedade civil.
Em linhas gerais, os contrários à mudança na maioridade dizem que o sistema prisional comum vai ser uma escola do crime para os jovens.
Os que a defendem dizem que jovens de 16 anos já têm discernimento para entender o que é crime e estão sendo aliciados por adultos para praticar delitos, já que sofrem punições mais brandas.

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com
Petrolão — Mantido tesoureiro do PT mesmo após denúncias, Vaccari é preso hoje pela PF

Por Natuza Nery e Flávio Ferreira
O Tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, foi preso nesta quarta-feira pela Polícia Federal em sua casa, em São Paulo. Secretário de Finanças do partido, o petista nega envolvimento no esquema de corrupção que atingiu a Petrobras nos últimos anos.
Vaccari vai ser deslocado pela polícia para Curitiba, que conduz as investigações. Segundo a Folha apurou, Vaccari estava tranquilo no momento da prisão.
A nova etapa da operação Lava Jato cumpre também mais um mandado de prisão, um de condução coercitiva e outro de busca e apreensão. A mulher de Vaccari, Giselda Rousie de Lima, foi conduzida para prestar depoimento.
No último dia 9, Vaccari foi ouvido (aqui) pela CPI da Petrobras na Câmara dos Deputados em Brasília. No depoimento, ele defendeu as doações que o partido recebeu de empresas investigadas pela Operação Lava Jato e admitiu ter se encontrado com operadores do esquema de corrupção descoberto na estatal, mas evitou explicar os contatos.
Ele havia obtido uma liminar na Justiça que o desobrigava de falar a verdade, para não produzir provas contra si.
As doações ao PT estão sob suspeita porque, segundo o Ministério Público Federal, foram uma forma de pagamento da propina que empresas deviam ao PT para manter contratos com a Petrobras.
Delatores da Lava Jato afirmaram que Vaccari era encarregado de recolher propina cobrada pela diretoria de Serviços da Petrobras. O diretor na época era Renato Duque, que tinha o ex-gerente Pedro Barusco como subordinado.
Barusco, que decidiu colaborar com as investigações, disse (aqui) que parte da propina ficava com ele e outra parte ia para o PT. Em depoimento à CPI da Petrobras, o ex-gerente disse que ele e Duque se reuniam com Vaccari em hotéis para tratar da propina.
Logo após depoimento de Barusco, a secretaria de Finanças do PT divulgou nota contestando as acusações do ex-gerente da Petrobras. Na nota, o PT afirmou que “Barusco não apresentou nenhuma prova ou mesmo indício (apresentou aqui) que ligavam secretário João Vaccari Neto ao recebimento de propinas”. Dizia ainda que Barusco é um delator que “busca agora o perdão judicial envolvendo outras pessoas em seus malfeitos”.
Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com
Petrolão — Investigações revelam romaria de políticos na Petrobras

Por Eduardo Bresciani
Registros da Petrobras mostram que 26 de 48 políticos que agora são investigados no Supremo Tribunal Federal (STF) no âmbito da Operação Lava-Jato estiveram na estatal entre 2004 e 2014. Nesse período, foram 202 as visitas feitas por eles ao edifício-sede, no Rio. O mais requisitado pelos políticos foi o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, agora delator do esquema. Ele recebeu 17 políticos em 82 oportunidades até 2012, quando deixou o cargo. Há registros também de visitas de políticos ao ex-gerente Pedro Barusco e a mais dois ex-diretores denunciados: Renato Duque e Nestor Cerveró. A informação sobre o entra e sai na Petrobras consta de uma das diligências requeridas pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Os dados foram obtidos GLOBO com base na Lei de Acesso à Informação. Eles foram solicitados quando o 49º nome, do senador Fernando Bezerra ainda não havia sido citado pelo STF.
O pedido da PGR dos dados sobre a movimentação na Petrobras tem o objetivo de reforçar o teor das acusações feitas nas delações premiadas, principalmente a de Paulo Roberto. Na lista há parlamentares sem atuação direta na área de energia, o que poderia dar maior peso às acusações do ex-diretor de que era buscado por políticos interessados em receber propina. A utilização de dados sobre movimentações de políticos foi um dos eixos da denúncia do mensalão. Naquele caso, os dados do Banco Rural revelaram parlamentares que sacavam recursos do esquema na boca do caixa.
O deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE) foi quem mais esteve com Paulo Roberto Costa. Pelos registros da companhia, foi recebido 30 vezes pelo ex-diretor. Na sua delação, Costa qualificou Gomes como “representante” do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Os encontros aconteceram de forma mais frequente a partir de 2008. Naquele ano, Gomes foi quatro vezes à Petrobras se encontrar com Costa. No ano seguinte, foram 12 visitas. Em 2010, oito. Em 2011, o deputado fez as últimas duas visitas a Costa, que deixou o cargo no ano seguinte.
Em seus depoimentos, Costa conta que só conseguiu permanecer na função depois de 2007 por ter recebido o apoio político do grupo liderado por Renan. Há registros ainda de quatro visitas de Gomes a Cerveró, ex-diretor da área internacional da Petrobras.
O deputado Vander Loubet (PT-MS) foi quem fez o maior número de visitas à Petrobras. É o único dos 26 políticos que esteve com os quatro dirigentes denunciados da Lava-Jato. Ao todo, ele esteve na estatal 37 vezes entre 2004 e 2014. Com Costa foi apenas uma visita, em 2010. Em três oportunidades, foi recebido por Duque; em duas, reuniu-se com Cerveró; e uma vez com Barusco. Nas outras visitas, foi recebido por servidores, entre eles um assessor do ex-diretor Guilherme Estrella, da área de Exploração.
Loubet é ligado ao senador Delcídio Amaral (PT-MS), que teve a citação feita a ele arquivada. Na Lava-Jato, a atuação de Loubet é vinculada à do ex-deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), que fez 11 visitas à estatal, uma delas a Costa, em 2012, e outra a Duque, em 2010. As demais foram aos ex-presidentes José Eduardo Dutra e Graça Foster, e a funcionários de escalões inferiores.
PP, o partido com mais visitantes
Partido responsável pela indicação de Costa em 2004, o PP tem o maior número de políticos que visitaram a Petrobras: 14. Onze deles se encontraram diretamente com o ex-diretor, inclusive o presidente do partido, Ciro Nogueira (PI). Das seis visitas de Nogueira, quatro foram a Costa. Ciro comanda o grupo do PP que venceu a batalha interna deflagrada após a morte do ex-deputado José Janene (PP-PR). Segundo o doleiro Alberto Youssef, Nogueira foi quem passou a decidir quem receberia propina na legenda.
O atual líder do PP na Câmara, Eduardo da Fonte (PE), esteve 16 vezes na Petrobras e, em 12 oportunidades, foi recebido por Costa. Fonte esteve ainda com Pedro Barusco, em 2008. O parlamentar é apontado como um dos que recebia “mesada” do esquema de corrupção.
Costa recebeu também visitas de caciques peemedebistas. O senador Valdir Raupp (RO), presidente interino do PMDB, esteve com ele em 2011. Nas outras quatro visitas à Petrobras, Raupp se reuniu com José Eduardo Dutra e Graça Foster e com o ex-gerente de Comunicação Wilson Santarosa. O senador Romero Jucá (PMDB-RR) foi outro cacique do partido que esteve com Costa (em 2010).
O deputado José Mentor (PT-SP) teve três encontros com Costa, um em 2007 e outros dois em 2009. Mentor é o terceiro parlamentar mais presente na companhia, com 19 visitas, e esteve também quatro vezes com Renato Duque. As demais visitas de Mentor foram a Estrella, Dutra, Graça e outros funcionários de escalões inferiores. Os petistas foram os únicos políticos, entre os investigados, que foram recebidos por Duque, suposto operador do partido no esquema de corrupção. Além de Loubet, Mentor e Vaccarezza, o líder do partido no Senado, Humberto Costa (PE), esteve com Costa em 2007, quando era secretário estadual em Pernambuco.
Dois ex-deputados presos na semana passada — Pedro Corrêa e Luiz Argôlo (SD-BA) — também fizeram visitas à Petrobras. Há nos registros da companhia dados sobre políticos que não se encontraram com nenhum dos dirigentes sob suspeita. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), esteve na Petrobras somente uma vez, em 2004. Na ocasião, encontrou-se com o ex-presidente José Eduardo Dutra. Segundo sua assessoria, o encontro foi para tratar de assuntos de interesse do Rio.
Publicado aqui, em oglobo.com
Petrolão — Delator britânico revela que CGU esperou reeleição de Dilma para investigar

Por Leandro Colon
O principal órgão de controle interno do governo federal recebeu durante a campanha eleitoral do ano passado provas de que a empresa holandesa SBM Offshore pagou propina para fazer negócios com a Petrobras, mas só abriu processo contra a empresa em novembro, após a reeleição da presidente Dilma Rousseff.
Em entrevista à Folha, o ex-diretor da SBM Jonathan David Taylor disse que prestou depoimento e entregou mil páginas de documentos internos da empresa à CGU (Controladoria-Geral da União) entre agosto e outubro de 2014.
O órgão só anunciou a abertura de processo contra a SBM em 12 de novembro, 17 dias após o segundo turno da eleição presidencial.
Taylor trabalhou durante oito anos e meio para a SBM na Europa e é apontado pela empresa como responsável pelo vazamento de documentos e informações sobre o caso publicadas na Wikipedia em outubro de 2013.
O vazamento levou a investigações sobre a SBM no Brasil e na África. Os documentos indicam que ela pagou US$ 139 milhões ao lobista brasileiro Julio Faerman para obter contratos na Petrobras.
Entre abril e junho do ano passado, Taylor depôs e entregou documentos ao Ministério Público da Holanda. Segundo a própria SBM, ele participara de um grupo que conduzira uma investigação interna sobre o caso em 2012.
Na entrevista à Folha, a primeira a um veículo brasileiro, o delator disse que foi sua a iniciativa de procurar a CGU, que abrira uma sindicância para apurar o caso no Brasil.
Em 27 de agosto, ele repassou ao órgão o relatório de uma auditoria interna da SBM, mensagens eletrônicas, contratos com o lobista, extratos de depósitos em paraísos fiscais, a gravação de uma reunião da empresa e uma lista com nomes da Petrobras.
O material foi enviado por email ao diretor de Acordos e Cooperação Internacional da CGU, Hamilton Cruz, que no dia seguinte atestou o recebimento e informou que passaria as informações para o chefe da investigação.
No dia 3 de outubro, dois dias antes do primeiro turno, Taylor recebeu no Reino Unido a visita de três funcionários da controladoria, entre eles Hamilton Cruz. “Contei tudo o que sabia”, afirma o delator.
A CGU nunca divulgou dados sobre a viagem e o depoimento. Para Taylor, a demora do órgão em anunciar o processo contra a empresa holandesa teve motivação política.
“A única conclusão que posso tirar é que queriam proteger o Partido dos Trabalhadores e a presidente Dilma ao atrasar o anúncio dessas investigações para evitar impacto negativo nas eleições”, diz.
Os valores pagos ao lobista Julio Faerman, segundo Taylor, são bem maiores do que os divulgados até aqui: “Era muito mais. O comprometimento [da SBM] era de pelo menos US$ 225 milhões”.
Em 12 de novembro, a SBM fechou acordo com as autoridades holandesas e aceitou pagar US$ 240 milhões para se livrar de punições na Holanda. Na tarde do mesmo dia, a CGU anunciou a abertura de processo contra a empresa no Brasil. “Todas as partes esperaram cinicamente até o fim das eleições”, afirma Taylor.
No momento, a SBM negocia com a Controladoria um acordo de leniência, em que poderá colaborar com as investigações sobre corrupção na Petrobras para se livrar de punições e continuar fazendo negócios com o setor público.
O ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, um dos delatores da Operação Lava Jato, disse que a SBM doou US$ 300 mil à campanha de Dilma nas eleições de 2010 e apontou Faerman como o operador que fez o dinheiro chegar ao PT.
Outro lado
A CGU afirma que abriu o processo contra a SBM Offsshore em novembro porque foi quando encontrou “indícios mínimos de autoria e materialidade” sobre o caso. A controladoria diz que isso ocorreu após a aprovação de relatório preliminar da comissão de sindicância interna.
A controladoria confirma a versão do ex-funcionário da SBM Jonathan Taylor de que o órgão recebeu informações dele por e-mail e servidores estiveram no Reino Unido para ouvi-lo.
A CGU diz que não usou seu material para embasar as conclusões dos trabalhos e afirma que Taylor questionou sobre possível recompensa financeira, semelhante, segundo a controladoria, ao que ocorre nos EUA, o que foi negado.
Em entrevista à Folha, o chefe jurídico da SBM, Alessandro Rigutto, reafirmou a acusação da empresa de que Taylor tentou chantageá-la. “Ele pediu algo em torno de 3,5 milhões de euros pelo silêncio”, afirmou.
Segundo Rigutto, Taylor teve acesso a informações sigilosas porque integrou investigações internas em 2012 e teria deixado a empresa por divergências com o chefe da auditoria, Sietze Hepkema.
Ele negou as acusações de que a SBM tentou acobertar a apuração em relação à Petrobras.
Rigutto manteve a versão de que a empresa foi informada pelo Ministério Público da Holanda da descoberta do pagamento de propina no Brasil. A procuradoria holandesa disse que Taylor foi ouvido como testemunha, mas destacou que também usou outras fontes de informação. O órgão não respondeu à acusação dele de que houve “conluio” com a SBM para chegar a um acordo.

Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com
Morre Eduardo Galeano, autor de “Futebol ao sol e à sombra”

Morreu na manhã de hoje, aos 74 anos, o escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. Ele teve complicações decorrentes de um câncer de pulmão, diagnosticado em 2007, e estava internado no Centro de Assistência do Sindicato Médico do Uruguai, em Montevidéu, desde sexta-feira. Autor de mais de 50 livros, se notabilizou como referência da esquerda latino-americana e mundial com o livro “As veias abertas da América Latina”, considerado um clássico da literatura política do continente e publicado pela primeira vez em 1971.
Sua obra, no entanto, que mais me marcou, foi “Futebol ao sol e à sombra”. É o melhor livro que já li sobre futebol, escrito na tabela entre pesquisa e paixão profundas pelo esporte. Enquanto seu ideário político se tornou anacrônico com o passar dos anos, sobretudo após a queda do Muro de Berlim, em 1989, e da falência mais recente do bolivarismo na América Latina, incluindo seu congênere lulopetista no Brasil, “Futebol ao sol e à sombra” não envelheceu nem do primeiro ao segundo tempo de jogo, permanecendo atualíssimo. Nele, seu autor sobreviverá enquanto houver neste planetinha em forma de bola alguém apaixonado por futebol, capaz de encará-lo como arte e representação, no sentido grego, da tragédia humana. Por apenas R$ 19,90 pode ser adquirido aqui.
Abaixo, na definição de Galeano sobre futebol, uma pequena mostra do livro:
“A história do futebol é uma triste viagem do prazer ao dever. Ao mesmo tempo em que o esporte se tornou indústria, foi desterrando a beleza que nasce da alegria de jogar só pelo prazer de jogar. Neste mundo do fim de século, o futebol profissional condena o que é inútil, e é inútil o que não é rentável. Ninguém ganha nada com essa loucura que faz com que o homem seja menino por um momento, jogando como o menino que brinca com o balão de gás e como o gato brinca com o novelo de lã: bailarino que dança com uma bola leve como o balão que sobe ao ar e o novelo que roda, jogando sem saber que joga, sem motivo, sem relógio e sem juiz.
O jogo se transformou em espetáculo, com poucos protagonistas e muitos espectadores, futebol para olhar, e o espetáculo se transformou num dos negócios mais lucrativos do mundo, que não é organizado para ser jogado, mas para impedir que se jogue. A tecnocracia do esporte profissional foi impondo um futebol de pura velocidade e muita força, que renuncia à alegria, atrofia a fantasia e proíbe a ousadia.
Por sorte ainda aparece nos campos, embora muito de vez em quando, algum atrevido que sai do roteiro e comete o disparate de driblar o time adversário inteirinho, além do juiz e do público das arquibancadas, pelo puro prazer do corpo que se lança na proibida aventura da liberdade”.
Exemplo esculpido por Fídias desse “corpo que se lança na proibida aventura da liberdade”, o gol mais lindo entre todos os que vi em meu tempo de vida, bem como antes dela registrados em vídeo, foi marcado por Zico, já aos 40 anos, para selar a vitória do seu Kashima Antlers, time no qual o eterno camisa 10 do Flamengo introduziu o futebol no Japão, contra o Tokoku Sendai, na disputa da Copa do Imperador de 1993. Em seu livro, Galeano definiu o “gol escorpião”, como o lance ficou conhecido, de maneira tão genial quanto o craque dos campos:
— Contem-me como foi esse gol — pediam os cegos.
Quem tem a sorte de enxergar, confira abaixo a incapacidade de explicá-lo a quem tem vistas deitadas à sombra:
Atualizado às 13h08
Crítica de cinema — Mais da Gata Borralheira
Cinderela — Nos contos de fadas, que muitas vezes começam pelo “Era uma vez”, para mostrar que os temas não se referem apenas ao presente tempo e espaço, o leitor encontra personagens e situações que fazem parte do seu cotidiano e do seu universo individual, com conflitos, medos e sonhos. A rivalidade de gerações, a convivência de crianças e adultos, as etapas da vida (nascimento, amadurecimento, velhice e morte), bem como sentimentos que fazem parte de cada um (amor, ódio, inveja e amizade) são apresentados para oferecer uma explicação do mundo que nos rodeia e nos permite criar formas de lidar com isso.
Existem inúmeros mitos e histórias antigas semelhantes a Cinderela, como um conto egípcio datado do primeiro século antes de Cristo. A versão de Cinderela como a conhecemos hoje foi criada pelo autor francês Charles Perrault, que foi publicado pela primeira vez em 1697. Ele tem sido a base e inspiração por trás de inúmeras óperas, balés, peças de teatro e filmes. A primeira versão do filme foi de sete minutos de duração, dirigido por Georges Méliès, na França em 1899. A primeira adaptação de Hollywood foi no cinema mudo em 1914, feita pela Paramount Pictures, estrelada por Maryu Pickford no papel-título. A versão animada do clássico da Disney, Cinderela, estreou em 1950, e foi um enorme sucesso de bilheteria. Em 2008 foi nomeado o nono maior filme de animação de todos os tempos pelo American Film Institute. Outros filmes recentes baseados no conceito de Cinderela incluem “Ever After” (1998) e a “A Cinderela Story” (2004).
Após o sucesso de bilheteria de “Alice no País das Maravilhas”, que foi a segunda maior bilheteria de 2010 e lucrou US$ 1 bilhão nas bilheterias ao redor do mundo, a Walt Disney Pictures começou a desenvolver uma nova adaptação para o cinema de Cinderela
Repete o sucesso com Cinderela, um filme de fantasia romântica dirigido por Kenneth Branagh — “Hamlet” (1996) e “Thor” (2011) — a partir do roteiro de Chris Weitz. Produzido por David Barron, Simon Kinberg e Allison Shearmur, a história é inspirada no conto de fadas de Charles Perrault e na animação de 1950 da Walt Disney de mesmo nome.
A estrela do elenco é a premiada atriz e diretora teatral australiana — 2 Oscar: atriz coadjuvante em “O Aviador”(2005) e atriz em “Blue Jasmine”(2014) — Cate Blanchett como Lady Tremaine (madrasta má). A atriz, intérprete de rainhas em “Elizabeth” e “O Senhor dos Anéis”, cumpre seu papel como a madrasta má na maior elegância, mas não entra para o rol da fama de vilania cinematográfica. Como o casal de protagonistas Ella (Cinderela) e Kit (Príncipe), a belíssima loira Lily James — “Fúria de Titãs” (2012), “Downton Abbey“ (2012/2013/2014), “War & Peace” (2015) —, que também interpreta o tema musical oficial do filme “A Dream Is A Wish Your Heart Makes” (Patrick Doyle) e o ator escocês Richard Madden, que ficou mundialmente conhecido pela sua atuação na série “Game of Trones”. A magia protetora da fada madrinha encenada por Helena Bonham Carter, tranquila e acolhedora. A afetação das invejosas e mesquinhas irmãs postiças, Anastasia (Holliday Grainger) e Drisella (Sophie McShera) ficou em boa medida. A rápida participação nas cenas iniciais de Harley Atwell (mãe de Cinderela) e Ben Chaplin (pai de Cinderela), nos revela a ascendência e como se deu a orfandade de Ella.
A caprichada produção, que conta com efeitos digitais magníficos, cenários e figurinos maravilhosos, foi feita em Pinewood Studios, em Buckinghamshire (mesmo de “Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas” e “Malévola”), e as filmagens por toda a Inglaterra, em locais incluindo Blenheim Palace, Windsor Castle, Old Royal Naval College e Black Park, garantiram um ambiente realmente de conto de fadas com seus castelos e mágicas paisagens. O vestido azul de Ella (como o da animação), a carruagem de ouro e o famoso sapatinho de cristal ficaram mágicos.
A exibição na maioria das salas é na versão dublada. Seguro que se perde a qualidade do som original e da interpretação original dos atores. Porém, mesmo não contando com nenhum artista famoso na dublagem, o estúdio DelartRJ contou com dubladores experientes, como Carla Denise Ponpílio (Wanda Maximoff em “X-Man:Evolution”, Ellie em “A Era do Gelo” e Nala em “O Rei Leão”) que dublando Lady Tremaine (Cate Blanchett) não compromete muito.
Sou sempre pelo som original com legenda, mas liberdade da atenção da criançada para o encantamento visual proporcionado pelo mágico universo dos contos de fada de Cinderela, vale.
Vale pra caramba, príncipes e princesas.
Publicado hoje na Folha Dois
Confira o trailer do filme:
Se os mais pobres saírem às ruas, é possível que a turma deste domingo chame a polícia


Vitória parcial
Por Luiz Fernando Vianna
Apesar do empurrão da pesquisa Datafolha (aqui), divulgada na véspera, os atos contra Dilma perderam um tanto de sua força. Mas não é o caso de desqualificá-los. Pelo contrário. Comprovou-se que há gente engajada no que acredita ser o melhor para o país. Isso é relevante num movimento com marcas de despolitização, como desconhecimento da história brasileira — parecendo crer que a corrupção começou há 12 anos — e apreço pequeno pela democracia duramente conquistada.
No jogo de especulações sobre por que a revolta retraiu, talvez valha pensar em dois pontos, dentre outros. Um é que, mesmo sendo o impeachment o tesouro procurado, parte dos anseios dos descontentes já vem sendo atendida: esfacelamento do PT, que virou uma coisa invertebrada, e triunfo de uma agenda conservadora — redução da maioridade penal, leis para estimular a violência das polícias, bloqueio da ampliação dos direitos de mulheres e gays.
É significativo que, em protestos que têm a corrupção como inimiga, seja difícil ver cartazes contra Eduardo Cunha. Ao emparedar o PT e devolver ao reacionarismo um vigor político que não tinha desde a ditadura, o presidente da Câmara dos Deputados realiza muito do que desejam os manifestantes.
O segundo ponto é que o movimento ainda está sendo guiado mais pelo fígado (ódio ao PT) do que pelo estômago (desemprego, perda de renda); mais por vontade do que por necessidade. Para quem conhece o Rio, foi fácil perceber que não havia em Copacabana gente em situação financeira precária. Eram 10 mil pessoas de uma classe média que segue a pauta dos grupos de comunicação, claramente favoráveis aos protestos.
Se a crise se instalar com a força que se espera e os mais pobres saírem às ruas, é possível que a turma deste domingo corra para seus apartamentos. E chame a polícia.
Publicado aqui, na folhadesaopaulo.com








