Pesquisa Ibope sobre o governo Dilma acendeu a luz vermelha no Instituto Lula
Por Ricardo Noblat
O que mais deve preocupar a presidente Dilma Rousseff em meio ao tsunami de más notícias trazidas pela mais recente pesquisa do Ibope (aqui) que ouviu 2.002 pessoas em todo o país entre os últimos dias 21 e 25: a queda na aprovação dela não se dá apenas entre os que votaram em Aécio Neves (PSDB) para presidente da República. Não.
Entre os que dizem ter votado em Dilma no segundo turno da eleição de 2014, a aprovação do seu governo caiu de 80% em dezembro último para 34% agora. Entre os partidários de Aécio caiu de 16% para 3%. Para 69% dos entrevistados, Dilma é culpada pelo esquema de corrupção na Petrobras. Para 60% deveria ser deposta.
A gestão de Dilma é considerada ruim ou péssima por 64% dos brasileiros, índice igual ao obtido pelo então presidente José Sarney em julho de 1989. O percentual dos que não confiam em Dilma saltou de 14% para 74%. O segundo mandato dela está sendo pior do que o primeiro (76%). Apenas 14% acreditam que o resto do mandato será ótimo ou bom.
Nada do que Dilma está fazendo é aprovado pela maioria da população. As políticas de taxa de juros e impostos são reprovadas por 89% e 90%, respectivamente. E o combate à inflação por 84%. As ações na área da saúde? Quase 85% reprovam.
Anteontem, reunido em São Paulo com um grupo de políticos do PT, Lula disse que seu futuro está ligado ao de Dilma para o bem ou para o mal. Se ele estiver certo, a pesquisa Ibope, que só veio confirmar o que a pesquisa do instituto Datafolha antecipara (aqui), acendeu a luz vermelha no Instituto Lula.
A Petrobras poderá ter de adiar, mais uma vez, a publicação do balanço financeiro do ano passado. Marcada para o dia 30 de abril, a divulgação pode atrasar porque os métodos adotados para apurar os resultados ainda estão sob análise da autoridade americana responsável pela vigilância do mercado, a SEC (Securities and Exchange Comission). Os técnicos da SEC receberam o relatório há duas semanas e não se manifestaram oficialmente sobre os procedimentos. Fontes ligadas à Petrobras dizem, porém, que há sinais de que a metodologia será aprovada.
O novo cálculo não levará em conta os prejuízos causados pela corrupção revelada pela Operação Lava Jato. E deverá levar a uma baixa contábil – redução do valor dos ativos da empresa – bem menor do que a conta anterior, feita em janeiro pela consultoria Delloite e pelo banco BNP. Pelos cálculos da Delloite, os ativos da Petrobras estavam inflados em R$ 88,6 bilhões – resultado de vários problemas, do superfaturamento das obras e à queda do preço do petróleo, que provoca desvalorização dos ativos. A crise provocada pela divulgação dos R$ 88,6 bilhões foi apontada como a causa da queda da presidente da Petrobras, Maria Graça Foster.
Desta vez, o método é diferente e o resultado é menor. Segundo uma fonte ligada à estatal, o valor final da baixa contábil ainda não foi definido, mas deve ficar entre R$ 20 bilhões e R$ 40 bilhões. Para chegar a este número, a Petrobras não atualizou o valor de cada refinaria, alvo das investigações da Lava Jato, mas do conjunto delas. “Levamos em conta a sinergia entre as refinarias”, diz a fonte. Segundo esta fonte, é inviável calcular as perdas com a corrupção. A metodologia adotada agora é mesma usada tradicionalmente pela companhia. A origem da baixa contábil mudou: agora está concentrada na reavaliação de projetos que a Petrobrás colocou para ‘hibernar’ ou vender, principalmente as refinarias que não vão sair do papel.
O método foi submetido à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), responsável pela fiscalização do mercado brasileiro, que indicou o que achava necessário conter no balanço. Se a SEC der o sinal verde, a auditoria PricewaterhouseCoopers (PWC), que havia se recusado a assinar o balanço após a Lava Jato, deve referendar o documento. Mas, mesmo se a SEC der o ok nos próximos dias, pode não haver tempo hábil para entregar o balanço até 30 de abril. A Petrobrás precisa de 10 dias para convocar uma assembleia e mais 30 para que os acionistas se manifestem. A estatal tem pressa porque os detentores de títulos da dívida podem pedir o pagamento antecipado do débito caso o prazo não seja cumprido. A empresa negocia mais prazo com os credores.
Mefistófeles —O marqueteiro João Santana orienta a presidente Dilma em debate da campanha presidencial de 2014. Construir a imagem se tornou a principal preocupação dos governantes (foto de Eduardo Knapp – Folhapress)
No Brasil, parte do papel antes exercido pelas empreiteiras na promiscuidade entre poder político e o capital privado foi transferida para o ramo das empresas que agenciam a comunicação a serviço dos governantes. O tempo em que os governos se gabavam de transformar as cidades num “canteiro de obras” é passado. Hoje, o velho estilo saiu do centro das atenções. Agora é a vez do político comunicador. O sujeito tem de ser bom de televisão. No núcleo estratégico do poder, as receitas para comunicar os feitos valem muito mais do que aquelas para realizá-los. Rigorosamente, até mesmo a ideia de comunicar os feitos perdeu atualidade. Hoje, comunicar se tornou o feito em si. Não é mais a comunicação que se presta a tornar conhecidas as obras realizadas. São as obras que, se necessárias ao projeto de comunicação, ilustram e dão materialidade à imagem que a autoridade pretende forjar para si mesma. Construir a imagem é o destino de todo o esforço dos governantes – mesmo que, para isso, alguns hospitais, viadutos e sistemas de saneamento sejam necessários. As obras se converteram em um acessório do “bem principal”, que é a comunicação.
Por isso, as empreiteiras se deslocam, progressivamente, do centro para a periferia da estratégia política. É verdade que elas ainda representam a fatia mais polpuda das doaçõespara as campanhas eleitorais, mas se afastam gradativamente do centro de inteligência das estratégias políticas. Esse centro passou a ser ocupado por agências de marketing eleitoral ou de comunicação política. Hoje, a estratégia de comunicação dos candidatos, dos partidos e dos governantes participa da concepção e da gerência das relações promíscuas que definem os vínculos entre os poderes econômico e político. O que conta, agora, mais que a construção de pontes e viadutos, mais que a construção de usinas hidrelétricas, é a construção da imagem. E essa imagem se faz pelos métodos da publicidade comercial.
Nesse novo contexto, a comunicação de governo funciona cada vez mais como prolongamento dos filmes partidários da campanha eleitoral. Não apenas a linguagem, mas também as equipes responsáveis pelas peças publicitárias dos governos e pelos filmes dohorário eleitoral costumam ser as mesmas. Esse é um mercado que se autonomizou para dar nascimento a uma indústria com identidade própria. O negócio frutificou, ganhou regras próprias e um nome relativamente pomposo: o bilionário campo do marketing político. Os dutos de abastecimento dessa nova indústria são os contratos com governos e partidos políticos, às vezes simultâneos.
É por aí que os governantes, os partidos e suas agências aprenderam a fazer e a financiar a campanha eleitoral fora do período eleitoral. A máquina, azeitada e célere, funciona muito bem. Pergunta: será que alguém acredita em filmetes de otimismo governista do tipo em que a metrópole (pode ser São Paulo, Rio de Janeiro ou outra grande cidade qualquer) aparece como uma musa deslumbrante, com ruas imaculadas e calçadas que são passarelas, em que se pode caminhar sem medo, pois a iluminação é digna de um estúdio cinematográfico, os policiais sorriem como garçons, e onde os postos de saúde são tão aprazíveis que dá até vontade de ficar doente? Resposta: não, as pessoas não acreditam. O telespectador, pobre dele, assiste ao filme e em seguida olha pela janela em busca de uma migalha que seja da urbe publicitária, mas nada do que é mostrado na tela se parece com a vida real. Mas, dada a repetição intensiva, a fórmula traz dividendos eleitorais. Não pelo que tem de crível, mas pelo que tem de eficiência em fixar na cabeça do público o nome do político, do partido ou a marca da gestão. Embora não consiga se passar por verdade, a propaganda de governo tem a inestimável capacidade de gerar familiaridade entre o telespectador e a turma instalada no poder. Torna o político um pouco mais conhecido. Faz com que as pessoas se lembrem dele – e essa lembrança, quando a campanha eleitoral começar oficialmente, é uma vantagem que vale mais que ouro.
Os estrategistas de imagem dos governos sabem que, de alguma forma, a técnica – regada a bilhões – vai acabar surtindo efeito. Sabem que, se baterem na tecla da propaganda caríssima e ilusionista, o cidadão vai acabar se lembrando daquela marca, daquele rosto, daquele governante, como alguém que se lembra de uma celebridade ou de um ator muito famoso. O que esses estrategistas buscam, no fim das contas, é ficar na liderança dos nomes mais lembrados pelo eleitor. E operam na mais absoluta tranquilidade. Não há lei que possa impedi-los de aumentar a gastança e de se esmerar nesse esporte que é a única unanimidade entre as diversas agremiações que se batem na política brasileira: a autopromoção consentida, paga pelo Erário. Se os programas sociais de saúde, moradia e educação crescessem na mesma proporção que a promoção pessoal de governantes, a vida real seria a melhor propaganda do mundo. Mas ela não é. A publicidade dos governos aumenta com base no termômetro da infelicidade dos governados. Ela vende o céu porque a vida é um inferno. O instituto tácito da publicidade oficial ilimitada também constitui um privilégio acessível apenas aos que já estão no poder. Graças a ela, os governantes têm muito mais exposição nos meios de comunicação do que qualquer oposicionista. Têm muito mais chance de promover a si mesmos sem gastar um tostão do próprio bolso. E não apenas isso. O instituto da publicidade oficial ilimitada (leia-se: a propaganda governista sem pejo nem pudor) trava um combate aberto ao princípio democrático da alternância de poder. Ao tentar convencer o eleitor de que o governo em curso (qualquer que seja) é o melhor do mundo e merece ser reeleito, desequilibra a disputa, vicia o jogo.
Deu-se, no interior do Estado brasileiro, algo que ainda não foi suficientemente compreendido: a comunicação oficial se deixou açambarcar pelo método da publicidade mais ligeira e menos respeitosa que existe. Esse é um dos motivos pelos quais as distinções entre a propaganda eleitoral e a comunicação oficial praticamente caíram por terra, fazendo com que a voz oficial dos governos seja o prolongamento da voz publicitária das campanhas eleitorais
Trecho editado do livro “O Estado de Narciso”, lançado pela Companhia das Letras
Adaptação ao cinema do segundo livro da trilogia “Divergente” (“Divergent”, 2011-2013), “A série Divergente: Insurgente” (“The Divergent series: Insurgent”, 2015) retorna ao mundo distópico e pós-apocalíptico criado pela romancista americana Veronica Roth e reinterpretado, aqui, pelo diretor alemão Robert Schwentke, de “Red: Aposentados e perigosos” (“Red”, 2010), e os roteiristas Brian Duffield, Akiva Goldsman e Mark Bomback, que nunca escreveram nada muito digno de nota.
O filme segue a história de onde o primeiro parou, após um ataque a um dos grupos que compõem a ordem social da Chicago futurista. O ato abala a paz alcançada depois de toda uma história de conflitos humanos com a divisão da sociedade em cinco facções, dedicadas a virtudes contrárias aos fatores que seus membros acreditam terem sido responsáveis pela ruína do passado e entendidas como fundamentais para evitar novas cisões: Abnegação, que ataca o egoísmo; Erudição, que se opõem à ignorância; Audácia, que condena a covardia; Amizade, que culpa a agressividade; e Franqueza, que desfaz da duplicidade.
Caçados pelo crime, a protagonista Tris Prior (Shailene Woodley), que guarda um segredo que pode lhe custar a vida, Four (Theo James), ambos da Audácia, e o irmão de Tris, Caleb Prior (Ansel Elgort), da Erudição, buscam se manter vivos enquanto traçam um plano para chegar a Jeanine Matthews (Kate Winslet), líder da Erudição, verdadeira responsável pelo atentado, e que manobra traidores de sua própria facção e da dos jovens para detê-los.
O conflito de gerações, a rebeldia e a intolerância com o diferente são os motes principais da trama, que trabalha poder e autoridade de forma rasa, com conflitos e perdas emocionais diluídos em ação banal. Embora beba em fontes preciosas como “1984” (“Nineteen Eighty-Four”, 1949), de George Orwell, e “Fahrenheit 451” (Idem, 1953), de Ray Bradbury, para desenhar suas pretensamente complexas formas de controle social, “A série Divergente: Insurgente” se desenvolve em uma realidade tão apática quanto as abundantes luzes fluorescentes que compõem os cenários de apelo mais futurista, como o quartel general da Erudição. De fato, a direção de arte replica cores e recursos já exauridos em filmes de ficção científica, apostando em veículos e prédios de design pouco inventivos, bem como em hologramas e telas transparentes para lá de manjadas.
Além disso, nas mãos de Schwentke, a história torna-se mera desculpa para um desfile de efeitos especiais, que amarram bons novos atores, como Woodley e Miles Teller, e veteranos Kate Winslet (subaproveitada em papel insosso) e Naomi Watts. O texto é, muitas vezes, fraquíssimo e expositivo em excesso, redundando ações que, justamente por estarem sendo mostradas, não precisam ser explicadas. O roteiro também foge de qualquer desenvolvimento psicológico mais profundo que os traumas de maternos de Tris e Quatro.
De bom, a confirmação de uma tendência evidenciada por “Jogos vorazes” (“The hunger games”), outra série que adapta livros infanto-juvenis: ao contrário do que sempre foi defendido pelos executivos de Hollywood, filmes protagonizados por mulheres podem, sim ser sucesso de público.
O ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco entregou à Operação Lava Jato os documentos que guardava de depósitos da offshore Constructora Internacional Del Sur, usada pela empreiteira Norberto Odebrecht para pagar propina no esquema de cartel e corrupção na estatal.
A conta de Barusco que recebeu valores da Odebrecht foi a aberta em nome da offshore Pexo Corporation, que ele registrou em 2008.
O delator afirmou aos investigadores da Lava Jato que conseguiu “identificar o recebimento de quase US$ 1 milhão depositados pela Odebrecht” nesta conta.
Pelo menos dez depósitos para a offshore de Barusco foram contabilizados ao longo de 2009 e cópias dos registros de depósitos entregues à Lava Jato.
A Constructora Del Sur, aberta no Panamá, fez pagamentos diretos ao ex-diretor de Serviços Renato Duque – braço no PT no esquema –, em 2009 em nome de uma conta que era controlada por ele. A descoberta foi feito no bloqueio da fortuna de 20 milhões de euros que ele mantinha no Principado de Mônaco.
Ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco guardou prova envolvendo a Odebrecht (Foto de Ueslei Marcelino- Reuters)
Foram dois depósitos na conta de Duque aberta em nome da offshore Milzart Overseas Holdings Inc., do Panamá, totalizando US$ 875 mil. Os valores vieram de uma conta da Constructora Internacional Del Sur, no Credicorp Bank, em Genebra.
Em novo depoimento ontem à Justiça Federal, o doleiro Alberto Youssef, confessou que a Odebrecht também usou Construtora Internacional Del Sur para movimentar propina em sua lavanderia.
“Odebrecht e Braskem (sociedade entre a empreiteira e a Petrobrás) era comum fazer esses pagamentos (de propina) lá fora, ou ela me entregava em dinheiro vivo no escritório da São Gabriel”, afirmou o doleiro em audiência na Justiça Federal no Paraná nesta terça-feria 31.
“Uma vez recebi uma ordem, não me lembro se foi em uma das contas indicadas por Carlos Rocha (doleiro Carlos Alberto Souza Rocha, também alvo da Lava Jato) ou Leonardo (Meirelles, outro réu da operação), da Odebrecht que a remessa foi feita pela construtora Del Sur”, relatou. Segundo o Youssef, ele teria recebido pagamentos por meio dessa empresa “umas duas ou três vezes”.
Documento. A Lava Jato já sabe que Barusco era braço direito e espécie de contador da propina de Duque na Diretoria de Serviços. Por meio dela, o esquema arrecadava de 2% a 3% nos contratos da estatal. Parte ficava com os dois e parte ia para o PT.
Cópia de registro de depósitos de offshore Constructora Del Sur para conta de Barusco
Os documentos e depoimentos colhidos até agora na Lava Jato complicam a vida da Odebrecht e de seus executivos. Barusco e o ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa apontaram os executivos do grupo Rogério Santos Araújo e Márcio Faria da Silva como os responsáveis pelos pagamentos no exterior.
Costa diz ter recebido US$ 23 milhões da empreiteira por meio de transferências para a Suíça. O doleiro Bernando Freiburghaus, que mora na Suíça, é peça-chave nessas investigações. Era ele quem operava parte dessas contas na Europa.
A Odebrecht reiteradamente tem repudiado com veemência as suspeitas lançadas sobre sua conduta. A empreiteira nega taxativamente ter pago propinas no esquema Petrobrás.
Em nota divulgada anteriormente, quando seu nome foi citado, a Odebrecht destacou: ”A empresa não participa e nunca participou de nenhum tipo de cartel e reafirma que todos os contratos que mantém, há décadas, com a estatal, foram obtidos por meio de processos de seleção e concorrência que seguiram a legislação vigente”.
O garoto da casa ao lado — Desde “Psicose” (1960), dirigido pelo mestre do suspense Alfred Hitchcock e estrelado por Anthony Perkins, um dos assuntos frequentemente abordados no cinema é a trajetória de psicopatas, cuja maior representação continua a ser Norman Bates. “Bates Motel” (2013), criada por Antonio Cipriano e baseada na obra de Hitchcock, “O silêncio dos inocentes” — escrito por Thomas Harris e publicado em 1988, e dirigido por Jonathan Demme e lançado em 1992 – e “Paranoia” (2007), de D.J. Caruso, são algumas peças de ficção que se tornaram conhecidas pelas narrativas que apresentam relações doentias entre os protagonistas e as pessoas que os cercam.
Apesar do não ineditismo quanto ao enredo, o filme “O garoto da casa ao lado” oferece ao espectador mais uma oportunidade de apreciar o suspense característico que cerca os roteiros sobre psicopatas. Dirigido por Rob Cohen, o longa-metragem conta a história de Claire Peterson (Jeniffer Lopez), uma professora de Literatura Clássica que está separada do marido, Garrett (John Cobertt), e vive com o filho Kevin (Ian Nelson).
Em uma tarde, a mulher conhece o solícito, gentil e educado Noah Sandborn (Ryan Guzman). Sobrinho-neto de um homem impossibilitado de andar, o rapaz demonstra carinho e extremo cuidado com o idoso e com Kevin, comovendo Claire, que passa a olhá-lo com interesse. Tais características são prenúncios da verdadeira personalidade do jovem, que se mostra agressivo e pela protagonista após os dois se envolverem sexualmente em uma noite — cena marcada pelo erotismo apelativo.
Exatamente como esperado nos longas-metragens do gênero, o filme se desenrola a partir das ações doentias e obsessivas de Noah, que começa a perseguir Claire e a família. Apesar de ser alertada por Vicky Lansing (Kristin Chenoweth), vice-diretora da escola onde trabalha, a professora não percebeu o jeito doentio do novo vizinho. Ele se torna uma referência para Kevin e destrói o relacionamento do garoto com o pai.
O roteiro, de Barbara Curry, não apresenta novidades. É possível que o público, nos primeiros minutos do filme, trace o destino dos personagens principais sem grandes dificuldades. O suspense existente na história é possibilitado não pelo enredo, mas pelo trabalho de fotografia. As cenas, especialmente durante o clímax da narrativa, são escuras e, com o auxílio da trilha sonora em certos momentos, tornam o ambiente denso e angustiante. Os enquadramentos escolhidos para a gravação também favorecem a tensão, principalmente quando há opção pelo plano detalhe e primeiro plano, valorizando expressões e gestos dos atores.
As opções estéticas, no entanto, não escondem os buracos existentes no filme. Um aspecto mal explicado em “O garoto da casa ao lado” é o Sr. Sandborn, tio-avô de Noah. Adoentado, o personagem aparece nas primeiras cenas — impossibilitado de andar — e nas últimas — caminhando normalmente. Todo o percurso feito pelo idoso é apenas comentado em poucos diálogos. Com isso, ele é apresentando como figurante, que poderia ser descartado a qualquer momento, e não como o ponto-chave para o aparecimento do sobrinho-neto psicopata. Além disso, o desfecho da história é extremamente desinteressante e permanece aquém das possibilidades de inovações do enredo, que, após atingir o ápice, com cenas de ação e tensão –típicas do gênero –, deságua em um fim medíocre e insosso, deixando, no espectador, a sensação de frustração.
Nova etapa da investigação vai mostrar sequência de crimes político-empresariais em ‘dimensão muito superior aos danos já provocados à Petrobras’, escreveu o juiz Moro
O colarinho branco realçava o tom borgonha da gravata, sob barba e cabelos grisalhos aparados com esmero. Paulo Roberto Costa nem parecia um ex-diretor da Petrobras com algema eletrônica no tornozelo.
Escoltado por um agente federal de colete à prova de balas e armado com fuzil, falou por horas na Procuradoria da República, no Centro do Rio. A rua abaixo fervilhava no calor da quarta-feira pré-carnaval, 11 de fevereiro.
— Vocês obviamente têm um papel aqui, mas não se limitem à Petrobras — incitou os procuradores. — Não se limitem, não. O que acontece na Petrobras, acontece no Brasil.
Prosseguiu:
— Essas empresas do cartel não trabalham só para a Petrobras. Trabalham para portos, aeroportos, ferrovias e rodovias. Então, o interesse deles é tudo, não é só na Petrobras. Eu falei no primeiro dia, lá na força-tarefa, antes de assinar o acordo de delação, que a minha área era só a ponta do iceberg. Agora teve lá uma declaração do Ricardo Pessoa (acionista da UTC/Constran), e ele confirma. Falei também, com clareza, lá na CPMI (no Congresso): “Não pensem que esse assunto se restringe à Petrobras, porque não é!”
Exemplificou recordando seus encontros em Brasília para tratar da harmonia de interesses político-empresariais:
— Normalmente, o Aníbal Gomes (deputado federal do PMDB) pedia a reunião. Era uma por mês, com o Romero Jucá e o Renan Calheiros (senadores do PMDB). Eu ia lá na casa do Renan e falava das perspectivas, de projetos. Qual era o interesse desses políticos? É que as empresas do cartel ganhassem, porque se elas ganhassem revertia uma parte pra eles.
Nas últimas duas semanas, o juiz Sérgio Moro indicou no processo o acúmulo de evidências de que “o esquema criminoso vai muito além da Petrobras”. Repetiu-se nos autos: “A mesma cartelização das grandes empreiteiras, com a manipulação de licitações, ocorreria no país inteiro”. Insistiu, ao autorizar a prisão — com uso de algemas — de um acionista da Galvão Engenharia: “Há indícios veementes de que os crimes transcendem a prática de cartel, corrupção e lavagem em obras da Petrobras.”
Num despacho da semana passada, o juiz mostrou-se inquieto com os dados já obtidos sobre o fluxo de propinas no circuito fora da Petrobras. Essa nova etapa da investigação partiu de “uma tabela” de “comissões” montada pelo operador financeiro do Partido Progressista, Alberto Youssef, sobre 750 empreendimentos de empresas estatais e órgãos governamentais. Esse mapa da propina “é perturbador”, qualificou Moro.
A tendência, indicou, é a exposição pública de uma sequência de crimes político-empresariais em “dimensão ainda muito superior aos danos já provocados à Petrobras”. Multiplicam-se “registros documentais”, exemplificou, “como os depósitos bancários apreendidos no escritório de Youssef em favor de um senador”. Assim como há “prova documental do repasse de parte da ‘propina’ em doações eleitorais ao Partido dos Trabalhadores”.
O juiz Sérgio Moro e o réu confesso Paulo Roberto Costa coincidem na essência: não existe propina grátis. A conta desses subornos é paga pelos cofres públicos, com dinheiro subtraído do bolso de cada brasileiro.
Por Ricardo Brandt, Mateus Coutinho, Julia Affonso e Fausto Macedo
O doleiro Alberto Youssef, peça chave da Operação Lava Jato, reafirmou à Justiça Federal que entregou cerca de R$ 800 mil em dinheiro vivo para o tesoureiro do PT João Vaccari Neto — metade desse valor, segundo ele, na porta do diretório nacional do partido, localizado na Rua Silveira Martins, coração de São Paulo.
Em novo depoimento, agora nos autos do processo sobre operações ilícitas de câmbio realizadas pelo laboratório Labogen – empresa que ele tentou infiltrar no Ministério da Saúde na gestão do então ministro Alexandre Padilha (PT), o doleiro declarou que “a mando da Toshiba (Infraestrutura)” fez dois pagamentos para o tesoureiro do PT.
O dinheiro, segundo Youssef, teve origem em uma contratação para obras do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), entre 2009 e 2010. ”O primeiro valor foi retirado no meu escritório da (rua) Renato Paes de Barros (São Paulo) pela cunhada dele (Vaccari)”, declarou Youssef, referindo-se à Marice Corrêa Lima, perante o juiz federal Sérgio Moro, que conduz todas as ações penais da Lava Jato. “Eu entreguei esse valor pessoalmente. O segundo valor foi entregue na porta do diretório do PT nacional pelo meu funcionário Rafael Ângulo para o funcionário da Toshiba para que ele pudesse entregar o valor para o Vaccari.”
O sr. sabe o nome do funcionário da Toshiba?, perguntou um advogado na audiência. “Piva”, respondeu o doleiro. O advogado indagou qual era o papel dele no esquema de pagamento de propinas e favores a agentes públicos e políticos. “Eu era uma mera engrenagem, totalmente descartável. A partir do momento que não cumprisse com as obrigações, não recebesse e pagasse em tempo hábil os valores de maneira correta, no outro dia eu estava fora. Poderiam contratar qualquer outra pessoa para fazer esse trabalho.”
O tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, por meio de seu advogado, o criminalista Luiz Flávio Borges D’Urso, repudia taxativamente as acusações. D’Urso tem reiterado que o tesoureiro só arrecadou quantias declaradas à Justiça eleitoral. O criminalista rechaça o valor dos depoimentos prestados em regime de delação premiada. Segundo D’Urso, os delatores “não dizem a verdade”.
O PT tem reafirmado que todos recursos arrecadados têm origem lícita. A Toshiba nega pagamento de propinas a políticos.
Renato Duque, preso duas vezes pela PF por conta do escândalo do Petrolão (foto de Geraldo Bubniak – Estadão)
Por Marcelo Sperandio
O economista Daniel Duque entrou no alvo da CPI da Petrobras. Daniel é filho do ex-diretor da Petrobras Renato Duque, preso sob acusação de participar do petrolão. Levantamento da CPI descobriu que, entre 2006 e 2014, a Petrobras assinou contratos no valor total de R$ 1,2 bilhão com as multinacionais Chemtec, Cipher e Technip. Todos sem licitação. Esse valor só se refere aos 42 contratos assinados nos intervalos em que Daniel Duque trabalhou nessas multinacionais: Chemtec (de janeiro de 2006 a maio de 2007), Cipher (de junho de 2007 a junho de 2011) e Technip (de julho de 2011 a abril de 2014). Além disso, em agosto de 2013,quando Daniel Duque era gerente da Technip, a empresa anunciou que fora escolhida pela Petrobras para executar um contrato de R$ 4 bilhões. A CPI questionará: Daniel Duque participou das equipes das multinacionais que trabalharam nas aquisições desses contratos bilionários com a Petrobras? Daniel Duque integrou os quadros dessas esmpresas por influência política ou por mérito profissional? Em depoimento à CPI, Renato Duque disse que, na época, a Petrobras foi consultada e não viu impedimento em seu filho trabalhar para fornecedores da estatal. Procurada por esta coluna, a Petrobras não se manifestou sobre o assunto.
Cinderela — Com certo orgulho, o sociólogo alemão Max Weber disse que o Ocidente desencantou o mundo. Com melancolia, o intelectual romeno Mircea Eliade mostrou em toda a sua obra que passamos do sagrado para o profano, e a civilização ocidental teve grande responsabilidade nessa passagem. Embora o cinema ocidental tenha tentado criar um mundo encantado onde a pessoa que assiste ao filme possa se refugiar da realidade dura por algumas horas, a tendência foi também dessacralizar o mundo nos filmes.
Até os contos encantados foram bombardeados e atualizados para a vida atual. As séries “Shrek” e “Monstros S.A.” se incumbiram disso com os contos de fadas e as histórias sobrenaturais. Numa das animações de “Shrek”, as figuras desencantadas protestam contra a desconstrução por que passaram, desejando retornar à fantasia anterior.
Embora forjados num mundo sacralizado, os contos de fada não eram nada idealizados e sonhadores na sua origem popular e anônima. Havia neles crueldade e sangue. “João e Maria” são abandonados pelo pai e pela madrasta na floresta para morrerem. Em “Cinderela”, as invejosas irmãs postiças cortem os dedos do pé para que ele entre no sapatinho de cristal, algo que a apresentadora Andressa Urach gostaria de fazer, como ela mesma declarou numa entrevista, para ter pés menores e mais femininos.
No caso dos contos de fada, Charles Perrault e outros autores se incumbiram de suavizá-los e torná-los palatáveis para as crianças. Assim, temos a versão mágica de “Cinderela” dos dias atuais. A versão de Walt Disney é mágica. Eu acrescentaria que a marca de Disney nas histórias com alguma vertente adulta acabam se impondo como versões originais. O universo de personagens divididos como “Pinocchio”, de Carlo Collodi, ou de “Peter Pan”, de J.M. Barrie parecem tornar-se definitivamente voltados para a infância, com sua lógica dualista de bem e de mal. Mesmo assim, as crianças gostam muito de passagens aterradoras, como “Uma noite no Monte Calvo”, integrante de “Fantasia”, de 1940.
Especialista em Shakespeare, Kenneth Branagh já enveredou com competência no mundo adolescente ao dirigir “Thor”. Agora, mergulha no mundo infantil com “Cinderela”, sempre criando ambientes shakespearianos. Num filme voltado para crianças, ele constrói uma corte ao estilo de Shakespeare, com brancos e negros vivendo em condições de igualdade. No teatro de Shakespeare, não apenas brancos europeus têm lugar como coadjuvantes e protagonistas.
Em “Cinderela”, um negro ocupa uma posição importante de militar. Na festa para a escolha da princesa que se casará com o príncipe, aparece uma candidata negra. Como no conto de Perrault, todas, ricas e pobres do reino, devem ser convidadas para a festa e devem provar o sapatinho mágico. O crítico Gustavo Oviedo, aqui nesta Folha da Manhã, mostrou condignamente que Branagh retoma o clima feérico de “Cinderela” como fez Disney em 1950. No final das contas, vivendo atualmente com crianças, noto muito bem que elas gostam da fantasia, do mágico, das princesas e dos príncipes, das madrastas más, das bruxas e das fadas madrinhas. A mente delas se encanta com a polaridade bem e mal. “Shrek” e “Monstros S.A.” agradam mais aos adultos por serem demolidores e irônicos.
O clima encantado que Branagh criou para “Cinderela” se aproxima da animação de 1950. Só não reproduz a passagem antológica em que Cinderela, lavando o chão, levanta bolhas de sabão em que sua imagem é refletida incontáveis vezes e todas elas cantam em coro. De fato, na versão de 2015, Cate Blanchett é a âncora do filme, mas não se demora tanto em cena para ser cogitada como oscarizável em 2016.