Ponto final — Após o primeiro turno, caras se revelam no segundo

Ponto final

 

Que Anthony Garotinho (PR) fecharia com Marcelo Crivella (PRB), já estava anunciado desde que o primeiro republicou em seu blog (aqui) uma matéria de O Dia, postada no site do jornal carioca no final da noite da última sexta (aqui), dando conta da aliança contra Luiz Fernando Pezão (PMDB), em torno de quem contra ele disputasse o segundo turno. Como deu Crivella, ontem ele veio a Campos para consumar o “pacto” anunciado (aqui) desde o domingo de eleição por esta coluna.

Enquanto não saírem as novas pesquisas, e as próximas só serão divulgadas amanhã, nada excederá a especulação, a não ser o fechamento das alianças na disputa do segundo turno ao governo do Rio e do Brasil. E com as falhas graves cometidas nas projeções dos institutos de opinião, que erraram Garotinho para mais e Aécio Neves (PSDB) para muito menos, as tendências apontadas pelas novas consultas não bastarão para saber se os acordos foram felizes ou não.

Passadas as impressões iniciais do primeiro turno, é nos apoios do segundo que as verdadeiras caras se revelarão. Assim, depois de se acusarem de coisas que até Deus duvida na campanha, mas agora irmanados na mistura de fé, mídia e política que sempre os aproximou, Crivella e Garotinho se unem para arrebanhar o eleitorado evangélico do Estado e ainda tentar mordiscar uma beirada da hóstia dos seus 45,8% de católicos. E se um espírita, umbandista ou ateu também quiser estender os 10 dedos das duas mãos, mas não para orar, por que não? Afinal, para isso serve o estado laico.

O PT, após mostrar com Marina Silva (PSB) ser capaz de tudo para não largar o osso da tíbia do Brasil, ficou ainda mais enfraquecido do que já era no Rio, a partir do naufrágio da candidatura de Lindberg Farias. Por isto, e por precisar do apoio de Pezão, vai anunciar neutralidade ao governo fluminense, liberando seus quadros para apoiar quem quiserem. Já o Psol, após deixar boa impressão com Luciana Genro a presidente e Tarcísio Motta, a governador, não pensou duas vezes para pular no colo de Dilma Rousseff (PT).

Antes do Psol anunciar sua decisão oficial hoje, Tarcísio já declarou “Aécio e Pezão, nem pensar”. Quer dizer, contra a ameaça da volta do “neoliberalismo” dos social-democratas que lançaram o Plano Real e estabilizaram a economia do país, são esquecidas as lágrimas de vergonha que fizeram uma banda boa sair do PT para um novo partido (o Psol), no escândalo do Mensalão em 2005, como outra banda boa saíra do PMDB em 1988 para fundar o PSDB.

Mas o professor Tarcísio deve estar mesmo certo: introduzir a meritocracia no magistério estadual pode ser outro pecado (do) capital. Para ficar contra ele e Pezão, o fundamentalismo religioso que alimenta Crivella e Garotinho no Rio, ou gerou nos EUA a George W. Bush, é um mal menor. Para preencher o vácuo do PT fluminense e transformar o deputado estadual Marcelo Freixo (Psol) em candidato competitivo à Prefeitura do Rio em 2016, com o apoio de Dilma reeleita presidente, qualquer distensão de ordem moral vira alienação de pequeno burguês.

 

Publicado hoje na Folha

 

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PT do Rio ficará neutro, petistas não

Rio – Na dúvida entre ficar com Pezão ou Marcelo Crivella no segundo turno das eleições, o PT-RJ optará por uma posição conciliatória: o partido anunciará sua neutralidade, mas seus filiados poderão manifestar livremente sua preferência e até fazer campanha para o escolhido. A solução tenta preservar o apoio dos candidatos do PMDB e do PRB à reeleição de Dilma Rousseff.

A proposta, que será submetida amanhã à direção estadual do partido, foi articulada nesta terça em reunião, em Brasília, entre Rui Falcão, presidente nacional do PT; Washington Quaquá, presidente do partido no Estado do Rio; e o senador Lindberg Farias, candidato derrotado ao governo. Como o ‘Informe do Dia’ revelou hoje, a direção nacional tentava impedir o apoio a Crivella defendido por Quaquá e Lindberg. Outros petistas, como o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, já haviam anunciado que ficariam com Pezão.

No último dia 2, o Informe revelou que Lindberg e Crivella haviam feito um acordo: quem passasse para o segundo turno teria o apoio do outro.

 

Publicado aqui no site de O Dia

 

Atualização às 18h27: A informação já havia sido reproduzida antes aqui, pelo jornalista Alexandre Bastos.

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Ponto final — A arte do possível entre Crivella e Garotinho, Pezão e Romário

Ponto final

 

O fato de Marcelo Crivella (PRB) ter dito, no momento da sua votação no domingo, que “Garotinho é passado” (aqui), não deve ser levado em conta. Tampouco ter sido chamado na campanha, pelo mesmo Garotinho, de “mentiroso, ingrato, fariseu e encantador de serpentes”, na mistura sempre indesejável de política e religião. Nem insinuar que a ficha do ex-governador é “mais suja do que a do Fernandinho Beira-Mar”, como Crivella fez em Campos e Macaé a 30 de agosto, gerando a manchete de capa do dia seguinte da Folha, que hoje ilustra matéria da sua página 2.

O que importa, como noticia a reportagem do jornalista Arnaldo Neto, é que Crivella volta hoje a Campos, não para ofender Garotinho, mas para se encontrar com ele, como o próprio político da Lapa anunciou ontem em seu blog (aqui). Da fundação da democracia na Antiguidade, o filósofo grego Aristóteles (384 a.C./322 a.C.) ressalvou: “Política é a arte do possível”. Na busca do que é possível, fingir esquecimento das ofensas mais vis faz parte desse jogo.

Para Crivella, só é possível vencer o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) no segundo turno se somar apoios. Nada mais natural do que buscá-lo no terceiro colocado do primeiro turno, muito embora a enorme rejeição do eleitor fluminense a Garotinho (47% pelo Datafolha) tenha que ser também considerada. Hoje governador de São Paulo reeleito, Geraldo Alckmin (PSDB), por exemplo, chegou ao segundo turno presidencial contra Lula (PT) em 2006, aceitou o apoio de Garotinho e conseguiu diminuir sua votação.

Mas se não é difícil saber o que Crivella busca nesse “pacto” com Garotinho, o que este entende ser possível ter em troca? Em primeiro lugar, conter a debandada dos dois vereadores do PRB, Alexandre Tadeu e Dayvison Miranda, que andaram cantando de galo oposicionista durante a campanha do primeiro turno. E fora o óbvio paroquial, pactuar com o sobrinho de Edir Macedo pode ser atender também à presidente Dilma Rousseff (PT), contrariada pelo apoio já declarado do senador Francisco Dornelles (PP), vice de Pezão, à candidatura do sobrinho Aécio Neves (PSDB).

Num dos piores momentos da sua carreira política, desde que se elegeu governador em 1998, seu último cargo no Executivo, a votação de Garotinho no domingo revela uma acentuada decadência eleitoral não só no Estado, mas em todos os municípios do Norte Fluminense, seu reduto. É o que fica claro à compreensão de qualquer garotinho real, no contraste dos números lembrados pelo Murillo Dieguez em sua coluna na página 6, ou no infográfico na capa desta edição, comparando os percentuais das votações de 1998, 2002 e do último domingo.

À beira de perder a imunidade de deputado federal e sem perspectiva de candidatura em 2016, fazer um favor à presidente, no sentido de pressionar o PMDB fluminense, não faria mal nenhum a Garotinho. E ainda pode render vaga numa comissão importante na Câmara Federal para sua filha Clarissa (PR), caso Dilma se reeleja. Enquanto isso, Pezão promete uma surpresa no anúncio de reforços (aqui). A coluna não é dada a palpites, mas tudo leva a crer que se trata do senador eleito Romário (PSB), craque nos votos como foi nos campos. Se for, tudo parecerá mais possível ao governador.

 

Publicado hoje na Folha

 

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Dilma pode mandar passar a faixa presidencial?

Marina Silva

 

Jornalista Ricardo Noblat
Jornalista Ricardo Noblat

A escolha de Marina

Por Ricardo Noblat

 

“Desvio de dinheiro é natural e intrínseco ao serviço público” 

(Cid Gomes, governador do Ceará)

 

Marina Silva, candidata do PSB a presidente da República, jogara a toalha há dez dias. Foi quando comentou com um dos seus conselheiros: “Levadas em conta as circunstâncias que marcaram minha entrada na campanha, já fui longe demais”. Voltou ao assunto depois do debate entre os presidenciáveis promovido pela TV Globo na última quinta-feira. Admitiu desanimada: “Eu estar onde estou já é um milagre”.

É CLARO QUE não estava satisfeita com seu desempenho. Conformada? É quase certo que sim. Queria ganhar naturalmente. Mas repetia que a ganhar perdendo preferia perder ganhando. Um jogo de palavras. Não só um jogo. Cadê dinheiro para pagar as despesas sempre crescentes da campanha? Dinheiro até poderia existir. Estrutura montada para administrar a campanha com eficiência, jamais existiu.

CADÊ MATERIAL de propaganda? Até daria tempo para produzi-lo. Para fazê-lo chegar às mãos de eleitores em todo o país… Impossível. Foram queimados mais de 50 milhões de “santinhos” com Marina de candidata a vice-presidente. Ela evitava dizer que se sentia mal acolhida pela facção do PSB liderada por Roberto Amaral, o presidente em exercício do partido desde a morte de Eduardo Campos.

LEVARÁ MAIS algum tempo para que Marina reconheça os muitos erros que cometeu — se é que o fará. O primeiro e mais barulhento dos erros foi autorizar a divulgação do seu programa de governo sem ter lido com rigor a versão final. Acabou sendo obrigada a retificá-lo. E pagou por isso um preço elevado. Desgastou-se. Acusaram-na — e com razão — de dizer uma coisa hoje e de se desmentir amanhã.

O SEGUNDO ERRO grave foi não abdicar da posição de se manter distante de políticos que julgava indignos de sua companhia. Um deles: Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, que acabaria reeleito no primeiro turno. Marina liderou as pesquisas de intenção de voto em São Paulo. Depois foi desbancada por Dilma. Por fim, autorizou a impressão de suas fotos junto com as de Alckmin. Era tarde. E, no entanto…

NO ENTANTO, teria sido tão fácil para ela, uma vez Eduardo morto, recuar de certos dogmas que apregoara sem ônus como candidata a vice… A maioria dos eleitores compreenderia se ela dissesse: “Em respeito à memória de Eduardo, assumo como meus todos os compromissos assumidos por ele”. E ainda poderia se permitir, de fato, a respeitar alguns e a esquecer de outros porventura difíceis de engolir.

TUDO INDICA que Marina não repetirá o comportamento que adotou na eleição presidencial de 2010, quando foi a terceira candidata mais votada e negou seu apoio a qualquer um dos finalistas do segundo turno — Dilma e José Serra. Para ser coerente com o que disse sobre Dilma, apoiará Aécio se ele adotar parte do seu programa de governo. Aécio pagará qualquer preço pelo apoio de Marina. E com razão.

NA ÚLTIMA SEMANA de campanha, Aécio disparou na frente de Marina e quase atropelou Dilma na reta de chegada. Pôde fazer isso, sobretudo, graças aos votos de mineiros e de paulistas. Nenhum instituto de pesquisa foi capaz de antecipar o tamanho da ojeriza nacional ao PT. O partido, praticamente, acabou varrido do Sul do país onde perdeu as eleições para governador e senador.

A VALER O que ensina a história das eleições majoritárias de 1994 para cá, o candidato a se eleger no segundo turno será o mais votado no primeiro. Portanto, alô, alô, Dilma! Mande passar a faixa presidencial. Mas, pensando melhor, não mande.

 

Publicado aqui, no Blog do Murilo

 

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Ponto final — Qual o tamanho de Garotinho?

Ponto final

 

Anthony Garotinho (PR) é o político mais importante da história de Campos desde o ex-presidente Nilo Peçanha (1867/1924). Em nível paroquial, todos aqueles que lhe fizeram ou fazem oposição, só serão lembrados daqui a uns 100 anos, se o forem, porque um dia ficaram contra Garotinho, porque orbitaram de alguma maneira em torno da sua gravidade social e histórica mais densa. Tomado por assertiva o título desta coluna: ponto final.

Postas as coisas em suas devidas dimensões, qual será aquela que Garotinho hoje possui, após ser derrotado ainda no primeiro turno do pleito de ontem ao governo do Estado? E quando levado em consideração que o buraco é ainda mais embaixo, com a não reeleição de Geraldo Pudim (PR) como deputado estadual, seu fiel escudeiro, mas muito ruim de voto, enquanto seu filho Wladimir Garotinho (PR) conseguiu (aqui) dar ao jovem e promissor Bruno Dauaire (PR) uma cadeira na Assembleia Legislativa?

Como não há nada que não possa piorar, tampouco estava no script o fato de Clarissa Garotinho (PR), herdeira do talento político do pai, ter ficado mais de 100 mil votos atrás do polêmico Jair Bolsonaro (PP), na eleição fluminense para deputado federal. Ainda assim, os 335.061 votos da bela ajudaram a fazer mais cinco candidatos do PR à Câmara Federal, incluído Paulo Feijó, que provou ter uma relação com as urnas oposta à de Pudim e se cacifou dentro do grupo como opção viável a 2016.

Foi o próprio Feijó, na noite de ontem, saindo da famosa casa da Lapa herdada por Garotinho do pai, que disse (aqui) ser a tendência do grupo o apoio a Marcelo Crivella (PRB) no segundo turno com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Ao republicar em seu blog (aqui) uma matéria de O Dia (aqui) na véspera da eleição, dando conta de um pacto com Crivella de apoio mútuo no segundo turno, o próprio Garotinho passou a impressão de estar desde sábado à procura de uma saída para o fracasso eleitoral que sabia inevitável no domingo.

A impressão de que o tal pacto era muito mais necessidade de Garotinho, do que de Crivella, se revelou no ato de votação de ambos. Enquanto o primeiro entrou e saiu da sua seção no Ciep da Lapa, se negando a fazer o sinal da vitória diante dos fotógrafos (aqui), Crivella não fez nenhuma cerimônia para esnobar o concorrente direto por uma vaga no segundo turno contra Pezão. Ao votar no Clube Marimbás, em Copacabana, na Zona Sul carioca, o sobrinho de Edir Macedo foi impiedoso (aqui): “Garotinho é passado!”

De qualquer maneira, foi na reportagem de O Dia que Garotinho deu uma rara demonstração de fraqueza: “Eu não sei como vou começar a campanha se for para o segundo turno”. Como de fato não foi, mais do que seu apoio entre quem permanece na disputa a governador, a dimensão presente e futura de Garotinho será ditada por seus próximos passos na única coisa que lhe restou: a Prefeitura de Campos, com seus 2,5 bilhões de orçamento anual e problemas para resolver, governada de fato por ele, fazendo seu o direito da esposa.

Ontem, ao agradecer (aqui) por seus mais de 1,5 milhão de votos para governador, Garotinho publicou em seu blog ser “melhor perder uma eleição do que a vergonha”. Pudesse ser olhado hoje pelo jovem político que em 2002 também quase chegou a um segundo turno, mas de uma eleição presidencial na qual teve mais de 15 milhões de votos, com que tamanho aquele Garotinho veria esse de agora, 10 vezes menor? Entre uma eleição e a vergonha, até Nilo Peçanha teria cuidado para não perder mais nada.

 

Publicado hoje na Folha

 

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Garotinho: “É melhor perder uma eleição do que perder a vergonha”

“O povo é soberano e escolheu. Eu respeito a escolha do povo”. Com essas breves palavras, repetidas agora há pouco pela boca de um assessor em frente à sua residência na Lapa, Garotinho se manifestou sobre sua derrota ainda no primeiro turno da eleição ao governador do Rio. Segundo o deputado federal reeleito Paulo Feijó (PR), as coisas ainda não estão definidas quanto o apoio do grupo no segundo turno, mas a tendência, como adiantado aqui, em artigo publicado hoje na Folha, é de apoio a Marcelo Crivella (PRB) contra o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB). Na noite deste domingo de outubro, o clima da derrota ainda se fazia refletir diante da casa de Garotinho, onde se aglomeravam mais jornalistas do que militantes e eleitores.

 

Atualização às 21h49: Aqui, em seu blog, Garotinho foi mais prolixo e ressentido ao falar da derrota. Confira abaixo a transcrição…

“Em qualquer situação o povo é soberano. Mesmo quando contraria as nossas expectativas. Quero agradecer aos mais de 1,5 milhão de eleitores, que neste domingo me depositaram um voto de confiança e desejar que a escolha no 2º turno possa ser bem refletida por aqueles que amam o nosso estado. Embora a pesquisa de boca de urna que ouviu 5 mil pessoas, às 16h, me desse 10 pontos de vantagem, cheguei com 0,5 ponto atrás do senador Marcelo Crivella, que vai disputar o 2º turno contra o candidato que juntou em torno de si as máquinas estadual e da Prefeitura do Rio, mais de 80 prefeitos, e dezenas de grupos econômicos que defendem interesses escusos junto ao Estado, a começar pelas Organizações Globo. Parabéns aos vitoriosos e a nossa luta continua, afinal na vida é melhor perder uma eleição do que perder a vergonha” 

 

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Pesquisa de boca de urna no Rio (Grande do Sul) tem resultado diferente nas urnas

Se a pesquisa boca de urna do Ibope para governador do Rio (aqui), com 34% para Luiz Fernando Pezão (PMDB), 28% para Anthony Garotinho (PR) e 18%, para Marcelo Crivella (PRB), foi bastante comemorada na Lapa (aqui), convém esperar um pouco mais pela apuração oficial da eleição de hoje. Na disputa do governo de outro Estado do Rio, o Grande do Sul, a boca de urna Ibope (aqui) deu o governador Tarso Genro (PT), com 35%; José Sartori (PMDB), com 29%; e Ana Amélia (PP), com 26%. No entanto, com 83% da urnas gaúchas apuradas até este momento (confira aqui), quem lidera é Sartori, com 40,78%, seguido de Tarso, com 32,39%; e por Ana Amélia, com 21,63%.

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Se não for ao segundo turno, Marina vai apoiar Aécio

Marina e Aécio

 

Marina Silva (PSB) já decidiu: caso não dispute o segundo turno da eleição presidencial contra Dilma Rousseff (PT), apoiará Aécio Neves (PSDB).

O anúncio do apoio deverá ser feito nesta segunda-feira. No mais tardar na terça-feira.

Não será um “apoio automático”, segundo me garantiu um auxiliar de Marina. O apoio será dado com base no programa de governo de Aécio.

Por mais que tenha dito que Aécio e Dilma não apresentaram programas de governo, Marina admite que informalmente Aécio tem um, sim. E que o programa de Aécio é o mais parecido com o seu programa.

Marina e Aécio defenderam as chamadas “conquistas sociais” dos governos do PT. Assim como a política econômica do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, herdada e respeitada por Lula.

De resto, pareceria arrogância demais Marina preferir a neutralidade, como o fez em 2010 quando negou seu apoio a Dilma e a José Serra (PSDB).

A neutralidade removeria Marina do primeiro plano da política nacional.

Marina guarda mágoas de Aécio, que se aliou a Dilma para combatê-la. Ainda assim….

O apoio de Marina a Aécio tocará fogo dentro do PSB. Ali, a ala comandada por Roberto Amaral, o presidente em exercício do partido, pretende apoiar a reeleição de Dilma.

 

Publicado aqui, no blog do Noblat

 

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A maioria sabe que o bloco do governo se transformou num grupo de assalto

Metralhas

 

Jornalista Fernando Gabeira
Jornalista Fernando Gabeira

Um domingo em outubro

Por Fernando Gabeira

 

Hoje não é apenas um dia perdido no tempo. Quando menino, acompanhava as eleições a uma certa distância: Dutra, o Brigadeiro, até mesmo Lott e Jânio eram para mim matéria de jornal. Não os conhecia nem acompanhava suas peripécias de campanha. Já as eleições na abertura democrática, acompanhei todas, algumas de muito perto. Agora, distanciei-me de novo, mas, certamente, vou limpar e lubrificar minha bicicleta azul marinho, cruzar e Lagoa e cumprir meu dever.

Quando começou a campanha, ainda vivi um pouco de suas emoções. Todas as noites, quando ia comprar pão na padaria, um grupo numa mesa de botequim gritava: deputado, senador, estimulando minha entrada na corrida eleitoral. Uma vez, chegaram a gritar presidente. Mas foi num dia em que perdi a fornada das sete e saí um pouco mais tarde para buscar o pão. Naquela altura, já haviam bebido algumas doses a mais.

Com o tempo, toda a minha carreira foi se desmontando e acabei sendo apenas o vizinho que vem comprar o pão com uma sacola vinho e, às vezes, para, diante da padaria, para ver o futebol na televisão.

Quando disputava campanhas, acordava cedo no domingo e percorria a cidade num carro aberto. Era tudo muito animado, exceto quando entrávamos no túnel. Ali, abraçado com a bandeira, sem ninguém para acenar, sentia-me inútil e patético.

Recomendo a quem esteja em crise vocacional na política que desfile em carro aberto por um túnel. O trecho é pequeno, mas o ritmo das associações, alucinante.

Estar fora da campanha não me livra das preocupações com o Brasil, às vezes tão alheio à pedreira que nos espera nos próximos anos.

Na eleição de Collor, resolvi ir embora. Berlim. Tive a oportunidade de ver a Alemanha se unindo, a antiga Iugoslávia se dilacerando em guerras, o império soviético desabando no Báltico.

Agora, um quarto de século depois, não tem mais isso de ir embora. Acostumei a viver num país cuja lógica me escapa. Quando ouvi o discurso da Dilma na ONU pensei: não acredito que esteja propondo diálogo com o Estado Islâmico que corta cabeças, filma e divulga.

De uma certa forma isso passou em branco. A importância que dou ao tema não é a mesma de uma campanha presidencial no Brasil. Política externa não dá voto. Ponto.

É provável que Dilma não conheça o grupo terrorista. As campanhas são muito envolventes, quase não deixam tempo para o que se passa no mundo. Se Dilma encontrasse o líder dos cortadores de cabeça, Abu Bakr al-Baghdad, no metrô, talvez o convidasse para comer uma esfirra.

Só num quadro de humor é possível imaginar negociação com os terroristas. Se ela mesma quisesse tentar, talvez conseguisse a dispensa do véu, mas iria cruzar o deserto trazendo na bandeja a única mensagem que sabem enviar ao mundo: uma cabeça cortada. Como encarar o futuro do país nas mãos de uma ingênua Salomé, cercada por um aparato monolítico de burocratas que não levam a sério a imagem do Brasil, porque o importante é apenas vencer as eleições?

Com os escritores cubanos aprendi algo que expressei no prefácio do livro do Raúl Rivero, um poeta exilado na Espanha. Quase todos os grandes artistas cubanos mantiveram a vida amorosa a salvo da dominação burocrática. Nunca deixaram a chama erótica e paixão pelo seu povo serem enquadradas pelo regime.

Com os tchecos, percebi a força do humor, uma das maneiras de enfrentar a lógica cinzenta dos burocratas. Eles tinham uma generosa tradição literária. Do “Bravo soldado Schweik” ao “Processo” de Kafka, a Praga do início do século já refletira de forma cômica e trágica a relação do indivíduo com o Estado.

Valorizar a vida amorosa e o senso de humor é a melhor reação ao resultado das urnas. O resto são as tarefas cotidianas, o trabalho duro, a tentativa de continuar argumentado, sem superestimar o intercâmbio racional.

Uma vitória do PT, creio, não pode ser atribuída apenas à sua capacidade de mentir e atacar. Não se deve nunca acusar o adversário pela própria derrota. Se não for possível resistir aos ataques e mentiras do PT, isso significa que vão ficar, eternamente, no poder. Por que mudariam de tática?

Os marqueteiros e os amigos dos marqueteiros vão dar a impressão de que tudo nasceu de suas cabeças mágicas. Minha sensação, nesse dia decisivo, é que a maioria sabe o que se passa e vai escolher de acordo com o que sabe. A maioria sabe que o bloco do governo se transformou num grupo de assalto. Provavelmente, ela prefere não ser assaltada. Os votos da oposição somados devem ultrapassar os votos de Dilma.

Isso levaria a decisão para outro domingo. Mas o quadro permaneceria aberto, porque uma outra avaliação entra em cena. Quem pode alterar esse cenário de estagnação econômica, degradação política, tensão social? Perdi três bicicletas, roubadas nos últimos anos. Cada vez que inicio uma jornada, olho para a máquina como se fosse a última vez. Mas esse será um domingo cívico. Espero voltar ao tema, num outro domingo, com a mesma bicicleta.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

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Entre a violência da polícia e a estupidez dos black blocs, perdemos o rumo

UFC

 

Cineasta Cacá Dieguez
Cineasta Cacá Dieguez

O que ainda não sabemos

Por Cacá Dieguez

 

Bem que eu gostaria, mas não dá para falar de outra coisa: é hoje!

Meio desiludido, andei pensando em usar da prerrogativa que me oferece a idade e não votar este ano. Mas caí em mim a tempo. Ou fui derrubado pela celebração do evento democrático, a necessidade de me sentir responsável pelo que acontece no país. A democracia é antes de tudo o regime do outro, a responsabilidade que cada um tem pelo todo. Me rendi ao talvez inútil, mas não fútil, entusiasmo.

Já disse que não sou catastrofista, não acho que estejamos vivendo o pior dos tempos. Em geral, é tão difícil viver que confundimos nossa agonia com a agonia dos tempos, como se nossa dor fosse fruto do pior momento da história da humanidade, aquele que estamos vivendo. Confundimos a angústia de nossa finitude, com o próprio fim do mundo. E, no entanto, a humanidade segue avançando; como uma senhora bêbada pelas ruas, mas avançando.

Erramos muito. Ao longo do tempo, os homens transformaram em costume crimes morais e materiais, leves ou imperdoáveis, praticados à custa do outro em nome do poder e do dinheiro. E finalmente consideramos tudo isso normal. Às vezes, penso até que a história da humanidade é a maior prova de que Deus não existe ou não tem jurisdição sobre nós. Ou ainda, se Ele existe, está pouco se lixando para o que fez.

Das soberbas pirâmides do Egito clássico ao esplendor barroco de nossas igrejas coloniais, construímos nossas maravilhas às custas da escravidão de semelhantes de outra cor, religião ou etnia. Atiramos à fogueira aqueles que nos ameaçavam porque não os compreendíamos; como degolamos diante das câmeras aqueles de quem discordamos. Sempre resolvemos com guerras e, não poucas vezes, espantosos genocídios as diferenças entre nossas tribos e nações. E, uma vez vencedores, transformamos nossos horrores em feitos heroicos, monumentos à glória de nosso povo.

Apesar de tudo, vamos em frente. Atravessamos os oceanos e voamos acima das nuvens, curamos os males do corpo, inventamos máquinas que facilitam nossa vida, pensamos sobre o nosso destino e para que servimos, ouvimos sábios que parecem saber quem somos, a que estamos destinados. Produzimos ideias em que, no fim dos confrontos finais, o homem se tornaria senhor de si mesmo, um ser divino, livre de classes, acima da natureza, num paraíso que haveríamos de construir por aqui mesmo. Mas vai chegar a hora em que teremos de contemplar com franqueza as nossas fraquezas, colher de nossos defeitos a virtude possível, construir um novo mundo do qual seremos o centro não triunfal. Nos daremos o direito de chorarmos nos ombros uns dos outros, iguais tão dessemelhantes.

Pode ser que eu esteja pirando, mas, apesar de tudo, ainda acho que o Brasil pode ser, quem sabe, um espaço de redenção, território experimental para a humanização da humanidade. Sei que ainda somos racistas e bárbaros, que somos corruptos e corruptores, que humilhamos o mais fraco sempre que está a nosso alcance. Mas não são esses os nossos mitos fundadores — e, onde há mito, há sempre um projeto inconsciente. Ele talvez esteja em nossa permanente esperança de sermos o futuro.

Os milhões de cidadãos jovens que foram às ruas nas jornadas de junho de 2013 iluminaram o Brasil com essa esperança. Em pânico, os políticos convencionais correram a prometer mudanças em que não acreditavam. Mas, entre a violência da polícia e a estupidez dos black blocs, perdemos o rumo das coisas e os políticos respiraram aliviados, não se sentindo mais obrigados a realizar o que haviam prometido na hora do aperto.

Na campanha política cuja primeira parte se encerra hoje, evitou-se cuidadosamente esses assuntos delicados, os temas de junho. Os candidatos preferiram a difamação mútua, o rancor de baixo nível, as ofensas pessoais, o marketing da porrada, como se o eleitor tivesse que escolher um lado diante de um combate de UFC. Como em junho, eles descobrirão um dia que os maiores inimigos do conformismo que os imobiliza são o acaso e o que ainda não sabemos.

Mesmo sem euforia, já sei como vou votar hoje, já andei espalhando por aí os nomes de meus favoritos. Mas a vitória de meus candidatos não é o mais importante. O que importa é que ainda quero ver por aqui as manhãs que cantam, a luz do sol sobre o horizonte, a primavera chegando sem avisar.

 

Publicado aqui, na globo.com

 

 

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Artigo do domingo — Novidades antes da sua decisão

 

 

 

Na véspera da eleição de hoje, duas grandes surpresas. A primeira veio das pesquisas divulgadas ontem, com a ultrapassagem (aqui) de Aécio Neves (PSDB) sobre Marina Silva (PSB) na disputa presidencial liderada por Dilma Rousseff (PT). A segunda, como anunciado em matéria postada no site do jornal O Dia às 23h33 de sexta (aqui), é um “pacto” firmado entre Anthony Garotinho (PR) e Marcelo Crivella (PRB) de apoio mútuo no segundo turno contra o favorito das pesquisas Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Embora Dilma aparentemente não tenha sido afetada por sua habitual péssima atuação em debates, repetida naquele promovido pela Globo na noite de quinta, o fato de Marina também não ter ido bem, diferente de Aécio, apesar do seu condenável dedo em riste contra Luciana Genro (Psol), parece ter causado uma migração de última hora dos eleitores da candidata do PSB ao tucano.

Dilma manteve os 40% anteriores, reflexo quase exato dos 39% de eleitores brasileiros que consideraram seu governo ótimo ou bom nas pesquisas Ibope e Datafolha divulgadas na quinta. Por sua vez, comparando estas consultas com as feitas após o debate e divulgadas ontem, Aécio cresceu cinco pontos no Ibope (de 19% para 24%) e três no Datafolha (21% a 24%). Marina por sua vez, saiu dos 24% que tinha nos dois institutos para baixar aos 21% (Ibope) e aos 22% (Datafolha).

Contabilizados apenas os votos válidos, já excetuados os em branco, nulos ou indecisos, Dilma teria pelo Ibope 46%, contra 27% de Aécio e 24%, de Marina. Pelo Datafolha, a mesma escala seria de 44%, 26% e 24%. Apesar do empate técnico entre Aécio e Marina, considerada a margem de erro de dois pontos para mais ou menos, o fato do sobrinho de Tancredo Neves ter passado à frente da discípula de Chico Mendes nas duas pesquisas, demonstra maior proximidade do segundo turno.

Todavia, sobrinho e discípula perderiam para a gerente de Lula no turno seguinte. Contra Aécio, Dilma ganharia por 45% a 37% ,pelo Ibope, e pela diferença mais apertada de 48% a 42%, segundo o Datafolha. Já contra Marina, a presidente venceria também por 45% a 37% no Ibope, e por 49% a 39%, no Datafolha, maior diferença nas quatro projeções.

Apesar dos novos números depois do debate da Globo, foi nele que Dilma e João Santana, ex-marqueteiro do ex-ditador venezuelano Hugo Chávez, deixaram claro a preferência por Aécio como adversário. Sempre que possível, a presidente buscou o embate contra o tucano, tanto quanto evitou enquanto pôde a acareação com Marina. Ironicamente, o resultado prático da tática marqueteira petista foi ajudar um adversário que as pesquisas mostraram mais perigoso no segundo turno.

Exatamente por ser um adversário mais difícil para Pezão no turno seguinte, do que um Garotinho campeão de rejeição (40% pelo Ibope e 48%, na Datafolha), é que o tal “pacto” do político da Lapa com Crivella trouxe mais surpresa à corrida ao governo fluminense, do que suas novas pesquisas de ontem (aqui e aqui). Contando apenas os votos válidos, Pezão tem 37% pelo Ibope, contra 27% de Garotinho e 20%, de Crivella. Já pelo Datafolha, também descartados brancos, nulos e indecisos, o governador ficou com 36% dos votos, contra 25% do deputado e 22% do senador.

Ou seja, no primeiro turno, na margem de erro de dois pontos para mais ou menos, Crivella empata tecnicamente com Garotinho apenas nas projeções do instituto paulista. Mas é no segundo turno que as coisas podem apertar. Enquanto Garotinho tomaria duas coças eleitorais de Pezão, de 29% a 47%  pelo Ibope, e 32% a 48%, no Datafolha; Crivella diminuiria a diferença na projeção de derrota no primeiro instituto (36% a 46%), alcançando um empate técnico com o governador pelo Datafolha: 41% a 44%.

Em seu blog, o próprio Garotinho reproduziu (aqui) a matéria de O Dia, assumindo publicamente seu endosso ao “pacto” com Crivella. E a reportagem cita petistas favoráveis ao acordo, como Chico Dângelo, candidato a deputado federal, além do presidente estadual do partido, o prefeito de Maricá, Washington Quaquá. Isso sem contar a desavexada dobrada de Lindberg Farias com Crivella nos últimos debates entre os candidatos a governador.

Por outro lado, as ameaças petistas podem ser apenas uma tentativa de pressionar o grupo de Pezão para apoiar integralmente à candidatura de Dilma no segundo turno presidencial, já que o “Aezão” liderado pelo pit bull peemedebista Jorge Picciani, candidato a deputado estadual, está longe de estar descartado como plano B do PMDB fluminense.

Apesar de ter usado ofensas de cunho bíblico para chamar Crivella durante a campanha de “mentiroso, ingrato, fariseu e encantador de serpentes”, sendo respondido pelo senador, quando este repetiu em Macaé e Campos que havia candidato a governador “com a ficha mais suja do que Fernandinho Beira-Mar”, como a Folha registrou em sua manchete de capa de 31 de agosto, Garotinho agora disse possuir “mais afinidades do que divergências” com o candidato do PRB.

Na mesma matéria de O Dia republicada em seu blog, Garotinho admitiu estar “com dificuldades de arrecadação e dívidas na casa dos milhões e reconhece que chegou ao seu limite físico, e o cenário é difícil na reta final.‘Eu não sei como eu vou começar a campanha se eu for para o segundo turno’, resumiu”.

Fossem leitores mais atentos da Folha, os jornalistas Caio Barbosa, Juliana Dal Piva e Nonato Viegas poderiam ter apurado a mesma informação para O Dia, mas bem antes da véspera da eleição. Pois foi aqui, neste mesmo espaço, que no dia 21 de setembro, sobre a condução da campanha de Garotinho a governador, foi anunciado ao final e no título do artigo: “Acabou o milho, acabou a pipoca”.

Bem, mas isso tudo foi antes. Porque hoje, leitor, é só sua a decisão.

 

Publicado hoje na Folha

 

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