Curso de cinema em Campos volta a ser cobrado na Uenf

 

Uenf tem curso de cinema cobrado pelo doutorando em sociologia e cineasta Fernando Souza, o sociólogo Roberto Dutra e o antropólogo e cineasta Gabriel Barbosa (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Por Fernando Souza, Roberto Dutra e Gabriel Barbosa

 

Na noite do dia 19 de junho, aconteceu uma exibição seguida de debate com o documentário “Rio, Negro” (2023) de Fernando Sousa e Gabriel Barbosa, na Casa de Cultura Villa Maria, oportunidade em que celebramos o dia do cinema brasileiro e retomamos com o público presente a proposta de criação do curso de cinema na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, a Uenf. Além desse importante marco, a exibição contou com uma plateia de quase 40 pessoas. Foi uma noite para guardar na memória que contou ainda com as presenças generosas do jornalista Aluysio Abreu Barbosa e do estudante de cinema da UFF Gabriel Belchior, na mediação da conversa.

Campos, é bom lembrar, é uma cidade de Cinema. Em seus tempos áureos, contou com quase 70 salas de cinema e a planície goitacá já serviu de locação para filmagem de importantes novelas e obras cinematográficas, tais como: “Escrava Isaura” (1976), de Walcyr Carrasco; “Na boca do mundo” (1978), de Antonio Pitanga; e “Ganga Zumba” (1963) e “Xica da Silva” (1976), ambos de Cacá Diegues. Sem falar das produções locais, como “Sobre o domínio da fé” (1995) de Maria Helena Gomes; “Forró em Cambahyba” (2013) de Vitor Menezes e mais recente “Faroeste Cabrunco” (2022) de Vitor Van Ralse. Não menos importante, temos pelo menos dois filhos ilustres de expressão nacional atuando no cinema e na televisão: o ator Tonico Pereira e a atriz e cantora Zezé Motta. Esta, muito em breve, será primeira personalidade a ser condecorada com a titulação de doutora honoris causa pela Uenf.

A celebração do dia do cinema brasileiro em Campos aconteceu às vésperas do lançamento do estudo lançado pela Fundação Getúlio Vargas sobre a aplicação da Lei Paulo Gustavo no Estado do Rio de Janeiro, que revelou o impacto de R$ 852,2 milhões como resultado desta política pública na economia estadual. Esse investimento federal se reverteu em R$ 132 milhões em arrecadação de impostos, gerando quase 12 mil empregos diretos. Em 2023, somente a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec – RJ) foi responsável pela execução de R$ 139 milhões em recursos destinados pela União através da Lei Paulo Gustavo. Trata-se do maior volume de recursos da história investidos no setor cultural fluminense.

Apesar do setor do audiovisual abarcar o maior volume de recursos, também foram abertos editais de fomento nos segmentos de teatro, conexões urbanas, dança, circo, música, artes visuais, manifestações tradicionais, bandas e fanfarras, artesanato, arte-educação, HQ e diversidades em diálogo. Os resultados da Lei Paulo Gustavo no estado revelam o potencial do setor criativo e da cultura, mas não dão conta da complexidade que envolve a execução dos mesmos recursos da lei direcionados para todos municípios do estado, especialmente do interior. Para se ter uma ideia, a soma dos valores recebidos pelas 9 cidades do Norte Fluminense chega a R$ 8 milhões. Destes, Campos dos Goytacazes ficou R$ 3,8 milhões.

É importante frisar igualmente que os resultados da Lei Paulo Gustavo foram anunciados em um contexto em que se avizinham as eleições municipais. E, com elas, as discussões em torno das pautas mais cotidianas da população. O abastecimento de água, o transporte público, o saneamento básico, a educação de nossos filhos e a segurança pública (apesar desta não ser diretamente responsabilidade municipal) continuam a pautar as discussões dos postulantes às prefeituras. Apesar da urgência de tais temas, a Cultura permanece alijada do debate eleitoral. Não obstante, nos últimos anos, diversos instrumentos de políticas públicas culturais foram implementados, gerando impactos diretos na geração de emprego e renda.

Além da implementação da Lei Paulo Gustavo, pelo menos até 2027 teremos a Lei Aldir Blanc 2, política consolidada como uma grande conquista municipalista para o futuro do investimento público no setor criativo e da cultura. Nos próximos anos, de forma descentralizada e regular, devem ser repassados pela União aos municípios brasileiros 1,5 bilhão por ano, a princípio, até 2027. Ambas as leis são fruto da mobilização de trabalhadores da cultura, que se organizaram durante o período da pandemia com o objetivo de garantir uma renda mínima para os profissionais que atuam neste campo, em suas diferentes expressões artísticas. Os municípios precisam organizar seus arranjos administrativos para atrair e receber esses recursos, fomentar políticas públicas e criar um ambiente de negócios juridicamente seguro para o desenvolvimento da indústria criativa e da cultura.

Há muito trabalho a ser feito, muitas oportunidades podem ser aproveitadas para dinamizar o crescimento da economia criativa e da cultura no interior do estado, especialmente no Norte e Noroeste Fluminense. Segundo dados do Observatório Brasileiro do Cinema e do Audiovisual , vinculado à Agência Nacional de Cinema (Ancine), há 2.145 produtoras independentes regulares atuando no Estado do Rio de Janeiro, com apenas 224 produtoras cadastradas em todos os 91 municípios do interior do estado. Campos possui 6 produtoras cadastradas.

À baila desse debate, é importante frisar a necessidade de formação de mão de obra em nível técnico, de graduação e pós-graduação, seja para atuar no ensino, na pesquisa, no mercado de trabalho ou nas gestões públicas municipais do interior do estado, que ainda carecem de quadros qualificados nesta área em suas secretarias. Há necessidade de investimentos na revitalização de patrimônios como o Cine São José e criação de equipamentos culturais, possibilitando a dinamização das economias dos bairros, revelando novos talentos e democratizando o acesso à cultura ao grande público. Há um grande potencial regional para a mobilização de recursos públicos e privados no investimento em infraestrutura na área, a criação de um ambiente produtivo e de negócios no interior do estado.

Entre os desafios e oportunidades, a Uenf também pode e deve ser bem-vinda a ocupar um lugar estratégico na gestão de equipamentos culturais e na oferta de novos cursos no campo criativo e da cultura. Nessa esteira de debate é que retomamos a proposta de criação do curso de cinema na Uenf, em nível técnico, de graduação e, futuramente, pós-graduação, garantindo a formação e qualificação necessária para futuros profissionais atuarem na criação de um polo regional de produção de cultural, na realização e produção cinematográfica. E também para atuarem no mercado de trabalho e na gestão de políticas públicas do setor criativo e de cultura no Norte, Noroeste e no raio de ação mais próximo da Uenf, que abrange número considerável de cidades do Espírito Santo e Minas Gerais.

Em termos práticos, a boa notícia é que a proposta de criação do curso de cinema está sendo acolhida e tratada como prioridade estratégica para a expansão da universidade e o desenvolvimento da região, no âmbito da comissão que compõe o Plano de Desenvolvimento Institucional do Centro de Ciências do Homem da Uenf. Nossa cidade e nossa região assistem às contradições do petrorrentismo se tornarem agudas e insuperáveis em seus próprios termos. Nem as atividades e tampouco as elevadas rendas do petróleo deram origem a dinâmicas internas, sustentáveis e inclusivas de desenvolvimento econômico com qualificação do trabalho, aumento de produtividade e elevação educacional e cultural em larga escala.

Para superar a contradição entre o desenvolvimento petrorrentista insulado nas franjas do litoral e o subdesenvolvimento reinante no interior de Campos e de seu entorno, precisamos de processos internos de transformação e inovação educacional e produtiva. Que sejam acoplados à emergência de uma economia criativa com alta agregação de valor e uso de trabalho qualificado em grande escala.

O curso de cinema é capaz de dar propulsão, a partir da Uenf e em perfeita sintonia com sua missão histórica, a uma dinâmica como essa. Embora sozinha nenhuma universidade possa criar nem sustentar nenhum processo social, sua tarefa de desafiar a ditadura da falta de alternativas pode permitir uma nova articulação entre cultura e economia, em torno de uma política de desenvolvimento que aproveite a grandeza e a criatividade de nosso povo.

A tradição de Campos com o cinema não é um traço do passado a ser apenas recuperado e preservado. É também, e acima de tudo, uma fonte de imaginação, planejamento e construção do futuro.

 

Publicado hoje da Folha da Manhã.

 

Para onde irão os votos de Carla Machado a prefeita de Campos?

 

Atrás dos votos de Carla Machado: Wladimir Garotinho, Jefferson Azevedo, Thiago Rangel e Madeleine Dykeman (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Para onde vão os votos de Carla?

Desde 6 de novembro de 2023 (relembre aqui), a Folha alertou várias vezes: reeleita prefeita de São João da Barra em 2020, a deputada estadual Carla Machado (PT) não poderia concorrer a prefeita de Campos em 2024. Era o que dizia toda a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 16 de junho, o TSE confirmou por unanimidade (confira aqui) essa jurisprudência. E, em 26 de junho, Carla retirou (confira aqui) sua pré-candidatura. Dessa certeza anunciada, ficou a dúvida: como Carla teve (confira aqui) 18,7% de intenção de voto na consulta estimulada da única pesquisa a prefeito de Campos registrada em 2024, para onde irão esses eleitores?

 

Para Wladimir? (I)

Feita em 26 de abril, ouvindo 1.002 eleitores campistas, a pesquisa Prefab Future foi registrada no TSE sob o número RJ-04536/2024. Além de Carla, o único prefeitável de Campos a alcançar dois dígitos de intenção de voto foi o próprio prefeito Wladimir Garotinho (PP). Candidato natural à reeleição, ele apareceu liderando a corrida com razoável vantagem. Com 53,7% de intenção de voto na consulta estimulada, manteve válida a possibilidade de liquidar a fatura em turno único. Tendência que já vinha projetada (confira aqui) por todas as pesquisas de 2023. E que se reforçaria se Wladimir herdasse, agora, eleitores de Carla. O prefeito parece acreditar nisso.

 

Para Wladimir? (II)   

“Na verdade, todo mundo sabia que Carla não poderia ser candidata. Insistiram, não sei por que, até a última hora, ainda prejudicando a possível candidatura do professor Jefferson. Para mim, até de maneira proposital. Não queriam deixar que o professor Jefferson fosse candidato, mas é uma questão interna do PT. Agora é ver para onde o voto dela vai migrar. Pelas pesquisas internas que temos, mais de 50% migram para minha pré-candidatura. Mas estou focado no trabalho, na Prefeitura”, disse Wladimir (confira aqui) durante a Feijoada da Folha, em 29 de junho.

 

Para Jefferson?

Wladimir foi respondido pelo professor Jefferson de Azevedo, ex-reitor do IFF, pré-candidato a prefeito de PT e, em tese, herdeiro dos votos de Carla: “curiosa a postura de tentar atrair parte do eleitorado da deputada estadual Carla Machado depois dos ataques agressivos que promoveram contra a sua pré-candidatura a prefeita. Preferem agir assim do que conquistar o voto no debate público da cidade. Um governo muito mal avaliado no transporte público e na saúde. Não tenho dúvidas de que esses eleitores estarão com a nossa pré-candidatura. É necessário aguardar novas pesquisas para uma avaliação mais precisa da situação”.

 

Sem registro no TSE, não vale

Com 0,6% de intenção de voto na pesquisa Prefab do fim de abril, Jefferson está absolutamente certo neste mês de julho, a menos de três da urna. Só novas pesquisas registradas poderão dizer para onde foram os 18,7% de intenção de voto de Carla. Se Wladimir estiver certo ao dizer, a partir de pesquisas internas, ter recebido mais de 50% desses eleitores campistas da ex-prefeita sanjoanense, ele estaria falando de cerca de 10 pontos a mais do que os 53,7% com que apareceu em abril. Mas, em ano eleitoral, pesquisas precisam de registro no TSE para serem divulgadas. E isso não se aplica às pesquisas internas que o prefeito tem.

 

William Passos, geógrafo com especialização doutoral em estatística no IBGE

Votos de Carla

Geógrafo com especialização doutoral em estatística pelo IBGE, William Passos analisou essa questão da migração dos votos de Carla: “é preciso aguardar as próximas pesquisas registradas. Mas sabe-se, com base nas pesquisas e eleições passadas, que os perfis do eleitor de Carla Machado e dos candidatos com origem no polo universitário de Campos, como é o caso do professor Jefferson Azevedo, são diferentes. A ex-prefeita de SJB e deputada estadual tem um eleitor de base mais popular, com maior participação de pessoas com até dois salários mínimos. É um eleitor mais próximo do observado na base do ‘garotismo’ e do ‘barcelismo‘”.

 

Votos do PT

O geógrafo e estatístico seguiu em sua análise sobre o eleitor do PT em Campos: “historicamente, no caso campista, o eleitorado mais orgânico dos candidatos petistas tem como ponto de partida o voto com maior renda e escolarização. Como maior participação de pessoas com formação superior e renda familiar mensal maior que dois salários mínimos. Portanto, o que se pode afirmar, até que as próximas pesquisas registradas sejam divulgadas, é que a migração da intenção de voto de Carla Machado ao professor Jefferson Azevedo não será automática”, advertiu William.

 

Thiago, Madeleine e 2024/2026

Outros prefeitáveis podem receber votos de Carla. Seu colega na Alerj, Thiago Rangel (PMB) também tem seu nicho no eleitor mais pobre. Embora de direita, oposta ao PT, o fato de a Delegada Madeleine (União) também ser vista como uma mulher forte pode atrair carlistas. Embora não admitam, Wladimir e Jefferson podem disputar 2024 com olhos em 2026. Para isso, o prefeito se cacifaria caso se reelegesse no 1º turno. Enquanto o ex-reitor do IFF teria que superar os 6,56% dos votos válidos da esquerda no 1º turno a prefeito de Campos em 2020, na soma das também professoras Natália Soares (Psol) e Odisséia Carvalho (PT).

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Dudu Azevedo fecha a semana do Folha no Ar nesta sexta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Empresário e pré-candidato a vereador, Dudu Azevedo (REP) é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (12), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará da sua relação de amizade com o prefeito Wladimir Garotinho (PP) e do apoio deste, que vem gerando reações dentro do grupo político governista.

Dudu também falará da costura da aliança governista com o ex-deputado federal Caio Vianna (MDB), da relação com a oposição e do evento com prefeitáveis da Acic (confira aqui, aqui e aqui). Por fim, ele analisará a nominata e, com base nas pesquisas (confira aqui, aqui, e aqui), tentará projetar as eleições a prefeito e vereador de 6 de outubro, daqui a 87 dias.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

Felipe Fernandes — Trilogia de terror em filme desnecessário

 

 

Felipe Fernandes, cineasta publicitário e crítico de cinema

Silêncio e morte em Nova York

Por Felipe Fernandes

 

Lançado em 2018, “Um lugar silencioso” conquistou o público com uma atmosfera pesada, trabalhada no silêncio, um aspecto pouco usual quando pensamos em cinema, principalmente de terror. Contando a história da família Abbott durante o apocalipse silencioso, o filme acerta em narrar uma história contida, um filme de situação, que não expande a história dos acontecimentos, focado totalmente na sobrevivência da família.

Lançado em meio a pandemia, a segunda parte trouxe um longo flashback em que narra o primeiro encontro dos personagens com as criaturas. E, posteriormente, seguiu a história da família Abbott. Praticamente do mesmo ponto do encerramento da primeira parte. Para mostrar a família tendo que seguir por um caminho desconhecido, onde eles descobrem que as criaturas não são o único perigo pelo caminho.

Com o sucesso dos longas anteriores, a franquia se expande para um terceiro longa, que funciona como um prelúdio, que promete mostrar o dia 1 da invasão, tendo como foco a cidade de Nova York.

A ideia de mostrar o dia 1 em Nova York, uma das cidades mais barulhentas do mundo, cria uma curiosidade devido ao contraste natural da situação. Se nos longas anteriores acompanhamos os personagens em locais ermos, a proposta aqui é mostrar o início do ataque das criaturas em meio à metrópole.

O filme acompanha Samira (Lupita Nyong’o), uma jovem com câncer em estado terminal, que vive com constantes dores em uma espécie de hospital/asilo. Ela aceita ir à cidade em uma excursão, com a promessa de que após o passeio haverá pizza. E é durante essa excursão que ela vai se ver presa junto a seu gato nessa situação.

Para um filme que se propõe a mostrar o dia 1, o filme passa bem longe de acrescentar qualquer informação ou conceito novo no contexto geral da franquia. Tirando a mudança de cenário, é mais do mesmo. A cena da chegada das criaturas remete diretamente ao 11 de setembro, uma cicatriz que a cidade não vai perder e que está enraizada no imaginário popular.

O filme trabalha a relação da protagonista em sua jornada ligada a símbolos da cidade, fugindo do aspecto mais visual. Esqueça cenas com os pontos mais famosos, nesse sentido, o filme poderia ter sido filmado no centro do Rio de Janeiro.

Assim como nos anteriores, o filme aposta em uma jornada pessoal de sobrevivência. Uma escolha acertada, principalmente em nos fazer ter interesse pelos personagens. Porém, essa abordagem reforça a falta de originalidade do longa, que não apresenta nada de relevante.

As criaturas não ganham qualquer nova adição. Ao contrário dos longas anteriores, acompanhamos várias delas, o que é natural, já que o filme acontece durante a invasão. Porém, entra naquele problema das continuações, se não tem mais o fator surpresa, vamos apostar na quantidade.

Os principais destaques ficam pela atuação intensa da grande Lupita Nyong’o, que mais uma vez se estabelece como uma das melhores atrizes no gênero. O outro destaque é o seu companheiro, o gato Frodo, um personagem bem atípico para esse tipo de produção. Mas que, narrativamente, é importante para a protagonista.

“Um lugar silencioso: Dia 1” se prova um filme desnecessário, já que não acrescenta nada à franquia, nem se prova uma grande experiência cinematográfica. É um filme correto, bem produzido, mas totalmente esquecível, em uma franquia que perde força a cada novo filme.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Assista ao trailer do filme:

 

Líder, Wladimir se ausenta do encontro de prefeitáveis na Acic

 

Prefeito Wladimir Garotinho e os presidentes do PP em Campos e da Acic, respectivamente, Mauro Silva e Fernando Loureiro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

Encontro de prefeitáveis sem Wladimir

Na manhã de ontem (9), no programa Folha no Ar, o presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), o empresário Fernando Loureiro, explicou como serão os dois encontros entre os nove prefeitáveis da cidade, hoje e amanhã, na sede da entidade. Que promove o evento com mais 22 instituições. Poucas horas depois, à tarde, o jornalista e ex-vereador Mauro Silva, como presidente municipal do PP, partido do prefeito Wladimir Garotinho, informou que este não estará presente. Foram alegados “compromissos previamente agendados” para tentar justificar a ausência do prefeito.

 

Da versão ao fato

Na verdade, o único “compromisso previamente agendado” de Wladimir é a sua folgada liderança em todas as pesquisas eleitorais de 2023 (confira aqui) e na, até aqui, única registrada (confira aqui) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2024. Pragmaticamente, ele tem suas razões. Como seria alvo natural de todos os possíveis concorrentes, teria mais a perder do que a ganhar. Se apanhará ainda mais na ausência, evitará a gravação em vídeo com sua imagem em alfinetadas dos adversários para as redes sociais. Sem ir, dá menos holofote ao evento. Que, no entanto, deveria ser prestigiado como iniciativa democrática da sociedade civil organizada.

 

Formato do encontro

No Folha no Ar, ainda sem saber da ausência do prefeito, o presidente da Acic explicou que o encontro será dividido em duas rodadas, com quatro e cinco nomes (agora, quatro e quatro) por vez. Uma hoje e outra amanhã, no mesmo horário e endereço: às 19h, na sede da Acic, no 16º andar do edifício Ninho das Águias, na praça do Santíssimo Salvador. Os dois encontros não terão transmissão ao vivo ou entrada franca. Serão abertos só a representantes das 23 entidades, assessores dos prefeitáveis e profissionais cadastrados da imprensa. Apesar de todos esses cuidados, o prefeito preferiu evitar.

 

Apelo pelo voto

“Formamos um grupo de entidades que resolveu discutir a cidade. E fazer com que a sociedade civil possa saber quem são os pré-candidatos a prefeito de Campos. Dirigimos aos partidos que propõem lançar candidatos o convite ao evento, para que saibamos quem são e a que vieram. É muito importante saber quem pode ser o gestor do município. Na eleição de 2020, no 2º turno, tivemos 139 mil pessoas que votaram nulo e branco, ou não foram votar. Escolha o menos pior, mas não deixe de votar”. Foi o apelo que Fernando Loureiro fez no Folha no Ar da manhã de ontem. Wladimir, por sua vez, poderia alegar já ser bastante conhecido.

 

Sem transmissão ao vivo

“Para não ficar cansativo, dividimos em duas etapas. Será como uma entrevista, não existirá debate, não será possível pré-candidato questionar pré-candidato. E vamos pedir o bom senso para que não sejam ditas coisas ofensivas por um aos demais. Após a abertura, onde falaremos na condição de presidente da Acic e em nome das entidades, a palavra será passada aos pré-candidatos, para que cada um se apresente. Não haverá transmissão ao vivo, pelo nosso entendimento da Lei Eleitoral”, disse na manhã o presidente da Acic. Ainda assim, à tarde, o prefeito preferiu não ir.

 

Critério religioso? (I)    

Das 23 instituições que promovem, hoje e amanhã, o evento com os prefeitáveis de Campos, 22 são de classe. Só a Associação Evangélica de Campos (AEC) tem critério religioso. O que revela o peso que os evangélicos desempenham hoje na política de Campos e do Brasil. Como os perigos da Teologia da Dominação que algumas de suas correntes neopentecostais abertamente professam. Com a qual pretendem substituir os valores humanistas e laicos da democracia por uma teocracia com base na lei mosaica do Velho Testamento — retrocesso histórico de 3 mil anos. Com pitadas liberais na economia da Escola Austríaca do séc. 20.

 

Critério religioso? (II)

Indagado no Folha no Ar sobre esse critério meramente religioso em meio a entidades de classe, e se uma instituição que representasse religiões afrodescendentes em Campos também poderia participar do encontro com os prefeitáveis na Acic, seu presidente disse: “como (a AEC) é uma associação, ela entrou no grupo (das entidades). Como se fosse de outros segmentos (religiosos), também estaria dentro do evento. Não tem discriminação de forma alguma. Na associação deles, o critério pode ser religioso, mas aqui (no grupo das instituições) não existe esse vínculo”.

 

Revitalização do Centro e do Mercado

O presidente da Acic confirmou que a revitalização do Centro da cidade, em franca decadência e com aparência de abandono desde a pandemia da Covid-19, é uma das principais pautas do setor produtivo. E que, dentro dela, a recuperação do prédio centenário do Mercado Municipal deveria ser uma prioridade, independentemente de quem for eleito (ou reeleito) nas urnas de 6 outubro. Às quais repudiou práticas como as registradas na Campos de 2022. Quando uma panificadora da cidade obrigou seus funcionários a trabalharem com camisa amarela de número 22 — símbolo e número do bolsonarismo.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Líder, Wladimir não vai a encontro com prefeitáveis da Acic

 

Líer nas pesquisas, Wladimir não vai a encontro com prefeitáveis promovido pela Acic (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Pré-candidato à reeleição em 6 de outubro, daqui a 89 dias, o prefeito Wladimir Garotinho (PP) não vai participar do encontro promovido (confira aqui) pela Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic) e outras 22 entidades, nestas quarta (10) e quinta (11), com os nove prefeitáveis da cidade. Presidente goitacá do PP, o jornalista e ex-vereador Mauro Silva encaminhou ao blog a mensagem endereçada ao presidente da Acic, o empresário Fernando Loureiro:

— Em nome do Partido Progressistas e do candidato a prefeito, Wladimir Garotinho, expressamos nossas sinceras desculpas pela não participação na entrevista organizada pela Associação Comercial e Industrial de Campos. Compromissos previamente agendados nos impedem de estar presentes neste importante evento. Estamos confiantes de que novas oportunidades surgirão para que possamos participar e contribuir com as discussões que são vitais para o desenvolvimento do nosso município. Agradecemos pela compreensão e reiteramos nosso respeito e apreço pela Acic.

Na verdade, Wladimir não participará do debate porque lidera com folga a única pesquisa a prefeito de Campos registrada em 2024 (confira aqui) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Pragmaticamente, não está incorreto. Como seria alvo natural de todos os possíveis concorrentes, teria mais a perder do que a ganhar. Ainda assim, certamente apanhará na ausência. Mas jogará menos holofotes no evento. Que deveria ser prestigiado como iniciativa democrática da sociedade civil organizada.

 

Encontro com prefeitáveis de Campos no Folha no Ar desta 3ª

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Empresário e presidente da Associação Comercial e Industrial de Campos (Acic), Fernando Loureiro é o convidado do Folha no Ar desta terça (9), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará sobre o evento Entidades de Classe x Pré-Candidatos a Prefeito de Campos, que será realizado com nove prefeitáveis em duas rodadas, nestas quarta (10) e quinta (11), em parceria da Acic com 21 outras instituições da cidade.

Fernando também falará da revitalização do Centro da cidade e de outras pautas do setor produtivo goitacá junto ao poder público municipal. Por fim, ele analisará o posicionamento político do empresariado local entre as eleições nacional e estadual de 2022 e a municipal de 6 de outubro de 2024, daqui a exatos 90 dias.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.

 

SJB e Campos lideram qualidade de vida no Norte Fluminense?

 

IPS 2024 que colocou São João da Barra e Campos como líderes em qualidade de vida entre os municípios do Norte Fluminense sob análise do geógrafo e estatístico William Passos, o economista Alcimar das Chagas Ribeiro e o cientista político George Gomes Coutinho (Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

 

SJB e Campos lideram qualidade de vida no NF

Na quarta-feira (3), o geógrafo e estatístico William Passos divulgou levantamento (confira aqui) em que São João da Barra e Campos têm a melhor qualidade de vida entre os nove municípios do Norte Fluminense. Com base do Índice de Progresso Social (IPS) 2024, uma metodologia internacional que calcula o bem-estar da população a partir de dados oficiais, o estudo foi publicado com a chancela do Núcleo de Pesquisas Econômicas ao Estado do Rio de Janeiro (Nuperj) da Uenf, que tem como diretor-técnico o economista Alcimar das Chagas Ribeiro. Que, ontem (5), fez ressalvas à condição de liderança de SJB, município onde habita.

 

Dimensões do levantamento

“As críticas sobre indicadores como PIB, emprego, renda, educação e saúde na construção de indicadores de desenvolvimento socioeconômico são antigas. O IPS, até o momento, não teve a publicação detalhada de sua metodologia, apenas resumo executivo. O índice é composto por três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos do Bem-Estar e Oportunidades. Que vão determinar a condição de ‘Bem-Estar’ em padrões relativamente forte, neutro e fraco. Neles, o município de SJB consegue ser destaque com avaliação 63,75/100, se colocando em 1º lugar no NF”, explicou Alcimar.

 

Contradições (I)

“Na dimensão Necessidades Humanas Básicas, o índice atingiu 67,94 com classificação de relativamente neutro. No grupo água e saneamento, o índice de perda de água distribuída é considerado como relativamente forte. Mas é importante observar que o município tem um sistema de água tratada que não atende a 40% da população. Na dimensão Fundamentos do Bem-Estar, com classificação em relativamente neutro, no grupo de acesso ao conhecimento básico sobressaem indicadores fracos como: abandono no ensino fundamental, distorção idade-série no ensino médio e avaliação do Ideb”, analisou o diretor-técnico do Nuperj.

 

Contradições (II)

“Há contradição no indicador Acesso à Educação, relativamente forte na dimensão Oportunidades, sob influência dos empregados com ensino superior. No exemplo de São João da Barra, podemos identificar contradições importantes elencadas, que confirmam a alta complexidade no desenvolvimento de processos analíticos dessa natureza”, disse Alcimar. Na quinta (4), em entrevista ao Folha no Ar, William revelou que o IPS foi uma metodologia desenvolvida na Universidade de Harvard e no MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), duas das maiores referências de conhecimento e pesquisa nos EUA e no mundo.

 

“É do jogo”

Desde que o IPS foi aplicado por William na quarta, dando a SJB e Campos a liderança em qualidade de vida no NF, questionamentos foram feitos. Sobretudo em ano eleitoral, a pouco mais de 90 dias da urna de 6 de outubro. Porque o levantamento favoreceria, em tese, a prefeita sanjoanense Carla Caputi (União) e o campista Wladimir Garotinho (PP), ambos já favoritos nas pesquisas eleitorais de 2024 à reeleição. Cientista político e professor da UFF-Campos, George Gomes Coutinho constatou: “William me enviou parte dos dados e não nenhum buraco metodológico. Se favorece aos incumbentes (em Campos e SJB), é do jogo”.

 

Publicado hoje na Folha da Manhã.

 

Feijoada da Folha — Um outro olhar: elites sob análise

 

(Foto: Vilson Correia)

 

“A Feijoada da Folha é um dos eventos sociais mais relevantes e tradicionais do calendário da cidade. Organizado pelo Grupo Folha, grupo privado de comunicação igualmente tradicional dotado de proeminência regional, o evento produz um fenômeno raro: agrupa um rol plural de pessoas que podemos designar de elites”, definiu o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos. Que foi adiante:

— Sem rodeios, compreendo as elites simplesmente como uma parcela quantitativamente minoritária da sociedade que tem acesso acima da média a recursos e/ou talentos. Portanto, elites são minorias. Na esfera dos talentos podemos sem muito esforço identificar nas artes, esportes, ciências e em outras tantas atividades indivíduos que se destacam, nos assombram com sua capacidade e, em menor número ainda, quase se tornam sinônimo da atividade em si. Da Vinci, Muhammad Ali, Vinicius de Moraes, a lista é diversa e extensa. As dinâmicas interativas dos círculos de elite são plásticas. Permitem tanto jogos cooperativos, contra um inimigo comum, quanto também permitem alta competição e antagonismo. Elites detém recursos em maior monta que a maioria da sociedade, mas estes não são infinitos — advertiu o cientista político.

— A ideia da Feijoada é o convívio. Classe política, empresarial, intelectual, representantes das instituições da cidade, profissionais liberais. Gente do Brasil oficial. A definição é do nosso maior escritor, Machado de Assis: há dois “brasis”, o oficial e o real. O primeiro é o das relações de poder e das elites, essas de vários matizes. O segundo, a realidade dos seus instintos, verdadeira, criativa e dona de uma alegria sofredora — contrastou o jornalista Edmundo Siqueira. E seguiu:

— A “Campos real” não estava na Feijoada, salvo algumas exceções que confirmam a imagem tida da festa. Faço parte do Brasil oficial, não negarei, me vejo refletido nesses espelhos, mesmo algumas imagens ficando invertidas. Mas ainda refletidas, excessivamente refletidas — projetou Edmundo.

— Não uso o termo elites num sentido negativo, nem positivo, apenas como categoria descritiva. Em geral, o conceito de elites vem acompanhado de uma forte carga moral que identifica no elitismo a responsabilidade e a explicação pelos problemas sociais. Seríamos desiguais e excludentes, por que as elites, intencionalmente, assim conduzem os processos sociais, econômicos, políticos e culturais. As elites seriam do mal e o povão do bem. O grande problema é que essa visão confunde elite com classe social — ponderou o sociólogo Roberto Dutra, professor da Uenf. Ele foi além:

— Elites são os empresários na economia, os políticos na política, os cientistas na ciência, os diretores e atores no cinema, os jornalistas na comunicação de massas. Trata-se, portanto, de posições de liderança que programam decisões e controlam o emprego de recursos específicos como capital, poder, conhecimento científico, opinião pública em determinadas organizações. Num contexto de grande desigualdade como o nosso, é de se esperar que as diferentes posições de elite sejam controladas pelas classes que monopolizam recursos e oportunidades. Mas basta um olhar rápido para constatar que a vida social é mais complexa — complementou o sociólogo.

— Sem a pretensão de cunhar um conceito único para o evento 31ª Feijoada Folha 2024, imagino que poderia se caracterizar como um encontro político/social de importantes lideranças no âmbito da gestão pública; da governança institucional não governamental; do setor privado e da academia, circunscritos no território Norte e Noroeste Fluminense — enumerou o economista Alcimar das Chagas Ribeiro, professor da Uenf. Ele seguiu:

— O capital político e econômico envolvido na Feijoada, em contraste com realidade do território, pode se caracterizar como instrumento norteador de ações articuladas ao desenvolvimento econômico. É evidente a complexidade para se chegar à eficácia da ação política. Entretanto, as sociedades que melhor conseguem articular o seu funcionamento são aquelas em que é possível criar consensos à ação política. O que realça a necessidade de maior compromisso das lideranças com questões estruturais que nos empurrem a uma condição mais exitosa em termos econômicos e consequente melhoria de vida dos cidadãos — ampliou o economista.

— A sociedade é dividida em grupos, onde encontramos interesses e projetos distintos. Nas ocasiões privadas de celebração em Campos, nem sempre a seleção dos convidados abre espaço para perfis muito diferentes ou divergentes se encontrarem e interagirem. Já a Feijoada, dentre as ocasiões de celebração dotadas de natureza privada, tem um caráter um tanto subversivo por justamente não respeitar limites sociais rigidamente estabelecidos entre os grupos. Uma leitura atenta da listagem de convidados evidencia na classe política tanto direita quanto esquerda. No âmbito do empresariado, desde o perfil rentista, curto-prazista, até o obstinado empresário que tem com seu negócio a relação de um monge asceta com seu mosteiro — comparou George.

— Calo-me com mais uma tulipa de chope, vindo de barris cheios, dispostos em Kombis estilosas estacionadas a poucos passos de nós. Enquanto o sol se punha, tingindo de dourado o cenário, o clima de festa ia dando lugar a uma melancolia suave, potencializada pelo rio Paraíba, esse sendo um espelho líquido, que acolhia com reverência os últimos raios solares. Campos precisa se olhar no espelho. Principalmente a Campos oficial. A Feijoada da Folha, tradicional e sempre impecável, é o melhor momento do ano para isso — finalizou Edmundo.

 

Contracapa do do caderno especial “Feijoada da Folha — Um outro olhar”, publicado hoje na Folha da Manhã (edição: Aluysio Abreu Barbosa/diagramação: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Feijoada da Folha — Um outro olhar: Campos, SJB, SFI e Quissamã

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Na dinâmica do jogo político, uma só ocasião pode ter vários recortes, e cada recorte abre margem a interpretações diversas. Como nenhum analista é onipresente e nem toda roda de conversa conta com ‘passarinhos verdes’, certamente há muito mais a ser contado sobre o que rolou nos bastidores da Feijoada e os caminhos que levam às urnas de outubro. Até lá, e também depois, fiquemos com o bom exemplo da Folha, que se faz democrática do bom jornalismo à promoção do amplo convívio social”, definiu o jornalista Matheus Berriel a Feijoada da Folha do último sábado.

— Da região, Campos é a cidade com maior número de pré-candidatos a prefeito. No cargo e líder na única pesquisa registrada, Wladimir Garotinho talvez seja, entre os que compareceram, o mais otimista. Seu grupo aposta na vitória já no 1º turno. Ele não esconde que vê a possibilidade de crescer nas próximas sondagens, com a saída de Carla Machado. Wladimir circula bem na classe empresarial, mesmo sem ser unanimidade. Entre seus aliados, estava no evento o que talvez tenha sido o principal responsável por quebrar, em parte, a resistência ao garotismo na “pedra”: seu atual vice e pré-candidato à reeleição Frederico Paes — registrou o jornalista Arnaldo Neto. Que abriu o leque:

— Quem também circulou bem, apesar de estreante na política, era Madeleine Dykeman. Nome conhecido na “pedra”, por sua atuação como delegada, encontrou com pessoas do seu convívio profissional, como delegados, advogados e juízes. A pré-candidata apoiada pelo presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, diz estar convicta de que haverá 2º turno em Campos. O professor Jefferson de Azevedo, ex-reitor IFF, é outro nome já conhecido. Ele afirmou que a hora é de botar o bloco na rua. No primeiro evento como único pré-candidato petista, estava com outros nomes importantes da sigla. O PT, segundo dirigentes, dará o tempo necessário a Carla para avaliar o papel dela na futura campanha municipal— complementou Arnaldo.

— Caminhar por entre as alamedas da Feijoada é circular entre tribos distintas que, vez por outra, acabam se encontrando. Ou se evitando. É o momento de falar, pedir, conversar, encontrar, articular. Tudo isso num ambiente de festa e, por isso, mais descontraído. A política rodeava as mesas, integrando num mesmo espaço, direita, esquerda, oposição, situação, aliados e ex-aliados. Como a eleição não deve trazer muitas surpresas no resultado ao Executivo, o foco da maioria ficou por conta do Legislativo — ressaltou a jornalista Suzy Monteiro. Ela seguiu:

— Wladimir que, com a agenda lotada na pré-campanha, ficou bem menos tempo que nos anos anteriores. Seu até então chefe de Gabinete Thiago Ferrugem, já de malas prontas para deixar o cargo e coordenar com Mauro Silva a campanha, projetava eleger 18 vereadores da base. Perto de Wladimir, o ex-prefeito e ex-desafeto dos Garotinho, Arnaldo Vianna, que irá apoiar Dr. Maninho, enquanto o filho Caio, que não foi, está firme na pré-campanha de Dudu Azevedo — enumerou Susy, antes de circular a bola da ponta canhota à destra:

— Mais à esquerda, a mesa congregava o professor Jefferson, pré-candidato a prefeito de Campos, Luciano D’Angelo, Odisseia Carvalho, Gilberto Gomes, entre outros petistas. Odisseia acredita que não só o PT irá conquistar uma cadeira no Legislativo, como conseguirá, junto a outras candidaturas de oposição, levar a eleição ao 2º turno. A delegada Madeleine Dykeman também seguiu o manual: circulou, conversou, tirou fotos e dançou, mostrando leveza na pré-candidatura. Aliás, como tem feito também nas ruas — comparou a jornalista.

Além de Wladimir, Madeleine e Jefferson, outros prefeitáveis de Campos bateram ponto na Feijoada da Folha:

— A princípio com pré-candidaturas a prefeito de menor expressão, Jorge Magal e Fabrício Lírio foram outros presentes. A lista de políticos também contou com o vice-prefeito e candidato à reeleição na chapa de Wladimir, Frederico Paes; o secretário estadual de Habitação, Bruno Dauaire; e os ex-prefeitos de Campos Sérgio Mendes, Arnaldo Vianna e Alexandre Mocaiber. Confirmando o caráter regional do evento, marcaram presença a prefeita de Quissamã, Fátima Pacheco, bem como pré-candidatos de Quissamã, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana — elencou Matheus Berriel.

 

(Foto: Vilson Correia)

 

De fato, a política de Campos não foi o único jogo jogado na Feijoada da Folha:

— De São João da Barra, a principal conversa política era sobre a nova composição da Câmara. Com cinco cadeiras a mais que a atual, a expectativa é que os vereadores de mandato larguem na frente, mas naturalmente haverá espaço para novos e até mesmo o retorno de alguns. Da disputa ao Executivo, a ampla vantagem da prefeita Carla Caputi nas pesquisas, deixa a cobertura da outrora acirrada disputa eleitoral sanjoanense, no mínimo, sem graça. De repouso, nos últimos dias de gestação, ela foi representada na Feijoada por vereadores da base e representantes do governo — narrou Arnaldo, antes de passar à oposição:

— Danilo Barreto, que abriu mão de uma promissora eleição a vereador para tentar a prefeito, marcou presença. Segue otimista com a construção atual e, certamente, projetos futuros. No evento, confirmou a professora Maria Adriana Abreu, estreante nas urnas, como futura vice na chapa. Apesar de dialogar bem com atores políticos da região, em alguns momentos ele parecia isolado. Reflexo do que acontece em SJB: diante do peso da máquina e do perfil agregador da prefeita, o grupo de Danilo carece de nomes já reconhecidos e com votos consolidados. Talvez seja uma estratégia, de tudo ser novo. Mas quem acompanha política de perto sabe que não funciona assim — advertiu o jornalista sanjoanense.

De São João da Barra, Suzy virou o jogo a Quissamã:

— Em uma mesa era possível ver a sempre pragmática Fátima Pacheco, prefeita de Quissamã, junto com seu vice e pré-candidato a sucedê-la, Marcelo Batista, além da pré-candidata a vice, Tania Magalhães. Trabalhando para fazer nove das 11 cadeiras na Câmara, a situação terá quatro nominatas de vereadores: PP, PSD, PDT e PT: “Nossa expectativa é muito boa”, disse Batista. E falou da responsabilidade de ser o nome a suceder uma figura tão marcante na política regional: “Ainda bem que já fiz um estágio com ela e se Deus quiser tudo vai dar certo” — registrou a jornalista, antes de inverter o jogo à oposição quissamaense:

— Enquanto essa conversa rolava na mesa de Fátima e Marcelo, não muito distante, o ex-prefeito de Quissamã Armando Carneiro cumprimentava seu ex-secretário de Comunicação, atual no mesmo cargo em São João da Barra, Rodrigo Florêncio. Armando revelou à Folha que acredita na união da oposição para reconquistar o Executivo — completou Suzy.

De Quissamã, perto da Região dos Lagos, Arnaldo subiu o litoral político do Norte Fluminense até São Francisco de Itabapoana, na fronteira costeira com o Espírito Santo:

—  Da outra margem do Paraíba, a vereadora Yara Cinthia, pré-candidata a prefeita dos governistas em São Francisco, aproveitou o sábado para demonstrar bom trânsito com atores políticos da região. Não é uma figura desconhecida, já tem três mandatos na Câmara e foi secretária municipal de Educação. Na Feijoada, como no que se percebe, ao observar de longe o cenário político do antigo sertão, ela circulou com a vantagem de já estar definida como pré-candidata, enquanto a oposição ainda não tem uma convicção, por questões políticas e jurídicas — comparou Arnaldo.

— Como já disse, comecei a frequentar a Feijoada na 10ª edição, entre a sempre presente política e a “Curva do Rio”, meu antigo espaço de crônicas no jornal Folha da Manhã. Este ano, da mesa 10 às margens do Paraíba, entre jornalistas e intelectuais, foi possível constatar que algumas coisas mudam, outras alteram o roteiro, mas o sabor e o tempero continuam os mesmos — concluiu Suzy.

 

Página 3 do caderno especial “Feijoada da Folha — Um outro olhar”, publicado hoje na Folha da Manhã (edição: Aluysio Abreu Barbosa/diagramação: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Feijoada da Folha — Um outro olhar: ingredientes políticos

 

Capa do caderno especial “Feijoada da Folha — Um outro olhar”, publicado hoje na Folha da Manhã (edição: Aluysio Abreu Barbosa/diagramação: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

“Quantas histórias cabem em uma única história? Sem dúvida, muitas e incontáveis, especialmente quando se trata da histórica e tão repleta de fatos e fotos Feijoada da Folha, que chegou a sua 31ª edição”. Foi como abriu sua análise a jornalista Suzy Monteiro, convidada para uma mesa composta de mais três jornalistas (Edmundo Siqueira, Arnaldo Neto e Matheus Berriel), um economista (Alcimar das Chagas Ribeiro) e um sociólogo (Roberto Dutra), professores da Uenf; e um cientista político (George Gomes Coutinho), professor da UFF-Campos. No evento associado às elites regionais, uma elite intelectual e formadora de opinião.

A proposta é que cada um deles desse a sua visão da tradicional Feijoada, realizada no último sábado (29), no Rancho Gabriela, às margens do rio Paraíba do Sul e da estrada Campos/São Fidélis. Os quatro jornalistas, com suas visões sempre generalistas. E os três acadêmicos, como especialistas, analisando como fenômeno político, econômico e social. Para dividir essas histórias e visões em critério jornalístico, a proximidade das urnas municipais de 6 de outubro, daqui a apenas 93 dias, fez com que a política fosse o primeiro ponto de avaliação comum por essas diferentes visões:

— Na observação sobre o comportamento da classe política no evento em ano eleitoral, inegável e sensata discrição. Flanando entre mesas, os membros da classe política local pareciam reconhecer que o espaço era uma vitrine e o sorriso, um cartão de visitas fartamente distribuído. Caso não fosse possível ampliar alianças, que estas ao menos não fossem rompidas, e os caminhos de diálogo, especialmente com o empresariado local, deveriam ser cuidadosamente preservados e/ou construídos. Eu não faria diferente — admitiu o cientista político George Gomes Coutinho.

— Se cada político presente na tradicional Feijoada da Folha pudesse colocar uma “colherzinha” de sentimento em forma de tempero no prato principal, o sabor predominante seria o de otimismo. Dos mais bem colocados nas pesquisas até aos que, sob a ótica de analistas desapaixonados, dificilmente terão fôlego para a corrida, todos demostraram confiança no resultado das urnas. Como de praxe na festa realizada há 31 edições, a rivalidade fica da porta para fora. E se não há clima para acenos, assessores se esforçam para que os adversários não fiquem frente a frente — observou o jornalista Arnaldo Neto. Que seguiu:

— Atores políticos de Campos, Quissamã, São João da Barra e São Francisco de Itabapoana circulavam pelo espaço junto a empresários e nomes influentes de diversos segmentos. Para muitos, o momento era prioritariamente de descontração, mas político fala de política até quando se diverte. Via de regra: se está bem na pesquisa, a tônica é de ampliar a vantagem; senão, acredita que o jogo começa agora — contrastou Arnaldo.

— A feijoada é um ensopado com carne de porco, acompanhada de arroz, farofa, laranja e couve. A da Folha não era diferente. Embora alguns falem que ela teve origem na África, o Brasil se apropriou de seus significados. O prato, com base no feijão preto, assume contornos diferentes a depender da região, mas é sempre misturado. E assim como o Brasil, não é uma mistura ingênua, tampouco pacífica. Há muito de política em uma feijoada. Não é à toa que Chico já a cantou em verso, relacionando à anistia e ao trabalho da mulher. Uma feijoada pode ser tudo, menos irrelevante. Ela sempre tem algo a dizer — ressaltou Edmundo Siqueira, servidor federal e único jornalista da mesa a hoje integrar o Grupo Folha. Ele seguiu:

— Nessa Feijoada tipicamente campista até as folhas de louro e alhos amassados já sabiam que a classe política ia se fazer presente. E, assim como prega a feijoada, se misturaram. Oposição e situação estavam como convidados da Folha, não como adversários. Cada um fez a sua presença em separado, mas todos sabiam que ali era para misturar. Talvez a Feijoada da Folha seja o melhor momento de Campos para dar uma boa olhada nesses espelhos. Os políticos se veem refletidos em suas oposições, que passam comendo um canapé e entreolhando-se de rabo de olho — constatou Edmundo.

— Por que movimentos da natureza da Feijoada Folha não extrapolam o estágio político/social para uma interferência mais estratégica no ambiente socioeconômico do território? Fica a imagem da falta de sensibilidade das lideranças sobre a importância do coletivo e da evidência sobre esforços cada vez mais acentuados no âmbito da competição individual. É garantido que os resultados de longo prazo desse quadro nos levem a uma condição de perde/perde. É preciso entender a total inter-relação entre as unidades sociais e, sobretudo, que a fragilidade de uma tende a afetar direta e indiretamente a outra — pregou o economista Alcimar das Chagas Ribeiro.

— O esforço de governança observado no evento pode ser extrapolado para a solução de problemas estruturais no âmbito do território. Politicamente, é importante para estreitar os ciclos de aprofundamento da pobreza com oportunidade de trabalho e renda que criam dinamismo econômico e animam investimentos privados com geração de novas ondas de empego — projetou Alcimar.

 

Mesa 10 da 31ª Feijoada da Folha. Em pé: o sociólogo Roberto Dutra, os jornalistas Arnaldo Neto, Matheus Berriel, Suzy Monteiro, Edmundo Siqueira e Paula Vigneron, e o geógrafo e estatístico William Passos. Agachados: o jornalista Aluysio Abreu Barbosa e o cientista político George Gomes Coutinho (Foto: Vilson Correia)

 

— Em ano eleitoral, as atenções estiveram voltadas à movimentação dos pré-candidatos a prefeito, especialmente de Campos, cujo cenário teve movimentos importantes nas últimas semanas. A começar pelo professor Jefferson de Azevedo, ex-reitor do IFF, que fez da Feijoada uma passarela para oficialmente “botar o bloco na rua”. Já sem as limitações impostas pela antes possível candidatura da deputada estadual Carla Machado, Jefferson usou bem o primeiro evento público ao qual compareceu após ser oficializado como único pré-candidato do PT à Prefeitura goitacá. Sua presença em várias rodas de conversa sinalizou para o que deve acontecer nos próximos meses: uma investida maciça por apoio, buscando criar uma frente progressista que possa o conduzir ao 2º turno — registrou o jornalista Matheus Berriel. Ele continuou:

— Mais tímidas do que a de Jefferson, foram as aparições do prefeito Wladimir Garotinho, pré-candidato à reeleição pelo PP, e da delegada Madeleine Dykeman, representante oficial do maior grupo de oposição ao atual governo. Wladimir, por exemplo, cumpriu protocolo ao prestigiar um evento do maior grupo de comunicação da cidade. Quando ele chegou, “o bloco de Jefferson” já estava circulando havia mais de duas horas. Não que o gestor municipal tenha aberto mão de fazer sua pré-campanha. Acontece que, liderando as pesquisas com considerável vantagem sobre os concorrentes, ele pode ter mais a perder do que a ganhar em aparições públicas não oficiais. Daí a rápida passagem pela Feijoada, suficiente para demonstrar prestígio ao ser ciceroneado enquanto caminhava para integrar a foto oficial do evento — completou Matheus.

— Por mais privilegiada que seja a posição de classe de um político, ele não pode ignorar as demandas das classes populares se quiser sucesso na disputa eleitoral. A Feijoada da Folha foi, de certo modo, uma oportunidade para furar as bolhas, assim como vários outros eventos e reuniões informais também podem ser. A cidade tem muito a ganhar com esta combinação de competência com abertura a outras perspectivas, por exemplo, com políticos e cientistas que saibam compreender a importância da atividade alheia. No entanto, para serem mais competentes e mais abertas, nossas elites precisam ser mais populares, recrutadas em amplos setores sociais e não apenas em poucas famílias — cobrou o sociólogo Roberto Dutra.

— Devo ter começado a frequentar a Feijoada, trabalhando ou não, lá pela 10ª edição. E sempre impressiona o fato de o evento ser, desde sempre, disputado por quem quer ou precisa ser visto, lembrado ou reconhecido. Durante todo esse tempo, não foram raros os momentos em que adversários políticos se encontraram e se cumprimentaram, reconhecendo a Feijoada como espaço neutro. Já vi alguns até abraçados como melhores amigos, após ficarem anos trocando acusações — testemunhou Suzy.

 

Página 2 do caderno especial “Feijoada da Folha — Um outro olhar”, publicado hoje na Folha da Manhã (edição: Aluysio Abreu Barbosa/diagramação: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Oposição a prefeito de SJB no Folha no Ar desta sexta

 

(Arte: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

 

Administrador público e pré-candidato a prefeito de São João da Barra, Danilo Barreto (Novo) é o convidado para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (5), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Prefeita de SJB e pré-candidata à reeleição, Carla Caputi (União) também tinha sido convidada, com entrevista agendada para a última sexta (28), mas teve que cancelar por conta da sua gravidez.

Danilo falará dos motivos que o fizeram optar por uma promissora pré-candidatura a vereador pela única de oposição a prefeito de SJB. Também dirá como pretende desconstruir o favoritismo de Caputi nas pesquisas (confira aqui) às urnas de 6 de outubro, 94 dias depois de amanhã. Por fim, ele falará da montagem de nominata do seu grupo e tentará projetar a nova composição da Câmara Municipal.

Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, nos domínios da Folha FM 98,3 no Facebook e no YouTube.