Dilma, a mãe dos cleptocratas

Jornalista Elio Gaspari
Jornalista Elio Gaspari

Por Elio Gaspari

Com a prodigalidade de uma imperatriz, a doutora Dilma anunciou em Adis Abeba que perdoou as dívidas de doze países africanos com o Brasil. Coisa de US$ 900 milhões. O Congo-Brazzaville ficará livre de um espeto de US$ 352 milhões.

Quem lê a palavra “perdão” associada a um país africano pode pensar num gesto altruísta, em proveito de crianças como Denis, que nasceu na pobre província de Oyo, num país assolado por conflitos durante os quais quatro presidentes foram depostos e um assassinado, cuja taxa de matrículas de crianças declinou de 79% em 1991 para 44% em 2005. No Congo Brazzaville 70% da população vivem com menos de US$ 1 por dia.

Lenda. Denis Sassou Nguesso nasceu na pobre província de Oyo, mas se deu bem na vida. Foi militar, socialista e estatizante. Esteve no poder de 1979 a 1992, voltou em 1997 e lá permanece, como um autocrata bilionário privatista. Tem 16 imóveis em Paris, filhos riquíssimos e seu país está entre os mais corruptos do mundo.

O socialista convertido em privatista do próprio bolso Denis Sassou Nguesso, presidente do Congo-Brazzaville
O socialista estatizante convertido em privatista do próprio bolso Denis Sassou Nguesso, presidente do Congo-Brazzaville

Em tese, o perdão da doutora destina-se a alavancar interesses empresariais brasileiros. Todas as dívidas caloteadas envolveram créditos de bancos oficiais concedidos exatamente com esse argumento. As relações promíscuas do Planalto com a banca pública, exportadores e empreiteiras têm uma história de fracassos.

O namoro com Saddam Hussein custou as pernas à Mendes Junior e o campo de Majnoon à Petrobras. Em 2010 o soba da Guiné Equatorial, visitado por Lula durante seu mandarinato, negociava a compra de um tríplex de dois mil metros quadrados na Avenida Vieira Souto. Coisa de US$ 10 milhões.

Do tamanho de Alagoas, essa Guiné tem a maior renda per capita da África e um dos piores índices de desenvolvimento do mundo.

O repórter José Casado chamou a atenção para uma coincidência: em 2007, quando a doutora Dilma era chefe da Casa Civil, o governo anunciou o perdão de uma dívida de US$ 932 milhões.

Se o anúncio de Adis Abeba foi verdadeiro, em seis anos a Viúva morreu em US$ 1,8 bilhão. Se foi marquetagem, bobo é quem acredita nele.

O Brasil tornou-se um grande fornecedor de bens e serviços para países africanos e a Petrobras tem bons negócios na região.

As empreiteiras nacionais têm obras em Angola e na Líbia. Lá, tiveram uma dor de cabeça quando uma revolta derrubou e matou Muamar Kadafi, um “amigo, irmão e líder”, segundo Lula. Acolitado por empresários, seu filho expôs em São Paulo uma dezena de quadros medonhos.

Em Luanda os negócios vão bem, obrigado, e a filha do presidente José Eduardo Santos é hoje a mulher mais rica da África, com um cofrinho de US$ 2 bilhões. Ela tem 39 anos e ele está no poder há 33.

Se o Brasil não fizer negócios com os sobas, os chineses farão, assim como os americanos e europeus os fizeram.

A caixinha de Kadafi para universidades inglesas e americanas, assim como para a campanha do presidente francês Nicolas Sarkozy, está aí para provar isso. Contudo, aos poucos a comunidade internacional (noves fora a China) procura estabelecer um padrão de moralidade nos negócios com regimes ditatoriais corruptos.

A doutora diz que “o engajamento com a África tem um sentido estratégico”. Antes tivesse. O que há é oportunismo, do mesmo tipo que ligava o Brasil ao colonialismo português ou aos delírios de Saddam Hussein e do “irmão” líbio.

Publicado hoje em O Globo.

Expoente: Negado na Câmara e Prefeitura, pedido de informação agora está no TJ

As relações entre a Prefeitura de Campos e a empresa Expoente (conheça-a aqui), relativas à compra e venda de material didático para o ensino fundamental do município, pior de todo o Estado do Rio segundo o  Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), agora estão na Justiça. Após ter seus pedidos de informação sobre as compras sem licitação do governo Rosinha (PR) à Expoente, em 2011 e 2012, no valor conjunto de mais de R$ 18 milhões, negados pelo “rolo compressor” governista da Câmara (relembre aqui), nas sessões de 19 e 26 de março, negativa que depois seria confirmada também pelo próprio Executivo, em 15 de maio, num controverso parecer da Procuradoria do Município (relembre aqui), o vereador Marcão PT cumpriu o prometido: com base na lei federal 12.527, de acesso à informação pública (conheça-a aqui), ele ingressou no último dia 22 com um mandado de segurança, com pedido de liminar, junto ao Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ).

Como o diretor geral do Observatório de Controle do Setor Público, o advogado José Paes, além dos vereadores Fred Machado (PSD), Rafael Diniz (PPS) e Nildo Cardoso (PMDB) tiveram outros pedidos de informação igualmente negados,  a decisão do TJ-RJ primeiro do pedido de liminar e, depois, do mérito do mandado de segurança de Marcão, pode definir como serão a partir dela as relações entre o governo Rosinha e todos aqueles que, investidos ou não de mandato popular, queiram ter o acesso garantido em lei às informações públicas do município. É esperar para ver…

Enquanto isso, seguem abaixo o registro do TRE-RJ do recebimento do pedido de Marcão e a íntegra do mesmo:

Registro do TR-RJ ao pedido de Marcão (reprodução de Luiz Carlos)
Registro do TR-RJ ao pedido de Marcão (reprodução de Luiz Carlos)
Pedido de Marcão - 1ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - 1ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - 2ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - 2ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - 3ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - 3ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - 4ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - 4ª parte (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - parte final (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Pedido de Marcão - parte final (reprodução de Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)

“Café” custará mais de R$ 31 milhões/ano aos cofres públicos de Campos

Aqui e aqui, os blogueiros Ralfe Reis e Gustavo Matheus noticiaram que a Prefeitura de Campos publicou hoje em Diário Oficial a sua reforma administrativa e o aumento salarial em média de 50% para os cargos de DAS (enquanto os servidores concursados tiveram reajuste de apenas 10%), no projeto de lei do Executivo aprovado pelo “rolo compressor” governista, com os votos contrários da oposição, na tensa sessão do último dia 7. Como este “Opiniões” registrou aqui, no dia 14, a reforma e o reajuste nos vencimentos dos cargos comissionados tiveram por objetivo atender às demandas fisiológicas dos vereadores da base, sobretudo de uma bancada “independente” que ameaçava se formar, mas cuja ação política nunca deixou de depender do “toma lá, dá cá” com o governo Rosinha (PR).

O fato é que, com essa aprovação da reforma e do aumento dos DAS, mesmo antes do Supremo Tribunal Federal (STF) decidir a questão dos royalties, decidiu-se que os cofres públicos de Campos serão sangrados em R$ 29.005.774,46 ao ano, para atender interesses pouco ou nada republicanos; tampouco municipais.

Pois hoje, na sessão que se iniciou agora há pouco na Câmara, outro projeto de lei vindo da Prefeitura será votado em caráter de urgência. E, posto em votação, será também aprovado pelo “rolo compressor” de Rosinha. Complemento retroativo da reforma administrativa já aprovada em 7 de maio, pelo novo projeto, para atender aos mesmos interesses fisiológicos da base governista, serão propostos e aprovados a criação de mais cargos de DAS nas secretarias de Fazenda, de Assistência Social e do Idoso, além das Fundações Municipal da Infância e Juventude e Cultural Jornalista Oswaldo Lima. O preço? Mais R$ 2.028.177, 76 ao ano.

Assim, na soma da aprovação dos dois projetos de lei, o governo Rosinha passará a gastar em cada ano do seu segundo mandato exatos R$ 31.033.952,22 a mais do que em sua primeira gestão, na criação de novos cargos comissionados e no aumento salarial destes.

Mais de R$ 31 milhões/ano dos cofres públicos de Campos…

Quando o deputado federal Anthony Matheus, o Garotinho (PR), disse na insuspeita rádio Diário, na manhã do último sábado, dia 25, que “se a pessoa toma café comigo e diz que é meu amigo, não pode dar entrevista para a Folha, ou então não vai mais tomar café comigo”, ele sabia mesmo do que estava falando. Esqueceu-se, porém,  de dizer o preço desse “café”, com direito a leite grátis e ainda morno das tetas públicas do município, assim como quem pagará pela média.

Atualização às 18h50: Como o blog previu, sem demanda de bola de cristal ou jogo de búzios, o “rolo compressor” governista, a despeito dos quatro votos contrários da oposição, acabou de aprovar o novo projeto de lei de Rosinha para criação de mais cargos comissionados na Prefeitura.

Anthony investe em jornais e sites para forjar repercussão ao seu blog?

Anthony Garotinho e sua paixão pela comunicação

Por Gustavo Matheus, em 27-05-2013 – 15h20

E não é que esse tal de Garotinho gosta mesmo de um jornal, rapaz. Como já era de se esperar, o deputado, pensando na eleição de 2014, abriu uma filial do “Diário” no Rio. Trata-se do “Povo”, que fora recentemente incluído em seu vasto cartel de meios de comunicação. Garotinho aproveitou o mau momento financeiro do moribundo jornal e o adquiriu.

A brincadeirinha que começou em 1988, com o “Jornal do Povo”, de Campos, tomou novas proporções. Além do “Povo” e do “Diário”, Garotinho também administra o site de notícias “Brasil 247”. Se prestarem atenção no blog do ex-governador, irão notar que estes são os únicos a serem reproduzidos por ele, sempre em bom tom.

Bolsa Família revela fundo falso nas mentiras do PT e do governo Dilma

Uma mentira engole a outra, que engole a outra

Por Ricardo Noblat, em 27-05-13, 8h00

O que foi que na semana passada a ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos, atribuiu à central de notícias da oposição? O que Dilma, por sua vez, chamou de “desumano e criminoso”? Lula, de ação praticada por “gente do mal”? José Eduardo Cardozo, ministro da Justiça, de “manobra orquestrada”? E Ruy Falcão, presidente nacional do PT, de “terrorismo eleitoral”?

Ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos e de “singela” opinião
Ministra Maria do Rosário, dos Direitos Humanos e de “singelas” opiniões

No sábado 18 e no dia seguinte em 13 estados, um milhão de clientes do programa Bolsa Família invadiu agências lotéricas para sacar suas mesadas fora do dia marcado. Boatos davam conta de que o programa seria extinto ou suspenso. Ou que Dilma autorizara o pagamento de um bônus. Houve quebra-quebra. A polícia foi acionada.

A ministra Maria do Rosário corrigiu-se poucas horas depois de ter pendurado na conta da oposição as consequências dos boatos. Qualificou de “singela” sua própria opinião — não mais do que “singela”. E garantiu com a inocência que Deus lhe deu: “Não quero politizar”. Ora, ora, ora… Quem por meio de uma “manobra orquestrada” poderia fazer “terrorismo eleitoral”?  Aliados do governo? Claro que não. Uma vez politizado o episódio, politizado está. Só que aos poucos ameaça se voltar contra o governo. Na melhor das hipóteses teria sido um caso de má gestão polvilhado com mentiras.

Entre as tardes do sábado e do domingo, quando pessoas em desespero se empurraram e depredaram agências lotéricas na caça ao tesouro do Bolsa Família, dois gerentes regionais da Caixa Econômica sugeriram que um erro do sistema de pagamento seria o responsável pela liberação do dinheiro em desacordo com o calendário do programa. Um deles, Hélio Duranti, do Maranhão, foi preciso.

“Os boatos surgiram após um atraso no pagamento do benefício ocorrido em todo o país. A situação foi normalizada, mas muita gente procurou os caixas eletrônicos ao mesmo tempo e o dinheiro acabou”, disse ele. “Quem não encontrou ficou revoltado e quebrou os caixas”. A ministra Tereza Campello, do Desenvolvimento Social, preferiu observar: “Não existe qualquer motivação para que a gente pudesse gerar esse tipo de intranquilidade para a população”. Será?

A direção da Caixa Econômica atravessou a semana negando que tivesse mexido no calendário de pagamento. Até que na última sexta-feira, a Folha de S. Paulo encontrou em Caucaia, região metropolitana de Fortaleza, a dona de casa Diana dos Santos, 34 anos. Na sexta anterior ela fora a um caixa eletrônico sacar os R$ 32,00 do Bolsa Família referentes a abril. Ao inserir seu cartão, sacou os R$ 32,00 de abril e os R$ 32,00 de maio.

“Recebo o Bolsa Família há anos e nunca pagaram antecipadamente”, comentou Diana. “Acho que outras pessoas receberam também, avisaram aos conhecidos e virou essa confusão”. A Caixa inventou então outra história depois que se desmanchou no ar a história que ela vinha contando. Soltou uma nota dizendo: “A Caixa Econômica esclarece que vem realizando, desde março, diversas melhorias no Cadastro de Informações Sociais. Em consequência desse procedimento, na sexta-feira (17), primeiro dia do calendário de pagamentos de benefícios do Bolsa Família do mês de maio, o banco disponibilizou o saque independentemente do calendário individual.

O pagamento é feito levando-se em conta o último número do cartão magnético de cada bolsista. A Caixa liberou o dinheiro para pagar de vez a todo mundo, mas não avisou a ninguém. De resto, não explicou como uma operação dessa natureza pode melhorar seu Cadastro de Informações Sociais. É razoável desconfiar que a Caixa mentiu outra vez. Para mudar o sistema de pagamento do Bolsa Família permitindo saques em  outras datas, o Conselho Deliberativo da Caixa teria de ser obrigatoriamente consultado — e não foi, segundo me contou um dos seus membros. Ou informado — e também não foi. A Caixa esconde que houve uma falha no sistema, o que tornou possíveis os pagamentos fora de hora.

No dia em que a Folha pegou a mentira da Caixa, uma fonte da Polícia Federal, mediante a garantia prévia de anonimato, revelou ao O Globo em Brasília que fora localizada  no Rio de Janeiro a central de telemarketing responsável pela difusão dos boatos. Não disse o nome da central. Nem do seu proprietário. Não disse quem a contratou. Nem como a central teve acesso aos números de telefones de inscritos no Bolsa Família. Sem acesso aos números de telefones como a central poderia disseminar boatos? Enquanto a Polícia Federal não revelar o nome da empresa e não apresentar o criminoso que encomendou o serviço, sobreviverá a suspeita de que ela mente para livrar a cara da Caixa Econômica.

Publicado ontem (27/05) na edição impressa de O Globo.

Na letra de Lobão e na paródia de Russo, uma pocilga chamada Brasil

Renato Russo e Lobão em entrevista à revista Elle, edição de julho de 1995 (clique na imagem para ampliá-la)
Lobão e Renato Russo em entrevista conjunta à revista Elle, edição de julho de 1995 (clique na imagem para ampliá-la)

Não dá para saber como Cazuza (1958/90) e Renato Russo (1960/96) estariam hoje cantando o Brasil há uma década governado pelo PT. De qualquer maneira, letras como “Brasil” e “Que país é esse?” dão boas pistas, assim como a opinião presente de Lobão, tão talentoso e polêmico quanto qualquer um dos seus pares do BRock, que após ter apoiado Lula e o PT de graça, da campanha presidencial de 1989 até estourar escândalo do Mensalão, em 2005, passou a descer a lenha sobre o lulo-petismo e seus “carolas estatizados”, como fez com precisão cirúrgica na letra de “Aquarela do Brasil 2.0”, usada como prólogo do seu último (e necessário) livro, “Manifesto do Nada na Terra do Nunca” (aqui, a R$ 24,21, na Ponto Frio), numa ambiciosa, corrosiva, mas embasada e corajosa crítica sobre a cultura e a política brasileiras:

“Com a santa ignorância dos que defendem, cegos, surdos, suas teses

Acobertando num silêncio um tanto cínico, aloprados e bandidos

de um governo cheio de reveses,

catequizando suas verdades imutáveis e eternas,

a patrulhar, ameaçar, comprar, reprimir (quando não, simonalizar)

todos aqueles que não se alinharam

nessa patuscada triste que eles mesmos inventaram:

A inveja da Pobreza. A cartilha do bom brasileiro.

A terraplanagem é por baixo e a laje é o limite, companheiro!

Para o inferno, vocês, proprietários dessas verdades de merda.

Fascismo não é monopólio da direita nem da esquerda.

Fascismo é imposição inflexível e truculenta de verdades sacralizadas

(…)

O Brasil dos estupros consentidos na surdina,

dos superfaturamentos encarados como rotina,

dos desabamentos e enchentes de hora marcada,

de hospitais públicos em abandono genocida,

de subsídios da Cultura a artistas consagrados,

dos aeroportos em frangalhos, usuários indigentes,

de políticos grosseiros, como sempre, subornados,

de cabelos acaju e seus salários indecentes,

da educação sucateada pelo Estado

em sua paralisia ideológica, omissa e incompetente.

(…)

E não me venha com essa lenga-lenga do tipo

‘não gostou, se manda! vai pr’outro lugar!’,

porque estou aqui para exterminar:

vossa hiponga modorra, vossa preguiça macunaímica,

vosso caráter vacante, vossa antropofagia cínica,

pois esse lugar também me pertence,

e ninguém vai me calar. Ninguém vai me calar.

(…)

E no cagaço metafísico

da multidão de contritos telerredimidos

brota o pavor da morte, da vida, do sexo,

da doença, da pobreza e do castigo.

Fazendo bispos milionários,

gângsteres do paraíso,

lotearem pedacinhos do firmamento

para histéricos apocalípticos aguardarem…

o fim do mundo fora de perigo…

(…)

Bem vindos à Terra do Nunca!

Bem vindos a essa pocilga chamada Brasil!”

A obra e seu autor
A obra e seu autor


Quem não ler o novo livro de Lobão, assim como seu primeiro, o bestseller autobiográfico “50 anos a mil”, estará realmente perdendo a chance de conhecer seu próprio país pela visão de um genuíno (até por antítese a Genoíno) livre pensador do nosso tempo, dono de cultura e inteligência invejáveis, sem paúra de colocar os dedos em muitas das nossas feridas, inclusive as suas próprias. De qualquer maneira, como quem está na crista da onda é o Renato Russo e a sua (nossa) Legião Urbana, a partir dos filmes “Somos tão jovens” e “Faroeste caboclo”, ambos em cartaz nos cinemas de Campos, assim como de boa parte do Brasil, vale a pena também a conferida na esperta paródia da música transposta às telas no segundo filme, que vem registrando igual sucesso na democracia irrefreável das redes sociais…

Por Newton, São Paulo, Constituição e Marx, a psiquiatria da democracia

“O grito”, do pintor expressionista norueguês Edward Munch (1863/1944)
“O grito”, do pintor expressionista norueguês Edward Munch (1863/1944)

Não sem algum constrangimento, confesso: não ouço a rádio Diário. Não por outro motivo, só agora, nesta noite de domingo, dia e meio depois, fui saber do que falou na manhã de ontem (25/05), em seu microfone de cabresto, o deputado Anthony Matheus, o Garotinho (PR). Segundo o jornalista e blogueiro Alexandre Bastos (aqui), disse o governante de fato de Campos, mesmo sem ter sido eleito de fato ou direito para tanto:

— Não dá para acender um fósforo (no lugar da vela católica dos santos) para cada pessoa. Se a pessoa toma café comigo e diz que é meu amigo, não pode dar entrevista para a Folha. Ou então, não vai mais tomar café comigo. Isso é democracia. Tem que escolher um lado.

Por raciocínio lógico e caridade cristã, pelo que se pode ler aqui, no próprio blog de Anthony Matheus, o Garotinho, até se deve entender o desespero de quem prevê em tempo curto as consequências inexoráveis da terceira lei de Isaac Newton (1643/1727), referentes ao princípio universal da ação e reação, preconizadas também e muito antes pelo apóstolo Paulo, em sua epístola aos gálatas, ou gauleses, ou celtas, ainda ao primeiro século cristão:

— Não erreis: Deus não se deixa escarnecer; porque tudo o que o homem semear, isso também ceifará. (Gálatas 6:7)

Como, graças a Deus, ainda é laica a nossa Constituição, aconselha-se ao acossado deputado a releitura atenta do primeiro e segundo parágrafos do Art. 220 da Carta Magna, antes de pretender ditar, em delírio fascista mal disfarçado ou amparado em lei, com quem da imprensa ou não qualquer homem público possa falar:

— § 1º – Nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV.

— § 2º – É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.

Todavia, se for o caso de se rebelar contra o estado democrático de direito, na intenção de contra ele se promover uma revolução em nome de interesses individuais e inconfessáveis, bastariam dois pertinentes alertas de Karl Marx (1818/83), em sua face menos conhecida de jornalista:

— Trata-se de uma afirmação arrogante: minha individualidade é boa, as poucas existências que correspondem à minha individualidade são boas, e a imprensa má e perversa não quer reconhecer tal fato. A má imprensa!

— Quando uma pessoa privada se vangloria de ter inspiração divina, na nossa sociedade há somente um indivíduo que nega oficialmente tal fato: o especialista em doenças mentais!

Atualização de 28/05: Republicado hoje, na edição impressa da Folha.

GAP: Mistérios no ar e milhões na conta

Por Alexandre Bastos, em 26-05-2013 – 13h50

Uma semana após a revista Época divulgar matéria sobre um suposto amigo invisível do deputado federal Anthony Matheus (PR), o caso ganhou novos capítulos. Se por um lado o parlamentar alegou estar sendo perseguido, por outro ele mesmo deixou nítido que havia algo errado e afirmou que a Prefeitura de Campos suspenderia o contrato com a GAP. Porém, na prática, a empresa continua recebendo. Nos últimos dois meses, por exemplo, a Prefeitura pagou R$ 1,8 milhão à GAP. Em meio aos fantasmas, denúncias e dúvidas, outras situações começam a ser descobertas. A principal delas envolve o empresário Fernando Trabach.

Se o George Augusto Pereira não existe, Trabach é de carne e osso. Inclusive, de acordo com a revista Época, ele teria fornecido combustíveis para uma campanha do PR. Trabach é dono da Posto 01, empresa que ganhou uma concorrência em Campos e que fica no mesmo endereço da GAP.

Quem pesquisa a vida de Trabach se assusta com o fato do empresário ter três números diferentes de CPF. Ele também já apareceu em uma denúncia do Ministério Público Estadual (MPE) contra a Prefeitura de Campos. Em 2009, a prefeita Rosinha (PR) resolveu alugar ambulâncias ao invés de comprá-las. Para abrir concorrência, o município precisava cotar preços entre empresas e definir o valor a pagar pelo serviço de locação das ambulâncias. O mecanismo visa obter a proposta mais econômica aos cofres públicos. Uma das quatro empresas que apresentaram orçamento foi o Posto 01, que vende combustível em Itaboraí, município próximo ao Rio. Naquela época, o posto tinha uma filial no mesmo endereço da GAP. A suspeita do MPE era que houvesse um acerto entre as duas empresas irmãs para fraudar a concorrência. De acordo com o MPE, no dia da licitação, a GAP teve o caminho livre para vencer e receber, ainda por cima, em valores superfaturados. O que isso tem a ver com Trabach? Ele comanda a rede que inclui o Posto 01.

Trabach também aparece nas denúncias de fraudes na campanha eleitoral do PR em 2010. Sua rede de postos ganhou R$ 1,2 milhão para fornecer combustível ao candidato a governador do partido, Fernando Peregrino, lançado por Anthony Matheus. Tudo legal, afinal Trabach realmente opera estações de venda de gasolina, álcool, gás e diesel. A suspeita veio à tona quando a investigação esbarrou nas notas fiscais apresentadas à Justiça Eleitoral para comprovar as despesas com os quatro postos de Trabach. No final de abril, a revista Época revelou que as notas contêm indícios de irregularidades e falsificação.

Artigo do domingo — Sinal vermelho na BR 101

Por Suzy Monteiro

Difícil encontrar, nos municípios cortados pela BR 101, uma pessoa que, no mínimo, não conheça alguém que tenha perdido a vida nessa rodovia tão importante e, ao mesmo tempo, tão perigosa.

Pela BR 101, especialmente a partir do trecho do Rio de Janeiro, trafega grande parte da riqueza brasileira. Máquinas, equipamentos, móveis, vestuário, veículos, alimentos. Tudo passa pela BR em direção a seus destinos. É o progresso, é o desenvolvimento, é a riqueza.

Ao mesmo tempo, por ali passam histórias de vidas. É a família que viaja em férias, é o homem de negócios, é o trabalhador que enfrenta o estresse da estrada todos os dias, ano após ano. É o próprio caminhoneiro na briga para manter suas metas e, por consequência, seu emprego.

Numa convivência quase impossível para uma pista simples que recebe tão volume de trânsito e responsabilidades. Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, entre janeiro e abril de 2013, no Norte Fluminense, foram 19 acidentes com mortes, um número quase 50 vezes maior que o registrado no mesmo período de 2012.

Um dado muito mais que alarmante. Passou da hora de acender o sinal vermelho. A duplicação é necessária, é urgente, mas a conscientização dos motoristas que utilizam essa (e qualquer outra via) é imperial.

Basta de acreditar que só quem morre é o outro, só o outro é irresponsável, não sabe ultrapassar, é afobado. O outro sou eu, é você. O outro pode morrer. O outro pode sofrer um acidente e ficar imobilizado, com sequelas para sempre.

Apesar de o Brasil precisar intensificar outros meios de transportes — como o ferroviário e o marítimo, por exemplo — enquanto isso não acontece, vamos cobrar de quem precisa ser cobrado pelas melhorias na pista e sinalização adequada, mas sem esquecer de fazer nossa parte, de dirigir com responsabilidade.

Publicado hoje na edição impressa da Folha.

Feijó: definição para deputado estadual e federal em 2014 será de Anthony

“Um sobrevivente”. Em sua própria definição política, o deputado federal Paulo Feijó (PR) não entra de sola na discussão da disputa pelas vagas que seu grupo reservará aos candidatos locais à Câmara Federal e à Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). Com a experiência de quem está na vida pública há quase 30 anos, ele não antecipa agora uma discussão que só será definida nas convenções partidárias daqui a um ano. Todavia, como fez o deputado estadual Geraldo Pudim (PR), sutilmente também deixou seus recados à deputada estadual Clarissa Matheus (PR), todos pré-candidatos a federal em 2014, a quem lembrou a importância dos três se elegerem. Quanto à Alerj, embora defenda a legitimidade do pleito do vereador Adbu Neme (PR), ele não só empurra a discussão ao futuro, como sob o juízo de quem de fato a decidirá: o deputado federal Anthony Matheus (PR), reafirmado pelo colega de Câmara em sua pré-candidatura a governador.

Folha da Manhã – O PR de Campos terá mesmo três candidatos à Câmara Federal: você e os deputados estaduais Clarissa e Pudim?

Paulo Feijó – A princípio sim, mas nós temos ainda 12 meses até as convenções que irão oficializar as candidaturas para definir este quadro. Não se pode ter ansiedade.

Folha – Campos e região têm caixa para eleger vocês três?

Feijó – Campos e região têm votos para eleger até um número maior de deputados federais, é só o eleitor valorizar os candidatos da sua terra, não deixando acontecer o absurdo que aconteceu em 2010, quando, somente em Campos, 80 mil eleitores votaram nos candidatos de fora. As lideranças políticas, as entidades representativas, os eleitores e, principalmente, a mídia podem ajudar nesse trabalho importantíssimo de conscientização sobre a necessidade da regionalização do voto.

Folha – Em entrevista à Folha (aqui), Pudim disse que Campos teria entre 100 mil a 120 mil votos para candidatos locais a deputado federal pelo PR. Nas contas dele, que disse serem as mesmas de Anthony Matheus, se Clarissa fizesse entre 10 mil a 15 mil votos campistas, o que sobrasse bastaria para que você e ele saíssem da cidade com as eleições praticamente asseguradas. Concorda com essa aritmética?

Feijó – A viabilidade eleitoral dos três candidatos a federal do PR é enorme. Campos e região têm 800 mil eleitores, e saberemos trabalhar este eleitorado para que nós três sejamos eleitos, levando-se em conta também que Clarissa tem um trabalho muito forte na cidade do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense.

Folha – Também em entrevista à Folha, Clarissa declarou (aqui) que não aceitará ser tratada como candidata do Rio. Como analisa esse posicionamento e até que ponto ele atrapalha nas contas eleitorais feitas por Pudim?

Feijó – Clarissa tem um forte vínculo político com Campos e região, e também alta densidade eleitoral no Estado. Pela sua experiência política, com certeza ela entende a importância da minha eleição e a de Pudim para consolidação do nosso grupo político.

Folha – Dos três pré-candidatos a federal, você é o único que concorreria à reeleição. Isso deixa sua vaga mais garantida? E até que ponto ajuda na eleição?

Feijó – Renovação de mandato a cada eleição fica mais difícil. Eu sou sobrevivente. Depois de Garotinho, que começou em 1986, sou o político de vida pública mais prolongada na região, tendo iniciado em 1988. Fui duas vezes vereador e quatro vezes deputado federal. Já tive altos e baixos. Hoje, neste novo mandato, estou recomeçando em ascensão, e muito otimista em relação a 2014, pelo reconhecimento dos eleitores e pelas oportunidades a mim concedidas pelo deputado Garotinho.

Folha – Pudim também disse que o projeto do PR fluminense é fazer oito federais e entre 10 a 12 estaduais. É isso mesmo?

Feijó – Pode ser. Garotinho tem que se caracterizado como um grande articulador político e contribuidor para o crescimento dos partidos. Foi assim por onde ele passou: no PDT, PSB, PMDB e agora no PR. Com certeza, nós iremos fazer novamente uma excelente bancada federal e estadual.

Folha – Em relação à Alerj, concorda que o limite de candidatos do PR em Campos não pode passar de três, sob risco de pulverização da votação? Quem seriam os pré-candidatos locais do seu partido com mais chance de ter a vaga?

Feijó – Três é um número razoável, mas ainda está cedo para definir este quadro. Precisamos aguardar, porém o mais importante é que o eleitor valorize os candidatos da terra para que o PR e os outros partidos elejam o maior número de deputados, o que será muito importante para nossa região. Quanto aos nomes, todos têm chance, e serão escolhidos aqueles que em junho do ano que vem estiverem com melhor aceitação eleitoral.

Folha – Além do PR, quais partidos da base da prefeita Rosinha lançariam candidatos à Alerj? O PP de Albertinho, o PT do B de Mauro Silva, o PSC de Genásio (opções elencadas aqui)? Algum outro? Quantos candidatos locais a estadual, em seu entender, o grupo deveria apresentar?

Feijó – Como disse anteriormente, este quadro só se definirá em junho de 2014. Serão candidatos os que tiveram maior viabilidade eleitoral. Para ser candidato do grupo, estadual ou federal, tem que ter o apoio de Garotinho, que é o líder e o nosso pré-candidato a governador. No grupo, ninguém tem musculatura eleitoral para ser candidato sozinho.

Folha – Além de Clarissa, quem também reagiu à entrevista de Pudim à Folha foi Abdu Neme (aqui), que usou o fato de ter sido o vereador mais votado do PR em 2012 para cobrar sua vaga no partido para disputar à Alerj em 2014. Já que ele apoiaria você a federal, como entende o pleito do vereador?

Feijó – Legítimo, Abdu Neme é um excelente vereador, de forte expressão eleitoral. Assim como é legítimo também para os demais vereadores que pleiteiam a vaga de deputado estadual ou federal, independente de partido. No entanto, quem almeja tem que trabalhar muito e não pode ter ansiedade. Este quadro só será definido em 2014 matematicamente, sob a condução do deputado Garotinho.

Folha – Em resposta ao colunista Ilimar Franco (aqui), de O Globo, Anthony Matheus garantiu (aqui) que Rosinha não será candidata a governadora. Até que ponto ele levará sua própria pré-candidatura à sucessão de Cabral? Acaso desista, como fez em 2010, quando decidiu concorrer a federal, até que ponto isso pode modificar os planos para 2014 de quem busca vaga para disputar o pleito à Câmara, como foi o caso de Pudim, três anos atrás?

Feijó – Já está definido. O nosso pré-candidato a governador é Garotinho, hoje o pré-candidato com maior viabilidade eleitoral no Estado do Rio. Em qualquer pesquisa que se faça, ele está em 1º lugar com razoável folga em relação ao segundo colocado. O que aconteceu em 2010 foi uma decisão política injusta do Tribunal Regional Eleitoral (TRE), que não deu o registro para que Garotinho fosse candidato a governador, daí a opção pela candidatura a deputado federal. Essa perseguição, com certeza, não irá acontecer novamente, até porque o caso já foi resolvido com vitória para Garotinho no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Folha – Natural de Madalena, você sempre foi político de atuação e expressão eleitoral regional. Mantém a característica? Até que ponto ela pode ajudar em sua reeleição?

Feijó – Com certeza ajudará muito. Continuo mantendo esta característica e hoje talvez atravesse o meu melhor momento político regional eleitoral, até porque Garotinho me concedeu a oportunidade de coordenar as eleições municipais em vários municípios da região Norte/Noroeste Fluminense, e os resultados foram extremamente positivos.

Publicado hoje na edição impressa da Folha.