A psicanalista Elisa Peralva e o médico psiquiatra Flávio Mussa Tavares são os convidados do Folha no Ar da manhã desta terça (22), ao vivo a partir das 7h, na Folha FM 98,3. Eles analisarão pela psicanálise e pela psiquiatria a polarização política no Brasil, a eleição presidencial definida em 30 de outubro e as reações dos perdedores com bloqueios de estradas e peregrinação contra a democracia na porta de quartéis militares pelo país.
Elisa e Flávio também falarão sobre o fechamento recente do Hospital Psiquiátrico Dr. João Viana em Campos e do fim do tratamento manicomial. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Treino é treino, jogo é jogo — O que esperar do Brasil com Lula e na Copa?
O que esperar do Brasil no novo governo Lula e na Copa do Mundo de futebol masculino no Qatar? Antes de a bola rolar, tudo serão só prognósticos. Aqueles feitos com conhecimento de causa e pautados pela razão, a despeito da torcida a favor ou contra, sempre terão mais chance de êxito. Mas garantia, em um caso e no outro também, só a do Mestre Didi, campista, maior meia direita da história do futebol e, mesmo ao lado de Pelé e Garrincha, o grande craque do nosso primeiro Mundial, em 1958, na Suécia: “treino é treino, jogo é jogo”.
Ainda na fase de treino, Lula participou esta semana da 27ª Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas (COP27), no Egito. Onde já chegou na terça (15) metendo lençol nos quatro anos de solidão geopolítica do governo Jair Bolsonaro (PL), ao se reunir com Xie Zhenhua, da China, e John Kerry, dos EUA, representantes das duas maiores economias e poluidores da Terra.
Lula com John Kerr, dos EUA, e com Xie Zhenhua, da China, no Egito
Osvaldo Aranha
Na quarta (16), Lula foi ovacionado pela imprensa internacional ao propor uma aliança para combater a fome no planeta e cobrar dos países ricos recursos para enfrentamento das mudanças climáticas nos países mais pobres. E, para enterrar ainda respirando por aparelhos um governo que chegou a se orgulhar em proclamar “que sejamos pária”, com o ex-chanceler olavista Ernesto Araújo, o presidente eleito ressuscitou o orgulho do país de Osvaldo Aranha ao afirmar: “O Brasil está de volta”. E ouviu de volta o coro do mundo: “O Brasil voltou”.
Foi na mesma quarta em que, do lado de cá do oceano Atlântico, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin (PSB), entregou ao Congresso a PEC da Transição. No qual propôs deixar o Bolsa Família, rebatizado por Bolsonaro de Auxílio Brasil na tentativa fracassada de se reeleger, fora do teto de gastos. O que implicaria em gasto extra de R$ 175 bilhões em 2023, para manter o benefício federal de R$ 600,00 aos brasileiros pobres. Os mesmos que pegaram o dinheiro de Bolsonaro com uma mão e votaram em Lula com a outra. O motivo? No país em que o primeiro negava existir fome, 33 milhões de pessoas passavam e ainda passam fome.
Com a ameaça ao teto de gastos, o mercado reagiu imediatamente com queda da Bolsa de Valores e o aumento do dólar. É o mesmo mercado que apoiou majoritariamente o primeiro presidente da História do Brasil a perder uma reeleição, após ter reservado R$ 19 bilhões ao Orçamento Secreto em 2023, tirando dinheiro da merenda escolar e do tratamento de brasileiros com câncer. Instituído pelo governo Michel Temer (MDB) em 2016, o teto de gastos foi arrombado pela dupla Paulo Guedes/Bolsonaro em R$ 795 bilhões entre 2019 e 2022. Sem correção pelo IPCA, foram quase R$ 200 bilhões por ano, mais que os R$ 175 bilhões pedidos a 2023. E ruidoso com Lula, o mercado fez, literalmente, ouvidos de mercador com Bolsonaro.
Na quinta (17), ainda no Egito, Lula reagiu também ruidosamente aos dois pesos e duas medidas do mercado entre ele e um Bolsonaro agora calado: “Ah, mas se eu falar isso vai cair a bolsa, vai aumentar o dólar? Paciência! Porque o dólar não aumenta e a bolsa não cai por conta das pessoas sérias, mas por conta dos especuladores que vivem especulando todo santo dia. Nós vamos cumprir meta de inflação, sim. Mas nós temos que ter meta de crescimento. Como vamos fazer que a riqueza seja distribuída”.
O mercado reagiu imediatamente no Brasil, com mais queda da Bolsa e alta do dólar. Que recuaram ao final do dia, após a ação sempre diligente e equilibrada de Alckmin. E o desligamento de Guido Mantega da equipe de transição. Onde nunca deveria ter estado, após conduzir o Brasil à maior recessão da sua história como ministro da Fazenda do governo Dilma Rousseff (PT), tão desastroso economicamente quanto Guedes/Bolsonaro.
Dupla Dilma Rousseff e Guido Mantega produziu entre 2011 e 2015 a maior recessão econômica da História do Brasil
Christiano Abreu Barbosa
Contra quem crê nas fake news que afirmam o contrário sobre os ex-condutores ainda em exercício da economia do país, é comum se apelar à falácia da pandemia da Covid. Sobre o que observou didaticamente o empresário Christiano Abreu Barbosa, como a explicar que a Terra é redonda: “Entre 24 países emergentes, o Brasil ficará em 18º em desempenho de PIB no período do atual governo. A pandemia valeu para todos. A tal decolagem de Guedes/Bolsonaro nunca aconteceu. Perderia até para os antecessores do 14 Bis”.
Em 1906, o brasileiro Alberto Santos Dumont espanta o mundo ao conseguir decolar há poucos metros do chão de Paris com o seu 14 Bis
“Natural que o mercado reaja com desconfiança, que a Bolsa caia, que o dólar suba. Até agora não se sabe qual será a direção da economia no governo Lula. Ele continua soltando bravatas e seus eleitores, trocando de posição com os de Bolsonaro, agora passam pano. Os de Bolsonaro, que antes passavam pano, agora atacam as declarações do presidente”, também analisou corretamente Christiano. Ele só esqueceu de dizer que as críticas às bravatas de Lula não vieram só “dos especuladores que vivem especulando todo santo dia”. Mas de nomes do mercado que criaram o Plano Real a partir de 1994, maior conquista econômica do Brasil desde a sua redemocratização em 1985. E que, após verem sua obra ao país erodida por Mantega/Dilma e Guedes/Bolsonaro, declararam apoio a Lula no 2º turno de 2022.
Pais do Real, Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan
“Caro presidente eleito Lula, assistimos a sua fala nesta quinta cedo na COP27, no Egito. Acredite que compartilhamos de suas preocupações sociais e civilizatórias, a sua razão de viver. Não dá para conviver com tanta pobreza, desigualdade e fome aqui no Brasil. O desafio é tomar providências que não criem problemas maiores do que os que queremos resolver. A alta do dólar e a queda da Bolsa não são produto da ação de um grupo de especuladores mal-intencionados. A responsabilidade fiscal não é um obstáculo ao nobre anseio de responsabilidade social (…) dólar alto significa arrocho salarial, causado pela inflação que vem a reboque (…) São todos sintomas da perda de confiança na moeda nacional, cuja manifestação mais extrema é a escalada da inflação. Quando o governo perde o seu crédito, a economia se arrebenta. Quando isso acontece, quem perde mais? Os pobres! (…) O crédito público no Brasil está evaporando. Hora de tomar providências, sob pena de o povo outra vez tomar na cabeça”, assinaram em carta aberta os economistas Armínio Fraga, Edmar Bacha e Pedro Malan, ex-integrantes do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). E, como este, eleitores de Lula no último dia 30 de outubro.
Na sexta (18), já em Portugal, saudado também na Europa pelo retorno do Brasil ao mundo, Lula parece ter entendido o “puxão de orelhas”. Não ao seu objetivo social, mas à necessária modulação do seu discurso. Ao lado do primeiro-ministro português António Costa, o petista disse: “Eu queria dizer da minha alegria de ter uma carta, de pessoas importantes, ex-ministros, me alertando dos problemas econômicos e aconselhando. Eu sou um cara muito humilde e gosto de conselho. Se o conselho for bom, pode ter certeza que eu sigo”. Confirmou promessas de campanha e ressalvou: “Vou voltar a aumentar o salário todo ano, a gerar emprego nesse país e nós vamos voltar a ser responsáveis do ponto de vista fiscal, sem precisar atender tudo que o sistema financeiro quer”.
E o Brasil na Copa do Qatar, que se inicia neste domingo? Sem a cerveja de Lula proibida pela teocracia islâmica, como a que sonham implantar aqui alguns evangélicos cristãos, o Brasil tem chances? Tem! Basta vencer uma seleção europeia em jogo eliminatório. O que não faz em Copa do Mundo desde a final em que bateu a Alemanha por 2 a 0. Foi há 20 anos.
Fã de futebol, Lula já disse que, quando jovem, gostava de jogar com a camisa 8 por causa de Didi. Que estava certo: treino é treino, jogo é jogo. E o treino foi forte esta semana.
Definida a eleição presidencial com a vitória de Lula (PT) nas urnas de 30 de outubro, a Copa do Mundo de futebol masculino no Qatar concentra as atenções entre seu jogo de abertura já neste domingo, 20 de novembro, e sua final, em 18 de dezembro. Noves fora a torcida, quais são as chances reais do Brasil conquistar o Hexa? Quem são as seleções favoritas ao título? Por quê? Como será a cobertura do Grupo Folha da maior competição esportiva da Terra, redonda como a bola que rolará no Oriente Médio?
Para tentar responder a essas perguntas, sempre submetidas ao “Imponderável de Almeida” do saudoso cronista esportivo e dramaturgo Nelson Rodrigues, o Folha no Ar fecharsua semana nesta sexta (18), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Quando entra em campo com o radialista Cláudio Nogueira e os jornalistas Aluysio Abreu Barbosa e Matheus Berriel.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Gal Costa no show do seu disco “O Sorriso do Gato de Alice”, de 1994 (Foto: Reprodução)
Entre jornadas de trabalho pesadas com as eleições no Brasil que foram e a Copa do Mundo de futebol que virá, o homem de meia idade cumpria pequeno recesso em terras de São Sebastião. Para recarregar suas baterias interioranas de atafonense, fazia o que mais gostava quando em grandes metrópoles: bater pernas em seus centros históricos, sem destino certo.
Sem programar, teve duas experiências com o universo feminino. Uma tensa, outra sensual. Ainda refletia no saldo quando foi colhido pela chuva torrencial na rua Evaristo da Veiga, outro poeta e jornalista. E buscou abrigo — como se precisasse chover para fazê-lo — em um bar.
Pediu uma Original e continuou sua reflexão solitária, interrompida por uma mulher preta, magra, vestida em trapos. Ela passou a mexer na lata de lixo que, só então o homem percebeu, estava ao seu lado. Dela retirou um resto de salgado e colocou na mesa, sem pedir licença. Tudo de feminino e humano, que era pensamento, se fez ação.
A mulher depois estendeu um copo de Guaravita vazio que pegou do lixo, junto com o salgado comido pela metade que enfiou no bolso da bermuda famélica. E pediu ao homem sentado um pouco de cerveja. Ele esvaziou o que restava da garrafa e encheu o copo plástico dela. Que bebeu de um gole só, derramando parte do líquido sobre o torso magro, com seios quase à mostra.
Após observar a mulher sumir sob a chuva numa calçada da Evaristo da Veiga, o homem pegou um táxi de volta à Copacabana. Foi quando, ao olhar no IPhone, soube da morte de Gal Gosta, hoje, aos 77 anos. No trajeto de retorno, em meio a tantas referências femininas numa TPM mental, a chuva estiou. Já no apartamento, o sino da Igreja da Ressurreição tocou as seis baladas da hora de Maria, afinado como Gal.
O homem lembrou da música que, desde criança, ouvia nas fitas-cassete dos pais. De quando passou a se entender como gente na voz de uma grande intérprete do Brasil. Mesmo a sabendo de cor, passou a ouvir “Baby”, de Caetano, na voz de Gal, repetidas vezes. E, neste tempo distante das fitas-cassete, enviou o link da gravação de 1968 pelo WhatsApp a todas as mulheres que admirava. E que, por sensibilidade, poderiam também admirar Gal.
Enquanto a noite caía sobre o Rio, revelando o brilho das luzes do Morro do Vidigal ao longe, o homem pensou nas brasileiras que definiram a eleição presidencial de 30 de outubro. E que, com a morte de Gal, poderiam estar dentro de si ecoando a mesma verdade com que uma outra mulher derramou cerveja sobre o peito retinto e quase nu: “Você precisa saber da piscina/ Da margarina, da Carolina, da gasolina/ Você precisa saber de mim”.
Comecei no jornalismo com a eleição presidencial de 1989. Foi a primeira pelo voto popular de um Brasil que retomava sua democracia, após 21 anos de ditadura militar (1964/1985). E, espero, encerro aqui meu trabalho sobre a eleição presidencial de 2022. A única, nos últimos 33 anos, em que a própria democracia esteve em xeque. Mas deu o mate na decisão soberana da urna.
Num ano que sabia que seria bem puxado de trabalho, resta ainda à frente a Copa do Mundo de futebol. Será a 9º desde a primeira que acompanhei profissionalmente, em 1990, na Itália, vencida com justiça pela Alemanha. Na que se inicia no Qatar no próximo dia 20, com final marcada para 18 de dezembro, vejo como favoritos a atual campeã França, a habilidosa Bélgica e, como sempre, a Alemanha. O Brasil, que tem em Vinícius Júnior, não mais em Neymar, seu grande craque do meio para a frente, terá que quebrar um incômodo jejum para ter chance: desde a final da Copa de 2002, na qual bateu a Alemanha por 2 a 0, há exatos 20 anos não vence uma seleção europeia em jogo eliminatório de Copa do Mundo.
Mas, entre eleições e Copa, o momento pessoal será de descanso. Por isso o blog fará uma pausa, que não será quebrada nem com as eleições legislativas dos EUA desta terça (8). Nas quais os favoritos são os Republicanos do ex-presidente Donald Trump e cujo resultado certamente ecoará pelo mundo, sobretudo o democrático.
Isso posto, antes de me desligar, só posso dizer algo. Como cidadão, declarei publicamente meus votos em 25 de setembro para o primeiro turno de 2 de outubro. E Ciro Gomes, Rodrigo Neves, Alessandro Molon, Christino Áureo e Professor Alexandre não se elegeram, respectivamente, a presidente, governador, senador, deputado federal e estadual. Não sem ainda considerar meus candidatos melhores que os eleitos, aceitei democraticamente o juízo soberano da urna. Quem ainda pensa poder não fazê-lo sobre o resultado do segundo turno presidencial do último dia 30, na despedida do blog até, se Deus quiser, o próximo dia 16, fica o modesto conselho:
A eleição presidencial foi a mais polarizada da História do Brasil, desde a sua redemocratização em 1985? Foi! Desde de que a instituição do segundo turno passou a vigorar, em 1989, foi também a disputa mais apertada ao Palácio do Planalto? Foi! Nos últimos 37 anos em que o país voltou a viver numa democracia, foi o pleito em que esta esteve mais ameaçada? Foi! E, a despeito de tudo isso, foi também a eleição mais monótona da República Federativa do Brasil. Em que o candidato vencedor, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), liderou a corrida do início ao fim, nas urnas do segundo turno do último domingo (30). Isso após só não ter fechado a fatura ainda no primeiro turno, em 2 de outubro, por menos de 1,5 ponto.
Verdade que o país chafurda na bipolaridade política desde as eleições presidenciais de 2014. Nela, a então presidente Dilma Rousseff (PT) falou em “fazer o diabo” para se reeleger. Se de fato fez e se reelegeu, para sofrer o impeachment em 2016, após conduzir o Brasil à maior recessão econômica da sua História, o fato é que, na campanha eleitoral de 2014, as pesquisas registraram grande alternância na liderança da corrida. Dilma começou à frente, foi ultrapassada por Marina Silva, após esta assumir a candidatura do PSB com a queda de avião que matou Eduardo Campos, Dilma voltou à liderança, foi ultrapassada por Aécio Neves (PSDB) no início do segundo turno, mas recuperou a dianteira confirmada nas urnas.
Em outras palavras, na eleição presidencial de 2014, tivemos cinco momentos diferentes de liderança de um candidato nas intenções de voto, com alternância entre três deles. Em 2022, tivemos apenas um líder do início ao fim: Lula. Que em nenhum momento foi ultrapassado, como provaram as urnas do primeiro e segundo turnos. E como todas as pesquisas eleitorais sérias registravam desde janeiro deste ano. Quem nelas dizia não acreditar, o fazia com o mesmo valor redondo de afirmar que a Terra é plana. E, no fenômeno de disrupção cognitiva que subiu ao poder no Brasil com o bolsonarismo em 2019, houve até ex-diretor de instituto de pesquisas questionando-as. Foi a abdução da razão pelo disco voador da torcida, incendiado até ser consumido na reentrada da órbita do voto na urna.
A bem da verdade, Lula não só liderou todas as pesquisas durante todo o ano de 2022. Em 2018, quando era pré-candidato a presidente, ele foi preso em 7 de abril, após ser condenado por corrupção pelo então juiz federal Sergio Moro. O petista teria o registro da sua candidatura indeferido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 1º de setembro daquele ano eleitoral. Mas, mesmo encarcerado em Curitiba, liderava a pesquisa Datafolha de 21 de agosto, com 39% de intenções de voto, contra apenas 19% de Jair Bolsonaro (então, PSL). Só com Lula tirado da disputa e substituído por Fernando Haddad (PT), o capitão conseguiu se eleger presidente em 2018, para fazer de Moro seu ministro da Justiça.
Moro é um caso à parte. Ícone da operação Lava Jato, ainda juiz federal divulgou uma delação do ex-ministro petista Antonio Palocci a apenas seis dias do primeiro turno presidencial de 2018, que não tinha aceito no juízo da ação penal. Interferiu naquele pleito, abandonou a magistratura e, em 2020, também o governo que ajudou a eleger, acusando Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal. Em 2021, tentou ser candidato a presidente e fracassou. Em 2022, tentou ser candidato a senador por São Paulo e fracassou. Eleito senador pelo seu Paraná em 2 de outubro, voltou ao colo do capitão como seu assessor no segundo turno, num misto de “mulher de malando” e Padre Kelmon.
O que Moro disputou com Bolsonaro, e ambos perderam, é só a nova face do velho falso moralismo brasileiro. Fracassou com o golpe militar que derrubou o Império para proclamar a República em 1889, fracassou com o tenentismo que redundou na Revolução de 1930 e na ditadura do Estado Novo (1937/1945), fracassou com a união entre militares e a UDN de Carlos Lacerda que levou um Getúlio Vargas eleito democraticamente ao suicídio em 1954, fracassou quando esses mesmos militares deram o golpe em 1964 para encangar os políticos e só largar o osso em 1985, com o nervo exposto dos civis na hiperinflação; fracassou com o “caçador de marajás” Fernando Collor de Mello em 1989. Que derrotou Lula no segundo turno da eleição presidencial daquele ano, sofreu impeachment em 1992 e, em 2022, apoiou Bolsonaro.
Mas, repetidos como tragédia ou farsa, em nenhum desses momentos da sua História, o Brasil desceu tão baixo quanto no bolsonarismo. Após já tê-lo feito aos olhos do mundo em setembro, quando representou o país como república amarela de bananas no funeral da rainha Elizabeth II em Londres, o que se viu no último domingo de outubro, após a apuração do TSE confirmar a vitória de Lula em 2022, projetada desde as pesquisas de 2018, parecia a encarnação do verso de um hit dos Titãs dos anos 1980: “Bichos escrotos saiam dos esgotos”. Não só pela interdição criminosa de estradas em todo o país, não só pelas “vivandeiras alvoroçadas” do marechal Castelo Branco diante de quartéis militares, incluindo Campos e região, mas pelas cenas abaixo da linha do ridículo produzidas.
Diante de quem é capaz de urrar do nada, para se pôr desajeitado em “marcha, soldado, cabeça de papel”, com a bandeira do Brasil, a camisa da CBF e tênis emblematicamente vermelhos, para depois dar o tapa nas nádegas que parece freudianamente desejar; diante de quem é capaz de se pendurar como gema de ovo escorrida sobre a frente de uma carreta em movimento; diante de quem é capaz de se reunir publicamente para cantar o hino nacional diante de um pneu; parece não haver dúvida racional. Não é o caso de intervenção militar, mas psiquiátrica.
E para quem não quiser se tratar, chorando sua dor de corno no lugar quente da cama, e insistir em tentar chifrar a realidade no lugar de voltar a ela, após o tri do Flamengo na América do Sul do sábado, seguido do tri de Lula no Brasil de domingo, com a arbitragem firme do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), cabe a advertência que há pouco tempo cantava a apaixonada torcida do Fluminense. Sobretudo a partir de 2023, quando o país voltar a ter Procuradoria Geral da República, seja quem seja: “O Fred vai te pegar!”
Por ora, após uma eleição tão tensa em seu desenrolar quanto monótona em seu resultado, com a vitória de Lula imediatamente reconhecida pelos presidentes da Câmara e do Senado eleitos com apoio de Bolsonaro, como por todos os principais líderes do mundo, não deixa de ser hilário ver de camarote o dar de corda ao enforcado. Mas, em nome do Deus verdadeiro, não do “deus, pátria e família” ressuscitado do integralismo, cópia tupiniquim do nazifascismo nos anos 1930, no lugar dos Titãs, talvez fosse melhor lembrar de outros versos que marcaram aqueles mesmos anos 1980 de um Brasil recém-saído da ditadura.
Ao eco sempre atual de Cazuza: “Agora eu vou cantar pros miseráveis/ Que vagam pelo mundo derrotados/ Pra essas sementes mal plantadas/ Que já nascem com cara de abortadas/ Pras pessoas de alma bem pequena/ Remoendo pequenos problemas/ Querendo sempre aquilo que não têm// Pra quem vê a luz/ Mas não ilumina suas minicertezas/ Vive contando dinheiro/ E não muda quando é lua cheia/ Pra quem não sabe amar/ Fica esperando alguém que caiba no seu sonho/ Como varizes que vão aumentando/ Como insetos em volta da lâmpada// Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade/ Pra essa gente careta e covarde/ Vamos pedir piedade/ Senhor, piedade/ Dê-lhes grandeza e um pouco de coragem”.
Os cientistas políticos George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos, e Hamilton Garcia de Lima, professor da Uenf, são os convidados para fechar a semana do Folha no Ar nesta sexta (4), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Eles tentarão projetar as eleições, com sua correlação, às mesas diretoras da Alerj e da Câmara de Campos.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta pode fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Travestidos de “patriotas” com camisas amarelas da CBF e bandeiras do Brasil, a BR 101 foi fechada em Campos no Km 70, na altura da Tapera, por membros de “uma organização criminosa contra o Estado Democrático de Direito”, segundo o procurador-geral de Justiça do estado de São Paulo (Foto: Genilson Pessanha/Folha da Manhã)
Uma organização criminosa
“Uma organização criminosa contra o Estado Democrático de Direito no Brasil”. Assim o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Mario Sarrubbo, classificou ontem os caminhoneiros bolsonaristas com dor de corno pela derrota no 2º turno da eleição presidencial de domingo (30). E que, no lugar de chorar no quente da cama, se acharam no direito de chifrar o direito de ir e vir das pessoas e mercadorias, doentes, remédios e bens perecíveis, na interdição desde domingo das estradas do país. Essa organização criminosa tem seus tentáculos também em Campos e região. Que deve ser investigada e seus integrantes punidos com o rigor da lei.
“Para com essa palhaçada!”
Em Campos, a BR 101 foi fechada no km 70, na altura da Tapera, assim como no km 75, próximo ao trevo da Estrada dos Ceramistas. Na BR 356, no trecho Campos/SJB, os bolsonaristas fecharam a estrada no trecho de Barcelos. Em Itaperuna, a BR 356 foi fechada na altura do km 50. Em São Fidélis, cortada pela RJ 158 que liga o Norte ao Noroeste Fluminense e à Região Serrana, uma interdição no bairro Vila dos Coroados, na saída da cidade, foi aberta na marra por populares. Um deles, no vídeo da ação, expressou a reação mais óbvia à ação criminosa bolsonarista nas estradas do país: “Para com essa palhaçada!”
Todos contra
Desde segunda (31), o ministro Alexandre Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Rodoviária Federal (PRF) desobstruísse os 227 bloqueios bolsonaristas nas estradas do país. Atendeu ao pedido da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) e do vice-procurador-geral eleitoral. Mas vários vídeos flagraram agentes da PRF, no lugar de desobstruir, orientando os manifestantes. O que fez Moraes estender a ação também às PMs dos estados. A interdição foi condenada até por governadores bolsonaristas, como Cláudio Castro (PL), do RJ; Romeu Zema (Novo), de MG; e Rodrigo Garcia (PSDB), de SP.
PRF como milícia política
Mais bolsonarista das Forças de Segurança Pública, sobretudo após ter Silvinei Vasques como diretor-geral, a PRF já tinha se portado no domingo da eleição como milícia política. Promoveu várias blitzen no país, sobretudo no Nordeste, onde Lula tem sua maior vantagem eleitoral, para dificultar a locomoção de eleitores. Seja em transporte público ou particular, aqueles identificados como simpatizantes do PT, usando adesivos da sua chapa presidencial ou camisas vermelhas, viraram alvos preferenciais. Moraes agiu rápido e intimou Silvinei no curso do pleito, determinando que ele suspendesse a ação. A resposta do povo veio com a abstenção eleitoral só de 20,58% no 2º turno, pela primeira vez menor do que a do 1º turno (20,95%).
Quem é o diretor da PRF?
Na coletiva de ontem da PRF sobre a interdição bolsonatista das estradas, o diretor Silvinei Vasques não deu as caras. E quem é ele? Em 1997, foi acusado de cobrar propina para permitir que uma empresa de guincho atuasse em Santa Catarina. Consta no inquérito, que ameaçou matar um dos chantageados “com um tiro na testa”. O caso se arrastou até a prescrição. Já foi condenado em primeira instância por agressão e respondeu a oito sindicâncias internas. Sobre cada um dos casos, o governo Bolsonaro decretou 100 anos de sigilo, após Silvinei ter assumido a PRF em 2021, por indicação do senador Flávio Bolsonaro (PL).
Bolsonaro “reconhece” derrota
Em silêncio desde a sua derrota eleitoral no domingo e pressionado pelos aliados políticos, por conta da péssima repercussão do fechamento das estradas, Bolsonaro se pronunciou ontem. Mas pediu que antes os ministros do STF fossem ao seu encontro. E foi respondido que só seria atendido após assumir que perdeu nas urnas. Isolado, fez um discurso relâmpago de apenas dois minutos. Que começou agradecendo aos 58 milhões de votos que recebeu, admitindo de soslaio a vitória de Lula, que teve 60 milhões de votos. E falou da manifestação dos seus militantes, condenando “o cerceamento do direito de ir e vir”.
Do nazifascismo à transição democrática
Ao final da sua curta fala, Bolsonaro repetiu o lema “deus (na minúscula), pátria e família”. Repetido orgulhosamente por seus militantes, é possível que a maioria ignore que se trata do mesmo lema do integralismo, por sua vez uma cópia brasileira do nazifascismo nos anos 1930. Na hora de falar um pouco mais sério, Bolsonaro deixou o microfone para o seu ministro da Casa Civil, Ciro Nogueira. Ele garantiu que a lei será cumprida na transição ao governo Lula, que já escolheu o vice-presidente eleito Geraldo Alckmin (PSB) como seu coordenador do processo. Só depois os ministros do STF aceitaram receber o ainda presidente da República.
De uma jovem campista
Campos deu a Bolsonaro 63,14% dos seus votos válidos no 2º turno. Desta cidade, uma estudante de 17 anos enviou um artigo sobre a eleição, que teve receio de publicar e assinar. Do texto, a coluna extrai o trecho: “Para aqueles que estão de luto pelo país porque um homem ignorante e arrogante perdeu, democraticamente, uma eleição (…) triste ver que essa comoção não foi prestada em luto aos mais de 680 mil brasileiros que morreram na pandemia (…) Bolsonaro deveria ter vergonha de usar o nome de Deus, ele é o oposto de tudo que Jesus nos ensinou (…) o Brasil é muito maior que o Bolsonaro, o amor é muito maior que o ódio”.
Como no dia anterior com o Flamengo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também é tri. Não é mais ex-presidente. Desde a noite de ontem, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) oficializou sua vitória, é o presidente eleito do Brasil. Após já ter ocupado o cargo duas vezes entre 2003 a 2010, seu terceiro mandato a partir de 2023 foi conquistado pela margem mais apertada desde a redemocratização do país: 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% do ainda presidente Jair Bolsonaro (PL). Coincidência ou não, foi pouco mais de 1 ponto. Como único foi o gol rubro-negro de Gabigol no sábado, na final da Libertadores da América.
LULA, GETÚLIO E FHC — Com seu terceiro mandato presidencial, Lula se iguala a Getúlio Vargas, superado, no entanto, pela via sempre democrática das conquistas do petista. Que ontem superou também seu rival histórico, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), eleito duas vezes presidente nos anos 1990. Após apoiar o vencedor no 2º turno de 2022, em defesa da democracia constantemente ameaçada nos últimos quatro anos, FHC ontem saudou a eleição do velho adversário e novo presidente: “Parabéns, Lula, pela vitória. Venceu a Democracia, venceu o Brasil!”. Do outro lado, na História do Brasil, Bolsonaro foi o primeiro presidente que não conseguiu se reeleger.
DE 2018 A 2022 — Em seu discurso de vitória ontem em um hotel de São Paulo, Lula disse: “Tentaram me enterrar vivo e estou aqui para governar esse país”. Referiu-se ao fato que o difere de qualquer outro presidente do Brasil: sua prisão em 7 de abril de 2018, após ser condenado por corrupção pelo então juiz federal Sergio Moro. Ele era pré-candidato e teria o registro da sua candidatura presidencial indeferido pelo TSE em 1º de setembro daquele ano eleitoral. Mas, mesmo encarcerado na sede da Polícia Federal em Curitiba, liderava a pesquisa Datafolha de 21 de agosto, com 39% de intenções de voto, contra apenas 19% de Bolsonaro. Só com Lula tirado da disputa e substituído por Fernando Haddad (PT), o capitão conseguiu se eleger presidente em 2018, para fazer de Moro seu ministro da Justiça.
A CONTA — Após quase quatro anos de governo Bolsonaro, o desafio de Lula a partir de 2023 não será pequeno. Além de ter que reunificar um país dividido como nunca nas urnas, terá que governar com um Congresso de maioria conservadora eleito em 2 de outubro. Após ser comprado por Bolsonaro com o Orçamento Secreto que consumiu 16,5 bilhões do dinheiro público em 2021, R$ 16,9 bilhões em 2022 e já tem reservados R$ 19 bilhões ao próximo ano. Somados, são R$ 52,4 bilhões, bem mais que os R$ 18,1 bilhões da soma dos escândalos de corrupção petistas do Mensalão e do Petrolão. Candidata a presidente no primeiro turno e aliada fundamental de Lula no segundo turno, a senadora Simone Tebet (MDB/MS) já disse: “O Orçamento Secreto é o maior escândalo de corrupção do planeta Terra”.
O VENCEDOR — Se tantos bilhões para compra de apoio parlamentar assustam, a tentativa fracassada de Bolsonaro se reeleger custou muito mais. Aprovado em 2021 pelo Congresso comprado pelo Orçamento Secreto, a PEC dos Precatórios deu o beiço em dívidas da União transitadas em julgado e estourou o teto orçamentário em R$ 65 bilhões. Foi para Bolsonaro tentar comprar o voto do eleitor pobre com o Auxílio Brasil de R$ 400,00. Aprovado em 2022 pelo Congresso comprado pelo Orçamento Secreto, a PEC Kamikaze estourou o teto orçamentário em mais R$ 41,2 bilhões. Para Bolsonaro tentar mais uma vez comprar o voto do eleitor pobre, com o Auxílio Brasil de R$ 600,00. E o pobre pegou o Auxílio Brasil com uma mão e com outra votou em Lula. Não foi ele, mas o pobre que o elegeu, o vencedor da eleição.
NOVA REPÚBLICA x REPÚBLICA VELHA — Mas a conta de Bolsonaro na tentativa fracassada de comprar com dinheiro público o voto do pobre que votou majoritariamente em Lula, virá. Ex-presidente do Banco Central nos dois governos anteriores do petista, Henrique Meirelles estima que os estouros de teto provocaram um rombo de R$ 400 bilhões para 2023. É o legado de um governo que a maioria do empresariado brasileiro ainda assim apoiou. Alguns chegando a tramar golpes institucionais em grupos de WhatsApp, caso o PT vencesse. Outros praticando assédio eleitoral contra seus empregados. Como não se via no Brasil desde o coronelismo da República Velha, da proclamação da República em 1889 à Revolução de 1930 que fez de Getúlio Vargas presidente. E que a Nova República de Lula e FHC, mesmo já envelhecida, ontem derrotou.
UM BRASIL? — Lula também proclamou ontem em seu discurso de vitória: “não existem dois Brasis”. Deveria ser, mas não é o que se viu ontem na urna. Onde, mesmo após os 50 tiros de fuzil e três granadas do bolsonarista Roberto Jefferson contra agentes da Polícia Federal que foram prendê-lo no município fluminense de Comendador Levy Gasparian, mesmo depois da deputada bolsonarista Carla Zambelli perseguir de pistola na mão um homem negro pelas ruas de São Paulo, Bolsonaro cresceu 7 milhões de votos do primeiro ao segundo turno. Entre os dois, Lula só cresceu 3 milhões. Mas, como saiu de 2 de outubro com 6 milhões de votos de vantagem, venceu em 30 de outubro por apenas 2 milhões. Para conseguir governar, a conta só poderá ser de soma. Tem que ampliar a frente ampla que lhe deu a vitória, sem reeditar o “nós contra eles” que o PT implantou na política do país. E Bolsonaro elevou à 10ª potência.
PRF OU MILÍCIA? — No desespero, ontem Bolsonaro ainda tentou impedir que o eleitor pobre que não conseguiu comprar fosse votar. Para tanto, usou a Polícia Rodoviária Federal (PRF) como milícia política. Que promoveu bloqueios nas estradas da região Nordeste, tradicional bastião do PT, para impedir que o povo pobre fosse votar. O que só não foi consumado pelas milhares de denúncias que passaram a pipocar nas mesmas redes sociais, que em 2018 deram a vitória a Bolsonaro. E forçaram o presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes, outro protagonista deste histórico ano de 2022, a desarmar com habilidade o circo.
MINAS E CAMPOS — No finalzinho da apuração do TSE, Lula ainda teve tempo para ultrapassar Bolsonaro em Minas Gerais, por 50,2% a 49,8% dos votos válidos. E, pelo menos nisso, não superou Getúlio Vargas, último presidente eleito por voto popular, em 1950, a perder em Minas e levar o Brasil. E Campos dos Goytacazes? Definido como “espelho do Brasil”, em frase atribuída a Getúlio, o município deu a Bolsonaro 63,14% dos seus votos válidos no segundo turno, contra 36,86% de Lula. Governada novamente pelos Garotinho, a cidade conservadora parece não ter conservado sua capacidade de refletir o país. Depois dos dois mortos e um ferido a tiros na avenida Pelinca, durante a comemoração do sábado pelo tri do Flamengo na Libertadores, o espelho goitacá foi da derrota.
William Passos, geógrafo com especialização doutoral em Estatística no IBGE
Um domingo e dois Brasis
Por William Passos
“Os dois Brasis” é o título de um livro publicado pela Companhia Editora Nacional, na década de 1960, de autoria do economista francês Jacques Lambert, com a pretensão de capturar a fotografia de um momento do Brasil. Considerando a “fotografia” do último momento antes das urnas deste segundo turno, as projeções divergem entre os dois institutos com a maior taxa de acerto das urnas do primeiro turno, pelo método da discrepância média. Considerando a distância ponderada entre os resultados das urnas e as últimas projeções de cada instituto antes de 2 de outubro, o Instituto MDA Pesquisa, que trabalha com a tradicional pesquisa presencial, o padrão-ouro das pesquisas eleitorais, foi o instituto com a maior taxa de acerto. Foi seguido pela AtlasIntel, que já atua em outros países e entrou no mercado brasileiro nas eleições deste ano trazendo uma novidade, a medição das intenções dos eleitores a partir da aplicação de questionários pela internet, metodologia conhecida como websurvey.
Na pesquisa MDA divulgada ontem, o instituto projetou o encurtamento da distância e a possibilidade de virada de Bolsonaro nesta reta final. Considerando os votos válidos, que são aqueles contabilizados pelo TSE, a diferença, na véspera da eleição, era de apenas 2,2 pontos, com Lula aparecendo com 51,1% e Bolsonaro alcançando 48,9%, dentro da margem de erro de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos. Nos últimos dias, segundo o último levantamento da MDA antes das urnas deste segundo turno, a intenção de voto em Bolsonaro cresceu, enquanto a de Lula caiu, com a curva da rejeição a Lula superando a de Bolsonaro, o que significa tendência de reeleição do capitão.
Já a AtlasIntel de ontem projetou estabilidade do cenário de intenção de voto, com Lula abrindo uma confortável vantagem de 53,4% a 46,6% nos votos válidos. Mesmo com o impacto das abstenções proporcionalmente desfavorecendo o ex-presidente, Lula da Silva, que disputou seis das noves eleições presidenciais desde a redemocratização, seria eleito para um inédito terceiro mandato, já que “nunca antes na história desse país” um presidente foi eleito por três vezes pelo voto direto.
Nascido na localidade de Caetés, no município de Garanhuns, no interior de Pernambuco, em 27 de outubro de 1945, dois dias antes do golpe de Estado que depôs Getúlio Vargas para a instauração da democracia, Lula é o sétimo de oito filhos de um casal de lavradores analfabetos. Abandonado pelo pai poucos dias antes da mãe dar à luz, ainda criança imigrou para o município do Guarujá, no interior de São Paulo.
Também no interior paulista, no município de Glicério, apesar do registro em Campinas, 10 anos depois do retirante nordestino, nascia Jair, numa família de imigrantes italianos e alemães, o terceiro de seis irmãos. Entretanto, a São Paulo que une os dois candidatos que são o retrato do interior do Brasil também é a mesma que separa “Os dois Brasis: Brasil do Norte e Brasil do Sul”, conforme o título de um livro de Rui Antonio Amorim, autor paulista nascido em Oriente, que narra a crônica de um país dividido por um impasse de governabilidade. A solução encontrada foi a divisão do território nacional em dois países, com base no mapa eleitoral das urnas presidenciais de 2014. Naquele segundo turno, Dilma Rousseff, que venceu no Norte e no Nordeste, mas perdeu no Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul, foi reeleita impondo a Aécio Neves uma estreita margem de cerca de 3,5 milhões de votos. Em números redondos, 52% a 48% dos votos válidos.
A diferença de 4 pontos das urnas de 2014 é exatamente a mesma projetada pelo Datafolha de ontem, em favor de Lula. O instituto paulista cravou numericamente os resultados das urnas nas pesquisas de véspera das duas últimas eleições presidenciais (2014 e 2018). Considerando o conjunto dos institutos de pesquisa com maior credibilidade do país, o que se tem de concreto, além da vitória de um candidato que já presidiu o Brasil, é que, novamente, assim como em 2014, a vitória será dos detalhes. Será definida pelo impacto da alienação eleitoral, isto é, dos eleitores que faltarem, anularem ou branquearem o voto, como a grande variável determinante do resultado eleitoral deste segundo turno. Além dos votos “virados” de última hora, vencerá aquele que conseguir maior comparecimento às urnas da fatia do seu eleitorado. Ganhe quem ganhar, o mais importante é que a democracia triunfe e o que o resultado eleitoral seja respeitado. Sem a suspeição como a lançada em 2014 por Aécio Neves, que pediu a recontagem dos votos.
Num Brasil tão dividido por clivagens ideológicas, que têm retornado a cada eleição, e que deverá opor o Brasil do Nordeste, onde Lula deve massacrar nas urnas, ao Brasil do restante do país, onde Bolsonaro deverá vencer, por maior ou menor margem de votos, nosso amadurecimento enquanto povo, sociedade e nação passa pela coexistência entre a nossa separação de ideias, opiniões, desejos e aspirações e a nossa união pelo respeito ao jogo democrático. Na democracia, nem sempre escolhemos quem queremos que governe. Muitas vezes escolhemos a quem queremos fazer oposição. Para você, que tem nos acompanhado, o meu agradecimento e o desejo de um bom voto neste domingo. Viva a democracia! Viva o Brasil, uma das maiores democracias do planeta!
“As aparências enganam, aos que odeiam e aos que amam/ Porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões”. Os versos de Sérgio Natureza para a música de Tunai se imortalizaram na voz de Elis Regina, em “As aparências enganam”, clássico da MPB. E talvez seja a melhor definição da eleição presidencial de hoje. A mais polarizada desde a redemocratização do país, após sua última ditadura militar (1964/1985). Durante todo este ano eleitoral de 2022, a Folha buscou se afastar das paixões, olhando o complexo processo pela objetividade dos números das pesquisas. E, para tentar projetar o 2º turno de hoje, busca as duas de ontem (29) dos institutos que mais acertaram no 1º turno de 2 de outubro: MDA e AtlasIntel. Ambas reforçam a incerteza sobre o resultado final da apuração na noite de hoje.
MDA e ATLASINTEL — A MDA registrou ontem um empate técnico entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (PL): 51,1% a 48,9% dos votos válidos (excetuados os brancos e nulos). A diferença entre os dois seria de 2,2 pontos, exatamente a margem de erro da pesquisa. Por sua vez, a AtlasIntel de ontem deu a Lula 53,4% dos votos válidos, contra 46,6% de Bolsonaro. Pela pesquisa, a diferença entre os dois seria de 6,8 pontos, muito acima da margem de erro e 1 ponto para mais ou menos.
DO 1º AO 2º TURNO — No 1º turno, a MDA ficou distante da urna por 1,82 ponto; a AtlasIntel, por 2 pontos. Mas essa diferença desprezível de 0,18 ponto nas projeções dos dois institutos, 28 dias depois, subiu para 4,6 pontos no 2º turno. Na prática, a MDA de ontem mostrou uma eleição hoje sem favoritos entre Lula e Bolsonaro, enquanto a AtlasIntel apontou um favoritismo relativamente confortável ao petista.
TENDÊNCIAS — Mais do que os números de intenções de voto, as pesquisas revelam tendências. E elas também são bem diferentes. Entre as duas MDA do 2º turno, de 16 e 29 de outubro, Lula perdeu 2,4 pontos (53,5% a 51,1%) nos últimos 13 dias, enquanto Bolsonaro cresceu os mesmos 2,4 pontos (46,5% a 48,9%). Já nas quatro pesquisas AtlasIntel do 2º turno, Lula confirmou em cada uma a tendência de alta moderada, ganhando no total 1 ponto aos 52,4% que tinha em 13 de outubro. Bolsonaro em evolução igual em número, mas na direção inversa, veio caindo nas quatro pesquisas até perder 1 ponto dos 47,6% que tinha há 16 dias.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
BOCA DO JACARÉ — Em outras palavras, a MDA mostra que vem caindo a vantagem de Lula a Bolsonaro em todo o 2º turno, com o primeiro em viés de baixa e o segundo de alta. Na imagem dos analistas de pesquisas, é a boca do jacaré se fechando. Por sua vez, a AtlasIntel mostra que vem crescendo a vantagem do petista ao capitão, com o primeiro em viés de alta e o segundo de baixa. Na imagem oposta, seria a boca do jacaré abrindo.
QUAEST, SEM PESQUISAS DA “GLOBOLIXO” — Para saber qual tendência está correta, necessário se olhar para outras pesquisas. Sem usar a Datafolha carimbada pelo bolsonarismo, tampouco a Ipec (antigo Ibope), também contratada pela “Globolixo”, que ontem também soltaram novas pesquisas, o dia também trouxe a nova consulta do instituto Quaest. Nela, Lula apareceu com 51,4% dos votos válidos, com 48,6% de Bolsonaro. A diferença de 2,8 pontos entre os dois é bem mais próxima dos 2,2 pontos da MDA do que dos 6,8 pontos da AtlasIntel.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
REFORÇO NA TENDÊNCIA — Com margem de erro de 2 pontos para mais ou menos, a Quaest também revelou tendência mais próxima da MDA. Como ela, indica viés de baixa de Lula e de alta de Bolsonaro. Nas seis pesquisas Quaest no 2º turno, o petista perdeu 2,5 pontos dos 53,9% que tinha em 6 de outubro aos 51,4% de ontem. Por sua vez, o capitão ganhou os mesmos 2,5 pontos, de 46,1% a 48,6%, no mesmo período de 23 dias. Na imagem dos analistas, a boca do jacaré também vai para a urna de hoje se fechando.
REJEIÇÃO — Considerada fundamental para definir qualquer eleição de 2º turno, a rejeição não é mais liderada por Bolsonaro em todas as pesquisas. Na MDA, pela primeira vez na série desde julho, Lula aparece à frente numericamente no índice negativo: 47,3% a 47,2% do capitão. Na AtlaIntel, Bolsonaro ainda lidera a rejeição, por 53% a 48%. Ele também lidera na Quaest, com 48% que não votariam nele de maneira nenhuma, contra 44% de Lula. O empate quase exato na MDA é um empate técnico na Quaest, no limite da margem de erro. Só na AtlasIntel, Bolsonaro permanece com rejeição em diferença destacada para Lula. Na dúvida, a certeza aritmética: com rejeição igual ou próxima, qualquer resultado é possível na urna de hoje.
(Infográfico: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
ABSTENÇÃO — Outro fator que também vem sendo considerado como fundamental à definição da eleição é a abstenção. Historicamente, ela é maior no 2º turno. Em 2014, por exemplo, os 19,39% de eleitores ausentes no 1º turno cresceram para 21,10% no 2º turno. Em 2018, os 20,32% de abstenção no 1º turno cresceram para 21,29% no 2º turno. No 1º turno de 2 de outubro de 2022, a abstenção foi de 20,95%. Como todas as pesquisas evidenciam que o eleitor majoritário de Lula é o mais pobre, geralmente sem veículo automotor para ir ao local de votação, quanto maior for a abstenção, mais o petista será prejudicado.
George Gomes Coutinho, cientista político e professor da UFF-Campos
ANÁLISE DO CIENTISTA POLÍTICO — “Sobre o resultado em si, precisaremos ver as abstenções com tudo o mais constante. Utilizando o recorte populacional de até 2 salários mínimos de renda familiar mensal, eis o grosso do eleitorado de Lula. E é também o público que tem maior risco de não ir cumprir o rito da votação. Falta de dinheiro inclusive para seu deslocamento, precariedade de manutenção de direitos, tanto faz sanções por ter ido ou não votar, podem causar estragos nos votos lulistas. Algo que não vejo no caso dos eleitores de Bolsonaro. Muitos estão em estado de ‘vigília‘ neste dia 30, tendo até mesmo coerção do grupo, caso alguém ouse se abster. Com tudo isso, ainda aposto que a liderança nas pesquisas irá se refletir em votos válidos favoráveis para Lula”, projetou o cientista político George Gomes Coutinho, professor da UFF-Campos.
APÓS A APURAÇÃO — Vista pelo prisma da razão, a passionalidade inflamada que marca até aqui esse pleito, com recorde de assédio eleitoral de patrões sobre empregados no país, inclusive numa Campos bolsonarista em que funcionários de padaria são obrigados a trabalhar vestidos de amarelo 22, restam duas certezas. A primeira? No sigilo inviolável da urna, a sua decisão é apenas sua, intransferível e a mesma em valor a de qualquer outro eleitor, rico ou pobre, na maravilha da democracia. A segunda? Encerrada a apuração, caberá aos perdedores que já tinham perdido a razão pela paixão, outro verso de Sérgio Natureza à música de Tunai, imortalizado por Elis: “Não há mais nada pra se fazer, senão chorar sob o cobertor”.
Segundo instituto que mais se aproximou do resultado das urnas no 1º turno de 2 de outubro, o AtlasIntel divulgou nesta véspera do 2º turno sua pesquisa para as urnas de amanhã. Nela, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) hoje tem 53,4% dos votos válidos, contra 46,6% do presidente Jair Bolsonaro (PL). A diferença entre os dois hoje é de 6,8 pontos, fora da margem de erro de 1 ponto para mais ou menos. Nas quatro pesquisas da série Atlas no 2º turno, Lula confirmou em cada uma a tendência de alta moderada, ganhando no total 1 ponto aos 52,4% que tinha em 13 de outubro. Bolsonaro em evolução exatamente igual, mas na mão inversa, veio caindo nas quatro pesquisas até perder no total 1 ponto dos 47,6% que tinha há 16 dias.