Ex-vereadora e subsecretária municipal de Políticas para as Mulheres, Josiane Morumbi é a convidada do Folha no Ar desta quarta (8), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ela falará sobre o Dia Internacional da Mulher em meio a tantos casos de violência contra a mulher em Campos, além das políticas do município para atender às campistas.
Josiane também analisará a pacificação entre o prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) e o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar (PL), além do tabuleiro político que já começa a mexer suas peças para as eleições municipais de 2024.
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Secretário estadual de Habitação de Interesse Social e deputado estadual reeleito, Bruno Dauaire (União) é o convidado do Folha no Ar desta terça (07), ao vivo, a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Ele falará da sua volta ao governo Cláudio Castro (PL) como parte do acordo de pacificação entre o prefeito Wladimir Garotinho (sem partido) e o presidente da Alerj, deputado Rodrigo Bacellar (PL).
Bruno também analisará as movimentações com vistas às eleições municipais de 2024 em Campos e São João da Barra. E falará do seu voto declarado no ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e do Brasil no novo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
“Velha e menino com velas” (1616/1617), Peter Paul Rubens, Museu Mauritshuis, Haia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Era o domingo de 1º dia de janeiro de 2023 quando pai e filho embarcaram no Galeão. E, quase 12 horas depois, a segunda-feira do segundo dia do ano, quando desceram em Amsterdã. Após o sol correr a Terra no sentido contrário ao avião, era o início da manhã quando foram de uber ao hotel, fizeram o check in e deixaram as bagagens no locker. Enquanto o quarto não ficava pronto, foram bater pernas na Damrak, avenida principal do centro da capital da Holanda.
O frio fez com que entrassem na primeira loja de souvenirs. O filho comprou logo um par de luvas de lã. O pai também, além de um gorro cinza, com o nome Amsterdã e o peculiar XXX da cidade. Muito antes do triplo da letra ser usado para classificar filmes pornográficos nos EUA, ou da Rua da Luz Vermelha ficar conhecida no mundo pelas prostitutas se exibindo em vidraças, aquário do ensino fundamental a quem havia se formado na Atlântica da Copacabana dos anos 1990, o X medieval tem simbologia oposta. É a cruz em que Santo André, apóstolo de Jesus e irmão de Pedro, foi crucificado.
Enquanto vestia o gorro na cabeça, o pai pensou que o nome Amsterdã, na própria cidade, denunciava a condição sempre cafona de turista. Como um europeu usando camisa do Cristo Redentor no Rio. Mas que teria efeito inverso, descolado, assim que saíssem da Holanda. O filho quis sacaneá-lo, dizendo que parecia gorro de pescador. Quem o usava lembrou de Atafona, do outro lado do Atlântico. E, por isso, teve orgulho da peça com que se protegeria do frio em boa parte dos 47 dias seguintes, no inverno rigoroso do Hemisfério Norte, entre Europa, África e Ásia.
Pai e filho na Olde Kerk, primeira construção pública de Amsterdã, de 1213 (Foto: Ícaro Barbosa)
Antes de voltarem ao hotel no final da tarde, para descansarem da viagem de avião, do dia de caminhada e do frio, foram tomar a benção à Oude Kerk. Esvaziada de fiéis, como a maioria dos templos cristãos na Europa setentrional, é primeira construção pública em Amsterdã, de 1213. E, com a Reforma, seria convertida ao calvinismo em 1578. Desta época, não da Rua da Luz Vermelha, veio o XXX. No entanto, a simulação do Santo Sepulcro em uma câmara da igreja medieval era montada no efeito da luz vermelha filtrada pelos vitrais. A predestinação do Cristo de Calvino levou à reflexão da condição feminina entre Madalenas e Genis.
Autorretrato de Van Gogh, com detalhe em painel ao fundo, Vicent Van Gogh, Museu Van Gogh, Amsterdã (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
“Piada”, Vicent Van Gogh, Museu Van Gogh, Amsterdã (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Na terça de 3 de janeiro, dedicaram o dia, com ingressos comprados pela internet desde o Brasil, à visitação ligeira ao Palácio Real de Amsterdã e, lenta, ao Museu Van Gogh. Eram distantes um do outro, mas pai e filho foram andando para conhecer melhor a cidade e esquentar do frio. Diante do maior acervo mundial de Van Gogh, com seus vários autorretratos e obras primas como “Os comedores de batata”, “Piada”, “O quarto”, “A Ponte Langlois”, “Paisagem marinha perto de Santa Maria do Mar”, “Pietá” e, sobretudo, “Campos de trigo com corvos”, a sensação era de passear entre as pinceladas de vigor agônico. Como no episódio de “Sonhos” (1990) em que o alter ego de Akira Kurosawa encontra o Van Gogh, após este cortar a própria orelha, interpretado por Martin Scorsese.
“Os comedores de batata”, Vicent Van Goh, Museu Van Gogh, Amsterdã (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
“Moça com brinco de pérola” (1665), Johannes Vermeer, Museu Mauritshuis, Haia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Na quarta de 4 de janeiro, foram e voltaram de trem a Haia. É a sede, de fato, do governo da Holanda. Lá, o rei Guilherme Alexandre cumpre os deveres de chefe de Estado, no Palácio Noordeinde. E se assentam as duas Câmaras no complexo gótico Binnenhof, Parlamento em atividade mais antigo do mundo, às margens do Lago Hofvijver. Como o Museu Mauritshuis, cujo nome indica o proprietário original do prédio, Maurício de Nassau. Entusiasta das artes e ciências, governou a colônia holandesa no Pernambuco do século 17, atrás da riqueza do açúcar. E passou a ser chamado na Europa de “o Brasileiro”, como o pai e o filho brasileiros descobriram lá.
Sem sombra de dúvida, a grande garota propaganda do Mauritshuis é “Moça com brinco de pérola”, de Johannes Vermeer. O quadro gerou um filme homônimo, de 2003, dirigido por Peter Webber, que lançou a musa Scarlett Johansson ao estrelato. Mas quem quiser buscar o Brasil do Nordeste de quse 400 anos atrás, também vai achar no museu. Em pinturas como “Paisagem brasileira com uma casa em construção” e “Vista da Ilha de Itamaracá”, ambos de Frans Post; e “Estudo sobre duas tartarugas do Brasil”, de Albert Eckhout.
“Paisagem brasileira com uma casa em construção” (1655/1660), Frans Post, Museu Mauritshuis, Haia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Autorretrato de Rembrandt (1669), Museu Mauritshuis, Haia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Outros grandes mestres, como Rembrandt, também estão lá. Não só com um dos seus autorretratos que tanto devem ter influenciado Van Gogh, vistante assíduo do Mauritshuis, quanto uma das suas obras primas: o revolucionário “A lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp”. Ao pai, no entanto, nenhuma pintura do museu marcou tanto quanto “Velha e menino com velas”, do barroco Peter Paul Rubens. Desde que fôra ao Museu do Prado, na Madri de 2006, em busca do “Saturno” de Francisco de Goya, e tropeçou ao acaso com o “Saturno” de Rubens, anterior e com o qual o espanhol dialogou, a vertigem da queda nunca mais se desfez.
“A lição de anatomia do Dr. Nicolaes Tulp” (1632), Rembrandt van Rijn, Museu Mauritshuis, Haia (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
Em “Velha e menino com velas”, Rubens confessamente se inspirou no italiano Caravaggio, precursor do mesmo barroco que, no Brasil, produziria Aleijadinho. Nunca quis vender o quadro que pintou para si, da velha a proteger os olhos com a mão esquerda da luz da vela acesa que ilumina a cena, segura com a direita e buscada pelo menino com a vela apagada, enquanto olha a idosa. Outra luz busca acender naquela já consumida pela chama. No grupo de WhatsApp criado como diário de viagem, o pai confessou, ainda profundamente impactado: “À minha sensibilidade, e apenas a ela, sem nenhuma pretensão de convencer a mais ninguém, Rubens é o maior artista que já existiu”.
A quinta do dia 5 era o último dia inteiro em Amsterdã. No início da tarde de sexta, embarcariam no avião ao Cairo, capital do Egito. Ainda na da Holanda, programaram visitar o Rijkismuseum, ao lado do Museu Van Gogh. Mas, diferente deste, não compraram ingressos previamente. E, ao chegar lá, descobriram que a bilheteria já estava esgotada para o dia. O filho foi comprar lembranças aos seus, enquanto o pai sentou em uma jardineira da Museumplein (“Praça dos Museus”). Dedicou-se a observar os pombos, corvos e gaivotas que disputavam o espaço, entre arrulhos e grasnados, em busca dos restos humanos.
O filho voltou. Com o hiato no último dia holandês, resolveram caminhar até o canal e fazer um passeio de barco. Do que viu e ouviu no audioguia, o pai teve um insight com a sua terra, agora tão distante. Como um bem-te-vi estaria na disputa ornitológica que testemunhara. Na véspera de embarcar ao Egito, registrou no diário de viagem em grupo de WhatsApp:
Amsterdã vista de barco pelos seus canais (Foto: Ícaro Barbosa)
— No passeio de hoje entre os canais concêntricos que formam a cidade, como obra gradual do homem em adaptação à natureza, a partir do represamento do rio Amstel, no século 13, veio forte a imagem: Amsterdã é em muitos sentidos uma anti-Atafona. É o que Campos e São João da Barra poderiam ter sido, com suas mesmas redes de canais e origem em planície de aluvião dada ao mar: nós, ao Atlântico; eles, ao Mar do Norte. A imagem se reforça quando lembrado como nós, campistas e holandeses, disputamos o domínio do mesmo rico ciclo do açúcar brasileiro no século 17. A diferença básica, de lá para cá, é que eles não pararam ali. Adaptaram-se ao meio e aos novos tempos.
Nildo também analisará o debate que já se inicia sobre as urnas de Campos para 2024. Assim como o Brasil pós-Jair Bolsonaro (PL), cuja tentativa de reeleição apoiou em 2022, nos dois primeiros meses de 2023 sob o novo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta sexta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Ao vivo, a partir das 7h da manhã desta quinta (02), Dom Fernando Rifan, bispo da Administração Católica Pessoal São João Maria Vianney, é o convidado do Folha na Ar, na Folha FM 98,3. Ele falará sobre o cristianismo e a história das religiões monoteístas em tempo de Quaresma, menos lembrado do que aqueles que celebram o Carnaval.
Sempre atento à política, Dom Rifan analisará também seu cenário nos planos nacional, estadual e municipal. Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quinta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Nildo Cardoso, que se aproximou com Abdu Neme do governo Wladimir, confirmou ontem o que a oposição reivindicava: Trabalho e Renda, Meio Ambiente e Fundação dos Esportes (Foto: Rodrigo Silveira/Folha da Manhã)
O que a oposição quer do governo?
Antagonistas como seus pais, o clima parece pacificado entre o presidente da Alerj, deputado estadual Rodrigo Bacellar (PL), e o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho (sem partido). Há quem diga que se, hoje, alguém falar mal de Rodrigo perto de Wladimir, arrumará briga com este. E vice-versa. O último impedimento à pacificação seria a relação do governo com a Câmara Municipal comandada por Marquinho Bacellar (SD), eleito presidente pela oposição. Que, enquanto perdia a maioria, estaria reivindicando três pastas do prefeito para consumar o acordo: Trabalho e Renda, Meio Ambiente e Fundação dos Esportes.
O que já tem o prefeito?
Como a sessão de ontem (28) provou, Wladimir já tem maioria mínima na Câmara: 13 a 12. Vereadores experientes da Legislatura, Nildo Cardoso (União) e Abdu Neme (Avante) — como dizia o ex-governador Leonel Brizola (PDT) — “costearam o alambrado”. Raposas da política, os dois driblaram a oposição comandada por Marquinho. E fizeram sua aproximação própria com o governo Wladimir. Que foi costurada pelo vice-prefeito, Frederico Paes (MDB). Nildo emplacou o psicólogo Hans Muylaert e o empresário Alfredo Dieguez, respectivamente, na presidência e vice da Emhab. E, ontem, disse que as indicações seriam também de Abdu.
Pacificação e por trás dela
Todos esses movimentos foram antecipados pelo jornalista Rodrigo Gonçalves nesta coluna, no blog “Caminhos”, em matérias na Folha da Manhã e no Folha1. Assim como a resistência de quem já era governo em ceder espaço a quem o cobra para deixar de ser oposição, e virar “independente”, na Câmara. Fato é que, dos dois lados, há quem lucre com a briga. Como há quem receie o que a pacificação vá custar no fortalecimento das nominatas adversárias a vereador em 2024. Até aqui, a aposta ainda majoritária entre os campistas é que o acordo é laticínio: teria prazo de validade. Mas tem fiador de peso: o governador Cláudio Castro (PL).
Wladimir e Rodrigo: momentos e metas
A um ano e oito meses da urna de 2024, até um tsunami pode passar embaixo da ponte. Mas, se o curso das águas se mantiver, Wladimir hoje é favorito à reeleição a prefeito. Como sua mãe, Rosinha, foi em 2012. Rodrigo Bacellar sabe disso e tem outros objetivos. Com capacidade de articulação endossada na ascensão meteórica na política fluminense, presidente da Alerj em apenas dois mandatos de deputado, poderá subir o sarrafo para 2026. Ainda faltam três anos e oito meses, mas como a reeleição não poderá ser tentada por Castro e como este provou em 2022, quem tem a máquina do RJ sai na frente para se manter com ela.
Paes e Caio
O prefeito carioca Eduardo Paes (PSD) mira há mais tempo a eleição a governador. Tentou em 2018, quando foi engolido no segundo turno pelo ex-juiz Wilson Witzel, eleito com o então desconhecido Castro como vice, no tsunami do bolsonarismo. Paes pode fazer com que Caio Vianna (PSD), eleito terceiro suplente de deputado federal em 2022, assuma mandato em Brasília. Para ganhar visibilidade e disputar a Prefeitura de Campos em 2024. Mas, sem o apoio de Bacellar, com quem se aliou e rachou na eleição a prefeito de 2020, o filho do ex-prefeito Arnaldo Vianna (PDT) teria menos chance. Wladimir só não se elegeu no primeiro turno de 2020, tendo que disputar o segundo com Caio, porque Rodrigo lançou Dr. Bruno Calil.
Thiago e Jefferson
Ex-vereador e hoje colega de Rodrigo na Alerj, à qual se elegeu em sua primeira tentativa, o deputado Thiago Rangel (Podemos) também sonha disputar a Prefeitura no ano que vem. Na qual, como Caio, também precisaria do apoio dos Bacellar. Quem não conta nem com o apoio deles, nem dos Garotinho, mas pode apresentar candidato próprio a prefeito de Campos em 2020, é o PT. Com Lula de novo presidente, a executiva municipal do partido se reúne neste mês de março para debater isso. O objetivo principal, como alertam lideranças petistas jovens e mais experientes da planície, é voltar a montar uma nominata capaz de eleger um vereador.
Momento e meta do PT
Em um município que deu a Bolsonaro 63,14% dos votos válidos no segundo turno presidencial de 2022, contra 36,86% de Lula, um prefeitável do PT não parece ter chance contra. Sobretudo contra o favoritismo hoje de Wladimir, ou a força estadual de Rodrigo. No entanto, reitor do IFF, o professor Jefferson Manhães de Azevedo sai do cargo em 2024. Tem experiência exitosa na administração pública, com a qual poderia qualificar o debate. E um perfil que poderia furar a bolha de esquerda para tentar penetrar na “pedra” bolsonarista da cidade. O que já seria uma vitória tática do PT. E estratégia individual para disputar a deputado em 2026.
Carla, Natália e Sérgio
Outro nome petista, a deputada estadual Carla Machado já foi lembrada no passado, como o reitor do IFF, para disputar a Prefeitura de Campos. Mas após deixar a de SJB antes da metade do seu quarto e mais questionado mandato, o melhor momento para essa migração pode ter passado. Revelação da eleição de 2020, na qual quase superou o então prefeito Rafael Diniz (Cidadania), a professora Natália Soares (Psol) vê pessoalmente com simpatia a possibilidade da candidatura de Jefferson pelo PT. Ex-prefeito, Sérgio Mendes (Cidadania) fala em disputar novamente o cargo. Para tentar passar a limpo o seu bom governo, entre 1993 e 1996.
Ao vivo, a partir das 7 da manhã desta quarta (1º), o convidado do Folha no Ar, na Folha FM 98,3, é o historiador, professor e escritor Arthur Soffiati. No tempo de Quaresma, ele falará sobre as três grandes religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo e islamismo — pelos olhos da História.
Soffiati também analisará o Brasil pós-Jair Bolsonaro (PL), após os dois primeiros meses do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta quarta poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
O radialista Cláudio Nogueira e os jornalistas Aluysio Abreu Barbosa e Rodrigo Gonçalves têm um bate papo sobre política na manhã desta terça (28), ao vivo a partir das 7h da manhã, na Folha FM 98,3. Os três falarão sobre a política de Campos entre a Prefeitura e a Câmara Municipal, com a presidência de oposição e acordo com o governo.
Cláudio, Aluysio e Rodrigo também falarão do panorama político fluminense, com a eleição do deputado estadual campista Rodrigo Bacellar (PL) à presidência da Assembleia Legislativa. E da nacional, com o novo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Quem quiser participar ao vivo do Folha no Ar desta terça poderá fazê-lo com comentários em tempo real, no streaming do programa. Seu link será disponibilizado alguns minutos antes do início, na página da Folha FM 98,3 no Facebook.
Cume do Monte Sinai, 25 de janeiro de 2023 (Foto: Ícaro Barbosa)
Noite de 24 de janeiro, balneário de Sharm el-Sheik, sul da Península do Sinai. Que compõe a porção asiática do Egito, país cuja maior parte do território, população e principais cidades está no nordeste da África. Esta deixada para trás, já diante das águas azuis do Mar Vermelho, o sol do dia era um presente a pai e filho. Seus corpos estavam saudosos do trópico naquela peregrinação, no inverno rigoroso do Hemisfério Norte, pela História das três grandes religiões monoteístas — judaísmo, cristianismo e islamismo — por três continentes.
Como a francesa Marie bem definira numa das noites frias de Saqqara, no Baixo Egito magrebino de 15 dias antes, entre os hóspedes europeus e sul-americanos reunidos com os anfitriões egípcios na varanda da pousada, em busca universal pelo calor da fogueira de madeira sobre o tonel de ferro cortado: “Alexandria é o balneário marinho do Egito para os egípcios; Sharm el-Sheik é para os europeus”. Como confeririam depois, é uma espécie de Búzios deles, tão ao gosto aqui dos argentinos e campistas.
Como o Brasil desnudo na tragédia das chuvas no litoral norte de São Paulo no último domingo (19), com o perigo das suas encostas reservado aos pobres, o Egito não é para amadores. Sobretudo a quem encara suas complexidades por conta e risco próprios, sem a proteção de uma excursão. É um país com passado sem par, o presente muito complicado e sem boa perspectiva de futuro. Que convulsiona economicamente, no anticlímax de mais de uma década após a Primavera Árabe de 2011. Chamada pelos egípcios de “Revolução”, redundou na ditadura militar na qual são governados há nove anos pelo general/presidente Abdel Fattah el-Sisi. Desde que este derrubou seu antecessor eleito democraticamente, Mohamed Morsi.
O Egito de hoje projeta o que o Brasil poderia se tornar se Bolsonaro tivesse sido reeleito em outubro. Ou se a tentativa esquizofrênica de golpe dos seus apoiadores, em 8 de janeiro, tivesse algum efeito prático além de dar outro vexame verde e amarelo ao mundo.
Após cruzarem de carro, barco e avião o Egito de verdade, da África, do Mar Mediterrâneo ao norte, diante de Alexandria, até Aswan, perto da fronteira com o Sudão ao sul, pai e filho não estavam em Sharm el-Sheik pela condição de “ilha europeia” que lhe é atribuída. Mas por sua proximidade com o Monte Sinai. Esperavam na noite de 24 de janeiro por um ônibus ou van. Chegou um táxi, que os levou nos 211 km de estrada, enquanto caíam no sono boa parte da viagem.
Após chegarem, antes de ir ao banheiro, seguido por um beduíno para lhe cobrar pelo uso, o pai entregou ao motorista do táxi os passaportes brasileiros pedidos para autorizar a subida com as autoridades policiais. O filho, atento, seguiu os passaportes. Quando todos voltaram a se encontrar, o motorista apresentou o guia. Era um beduíno gentil, que se apresentou: Jamil. O nome relativamente comum ao Norte Fluminense, por sua grande migração sírio-libanesa, foi dado com a explicação em riso de orgulho contido: “Em árabe, Jamil significa ‘belo’”.
Apresentações feitas, o pai explicou ao guia que tivera uma crise de hérnia de disco na lombar, a dois dias de deixar o Brasil. Cujos sintomas, com dor aguda e travamento do corpo, tinham dado trégua após uma semana de tratamento com anti-inflamatórios e analgésicos fortes, receitados por seu clínico e levados na bagagem, além de sessões diárias de alongamento da coluna, para espaçar as vértebras. Mas aquela viagem, pela Holanda e o Egito, tinha sido de caminhadas intensas. Como seria depois, por Israel, Palestina e França. O ritmo de subida e descida, portanto, teria que ser lento, com a possibilidade de a hérnia voltar a travar o corpo.
Já era o início da madrugada de 25 de janeiro quando iniciaram do Mosteiro de Santa Catarina, templo cristão em atividade mais antigo do mundo, o tracking de 6 km de subida ao maciço de granito de 2.285 metros. Monte Sinai no nome grego dos cristãos, Monte Horebe (“Monte de Deus”) dos judeus e Jebel Muça (“Monte de Moisés”) dos árabes. É igualmente sagrado em sua força ainda viva de Big-Bang às três religiões. De seu cume, Moisés teria descido com os 10 Mandamentos dados por Deus, para guiar o povo israelita do cativeiro no Egito à Canaã (a “Terra Prometida”), em peregrinação de 40 anos pelo Deserto do Sinai.
Narrada no segundo capítulo do Velho Testamento, a aventura do Êxodo, de certa maneira, era a bússola à viagem de pai e filho. Entre os contornos de rochas e camelos na penumbra de 3.300 anos depois, alugados por condutores beduínos para quem não aguentasse subir em pernas próprias. E sob um céu cada mais estrelado à medida em que se subia. Lindo com a Polar a apontar o Norte, mas alienígena ao nosso Hemisfério sem o Cruzeiro do Sul.
Após os olhos se acostumarem a ela, a ausência de luz incomodava menos que sua presença nas lâmpadas dos pontos de parada espaçados no caminho. Ao longe, cegavam mais que a escuridão. Pararam em dois deles, onde beduínos vendiam café, chá e chocolate quente. Como tinham levado água, pai e filho não quiseram beber mais nada. Pelo passo mais lento do primeiro, preocupado em não forçar a lombar, Jamil se ofereceu para levar sua mochila. Oferta que foi cordialmente recusada: “shkran!” (“obrigado”).
Após passarem vários pontos com neve, chegaram um pouco antes de 3h da manhã ao último ponto de parada antes do cume. Antes dele, ainda restavam os 750 íngremes degraus escavados no granito do Sinai, para chegar onde Moisés chegou e tentar ver o que ele viu. Com Jamil, entraram em uma tenda beduína. Como não havia mais ninguém, além deles e do dono do local, o pai pediu licença para tirar seu infalível casaco Face North e a camisa de malha, ensopada da subida. Limpou o suor do torso nu com a toalha que a experiência brasileira da subida do Pico da Bandeira lecionara levar. E vestiu a outra camisa de malha seca que também levou, para evitar a hipotermia pela umidade, tão logo o corpo esfriasse.
Como havia recomendado muito que o filho fizesse o mesmo, o pai lhe passou a toalha. Vestiu novamente o casaco e aceitou a sugestão para alugar um cobertor pesado de lã de camelo e repousar um pouco, antes do sol nascer, em uma tenda dormitório ao lado. Quando lá deitou, com a mochila de travesseiro, estava sozinho na escuridão. Dormiu um pouco, acordou e viu que ainda era noite. Mas já contava uma dezena de vultos deitados ao seu lado. Retomou o sono até ser acordado pelo guia, que lhe informou que o filho estava em crise de hipotermia. Da boca da tenda, já vazia de outras pessoas, entrava o rubro ainda esmaecido do dia em trabalho de parto.
Foi rápido de uma tenda à outra, levando suas coisas e o cobertor beduíno. Encontrou seu filho enrolado em outro, sentado. Já parara de tremer e bebia um chocolate quente, mas estava pálido e assustado, pela reação do corpo aos 5 °C negativos, ao cansaço da subida sem descanso e ao enxugamento do torso talvez aquém do necessário. O pai disse que levaria os dois cobertores grossos para lhe esquentar no cume. E que, para chegar lá, “só” faltavam 750 degraus. Que teriam que encarar sem demora, pois o sol já ia nascer.
Com o filho ainda baqueado e o pai desequilibrado pelo peso dos cobertores, deram a arremetida final desajeitados entre os degraus altos escavados na pedra, mas subiram. Estava frio no cume, mas felizmente não ventava muito. O pai achou um lugar ainda vazio de ocupantes e com uma boa vista. Colocou seu filho numa fenda, protegido em ângulo de 90° de pedra, envolvido nos cobertores grossos de lã de camelo.
Afastou-se para ficar fisicamente sozinho, se ajoelhou, rezou e agradeceu. Acima das nuvens e dos outros cumes da cordilheira Sinai Mountain Range. Tinha à sua frente o precipício e o sol que nascia no horizonte, como todo homem diante de Deus.
Longe do Brasil há 25 dias, os últimos 20 no Egito, após os cinco iniciais de viagem na Holanda, chego agora ao hotel no balneário de Sharm el-Sheikh, no sul da Península do Sinai, entre o Deserto homônimo e o Mar Vermelho. No início da tarde daqui, 5 horas de fuso horário à frente do Brasil, venho de uma madrugada em claro em tracking puxado até o cume no Monte Sinai. De onde o profeta Moisés desceu com seus 10 Mandamentos, cerca de 1.250 antes de Cristo. E onde eu e meu filho, Ícaro, subimos hoje para ver sol nascer.
O dia é, portanto, pessoalmente, muito especial. Não só pela capital importância histórica do local às três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Mas pela força ainda viva de Big-Bang que esse poderoso maciço de granito de 2.285 metros ainda irradia do encontro do homem com o Divino, na busca de orientação e luz, no sul do deserto do Sinai. Nome grego que, através da primeira tradução da Bíblia, batiza ainda hoje ao mundo o lugar santo, chamado de Monte Horebe (ou Monte de Deus) pelos judeus e de Jabel Muça (Monte de Moisés) pelos árabes.
Mas esta quarta-feira é especial também pela publicação hoje, na página da Academia Campista de Letras (ACL) na Folha Letras, da análise da poeta e professora de Literatura do IFF e da Uenf pesquisadora e ensaísta, Analice Martins, sobre um meu poema. A data já havia sido agendada pelo presidente da ACL, o advogado, prosador e poeta Christiano Fagundes, desde o final de 2022. Quando fiz o convite à parceria honrosa com a Analice. Como as que igualmente já honraram minha obra poética os literatos Edinalda Almeida, Arlete Parrilha Sendra e Adriano Moura.
Entre alguns poemas enviados, Analice acabou por escolher um de lavra atafonense, de 1º de junho 2015. Após as imagens da noite de dois dias antes, registrados em foto no Bar do Ricardinho, à boca da foz sobrevivente do rio Paraída do Sul, serem autoficionados em versos entre Odisseu e Penélope.
Da religião e da arte, diz-se ser as maneiras que o homem criou para se ligar ao Mistério. De uma à outra, com a distância de um Equador, um Atlântico e um Mediterrâneo unida em tessituras, passemos sem mais delongas à análise de Analice do poema “teia de antes”, de quase oito anos atrás:
NA FOZ DE TODOS OS VERSOS
Por Analice Martins
Em Não-lugares: introdução a uma antropologia da supermodernidade, Marc Augé distingue os lugares de trânsito e de passagem dos que estabelecem pertencimentos e identidades. Classifica como “lugares antropológicos” aqueles em relação aos quais nos definimos, nos sentimos abrigados e nos percebemos. Nem todos os lugares de nascimento ou da infância são lugares antropológicos. Podem até ser lugares da memória — guardados ou banidos —, mas não são necessariamente antropológicos.
Atafona, no litoral sanjoanense no estado do Rio de Janeiro, tem uma geografia peculiar: confluência do mar e do rio Paraíba, mangue, maré cheia e vazante. Sofre também, há anos, com um fenômeno de erosão costeira em que o avanço do mar parece tudo engolir. Na poética de Aluysio Abreu Barbosa, Atafona constitui um lugar antropológico e fundacional, de maré cheia, que sempre lhe rendeu belos poemas, irrigando registros, imaginação e memória. Embora não estejam ainda reunidos em livro, esses textos espraiam-se em jornais impressos ou eletrônicos, guardanapos, frequentam festivais de poesia e já desaguaram no espetáculo teatral Pontal, encenado pela primeira vez em 2010, a partir da coletânea não só de poemas seus, como também de Adriana Medeiros, Antônio Roberto Kapi e Artur Gomes.
Em 2004, assisti a uma palestra sobre uma pesquisa de Mestrado intitulada Atafona, patrimônio mar adentro e realizada na Universidade Cândido Mendes (Ucam). O trabalho acadêmico da arquiteta Márcia Viana Hissa Azevedo analisava, inclusive de forma antropológica, o espantoso fenômeno erosivo dessa região. Não era apenas da sobreposição de plantas urbanísticas que a pesquisa tratava, mas de memórias, histórias, ruínas. Fui seduzida pelo título poético e sugestivo. Acredito que, em certo sentido, os versos de Aluysio Abreu Barbosa também façam esse percurso, escavando areia, casuarinas, casas, embarcações. Escavando e cartografando. Por meio da palavra, seus versos fotografam instantes, estilhaçam memórias e restauram ruínas, porque é próprio da palavra literária escavar, guardar e trazer à luz: mar adentro e mar afora. A escrita literária sobre um lugar pode, às vezes, restituir o que foi devastado e erodido, pode preservar casas e tijolos, tanto quanto pode tudo dissipar e reinventar.
Engana-se quem pensa ser a obra do escritor a poética de uma nota só. Há nela lugares distantes, outras praias, outras cidades, outros países, como, por exemplo, Kioni, Ítaca, Edimburgo, York. Lugares distantes e igualmente relacionais. Mas parece ser para Atafona que o poeta sempre retorna, singrando mares, qual Ulisses retorna a sua Ítaca. O poeta é, ao mesmo tempo, Ulisses e Penélope: o que sai, o que parte; e o que fica, fia e tece: “tessitura/de seda espraiada sob a lâmpada do teto”.
Em “teia de antes”, o poeta recolhe parte da geografia física e patrimonial do pontal de Atafona nas ilhas do rio Paraíba do Sul, no cais de Ricardinho, na boca da foz, na igreja de Nossa Senhora da Penha. Recolhe e tece com ela uma outra geografia: a do afeto, daquilo que o afeta.
À primeira vista, “teia de antes” pode não se enquadrar como um poema lírico, de acordo com as definições mais rígidas da teoria da literatura, mas há um eu que, se não se assume na voz lírica diretamente, deixa-se fisgar na forma como captura o mundo à sua volta. Não há distanciamento nem descritivismo pitoresco. Ao contrário, há intensa fusão e contaminação.
No poema “Procura da poesia”, Carlos Drummond de Andrade nos adverte sobre o que não se constitui como poesia por ser, tão-somente, a cidade natal, a merencória infância ou os acontecimentos. Não são esses elementos tão decantados que emprestam aos versos sua poesia. Ou seja, não é com as coisas em si que a poesia se constrói. Para Drummond, “o que se dissipou/ não era poesia”. Portanto, não é com a “memória em dissipação” que se ergue um poema. Para que a memória seja poesia, é preciso presentificar o “antes”, é necessário escrever para não deixar dissipar, escrever para guardar, escrever para colocar de pé o que, no caso da poética de Aluysio de Abreu Barbosa, o tempo, o vento e o mar vão levando.
É com palavras e as suas “mil faces secretas” que se estrutura a poesia e que se fundam as realidades e as memórias. Nessa esteira intertextual, a também mineira Adélia Prado proclamou: “Inauguro linhagens, fundo reinos”. Faço coro com Adélia. A literatura funda reinos, muito mais do que os representa.
Na cena praiana da rotina de trabalho em que mesas de um bar e redes de pesca são recolhidas, há também o entardecer que se contempla: “o branco das garças/ bateu as asas do dia no escuro das águas”. O poema “teia de antes” mistura o corriqueiro e o ordinário das práticas cotidianas à flora e à fauna típicas da região. É, entretanto, na tessitura da seda da aranha, que se entrevê o ofício do poeta, entretido, entre(tecido), cabralinamente, na “teia tênue” de um “antes”. João Cabral de Melo Neto “tece a manhã”; Aluysio “tece o antes” na seda do dia que se vai, na memória que não quer se dissipar.
O gigante (qual o poeta), guardião dos mares, retorna a casa ao fim do dia, deixando “a si malhado na teia”, no texto-tecido de suas palavras. Assim como, no pontal de Atafona, Eros e Thanatos (vida e morte) se digladiam, na poética de Aluysio de Abreu Barbosa, há uma cartografia de pulsões em luta constante. Cada poema é uma geografia acidentada à espera de um leitor que se deixe emaranhar em sua teia.
Atafona, Bar do Ricardinho, em 30 de maio de 2015 (Foto: Aluysio Abreu Barbosa)
POEMA DE ALUYSIO ABREU BARBOSA(*):
teia de antes
a noite quedou sobre o cais do ricardinho
com a rede no fundo da canoa ancorada
nas ilhas do rio, até o branco das garças
bateu as asas do dia no escuro das águas
funcionários recolhiam as mesas do bar
e a aranha, as vítimas da sua tessitura
de seda espraiada sob a lâmpada do teto
à marcha de oito patas amarelas e negras
com a benção da penha, na boca da foz
afluíram ao outro a aranha e seu gigante
que só percebeu quando voltava à casa
ter deixado a si malhado na teia de antes
atafona, 01/06/15
(*) Poeta, jornalista e membro da ACL
Folha Letras da edição de hoje da Folha da Manhã, na contracapa da Folha Dois
Messi, Lula, Neymar e Bolsonaro (Montagem: Eliabe de Souza, o Cássio Jr.)
Com eleições no Brasil e Copa do Mundo no Qatar, este 2022 caminhando ao epílogo não foi um ano fácil. A quem trabalha na cobertura jornalística de disputas presidenciais desde a de 1989 e, de Copas do Mundo, desde 1990, a única certeza prévia é de que seria um ano pesado. O que não dava para prever, em plano local, era o rompimento do dique do rio Paraíba do Sul em Campos, levando junto parte da avenida XV de Novembro na noite da última segunda (19).
ELEIÇÕES, COPAS E ZOOLÓGICO HUMANO — Após acompanhar profissionalmente oito eleições presidenciais e oito Copas do Mundo de futebol, a torcida pessoal chegou às nonas edições de um e outro evento devidamente domada pela razão. O que sempre favorece projeções mais claras e objetivas. Como torna a observação das torcidas alheias, escancaradas pela paixão que geralmente move a política e o futebol, muito interessante. Quase que uma visita ao zoológico da própria espécie.
NUMA JAULA — Embora tenha sido a eleição a presidente mais polarizada desde a redemocratização do Brasil em 1985, a de outubro não mostrou surpresa. Não a quem buscou analisá-la objetivamente, noves fora a paixão, pelas tendências reveladas nos números das pesquisas. Que foram pateticamente questionadas até por alguns analistas experientes, mas que envelheceram mal. No Alzheimer opcional como Cloroquina para curar Covid, reduzidos a tiozinhos do WhatsApp.
NA OUTRA — Mesmo da Campos bolsonarista, a projeção da eleição presidencial não foi tão difícil. Pelo menos a quem enxerga sem os antolhos dos muares que ainda puxam carroças na cidade. E também de uma esquerda maniqueísta, da qual se esperaria a excelentíssima produção de conhecimento científico no município e na região. Mas que, da análise de pesquisas eleitorais, saca tanto quanto um aluno birrento de creche entende de química ou engenharia mecânica.
ANTES DO 1º TURNO — Entre os delírios de um extremo e outro, a preferência foi à análise séria das pesquisas BTG/FSB, Ipec, Genial/Quaest, PoderData e Datafolha. Com base nelas, não na torcida, a matéria “A 8 dias da urna, Lula e Bolsonaro nas pesquisas da semana” foi publicada em 24 de setembro, na Folha da Manhã e no blog Opiniões. Nela, duas tendências aparentemente contraditórias, mas complementares, antecipadas. E confirmadas pela urna de 2 de outubro:
— Lula manteve-se estável na casa dos 40 e poucos % de intenções de voto todo o ano de 2022. A bem da verdade, ele liderava as pesquisas presidenciais desde 2018. Mesmo depois de preso por corrupção pela operação Lava Jato, em 7 de abril daquele ano. Até ter o registro da sua candidatura indeferido em 31 de agosto, pelo mesmo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) hoje atacado pelos bolsonaristas, o ex-presidente liderava com folga maior do que hoje as pesquisas presidenciais há quatro anos. Na Datafolha de 20 a 21 de agosto de 2018, Lula tinha 39% das intenções de voto, contra 19% de Bolsonaro. Na BTG/FSB de 25 e 26 de agosto de 2018, ele tinha 35%, contra 22% do capitão — escreveu a lembrança do que tinha acontecido entre as pesquisas, a Justiça Eleitoral e as urnas da eleição presidencial anterior.
— Para liquidar a fatura no 1º turno, um candidato precisa nele atingir o mínimo de 50% + 1 dos votos válidos, excetuados brancos e nulos. Nas consultas estimuladas ao 1º turno, Lula entra na última semana antes da urna em tendência de crescimento. Se confirmar a tendência, pode repetir o que fez com ele duas vezes Fernando Henrique Cardoso (PSDB), até aqui o único presidente do Brasil eleito em turno único, em 1994 e 1998, desde que o sistema de dois turnos foi adotado no país em 1989. O feito de FHC é creditado pelos especialistas ao fato da sua eleição e reeleição presidenciais terem sido conquistadas com votação ainda em papel, mais fácil para anular o voto e reduzir o universo dos válidos. E indica o quanto a tarefa de Lula é difícil — escreveu a lembrança, além das pesquisas, dos fatos da história recente do Brasil.
ANTES DO 2º TURNO — Como projetado antes e todos hoje sabem, de fato houve o segundo turno de 30 de outubro. Um dia antes dele, com base na análise isenta da pesquisa CNT/MDA, já com o feedback de que havia sido a que mais tinha acertado o resultado do primeiro turno, foi possível afirmar em 29 de outubro, na postagem do blog Opiniões intitulada “Lula cai e Bolsonaro cresce em empate técnico no 2º turno”, com link no Folha1:
— O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem 51,1% de intenções de votos válidos, contra 48,9% do presidente Jair Bolsonaro. Ainda numericamente à frente, a tendência de Lula, no entanto, é de queda, enquanto a de Bolsonaro é de crescimento. Entre as pesquisas MDA de 16 de outubro e hoje, o ex-presidente perdeu 2,4 pontos (53,5% a 51,1%) nos últimos 13 dias, enquanto o atual cresceu os mesmos 2,4 pontos (46,5% a 48,9%). Hoje, na véspera do voto, a diferença entre os dois é quase igual: apenas 2,2 pontos, exatamente a margem de erro — foi publicado um dia antes da urna eleger Lula mais uma vez presidente por 50,9% dos votos válidos, contra 49,1% de Bolsonaro. A diferença foi de 1,8%, 0,4% abaixo do projetado.
ANTES DA COPA DO QATAR — Encerrada a eleição, a despeito do jus esperniandi (“direito de espernear”) de mais tios e tias do WhatsApp na porta dos quartéis militares, veio em novembro e dezembro a Copa do Mundo. Publicada na Folha da Manhã e no blog Opiniões em 19 de novembro, na véspera do jogo de abertura, a análise ainda era cruzada entre política e futebol. Intitulado “O que esperar do Brasil com Lula e na Copa do Qatar?”, o artigo resumia a expectativa real do hexa no futebol:
— E o Brasil na Copa do Qatar, que se inicia neste domingo? Sem a cerveja de Lula, proibida pela teocracia islâmica como a que sonham implantar aqui alguns evangélicos cristãos, o Brasil tem chances? Tem! Basta vencer uma seleção europeia em jogo eliminatório. O que não faz em Copa do Mundo desde a final em que bateu a Alemanha por 2 a 0. Foi há 20 anos.
ANTES DA CROÁCIA — Passada a fase inicial de pontos corridos, com as vitórias de 2 a 0 sobre a Sérvia, e de 1 a 0 sobre a Suíça, fechada com a derrota de 0 a 1 para Camarões, a Seleção Brasileira estreou na fase eliminatória nos 4 a 1 sobre a Coreia do Sul pelas oitavas. Para encarar nas quartas seu primeiro adversário europeu em jogo eliminatório: a Croácia de Luka Modric. Em 8 de dezembro, véspera do jogo, uma postagem no blog Opiniões antecipou desde o título o que determinaria o resultado: “Ritmo do jogo definirá o Brasil e Croácia desta sexta”:
— No Brasil e Croácia que abre nesta sexta (9), ao meio-dia de Brasília, as quartas de final da Copa do Mundo no Qatar, no estádio Cidade da Educação, a vaga para as semifinais será decidida pelo ritmo do jogo. Se for veloz, com seus dois jovens atacantes abertos pelas extremas (Raphinha pela direita e Vini Jr. pela esquerda) e sua maior intensidade de jogo, o Brasil tende a confirmar seu favoritismo. Se o ritmo for mais cadenciado, imposto pelo técnico e experiente meio de campo da Croácia (o volante Brozovic, o maestro Modric e Kovacic), a atual vice-campeã mundial aumenta suas chances de surpreender.
Após declassificar o Brasil na disputa de pênaltis, o veterano craque Modric consola o jovem atacante Rodrygo, seu companheiro de Real Madrid (Foto: Maja Hitij/Fifa/Getty Images)
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA — O que foi alertado por um cronista esportivo da periferia, foi aparentemente ignorado por toda uma comissão técnica regiamente paga. E que vinha da experiência de outra desclassificação no primeiro confronto contra um europeu em jogo eliminatório, no 2 a 1 da Bélgica em 2018. Pelo menos, ganharam muito dinheiro. O que não se pode dizer da torcida cujo “patriotismo” cometa só surge de quatro em quatro anos. Sem aprender nada com o que a bola leciona, doída como chute de Roberto Carlos na cara, há 20 anos.
A CINOFILIA DO FUTEBOL — Tão patéticos quanto os “patriotas” nos quartéis, são também tão desinteligentes quanto. A torcida pela contusão de Neymar, numa Copa do Mundo de futebol, por conta de política, gabarita o QI da ameba da samambaia de plástico. O oba-oba festivo e geralmente bêbado, concluído com mais uma ressaca de dor de corno, é a antítese do “complexo de vira-latas” de Nelson Rodrigues. Na cinofilia tupiniquim, é como um Fox Paulistinha que pensa ser Fila Brasileiro. Com o latido deste outrora temido cada vez mais distante. Para tentar voltar a ser cachorro grande em 2026, serão 24 anos de ganido e rabo entre as pernas.
O ANO DE UM GÊNIO — Após voltar ao poder como reação ao gol contra marcado por um antipetismo capaz de eleger alguém como Bolsonaro presidente do Brasil, Lula terá mais quatro anos para tentar reeditar acertos. E, se o PT permitir, não repetir erros graves. Mas, na América do Sul e no mundo, 2022 ficará para sempre como o ano de outra personagem e fato. Aquele em que o futebol, tão parecido com a vida por muitas vezes injusto, fez justiça ao gênio de Lionel Messi.
P.S. — Após um ano de intenso trabalho, o signatário só volta à lida, se Deus quiser, no final de fevereiro. Até lá, o espaço será preenchido na tabela quinzenal dos craques Edmundo Siqueira, servidor federal, jornalista e blogueiro; e Roberto Dutra, sociólogo, professor da Uenf e blogueiro. Feliz Natal e um 2023 de saúde, paz e realizações a todos!
Histórico é um adjetivo geralmente vulgarizado para classificar fatos do presente ou passado recente. Tanto mais no futebol, quase sempre movido pela paixão. Sobretudo à maioria que supõe que o esporte passou a existir a partir do próprio nascimento e sua tomada de consciência dele. Só quando os ainda não nascidos analisarem os fatos e feitos de hoje, e quem os viveu pulsante nas veias for só nome numa lápide, se terá a perspectiva histórica. Ainda assim, talvez não haja exagero ao afirmar: a final da Copa do Mundo de 2022, no Qatar, vencida no último domingo (18) pela Argentina de Lionel Messi sobre a França de Kylian Mbappé, na disputa de pênaltis (4 a 2), após o empate de 2 a 2 no tempo normal, 3 a 3 na prorrogação, foi a maior em seus 92 anos de história.
DUELO FINAL DOS CRAQUES — Desde que a primeira final de Copa do Mundo foi sediada e vencida em 1930 pelo Uruguai, por 4 a 2, contra a mesma Argentina, muitas finais foram protagonizadas no enfrentamento entre dois grandes craques. Ali, foram o uruguaio Héctor “El Mago” Scarone e o argentino Guilhermo “El Infiltrador” Stábile. Como seriam as finais de 1974 entre a Alemanha de Franz Beckenbauer e a Holanda de Johan Cruijff, de 1994 entre o Brasil de Romário e a Itália de Roberto Baggio, ou a de 1998 entre a França de Zinédine Zidane e o Brasil de Ronaldo Fenômeno. Mas nunca o futebol tinha visto uma disputa com tanto brilho de lado a lado como a final entre Messi e Mbappé.
MESSI x MBAPPÉ — Se os camisas 10 da Argentina e da França chegaram à final empatados na artilharia, com cinco gols cada, os três que Mbappé marcou no domingo, dois de pênalti e o do belo voleio entre eles, deram a ele oito como maior goleador do Qatar. Messi marcou “só” dois gols na final, um de pênalti e outro de oportunismo dentro da área. Como, então, terminou eleito com justiça o maior craque do Mundial?
GOLS EM TODAS AS ELIMINATÓRIAS — Primeiro porque o craque francês passou em branco nas quartas contra a Inglaterra e na semifinal contra o Marrocos. E o argentino balançou as redes adversárias em todos os jogos da fase eliminatória. Na qual nunca tinha marcado, uma vez sequer, em todas as quatro Copas anteriores de que participou. Mesmo a de 2014, quando chegou à final que a Alemanha levou por 1 a 0, e foi também eleito o melhor jogador.
ARCO E FLECHA — Além de mais constante do que Mbappé como goleador no mata-mata, Messi se mostrou um jogador mais completo no Qatar. Que soube também ser arco, não só flecha. Com três assistências a gol, ele terminou a Copa na liderança da estatística mais altruísta do jogo, empatado com o francês Antoine Griesmann, o inglês Harry Kane, o português Bruno Fernandes e o croata Ivan Perisic.
DI MARIA — Mais solidário em seu futebol, Messi teve a retribuição dos seus companheiros na final. Cuja primeira etapa do tempo normal foi marcada pela grande atuação do veterano atacante Ángel Di Maria, que voltava do banco após contusão. E, num lance de gênio fora do campo do jovem treinador Lionel Scaloni, deixou atônita a França do técnico Didier Deschamps. Que não se preparou para escalação mais ofensiva e “invertida” da Argentina, com Di Maria caindo pela esquerda, lado oposto ao que costuma jogar.
NÓ TÁTICO E MEIO DE CAMPO — A quem já ouviu falar em nó tático, sem nunca saber o que é, foi exatamente isso que Scaloni — xará de batismo de Messi e seu conterrâneo da cidade de Rosário — fez com Deschamps no primeiro tempo da final. Cujo resultado se deu também pelo domínio argentino do meio de campo, com excelentes atuações do menino Enzo Fernández, de Rodrigo De Paul em seu melhor jogo na Copa, assim como do incansável Alexis Mac Allister.
ABERTURA DO PLACAR — Aos 20 minutos, Di Maria driblou o atacante Ousmane Dembélé na esquerda para penetrar na área e sofrer o pênalti do francês. Messi converteu com categoria, goleiro Hugo Llorris para um lado, bola para o outro. Aos 35 minutos, Mac Allister iniciou o contra-ataque em seu campo defensivo, tocou de primeira a Messi e correu para receber.
“TOCO Y ME VOY” — Messi deu dois toques de canhota e passou ao jovem atacante Julian Álvarez no meio de campo, que lançou longo e de primeira a um Mac Allister já em progressão pela direita. De primeira, ele cruzou à esquerda a Di Maria, que também de primeira fez 2 a 0. A quem já ouviu falar em “toco y me voy” (“toco e eu vou”), resumo da escola de futebol clássico e de toque de bola da Argentina, sem nunca saber direito o que é, favor rever o lance.
NUNCA ANTES NA FINAL — O impacto do domínio argentino no primeiro tempo foi tanto que, antes dele ser encerrado, Deschamps substituiu dois jogadores: Dembélé, ainda tonto do baile de Di Maria, e o centroavante Olivier Giroud, que não viu a cor da bola. A alteração tão precoce de dois jogadores também nunca havia acontecido numa final de Copa do Mundo.
FUTURO DE MBAPPÉ? — Vice-artilheiro da França no Qatar, Giroud saiu contrariado, jogando garrafa d’água com força no chão e chutando o banco de reservas. Mas serviu para observar Mbappé jogando não como extrema pela esquerda, ou pela direita, como em 2018. Mas de centroavante, posição à qual deverá migrar, como fez anos atrás e com grande sucesso o português Cristiano Ronaldo.
PRESENTE DE MBAPPÉ — Com as substituições no segundo tempo de Di Maria e De Paul, que fazia bom trabalho de marcação sobre Mbappé, foi a vez do futebol de exceção deste aparecer. Aos 33 minutos, numa infiltração pela esquerda, o atacante Kolo Muani driblou o zagueiro Nicolás Otamendi, ganhou a área a sofreu o pênalti. Mbappé cobrou no canto direito do goleiro Emiliano Martínez, que chegou a tocar na bola, antes dela entrar.
PRIMEIRO EMPATE — O camisa 10 da França buscou rapidamente a bola e correu com ela para reiniciar o jogo em busca do empate. Dois minutos depois, ele viria. Na entrada esquerda da área, ele tocou de cabeça para o atacante Marcus Thuram devolver de primeira com a destra, em bela triangulação. Que foi arrematada por Mbappé também de direita e de primeira, no voleio antes de a bola tocar ao chão.
PRORROGAÇÃO — Apesar do empate arrancado pela França na segunda etapa do tempo normal, a Argentina voltou melhor na prorrogação. E só não marcou no primeiro tempo de 15 minutos porque o atacante Lautaro Martínez saiu do banco para perder duas oportunidades claras de gol, na reedição do que o levou à reserva no decorrer da Copa.
MESSI 3 x 2 MBAPPÉ — No segundo tempo da prorrogação, logo aos dois minutos, o lançamento pelo alto do lateral direito Gonzalo Montiel encontrou Lautaro na entrada direita da área. Ele escorou a Messi, que tocou à esquerda para Enzo Fernández devolver em triangulação à direita com Lautaro. Que concluiu a outra defesa de Lloris, mas dessa vez à sobra atenta de Messi. A provar que sua perna direita não é cega como era a de Diego Maradona, ele concluiu para o lateral Jules Koundé tentar tirar já dentro do gol.
SEGUNDO EMPATE — Oito minutos depois, numa sobra de bola dentro da área da Argentina, Mbappé chutou forte da esquerda e a bola bateu no braço direito de Montiel. Pênalti marcado, o craque francês não mudou o canto da primeira cobrança, mas dessa vez deslocou Martínez ao lado oposto. Que, já nos descontos da prorrogação, fez defesa salvadora com o pé esquerdo, como goleiro de handebol, num chute forte de Kolo Muani sozinho na área.
MARTÍNEZ BRILHA — A estrela de Martínez brilharia novamente na disputa de pênaltis. Após os craques Mbappé e Messi abrirem a série e converterem, o goleiro argentino catou no seu canto direito a cobrança do atacante Kingsley Koman. Foi o mesmo lado em que, para tentar colocar fora do alcance do arqueiro, o bom volante Aurélien Tchouaméni acabou batendo para fora, após o atacante Paulo Dybala converter o seu, como depois o volante Leandro Paredes. Kolo Muani ainda anotou para os Le Bleus, mas tampa do caixão seria fechada na cobrança de Montiel.
RECORDES DE MBAPPÉ — Em 2018, na Rússia, nos 4 a 2 sobre a Croácia, Mbappé tinha 19 anos quando foi o jogador mais novo a marcar um gol em final de Mundial. Desde que Pelé, aos 17, marcou dois na decisão da Copa de 1958, nos 5 a 2 do Brasil contra a Suécia e dentro da Suécia. Já no Qatar de 2022, com 23 anos, Mbappé e seu hat-trick (quando um jogador faz três gols em um mesmo jogo) igualaram o feito do ex-centroavante inglês George Hurst na Copa de 1966. Dentro de casa e único Mundial da Inglaterra, marcou três nos 4 a 2 na final contra a Alemanha. Que também demandou prorrogação.
TÃO JOVEM, SÓ PELÉ — Com a projeção de mais três Mundiais à frente, na próxima, em 2026, quando tiver 27 anos, Mbappé deve estar no seu auge físico. Pelo que mostrou nas duas últimas, sendo campeão em uma e vice na outra, ele impressiona pelos recordes já alcançados. Como por sua velocidade, explosão, visão de gol e, sobretudo, capacidade de decisão. Que, à exceção de Pelé, não se viu em alguém tão jovem nestes 92 anos de Copa do Mundo.
PARIS E BUENOS AIRES — Ainda assim, Mbappé voou do Qatar a Paris após engolir o dito em maio deste ano. Ao renovar contrato com o Paris Saint-Germain (PSG), onde é companheiro de clube de Messi e Neymar, bravateou: “Na América do Sul o futebol não está tão avançado quanto na Europa. Por isso nas últimas Copas, se você olhar, são sempre os europeus que vencem”. Na dúvida, melhor conferir a festa albiceleste ontem em Buenos Aires para receber os campões do mundo. Quando a Copa do Mundo de futebol voltou ao continente que a pariu.
E O BRASIL NO QATAR? — A arrogância de Mbappé, ao menos, tem alguma justificativa no passado recente e no presente. Aos brasileiros, essa recorrente arrogância do “comigo ninguém pode no futebol”, como cometa que passa de quatro em quatro anos, é delírio. No Qatar, a Seleção Brasileira não conseguiu fazer um jogo inteiro bom. Exceções parciais ao segundo tempo dos 2 a 0 contra a Sérvia e ao primeiro tempo dos 4 a 1 sobre a Coréia do Sul.
ESCRITA VAI A 24 ANOS? — Também na disputa de pênaltis, o Brasil parou na Croácia nas quartas de final. Como é eliminado há 20 anos em todo o primeiro jogo eliminatório contra um europeu em Copa do Mundo. Desde a última que conquistou de 2 a 0 sobre a Alemanha, na final de 2002. Até 2026, com as 48 seleções anunciadas pela Fifa com sede no Canadá, EUA e México, serão 24 anos do único pentacampeão mundial fora da elite do futebol.
DE DIEGO A LIONEL — A Argentina estava fora da elite ainda há mais tempo, há 36 anos, desde que a “mão de Deus” tocou a perna canhota de Maradona em 1986, na conquista Copa do Mundo do México, na final por 3 a 2 sobre a Alemanha. Muito embora Dom Diego ainda tenha levado sua seleção à final de 1990, na Itália, vencida pela mesma Alemanha na revanche de 1 a 0.
A ÚNICA MANEIRA — A Argentina volta ao topo do mundo agora, conduzida por outro canhoto tocado por Deus. Com o Barcelona, Messi conquistou 10 Campeonatos Espanhóis, quatro Champions da Europa e três Mundiais de Clubes. E, no PSG a partir de 2021, um Campeonato Francês. Mas, para finalmente resgatar a Copa do Mundo ao seu país, enfileirou na fase eliminatória e bateu em três europeus: a Holanda, a Croácia e a França de Mbappé.
O ESTILO E O GÊNIO — O Brasil abriu mão do tal “futebol arte” que o fez tricampeão em 1958, 1962 e 1970 com Pelé, desde a traumática eliminação de Zico, Falcão e Sócrates para a Itália na Copa de 1982, há 40 anos. Campeã em 1978 e 1986, para depois sofrer três décadas e meia, a Argentina voltou a vencer em 2022 sem nunca abrir mão do seu estilo no futebol, da expressão da sua cultura no “toco y me voy”. Venceu porque, mesmo acima de Romário e Bebeto em 1994, ou de Ronaldo e Rivaldo em 2002, tem um gênio chamado Lionel Messi.