Opiniões

“Venda do futuro”: Oposição quer saber de Rosinha e CEF quanto Campos pagará de juros

Juros

 

 

Quais as condições, sobretudo a taxa de juros, do empréstimo de R$ 712,5 milhões da Caixa Econômica Federal (CEF) ao município de Campos, numa “cessão definitiva e transferência de créditos a partir de janeiro de 2016 até dezembro de 2020, referente aos royalties e participações especiais incidentes sobre exploração de petróleo”, anunciada aqui, em Diário Oficial (DO) eletrônico, na última segunda-feira (14/12)? Com base na lei federal 12.597/2011, de acesso à informação (conheça-a aqui), e na dispensa de licitação anunciada no DO para o operação, os cinco vereadores da oposição solicitaram hoje à prefeita Rosinha Garotinho (PR) e à direção da CEF que “seja fornecida nos termos da lei, cópias de todos os documentos e informações, notadamente o contrato, onde conste o detalhamento da forma de empréstimo e de pagamento, com todas as taxas de juros e incidências”.

Assinaram o pedido os edis Rafael Diniz (PPS), Nildo Cardoso (PSD), Marcão Gomes (PT), Fred Machado (PPS) e José Carlos (PSDC). Para respondê-los, de acordo com a lei federal de acesso à informação, Rosinha e CEF têm prazo de 20 dias, prorrogáveis por mais 10.

Sem revelar quanto de juros serão cobrados aos cofres do município pelo empréstimo, a bancada governista propôs e aprovou (aqui) na terça (15/12) que o secretário de Governo e marido da prefeita, Anthony Garotinho (PR), compareça na Câmara para falar do empréstimo, assim como (aqui) os secretários de Fazenda, Roberto Landes, e de Controle, Suledil Bernardino, e o procurador municipal Matheus José. Enquanto começa a contar a partir de amanhã (18/12) o prazo determinado pela lei ao pedido protocolado hoje pela bancada de oposição junto à Prefeitura e à CEF, a data das explicações governistas na Câmara ainda não foi marcada.

Confira abaixo o pedido de informação recebido hoje pela prefeita Rosinha, muito semelhante ao enviado também à direção da CEF:

 

 

Requerimento Rosinha 1
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Requerimento Rosinha 2
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Requerimento Rosinha 3
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Requerimento Rosinha 4
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Poema do domingo — Pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

 

Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos por Almada Negreiros
Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos por Almada Negreiros

 

 

Pessoas - Adriano
No ensaio de “Pessoas”, Adriano Moura e Ophélia Queiroz, noiva de Pessoa (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

Quando no aniversário de uma pessoa amiga e dotada de sensibilidade, tenho costume de saudar a data com o poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, heterônimo mais modernista do poeta Fernando Pessoa (1888/1935), por sua vez o maior nome do Modernismo de Portugal. Mas eis que, na última sexta-feira, 11 de dezembro, quando completou 43 anos, o aniversariante inventou de inverter a ordem natural das coisas para ofertar ele o presente. Além de ter compilado a obra de Pessoa (do próprio, além de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, demais heterônimos poetas), para dirigir e produzir o espetáculo “Pessoas”, o professor, escritor e dramaturgo Adriano Moura também atuou nele como ator, ao lado de Tim Carvalho, Renato Arpoador e Matheus Nicolau. E, no dia do seu aniversário, o ponto alto da interpretação de Adriano, “com uma nitidez que cega”, foi justamente o poema “Aniversário”.

Abaixo, seguem o poema e sua declamação referencial por Paulo Autran (1922/2007). E se não é mentira que Adriano nunca foi, como ator, o mesmo que é enquanto autor, a partir desse seu aniversário literário e literal, essa é uma verdade que deve começar a ser revista. A conferida, assim que o espetáculo retornar a cartaz em 2016, é um presente que cada um pode dar a si e depois levar pela vida como “passado roubado na algibeira”.

 

 

Atafona, tarde de 12/12/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)
Atafona, tarde de 12/12/15 (foto de Aluysio Abreu Barbosa)

 

 

Aniversário

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

O que fui de coração e parentesco.

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino,

O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…

A que distância!…

(Nem o acho…)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

 

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes…

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim…

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…

 

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…

 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

 

Lisboa, 15/10/1929

 

 

 

 

“Pessoas” em Pessoa tem sessão única hoje à noite no Sesc

De pé: Renato Arpoador e Adriano Moura. Sentados: Tim Carvalho e Matheus Nicolau.
De pé: Renato Arpoador e Adriano Moura. Sentados: Tim Carvalho e Matheus Nicolau. No retrato em primeiro plano: Ophélia de Queiroz (foto de Tércio Teixeira – Folha da Manhã)

 

 

Fernando Pessoa
Fernando Pessoa

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

“Fragmentos da obra do Pessoa são muito conhecidos. O poeta propriamente acredito que não. Muitos já leram ou escutaram os famosos ‘Tudo vale a pena se a alma não é pequena’, ou ‘O poeta é um fingidor’, mas nem todos associam ao poeta. O espetáculo é todo centrado na obra, que deve sempre ser maior que o homem. Acredito que esse tipo de trabalho contribui para a popularização dos poemas”. Esta é a intenção assumida pelo diretor, ator, produtor e compilador da obra do poeta português Fernando Pessoa (1888/1935), o dramaturgo e também poeta Adriano Moura, para o espetáculo “Pessoas”, que tem sessão única hoje, às 20h, no Sesc de Campos, na avenida Alberto Torres nº 397. Além de Adriano, compõem o elenco o ator Tim Carvalho e os músicos Renato Arpoador e Matheus Nicolau, a quem coube musicar alguns poemas do maior nome do Modernismo de Portugal.

Em vida, Pessoa publicou um único livro, “Mensagem”, composto de 44 poemas. A maior parte da sua obra, guardada num mítico baú, foi descoberta pelo grande público só após a morte do autor. E ela até hoje impressiona, não só pela qualidade e quantidade, quanto pelo fenômeno da heteronímia, na qual, além do Fernando Pessoa ortônimo, estão também o modernista Álvaro de Campos, o clássico Ricardo Reis e o naturalista Alberto Caeiro, considerado pelos demais como mestre. Isso só em poesia, sem contar a prosa de Bernardo Soares, outro entre as dezenas de heterônimos catalogados, a maioria não escritores, que se diferem do simples pseudônimo pela vida própria que carregam, com toda uma biografia independente do criador.

Como o espetáculo se atém à criação poética de Pessoa, além dele próprio, também estão presentes Campos, Reis e Caeiro. Ao todo, “Pessoas” traz 21 poemas dos quatro poetas que habitavam em Pessoa, 10 deles musicados. Com apenas 23 anos, Matheus encarou a missão dessa transposição com aparente consciência da responsabilidade:

— A proposta de musicar poemas de Fernando Pessoa é muito ousada. Além de ser um desafio, pode soar como um atrevimento. Minha maior preocupação era criar algo digno, que não ferisse a obra, para que aqueles que apreciam a poesia do Pessoa as encarassem de forma natural. Nesse processo, algumas músicas foram surgindo de modo natural. Depois de extrair a essência do poema e achar uma linha melódica que converse com ele, o próximo passo era só uma questão de adequação métrica, que em alguns casos foi mais difícil.

Para Matheus, que debutará como ator no espetáculo, a musicalização mais difícil foi de “Mar Português”, justamente um dos poemas publicados na “Mensagem”, no qual estão os versos talvez mais conhecidos de Pessoa: “Valeu a pena? Tudo vale a pena/ Se a alma não é pequena”. Na montagem goitacá, o poema ganhou versão em fado, estilo musical que está para Portugal como o samba, para o Brasil.

E se Adriano lembra que a poesia surgiu com a música, a partir do grego Homero (séc. 8 a.C.), na tradição dos rapsodos, andando de cidade em cidade com suas liras, cantando em versos os feitos passados de sua gente, não deixa de ser curioso lembrar que foi em “Mar Português”, assim como nos outros poemas da “Mensagem”, que Pessoa cantou, no início do séc. 20, as glórias do seu povo nas grandes navegações dos sécs. 15 e 16. Semeado nelas, além do domínio do Ocidente sobre o mundo, nasceu o Brasil.

Ophélia Queiroz
Ophélia Queiroz

Após dirigir e produzir o “Sarau de Chico Buarque” no Sinasefe, no início de novembro, num grande sucesso de público, Adriano não largou mão da velha lira homérica nessa sua investida cênica pela obra literária do mestre lusitano: “Acredito no poder da música como veículo de propagação da poesia”. Neste sentido, do fado de “Mar Português”, a universalidade de Pessoa é reafirmada em vários outros ritmos, como no baião para o qual os versos de “Conta a lenda que dormia” parecem ter sido originalmente escritos, no pungente blues de “O cão que veio do abismo”, ou no lamento sertanejo de “Carro de bois”, poema que Matheus confessou ter sido o mais fácil de musicar.

A maioria dos poemas escolhidos, no entanto, não depende de versões musicais, sustentados apenas na interpretação cênica dos quatro atores. Como explica Adriano:

— Queria muito revisitar a obra do Pessoa. Eu e Matheus fizemos encontros para ler os textos, escolher o que seria música e o que seria recitado. Queríamos algo que não se parecesse com um recital, mas que também não se aproximasse de um musical biográfico.

Pessoa poderia estar certo ao versejar pela pena quase sempre debochada de Álvaro de Campos: “Todas as cartas de amor são/ Ridículas”. Talvez não por outro motivo, seja de Ophélia Queiroz, infeliz noiva do poeta, o retrato que funciona como eixo em boa parte das cenas. Apesar de amar Fernando, a homônima portuguesa da noiva de Hamlet não tinha pudor ao afirmar: “Detesto Álvaro de Campos!”. No amor de Adriano, Matheus, Tim e Renato expresso no palco pelas “Pessoas” em Pessoa, ridículo é não comparecer.

 

Publicado na Folha Dois de hoje (11/12)

 

Capa da Folha Dois de hoje
Capa da Folha Dois de hoje

 

 

Ex-cabo eleitoral de Dilma indicado por ela ao Supremo paralisa processo de impeachment

 

 

No final da noite de ontem (08/12), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu a instalação da comissão especial formada na Câmara dos deputados que analisará o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Os deputados já elegeram 39 integrantes da comissão oriundos de chapa formada por oposicionistas e dissidentes da base aliada do governo, após tumulto durante votação secreta. Com a eleição, o grupo já daria início aos trabalhos com maioria a favor do impeachment.

Com a decisão e o impedimento dos trabalhos da comissão, o ministro do STF suspendeu todo o andamento do impeachment, incluindo prazos que estiverem correndo, como o da defesa da presidente. A suspensão é mantida até análise do plenário do Supremo Tribunal Federal sobre o caso, que está marcada para ocorrer na próxima quarta-feira, dia 16. Na ocasião, caberá à Corte analisar se os atos que já foram praticados, como a votação da chapa, são ou não válidos. Até então, o que já foi feito continua preservado.

De acordo com o ministro, o objetivo da decisão é evitar que sejam praticados atos sobre impeachment da presidente que posteriormente venham a ser anulados pelo STF:

— Com o objetivo de evitar a prática de atos que eventualmente poderão ser invalidados pelo Supremo Tribunal Federal, obstar aumento de instabilidade jurídica com profusão de medidas judiciais posteriores e pontuais, e apresentar respostas céleres aos questionamentos suscitados, impede promover, de imediato, debate e deliberação pelo Tribunal Pleno, determinando, nesse curto interregno, a suspensão da formação e a não instalação da Comissão Especial, bem como dos eventuais prazos, inclusive aqueles, em tese, em curso, preservando-se, ao menos até a decisão do Supremo Tribunal Federal prevista para 16/12/2015, todos os atos até este momento praticados.

Fachin solicitou ainda que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), preste informações no prazo de 24 horas sobre a eleição da comissão especial.

A decisão foi tomada em análise de recurso proposto pelo PCdoB, que foi ao Supremo para tentar barrar a apresentação de chapa avulsa oposicionista na eleição e ainda garantir que a votação fosse aberta. A Câmara, no entanto, realizou a eleição antes de Fachin, relator do caso, decidir a questão.

Na decisão liminar de ontem, o ministro ressaltou ainda que a votação secreta não tem previsão na Constituição e nem no regimento interno da Câmara, portanto, o pedido do PCdoB seria plausível. Fachin tentou se justificar pela importância do caso:

— Diante da magnitude do procedimento em curso, da plausibilidade para o fim de reclamar legítima atuação da Corte Constitucional e da difícil restituição ao estado anterior do caso, prossigam afazeres que, arrostados pelos questionamentos, venham a ser adequados constitucionalmente em moldes diversos.

No Supremo, ministros dizem que pode haver uma discussão sobre o rito do processo de impeachment já que há brecha sobre a Lei 1.079, de 1950, que define os crimes de responsabilidade do presidente da República e sua forma de julgamento.

Ministros do STF ouvidos sob a condição de anonimato avaliaram que, em tese, não há problemas de Cunha acolher o pedido de impeachment, uma vez que esta é uma atribuição do cargo. Os ministros ressaltam, no entanto, que o processo de afastamento tem que preencher os requisitos legais.

De acordo com os integrantes do Supremo, o clima no tribunal é de garantir a “regra do jogo”, ou seja, sem interferência direta, mas agindo para evitar abusos ou que a lei seja desrespeitada. Nesse momento inicial, dizem os ministros, o Supremo não deveria travar o debate no Congresso.

 

Print da campanha eleitoral virtual de Dilma Rousseff, em 2010
Print da campanha eleitoral virtual de Dilma Rousseff, em 2010

 

 

Com informações do Estadão e Folha de São Paulo

 

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