Artigo do domingo – Verdade e pós-verdade

Na prosa, talvez os dois grandes nomes do modernismo dos EUA tenham sido Ernest Hemingway (1899/1961) e F. Scott Fitzgerald (1896/1940). Amigos, a intimidade da relação entre ambos, junto a outros grandes nomes do modernismo nas artes do mundo, reunidos na capital francesa durante os “loucos” anos 1920, é descrita em detalhes em “Paris é uma festa”, romance inacabado do primeiro, publicado após sua morte.
A grande obra de Hemingway é, no entanto, “O velho e o mar”, na qual ele narra a saga solitária e épica do velho pescador Santiago contra um gigantesco marlim, nos mares da Cuba pré-Revolução de 1959. Publicado em 1952, o livro lhe valeu o Prêmio Nobel de Literatura dois anos depois.
Por sua vez, o romance de Fitzgerald mais aclamado pela crítica é “O grande Gastby”, publicado em 1925, cujos originais Hemingway foi um dos primeiros a ler. A história do jovem veterano da I Guerra Mundial (1914/18) Jay Gatsby, que monta um mundo de fantasia e ostentação para tentar reconquistar um amor do passado, idealizado, mesmo depois de consumado, teve cinco adaptações ao cinema: em 1926, 1949, 1974, 2000 e 2013.
Do modernismo àquilo que, na falta de nome melhor, se convencionou chamar de pós-modernidade, vivemos agora os tempos da pós-verdade (“post-truth”). Eleita a palavra do ano em 2016, pelo conceituado dicionário de Oxford, guardião da língua em que escreveram Hemingway e Fitzgerald, o novo verbete foi assim definido: “relativo a ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos à emoção ou à crença pessoal”.
No ano recém-encerrado, o termo ganhou popularidade nas campanhas do plebiscito vencido pelo Brexit, que definiu a saída da Grã-Bretanha da União Europeia, e da eleição presidencial dos EUA vencida pelo fanfarrão republicano Donald Trump. Ambas foram marcadas pela disseminação de notícias falsas, viralizadas na democracia irrefreável das redes sociais, que definiram as duas campanhas.
No tempo da pós-verdade, o que vale não é o fato, mas a versão do fato. É a popular “fofoca de vila”, que existe desde o desenvolvimento da linguagem e da vida sedentária pela espécie humana, ainda na Pré-História, mas só ganharia progressão geométrica em tempo real com o avanço das redes sociais nos últimos anos.
Seu questionamento também não é novo. Já estava presente na Grécia Antiga, berço da Civilização Ocidental e da democracia, na qual a arte retórica passou a definir os destinos da coletividade, sendo desvirtuada pelos sofistas, que se orgulhavam por sustentar convincentemente uma opinião para, em seguida, fazer o mesmo com o ponto de vista oposto. E ensinavam isso por dinheiro, de cidade em cidade, numa prática criticada com veemência pelo filósofo Sócrates (469/399 a.C.), condenado a beber cicuta, vítima fatal das mesmas maledicências e ressentimentos vulgares que combateu.
Difícil projetar como Sócrates veria hoje, por exemplo, os defensores do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do deputado federal Jair Bolsonaro (PSC) se digladiando com suas pós-verdades nas redes sociais, geralmente com base na ignorância da diferença entre manifestação de pensamento e argumento dialético, entre opinião e fato.
Diante da fartura de evidências, evisceradas pela operação Lava Jato, de que Lula comandou um esquema criminoso nos 13 anos em que o PT governou (e quebrou) o Brasil, prevalece aos seus adoradores a figura do líder proletário que promoveu a ascensão social das classes menos favorecidas — empurradas de volta aonde vieram pela recessão econômica. Já aos fiéis de Bolsonaro, o combate à corrupção se transformou de matéria do Código Penal em monocórdia plataforma política, em detrimento de avanços na paridade de direitos de gênero, orientação sexual, credo religioso, ideologia política, cor de pele e origem social.
Para os primeiros, Lula e o PT não roubaram aos bilhões. Para os segundos, a Ditadura Militar no Brasil (1964/85) não torturou e matou aos milhares. Ou, pior, se cometeram seus crimes, deveriam receber indulgência em nome de um suposto “bem maior”. E dos dois lados se finge esquecer que o produto final de petistas e militares foi um país desperto na mais lancinante ressaca econômica, após a embriaguez delirante da megalomania.
No tempo da pós-verdade, Lula quase pôde ser nomeado ministro pela então presidente Dilma Rousseff (PT) para fugir do julgamento de Sérgio Moro. Assim como Moreira Franco (PMDB), nomeado com mesmo fim pelo atual presidente Michel Temer (PMDB). E o resto do Brasil que se proteja dos cacos afiados projetados aleatoriamente no espaço pelas pedras atiradas, de lado a lado, sobre telhados de vidro separados por um muro moralmente invisível.
Com igual acinte, se elege Edison Lobão, alvo de dois inquéritos na Lava Jato, parceiro de Temer no PMDB e ex-ministro de Lula e Dilma, como presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, composta por mais 13 investigados da mesma operação da Justiça Federal. É o mesmo jogo de cartas marcadas no qual Trump cortou o baralho antes mesmo de ser eleito, pelo colégio eleitoral, não pelos votos dos eleitores: “Se eu perder, é fraude”.
Na tentativa de reconquistar sua paixão, Gatsby construiu sua pós-verdade numa origem aristocrática, quando não passava de um gângster, contrabandista de bebidas durante a Lei Seca nos EUA. Desmascarado, perdeu o amor que idealizou antes de perder a própria vida, sangrando até a morte na piscina da sua mansão, vítima passional de outra pós-verdade.
Num combate sobre-humano, mas real, que quase lhe matou, Santiago conseguiu capturar o peixe. Se no caminho de volta para Cuba, sobre o dorso das ondas, os tubarões devorariam pelas entranhas seu maior feito, a gigantesca carcaça descarnada, amarrada ao pequeno barco já ancorado no cais, revelou aos demais pescadores e aldeões, estupefatos, que a vida, a luta e a glória do velho homem eram a verdade. Exausto, ele dormiu bem com isso.

Publicado hoje (12) na Folha da Manhã

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Fabio Bottrel – Sociedade e Relacionamentos

https://youtu.be/OKqPqVL4Q-o

Num mundo onde tudo deixa de ser a cada instante, como no rio de Heráclito onde jamais seria possível banhar-se duas vezes, as águas correm, o rio já não seria o mesmo e a vida segue o fluxo enquanto nos apegamos a um momento de verdade que deixa de existir num piscar de olhos. Reinventar-se é preciso para se manter vivo, como diz o professor Cláudio de Barros Filho no vídeo acima, mas como reinventar um coração que insiste em amar à mesma maneira?

“A reinvenção de si deve respeitar as próprias características de quem vive e as exigências específicas do cenário em que vive.” Difícil resolver essa equação quando imersos numa sociedade carente de ética e moral, como vimos vir à tona após a greve da polícia militar no estado do Espírito Santo. A falta do exercício da consciência moral, sendo regidos por agentes externos como a polícia, câmeras de segurança ou qualquer artifício que impeça a decisão das ações por sua própria consciência ou agentes internos, deu no que deu quando se retirou as forças externas ao indivíduo e deu-lhe pleno poder. Como lembra Machado de Assis tal como uma premonição: a ocasião não faz o ladrão, ela apenas o revela – a condição de sê-lo é precursora como demonstraram diversos cidadãos que saquearam o comércio capixaba, minha terra natal.

Assim também é no relacionamento, diante da inexistência de forças repressoras como um homem ou mulher que não reprime os desejos de seu cônjuge ou critica uma roupa vulgar, mas tenta entender os anseios de tal atitude, e nutre o outro com os elogios e esperanças outrora escassas para que se sintacada vez mais nobre e pleno, colocando em primeiro plano o sorriso esquecido. Ao imbuir de poder, tal como um líquido que penetra toda a pele, vem à tona o ser como ele é, e às vezes pode ser torpe e degradante de uma maneira que ele nem mesmo se reconheça após a fissura da máscara a tanto impregnada. Como escrevi em tempo pretérito nesse espaço “menina retire a máscara e veja que a tua pele ainda é nova, e se te doer a carne crua chorarei contigo os elogios das suas próprias lágrimas.” A ferida de quem tem bom coração é dar o pleno direito do outro ser o que é ao abrir os braços em abraço se mostrar alguém do qual ele não precisa se defender, e o que pareceria bom se torna a batalha mais árdua, a luta do outro contra si próprio.

No texto Um Grande Homem, Arnaldo Jabor cita a conduta de seu pai ao ver a filha chorando sobre a cama. O pai se aproxima, acaricia o rosto úmido da sua irmã e após conversar por horas diz: “Minha filha, apaixone-se por um grande homem e nunca mais voltará a chorar.” O conselho serve para ambos os sexos.

O homem se constitui com as respostas aos desafios e nesse quesito parece o coração ser separado do corpo, pois por mais que se reinvente o amor, reinvente a dor, reinvente a própria vida, jamais seria possível reinventar o que se tem dentro do coração – colocando o seu significado na mesma categoria da mente. Talvez isso seja o que se chama de essência, para quem não é afeito ao materialismo dialético. Pois apesar de todos os pesares, ele segue inchado de bondade mesmo que sua vazão deságue num aparente abismo.

Na tentativa de tornar o instante dessa leitura pleno, que as pálpebras se fechem nesse piscar de olhos levando a poesia:

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
Cecília Meireles

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Guiherme Carvalhal – O Trem Fantasma

Como de repente despertei sem saber meu paradeiro e muito menos meu destino, deparei-me confuso frente à placa da estação ferroviária. Sem outro rumo nem a mínima orientação do próximo passo, subi pelo lance de escadas que dava acesso a um longo corredor, tendo de um lado a sede administrativa da estação e do outro o amplo horizonte, cuja visão se ampliava livremente em decorrência da altura.
Essa visão serviu como um alívio temporário para a sensação de interrupção reinante. Se acordar no susto me deixou inerte da noção de tempo, perdendo preciosas horas, essas agora irrecuperáveis no passado, a paisagem me preenchia com uma amostra da eternidade. As manchas multicoloridas no céu crepuscular desenhavam um painel convidativo, e eu as interpretava de maneira inexplicável como sendo minha meta alcançá-las.
Além desse corredor, cheguei à área de embarque. Ao contrário do que a aparência desoladora da fachada denotava, me espantei com a quantidade de passageiros no aguardo do comboio. Todos esperavam cabisbaixos, sem interações, sem conversa. Somente o chiado do vento sacudindo as folhas secas do chão ousava romper o silêncio.
Encostei em uma das colunas. Fosse qual fosse o ponto de chegada, sabia que pertencia a esse grupo. Mesmo sem vínculos, mesmo sem conceber a procedência de cada um deles, e reciprocamente me portando como estranho, compreendia nossa fraternidade prescrita. Senhoras idosas, homens com porte de trabalhadores braçais, crianças saídas das fraldas há pouco, todos esses me acompanhariam sem imaginar aonde.
Outra estranheza nesse universo insólito se escondia naquela sede administrativa. Apesar de portas e placas indicativas de setores (almoxarifado, diretoria), não notava nenhum tipo de movimentação. Não havia venda de passagens, estafetas levando mensagens ou carregadores de malas. Aliás, ninguém ali carregava malas; não contávamos com o que vestir após desembarcar. Também chamava a atenção um grande relógio pendurado logo acima do ponto de embarque, de um metro e meio de diâmetro, lustrado com esmero, sendo o único item notoriamente novo. Contrariando seu aspecto funcional, os ponteiros não se moviam.
O barulho da fumaça ao longe presumia o aproximar do trem. Esse barulho levou todos a se levantarem e se organizarem em filas indianas, guiadas por um planejamento aparentemente acima de suas consciências. Igualmente me embrenhei em uma delas, quietamente disciplinado.
Quando o trem parou e suas portas se abriram, a multidão entrou sem atropelos. Guiei-me na cadência do todo, seguindo seu lento andar, aguardando todos se acomodarem nas poltronas. Parei de pé, segurando em uma gancho do teto para não me deslocar contra a inércia.
O trem começou a se mover e aos poucos o cenário iluminado foi escurecendo lá fora. Singraríamos por muitos e muitos quilômetros entre lances de montanhas capazes de cortar plenamente a incidência solar? Eu perguntaria ao maquinista, mas desconfiei que não conseguiria acessá-lo, isso se de fato houvesse um.
Antes que a luz se perdesse por completo, reparei pela primeira vez na minha própria fisionomia desde quando acordei no reflexo da janela. Meu semblante havia perdido o viço e a expressão, igual a todos os demais. Gostaria de lembrar meu nome, mas não consegui. Minha identidade desapareceu. Aí então eu pude finalmente perceber o destino final dessa viagem. Um ponto final de onde jamais encontraria retorno.

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PM e Guarda permitem que lotadas parem o trânsito de Campos

 

 

 

No Espírito Santo

Para concluir que o Brasil vive uma inversão completa de valores, basta olhar o quadro de caos vivenciado no Espírito Santo desde o último sábado, a apenas 60 km de Campos. As cenas de vandalismo, depredações, arrastões, saques e homicídios às dezenas, veiculadas à exaustão na democracia irrefreável das redes sociais, servem para comprovar que vivemos o tempo, melhor definido pela sabedoria popular, de “poste urinando em cachorro”. E quem não quiser sair “molhado”, que se esconda dentro da própria casa.

 

Em Campos

Em Campos, ainda que a PM não esteja em greve, a coisa não parece ser muito diferente. Por volta das 16h de ontem, um punhado de motoristas de lotadas ilegais, que agiram livremente na cidade durante os oito anos do governo Rosinha Garotinho (PR), não gostaram da apreensão feita pelo Detro de três dos seus veículos. E, à luz do dia, na cara dura, simplesmente fecharam os dois lados da av. XV de Novembro, diante da rua Carlos de Lacerda, espaço público que utilizam diária e folgadamente para seus fins particulares.

 

Cidade parada duas horas

O resultado, por certo planejado, foi cumprido. O trânsito do Centro ficou parado por cerca de duas horas. Numa reação em cadeia, o tráfego de veículos de toda a área urbana da cidade foi diretamente comprometido durante o mesmo período. Até o fechamento desta edição, não se tinha notícia se algum campista precisando de socorro urgente, como uma parturiente, um acidentado ou infartado, perdeu a vida ou a teve posta em risco por conta da manifestação ilegal, em defesa de uma atividade ilegal. Mas se não houve, foi apenas sorte.

 

Medo de quê?

O mais grave foi que vários homens da PM e da Guarda Municipal estiveram no local poucos minutos depois que XV de Novembro ter sido fechada. E nada fizeram! Cerceados em seu direito de ir e vir por irresponsáveis que riam debochadamente do caos que criaram, as centenas de motoristas de Campos cerceados em seu direito de ir e vir nada fizeram com medo de contrariar algum manifestante armado — como não é prática incomum na atividade. Resta saber com medo de que ficaram os guardas municipais e, sobretudo, os PMs.

 

Ação sem reação

Diante da passividade cúmplice dos agentes da lei, o tráfego de veículos em Campos só foi restabelecido no final da tarde de ontem, por volta das 18h, porque começou a chover. E, novamente para atender seus interesses particulares, os motoristas das lotadas constataram estar perdendo dinheiro, deixando de transportar ilegalmente as pessoas que saíam do trabalho. Diante do “sucesso” da ação e sem nenhuma reação efetiva por parte da PM ou Guarda Municipal, prometeram fechar o trânsito da cidade, hoje, mais uma vez.

 

FDP em pauta

Representantes de entidades como a Associação de Imprensa Campista (AIC) e a Academia Campista de Letras (ACL) se reuniram na manhã de ontem com a presidente da Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, Cristina Lima, para discutir a organização do II Festival Doces Palavras (FDP), de 20 a 24 de setembro, no Jardim do Liceu. Uma ótima iniciativa, que foi um sucesso na sua primeira edição e que tem tudo para repetir a deliciosa combinação entre literatura e doces.

 

Chance para escritores

E tem oportunidade para escritores. A Essentia Editora, do Instituto Federal Fluminense (IFF), está com inscrições abertas para a seleção de apoio à publicação de livros impressos — Edição 2017 — voltada para o público interno e externo do Instituto. As propostas deverão ser encaminhadas até o dia 6 de maio deste ano, por meio do setor de Protocolo da Reitoria ou pelos Correios, para o seguinte endereço: rua Coronel Walter Kramer, 357, no Pq. Santo Antônio, em Guarus. O resultado final das propostas aprovadas será divulgado no dia 02 de outubro deste ano. Outras informações em www.selecoes.iff.edu.br.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

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Carol Poesia – Inquérito Poético (parte 2)

Suspeito – Eu?
Inspetora – Por acaso o senhor reconhece isso, seu Adalbeto?
Inspetora – Foi achado no local do crime e tem a sua assinatura.
Suspeito – Como isso foi parar lá?
Inspetora – É o que eu gostaria de saber!
Suspeito – Escrevi esse poema quando eu era criança, muito novo.
Inspetora – Então o senhor confessa que conhecia e mantinha relações com a poesia desde criança?
Suspeito – Eu escrevia às vezes alguns pensamentos rimados…
Inspetora – Me diz uma coisa seu Adalberto, qual foi a última vez que o senhor escreveu um poema?
Suspeito – Eu? Tem muito tempo… Eu não escrevo faz muito tempo… Mas eu não estou entendendo, isso é bom ou ruim?
Inspetora – Eu não sei. O senhor que tem que me dizer! É bom ou é ruim ficar sem escrever? Sabe seu Adalberto, Beto, posso te chamar assim? Eu olho pra você e não vejo a inocência de um auxiliar de escritório que trabalha oito horas por dia pra pagar as contas. Não sei, não sei… Tem algo diferente no seu olhar, na sua respiração… Beto, quando eu falo em poesia, qual é o primeiro verso que vem à sua cabeça?
Suspeito – Quê?
Inspetora – Um único verso é suficiente!
Suspeito – Você só pode estar brincando… O que que eu fiz pra merecer isso, posso saber?
Inspetora – Não precisa ser seu. Qualquer verso. Eu tenho todo o tempo do mundo…
Suspeito – “Que não seja eterno/ posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”.
Inspetora – Vinicius de Moraes. Outro!
Suspeito – “Oh! que saudades que tenho/ Da aurora da minha vida,/ Da minha infância querida/ Que os anos não trazem mais!”.
Inspetora – Casimiro de Abreu. Está indo bem.
Suspeito – “O poeta é um fingidor/ finge tão perfeitamente/ que finge sentir a dor/ a dor que deveras sente”.
Inspetora – Fernando Pessoa! Lindo!
Suspeito – “Eu canto porque o instante existe/ e a minha vida está completa./ Não sou alegre nem sou triste:/ sou poeta./ Irmão das coisas fugidias,/ não sinto gozo nem tormento./ Atravesso noites e dias/ no vento./ Se desmorono ou se edifico,/ se permaneço ou me desfaço,/ – não sei, não sei. Não sei se fico/ ou passo./ Sei que canto. E a canção é tudo./ Tem sangue eterno a asa ritmada./ E um dia sei que estarei mudo:/ – mais nada.”
Inspetora – Cecília Meireles!
Suspeito – CHEGA! Eu confesso: sou poeta, a cada instante que passa me nasce uma rosa na testa!
Inspetora – Grande Paulo Leminski!
Suspeito – Chega! Eu estou falando de mim! O verso é dele mas eu estou falando de mim! A verdade é que eu conheço a poesia sim, a minha relação com ela é íntima e antiga! Desde pequeno eu não vejo sentido nenhum no que é útil, no que é prático, no que é comprovado cientificamente. Eu não tenho o sonho de ser rico, nem de descobrir alguma coisa muito importante, pouco me importa a bolsa de valores, eu estou me lixando pra alta do dóllar. Eu trabalho porque preciso comer, eu ainda como porque preciso estar vivo, eu quero estar vivo só pra acompanhar essa poesia toda que acontece independente de mim a cada dia. Ela não precisa de mim, mas eu preciso dela! Eu preciso realizar a inutilidade de imaginar a história de vida de cada desconhecido no ônibus. Eu preciso ver a multidão no metrô, coreografada, em alto relevo e 3D, cantando “Aba Pai”. Eu preciso ouvir a conversa da vizinha e adivinhar o que veio antes ou dar um outro final. Eu preciso do silêncio, da falta de ação, dos momentos de vácuo e de inércia em que a morte parece estar rondando e eu pareço estar querendo morrer, mas o que eu desejo mesmo é esse entre-vida-e-morte, esse estado sublime de experimentação do nada. A quase morte é um tesão! E eu sou viciado! Eu quero estar vivo pra quase morrer todos os dias! O entre-sono também me fascina, aquele estágio em que você não está dormindo, nem acordado, a realidade se mistura com o pensamento imaginário e surge tanta coisa brilhantemente desvairada! Eu adoro dormir… pena que eu tenho insônia! O sono é uma prévia da morte, sabe?! Um gostinho, uma pitada antecipada e vivenciada por todo mundo a cada noite. É uma experiência solitária, quase um poema, de repente você fecha os olhos e pluft! Está completamente sozinho em você mesmo! É o que existe de mais estranho e contraditoriamente de mais natural na vida. E o que seria da vida sem esse morrer diário pra recuperar as forças, hein?! O que seria da realidade sem esse profundo mergulho cotidiano dentro si mesmo fora da realidade? Poesia e morte andam assim oh! (faz sinal com os dedos) Você deveria saber! (leve pausa) A poesia está morta mas eu fiz o que pude! E fiz por mim! Porque a poesia é a humanidade que me salva e que falta na humanidade. É o oposto da engrenagem. É o andar na contramão e por isso mesmo faz todo o sentido. Ela não é cadeira não… Quem diz que fazer poesia é igual fazer cadeira pode até ser poeta, mas nunca foi marceneiro. Poesia é um estado de alma, e se ela morreu pouco me importa o que vai acontecer agora.
(pausa prolongada)
Inspetora – Meus pêsames.
Inspetora – O senhor está dispensado, seu Adalberto.
Suspeito – Estou?
Inspetora – Está. Se eu precisar eu chamo o senhor de novo.
Suspeito – Se eu tiver que voltar prefiro que seja a noite, pra eu não ter que faltar o serviço.
Inspetora – Qualquer novidade sobre o caso eu te aviso. Passar bem.
Suspeito – Obrigado e desculpe qualquer coisa.
Inspetora – Próximo!
(fim)
Confira aqui a primeira parte do “Inquérito Poético”

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Feijó tabela com Rafael e Bruno toca CPI das Desapropriações no Açu

Feijó tabela com Rafael
Praticante assíduo de futevôlei, o deputado federal Paulo Feijó (PR) bateu uma tabela inesperada na manhã do último sábado (04), no Farol de São Thomé. Num verão com menos trios elétricos e mais paz entre os veranistas, enquanto Feijó descansava de uma partida, quem chegou e se sentou ao seu lado, para uma conversa política, após cumprimentar aos demais, foi o prefeito Rafael Diniz (PPS).
Hospital do Hemocentro
O único deputado federal da região se colocou à disposição do prefeito para ajudar Campos em Brasília. Embora tenha destacado que a conversa foi informal, demandando ser aprofundada, Feijó citou um exemplo onde poderia ajudar diretamente: a conclusão projeto do hospital do Hemocentro, no Hospital Ferreira Machado (HFM). Iniciado a partir de uma emenda do parlamentar, ele destacou que verbas federais podem ser também alocadas para equipar a nova unidade, depois que a obra civil for concluída.
Diálogo x distanciamento
Através da sua assessoria, Rafael repetiu ontem seu discurso de campanha, quando prometeu governar aberto ao diálogo não só com quem o apoiou. Eleito deputado no grupo do ex-governador Anthony Garotinho (PR), Feijó apoiou Dr. Chicão (PR) na sucessão de Rosinha Garotinho (PR), vencida ainda no primeiro turno pelo atual prefeito. Mas desde abril de 2016, na aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) pela Câmara Federal, com o voto de Feijó e contra a vontade de Garotinho, os dois políticos se distanciaram.
CPI das Desapropriações
Outro político do grupo de Garotinho, o deputado estadual Bruno Dauaire (PR), vem sendo bastante procurado pela imprensa carioca e nacional. Menos pela votação do polêmico pacote do governo Luiz Fernando Pezão (PMDB), a partir de amanhã, na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), que pela CPI das Desapropriações do Porto do Açu. Proposta pelo jovem parlamentar, tudo indica que será aprovada na Alerj e presidida por ele.
InterTV, SBT e Record
Enquanto políticos e empresários, do Rio de Janeiro e São João da Barra, receiam o que Eike Batista possa revelar à Justiça, caso faça delação premiada, Bruno tem falado bastante sobre o objetivo da CPI: violação dos direitos humanos e do valor pago pelas desapropriações. Esclarecendo que sua iniciativa não é contrária ao empreendimento, fundamental para a economia da região, mas à maneira como ele foi imposto aos produtores rurais do Açu, o deputado já foi procurado pela InterTV RJ, SBT e Record para falar sobre o assunto.
Gabeira em SJB
Além das principais emissoras de TV aberta, quem esteve no último final de semana em São João da Barra, para investigar o objeto da CPI proposta por Bruno na Alerj, foi o conhecido jornalista e ex-deputado federal Fernando Gabeira. Em seu programa na Globo News, ele se prepara para trazer, também na TV por assinatura, uma ampla reportagem sobre o caso. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos…
Caos no ES
O Espírito Santo, estado vizinho ao do Rio e bem perto de Campos, por diversas vezes já foi destaque pelos seus altos índices de violência, mas nada que se compara ao que está acontecendo com a ausência de grande parte da polícia militar nas ruas. A onda de homicídios e saques está se espalhando por todo território capixaba e se aproxima cada vez mais de cidades perto de Campos. Em Guarapari, praia bastante frequentada por campistas, o medo tomou conta das ruas e tem muito turista colocando as coisas na mala e voltando para casa.
Medo por aqui
Em Campos, a situação da violência também é bastante preocupante. Em seis dias de fevereiro, sete pessoas já foram executadas a tiros, aumentando para 27 o número de assassinatos só em 2017. Um ano que começou seguindo os altos índices de 2016, que superou em quase 62% os homicídios em 2015. A situação se torna mais preocupante quando já começam a circular pelas redes sociais supostos informativos que no próximo dia 10 haverá um movimento dos PMs do Rio semelhante ao que acontece no ES.
Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

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Fernando Leite – Linda Mara e a saga de “Augusto Matraga”

Vivíamos os primeiros anos da década de 1980, do último século do milênio passado, embora o calendário se despedisse, cercado de superstições e medos, o Brasil experimentava o”melhor dos tempos”. A abertura política retirava, gradualmente, uma tampa de chumbo sobre nossos sonhos e a arte florescia, vigorosa, irrequieta, ansiosa por espaços. Aqui, na vila formosa de São Salvador dos Campos, um longo domínio político conservador vazava e o que era preciso acontecer, começava a tomar forma e rosto e corpo.
A Faculdade de Filosofia, era, então, palco de todas as liberdades, fórum político, por onde passaram todos os candidatos a governadores do Estado, na campanha de 1982, vencida por Leonel Brizola e onde, ainda experimentamos o luxo de receber e conversar, visivelmente, emocionados, com o velho “Cavaleiro da Esperança”, Luís Carlos Prestes, recém-chegado ao Brasil, depois de longo exílio. Era a lenda, “a tempestade de homem”, como diria Oswald de Andrade, bem diante de nós e impressionava por sua fragilidade física. Sem contar luminares da cultura nacional.
Éramos um grupo grande e todos muito jovens. Vencemos as eleições para o Diretório acadêmico e instituímos uma “dinastia”, nos revezando nos 4 anos do curso de Jornalismo, no comando do centro dos estudantes. Foi nesse período que eu conheci essa moça. Uma paranaense, filha de dona Maria e seu Malaco, voluntariosa e, como todos nós, cheia de sonhos. Linda Mara é o nome dela. Da amiga que julguei ter feito lá no alvorecer dos anos 80. Abríamos a alameda do futuro com o desassombro da juventude.
Sei que, a exemplo do que dizia o poeta Torquato Neto, “vou desafinar o coro dos contentes”, mas também citando o designer gráfico, Sérgio Provisano, sou “um cavaleiro das causas perdidas” e, como tal, devo abrir mão do conforto de gritar o que significativa parcela da sociedade quer ouvir e falar, mansamente, o que penso.
A vida e seus desígnios e a política nos levaram por caminhos diversos. Mais apropriado: antagônicos.
A jornalista Linda Mara encarnou a carranca do longevo governo passado, gestão do casal Garotinho, de quem é fiel escudeira e sua melhor tradução. Contra ela migraram todos os ódios e ela os replicava de volta com igual intensidade. Exercia seu poder de mando, subalterno ao casal, com visível gosto e dessa forma, amealhou inimigos aos cachos dentro e fora da administração. Sua prisão, por razões de cunho eleitoral, foi catártica. Guardando as proporções e os motivos teve o mesmo efeito espetaculoso, estético, das cabeças raspadas do Sérgio Cabral e do Eike Batista e de outros presos pela Operação Lava Jato, menos notáveis. Não era nem a prisão em si que era comemorada, mas sua execração pública.
E é nesse patamar da prosa que me detenho. A sociedade brasileira, ao que parece, não tem se conformado com os remédios institucionais para combater os males que a afligem, secularmente. Quer mais. O que quer mais? No caso, aqui, na nossa paróquia, a personagem em questão foi indiciada pelo Ministério Público e Polícia Federal, teve o diploma e o mandato de vereadora eleita cassados, responde a um caudaloso processo judicial e recorre a instâncias superiores da Justiça, conforme reza o famoso “estado democrático de direito”. Aguarda, cumprido o rito processual, a sentença definitiva. Tem mais? Quem sabe um carimbo na testa, uma marca que a diferencie dos demais. Tenho medo desta sanha “justiceira”.
Mais do que isso não é Justiça, é vingança.
Não sou seu advogado de defesa. Estamos em espaços políticos, diametralmente, opostos. Sequer, temos convivência pessoal. Acho que ela e todos os outros denunciados, devem responder pelo que fizeram, mas também recuso o papel de bedel das causas alheias. Não sou julgador. Essa vaga está completa e cabe a um poder instituído para tal. Defendo a civilidade, ao contrário do rancor, do ódio visceral. Anseio por uma sociedade capaz de entender que os erros são, quando percebidos, o combustível da mudança.
Como devoto de são Guimarães Rosa, recorro a um conto de seu evangelho Sagarana: “A Hora e a Vez de Augusto Matraga”. Rosa conta a história de Augusto Esteves que, depois de aprontar todas, resolveu se redimir de suas culpas, carpir seus pecados e se sacrificar pelo justo, em duelo com “Joãozinho Bem-Bem”, famoso bandoleiro dos sertões mineiros, que impunha à força suas vontades. Redimido, queria “ir para o céu, nem que fosse a porrete”. Assim como ele, todos têm a sua hora e sua vez. Além do que ninguém deve ter compromisso com erros pretéritos, JK já disse isso.
As pessoas são o que são e o que foram. E, sobretudo, o que serão. Vivemos, graças a Deus, numa sociedade regrada, cujos limites são a ordem e a lei. Fazer “justiça” que atenda aos desejos dos que se consideram ofendidos e exigem castigo além da letra da lei é retroagir, no tempo e no sentimento, na evolução civilizatória.
Vamos adiante!
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Vanessa Henriques – “Dentro da cadeia, o PCC era como um pai pra mim”

 

Assim afirmou Felipe, 33 anos, enquanto relatava a experiência vivida em um presídio da capital paulista. Sentado defronte a mim, sem, no entanto, me encarar, Felipe me contou a história de sua vida, durante mais de duas horas ininterruptas. Logo no início do contato, foi possível notar que já devia fazer algum tempo que ele não falava tanto sobre si mesmo para alguém. Pudera, suspeito que Felipe mal se lembrava da última vez em que fora escutado com tamanho interesse. Estimulado pelos meus olhos e ouvidos atentos, as palavras de Felipe jorravam com facilidade. Ele falava em um fluxo quase contínuo, silenciando apenas algumas vezes, quando se detinha um pouco mais em uma ou outra lembrança particularmente incômoda. Diante dele, eu sorvia e aprendia, com o punho cerrado em torno do gravador; era meu trabalho fazer com que aquele relato não se perdesse.
Num primeiro momento, foi estranho ouvir alguém comparar o Primeiro Comando da Capital, “uma das maiores facções criminosas do Brasil”, a um pai. Felipe explicou que, para ter acesso a itens básicos de higiene dentro da cadeia, como sabonetes e pastas de dente, o preso novato que não pudesse receber tais “artigos de luxo” de parentes ou amigos, teria de se “filiar” ao PCC para conseguir obtê-los. Quando chegou à prisão, condenado por ter sido pego em flagrante roubando um supermercado, Felipe se viu sem pertences dentro de uma cela de proporções modestas, junto de mais 60 homens. Dada a precariedade das condições que encontrou no cárcere, somada à ausência de apoio familiar, foram os “manos” do PCC que lhe ofereceram amparo. Por isso, para Felipe, a relação com a facção lhe remete a um vínculo paternal. O sentimento de insegurança, companheiro constante desde que se entende por gente, atenuou-se um bocado quando ganhou a proteção do PCC. Mas é claro que esta proteção não seria gratuita. Em troca, Felipe deveria tornar-se um funcionário do tráfico de drogas existente dentro da cadeia e participar de rebeliões eventualmente programadas pelos “cabeças” da facção. O envolvimento em uma dessas rebeliões custou a Felipe mais dois anos passados no cárcere.
A trajetória de Felipe não se diferia muito das histórias que ouvi dos demais rapazes que entrevistei em virtude de uma pesquisa sociológica da qual participava. Durante um tempo, conversei com homens que se encontravam em situação de rua, acolhidos em um albergue localizado no centro da cidade de São Paulo. Pedi a eles que me contassem o que havia acontecido em suas vidas para que chegassem até aquele lugar, o que me permitiu coletar diversas histórias, todas com seu valor singular e riqueza de detalhes, mas em grande medida orientadas por um roteiro muito similar: infância vivenciada em um contexto de desestrutura material e emocional do núcleo familiar, frequentemente marcada pela ausência do pai; errática trajetória escolar na rede pública precarizada; precoce envolvimento com substâncias entorpecentes; adolescência marcada por desorientação e revolta diante das privações e humilhações de toda ordem apresentadas pelo mundo; dificuldade de inserção formal no mercado de trabalho e, por fim, envolvimento com atividades ilícitas e passagens mais ou menos duradouras pelo cárcere.
Após as dezenas de mortes ocorridas em presídios desde o começo deste ano, ganhou novo fôlego a discussão em torno do problema do sistema carcerário brasileiro. Os dados mostram que somos o quarto país com maior população carcerária do mundo e que o contingente de presos ainda vem crescendo de forma vertiginosa. É notório que as prisões brasileiras não cumprem seu papel de promoção da ressocialização dos presos e que a estrutura do sistema prisional apenas contribui para o recrudescimento da raiva e do ressentimento dos indivíduos que ingressam nas penitenciárias. Enquanto membro da sociedade civil, creio que cabe perguntar qual a serventia da pena privativa de liberdade quando aplicada nessas condições. A ineficácia deste modelo de punição também é passível de ser inferida a partir das estatísticas da área da segurança pública: não é possível perceber qualquer retração nos índices de criminalidade.
Vários especialistas apontam soluções para reverter o estrangulamento desse sistema . Poucos são aqueles que propõem apenas a construção de novos presídios e muitos são os que apontam para a necessidade de atacarmos as raízes do problema. São várias as questões que permeiam o debate: o grande número de presos provisórios, a dureza da Lei de Drogas que foi responsável por aumentar em 480% o número de presos por tráfico de drogas nos últimos doze anos , a carência de investimentos públicos em educação, saúde e assistência social como medidas que possuem o poder de prevenir a criminalidade, bem como o poder de reinserir os indivíduos que estão pagando pelos crimes que cometeram, dentre outras.
Para evitar que novas barbáries aconteçam fora e dentro dos presídios, é preciso que tenhamos a coragem de debater temas espinhosos, que mobilizam enormemente os afetos de grande parte da população, para que possamos reconstruir as bases de nossa sociedade. As facções criminosas ocupam vácuos de poder criados pelo Estado. O fato de que inúmeros Felipes tenham nestas organizações suas fontes de segurança material e existencial escancara a gravidade de um problema que definitivamente não será solucionado com a mera construção de novos muros.

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Manuela Cordeiro – Movimentos diários

 

Acorda e procura as primeiras luzes. O filme que deixou aceso, as luzes frias ainda por apagar do dia anterior, o celular pisca freneticamente recebendo os primeiros bits do horário comercial. Abre a janela da frente. Por sorte essa não tem chave, tem um só trinco e já consegue, sem tantos intermediários, enxergar o dia descortinando em vermelho e em canto. Do pássaro, do carrinho do vendedor de sorvete — interrompido pelo grito dos carros.
Começa a ronda na casa, a procura pelas chaves das portas, cada uma em um lugar previamente combinado com seu eu de ontem. Perturbado com os humores matinais, promete deixar tudo no mesmo lugar de hoje para amanhã. Mas, na realidade, sabe que a chave da porta de trás só pode estar em cima da ilha da cozinha, da geladeira ou em uma de suas várias cestarias de lembrança de queridos paradouros do passado. A chave da porta da frente também só tem outros dois cantos específicos para estar.
A porta que abre primeiro é a de trás. Não quer se abrir ao dia tão depressa. Vai ver as folhas caídas no chão, como o manjericão e a hortelã pimenta se comportam na luz tímida, o barulho dos vizinhos. Olha o céu e prevê o tempo do dia, mas se perde nos desenhos das nuvens.
Inicia o ritual do café da manhã ensaiado em perfeição — trocar as tomadas para a cafeteira e o liquidificador, ouvindo o tempo de terminar de passar o café, colocar as frutas do suco de hoje, ao mesmo tempo que liga o gás e inventa a tapioca do dia. Nisso, a chave do quarto já saiu da parte de dentro pra fora, junto com o computador, o livro que leu, as roupas para o dia de trabalho. Por um instante, tudo em harmonia e o maestro se dá ao luxo de apreciar o ritual em funcionamento. É interrompido pela espátula que cai e que ao buscar no chão, leva consigo o pano de prato e quase a garrafa de vidro. O susto do barulho interrompe a sequência do ato de fala e, no contexto da ação, a luz do dia e a do gás ficam por dois segundos turvas. Respira e consegue retomar o comando da polifonia. Porque já se aproxima o fim desse movimento da sinfonia. Nem ele gosta disso, mas sabe que deve preparar a próxima peça desse cenário, além de se regozijar ao ver a cena sempre pronta para novo ensaio.
O desfecho não é a simples ordem contrária do que foi feito anteriormente. Tem que ser sentido o tempo das coisas — o que esfria primeiro, enquanto lava o que já foi usado, preenche o finalizado. E novamente a porta de trás, a da frente, os esconderijos de sua mente para as chaves, a porta do quarto, a janela principal. Parado na porta da frente, novamente aberta, olha para mão que tilinta e se pergunta porque tantas chaves naquele molho — que incluem aquelas várias do trabalho, outras de casas de amigos.
Levanta o olhar e decifra o seu quebra-cabeça diário em um rápido olhar investigativo na sala e se pergunta — ficou tudo no seu lugar? E todo o dia sozinho responde, já que só ele domina o código de sua coreografia diária.

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Ricardo André Vasconcelos – Um país à mercê das trapaças da sorte?

 

“Trapaças da sorte” ou “urdiduras do diabo”. Foi como dois ministros do Supremo Tribunal Federal reagiram à morte do colega de toga, horas antes num acidente aéreo no litoral de Paraty. O morto era Teori Zavascki, relator do processo que investiga um dos maiores escândalos de corrupção do mundo e a poucos dias de concluir a homologação de colaborações premiadas de 77 executivos da maior empreiteira nacional. Os processos podem redundar no indiciamento de duas centenas de políticos citados, incluindo 128 com mandato, entre eles os presidentes do Congresso e da República.
Ingredientes suficientes para alimentar teorias da conspiração de todos os tipos, à direita e à esquerda. Nas redes sociais o próprio filho de Zavascki levantou suspeita de algo poderia existir de “não acidental” na queda do avião. Em maio do ano passado, o mesmo filho registrou em rede social que se algo acontecesse a sua família, a Polícia saberia a quem procurar. Mais não disse e nem mais lhe foi perguntado.
Em quatro anos na Suprema Corte, Zavascki contrariou interesses diversos: suspendeu o mandato de Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tirando-o da presidência da Câmara, cortando assim o suprimento de oxigênio político que o fazia manter em vergonhoso banho-maria o processo de cassação do próprio mandato. Algumas decisões favoreceram ao Lula e outras foram de encontro aos interesses dos ex-presidentes petistas. Com Renan Calheiros (PMDB), também deu uma no prego, outra na ferradura: determinou o indiciamento num processo que se arrastava quase há uma década, mas votou com a maioria para mantê-lo na presidência do Senado, mas fora da linha sucessória da Presidência da República. Um “puxadinho constitucional”.
Teori Zavascki já figura na extensa lista de personalidades brasileiras que saíram de cena de maneira que se tornaram suspeitas porque ocorridas em momentos de proeminência das vítimas e em circunstâncias limítrofes entre a fatalidade e o ardil humano. Acidentes acontecem, da mesma forma que sabotagens, envenenamentos ou homicídios. Ao longo das últimas décadas a história do Brasil está salpicada de casos que podem ser obras do puro e simples acaso ou de sórdidas conspirações. Trapaças da sorte?
Em outubro 1992, Ulysses Guimarães estava no auge da campanha pelo impeachment de Collor e o helicóptero que o levava de Angra para São Paulo, caiu no mar matando todos a bordo. Antes, em 1985, na véspera da posse como primeiro presidente civil após duas décadas de ditadura militar, Tancredo Neves foi internado às pressas no Hospital de Base de Brasília para uma cirurgia realizada num centro cirúrgico improvisado. Tancredo morreu 35 dias depois de uma sucessão de erros, farsas e egos inflados. O livro “O paciente – O Caso Tancredo” (1), do jornalista Luis Mir, é um dos mais completos trabalhos sobre a agonia e morte daquele que seria o presidente que faria a travessia do país de volta à democracia. A conclusão do livro não agrada aos adeptos das teorias conspiratórias. Para Mir, a partir da escolha do local da cirurgia (“território hostil do primeiro ao último minuto em que esteve lá”), o resumo é que houve uma “tragédia médica que colocou a transição democrática à beira do abismo…”. Só para ter um exemplo, na sala de cirurgia onde Tancredo foi operado, estavam 25 pessoas incluindo os profissionais, políticos como Antônio Carlos Magalhães, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima e a família Neves: a mulher, o filho, duas filhas, dois irmãos, uma irmã, dois netos (um era Aécio Neves) e um sobrinho (Francisco Dornelles).
Nas eleições presidenciais de 30 anos depois, em 2014, o candidato apontado como opção para o rodízio entre petistas e tucanos, morreu, também num desastre aéreo. Eduardo Campos, neto do lendário Miguel Arraes, tinha 45 anos e foi substituído na chapa pela vice, Marina Silva. A eleição foi vencida pela petista Dilma Rousseff.
Ministro da Reforma Agrária no governo Sarney, o advogado e militante histórico do MDB, Marcos Freire era um dos políticos mais promissores naquele alvorecer na “Nova República”. Pernambucano do Recife, chegou ao Senado com pouco mais de 40 anos. Em 1987 era ministro da Reforma Agrária do Governo Sarney quando o avião em que viajava, visitando o conflagrado Sul do Pará, explodiu em pleno ar matando também o presidente do Incra e outros técnicos. A reforma agrária, ainda era (é) um tabu que contribuiu para a queda do presidente constitucional, João Goulart, em 1964.
Goulart, aliás, é outro personagem que protagoniza diversas teorias de conspiração. Jango morreu em dezembro de 1976. O que chama atenção, como é esmiuçado no livro “O Beijo da Morte” (2), de Carlos Heitor Cony e Ana Lee, é que num período de nove meses morreriam, em condições, digamos, inesperadas, os três principais líderes da oposição ao regime militar. Os três, potenciais candidatos ao Planalto, tinham fundado a “Frente Ampla” meses antes com objetivo de restabelecer a democracia no Brasil. Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro na Rio-São Paulo, próximo à cidade de Resende, já no Estado do Rio. O Opala em que estava, dirigido pelo fiel motorista Geraldo Ribeiro, atravessou o canteiro e colidiu com uma Scania que transportava 30 toneladas de gesso. Os dois morreram na hora. Uma semana antes, correu um boato que Juscelino teria morrido em acidente semelhante, próximo a Brasília. Era agosto de 1976. Em dezembro do mesmo ano, João Belchior Marques Goulart, o Jango, morreu no exílio na cidade de Mercedes, na Argentina, oficialmente de ataque cardíaco.
Meses antes, Jango encontrou-se em Montevidéu com o inimigo político Carlos Lacerda, o “corvo”, para fundar a Frente Ampla e andava espalhando que voltaria ao Brasil, de qualquer maneira. Só voltou morto. Era cardiopata em uso de medicamentos e há pouco havia passado por um check-up em Lyon, na França.
Carlos Lacerda — um dos líderes civis do movimento de 64 que passou a combater e, por isso, teve os direitos políticos cassados — deu entrada na Clínica São Vicente, na Gávea, em maio de 1977, com sintomas de febre que, em poucas horas evoluiu para uma septicemia que o matou. Era o terceiro integrante da Frente Ampla morto em nove meses. As mortes de Jango e JK foram investigadas na ditadura e posteriormente já no retorno à democracia. Jango teve o corpo exumado em 2001 e nenhuma tese conspiratória comprovada. Mas sobre as três mortes pairam as asas de certa Operação Condor, conspiração liderada pela CIA para eliminar opositores dos regimes ditatoriais que dominavam a América do Sul com apoio dos Estados Unidos na segunda metade do século passado.
Casos confirmados de tortura e assassinatos de presos políticos pelos agentes do Estado autorizam as teorias conspiratórias. Ora, se assassinaram o jornalista Wladimir Herzog, o operário Manoel Fiel Filho, a estilista Zuzu Angel e muitos outros por se opor ao governo, por que não calar os que eram ameaça real ao regime?
Outro ex-presidente morto em desastre de avião e quase nunca incluído na lista de mortes suspeitas é Castelo Branco. O Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, presidente militar entre 1964 e 1966, perdeu a batalha da própria sucessão para os militares da “linha dura” que impuseram Costa e Silva, que anos depois legaria ao país o famigerado AI-5. Castelo voltava de uma visita à escritora Rachel de Queiroz, sua prima, na fazenda “Não me Deixes”, no Ceará, quando o avião em que voava entrou numa área de exercício da Força Aérea Brasileira (FAB) e foi atingido por um jato.
Num andar mais abaixo, há outras mortes com características mais de “queima de arquivo” do que conspiração política. Paulo César Farias, o ex-tesoureiro e pivô do impeachment de Fernando Collor, foi encontrado morto a tiros ao lado da namorada, Suzana Marcolino, em junho de 1996. Crime passional, foi a versão oficial. Suzana teria matado o namorado e depois posto fim à própria vida. Mais misterioso ainda é o assassinato, em plena rua em São Paulo, em janeiro de 2002, do então prefeito de Santo André, Celso Daniel. Estrela do petismo em ascensão, Daniel estaria prestes a detonar um esquema de corrupção na prefeitura, do qual perdera o controle. Testemunhas e suspeitos foram morrendo como num dominó macabro e a história virou toneladas de papel dos processos judiciais sem conclusão.
De coincidências e conspirações vai-se tecendo a história do Brasil. Sabe lá Deus o que mais nos espera…
Referências:
1. – CONY – Carlos Heitor e LEE Anna. O Beijo da Morte. Rio de Janeiro. Editora Objetiva. 2003.
2. – MIR, Luis. O paciente – O Caso Tancredo Neves. São Paulo. Editora de Cultura. 2010

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Ocinei Trindade – Darcy Ribeiro nu, a universidade e muitos lamentos

Eu não gostava de Darcy Ribeiro. Quando se é jovem, tolice e estupidez não nos faltam. Eu não gostava de Leonel Brizola, demorei compreendê-lo. Eu tinha 12 anos quando ouvi falar de ambos pela primeira vez. Brizola foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1982, e teve Darcy como seu vice naquele mandato até 1986. Achava-os chatos e falastrões. Eu achava que eles preferiam o Ciep, quando minha escola estadual estava abandonada. Eu não gostava tanto da escola, nem da ideia de ficar o dia inteiro nela aprisionado sofrendo pressões, assédios e constrangimentos (o que chamamos hoje de bullying). Lembro de ter visto ambos pela primeira vez na Beira-Rio, em Campos, durante campanha eleitoral em carreata. Darcy era candidato ao governo estadual, mas perdeu para Moreira Franco. Eu ainda não tinha idade para votar, mas votaria em Fernando Gabeira, se pudesse.

Eu demorei um bocado para saber quem era de fato Darcy Ribeiro e sua importância valiosa para o Brasil. Ignorantes são assim, demoram compreender muitas coisas. Não sei exatamente se foi em 1991 ou 1992, em uma certa ocasião, fui parar no restaurante do Palace Hotel para um jantar com Darcy Ribeiro. Não me lembro se ele já era senador da República ou candidato ao cargo. O encontro reuniu diversas autoridades do governo municipal, políticos, intelectuais, educadores e professores universitários que ensaiavam a criação da Universidade Estadual do Norte Fluminense sob a égide de Darcy Ribeiro, o mentor genial de tudo que se tornaria a Uenf futuramente. Como fui parar naquele evento? Bem, eu namorava alguém muito importante da primeira gestão de Anthony Garotinho na Prefeitura de Campos, então, fui a reboque.

Lembro que Darcy Ribeiro demorou muito para aparecer, sendo assim, o jantar não podia ser servido enquanto ele não chegasse, e eu faminto. Quando finalmente surgiu, estava de banho tomado, cabelos molhados e escovados para trás e, para variar, a sua metralhadora falante defenestrada entrou em ação. O homem era o centro das atenções e não poderia ser diferente. Eu percebia uma certa bajulação dos convidados, além de um constrangimento dos mesmos ao se dirigirem a ele, ou de interrompê-lo naquela verborragia toda alucinante. À época, a ponte Barcelos Martins tinha sido pintada de verde, o que desagradou a muitos campistas, inclusive integrantes do governo. Porém, Darcy elogiou a pintura com a cor mais representativa da flora brasileira. Bastou Darcy elogiar a ponte verde para muitos mudarem de opinião e concordarem com ele. “Toda cidade que é cortada por um rio como este só pode ser bonita”, disse.

Confesso que eu estava achando um saco aquele jantar. Darcy Ribeiro ria de tudo que ele mesmo contava e eu não conseguia achar a menor graça. Até que relatou de um susto que levara ao se hospedar em um hotel de alguma cidade do mundo onde fora criar ou reformar o modelo de ensino de alguma universidade, talvez no Peru ou Venezuela, não sabia precisar. Darcy disse que, ao sair do banho, deu de cara com um homem pelado de bunda murcha e enrugada no meio do quarto. Custou alguns segundos compreender o que um velho nu, enrugado e de bunda murcha fazia dentro do seu quarto. Foi então que percebeu que o velho era ele mesmo. A bunda flácida e enrugada que via era a sua própria refletida em espelhos. Todos riram, até que eu, tolo, estúpido e mau-humorado o contestei dizendo: “Ah,essa história eu achei muito mal-contada, professor. Afinal, o senhor estava hospedado só ou acompanhado nesse quarto de hotel?”. Alguns segundos de silêncio, ele me olhou por um instante, arqueou as sobrancelhas enormes e alvoroçadas, me ignorou, e voltou a disparar suas histórias. Me dei conta de minha gafe e passei a rir de tudo que ele dizia a partir de então, mas na verdade eu ria de mim mesmo.

Dias depois, a professora Magdala França Vianna, que estava nesse jantar e que me dava aulas no curso de Comunicação Social à época, me abordou na faculdade e disse ter se surpreendido com meu atrevimento ao me dirigir daquela forma ao célebre Darcy Ribeiro. Ela se divertiu. Sinceramente, eu achei que falei algo tão insignificante, mas que de uma certa maneira eu quis, sim, pensando bem, chamar sua atenção. Levei tempo para aprender que quase todos ali queriam ser que nem Darcy Ribeiro, um gênio (com e sem dúvidas) diante da vida. Quando ele morreu de câncer, aos 74 anos, em Brasilia, em 1997, eu já era menos tolo. Contava com 27 anos e tinha um pouco mais de maturidade e informação para saber que Darcy Ribeiro era um homem raro, que defendia a educação e os índios com tamanha nobreza e com grande conhecimento de causas e lutas.

Em novembro último, visitei a conceituada Universidade de Brasília e seu campus gigantesco. A UnB foi concebida por Darcy Ribeiro quando era ministro da Educação durante o governo parlamentarista de João Goulart. Dentro daquele complexo de prédios modernistas com traços de outro gênio, Niemeyer, lembrei desse meu encontro com Darcy Ribeiro e sobre sua última criação, a Universidade Estadual do Norte Fluminense que leva o seu nome, em Campos dos Goytacazes, instituição esta que eu tenho a honra de estar concluindo o mestrado em Cognição e Linguagem. Lamento muito que a Universidade do Terceiro Milênio como ele idealizou, esteja atravessando um momento de abandono juntamente com outras instituições de ensino do estado do Rio de Janeiro, acometido por graves problemas financeiros e por uma gestão desastrosa por parte dos últimos governos que preferiram investir em isenções fiscais para empresas multinacionais, por exemplo, além de superfaturar obras faraônicas e desviar dinheiro público para enriquecimento ilícito, como bem sabemos pelas acusações e prisões de vários políticos fluminenses testemunhadas pelo povo.

Tantos anos de luta e investimento por parte de professores, servidores, pesquisadores e estudantes, mas os políticos ainda não sabem ou não aprenderam a importância da educação para o desenvolvimento de um país e de uma sociedade que parece retroceder a cada dia quando não tem acesso ao ensino de qualidade. Há muito o que lamentar, porém é preciso reagir. Quando a Uenf foi idealizada, muitos representantes de setores organizados se juntaram para sua elaboração e consolidação. Agora é hora de todos que acreditam em um Brasil melhor e mais digno por meio da educação voltarem a se unir em favor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Um país que abandona suas escolas e universidades condena a si próprio ao atraso, ao esquecimento, às trevas.

Conta-se que no leito de hospital, antes de morrer, Darcy Ribeiro, sedutor como de costume, pediu à médica que lhe tratava o câncer para que ela o autorizasse a dar aulas ali mesmo. Ele sentia uma vontade enorme de ensinar, Trouxeram-lhe um menino de nove anos de idade para que ele pudesse conversar e dar sua última aula. Dizem que por alguns instantes, Darcy contou várias histórias ao garoto sobre o Brasil, a importância dos índios, das florestas, das culturas todas, do sambódromo e das escolas, e que todas essas coisas deveriam ser respeitadas, Foi um testamento que ele quis deixar.

Na UnB, no prédio lindo em forma de oca indígena construído no local que Darcy Ribeiro apelidou de beijódromo (era um local de encontros amorosos no campus universitário), encontra-se todo o seu acervo pessoal de livros, documentos, discos, prêmios, honrarias e objetos relevantes. Ali, se concentram alguns elementos que ajudaram na formação intelectual do antropólogo, reitor e escritor Darcy Ribeiro. Ele deixou um legado precioso ao país, e esta herança não pode ser esquecida pelos brasileiros, povo que ele amou sem reservas. O homem que amou o Brasil e que se doou de tal maneira nos deu exemplos. A lição está dada.

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