Igor Franco — Lava Jato F. C.

 

(Foto: WallPaper Safari)

 

 

Há alguns dias, acompanhamos o histórico voto do Ministro Herman Benjamin, do TSE, no processo de cassação da chapa Dilma-Temer. Perdidas no meio da leitura que durou dez horas havia frases primorosas pela condenação de uma eleição às custas de todas ilegalidades possíveis. Quanto desperdício de energia: o relator poderia tê-las dito, apenas. O belo deve ser simples. Também o feio deve sê-lo: 95% dos trabalhos acadêmicos da área de humanas, por exemplo, com toda sua inutilidade em linguagem ininteligível, poderiam ser descartados. Firmo o compromisso ser sempre direto. Em qual dos adjetivos o texto se enquadrará, deixarei a cargo do leitor.

Busquei alguma outra pauta para o primeiro texto, mas a tentativa foi vã. Em qualquer ponto do tempo, nos últimos três anos tornou-se impossível não falar da Lava Jato e seus desdobramentos. A cada semana nos defrontamos com mais detalhes escabrosos de velhos e novos enredos. Alguém se lembra do temor de Marcelo Odebrecht implodir a república? Isso é notícia velha. A tremenda incompetência política e econômica de Dilma a fez cair antes de ser alvejada pelos relatos de corrupção. Quis o destino que o inverso acontecesse com seu sucessor. Do alto de sua maestria para domar nossos parlamentares e da sensibilidade para entender a urgência das reformas fiscais, Temer foi abatido pela escandalosa gravação de Joesley Batista.

O mesmo Joesley foi capa da Época desta semana com uma contundente entrevista em que afunda ainda mais o punhal cravado no peito do presidente. O relato é cristalino: Temer é corrupto e comandava o esquema de propinas do PMDB. A internet rapidamente foi tomada por grandes manifestações de delírio de parte da esquerda, que enxerga nisso uma espécie de absolvição do grande comandante do Petrolão, e de protestos de parte da direita, que cobra a Joesley a mesma contundência em relação ao chefe da seita petista.

Substituindo Moro por Janot, esses últimos, ao fazerem isso, embarcam nas mais fantasiosas narrativas de conspirações armadas para favorecer Lula às custas de Temer. Tolinhos: um Estado operado para satisfazer seus próprios operadores, que arrecada R$ 2 trilhões em impostos, tem espaço suficiente para muitos ladrões de grande porte. Lula, aliás, foi acusado pelo dono da JBS de institucionalizar a corrupção como a conhecemos hoje o que, convenhamos, não é nenhuma novidade para qualquer pessoa não adepta à seita petista. Ao trilhar caminho pela mesma estrada que exauriu o que restava de dignidade ao discurso petista, a direita da teoria conspiratória contribui para diminuir os ganhos recentes de credibilidade no renascimento do seu discurso.

Temer tende a sangrar por um longo período. Mantendo sua sustentação no Congresso através da base parlamentar oriunda da viciada eleição de 2014, o presidente permanece no poder, ainda que refém do mais descarado fisiologismo que nos remete ao pré-impeachment dilmista. Fora de Brasília, Temer confia nos últimos iludidos em sua capacidade de aprovar as necessárias reformas fiscais. As outrora poderosas manifestações de rua eram movidas por um sentimento — sepultado em 17 de maio último — de que uma mudança de poder não era apenas eticamente necessária, mas minimamente eficaz em moralizar as instituições políticas. Obviamente, não estou considerando as fracassadas e sucessivas edições da Marcha da Mortadela.

As contas com nossos erros passados somente poderão ser quitadas em 2018. Para mim, não há qualquer outra escolha digna que não seja rejeitar projetos populistas e, principalmente, apoiar candidatos que sejam apoiadores inabaláveis da Lava Jato. A sobrevivência inexplicável dos procuradores e juízes — leia-se Moro — até aqui só pode ser entendido como um sinal de boa vontade divina ao povo brasileiro. De Lula, passando por Dilma a Temer, que seja preso cada um que se mostrar maculado pelos pecados da corrupção. Estou com a Lava Jato até pelo impeachment do Papa Francisco, se preciso (e isso não seria má ideia!).

Entre a desonra e a instabilidade, não podemos escolher a desonra, pois a instabilidade não se resolverá no curto prazo. A saída de Temer do poder é imperativa, ainda que precisemos enxotar um Rodrigo Maia da vida daqui a seis meses.

 

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Dois anos após seu desaparecimento, onde hoje habita o Neivaldo?

 

Em 28 de julho de 2012, Neivaldo observa seu bar ser tomado pelas águas nas quais ele mesmo desapareceria, três anos depois (Foto: Mariana Ricci – Folha da Manhã)

 

 

Por Aluysio Abreu Barbosa

 

Poet de vie (“poeta de vida”). É a expressão criada pelos franceses para definir quem, mais do que escrever versos, é capaz de converter a própria vida em poesia. Entre outras tantas classificações, é o que se pode dizer não só dos 54 anos de vida do comerciante, publicitário e “filósofo” autodidata Neivaldo Paes Soares, como da sua suposta morte na foz do rio Paraíba do Sul. Na próxima quarta-feira, dia 21, se completarão exatos dois anos daquele domingo de junho de 2015, quando ele foi visto pela última sobre as águas do rio que gerou e corta a Planície Goitacá.

No cair de uma noite fria, Neivaldo saiu sozinho do cais do Restaurante do Ricardinho, tradicional estabelecimento de Atafona, ao lado da Igreja Nossa Senhora da Penha, e iniciou a travessia do Paraíba em sua canoa a motor, rumo à ilha do Peçanha, onde residia e costumava receber os amigos. Dali, onde o rio deságua no Oceano Atlântico, ele nunca mais seria visto. Apesar das várias buscas da Marinha, Bombeiros, Polícia e amigos, com mergulhadores e cães farejadores, seu corpo nunca foi encontrado.

Campista, Neivaldo atuou em várias funções em sua cidade natal, inclusive na Folha da Manhã, nos anos 1990, onde costumava colaborar com artigos, geralmente criticando o sistema manicomial brasileiro, e atuou como publicitário. Também tentou a sorte na política, sendo candidato a vereador pelo PT e depois pelo PFL, evidenciando a “metamorfose ambulante” dos seus pensamentos e atos. Mas se sua figura alta e esguia já era bastante conhecida pelo jeitão hiperbólico, questionador e um tanto excêntrico, foi em Atafona que Neivaldo passaria a ser conhecido como “Bambu”, se tornando referência para sanjoanenses, campistas e quaisquer passantes atraídos pelas belezas naturais da foz do Paraíba.

Era 2007 quando ele ocupou a antiga garagem de barcos da família Aquino, no Pontal de Atafona, e retirou sozinho toda a areia que já tomava a sólida construção, para fazer do local seu bar e casa. No verão de 2010, apesar do acesso difícil pela areia e a ausência de luz elétrica, o Bar do Bambu atingiria seu auge de popularidade, quando foi palco para a peça “Pontal”, dirigida por Antonio Roberto de Góis Cavalcanti, o Kapi (1955/2015). Em apresentações que reuniram entre 80 a 120 espectadores por noite, sob a luz bruxuleante da fogueira, lamparinas e lampiões, os poemas sobre Atafona de Aluysio Abreu Barbosa, Artur Gomes, Adriana Medeiros e do próprio Kapi eram contados como causos de pescadores, na interpretação dos atores Yve Carvalho e Sidney Navarro, além de Artur.

No último poema do espetáculo, “Manchete de jornal”, Yve se virava para o dono do bar e declamava em voz alta os versos de Adriana: “Ainda freamos o mar/ Com o nosso tesão molhado./ Ainda sentimos frio lá na curva,/ Onde hoje habita o Neivaldo”. E, em cada apresentação, essa era a senha para que a face do homenageado se abrisse em riso e seus olhos lacrimejassem, sempre como se fosse a primeira vez. Sensibilidade à parte, o sucesso inesperado de público, elevando à décima potência as vendas do bar, foi a oportunidade para que seu proprietário fizesse um pé de meia.

Depois de ter sido o anfitrião orgulhoso daquele que talvez tenha sido o último grande momento do Pontal, Neivaldo permaneceria lá até julho de 2012, quando o avanço do mar atingiu seu bar e residência. Como já tinha comprado uma casa na Ilha do Peçanha, ele atravessou suas coisas pelo Paraíba e passou a residir lá, onde o isolamento era quebrado pela manutenção do hábito de receber amigos e curiosos pelo bucolismo do local, além do jeito extravagante, mas sempre acolhedor, do seu novo habitante. Qualquer “lamparão de bico” que aparecesse era recebido com as “iguarias inigualáveis” de quem aprendeu a misturar tinta marrom de rio e verde de mar para escrever poesia com sua própria vida.

Ao desaparecer, Neivaldo encarnou mais do que qualquer um o destino das referências humanas na foz do Paraíba.

 

 

Depoimentos:

Elvio Paes Soares

 

É aquela velha história: caiu no esquecimento. A Marinha não fez mais nada para saber o que aconteceu. Na época do desaparecimento, com a cobertura da Folha em cima, fizemos tudo que poderia ser feito. Mas é uma sensação horrível não achar e poder enterrar o corpo do seu irmão. Foi ainda pior para o nosso pai, que morreu de infarto um mês e meio depois de Neivaldo sumir. Tenho certeza que não ter a resposta sobre o que aconteceu com o próprio filho contribuiu muito para isso. Seu coração não aguentou. E o de que pai aguentaria? As duas mortes seguidas desestruturam muito a nossa família. Minha mãe não passa um dia sem se lamentar. Ela sempre liga para mim para saber se acharam alguma coisa.

(Elvio Paes Soares, comerciante e irmão de Neivaldo)

 

 

Auxiliadora Cassiano

 

“O dia amanheceu, os pássaros cantam! Mova-se, abra a casa e espera a luz da vida, deixando o sol entrar”.

(Neivaldo)

Continuo me movendo no tempo; na vida; “degustando iguarias inigualáveis”; em sabores e paisagens que você rinha o prazer que todos sentissem.

O mar continua vindo, numa mudança infinita. Hoje o pesadelo do seu desaparecimento/morte deu lugar a uma infinita saudade que traz para a vida essa “existência humana” que você tanto respeitava.

(Auxiliadora Cassiano, bancária)

 

 

Guilerme Bousquet

 

Eu conheci Neivaldo, o “Bambu”, no final dos anos 80, na mesma época em que ele se candidatou ao cargo de vereador, depois o encontrava esporadicamente em Campos ou Atafona. Já fui atendido por ele no UTI, bar de comida árabe de propriedade da família “Knifis”, em Atafona, e no Bar do Estranho, em Campos.

Mas foi quando ele transformou uma garagem de barcos em bar no Pontal, que o conheci melhor e passei a ir frequentemente para apreciar o espetáculo da natureza, no encontro do rio Paraíba com o mar. Lá, no Pontal, Bambu sempre me recebia com aquele sorriso estampado no rosto e abria as portas do seu cantinho para eu entrar, colocando o velho fogão à minha disposição para preparar as famosas peixadas e galinha ao molho pardo. Mas a fúria do mar levou o seu cantinho para as profundezas e ele teve que se mudar para uma casinha na Ilha do Pessanha. Nessa aconchegante ilha, eu, minha família e amigos, passamos a frequentar e continuar a apreciar a natureza do outro lado do Paraíba.

Mas, em meados de 2015, recebi a fatídica notícia dando conta de que Bambu estava sumido há uns quatro dias. De imediato procurei saber o que havia acontecido e acionei alguns parceiros de profissão para irmos até a ilha, local onde ele morava. Chegando lá, ao entrar no pequeno quarto, que sempre ficava arrumado e impecável, me deparei com livros no chão, lençóis retorcidos na cama e travesseiros espalhados. Ao olhar no varal do lado de fora do casebre, constatei que a mesma sunga azul que falaram que ele vestia no último dia em que foi visto, estava pendurada junto com outras roupas. Nesse momento, tive a certeza que Bambu não havia morrido afogado…

A partir daí, comecei a fazer contato com parceiros do Corpo de Bombeiros, altamente qualificados, para iniciarmos as buscas pelo corpo. No primeiro dia de buscas acompanhei os mergulhadores do CBMERJ para tentar localizar o corpo em torno das Ilhas do Peçanha e da Convivência, mas não lograram êxito. Poucos dias depois acompanhei novas buscas, dessa vez nas terras das ilhas com o auxílio de cães farejadores que vieram de Magé somente para essa empreitada. Caminhamos horas pelas ilhas e, mais uma vez, nem sinal do corpo de meu amigo Bambu.

Agora restaram a saudade e a lembrança dos excelentes papos, sempre degustando as “iguarias”, como ele mesmo gostava de falar, apreciando a natureza de Atafona.

(Guilherme Bousquet, inspetor de Polícia Civil)

 

 

Luiz Henrique Araújo

 

Conheci Neivaldo em 1980, num show de rock no Automóvel Club Fluminense de Campos. Através dessa e tantas outras identificações, nossa amizade se consolidou na loucura, na crítica aos padrões vigentes, n psicologia e na filosofia, apesar das minhas limitações. Bebemos muito Nietzsche, Kafka, Carlos Castaneda e tantas outras maravilhas nos bares da Pelinca.

Em 1988, selamos nossa amizade, como fazem alguns índios, com uma troca de camisa num campeonato de surfe no Farol de São Thomé. A camisa que ficou comigo desintegrou 20 anos depois, na foz do rio Paraíba, surfando. Local onde nossa amizade chegaria ao ápice da maturidade, crescimento e harmonia, pois nos aceitávamos com todos os defeitos e virtudes.

Nos últimos anos, nos encontrávamos sempre no meio do Paraíba: ele de canoa, eu de barco a remo. E ríamos porque a vida nos tirou a Pelinca. E, em troca, nos deu inteiramente o Paraíba. E ali, naquele mesmo lugar, eu me sinto absolutamente vivo! E ali, naquele mesmo lugar, ele “morreu”…

“Herdei” sua canoa, sua casa na Ilha do Peçanha, 20 dos seus mais de mil livros e, acima de tudo, uma vida inteira de alegria, de loucura, de lucidez e a certeza de que tudo continua valendo a pena.

Vai, meu amigo, pois só os loucos, os artistas e os anjos atravessam a existência do “Portal de Atafona”.

(Luiz Henrique Araújo, fiscal de Meio Ambiente)

 

 

Filipe Estefan

 

Lembro-me de Neivaldo nos idos de 80/90, quando, em conversas informais, discorria sobre humanismo e política, com percepções profundas sobre a vida e a história do mundo e do Brasil. Exercia a profissão de publicitário, era autodidata, erudito e desfrutava de bons relacionamentos em todas as camadas sociais. Ainda naquele período, me lembro de Neivaldo fazendo campanha como candidato a vereador em Campos, com discursos progressistas e voltados para o homem e a natureza.

Passaram-se anos sem encontrar Neivaldo, até que, em um verão em Atafona, fui acompanhado de um amigo em comum, Carlos Américo, visitar o bar de Neivaldo no Pontal de Atafona, justamente ali no encontro do rio Paraíba do sul e o Oceano Atlântico. Com o avanço impiedoso do mar, e a destruição do bar, Neivaldo se mudou e foi morar na ilha do Peçanha, onde remontou seu bar, e, onde por inúmeras vezes para lá naveguei em companhia de esposa e amigos para beber uma cerveja gelada e desfrutar das iguarias por ele servidas. Bem como para um bate papo descontraído ao sabor do ventos uivantes e da bela paisagem da ilha.

Grande abraço amigo! Que Deus lhe conceda a Paz eterna!

(Filipe Estefan, procurador de São João da Barra)

 

 

Pedro Henrique Motta

 

Lembro quando fui chamado pelo amigo Cyro Poppe para conhecer um bar em Atafona, o bar do Neivaldo. Em um lugar fascinante, com uma energia fora do comum, fomos recebidos por um anfitrião de risada extravagante com uma cachacinha na mão, descalço, fritando um peixe, receptivo, carismático, com o riso fácil; um malucão. Difícil ser indiferente à sua irreverência e espontaneidade.

Voltei tantas vezes que logo fizemos amizade, acredito que cada um que retornava tinha um lado Neivaldo, desprendido, à beira do rio, descalço, e ali se libertava nas rodas de violão dando boas risadas, declamando poesia, filosofando à luz do lampião, virando noites vendo a lua, tocando mais uma canção.

Essa época marcou a minha vida, tanto que hoje junto com o amigo Guilherme Lenga, que também participou dessa fase, abrimos o Eremita Bar, cujo nome, artigos de decoração e pratos do cardápio, têm influencia direta do nosso amigo que um dia morou numa ilha.

Dias antes de seu desaparecimento, avisei que lhe faria uma visita. Ele disse que me esperaria com um peixe. Não deu tempo. Ele se foi, desapareceu como uma lenda, “a lenda do Pontal”. Saudade é a palavra dessa época que não volta mais, da nossa amizade, de tudo que o mar engoliu e ficou pra trás.

(Pedro Henrique Motta, empresário)

 

 

José Cunha Filho

 

Ah, o Neivaldo! Não tinha o hábito de frequentar o seu bar em terras além do Pontal, tinha não. Visitei, várias vezes, o antigo botequim que agora é ponto de parada de sereias e outros viventes do mar. Da última vez que o vi, alegre estava e disputamos três partidas de xadrez enquanto degustávamos uma cervejinha.

Aonde você foi, menino levado?

A gente se conhecia desde os idos em que ele frequentava a Folha da Manhã, sempre prestativo, sem função definida, mas querido por todos, sempre sorridente e jovial. Gente boa, gente boa! Bom caráter nato! Agora, saiu para passear e não voltou. O seu barco a motor, leso de saudades, ficou a rodopiar a meio caminho entre o Pontal e Convivência.

Como pião sem guia, girando sem parar, sem mão segura no leme que o conduzisse aos portos da aurora.

Saiu a navegar o Neivaldo, mal saída a noite e cadê?

Nós, amigos e amigas, torcemos para que retorne de sua viagem por mares nunca dantes navegados como queria o Camões que recitava por desfastio, noites de plenilúnio.

É possível, contudo, que o guardião da Árvore Que Anda esteja adormecido nos braços de Iemanjá, que a encantada elege os seus preferidos, mantém em sua corte aventureiros e gente do bem.

Quem sabe ainda nos encontremos, Neivaldo, para mover aquela torre e deixar órfão o rei?

(José Cunha Filho, jornalista e escritor)

 

 

Diva Abreu Barbosa

 

Como me esquecer de você, Neivaldo, com sua postura ereta, suas divagações, seu buscar incessante, desde o tempo em que trabalhava na Folha da Manhã, vendendo anúncios, morando na casa em Cantagalo, onde está sediado o transmissor da Rádio Continental, com sua horta plantada naquele espaço, que quase acabou com nossos radiais, tirando a rádio do ar, no afã de arar a terra?

E, por final, na sua metáfora como abrigo, o seu bar, o “Pontal” de Kapi e Aluysio, as estrelas como céu e o Paraíba como colchão, até desaparecer em suas águas — ou não…

Mistérios de Neivaldo e sua saga…

Sem Ponto Final!

(Diva Abreu Barbosa, professora e empresária)

 

 

Aristides Soffitai

 

Neivaldo entrou na minha vida assim como saiu: do nada. Ele tinha uma grande qualidade. Conseguia os mais mais reservados documentos. Com eles, podíamos trabalhar com provas na nossa luta ambiental. Mas ele também era mestre em me causar problemas. Um dia, um marido enfurecido me ligou reclamando que Neivaldo cortejava sua mulher. Perguntei-lhe o que eu tinha a ver com o caso. Ele me pediu que eu o controlasse. Neivaldo era incontrolável. Em outra ocasião, ele envolveu o nome do Centro Norte Fluminense para a Conservação da Natureza num encontro regional sobre a liberação da maconha. Ecologista já não tinha boa reputação, ainda mais se envolvendo com drogas.

Ele acabou sendo afastado da nossa associação por vontade da maioria. Fui seu advogado de defesa invocando a importância do seu caráter de espião. De nada adiantou. Neivaldo sumiu. Anos depois, veio a notícia que ele havia sumido da vida. Seu corpo nunca foi encontrado.

(Aristides Soffiati, historiador, escritor e ambientalista)

 

 

Página 5 da ediçao de hoje (18) da Folha

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Pitbull Rosa revela o outro lado da Chequinho e ameaça morder na Câmara

 

Por Aluysio Abreu Barbosa e Paula Vigneron

 

Um bloco de oposição com até 10 vereadores e participação direta nas CPIs da Lava Jato e das Rosas, já publicadas em Diário Oficial. Conhecido em seu mandato anterior como “Pitbull Rosa”, o vereador Thiago Virgílio (PTC) chegou à Câmara Municipal ameaçando morder com boca larga. Ele também revelou a visão que os acusados têm da operação Chequinho, questionou os cinco dias que passou na cadeia por conta dela e fez críticas aos métodos de investigação. Embora ressalte que torcer contra o governo Rafael Diniz (PPS) é torcer contra Campos, além de admitir seu canal aberto com o chefe de gabinete Alexandre Bastos, Thiago promete não dar facilidades na missão de fiscalizar os atos do prefeito e do presidente da Casa de Leis goitacá, vereador Marcão (Rede). Se vai só rosnar ou de fato morder, os próximos dias dirão.

 

(Foto de Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

 

Folha da Manhã — Apesar de condenado pela Justiça Eleitoral de Campos na Ação de Investigação Judicial Eleitoral (Aije), você conseguiu assumir seu mandato com um recurso no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a partir da concessão de um habeas corpus criminal no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Seu recurso na condenação eleitoral ainda não foi julgado no TRE, que já condenou Jorge Magal (PSD) e Vinícius Madureira (PRP). Qual sua estratégia para não seguir o mesmo caminho deles, já que as acusações na Chequinho são basicamente as mesmas?

Thiago Virgílio — Pelo que os nossos advogados vêm falando, as estratégias serão diferentes das que foram usadas pelos vereadores Magal e Vinícius Madureira. Nosso jurídico acha que houve alguns equívocos nas estratégias dos advogados deles, sem querer fazer nenhuma crítica, até por questão de ética.

 

Folha — Mas você pode dizer qual é a diferença dessa estratégia?

Thiago — Não. Eu não sei. Não tenho conhecimento porque os advogados não abriram isso para a gente. Mas a gente confia que terá êxito no TSE. Eu entendo ali, por exemplo, no caso do Madureira, pelo que a gente soube, parece que teve uma tentativa de supressão de instância. Antes de ele pedir a cautelar no TSE, deveria ter uma declaração de admissibilidade do TRE. Parece. Não sou advogado. Tanto é que Magal ainda não entrou. Estão trabalhando para que tenha essa declaração de admissibilidade do TRE, para que, assim, ele possa tentar. Pesquisei com vereadores que são advogados, como Thiago Ferrugem e Vinícius Madureira, e eles mostraram que, praticamente, todo mundo que entrou com uma cautelar, neste sentido, consegue êxito. Até porque o TSE, no julgamento do nosso habeas corpus, deixou claro que entende que vereador tem que ficar no cargo até a última instância.

 

Folha — Além da Aije, seu envolvimento na Chequinho, como o de todos os demais candidatos beneficiados no “escandaloso esquema” da troca de Cheque Cidadão por votos na eleição de 2016 gerou também ação criminal na 100ª Zona Eleitoral de Campos, ainda não julgada. Qual sua expectativa?

Thiago — Eu participei de uma audiência até agora. Doutor Ralph até dispensou os réus. Estávamos eu, Linda Mara (PTC), Jorge Rangel (PTB) e Kellinho (PR). Logo que chegamos, ele liberou. Os réus poderiam sair da sala. Não precisavam participar. No primeiro depoimento, que foi da Beth Megafone, ele perguntou a ela: “Só tem um réu na sala. Quer falar na presença dele ou não?”. Ela ficou sem responder por uns 30 segundos. Eu levantei e falei que estava saindo para não atrapalhar. Eu poderia ter ficado, mas não quis. E, agora, tem uma audiência marcada para o dia 26. Eu também estou muito confiante porque, pelas provas que têm, no meu caso, acho que não são consistentes para poder me condenar. Mas cabe ao juiz. Não sei qual é o entendimento dele. Tiveram o entendimento sobre Magal. Nem aceitaram a denúncia dele. Dá uma esperança de que eles possam rever com calma. Como no caso do Cláudio Andrade (PSDC). Ele também respondeu e foi arquivado. O Ministério Público entrou…

 

Folha — Cláudio Andrade na Chequinho?

Thiago — Cláudio Andrade na Chequinho. Foi o único caso em que teve acareação. Nenhum outro teve. Eu tenho o processo e posso te fornecer aqui mesmo. São 84 páginas. Na Chequinho. Foi arquivado.

 

Folha — Qual seria o envolvimento de Cláudio Andrade?

Thiago — Uma das assistentes sociais o beneficiou. Teria pedido. Só que teve acareação. Ele também foi denunciado.

 

Folha — Uma daquelas assistentes sociais, que fizeram denúncia inicial à Polícia Federal PF), teria falado que beneficiou Cláudio Andrade também? Mesmo ele sendo oposição?

Thiago — É. Porque o contato dele seria com a assistente social. Seria pessoal. E, aí, houve uma acareação com as três pessoas. Elas falaram que não teve isso. E foi simplesmente arquivado. Então, a gente fica com esperança. Algumas pessoas estão sendo absolvidas; de outras, nem a denúncia está sendo aceita. A gente acredita que possa ter uma decisão favorável na criminal.

 

Folha — Ainda no ano passado, você foi afastado do seu mandato anterior e depois preso por cinco dias, pelo envolvimento na Chequinho. Chegou a pensar em fazer delação premiada enquanto esteve na Casa de Custódia?

Thiago — Nunca cheguei a pensar.

 

Folha — O Ministério Público ou a PF chegaram a propor a delação?

Thiago — Não. No dia, não foi formal, mas um dos agentes disse: “Rapaz, você tem que pensar na sua família. Você é casado. Estou vendo a aliança no seu dedo. Deve ter filho”. Eu disse que tenho três.

 

Folha — Sabe qual o nome do agente?

Thiago — Não. Se eu encontrar, hoje em dia, até sei reconhecer.

 

Folha — Então não pensou em fazer delação?

Thiago — Hora nenhuma. E também não tive proposta.

 

Folha — E se tivesse?

Thiago — Com certeza, não faria. Eu sou totalmente contra a delação premiada.

 

Folha — Mas você acha possível fazer uma operação como a Lava Jato, que já recuperou R$ 10,3 bilhões desviados dos cofres públicos, sem delação premiada?

Thiago — Não é questão de ser possível. É questão de que não tem para onde correr. É diferente do meu caso. Eu não tinha nada para entregar.

 

Folha — E se fosse executivo da Odebrecht, você falaria?

Thiago — Ali, acho que não tem para onde correr. Com as provas, não tem para onde.

 

Folha — Depois de assumir seu novo mandato, você disse na tribuna da Câmara que chegou a pensar em desistir. Por quê?

Thiago — Em alguns momentos, porque foi muito difícil. A meu ver, criaram um clima de terrorismo.

 

Folha — Quem criou?

Thiago — Acredito que a Polícia Federal, a própria mídia e o Ministério Público. Para você ter ideia, os dias em que eu fiquei mais tranquilo, desde quando estourou a Operação Chequinho, foram os dias em que eu fiquei preso. Eu sabia que, pelo menos, minha mãe, meu pai e minha esposa sabiam que não tinha mais nada para acontecer comigo. Porque (diziam): “olha, vai prender; no dia da eleição, prende todo mundo”. A gente ouvia dizer que, no dia da diplomação, não dariam o diploma; que, no dia da posse, caso diplomados, não tomaríamos posse. Ali, eu fui muito prejudicado porque todo mundo sabe que eu era o candidato (à presidência da Câmara) do grupo da época, da prefeita. Pela composição e pelo trabalho feito, a gente acreditava que tinha chance de ganhar pela conversa que tínhamos com vereadores e partidos. Com a canetada que nós tomamos, deixaram de fora seis vereadores, alguns com experiência, como Jorge Rangel e Kellinho. Isso aí desarticulou. As pessoas falavam: “aqui, não vai dar mais”. E começaram a conversar com o pessoal de Marcão (Rede). Então, acreditamos que isso foi primordial para que Marcão levasse a (presidência da) Mesa.

 

Folha — Então, esse foi o clima de terrorismo do qual você falou?

Thiago — É. Terrorismo de “vai prender”, de Polícia Federal. E ainda acontece. Em minha opinião, não há necessidade. Até as testemunhas, hoje, estão sendo notificadas para uma audiência pela Polícia Federal. Isso já assusta as pessoas. O cara está na casa dele e chega a Polícia Federal. Existem os oficiais de Justiça para isso. Então, para que isso?

 

Folha — Você falou que um clima de terrorismo foi criado pelo Ministério Público, Polícia Federal e imprensa. Você acha que imprensa, MP e PF se juntaram?

Thiago — Não. Em minha opinião, não houve uma aliança. Mas houve cada um atuando dentro do que cabia. Vou dar um exemplo da minha prisão. Primeiro, me chamaram lá, em um dia de sábado, jogo do Flamengo. A mesma pessoa, o policial federal Alessandro, me ligou na quinta-feira, dizendo: “Eu preciso que você tome ciência de que está sendo afastado da Câmara”. Ele me ligou em um dia de sábado e falou: “Você precisa vir à Polícia Federal para poder assinar novamente”. Eu disse que tinha assinado. Ele disse: “Mas o cara encrespou com sua assinatura”. Isso no WhatsApp. Tenho essa conversa salva até hoje. Ele disse: “Calma aí. Não é isso. Ele quer que você coloque o seu CPF com sua letra”. Perguntei que horas. “Às 15h”. Cheguei. Avisei que estava lá na frente. Entrei. Deu meia hora, 40 minutos. Tinha um primo meu lá fora, no carro. Pedi para pegar a minha filha, que estuda no Auxiliadora. Tinha que pegar às 16h. Acho que, pela câmera, eles viram que fui até o portão e pensaram que eu ia embora. Porque não falei com ninguém. Estava sentado no pátio. Aí, desceu outro delegado, meio ofegante. Ele me puxou para o canto e disse: “Infelizmente, o documento que tem para você aqui não é para você assinar. Tem um mandado de prisão para você”. Eu perguntei: “Mandado de prisão? Mas pediram para eu vir aqui assinar”. Liguei ao advogado da Câmara e falei que não tinha dez minutos que eu havia sido comunicado sobre a prisão. Ele disse: “Não, eu vi há 20 minutos, no blog da Suzy” (Monteiro). Então, a Polícia Federal, no meu entendimento, era o tempo todo querendo mídia. Não sei se a Lava Jato estimulou. E todo mundo nesse clima, o Judiciário abusando. Em minha opinião, no Brasil inteiro, existem vários abusos ocorrendo, e nós vivemos uma ditadura do Judiciário. Não falo em Campos, mas de modo geral. E nós temos que enfrentá-la. O cara chega à sua casa, às 6h da manhã, e te leva em uma condução coercitiva. Ou te leva preso porque ouviu dizer ou porque você pode vir a atrapalhar as investigações. Eles falaram que pelos cargos que eu tinha, de vereador e vice-presidente da Câmara, eu poderia atrapalhar. Qual o indício tinha? Será que eu não tinha, primeiro, que ter atrapalhado alguém? Ou ter ido em cima de alguém? Não houve nada disso. Então, não tinha motivo para a prisão. Eles vêm, jogam a gente para dentro de uma cela por cinco dias, sujam o nosso nome, desgastam a nossa imagem. Eu estava no meu primeiro mandato. São questões irreparáveis.

 

Folha — Você ainda pensa em desistir?

Thiago — Não. Foram alguns momentos. Não foi um só. Minha família não estava suportando mais. Eu era estudante de Direito. Meus amigos diziam para eu voltar a estudar, largar política. Ouço isso, às vezes, de político experiente. Paulo Feijó falou: “Thiaguinho, não dá mais”. Então, políticos experientes acham que não dá mais para tocar a política. Acho que, hoje, é a atividade mais perigosa que tem. O policial, que trabalha na UPP, trabalha mais tranquilo do que uma pessoa que trabalha em cargo eletivo. Se chegar uma pessoa e disser que eu fui ao prefeito e pediu isso, eles estão levando. Prendem. Não param mais para ouvir os dois lados. Está cada vez mais difícil por conta do Judiciário.

 

(Foto: Antonio Leudo – Folha da Manhã)

 

Folha — Antes de assumir seu mandato, você fez críticas (aqui) à posição do presidente Marcão, pela postura deles em relação aos condenados na Chequinho. Você o acusou de ser parcial e de usar “dois pesos e duas medidas”, em relação aos vereadores garotistas que migraram à bancada governista, como Magal, e os que permanecem no grupo do ex-governador, como você, Kellinho, Jorge Rangel, Linda Mara e Miguelito (PSL). Mantém essas críticas?

Thiago — Em minha opinião, existe, na condução da Casa, um tratamento diferente. A gente fala isso desde assessorias. Inclusive, nesta terça-feira (20), nós vamos dar entrada na Câmara, com um documento que já preparei, porque a Câmara foi oficiada, esta semana, pela Prefeitura. Marcão até alega que houve um erro de Suledil Bernardino em cima de um orçamento que aprovamos na Câmara, de R$ 31 milhões. Discordo dele porque não é erro. Orçamento é previsão. Então, se neste primeiro quadrimestre, nós não tivemos a receita que esperávamos, não foi um erro de cálculo. Orçamento, todo mundo sabe, é uma previsão. E a gente acredita que vai ter que ter corte. Então, estamos propondo a criação de uma comissão para estudar. Pode ser com vereadores da situação e da oposição. Para que a gente possa estar ali vendo onde pode cortar na Câmara. Eu acho que os vereadores, por exemplo, já vêm sofrendo muitos cortes. Não acredito que Marcão vá querer, até porque vem candidato a deputado ano que vem, desgaste com os vereadores. Então, nós vamos ajudar Marcão para ver de onde ele vai cortar. Nós vamos propor a criação de uma comissão. Agora, a questão da diferença de tratamento é nítida. Na Casa, não tenho nem uma semana lá, ouvi relatos de vereadores. Mas, hoje, tranquilamente, a gente sabe que é desde as assessorias.

 

Folha — Como é esse tratamento diferenciado?

Thiago — Por exemplo, eu tenho seis assessorias. Tem vereador que tem oito, nove. A mesa é que tem dez. Tem que ter porque trabalha mais. Mas e os outros vereadores? Foram acordos políticos? É normal que tenha, mas vamos precisar rever essa questão por causa do orçamento da Câmara, que tinha uma previsão e, agora, está sendo outra. E, por exemplo, vereadores reclamam comigo que podem usar o carro da Câmara para cinco viagens por mês. E a gente sabe que têm vereadores que são ilimitados.

 

Folha — Quais vereadores, por exemplo?

Thiago — Os vereadores da base.

 

Folha — Todos eles?

Thiago — Todos eles. Eles não têm problemas em relação a viagens. E nós, vereadores da oposição, temos cinco. O líder da situação (Fred Machado, PPS) tem um carro próprio da Câmara para seu atendimento. Fred Machado não faz parte da Mesa. Então, se ele tem um carro à disposição para trabalhar como liderança dos vereadores da sua base, será que, assim que for formado nosso bloco, teremos um carro para a liderança trabalhar para os nossos vereadores? Porque o líder trabalha para a bancada. São questões que a gente precisa rever. Assessoria, eu falo de cara. Tem vereador que tem oito, nove, e nós temos seis.

 

Folha — Quais vereadores têm oito, nove?

Thiago — Os vereadores fora da Mesa têm oito. Alguns têm nove.

 

Folha — Todos eles?

Thiago — Todos eles. Nenhum tem menos de oito. Os do G5 (grupo “independente”) principalmente. E nós, da oposição, temos seis. Então, a gente pensa que o presidente da Câmara tem que ser presidente de todos os vereadores, como foram Marcos Bacellar (hoje, PDT), à sua época, e o próprio dr. Edson (PTB). Você vê que não tinha oposição dos vereadores a dr. Edson. Vez ou outra, tinha discussão, mas ninguém entrava com requerimento para ele, querendo saber quais os contratos vigentes da Casa. O que ele faz com contrato de publicidade, quem está fornecendo o buffet da casa. São questionamentos que nem aconteciam porque era o presidente de todos. Então, a gente precisa que o presidente seja isento, que seja o presidente de todos os vereadores. Isso não vem acontecendo na Casa e nós vamos cobrar dela, sem sombra de dúvidas.

 

Folha — Você também chegou a ameaçar Marcão: “Se o presidente não quer ser imparcial, não tenha dúvida: nós vamos para dentro dele! Vamos querer saber como anda a Casa, as finanças da Casa”. O Pit Bull Rosa só latiu ou vai morder?

Thiago — Na segunda-feira (amanhã, dia 19), está garantido que serão protocolados vários requerimentos. Inclusive, a gente quer cópia de todos os editais para saber o que tem na Casa, como a Casa está funcionando, como está sendo paga. Porque a gente não vê licitação. A gente vai precisar saber, até porque Marcão sempre defendeu a transparência. Eu não acredito que ele vá ter dificuldade em nos responder. Vamos cobrar, também, o balancete trimestral, que tem que ser feito no plenário. No primeiro trimestre, não aconteceu. No segundo, vai acontecer porque nós vamos cobrar.

 

Folha — A sessão da última terça-feira (13) foi tensa. Os vereadores governistas Cláudio Andrade, Neném (PTB) e José Carlos (PSDC) responderam (aqui) críticas pessoais feitas publicamente por Garotinho. O primeiro, inclusive, reagiu descendo ao mesmo nível, chegando a falar de uma crise conjugal entre o casal de ex-governadores. O que acha dessa característica do seu líder de sempre atacar pessoalmente os adversários políticos? Você aprova?

Thiago — Não concordo com ataques pessoais. Já tentamos conversar, algumas vezes, com Garotinho sobre isso. Mas, nesta altura do campeonato, ninguém muda. A gente tem que ver o outro lado também. Eu vejo, muitas vezes, ele sendo atacado na área pessoal. Tem gente que diz que ele é atacado na área pessoal porque também ataca. Eu não sei. A gente também vê que ele sofre muito ataque pessoal. Muitas covardias que sua família sofre. Então, acredito que ele possa estar, de repente, revidando. Mas eu não concordo com esse tipo de atitude.

 

Folha — Você acha que o adversário político tem que ser inimigo pessoal?

Thiago — Não precisa. Não há necessidade nenhuma. Na Câmara mesmo, às vezes, foge um pouco da discussão de ideias e acaba em pessoas. Por exemplo, teve caso em que vereador falou: “Está em casa esperando a tornozeleira chegar”. Se eu estivesse na tribuna, ia dizer: “Rapaz, você tira do seu filho e empresta ela”.

 

Folha — Está falando de Zé Carlos?

Thiago — De Zé Carlos. Se eu estivesse ali, daria essa resposta. Foi como quando eu cheguei à Casa e me falaram: “Thiago, como vai ser?”. Respondi: “Vocês que vão tocar. Se quiserem tocar na ideia, vamos tocar na ideia; se quiserem tocar no pessoal, vamos tocar no pessoal”. Eu sei de coisas desde antes de ser vereador. E não tenha dúvida: na hora que ciscar ao meu lado, eu vou entrar para o lado pessoal. Até brinquei na Câmara, essa semana, que o fotógrafo é Jocelino Rocha. Mas tem o apelido de Checkinho (Check). Eu falei: “A partir de hoje, vou pedir a você. É Jocelino. Jocelino Rocha”. Eles deram risada, brincaram. Mas foi brincadeira. Neném logo me chamou no canto: “Não entra nessa. Nós somos amigos. Eu estava viajando com família. Já viajei para caramba com você. Você sabe que nada a ver o que ele (Garotinho) fez”. Falei com ele: “Neném, só não toca em Chequinho”.

 

Folha — Mas Neném respondeu a Garotinho sem baixar o nível.

Thiago — Até que ele foi calmo. Eu falei com ele: “Neném, vai devagar. Você, nervoso, vai acabar falando coisa de Chequinho”. Ele deu risada e disse que não. Aí, eu falei: “Mas até uma semana atrás, você estava falando”. Mas, se eu for atacado pessoalmente, vou responder. Acho que não tem que entrar, mas eu não vou aceitar uma pessoa chegar e atacar meu lado pessoal. Eu não vou ficar quieto. Vou responder à altura. Marcão sempre falava sobre o sumiço de R$ 110 milhões. E eu falei o que falei o mandato todo: “foram dos sete meses em que a prefeita foi afastada e (Nelson) Nahim (PMDB) assumiu”. Agora, ele tem condições. Tem documento, entrada lá. Está mandando no governo. Entra lá e vê.

 

Folha — Marcão está mandando no governo?

Thiago — Está mandando no governo.

 

Folha — Por que diz isso?

Thiago — Tudo que a gente vê, Marcão pega o telefone, liga e resolve. E tem coisa que eu não vejo passar pelo prefeito.

 

Folha — Nos bastidores da Câmara, muito se comenta do seu bom trânsito com o jornalista Alexandre Bastos, chefe de gabinete do prefeito Rafael Diniz (PPS). Há quem especule que isso poderia ser uma ponte para sua mudança de lado. Procede?

Thiago — Eu e Alexandre Bastos já tivemos várias conversas. Não é de hoje. A gente está sempre conversando. E, como vereador, até mesmo nesse período em que eu fiquei afastado, várias demandas que chegavam para mim, eu ligava para ele. Na mesma hora, ele entrava. De repente, eu resolvi mais coisas nesses cinco meses do que os vereadores que estavam lá. Porque eu não estava ali pedindo cargo a ninguém. Quando via problema no meu bairro, como a academia do idoso, na Praça do IPS, tinha um dos aparelhos que precisava de uma pequena soldagem. Liguei para Alexandre. No mesmo dia, foram lá e soldaram. Nós nunca conversamos sobre composição, mas, toda vez que eu preciso de alguma coisa, eu peço ao chefe de gabinete de Rafael, que é meu amigo. E, pelo que sei, Rafael tem ciência disso. Pelo discurso que ele vem fazendo, é para atender todo mundo. Independente.

 

Folha — Isso quer dizer que o governo está aberto a atender pedidos dos vereadores da oposição?

Thiago — Pelo menos, no meu caso, tenho comprovado via Alexandre Bastos. Muita demanda minha, muitas coisas que chegam a mim, principalmente na área de saúde. A gente dá nossa colaboração. De repente, um vereador na oposição ajuda mais um prefeito do que um na situação. Um vereador na situação está mais preocupado em cumprir seus compromissos de campanha, de empregar. E a gente não sabe. A gente vê, hoje, na Câmara, muita conversa de emprego. Mandei até outro ofício para a secretaria de Gestão, para saber, por documento, porque existem algumas dúvidas sobre qual é o número de RPAs no governo do Rafael. A gente precisa saber. É importante que a gente tenha essa informação. Estamos fazendo o papel de fiscalizar. Falei na tribuna que não torço contra minha cidade. Torcer contra o governo do Rafael é torcer contra a cidade. Mas não vamos deixar de exercer nossa função, que é fiscalizar e cobrar. Temos que fazer ajuste, mas a gente tem uma crítica: por que começar esses cortes logo na área social? Não teriam outros contratos? Que os cortes têm que ser feitos, a gente entende. Mas a gente queria entender qual é o cronograma disso.

 

Folha — Como você avalia esses cinco meses e meio do governo Rafael?      

Thiago — Temos que ser sinceros. A gente não pode cobrar muito, mas pode analisar. O governo diz que não houve transição. Eu discordo disso. Participei de algumas reuniões. De repente, não foram muito produtivas como eles acharam que ia ser. Mas, para mim, eles mentem quando dizem que não houve transição. E está tendo muito “oba, oba” dentro do governo. Está faltando alguém bater na mesa e cobrar dos secretários.

 

Folha — Há uma polêmica entre você e Marcão em relação às CPIs da Lava Jato e das Rosas. A questão da proporcionalidade. Um alega bancada, outro alega partido. Como isso vai ficar?

Thiago — Eu não tenho dúvida de que eles cometeram um equívoco. Prefiro chamar assim, de equívoco, seja da Procuradoria, da mesa, do presidente. No debate meu com Marcão, ele falou que na letra fria diz que é proporcionalidade de partidos. Realmente, é assim que diz. Mas vamos discutir o que é proporcionalidade de partido. É claro em qualquer lugar: é o número de assentos que cada partido tem. Seja na Alerj, na Câmara, no Senado. Então, estou muito tranquilo porque pedi a palavra a ele e a usei humildemente. Pedi para não publicar (em Diário Oficial). No outro dia (14), ele publicou. Eu sabia que ele estava correndo para publicar. Vamos bater uma bola. Vamos conversar sobre isso, os líderes das bancadas. Chama todos os vereadores, e a gente vê. Deixei claro que não sou contra a CPI.

 

Folha — Não pode parecer que você não quer investigar?

Thiago — Não. Pelo contrário. Quero investigar e quero fazer parte. E acredito, pela bancada que eu tenho, que posso ser o relator da CPI. Eu (PTC) tenho três vereadores. O PSDC tem dois. Eu estou com uma carta do PSDC, que mandaram para mim, do partido parabenizando o PSDC por ter dois relatores. Com dois vereadores na Casa e com outros três partidos com três vereadores. Então, vai com muita fome e sede. Tem que fazer o negócio devagar. Eu não tenho dúvida de que teremos três vereadores, do nosso bloco, na CPI. A gente vai oficializar nesta semana ainda.

 

Folha — Que bloco é esse?

Thiago — A gente tem uma reunião amanhã (a entrevista foi feita na quinta) e teremos outra na terça (20) para definir. E, na terça, vamos oficiar ao Marcão e à mesa sobre nosso bloco. Não sei se vai ser G7, G8, bancada de independentes, bancada de oposição. Tem gente que acha que é cedo criar uma bancada de oposição. Tem gente que acha que já passou da hora.

 

Folha — Quem seriam os vereadores do bloco?

Thiago — Eu, Linda Mara, Miguelito, Ozéias, Thiago Ferrugem, Josiane; no caso hoje, mas, voltando, será Vinícius Madureira; Jorge Rangel, que deve estar chegando nesta semana, e Kellinho. No caso dele, foi só pedindo aumento dos efeitos extensivos. Então, teríamos um G8. Estamos conversando com outros vereadores também. Daqui a pouco, teremos um G9. Aí, dá para fazer um trabalho.

 

Folha — Quer puxar alguém do G5?

Thiago — Pode ser do G5. Tenho conversado com alguém do G5. Há outros vereadores também articulando. Estão insatisfeitos, dizendo que não foi cumprido o combinado.

 

Folha — O que teria sido combinado?

Thiago — Não tenho detalhes do que foi combinado. Falaram de cargo, espaço dentro do governo. E, até dentro da Câmara mesmo, parece que algumas coisas não estão sendo cumpridas. Existe insatisfação de vereador que procura. Só que a gente toma muito cuidado para não deixar esse vereador querer se valorizar em cima da gente. Daqui a pouco, o cara vem, ameaça, manda letra na tribuna. A gente tem que tomar cuidado. Mas estamos muito perto de virar G9 e até G10. Dentro da Câmara, já estou ouvindo conversa de eleição da mesa no ano que vem.

 

página 2 da edição de hoje (18) da Folha

 

 

Página 3 da edição de hoje (18) da Folha

 

 

Publicado hoje (18) na Folha da Manhã

 

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Suderj informa: Igor Franco entra em campo amanhã no lugar de Marcelo Amoy

 

Com a saída (aqui) do tradutor Marcelo Amoy do time de colabordores do blog, quem está se aquecendo para substituí-lo a partir de amanhã, dia 19, é o jovem especialista em investimentos financeiros Igor Franco, de 29 anos. Ele passará a se alternar nas segundas-feiras com o jornalista e poeta Fernando Leite.

Abaixo, um pouco do que você, leitor, poderá esperar de quem entra no campo do blog para reforçar o jogo dialético na defesa do liberalismo econômico:

 

Igor Franco

 

“Sou campista. Tenho 29 anos, 20 deles dedicados a acompanhar a política brasileira com certa atenção e curiosidade sociológica e antropológica. Minhas melhores lembranças desse tema são as mais vagas. Por certo tempo, acreditei tratar-se do adocicado sabor de tudo que lembra uma infância feliz. Estava errado. Ao longo desses 20 anos, nossa política envelheceu 200. Todos os nossos males se intensificaram. Temos um sistema caquético, doente, esclerosado, em estado terminal.

Não há outra explicação: nosso Estado gigantesco é a maior causa da nossa desgraça. PT, PSDB, PMDB e seus comparsas são apenas contingências de um sistema viciado. Poucas sociedades abertas foram tão eficazes em montar um Leviatã tão incompetente e injusto. Acredito que já tenham percebido que sou completamente avesso a soluções coercitivas para a maioria dos nossos problemas. Temos instrumentos melhores: a sociedade civil, os indivíduos, organizações livres e o mercado — uma extrapolação coletiva da nossa individualidade e suas particularidades.

Espero contribuir para a reflexão sobre o que entendo serem as causas das nossas ruínas em nível nacional, estadual e municipal. Temos adotado uma receita explosiva: confiança cega na capacidade de um Estado onisciente, onipresente e onipotente, controlado por indivíduos egoístas, arrogantes e corruptíveis (não estava falando dos políticos, apenas, mas de nós mesmos).

Ah! Já ia me esquecendo: sou bacharel em Administração de Empresas e especialista em investimentos financeiros. Isso não é grandes coisas, mas, se fosse, também não seria. Confuso? Isso é assunto para outro momento”.

 

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Fabio Bottrel — Andarilhos Literários

 

Sugestão para escutar enquanto lê: Alessandro Marcello – J.S. Bach – Piano: Anne Queffélec

 

 

 

 

 

 

 

— Ô tempim bom pra esticar os pé debaixo da chaminé… parece inté que a gente tá dentro do texto de Fernando Leite. – Disse Seu Zé, enquanto discutia Mallarmé, assobiando a brisa leve que acariciava o rosto e as palavras ditas a seu amigo, Mané.

— Pois é, Seu Zé… cidade boa é isso ou essa, tanto faz se dessa ou disso, o bom mesmo é que inté nós que somos personagens em um texto, em tão pouco tempo de existência, já temos tanta história pra contar que já começamos citando que é pra dar tempo de terminar.

Enquanto os dois compadres conversavam à beira de um Ipê tão amarelo feito o sol belo na Terra, observando sobre os dedões de seus pés a paisagem que aflora afora o dia, um vento forte incide em suas faces como um sopro trazendo uma voz longínqua: “As cidades são vivas, se movimentam, pulsam, experimentam o frescor de tempos felizes, adoecem, amargam enormes tristezas e morrem também!!”

— Ô Mané, d’onde tá vindo essa voz?

— Acho que daquele homi que tá lá na ponta da rua.

Mané aponta para um homem de barba por fazer, tropeçando pelas calçadas e gritando para o céu: “As cidades são grandes casas comuns. Se bem cuidadas, generosas e confortáveis, se não, insuportáaaaaaaaaaaaaaveis!!!!”

— Mas esse homitá muito brabo, Seu Zé.

— Eu conheço esse texto, Mané, esse homitá falando o texto do Fernando Leite.

— Uai, sô! Mas será que nós que fomos parar no texto de lá ou ele que veio parar aqui?

Outro vento forte sopra na face dos dois e o Ipê amarelo feito o sol belo desaba como cartolina, levando tudo ao seu redor até o céu, desmorona como um edifício implodindo ao chão. Atrás do cenário caído, o céu está cinza como um filme de terror, Mané e Seu Zé percebem que estão no alto de uma montanha e lá embaixo veem uma cidade em forma de avião com edifícios de curvas tão harmônicas, jamais vista. Em um dos imponentes edifícios reconhecem o Congresso Nacional, em frente a ele, milhares de pessoas manifestam com placas contra a corrupção, outras gritam e choram enquanto a polícia bate feroz nos que ali estão.

Enquanto os dois observam abismados, sentem um ligeiro cheiro de álcool envelhecido em corpo humano, quando Seu Zé olha para o lado vê o bêbado, que gritava rua afora, olhando a baderna que se fazia lá embaixo e diz calmo como se a ressaca se transformasse em torpor: “Os aglomerados humanos, se estruturaram, desde sempre, seguindo a lógica do Poder.” –  Aponta para o Congresso Nacional e depois para a população, vítima da corrupção, que se manifesta impotente ao redor – “Do centro para a periferia.”

— Quem é o sinhô? – Pergunta Mané.

Seu Zé analisando bem de perto o homem reconhece na barba rala uma semelhança com Oscar Niemyer.

— Aqui jaz as minhas lágrimas, meus amigos. – Disse o homem antes de um vento forte romper com a conversa, tão forte que fez os olhos de Seu Zé e Mané se fecharem e no acalmar da violência divina os sussurros de ventania nos ouvidos aos poucos foram trocados por vozes suaves de garotos que gritavam em uma partida de futebol. Quando abriram os olhos estavam no alto da torre de uma antena, lá embaixo havia um campo de várzea com crianças brincando e ao longo da rua mulheres carregavam sacolas de compras seguidas pelos cachorros.

— Mané! Eu reconheço esse campo! Mané! É assim que começa o texto do Guilherme Carvalhal!

— Mas nós pulamos para outro texto intão, Seu Zé?

— To achando que sim…

— To me sentindo um personagem sem moradia assim, Seu Zé…

— Não seja bobo, Mané. Que outro personagem tem a chance de fazer uma viagem literária assim?

Enquanto os dois conversavam viram uma sombra se aproximar rente à quina direita da torre, prenunciava a aparição de um rapaz sorridente, que como se já os conhecesse disse acenando para que os dois o seguissem: “Vamos, amigos! Aqui não nos escondemos atrás de prédios e grades de condomínio!”

Dito isso o rapaz se pôs a descer a torre da antena pela escada em caracol, tão rápido que se os dois não tivessem captado logo a sua mensagem e se pusessem a descer também, tê-lo-iam perdido de vista.

Seguindo o jovem passaram pelo meio do campo de várzea, onde as crianças jogavam bola, atravessaram a rua que as donas de casa seguiam com suas sacolas e cachorros, viram o rapaz dar esmola para um mendigo e desejar-lhe uma vida com mais benesses.Tudo parecia correr normal por aquela cidade, jardineiros cuidavam do jardim da praça rente ao chafariz onde passavam, pais cuidavam de seus filhos, mas logo entraram numa rua com enorme engarrafamento de carros e motos, que buzinavam incessantemente. Andaram, andaram, andaram e lá no final havia uma ponte, começaram a atravessá-la, o rapaz havia sumido, mas logo notaram bem à frente um personagem cativante, enquanto outros tantos passavam ao seu lado. O senhor de cabelos grisalhos e corpo esbelto olhava fixamente para baixo da ponte, para os rios e as pedras. Quando Seu Zé e Mané se aproximaram ele se espantou.

— O que o sinhô tá olhando tanto aí pra baixo? – Pergunta Mané.

— Vocês não eram para estar aqui… ninguém conversa comigo nesse lugar.

— Não, na verdade nós somos andarilhos literários…

— Estão vendo todas essas pessoas seguindo suas vidas normalmente enquanto uma, ao lado, está prestes a ser ceifada? – Perguntou o senhor ao dois, enquanto demonstrava a apatia dos transeuntes, como se deixassem de ser humanos, estavam todos robotizados seguindo para suas obrigações.

— Sim, mas o sinhô não está pensando em… – Antes que Seu Zé pudesse terminar a fala o homem se joga da ponte em direção ao rio e às pedras. Mané se assusta e ao tentar pegar o pé do senhor que decidiu terminar com a própria vida se desequilibra e despenca da ponte, Seu Zé consegue segurar seu pé, mas logo suas forças se esvaem e os dois caem no fundo do rio.

Quando emergiram do mergulho e constataram que ainda estavam vivos, Seu Zé e Mané não conseguiam identificar onde foram parar. Tudo era branco e da textura de pano, aparentava lá no céu, onde o pano se fechava e formava um saco, estar escrito UTOPIA, ao lado as pessoas cumprimentavam umas às outras, abraçavam, as camisas eram coloridas, os sorrisos sinceros, não havia gente mau-caráter, não havia corruptos. Seus ouvidos foram preenchidos da mais bela música que todos escutavam, todos pareciam estar satisfeitos, Seu Zé logo reconheceu que estavam no texto da Carol Poesia e gritaram na esperança de quem os criou escutasse:

— Não queremos sair daqui!!! Deixa a gente aqui!!

— Seu Zé, quando a esmola é tão boa assim… sei não, hein, será que isso é sonho?          – Mané ouviu a mulher que passava ao lado dizer “Pode ser, quem sabe?”

De repente, como um terremoto, o saco começou a balançar, como se estivesse na mão de um gigante que abriu e virou de cabeça para baixo. Todos os educados, a música bela, os bons de caráter, as cores, tudo começou a cair em câmera lenta, uns esbarrando nos outros, preenchendo de cores pelos esbarrões o que logo se tornaria breu ao caírem todos no mesmo buraco.

Seu Zé e Mané enquanto caíam em queda livre avistaram lá embaixo o continente Sul Americano, tentaram designar o vento com os seus corpos para caírem no Brasil, mas acabaram caindo na Colômbia, em sua capital, Bogotá. Seu Zé logo reconheceu o bairro histórico onde a cidade fora fundada, os principais museus e prédios históricos do governo. Percebeu de imediato: — Mané, estamos no texto da Manuela Cordeiro!

— Nós tamos na Colômbia, Seu Zé?

— Tamos, precisamente em Bogotá.

— Né por nada, não… mas cê num tá com saudade de casa já, não?

— Mané… agora que cê falou… eu to é com uma saudade daquela cabruncada…

— E esse texto da Manuela tem um monte de Cidade pra nós desbravar ainda, mas eu tôcuma saudade…

— Vamo fazer greve então, Mané?

— Vamo. Vamo sentar na escada desse museu aqui e deixar claro que daqui nós num sai enquanto num voltar pra casa.

Os dois sentam na escada do museu de Bogotá com os braços sobre os joelhos dobrados.

— Ouviu, Seu Narrador?! Pode parar de ficar descrevendo a gente que nem movimento nós vamo fazer mais.

Os dois param de fazer movimentos e se põem estáticos tal como uma estátua.

— Que narrador chato, nem com a gente parado ele fica quieto… – Diz Seu Zé falando com o canto da boca.

Passam-se horas e horas e os dois continuam estático na escada do museu, então o autor resolve intervir, pois a história precisa ter fim.

— Estou tentando atender ao desejo dos dois, mas se ficarem parados nada vai acontecer.

— Mas nós não queremos ficar aqui, queremos voltar pra casa, escreve aí que estamos indo pra Campos.

— Querem ir andando?

— Claro que não! – Diz  Mané assustado.

— Então vocês têm que se mexer até eu ter uma ideia para levar vocês de volta.

— Mas que que nós faz? – Pergunta Seu Zé.

— Vão andar pela cidade. – Diz o Autor.

Os dois se levantam e começam a caminhar pelo bairro histórico de Bogotá, passam em frente ao local onde Manuela se hospedou, e sem perceber um bueiro enorme aberto logo à frente caem no buraco tão escuro e tão vazio que pareciam cair por horas!

— Seu Zé, eu acho que a gente já parou de cair.

— Mas está tudo escuro ainda, Mané.

— Mas eu consigo pisar, será que não tem um lugar para acender a luz? – Mané vai apalpando ao lado e percebe que tem paredes, logo acha um interruptor e quando acendem percebem que estão numa sala, abrem a janela e reconhecem a rua Formosa, enquanto os carros passam num dia belo, eles veem o Colégio Eucarístico bem à frente. Sobre a mesa uma folha com o Mapa de Mário Quintana:

 

“Olho o mapa da cidade

Como quem examinasse

A anatomia de um corpo…

 

(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita

Das ruas de Porto Alegre

Onde jamais passarei…

 

Há tanta esquina esquisita,

Tanta nuança de paredes,

Há tanta moça bonita

Nas ruas que não andei

(E há uma rua encantada

Que nem em sonhos sonhei…)

 

Quando eu for, um dia desses,

Poeira ou folha levada

No vento da madrugada,

Serei um pouco do nada

Invisível, delicioso

 

Que faz com que o teu ar

Pareça mais um olhar,

Suave mistério amoroso,

Cidade de meu andar

(Deste já tão longo andar!)

 

E talvez de meu repouso…”

 

Os dois sorriram e entenderam: a cidade ideal é onde está nossa casa.

 

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Luciane Silva — Políticas Públicas, Ciência e um debate atual: raça e preconceito no Brasil

 

(Foto: Luciane Silva)

 

 

 

A imagem escolhida para ilustrar minha contribuição foi clicada em um muro da avenida João Pessoa, em Porto Alegre, lá por 2006 no ápice da discussão sobre implantação de cotas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Creio que é auto-explicativa sobre certa visão do tema que trago aos leitores e leitoras hoje. O texto não é leve e não poderia ser diferente no momento em que se intensificam os discursos por mais encarceramento e tortura. Além disto, a festa “Se nada der certo” realizada no colégio Marista, em Novo Hamburgo, aponta para a necessidade urgente de repensar o papel da escola neste debate sobre racismo e sociedade.

Neste mês finalizamos um semestre marcado pela resistência de docentes, técnicos-administrativos  e alunos na Universidade do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. E a sala de aula não poderia ficar fora deste processo em que toda a comunidade está mergulhada. A disciplina sob minha responsabilidade, pensamento social brasileiro, possibilita recuperar algumas idéias presentes na construção de nossa identidade nacional. É sempre fantástico ver alunos que se deparam com as pesquisas de Nina Rodrigues sobre o negro no Brasil e demonstram espanto ao ler as teses de um eminente médico baiano, defensor de teorias lombrosianas para pensar a questão racial no país. Nina defendia um Código Criminal próprio para os africanos, advogando sua “incapacidade mental” para compreensão de preceitos éticos que já estariam bem assentados em outros grupos raciais (notadamente, europeus). Este pensamento evolucionista, base de muitas explicações em nossos principais Museus Etnográficos no fim do século XIX, formou grande parte dos pesquisadores também na Escola de Direito do Recife.  O problema, para estes homens de ciência da época, consistia na urgência de construção de uma nação dentro dos moldes civilizatórios europeus mas  tendo que resolver uma questão: como encaminhar cientificamente o produto da miscigenação brasileira, o mestiço (ou em uma derivação, mulato) ?

Se Casa Grande & Senzala representou na década de 30 do século XX, a instauração de um paradigma oposto às explicações sobre degenerescência racial que imperavam no país, representou também a celebração da mestiçagem brasileira. Nossos problemas mais profundos teriam resolução na arte de transigir, o que colocaria o Brasil na vanguarda mundial de convivência harmônica entre as raças. Não foi á toa que este paraíso racial interessou a UNESCO e levou o Brasil a acolher um grandioso projeto com o objetivo de compreender em que consistia esta “arte da convivência”. Os resultados, no entanto, demonstraram o contrário: existência de conflitos raciais no Brasil, principalmente nas grandes capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e cidades sulistas. Foram empregados métodos de pesquisa inovadores: desde a análise de anúncios de jornal que exigiam “boa aparência” para vagas de emprego até entrevistas com famílias tradicionais italianas e suas relações com os negros na cidade de São Paulo nos idos de 1950.

E qual o objetivo de meu texto? Se considerarmos a criminalização do racismo a partir da Constituição de 1988, parece correto afirmar a existência de preconceito com base na percepção de cor no Brasil. Quando realizei minha pesquisa de mestrado, estava seguindo estas pesquisas iniciadas por Florestan Fernandes. Queria compreender como as delegacias de polícia tratavam dos problemas cotidianos sobre raça. Construí um banco de dados com 531 casos que tinham em seu conteúdo injúrias raciais a partir dos boletins de ocorrência fornecidos pela  Secretaria de Justiça e Segurança do Rio Grande do Sul, entre 1998 e 2001. O fato surpreendente é que na maior parte dos registros, existia uma relação de trabalho entre as partes e uma relação hierárquica estabelecida (enfermeiras e médicos, donos de loja e atendentes, proprietários de imóveis e locatários…) Ou seja, os xingamentos não eram resultado de momentos de briga ou qualquer explosão temporária. Estavam presentes nas interações cotidianas em hospitais, escolas, Universidades, locais de moradia. Mas para o Judiciário no Rio Grande do Sul, estes casos não continham os elementos necessários para um enquadramento como racismo. Poucos viravam inquéritos que levassem à condenação.

Resolvi seguir as sentenças do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro no ano de 2014. Analisei junto com outras duas pesquisadoras, 52 sentenças produzidas no Rio de Janeiro. Importa esclarecer ao leitor que um registro sobre injúria racial recebe já na delegacia a sua desconstrução e deve ser mantido  por vontade do denunciante, pois como acentua um dos delegados entrevistados no Rio: “Seria mesmo uma ofensa discriminatória de raça ou seria uma ofensa direta à pessoa, as vezes, não é a raça em geral, mas sim em relação àquela pessoa. Então tem de ter bom senso na hora de registrar”. Duas questões são interessantes nesta fala: a separação feita pelo delegado entre pessoa e coletividade e uma noção da aplicação do bom-senso policial para tipificação dos casos ou sua desconsideração. Dos casos analisados, os que receberam alguma atenção dos juízes estavam enquadrados no Código do Direito do Consumidor. as famosas portas de banco e seu controle para entrada nas agências. Mesmo em casos nos quais seguranças cometeram violência física contra clientes de lojas, supermercados ou bancos, as sentenças não abarcavam positivamente o pedido de indenização.

Em 41 casos analisados as ofensas verbais motivaram a realização do registro, como aqui exemplificado: os autores sustentam que o réu na condição de síndico do prédio onde residiam, praticava racismo contra os mesmos, eis que são de cor negra, chegando ao ponto de ofendê-los dizendo que “deveriam estar no tronco” tratando-se de “negros”.

O desfecho do caso Cássio em 2011, jovem abordado como suspeito dentro de um grande centro de compras de Campos, acompanha a visão geral descrita anteriormente. Sem indenização, os casos caem no esquecimento e o silenciamento segue como cimento social em uma cidade polarizada (basta olharmos os postos de trabalho ou os ônibus nos horários de deslocamento).

Seria fundamental o investimento em pesquisa para qualificação das políticas públicas voltadas aos não brancos. De que forma um morador de Santa Rosa é recebido em uma delegacia quando toma a decisão de registrar os insultos sofridos por seu filho em uma escola de bairro? Ou uma empregada de farmácia, não admitida ao cargo de vendedora por não ter “boa aparência”? Ou um jovem, abordado em uma rua da Pelinca, simplesmente por estar circulando na “hora errada”?

Mais do que a mestiçagem combatida por Nina Rodrigues, parece-me que no século XXI é o não enfrentamento destas questões que compromete certo ideal civilizacional presente em nossas representações como sociedade moderna. Não, não somos tão modernos assim.

 

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Guilherme Carvalhal — Através dos olhos do super-homem

 

(Foto de Rodrigo Silveira – Folha da Manhã)

 

 

Por cima da torre da antena assisti crianças jogando futebol em um campo de várzea. Corriam descalças mal se importando com as pedras e os choques contra a terra abriam tampos nas pontas dos dedos. Ao longo daquela rua paralela, donas de casa carregavam suas sacolas de compras seguidas pelos cachorros de rua em busca de sobras de miolos e pelancas das carnes do açougue.

A cidade seguia seu curso normal naquela tarde. Os jardineiros cuidavam das flores em torno do chafariz, uma meia dúzia de advogados debatiam uma decisão polêmica na entrada do restaurante, as funcionárias do call center se reuniam na varanda abobadada para a pausa pro café e cigarro. Nada corria fora do seu eixo.

À distância eu me comprazia com o ritmo cotidiano. Algo me infundia felicidade de forma inexplicável, arrebatando-me de inopino de qualquer instinto melancólico me perseguindo. Bastava esse meu passeio, esse lance de olhos sobre pessoas normais levando suas vidas normais e de imediato um sorriso me contagiava.

A cidade, mesmo com seus marginais, mesmo com seus engarrafamentos, com cracolândia, ruas escuras, depósitos de lixo, esgoto a céu aberto, me comovia. O outro lado de um universo complexo se mostrava escondido: a esmola depositada na lata do mendigo, o casal levando o filho para andar de bicicleta no parque, e tantos pequenos atos irrisórios, menosprezados pela imprensa, mostravam o lado obscuro além dos becos e bocas de fumo.

Nem é preciso de visão de raio-x para perceber o quanto se esconde entre os enormes prédios e as grades dos condomínios. Falamos de grandes aventuras, não dessas em que prendemos o bandido ou salvamos o planeta. É uma aventura sem feitos grandiosos, destituídos de nobreza ou abnegação, mas capazes de mexer com o equilíbrio do mundo.

E mesmo entre esses tantos milhões de pessoas indo e vindo, cruzando-se no semáforos, dando bom dia umas às outras nas esquinas, a solidão me incomodava. Por sermos tantos e tão aglomerados, não passávamos de mais um. Mais um no censo, mais um no departamento de trânsito, mas um no obituário dos jornais.

Quem se lembraria de você entre tantas e tantas pessoas? Sua identidade mal existe; sua cara pode ser exposta em um outdoor e dois dias após o arrancarem ninguém mais o reconheceria. Sua identidade o faria um verdadeiro ninguém na multidão.

Por isso um senhor ameaçou se jogar da ponte semana passada. Os bombeiros cercaram querendo retirá-lo, uma aglomeração se juntou incentivando-o a dar cabo. E ele gritava que sua vida não fazia sentido, que era solitário, que ninguém se importava com ele. Desistiu da ideia, mas sua foto saiu em diversos sites e tornou-se motivo de riso. Aproveitou seus breves minutos de fama, e quando o esqueceram novamente, se matou.

Mesmo assim, a cidade seguiu seu curso normal.

 

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Assessoria de Garotinho questiona e Marcão reafirma propina da Odebrecht

 

Charge de José Renato publiada hoje (15) na Folha

 

 

 

 

Questionamento à Folha

Ontem entrou em contato com a Folha o jornalista Antero Gomes, assessor de imprensa do ex-governador Anthony Garotinho (PR). No exercício pertinaz, mas educado da sua função, ele fez a ponderação de que a manchete da Folha de ontem (14) trouxe a público uma afirmação do presidente da Câmara de Campos — “Marcão: Restaurante Popular se Garotinho devolver propina” — que não corresponderia exatamente às delações dos executivos da Odebrecht que denunciaram o repasse de caixa dois ao casal de ex-governadores, em troca da licitação do Morar Feliz direcionada à empreiteira durante os governos municipais de Rosinha (PR).

 

Muitas perguntas

O assessor de imprensa também questionou o fato da redação da Folha não ter procurado Garotinho para repercutir a declaração do vereador Marcão (Rede), embora tenha admitido que a praxe do seu assessorado é não atender ou retornar nenhuma tentativa de contato do jornal da sua própria cidade. Se a atuação profissional da assessoria for um passo na direção do restabelecimento desse contato interrompido unilateralmente pelo ex-governador, será um ponto bastante positivo. Mesmo porque, seja na Lava Jato, na Chequinho, ou no rombo de R$ 2,4 bilhões deixado nas contas públicas do município, são muitas as perguntas a serem feitas.

 

Marcão reafirma

Ouvido pela coluna sobre o questionamento da assessoria de Garotinho, Marcão reafirmou sua posição: “O jornalista poderia ter falado comigo. As delações da Odebrecht revelaram ao Brasil a relação promíscua entre governos em várias esferas e a empreiteira. Se foi de caixa 1, caixa 2, ou caixa 3, foi danoso ao erário público. E os repasses ilícitos no total de R$ 20 milhões ao casal Garotinho foram confirmados pelos executivos Leandro (Andrade de Azevedo) e Benedicto (Barbosa da Silva Júnior), que assinaram a licitação do ‘Morar Feliz’ com Rosinha. Sou advogado e tenho o meu conceito de propina. E foi isso que Garotinho recebeu”.

 

Desde 2009

A operação Lava Jato, que eviscerou as relações entre as principais empreiteiras com muitos nomes da política do Brasil, já instaurou 1.434 processos, prendeu 205 suspeitos, condenou 141 pessoas e recuperou R$ 10,3 bilhões desviados dos cofres públicos. E ela teve início em 17 de março de 2014. Quase cinco anos antes, em 29 de maio de 2009, esta mesma coluna adiantou que a licitação do “Morar Feliz” foi montada para dar a vitória à empresa Odebrecht. Confirmando o “Ponto Final”, o resultado da maior licitação dos 182 anos da história de Campos seria publicado em Diário Oficial (DO) em 23 de setembro de 2009.

 

Com o jornalista Aluysio Cardoso Barbosa ainda à frente da coluna, o “Ponto Final” adiantou em quase quatro meses que a Odebrecht venceria a licitação do “Morar Feliz” (Reprodução)

 

“Tudo propina”

Ex-secretária da Odebrecht, onde trabalhou de 1979 a 1990, Conceição Andrade deu uma entrevista bombástica ao “Fantástico” em 27 de março de 2016 — antes da “delação do fim do mundo”, que seria feita pelos principais executivos da empreiteira. Nela, a ex-secretária afirmou sobre os pagamentos da Odebrecht a políticos, registrados em planilhas apreendidas pela Polícia Federal (PF) na residência de Benedicto, em 22 de fevereiro de 2016, nas quais também constavam os nomes de Garotinho e Rosinha: “Tudo isso era propina. Tudo que tem dentro, toda essa relação que existe nessa lista foi pagamento de propina, de caixa dois”.

 

Só dinheiro

Segundo o próprio Benedicto, todos os pagamentos aos Garotinho foram em espécie e moeda brasileira. A exigência não era praxe entre os demais políticos. Mas talvez explique o fato de o ex-governador se defender dizendo que nunca teve contas no exterior. Aliás, confirmando o trecho da decisão da Justiça de Campos que apontou Garotinho como “prefeito de fato”, ao determinar sua prisão em novembro de 2016, pela Chequinho, Leandro deixou claro que todas as negociações da Odebrecht eram feitas diretamente com o marido de Rosinha. Com a prefeita de direito, o executivo disse só ter se encontrado para assinar o “Morar Feliz”.

 

Liminar no STF

Uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) tomada, ontem, acolhendo pedido de liminar da Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro (PGE-RJ) impede arrestos, bloqueios e sequestros para pagamento de servidores, fornecedores e prestadores de serviços, com recursos oriundos de operações de crédito para o estado dentro e fora do país, de verbas oriundas de transferências voluntárias da União e de verbas públicas vinculadas a obrigações orçamentárias.

 

Com a colaboração do jornalista Rodrigo Gonçalves

 

Publicado hoje (15) na Folha da Manhã

 

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Gustavo Alejandro Oviedo — A casa que pinta a aldeia

 

 

 

Observem a fotografia que ilustra este texto, por favor. Ela mostra a fachada de uma casa localizada na rua Formosa, em frente do colégio Eucarístico. As diferentes texturas do revestimento construção da frente revela que, alguma vez, foi uma mureta baixa, de aproximadamente 60 centímetros. Posteriormente, a mureta elevou-se mais alguns centímetros, e foi colocada uma grade de ferro. Algum tempo depois, as colunas que seguram a grade também foram elevadas. Finalmente, sobre essas colunas, foi instalada uma outra grade contínua, em cuja parte superior nascem trios de ferros pontudos.

A imagem é fantástica porque evidencia a degradação da vida urbana em Campos, principalmente, produto da insegurança — mas não apenas. Se deduz da sua observação que, aparentemente, em algum instante longínquo do tempo, os proprietários não precisavam criar fortalezas para se isolar do ‘mundo exterior’ que existe fora dos limites da sua moradia.

Já foi dito neste blog que uma cidade é aquilo que são os seus habitantes. Isto é verdade. Mas não nos esqueçamos de que os administradores municipais também moram nela (ou deveriam morar). São eles, como representantes dos vizinhos, os que deveriam estabelecer as condições para criar um ambiente urbanístico mais integrado socialmente, mais seguro, e também — e não menos importante — mais belo. Para mim, essa deveria ser a função principal de um prefeito.

Infelizmente, não é o que temos visto nos últimos anos. Os últimos gestores parecem ter sido especialmente eficazes em fazer de Campos uma cidade cada vez mais feia e mais árdua para o convívio social. Exemplos sobram: a conversão da praça São Salvador num espaço insuportável de permanecer num dia ensolarado e de calor; a ‘revitalização’ do Canal Campos-Macaé, que passou de ser uma vala de esgoto para ser uma vala de esgoto com arcos; a falta de políticas de arborização das calçadas , que somadas ao notável desprezo que os proprietários tem pela vegetação na frente de suas casas — ‘suja muito’; ‘levanta o chão’ — revelam quadras onde as casas obedecem ao exclusivo princípio arquitetônico produzido pela especulação imobiliária (lotes pequenos onde o morador fica obrigado a sacrificar espaços verdes para criar cômodos e sobrados suplementares para sua família).

Os bairros populares criados durante a gestão anterior são outra tragédia urbanística. Os conjuntos habitacionais carecem de praças, de centros de convivência e de comércio  e, claro, de vegetação. Recomendo a releitura do texto de Luciane Silva, publicado neste espaço, cujo título é ‘“Morar Feliz”, um guetto dentro da cidade’.

É desolador comprovar que a única experiência urbanística que produziu um bairro mais ou menos agradável em Campos, o Flamboyant, hoje está sendo degradada pela própria legislação municipal. O bairro tinha conseguido, através de umas escassas premissas, ser totalmente diferente ao resto da cidade: prédios limitados a dois andares, lotes de tamanho razoável, vedação ao comércio, e a imposição de espaços verdes. A última modificação ao plano de zoneamento e uso de solo, de 2007, liberou a construção de edifícios de altura desproporcional, como também permitiu a atividade comercial desordenada. Aquele bairro que deveria ser o modelo para o resto da cidade não resistiu à incompetência e à ignorância — no melhor dos casos — dos gestores públicos. Quem quiser morar num bairro bonito, que vá para um condomínio fechado.

Existe uma espécie de resignação, nas nossas cidades latino-americanas, na noção de que um bairro só pode ser bonito se for de gente rica. Os pobres, e até a população de classe média, estariam fadados a viver em lugares miseráveis ou simplesmente feios. Esta ideia pareceria se confirmar na prática, haja vista, por exemplo, que os prefeitos que governaram Campos nas ultimas décadas foram todos populistas, e nada puderam fazer para mudar essa elitista realidade — como já dissemos, até a pioraram.

Para refutar essa ideia, ou ao menos para limpar nossos olhos, existe essa ferramenta fantástica chamada Google Street View. Com ela podemos percorrer as ruas de várias cidades do planeta, como se lá estivéssemos. Basta clicar em qualquer cidade europeia para confirmar como a beleza urbana independe de classes sociais, e como até o bairro mais humilde pode ter casas simples num entorno ameno e integrador.

A foto que encabeça este post também foi tirada com o Google Street View.

 

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Ataques pessoais de Garotinho colhem diferentes respostas dos vereadores

 

Charge de José Renato publicada hoje (14) na Folha

 

 

 

 

Falta de escrúpulos

Quando o principal líder da oposição de Campos busca fatos e fotos pessoais para provocar seus adversários políticos, é capaz de provocar todo tipo de reação. Que Anthony Garotinho (PR) nunca possuiu escrúpulos de ordem moral para atacar levianamente quem quer que seja, não é novidade para ninguém. Esse foi seu modo de agir desde que iniciou na política, nos anos 1980. E na tumultuada e longa sessão de ontem da Câmara Municipal, colheu diferentes respostas.

 

Níveis

Atacado por um jantar que promoveu pelo Dia dos Namorados, o vereador Cláudio Andrade (PSDC) leu na tribuna a íntegra da resposta publicada antes em seu blog. E nela desceu quase ao mesmo nível de Garotinho, a quem acusou de voyerismo e expôs pessoalmente numa suposta crise conjugal com Rosinha. Outro parlamentar atacado pelo ex-governador, o vereador Neném (PTB) teve reação mais serena. Depois de disputar sua terceira maratona, prova mais difícil do atletismo, ele preferiu ironizar quem deu para posar de atleta nas redes sociais, em contraste visível com a barriga e a papada proeminentes.

 

Reações

Mas coube ao vereador José Carlos (PSDC) a resposta mais contundente que o ex-governador teve na sessão de ontem da Câmara. Citado pela prisão do filho em 2015, por guiar carro roubado com placa adulterada, após tentar fugir da PM, seu pai lembrou que ele está pagando pelo crime que cometeu — diferente de Garotinho, condenado a dois anos e meio de prisão pela Justiça Federal do Rio, em 2010, por chefiar uma quadrilha armada no governo estadual Rosinha (2003/2007). Ademais, lembrou o vereador: “Meu filho entrou de cabeça baixa na viatura que o levou preso. Não foi esperneando como Garotinho ao ser conduzido a Bangu”.

 

Propina de sobremesa

Nas cobranças e respostas entre oposição e situação, talvez antecipando o clima das sessões futuras, os ataques pessoais se mantiveram. Depois que uma proposta do vereador Enock Amaral (PHS) de auxílio aos produtores rurais de Campos gerou uma confusão generalizada, Miguelito (PSL) indagou ao microfone: “E o Restaurante Popular?”. Ao que o próprio presidente da Casa, vereador Marcão (Rede), respondeu: “Fazer o Restaurante Popular voltar é muito fácil. É só Garotinho devolver os R$ 20 milhões de propina que recebeu da Odebrecht”.

 

Três fatores

A permanência do PSDB no governo Temer pode ser explicada por três fatores: Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, João Dória, prefeito da capital paulista, e Aécio Neves, senador afastado. Esses três atores cujos interesses estão em jogo no meio da crise que se instalou em Brasília desde a delação da JBS e levou de roldão o tucanato, têm razões para querer manter o apoio a Michel Temer num momento em que o peemedebista é arrastado para o olho do furacão.

 

Conveniências ao PSDB

Alckmin é pré-candidato à Presidência em 2018. Para o governador, é mais conveniente enfrentar um adversário trôpego, seja ele Rodrigo Maia ou o próprio Temer, a um fortalecido, como poderia ser caso as eleições indiretas fossem realizadas com o afastamento do presidente. Dória, por sua vez, vê no PMDB um aliado para seus projetos, que podem variar conforme o curso da Operação Lava Jato. E, finalmente, Aécio, que luta para não perder o foro e, com isso, ficar mais perto da prisão.

 

Bandeira cobiçado

O Flamengo até pode não estar lá essas coisas dentro de campo, mas o presidente do clube, Eduardo Bandeira de Melo, que tem marcado sua atuação como bom gestor das finanças na Gávea. Assim, está bastante cotado nos meios políticos da capital. Pelo menos três partidos (PSDB, PPS e Rede) querem o cartola rubro-negro para ser candidato a governador do Rio. Os tucanos namoravam a candidatura do técnico de vôlei, Bernardinho, mas o escândalo envolvendo Aécio Neves esvaziou a pretensão…

 

Com a colaboração do jornalista Paulo Renato Porto

 

Publicado hoje (14) na Folha da Manhã

 

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Carol Poesia — Poesia dadaísta da cidade ideal por um dia

 

 

 

Sem corrupção. Toca a música preferida, na rua. Ninguém passa fome. Curral eleitoral não existe. Cheia de árvores. Trânsito tranquilo. Respeito e bom humor. Bom dia. Boa tarde. Boa noite. Obrigada. Com licença. Pois não. De nada. Seja bem-vindo. Não tem corrupção. Professores valorizados. Alunos conscientes. Posso ajudar? Sou importante. Sou respeitado. Temos teatros. Não temos corrupção. Movimento. Unidade. Parceria. Coletivos. Público, de qualidade. Sem corrupção. Benefícios ilícitos não. Vamos pra frente. Tem gente. Respiração. Um corpo só. Isso aí. Vamos lá. Vai dar. Posso ajudar. Sem corrupção. Comida. Todo dia. Saúde. Ciclovia. Museu. Memória. Democracia. Violência não. Algo que faça sentido. Líder que deixa legado. Positivo, é claro. Tolerância. Diversidade. Muitas cores. Muitos abraços. Muitos sorrisos. E igualdade. Vamos lá. Vai dar. Um corpo só. Sem corrupção.

 

Pegue tudo isso

Coloque em um saco branco

Escreva com caneta preta

UTOPIA

Mas não descarte

Pode ser que

Quem sabe

 

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Fernando Leite — A melhor cidade do mundo

 

 

 

Não há cidade melhor do que aquela para qual a gente está sempre voltando. Não há outra que substitua a que “(…)não cresce tanto além das chaminés(…)” e que “(…)permita ao seu povo sentar-se à sombra e descansar os pés(…)”.

As cidades são vivas, se movimentam, pulsam, experimentam o frescor de tempos felizes, adoecem, amargam enormes tristezas e morrem também.

Reproduzem na superfície, os choques das placas tectônicas, em maior ou menor intensidade. Mas, intermitentemente, são moldadas pelo homem, que permite o avanço das chagas da miséria, o inchaço da especulação imobiliária, a paralisia urbana, resultante do trânsito desordenado a coletivização do mal estar.

As cidades são grandes casas comuns. Se bem cuidadas, generosas e confortáveis, se não, insuportáveis.

O gênesis das cidades, que à exemplo do criacionismo, foi “feita à imagem e semelhança do seu autor” e até onde a literatura alcança, a era paleolítica, a arquitetura das cavernas e sua interrelação, as aldeias nas florestas, os aglomerados humanos, se estruturaram, desde sempre, seguindo a lógica do Poder. Do centro para a periferia. Os centros se diferem, mas as periferias se igualam na desordem e na carência.

No feudalismo, os núcleos oligárquicos, urbanos, eram protegidos por muralhas, restando aos que não faziam parte dos limites do domínio, se arranjarem nas vilas, solução de moradias que originou o verbete “vilões” para os que moravam fora das fortalezas. Onde morar, como se vê, foi e é credencial.

“O mundo, vasto mundo” é a soma de todas as cidades, que se separam não, apenas, na distância geográfica, mas temporal. Nova Yorque está à muitas décadas de São Fidélis. Tóquio dista aproximadamente um século de São Gonçalo. Paris já atravessou há décadas para o terceiro milênio enquanto Assunção, no Paraguai, ainda se arrasta no desfecho do segundo milênio.

Reza a lenda que o arquiteto Oscar Niemeyer, que, com Lucio Costa, planejou Brasília, teria se arrependido de sua criação, em função dela ter se transformado no cenário oficial, no que há de mais sórdido na vida brasileira. A Brasília funcional, oficial, espaço público federal. Verdade ou mito, a questão atrai a discussão que interessa: a cidade é onde se vive, efetivamente. Onde se vai as compras, ao barbeiro, a banca de jornais, pela manhã, ao cinema, ao teatro, faz-se a caminhada, no final datarde. A cidade com seus espaços ocupados e vazios, que a equilibram e a ajudam a respirar. Viver não se resume a rotina enfadonha de só ir e vir ao trabalho. É um rito completo que inclui umatroca de afeto com a cidade natal, seja ela qual for.

Para reforçar a ideia, recorro a Linguística, para quem o meio influencia nos hábitos, na linguagem, nas relações cognitivas dos citadinos. O homem do litoral fala diferente do homem da montanha, que, por sua vez, fala com seu acervo próprio de expressões e sotaques. São as variações diatópicas. Aqui mesmo, na Planície soberana, temos uma queda pelo r (erre) em lugar do l (ele). Desfilam nas ruas, diariamente, milhares de “bicicRetas”. Vi esta cena “dijaojinha”, expressão própria da nossa mítica baixada da Égua, que com sua dialética influenciou um dos maiores escritores universais, José Cândido de Carvalho.

O histórico e a identidade cultural das cidades são grandes atrações turísticas e movem interesses diversos do turismo, do fluxo cada vez maior de pessoas, da inesgotável curiosidade, mas cidades são, antes, berços memoriais. Para onde estamos sempre voltando, não importa onde estejamos.

 

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