Alexandre Buchaul — Straight Flush

 

 

O Brasil assistiu perplexo à notícia da ordem de soltura de Lula pelo desembargador Favreto. Discutiu-se como nunca a legalidade ou não de tal ordem e das ações que a ela tomaram sequência. De pronto, o país inteiro veio a conhecer detalhes da vida do jurista e uma guerra de reputações, alheia a qualquer questão legal, punha os caráteres dos envolvidos em escrutínio.

O ex-presidente pode ser acusado de muita coisa, mas de certo não é burro. Ousaria dizer que é um dos maiores jogares da realpolitik de que já ouvi falar. Astuto, comparado por si mesmo a uma jararaca, o outrora metalúrgico se movimenta como poucos no tabuleiro político e qualquer que fosse o desfecho das ações desenroladas no domingo, 8 de julho, ele teria tão somente vitórias como resultado.

Tivesse se efetivado a libertação, ganharia força a narrativa de prisão política, a militância se inflamaria e, ainda que tivesse a eventual candidatura negada pelo TSE, o quadro eleitoral se alteraria profundamente. Além do que, sem nenhum fato novo, como agora não houvera, ele já se declarava publicamente pré-candidato quando de sua entrevista ao jornalista Aluysio Barbosa na Folha da Manhã, em 06 de dezembro de 2017, seria muito difícil justificar sua recondução a prisão antes de trânsito em julgado.

Não confirmada a libertação, como não foi, a vitória, ainda que parcial, se deu na tomada completa das atenções de norte a sul do Brasil. Não houve quem deixasse de discutir e mesmo assombrar-se diante da possível soltura de Lula. Já não se discute se ele ganharia a eleição; tal questão é dada como fato. Discute-se, sim, se ele poderá ou não concorrer. Ainda que em menor grau os apoiadores ganham um sopro de esperança e a possibilidade de um Lula solto e disputando a eleição, em que pese desconsiderarem a lei da Ficha Limpa, ganha credibilidade.

Neste domingo que passou, Lula foi a Bélgica.

 

Blog elege seleção, técnico, craque, jogo e gol mais bonitos das quartas

 

Reta final da Copa da Rússia. Agora restam França e Bélgica, que se enfrentam às 15h desta terça (10). No mesmo horário, na quarta (11), será a vez dos outros: Inglaterra e Croácia. Os dois vencedores farão a final ao meio-dia de domingo (15). Antes, o blog não pode deixar de registrar sua seleção entre as oito que se apresentaram nas quartas de final. E também o melhor técnico, o craque, o melhor jogo e o gol mais bonito nos quatro últimos jogos do Mundial. Vamos a eles:

 

Goleiro: Thibaut Courtouis (Bélgica)

 

Lateral-direito: Mário Fernandes (Rússia)

 

Zagueiro: Rafhäel Varane (França)

 

Zagueiro: Harry Maguire (Inglaterra)

 

Lateral esquerdo: Lucas Hernández (França)

 

Volante: N’Golo Kanté (França)

 

Meia: Luka Modric (Croácia)

 

Meia: Kevin De Bruyne (Bélgica)

 

Meia: Eden Hazard (Bélgica)

 

Atacante: Kylian Mabappé (França)

 

Atacante: Romelu Lukaku (Bélgica)

 

 

Técnico: espanhol Roberto Martínez (Bélgica)

 

 

Craque: Kevin De Bruyne (Bélgica)

 

 

Melhor jogo: Bélgica 2×1 Brasil (06/07)

 

 

Gol mais bonito: Kevin De Bruyne, segundo do Bélgica 2×1 Brasil

 

 

Confira aqui e aqui, respectivamente, as seleções, os técnicos, os craques, os melhores jogos e os gols mais bonitos da fase de grupos e das oitavas.

 

Prende/solta de Lula e eliminação do Brasil da Copa em debate

 

Ontem (08), a quinta edição do 4 em Linha estava preparada para debater Copa do Mundo, com a eliminação do Brasil (aqui) por 2 a 1 diante na Bélgica. Aí veio a novela do solta/prende Lula: um desembargador no plantão do TRF-4 deu o habeas corpus ao ex-presidente, que foi questionado pelo juiz federal Sérgio Moro, negado pelo relator do processo que condenou o ex-presidente e reafirmado pelo plantonista. Até ser negado pelo presidente do Tribunal.

Por conta da decisão jurídica após prorrogação e disputa de pênaltis, o advogado Rafael Crespo, professor de Direito do Uniflu, foi convidado para participar do primeiro tempo do programa. No segundo, a Copa do Mundo e a campanha da Seleção Brasileira entraram em campo. Mas talvez sem mexer tanto com a torcida quanto o destino do ex-presidente, preso desde 7 de abril na sede da Polícia Federal de Curitiba pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro

Confira abaixo:

 

 

Artigo do domingo — Cretinice ataca pelas pontas

 

 

Na técnica dos seus jogadores, Brasil e Bélgica foram equivalentes na Copa da Rússia. Aos “entendedores” de futebol que brotam à sombra, como fungos, de quatro em quatro anos, qualquer dúvida foi dirimida no campo, onde os belgas venceram com justiça por 2 a 1. Seus craques De Bruyne, Lukaku e Hazard brilharam na última sexta (06). Neymar, Philippe Coutinho e Marcelo, não. E foi isso que definiu o adversário da França nas semifinais, disputadas por quatro seleções nacionais da Europa, pelo direito de jogar como favorito pelo título. O resto é recalque e “complexo de vira-latas” às avessas.

 

Trio de craques da Bélgica: Hazard, De Bruyne e Lukaku

 

Além da técnica, a novidade tática da Bélgica no primeiro tempo, quando dominou o Brasil e marcou seus dois gols, também ajudou a definir a partida. Na matéria da Folha que anunciou (aqui) o jogo, escrita no dia anterior, foram adiantadas três mudanças na seleção belga: 1) abandonaria a lenta linha de três zagueiros, uma das causas do sufoco contra o Japão (aqui) nas oitavas e feita sob medida, nas quartas, para o rápido e leve ataque brasileiro; 2) o alto e forte Fellaini entraria como titular para reforçar a marcação no meio de campo; e 3) o cerebral De Bruyne, que vinha de desempenho apagado na Copa, jogaria mais próximo ao seu ataque, como atua no Manchester City, na condição de astro da Premier League.

Todas as três alterações foram feitas pelo treinador da Bélgica, o espanhol Roberto Martínez. Mas, aparentemente, a comissão técnica brasileira não foi capaz de antecipar as mudanças no adversário que um jornalista de Campos, a 14.442 km da Rússia, não fez grande esforço para enxergar antes. Ou pior: viu e não se importou. Talvez na pretensão de que a Seleção Brasileira se imporia naturalmente, independente da qualidade do adversário, ou para manter o mesmo “compromisso com o grupo” que causou as eliminações das Copas de 2006, 2010 e 2014.

Nas quartas de final de 2018, o time de Tite entrou em campo com três titulares que se mostravam os pontos fracos do time na campanha da Rússia: os meias Paulinho e Willian, além do atacante Gabriel Jesus. Paulinho foi mantido pelo gol que marcou contra a Sérvia. Willian, pela boa atuação no segundo tempo contra o México. E Gabriel de Jesus, por sua suposta aplicação tática, tão decantada — mas não pelos mesmos motivos reais — quanto o bom futebol da geração belga. O resultado? Nenhum dos três jogou nada e foram todos substituídos depois que o Brasil já perdia por 2 a 0.

O jovem e promissor Gabriel Jesus se despediu da Rússia sem marcar um único gol em cinco jogos de Copa do Mundo. É algo inadmissível para um centroavante titular de Seleção Brasileira, desde que Leônidas da Silva (1913/2004) foi o artilheiro do Mundial de 1938. E, da próxima vez que você comer um Diamante Negro, lembre-se dele. O tradicional chocolate foi batizado com o apelido que o craque brasileiro ganhou da imprensa francesa, pelo seu desempenho na última Copa antes da II Guerra Mundial (1939/45).

 

Apelidado de Diamante Negro na França, Leônidas dribla dentro da área da Suécia, no jogo em que marcou dois gols, garantiu a artilharia e o terceiro lugar ao Brasil na Copa de 1938

 

Em clube, Gabriel é reserva do argentino Sergio Agüero, no mesmo Manchester City que tem De Bruyne como maestro. Na Seleção, o brasileiro foi mantido como titular enquanto Roberto Firmino pedia passagem, vindo na ponta dos cascos da mesma Premier League em que atuam também Lukaku, Hazard, Kompany e Courtois. O goleiro foi outro destaque na eliminação brasileira, após a Bélgica jogar todo o segundo tempo com o placar favorável embaixo do braço, cedendo a iniciativa de jogo. E ninguém tomou mais a iniciativa de atacar do que o meia Douglas Costa, que só entrou aos 13’ do segundo tempo. Ainda assim, mais uma vez provou no campo que não poderia ser reserva de Willian, substituído ainda no intervalo por Firmino.

 

Douglas Costa penetra pela área belga, antes de testar o goleiro Courtouis. Apesar de só ter entrado aos 13’ do 2º tempo, ele foi o melhor atacante do Brasil nas quartas de final

 

Ao contrário de Tite, o técnico espanhol da Bélgica teve a humildade de mexer em seus titulares desde o início do jogo. Para dar lugar a Fellaini, ele sacou do time um dos seus jogadores mais importantes: o meia-direita ofensivo Mertens. Mesmo que tenha sido um dos destaques na fase de grupos, atuando bem e marcando um golaço contra o Panamá, ele assistiu do banco a vitória sobre o Brasil. No lugar do “compromisso com o grupo”, prevaleceu o compromisso com o equilíbrio do time para enfrentar uma equipe igual em técnica.

 

Roberto Martínez e Tite se cumprimentam antes do Bélgica e Brasil, vencido por quem teve humildade de mudar seu time titular de acordo com a qualidade do adversário

 

Futebol à parte, para quem trabalhou na cobertura das duas última Copas, inevitável a comparação entre o “patriotismo” da esquerda brasileira em 2014, com aquele encarnado entre as mesmas aspas pela direita tupiniquim em 2018. Até os 2 a 1 da Bélgica, quem acusava de alienação os espectadores do maior evento esportivo da Terra, é o mesmo militante que se travestiu de torcedor para, escancaradamente, tentar usar a Copa anterior como instrumento político em ano de eleição. Até ser humilhado em pleno no Mineirão, aos olhos do mundo, nos 7 a 1 impostos com piedade pela Alemanha.

 

Em 8 de julho de 2014, do Mineirão para o mundo, Schürle comemora seu segundo gol na semifinal contra o Brasil, o sétimo da Alemanha

 

Depois que a camisa amarela foi usada como uniforme por quem foi às ruas em 2015 e 2016, para pedir e conseguir o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), a esquerda fez beicinho contra o Brasil em 2018. E, pior, tentou pateticamente alegar que os graves problemas sociais e econômicos do país, só quatro anos depois, passaram a ser maiores que o futebol.

Na cretinice, a esquerda brasileira se equivale à direita, que tratou de “Menino Ney 100% Jesus” um marmanjo mimado de 26 anos na cara, ironicamente eliminado da Copa pelos Diabos Vermelhos. No séc. XVIII, Samuel Johnson advertiu que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. No Brasil, a sentença foi um passe longo à esquerda, em 2014, e à direita, em 2018. Ambas saíram com bola e tudo pela linha de fundo.

O problema é que o país não aguenta mais esse jogo. É um 0 a 0 entre duas retrancas, sem torcida na arquibancada, com 22 pernas de pau desleais no mesmo campo de várzea. E Gilmar Mendes de árbitro.

 

Publicado hoje (08) na Folha da Manhã

 

Hamilton Garcia — A evolução da esquerda (IV): a era petista

 

 

Às vésperas de seu ocaso político, o PCB, ainda não atingido em sua espinha dorsal pela repressão e tentando reconquistar a liderança perdida na sociedade civil depois da dura derrota de 1964 — vide artigo anterior —, produziu um documento que, não obstante o linguajar anacrônico e os resquícios canônicos do marxismo-leninismo, apontou com precisão a direção da luta política a uma esquerda envolta nas brumas do mito revolucionário: “mobilizar, unir e organizar (…) (as) forças democráticas (…) contra o regime ditatorial (…) e a conquista das liberdades democráticas”[1].

Nesta resolução, a unidade democrática ainda não havia assumido a fórmula rígida do MDB: “As formas concretas que assumirá a unidade (…) serão ditadas pelo desenvolvimento da luta. Por ser uma reunião de forças heterogêneas, a frente (…) desenvolve-se simultâneamente com a luta entre os seus próprios componentes. (…) Os comunistas defenderão sempre, no seio da frente (…) a necessidade (…) de organizar (…) o povo (…)”[2].

Tampouco a frente tinha seu foco principal nas forças liberais — como aconteceria a partir de 1978: “A batalha antiditatorial exige um cuidado prioritário pela unidade das forças mais avançadas da frente única. Os comunistas obrigam-se, por isso, a dirigir sua atenção (…) para a aproximação com as diversas correntes que se incluem no movimento de esquerda (…)”[3].

O realismo político pecebista, envolto na bandeira rota do bolchevismo, não foi suficiente para neutralizar a atração que o guevarismo exercia sobre os jovens militantes, o que os impeliu a usar as primeiras grandes manifestações sociais contra o regime, convocadas por eles — a mais famosa delas a Passeata dos Cem Mil, em julho de 1968 —, numa mobilização em prol não da constituição da frente democrática, mas da frente popular articulada à guerrilha; o que acabaria por reforçar a ditadura, limpando o caminho para a institucionalização do arbítrio, em dezembro (AI-5), e o esmagamento da oposição, que esboçava seus primeiros atos de resistência não só com base nos intelectuais e nos estudantes, mas também com o apoio do operariado e da Igreja (católica).

Como já vimos, os comunistas, fortemente perseguidos, deixaram escapar a forma concreta com que a frente democrática se apresentaria a partir do ressurgimento dos movimentos sociais — estudantil (1977) e operário (1978). Desde então, as forças progressistas, nucleadas em torno de diversos movimentos sociais, na imprensa alternativa (Opinião e Movimento) e no MDB-autêntico — onde o PCB atuava —, passaram a discutir a criação de um partido popular, que, todavia, esbarraria na pretensão das lideranças exiladas em reconstruir/legalizar seus próprios partidos.

O impasse intra-oposição (interna e exilada) só se resolveria após a segunda greve operária do ABCD (março de 1979), em favor das forças internas, quando a intervenção policial projetou Lula como liderança política nacional autônoma, sem vínculos com as forças tradicionais da esquerda (neostalinistas, castristas, maoístas e nacionalistas), e em rota de convergência com os teólogos da libertação — nova tendência assumida pelo catolicismo de esquerda depois da Ação Popular (1962).

É daí que surge o Movimento Pró-Partido dos Trabalhadores (1979) que, sem conseguir atrair as velhas lideranças, em vias de retornar do exílio (Prestes, Brizola e Arraes), é bem sucedido em unificar a diáspora esquerdista — excetuando os stalinistas —, os ambientalistas, a juventude e uma miríade de novos movimentos sociais oriundos da urbanização dos anos 1960-70.

O PT vem à tona operando uma série de rupturas importantes no âmbito da esquerda radical. No plano da composição social, a classe trabalhadora deixa o segundo plano que ocupava no PCB, cujos quadros históricos eram de origem militar, e passa a ser a principal fonte política da nova agremiação; não obstante a centralidade castrista na esfera organizava da máquina partidária e dos intelectuais marxistas no âmbito da luta ideológica.

No plano da estrutura interna, o PT também inovaria assumindo um caráter federativo e pluralista, típico dos partidos socialistas ocidentais, em oposição ao centro único dos partidos comunistas. Isto fez com que os petistas, no curto e médio-prazo, tivessem dificuldades competitivas com os partidos centralistas que disputavam o controle dos movimentos sociais, mas tais dificuldades acabariam superadas pela capacidade da nova formação política em atrair militantes e simpatizantes em diversos segmentos sociais, e campos ideológicos — em particular entre os cristãos —, além de votos.

No plano ideológico, de novo, a inovação aproximava o PT do paradigma socialdemocrático, onde predominava uma acepção ampla de classe trabalhadora e os ideais socializantes eram vagos o suficiente para comportar uma ampla diversidade de crenças organizadas numa luta interna pactuada.

Todas estas inovações, porém, ocorreram sem prévio revisionismo político-ideológico e nem mesmo conheceram um esforço de sistematização posterior, tornando o PT um feixe de forças sociais e ideologias contraditórias, amalgamadas por uma liderança carismática, de perfil pragmático, que perseguia o poder externo com base no controle do poder interno (aparato partidário) por meio de lideranças unicistas de viés totalitário, e amparada em discurso de fundo místico-libertador que aliava utopia e pragmatismo numa perspectiva classista singular, baseada no neocorporativismo identitário.

Tal combinação mostrou-se poderosa fórmula para se chegar ao poder, eclipsando e contornando o espinhoso debate acerca do papel da democracia política, e suas instituições, na construção de uma sociedade mais justa e menos desigual — para não falarmos das instituições econômicas necessárias para tornar sustentável tal propósito. Mas, ela se mostrou insuficiente para fundar uma nova tradição apta a renovar a política brasileira, construir um novo modelo de desenvolvimento (sustentável) e contornar os perigos do carisma e do poder de Estado — inclusive a sedução do dinheiro.

A nova esquerda radical — de feições “ornitorrínticas” — atravessou o rubicão do poder, depois de 13 anos à frente da União, mostrando toda sua incompetência política e programática, não só para manter a sustentabilidade econômica do país — afundando-o na maior recessão de sua história —, mas para fazer as reformas políticas necessárias para a reversão do esgarçamento dos valores e das instituições públicas/privadas parasitadas pelo etos neopatrimonial, ao qual, finalmente, se rendeu e se converteu, em cabal demonstração da esterilidade de sua fórmula.

 

[1] Resolução Política do 6º Congresso (1967), In. Marco Aurélio Nogueira (org.), PCB: vinte anos de política, ed. LECH/SP-1980, p.174.

[2] [2] Id. p.179.

[3] Id. p.180.

 

Inglaterra e Croácia eliminam as duas últimas retrancas da Copa

 

Com a camisa nº 20, o meia Deli Alli é abraçado pelos companheiros após marcar o segundo gol da Inglaterra sobre a Suécia (Foto: Alastair Grant – AP)

 

Brasileiro naturalizado, o lateral Mário Fernandes empatou o jogo com a Croácia, mas depois perdeu sua cobrança na disputa de pênaltis (Foto: Kevin C. Cox – Getty Images)

 

Definidos Inglaterra e Croácia para uma das semifinais da Copa da Rússia, venceu o futebol. Por mais simpatia que se possa ter pela eficiência defensiva da Suécia, ou pela festa dos donos da casa em sua melhor campanha no futebol, desde a dissolução da União Soviética, manteve-se uma saudável tradição: retrancas não vão além das quartas de final em Copas do Mundo.

Pela boa qualidade técnica dos seus jogadores, a Croácia foi apontada aqui, antes da bola rolar no Mundial, como uma provável supresa. Assim como a seleção da Bélgica, pelos mesmos motivos, que ontem eliminou o Brasil por 2 a 1. Mas, para eliminar a Rússia, os croatas acabaram de passar pelo segundo jogo seguido com prorrogação e disputa de pênaltis. O cansaço pode fazer diferença na semifinal da próxima quarta (11), diante de uma Inglaterra que mais cedo passou sem sustos pela Suécia, com o 2 a 0 conquistado em tempo normal.

É a primeira vez que os ingleses chegam a um semifinal, desde 1990. Por sua vez, a Croácia volta à semifinal em que chegou na sua primeira Copa como país independente, em 1998, após a dissolução da antiga Iugoslávia. Quem vencer o confronto pegará o favorito ao título na final do domingo (15). Ele será definido por França e Bélgica, na semifinal desta terça (10). Mas o que esse Mundial vem provando é que favoritismo não ganha mais jogo.

 

Eliminação do Brasil e polêmicas fora de campo em debate neste domingo

 

Na ressaca da eliminação do Brasil (aqui) pela técnica seleção da Bélgica, a Copa da Rússia e alguns lances polêmicos do seu entorno (aqui) dominarão a quinta edição do 4 em Linha, a partir das 20h deste domingo (08), em live no Facebook. Entrarão em campo para o debate o especialista em finanças Igor Franco, o advogado Gustavo Alejandro Oviedo, o odontólogo Alexandre Buchaul e eu. Sem demanda de torcida, aguardamos você:

 

 

Bélgica vence por 2 a 1 e elimina o Brasil da Copa da Rússia

 

Nome do jogo, De Bruyne chuta da entrada da área, para marcar o segundo gol da Bélgica (Foto: Reuters)

 

“Que geração belga, que nada!”, bravateava quem, de quatro em quatro anos, se julga “entendedor” de futebol. O fato é que a Bélgica impôs o placar de 2 a 1 e eliminou o último time da América do Sul na Copa da Rússia, cujas semifinais serão jogadas por quatro seleções europeias. Um pouco antes, a França já havia despachado o Uruguai, e agora vai encarar os vizinhos belgas por uma vaga à disputa do título. Contra o Brasil, os Diabos Vermelhos da Europa jogaram um grande primeiro tempo, quando marcaram seus dois gols. O time de Tite diminui no segundo, quando jogou melhor e, sem sucesso, buscou se igualar no placar.

O primeiro gol foi contra. Aos 16’, Fernandinho tocou com o ombro a bola cabeceada pelo zagueiro Kompany, após cobrança de escanteio. O segundo saiu do grande nome do jogo: o clássico meia De Bruyne. Aos 30’, ele acertou  um belo chute cruzado de fora da área, em contra-ataque puxado pelo atacante Lukaku, na inversão de funções entre armador e finalizador. O gol brasileiro sairia aos 29’ da etapa final. Também de cabeça, o meia Renato Augusto converteu um passe açucarado de Philippe Coutinho.

A Bélgica mexeu na sua linha de três zagueiros. E, diferente das oitavas contra o Japão, sua defesa hoje mostrou solidez. Mas, como antecipado aqui, o treinador espanhol Roberto Martínez escalou Fellaini como titular, para reforçar a pegada no meio de campo. Em outra mudança tática também prevista, De Bruyne fez seu primeiro jogo nesta Copa mais perto do ataque, como atua no Manchester City. No vácuo do volante Casemiro, suspenso da partida pelo segundo cartão amarelo, o meia belga encontrou o espaço para ser regente e solista do primeiro tempo. Muito bem assessorado por Lukaku e pelo camisa 10 Eden Hazard, outro astro da Premier League, que estava em dia inspirado.

Os belgas voltaram ao segundo tempo com a vantagem de 2 a 0 no placar. Para correr atrás do prejuízo, o Brasil voltou a campo com o centroavante Firmino, no lugar do meia Willian. Na mesma intenção, aos 12’ Tite tirou o atacante Gabriel de Jesus — que saiu da Copa da Rússia sem marcar um gol — e colocou o meia Douglas Costa. Autor de várias jogadas pelo lado direito do ataque, ele provou mais uma vez que não poderia ser reserva. O gol brasileiro, no entanto, sairia de outra mudança do treinador: Renato Augusto entrou no lugar de Paulinho aos 27’. E diminuiu a diferença no placar dois minutos depois.

Muito bem no primeiro tempo, a Bélgica atuou pelo resultado no segundo. E cedeu a iniciativa do jogo ao Brasil, tentando explorar os contra-ataques. Com muitos erros coletivos no passe e sem o brilho individual da estrela Neymar, ainda assim a Seleção teve duas boas oportunidades para empatar. A primeira foi novamente de Renato Augusto, que penetrou pela área aos 35’, em outro belo passe de Coutinho, mas chutou à esquerda do gol. Aos 36’ Aos 48’, o goleiro Courtois faria uma bela defesa, de mão trocada. A bola foi batida com a chapa do pé, de fora da área, por Neymar.

Depois de decepcionar na Copa de 2014 e na Eurocopa de 2016, a Bélgica estreou na Rússia com as melhores atuações (aqui) da fase de grupos. Tomou um susto danado nas oitavas, quando chegou a perder de 2 a 0 do Japão. Mas, diferente do Brasil, teve força (aqui) para buscar a virada e sair de campo com a vitória, sem prorrogação ou disputa de pênaltis. E hoje, com o triunfo merecido sobre Neymar e companhia, conferiu mais peso à sua camisa vermelha, ainda sem nenhuma das cinco estrelas da blusa amarela.

Depois do jogo, o zagueiro Miranda, que travou um duelo à parte com Lukaku, e o técnico Tite disseram que o Brasil perdeu para um grande time. Por parte da torcida, os recalcados com a derrota de hoje, que em quatro anos não aprenderam nada com o 7 a 1 de 2014, certamente dirão se a Bélgica for derrotada pela França, na semifinal da próxima terça (07): “Tá vendo? Perdemos para ninguém!”. Se acontecer, é do jogo, como foi hoje com o Brasil.

Para quem gosta mais de futebol do que de nacionalidades, ficam as palavras de Tite sobre a partida: “quem aprecia o bom futebol vai ver que esse jogo foi um espetáculo”. O Brasil tentou, mas em seu primeiro teste de fogo na Copa da Rússia, a esperança pelo Hexa se apagou diante dos Diabos Vermelhos de De Bruyne, Lukaku e Hazard. Na bola!

 

 

França elimina o milagre uruguaio da Copa da Rússia

 

Segundo gol da França no 2 a 0 sobre o Uruguai, em falha do goleiro Fernando Muslera (Foto: Frank Robichon – EFE)

 

Acordei já no segundo tempo de França e Uruguai. Peguei o jogo já com 1 a 0 para os franceses. Que, num frango do goleiro Fernando Muslera, ampliaram e deram números finais do placar. Bonito ver essa garotada multirracial dos Bleus jogar e confimar em campo a condição de candidata ao título. Mas, no choro do excelente zagueiro José Giménez, não há como deixar de se enternecer com a eliminação da Celeste Olímpica.

O apelido do Uruguai vem do futebol que dominou a América do Sul e o mundo na primeira metade do séc. XX. Bi-campeões olímpicos, em 1924 e 28, antes de sediarem e ganharem a primeira Copa do Mundo, em 1930, os uruguaios se consideram, com razão, os primeiros tri-campeões mundiais no esporte bretão. De 1950, quando ganharam novamente a Copa, no 2 a 1 contra o Brasil, dentro do Maracanã, é desnecessário falar. E para quem acha que isso é um passado distante, que avalie o peso da ausência do atacante Edinson Cavani no jogo de hoje.

Esses dias, em conversa com alguém querido, falava sobre a Bélgica. E disse que, diferente da Croácia, herdeira do futebol da antiga Iugoslávia, os belgas têm uma boa geração, mas não uma escola. Aí, meu interlocutor perguntou: “E o Uruguai, tem uma escola?”. Ao que emendei de prima: “O Uruguai é a escola!”. Primeira grande potência sul-americana no esporte, com apenas 3,4 milhões de habitantes, se iguala no campo ao Brasil (207,7 milhões) e à Argentina (43,8 milhões). O Uruguai é um milagre do futebol.

Ex-província brasileira da Cisplatina, da cultura que o pequeno país criou na América do Sul, o time de Tite e Neymar agora é o único sobrevivente na Copa da Rússia.

 

Contra a Bélgica, Brasil tem hoje seu primeiro teste de fogo na Copa

 

O Brasil de Neymar terá hoje, contra a Bélgica, seu primeiro teste de fogo na Copa da Rússia (Foto: CBF)

Por AluysioAbreu Barbosa

 

O Brasil terá às 15h de hoje, contra a Bélgica, seu primeiro teste de fogo na Copa da Rússia. E vice-versa. O vencedor já saberá seu adversário na semifinal, que será definido entre a França e o Uruguai, a partir das 11h. Ao lado dos uruguaios, o time de Tite tem a melhor defesa do Mundial, com apenas um gol sofrido. E hoje terá pela frente o melhor ataque da Copa: a decantada geração belga marcou 12 gols em quatro jogos, média de três por partida.

Nas quartas de final, os dois times poderão trazer mudanças em relação aos titulares que atuaram nas oitavas. Na Seleção Brasileira, é uma certeza. Tite ontem anunciou que Marcelo volta à lateral-esquerda, bem ocupada nos dois últimos jogos por Filipe Luís. Considerado o melhor do mundo na posição, o atleta do Real Madrid está curado da lombalgia que o tirou de campo no começo da partida contra a Sérvia. Outro jogador do clube madrilenho, Casemiro está suspenso pelo segundo cartão amarelo, na vitória de 2 a 0 sobre o México, e será substituído por Fernandinho.

Apesar de estar em melhor fase do que Gabriel Jesus, o centroavante Firmino começa do banco. Mas é opção certa no segundo tempo, se o titular não desencantar e o time precisar de gols. Outra alternativa ofensiva é o meia Douglas Costa, que entrou muito bem contra a Costa Rica e está curado da lesão muscular sofrida naquele jogo.

Na Bélgica, nenhuma mudança foi confirmada, mas o técnico espanhol Roberto Martínez pode repensar a linha de três zagueiros, considerada uma das causas do sufoco tomado na virada de 3 a 2 sobre o Japão. Composta de jogadores altos, mas pesados e lentos, a manutenção dessa linha seria ideal para jogadores leves, habilidosos e rápidos, como Phillipe Coutinho, Willian, Gabriel e Neymar.

 

Capa da Folha de hoje (06)

 

Por outro lado, se mostrou deficiências defensivas, A Bélgica tem um quarteto ofensivo tecnicamente tão bom quanto o do Brasil: Kevin De Bryne na armação, Dries Merten pela direita, Eden Hazard pela esquerda, tendo à frente Romelu Lukaku. Como os brasileiros, todos são destaques jogando por grandes clubes da Europa. Ontem, o centroavante belga mostrou respeito ao falar em português para defender Neymar das críticas que o craque brasileiro vem sofrendo por conta das simulações nos quatro primeiros jogos:

 

Em português, o atacante belga Lukaku defendeu Neymar na coletiva de ontem

 

— Para mim, Neymar não é ator. Os adversários são mais duros com ele porque Neymar tem qualidades que não são normais. Para mim, no futuro, ele será o melhor do mundo. E estou feliz porque amanhã vou jogar contra ele pela segunda vez na minha carreira — disse Lukaku na coletiva de ontem. Todavia, o atacante alto, forte e inteligente não deve se furtar hoje em forçar a marcação hoje em cima dos baixos laterais brasileiros Fagner e Marcelo, para tentar o cabeceio em bolas alçadas na área. Foi através das jogadas aéreas que a Bélgica conseguiu virar o placar contra os japoneses.

Nivelados aos brasileiros na técnica com a bola rolando, os belgas podem também trazer outra novidade para tentar levar vantagem nas bolas altas: Maroune Fellaini, de 1,94m, está cotado para ganhar uma vaga de titular no meio de campo. De cabeça, ele marcou o gol de empate contra o Japão. Considerado um dos melhores jogadores da Premier League da Inglaterra e cérebro da Bélgica, De Bruyne não vem de boas apresentações na Rússia. Hoje, ele pode jogar mais próximo do ataque, como atua no Manchester City.

Se o Brasil conquistar vantagem no placar, uma alteração provável é a entrada do zagueiro Marquinhos. Como volante, seu aproveitamento no decorrer da partida foi aventado ontem por Tite, em coletiva. O jogador já atuou na posição no Corinthians, então treinado pelo técnico da Seleção. E voltou a fazê-lo, quando entrou no segundo tempo contra o México.

Também ontem, foi anunciado que o lateral-direito Danilo, com lesão no ligamento do tornozelo esquerdo, está fora da Copa. Num time que tem seus destaques em Neymar, Philippe Coutinho e no zagueiro Thiago Silva, três craques de bola, o Brasil entra em campo por uma sorte melhor.

Na única vez que se enfrentaram em Mundial, nas oitavas da Copa de 2002, os brasileiros venceram um jogo duro por 2 a 0. Os belgas até hoje reclamam por um gol de Marc Wilmots, anulado por falta em Roque Júnior, quando o placar ainda estava 0 a 0. Hoje, quem vencer encara depois outro teste de fogo, contra França ou Uruguai. O sobrevivente joga como favorito a final.

 

Página 10 da edição de hoje (06) da Folha da Manhã

 

Publicado hoje (06) na Folha da Manhã

 

Os elementos da equação entre Brasil e Bélgica

 

Algumas considerações sobre o Brasil e Bélgica, que definirá às 15h desta sexta (06) um semifinalista da Copa da Rússia:

 

 

1 – Suspenso do jogo pelo segundo cartão amarelo, a imprensa belga estranha como os brasileiros não se preocupam com a ausência de Casemiro no meio de campo. No Real Madrid, ele foi feito titular por alguém que conhece um pouquinho do setor: Zinédine Zidane.

2 – Sem Casemiro, o Brasil vai (aqui) de Fernandinho como primeiro e único volante. Se o titular não estivesse suspenso, o reserva possivelmente entraria no lugar de Paulinho, para tentar conter a habilidade e vocação ofensiva dos belgas.

3 – Na coletiva de hoje, Tite disse que pode voltar a usar o zagueiro Marquinhos como volante. No Corinthians, o treinador já usou o jogador na posição, na qual atuou também pela Seleção, quando entrou no segundo tempo das oitavas de final contra o México.

4 – Tite também confirmou a volta de Marcelo ao time. Com lombalgia, ele saiu no começo do jogo contra a Sérvia e assitiu do banco à vitória sobre o México. Seu reserva Filipe Luís jogou bem, é melhor defensor e mais alto. O time belga venceu o Japão na altura dos seus jogadores.

5 – Embora também venha jogando bem, o lateral-direito Fagner é outro jogador baixo na defesa brasileira. Atacantes altos e inteligentes, como Lukaku, tendem a forçar a marcação em cima dos defensores mais baixos, nas tentativas de cabeceio.

6 – Em melhor fase do que Gabriel Jesus, o centroavante Firmino começa o jogo no banco. Se o Brasil precisar de gols, sua entrada é certa. Outra opção ofensiva é o meia-atacante Douglas Costa, que entrou muito bem contra a Costa Rica e está recuperado da lesão muscular.

7 – Brasil e Bélgica se enfrentaram cinco vezes. Foram quatro vitórias brasileiras e uma belga. Em Copa, só se cruzaram uma vez: o jogo duro pelas oitavas em 2002, vencido pelo Brasil por 2 a 0. Mas os belgas reclamam até hoje de um gol anulado quando o placar ainda estava zerado.

8 – O Brasil tem um quarteto ofensivo temido, com Philippe Coutinho, Willian, Gabriel Jesus e Neymar. Mas o mesmo pode se dizer do formado pelo armador De Bruyne, Mertens à direita, Hazard à esquerda e Lukaku na frente. Pela qualidade dos jogadores, podem sair muitos gols.

9 – A defesa belga é alta, mas lenta. Pode ser explorada pelo ataque brasileiro, formado por logadores leves, hábeis e rápidos. Em contrartida, a defesa do Brasil é tão boa quanto o ataque. Na Copa, o time de Tite só levou um gol. Mas não atuou sem Casemiro à frente da zaga.

10 – Uma das causas do sufoco contra o Japão (aqui), a linha belga de três zagueiros pode não ser repetida. O técnico Roberto Martínez pode adotar duas linhas de quatro. O meia Fellaini pode ganhar uma vaga. E De Bruyne, que não vem bem, também pode jogar mais próximo ao ataque.

11 – Já virou lugar comum falar da geração belga. Jogadores como Hazard, Courtois, De Bruyne e Lukaku brilham em grandes clubes ingleses. Todos estão no auge, após o amadurecimento em 2014, no Brasil, quando foram eliminados pela Argentina nas quartas de final da Copa.

12 – Faltam à Bélgica as conquistas. Já tiveram grande times, como o de Scifo, Gerets, Pfaff e Ceulemans, que chegou às semifinais da Copa de 1986, seu melhor desempenho em Mundiais. Mas nunca ganharam nem uma Eurocopa. Sua camisa não pesa no varal. A do Brasil, sim.

13 – Elogiada desde 2014, a Bélgica apresentou (aqui) o melhor futebol da fase de grupos em 2018. Mas seu único jogo contra um grande não conta, pois a vitória de 1 a 0 sobre a Inglaterra foi um confronto entre reservas. O Brasil é o seu primeiro grande teste na Rússia. E vice-versa.

14 – Badalados pelo que jogaram na fase de grupos, os belgas cairam na realidade com a atuação decepcionante contra o Japão. Seus jogadores assumem o favotismo do Brasil. Por outro lado, se foram capazes de jogar mal e virar um placar de 2 a 0, o que poderão fazer se jogarem bem?

15 – O Brasil é o segundo colocado no ranking de seleções da Fifa. A Bélgica é a terceira. Primeira, a Alemanha ficou na fase de grupos. Quem passar às semifinais, terá outro jogo muito duro, contra França ou Uruguai. O sobrevivente fará a final na condição de favorito.

16 – Ao lado do Uruguai, o Brasil tem a melhor defesa: levou apenas um gol. A Bélgica tem o melhor ataque, com 12 gols em quatro jogos. A última vez que, com a melhor defesa, o Brasil cruzou em Mundial com o melhor ataque, foi na semifinal de 1958, contra a França. O placar foi 5 a 2 para os únicos sul-americanos a terem vencido uma Copa na Europa. Há exatos 60 anos.

 

Guilherme Carvalhal — Pôr do sol

 

 

Nesse momento quando chega o meio termo entre dia e noite, por dentro me sinto igualmente dividido. Essa é a hora em que a grande maioria da humanidade muda sua rotina, saindo do trabalho e retornando para casa, migrando da labuta para o lazer e a ociosidade. Igualmente, eu transito entre dois polos de mim mesmo.

Assim como o sol ao longo do horizonte se põe e as lâmpadas nos postes acendem, por dentro de mim emerge uma mistura de escuridão interrompida por lampejos de lumes. A própria vida que se almejava apagar, feito desligar uma lâmpada no interruptor sem a opção de voltar atrás.

De que me adiantaria permanecer numa vida sem sentido e sem aspirações? Isso ao que chamo de vida não me apetece. Quando o dia finda em uma explosão celeste entre o róseo e o alaranjado, toda essa beleza não me diz nada. Ela apenas me indica uma quebra atemporal, uma mudança nos ponteiros. Meu coração não exulta nem nada. Apenas serve para me lembrar da apatia que me acomete.

Por dentro, me pergunto diariamente: devo dar um fim à minha vida ou seguir como essa contraposição entre clarões e escuridão que assola minha alma? Valeria a pena para mim, ciente de que cada momento de paz, de amenidade, sempre será seguido por uma decadência inusitada, pairando sobre mim uma nuvem densa que lança suas chuvas sem avisar, seguir adiante?

Havia como dar um fim nisso. Saber que um pôr do sol poderia ser meu último momento. Saber que minha alma se amainaria paulatinamente até dar espaço a uma noite sem lua nem estrelas. Porém, ao contrário do movimento de rotação, não haveria porvir. Haveria o eterno pausar do tempo. Sem novas noites, sem novo amanhecer. Apenas o vazio eterno da morte.

Nesse começo de anoitecer que pela janela me saltam os pensamentos mais pujantes. Quando a noite ganha força, vejo como um fechar de ciclo que me arrasta mais e mais para dentro de um buraco negro, para um caminho sem volta. Sinto por dentro meu coração feito uma estrela, e que pouco a pouco se apaga, para em uma última faísca deixar de brilhar para sempre.

Ou até que um novo nascer do sol o faça voltar.